Castigo Real por Barbara Cartland - Versão HTML

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Castigo Real

Barbara Cartland

Antes de se casar com um príncipe herdeiro,

Clotilda viveu um grande e doce amor!

A carruagem corria pelos caminhos perigosos da Europa Central, rumo ao

reino de Balutik, onde Clotilda, noiva prometida, iria conhecer o príncipe

herdeiro Frederick. Clotilda sofria, porque seu coração ansiava por um

grande amor. Mas, em lugar de um casamento romântico, iria receber

uma pesada coroa, que lhe daria riqueza e poder, é verdade, mas que a

afastaria para sempre do amor de seus sonhos…

Coleção Barbara Cartland nº 152

Título original: Royal Punishment

Copyright: © Barbara Cartland 1984

Tradução: Carmita Andrade

Copyright para a língua portuguesa: 1986

Editora NOVA CULTURAL LTDA. — São Paulo

Esta obra foi composta na Artestilo Compositora Gráfica Ltda e impressa na Editora Parma Ltda.

Nova Cultural — Caixa Postal 2372

CAPÍTULO I

1860

— Stanwin querido, como seríamos felizes se pudéssemos nos

casar!

O marquês, um tanto fatigado, recostava-se confortavelmente

sobre os travesseiros de renda. Nada respondeu.

Ouvira dúzias de mulheres dizendo a mesma coisa, e decidira

não dar resposta. Sabia que a última pessoa no mundo com quem se

casaria, sem sombra de dúvida, era a bela e gentil criatura cuja cabeça

repousava nesse momento sobre seu ombro.

— Nunca houve amante tão maravilhoso, querido… Você está

muito além do tipo exaltado pelos poetas! — ela exclamou.

Isso também o marquês já escutara antes, e limitou-se apenas a

puxar lady Hester Dendall um pouco mais para perto de si. Lembrou-se

com satisfação e alívio de que o marido de sua amante viajava em

missão especial por Paris, não havendo, portanto, nenhuma

possibilidade de sofrer um aborrecimento igual ao que tivera de

enfrentar duas semanas atrás.

Nessa ocasião o conde de Castleton, ao voltar inesperadamente

para sua casa em Park Lane, encontrara a esposa em companhia do

marquês numa situação comprometedora, e o desafiara em duelo.

Apesar de duelos não serem vistos com bons olhos tanto pela

rainha como pelo príncipe consorte, os litigantes se encontraram em

Green Park e, muito injustamente, foi o conde de Castleton, o marido

traído, quem acabou sendo ferido no braço, enquanto o marquês saiu

incólume.

Aliás, isso sempre acontecia quando este último estava

implicado em contendas dessa espécie e, por esse motivo, nem os

padrinhos nem os amigos tiveram surpresa quanto ao desfecho da luta.

Mas o conde jurara vingar-se mais cedo ou mais tarde.

O marquês não ignorava que, em consequência do desenrolar dos

acontecimentos, angariara um inimigo. Mas não dera importância ao

fato.

Tantos outros maridos o tinham ameaçado de um modo ou de

outro, mas, sendo ele sempre vitorioso em duelos, nunca se preocupava

com promessas de vingança.

— Eu o amo! Eu o amo! — lady Hester repetia com paixão. — Mas

se você me trair por causa de Sheila Castleton, juro que me matarei!

O marquês riu.

— Com que arma? Arco e flecha?

— Não seja cruel! — protestou lady Hester. — Sabe querido

Stanwin, eu o adoro e me é penoso até mesmo pensar que você olhe

para outra mulher!

“É incrível! As mulheres nunca estão contentes com o que têm,

sempre querem mais!”, o marquês refletiu acomodando-se melhor.

A súplica de lady Hester Dendall para que ele lhe fosse fiel era

como se ela quisesse que as cataratas do Niágara secassem, ou que a

água jorrasse em abundância no deserto.

Durante toda a vida, o marquês tinha considerado um lindo

rosto irresistível, e não concebia desistir de lutar para vencer, onde

outros homens haviam falhado.

As mulheres com as quais se envolvia eram experientes,

sofisticadas e sempre ávidas em obter sua atenção a qualquer preço.

O que o aborrecia era que, enquanto ele considerava seus casos

de amor como aventuras passageiras, as mulheres ficavam

perdidamente apaixonadas por ele.

“Eu o amo! Eu o amo!”, o marquês tinha ouvido essa frase

incontáveis vezes.

Isso se tornara tão rotineiro como o vento soprando nas janelas

ou os pássaros cantando nas árvores.

— Pense em como seríamos felizes — lady Hester frisava. —

Formaríamos o mais encantador par de toda Londres e, usando a tiara

das Weybourne, eu seria a mais notável dama da corte, nas festas do

Parlamento.

Era uma conversa cansativa, tida com outras mulheres. Por isso

o marquês fechou os olhos e, estando com sono, resolveu voltar para

casa e dormir em sua própria cama.

— Preciso ir, Hester.

Falava devagar, arrastando as palavras, o que, por razão que ele

nunca pudera entender, as mulheres achavam irresistível.

— Ir?! — protestou lady Hester, quase chorando. — Não vou

permitir que se vá. Beije-me! Oh, Stanwin, beije-me!

Mas o marquês, sem hesitação, pulou da cama.

O ar do quarto estava irrespirável pois Hester, como sempre,

usara em excesso seu perfume francês favorito.

O marquês ansiava por respirar a brisa fresca da madrugada,

que geralmente vinha do rio.

Quase automaticamente, foi até a cadeira onde estavam suas

roupas e começou a vestir-se.

Lady Hester não se cansava de apreciar o corpo atlético de seu

amante, que tinha as proporções de um deus grego. Ela, por sua vez,

era também muito bonita, a mais linda brunette de toda Londres, com

brilhantes olhos azuis herdados de seus ancestrais irlandeses.

Chamava sempre muita atenção nos bailes a que comparecia.

Filha de um conde empobrecido, fizera um casamento brilhante

com o milionário sir Anthony Dendall, um jovem iniciante na carreira

política.

No Clube White, já se apostava que ele faria parte do novo

gabinete ministerial.

Sir Anthony fora loucamente apaixonado pela linda esposa no

início do casamento mas, como político ambicioso, logo descobrira que

existiam outras coisas interessantes a se fazer fora do lar.

Por isso, lady Hester tivera uma série de amantes mas, como ela

mesma admitia, nenhum deles tão marcante e atraente como o

marquês de Weybourne.

Decidiu que o conquistaria, desde o primeiro instante em que

pôs os olhos nele. Mas levou um ano para fisgá-lo e, mesmo depois

desse tempo, nunca obteve dele a promessa de fidelidade.

Amante ardorosa, lady Hester considerava tortura intolerável

nunca ter certeza sobre o que o marquês fazia quando não estava

junto dela.

Os comentários sobre o duelo com o conde de Castleton foram

como uma bomba e, embora ela estivesse consciente de que não

deveria perdoar essa traição de seu amante, não conseguiu afastar-se

dele, mesmo tendo sempre em mente o ocorrido.

Neste momento, com certa ansiedade, perguntou:

— Vem jantar comigo amanhã?

Colocando devagar as abotoaduras de pérola nos punhos da

camisa, ele respondeu com displicência:

— Não estou certo, pois…

— Como? — interrompeu Hester. — Não tem certeza?

— Tenho a impressão de que prometi jantar com Devonshire ou

com alguma outra pessoa.

— Se se tratar de uma recepção, talvez eu também seja

convidada. Mas, se tal não acontecer, posso contar com a sua visita

após o jantar?

— Vou pensar sobre o assunto.

— Como pode ser tão cruel, tão malvado, Stanwin?

Ela pulou da cama enquanto falava e, nua, com os cabelos caindo

sobre os ombros, correu para ele abraçando-o com paixão.

Apesar da extraordinária beleza que tinha diante dos olhos, o

marquês limitou-se a afastar-se dela.

— O seu problema é ser insaciável, Hester! Não quer um homem

só, mas um regimento!

— Se todos do regimento forem como você e fizerem amor da

mesma forma, por que não? — Fitou-o, desafiando-o para ser beijada.

O marquês sorriu, divertido, depois a tomou nos braços,

atravessou o quarto e jogou-a na cama.

— Seja boazinha, Hester! Se se comportar bem, passarei por

aqui amanhã ou jantaremos juntos depois de amanhã.

Ela deu um grito de alegria e suplicou:

— Beije-me uma vez mais antes de sair, Stanwin querido!

— Mas o marquês pegou seu sobretudo e vestiu-o. Ela repetiu:

— Beije-me, por favor. Beije-me!

Ele apenas beijou-lhe as mãos e saiu, pois sabia que, quando um

homem se aproxima de uma mulher na cama, ela pode facilmente puxá-

lo e nesse caso ele não terá escapatória…

“É sempre assim… Quando ele me deixa, nunca sei se vou vê-lo

novamente…”, Hester pensou.

Ela tentara convencer-se milhares de vezes de que o marquês a

amava também. Contudo duas semanas atrás, o episódio de Sheila

Castleton a deixara ciente de que havia outra mulher, outras talvez…

“Eu o amo, eu o amo!”, ela repetia mentalmente. “E juro que não

o perderei!”

Descendo a escada, o marquês concluía que Hester estava

ficando cada vez mais inconveniente. Mais cedo ou mais tarde Dendall,

seu marido, descobriria tudo sobre eles.

Não faltaria quem fosse contar-lhe o que se passava na sua

ausência e, depois do duelo com o conde de Castleton, o marquês

achava prudente evitar fatos semelhantes e tomar mais cuidado no

futuro.

Pensando em Castleton, ele lembrou-se de que, naquele dia

fatídico, pressentira não ser conveniente jantar com Sheila, estando

seu marido na Inglaterra. Mas, de acordo com ela, o conde só voltaria

do campo no dia seguinte.

O marquês se amaldiçoou muitas vezes por ter sido descuidado,

pois ninguém desconhecia ser o conde um extremo ciumento, capaz de

voltar antes da data marcada, como o fez, a fim de verificar o que a

esposa fazia quando ele se ausentava.

“Foi uma sorte eu já estar saindo do quarto quando o marido

dela entrou…”, o marquês pensou.

Estava vestido, portanto, não em condição tão comprometedora

como teria acontecido se o outro homem tivesse chegado meia hora

mais cedo.

Mas a condessa ainda se encontrava na cama, nua, e ao ver o

marido surpreendeu-se de tal maneira que se sentou e deu um grito, o

que piorou a situação.

Se o conde possuísse um revólver na mão, o marquês não teria

dúvida de que seria um homem morto.

Mas, em vez disso, com admirável autocontrole, considerando a

intensidade de suas emoções, o conde expulsou-o da casa dizendo que

se vingaria da maneira usual. Isto é, iria encontrar-se com ele de

madrugada no lugar costumeiro, em Green Park, para um duelo em

defesa da honra.

— Vou matá-lo, Weybourne! — ele ameaçou. — E, se quiser dizer

suas preces, comece desde já.

O marquês, em vista das circunstâncias, achou de boa política

não responder. Apenas retirou-se.

O lacaio de plantão, que lhe abriu a porta, estava branco como

cera e tremia da cabeça aos pés.

O marquês só teve tempo de se dirigir à casa, acordar dois de

seus amigos para atuarem como padrinhos e ir a Green Park na hora

marcada.

— Por que, em nome de Deus, você quer lutar contra Castleton?

— indagou Harry Melville.

Ele conhecera o marquês durante toda sua vida. Estudaram

juntos em Eton, serviram no mesmo regimento. Harry era, na

realidade, a única pessoa em quem o marquês confiava.

— Você sabe a resposta, não é mesmo?

— Eu não desconhecia que Sheila Castleton andava atrás de

você, Stanwin, o que não me surpreende… Mas devia estar ciente de

que o conde é ciumento e vingativo, e de que é um grande erro tê-lo

como inimigo.

O marquês sacudiu os ombros.

— Ele é apenas um entre muitos e deve cuidar melhor de sua

esposa, se quiser conservá-la só para si.

Harry Melville riu.

— Com efeito, Stanwin! Você sabe que, a menos que os maridos

ponham cintos de castidade em suas esposas todas as vezes em que

precisem deixá-las, não há possibilidade de mantê-las longe de seus

braços.

O marquês não respondeu.

Ele não gostava de se gabar das conquistas que fazia e evitava

falar sobre elas, até mesmo com Harry.

Mas, por estar frequentemente em dificuldade com maridos

ciumentos, era Harry quem vinha em seu socorro.

— É o seu quarto duelo em dois anos — Harry censurou-o. — E,

com franqueza, estou cansado de sair da cama quente para observá-lo

salvar a honra de maridos aviltados. O resultado é sempre o mesmo:

seu oponente fica com o braço na tipóia por duas ou três semanas e

você sai ileso.

— Castleton é considerado bom atirador! — o marquês observou.

— Mas não tão bom quanto você! — Harry respondeu.

Às vezes o marquês se perguntava se realmente valia a pena

expor-se a tantos incômodos por causa de mulheres mas, se ele

cessasse de procurá-las, elas o perseguiriam de qualquer maneira.

Com Hester, seu romance estava sendo mais longo do que com

as outras, devido muito mais à persistência dela do que ao interesse

do marquês.

Ela o divertia, era cheia de vida, sagaz, além de parecer uma

gata quando faziam amor.

Sheila Castleton fora diferente e, para usar de sinceridade, ele

a achara um tanto decepcionante.

Era linda, não havia dúvida, mas não alimentava nele a mesma

chama que Hester conseguia despertar com tanta eficiência.

O conde de Castleton não precisava preocupar-se quanto à

continuidade desse romance com sua esposa pois, da parte do marquês,

tudo se acabara.

Rememorando esses episódios, ele chegou em sua casa. Tinha

ido a pé, sendo a distância entre a residência dos Dendall e a sua

muito pequena.

Gostava de andar respirando o ar fresco da noite, livre por

algumas horas de lábios famintos e braços que o apertavam.

Voltara seus pensamentos para o campo, para seus cavalos e

para o prazer de vê-los ganhando mais uma corrida.

Decidiu não visitar Hester com tanta frequência no futuro.

Aliás, não tinha intenção de pôr-se em contato com ela nos próximos

dias.

“Hester vai ficar furiosa”, pensou.

Concentrava agora seu interesse numa linda bailarina que

conhecera noites atrás, num bale do Covent Garden.

Pretendia convidá-la para jantar no dia seguinte, depois do

espetáculo.

Tinha certeza de que a moça aceitaria, cancelando outros

compromissos, mas duvidava que o satisfizesse como esperava.

Grande número de artistas o desapontara no passado. Toda a

atração e charme desapareciam com as vestimentas exuberantes que

usavam no palco.

“Afinal, que procuro? Que espero da vida?”, ele se questionou.

Estava muito pessimista, mas atribuía sua atitude negativa ao

cansaço.

“Ninguém pode passar tantas horas com Hester sem ficar

fatigado!”

Chegando em casa, em Grosvenor Square, o lacaio em serviço, ao

ouvir os passos do patrão, apressou-se para abrir-lhe a porta.

Apanhou o chapéu alto e a bengala de seu amo, sentindo-se feliz

em poder usufruir algumas horas de sono até que os outros

empregados começassem a limpeza da casa.

— Boa-noite, Henry! — o marquês cumprimentou-o.

— Boa-noite, milorde!

O marquês finalmente deitou-se, mas não conseguiu dormir.

Estava entediado com a vida de Londres e pensava em ausentar-se por

algum tempo dos bailes e recepções da temporada londrina.

As anfitriãs lamentariam sua falta e ficariam irritadas.

Paciência! Quanto a Hester, pouco se lhe dava, pois sentia que o

romance deles havia chegado ao fim. Quando o fogo do desejo tem

necessidade de ser alimentado com esforço, tudo está acabado.

Hester tornara-se não apenas exigente e monótona, mas

também extremamente pegajosa.

Ele queria ser sempre o caçador, nunca o animal caçado.

Por insistir em tomar todas as iniciativas, Hester ficara

intolerável. Não era o tipo que ele apreciava.

“Irei ao campo, e isso concorrerá para amortecer o golpe

quando Hester descobrir que não a quero mais…”, decidiu.

Claro, ela o bombardearia com cartas que não teriam resposta.

Gradualmente, ele esperava, Hester se conformaria com a situação.

“Amanhã, vou-me embora”, falou consigo mesmo.

E adormeceu.

A manhã seguinte pôs os planos do marquês em total confusão.

Ele foi acordado por seu valete na hora usual, isto é, oito horas.

Ia dar uma ordem para que lhe trouxessem sua sege dali a uma

hora, quando o empregado informou:

— Há um recado que acabou de chegar do palácio para Vossa

Senhoria!

— Do palácio?

Havers apresentou-lhe uma salva de prata com um envelope que

trazia a insígnia real. O marquês perguntou-se qual seria o conteúdo do

mesmo.

Abriu-o constatando que estava assinado pelo secretário

particular da rainha, o qual informava que Sua Majestade o convidava

para uma audiência nesse mesmo dia, às doze horas.

Como ele não houvesse solicitado uma audiência com a rainha,

concluiu que se tratava de uma ordem real.

Preocupou-se e, sendo muito rápido nas conclusões e

extremamente inteligente, adivinhou que o conde de Castleton

conseguira sua vingança de maneira muito mais sutil do que se o

tivesse matado.

O marquês não ignorava o fato de que não teria sido necessário

ao conde entrevistar-se pessoalmente com a rainha a fim de se

queixar sobre o comportamento dele.

Apenas teria que relatar tudo a lorde Toddington, membro da

corte, apelidado de “o rei dos faladores”.

Lorde Toddington era conhecido como uma pessoa muito

perigosa, tanto dentro como fora do palácio, pois repetia tudo o que

ouvia ao príncipe ou à própria rainha.

“Maldição!”, o marquês pensou ao ler a carta. “Aposto que isto é

obra de lorde Toddington!”

Os planos dele para sair da cidade teriam que ser adiados, não

havia dúvida.

Enquanto se aprontava com esmero para ir ao Palácio de

Buckingham, sentia-se como um escolar repreendido pelo diretor da

escola por alguma falta cometida.

A rainha fora muito clara, com certeza por instigação do

príncipe consorte, quanto à proibição de indivíduos se baterem em

duelo. Não admitia mais esse tipo de acerto de contas entre dois

homens, mesmo sabendo que sua decisão tinha provocado muitas

críticas.

Duelos foram aceitos pelo rei George IV, e tolerados por seu

sucessor.

Poucos duelistas morriam mas, se tal acontecesse, era hábito

que o oponente vitorioso desaparecesse por alguns meses, indo para

fora do país.

Assim, todo o episódio era convenientemente esquecido, exceto

por aqueles que choravam a morte do ente querido.

O marquês era excelente duelista; nunca ia além de ferir o

adversário de leve no braço.

Então, o árbitro considerando a honra satisfeita, o duelo

terminava.

“Devia ter imaginado que Castleton era um tipo vingativo e que

arranjaria uma compensação, de um jeito ou de outro…”, o marquês

refletiu.

O marquês dirigiu-se ao palácio guiando sua própria condução.

Era considerado correto para um cavalheiro visitante usar carruagem

fechada, com cocheiro.

Mas o marquês passou pelos portões de ferro ladeados por duas

sentinelas a postos dirigindo, ele mesmo, uma sege recém-adquirida

puxada por dois magníficos cavalos.

Parou na entrada dos salões, passou as rédeas ao empregado e

entrou com um ar de superioridade que fez com que os lacaios

uniformizados com a libré real o olhassem com admiração.

Todos eles acompanhavam suas vitórias no turfe e muitas vezes

apostavam em seus cavalos, que invariavelmente venciam.

Enquanto o marquês subia a escada acarpetada de vermelho, um

lacaio disse ao outro:

— Queria ter coragem de pedir a ele um palpite para as

corridas. Podia ganhar um bom dinheiro!

— Mas garanto que não vai ter coragem — o outro respondeu,

esboçando um sorriso.

O marquês foi levado, através de um largo corredor do primeiro

andar, aos apartamentos particulares da rainha.

Davam para o jardim da parte de trás do palácio e ele notou que

a luz do sol embelezava a sala de recepção com seus raios de ouro.

Logo ao entrar, pelo aspecto da soberana, percebeu que não se

tratava de um assunto agradável.

Ela, por outro lado, não podia deixar de admirar a elegância do

marquês, pensando que seria difícil encontrar na corte homem mais

atraente que ele.

Tinha um corpo atlético, sem um grama de gordura supérflua, e

feições aristocráticas. Chamaria a atenção de todos, em qualquer lugar

do mundo.

Na verdade, a rainha sempre admirara homens atraentes, desde

sua ascensão ao trono, quando se enamorara do simpático, porém mal-

afamado, lorde Melbourne.

O marquês tentava mostrar indiferença.

Acima de tudo, ele tinha uma qualidade que a rainha sempre

apreciara em pessoas do sexo oposto. Gostava de homens fortes, não

apenas física mas mentalmente, que tentavam dominar quem os

rodeasse e que, com ou sem conhecimento disso, tinham o magnetismo

de um líder.

Ela notou tudo isso quando ele a saudou, em reverência

respeitosa.

Mas a rainha, voltando à realidade, lembrou-se de que ele havia

se comportado de maneira desprezível, coisa que não poderia tolerar

vinda da parte dos que eram de seu círculo íntimo.

Ela o cumprimentou num tom de voz que já havia perdido a

animação jovial, após anos de casamento e ter dado à luz tantos filhos:

— Bom-dia, marquês!

— Bom-dia, madame.

— O príncipe consorte e eu temos uma missão especial a lhe

confiar.

Não era o que o marquês esperava ouvir. Fitou a rainha

cauteloso, antes de responder:

— Tenho muita honra disso, madame.

— Nós queremos que o senhor nos represente no casamento do

príncipe Frederick de Balutik com lady Clotilda Tevington-Hyde.

Por um momento o marquês ficou intrigado.

— Balutik, madame?

— Presumo que saiba onde fica! — a rainha retrucou,

bruscamente.

— A menos que esteja enganado, madame, trata-se de um país

báltico ao sul da Sérvia.

— Está absolutamente certo — a rainha concordou. — E o

príncipe consorte e eu acabamos de arranjar o casamento do príncipe

reinante, que é parente distante dos Saxe-Coburg, com minha

afilhada, cujo pai foi o falecido duque de Hyde.

Houve uns segundos de silêncio, enquanto o marquês tentava

lembrar o que sabia sobre Balutik e seu monarca.

— O príncipe Frederick está ansioso por se casar e espera

fazê-lo dentro de um mês. Isso significa, marquês, que o senhor terá

que viajar quase imediatamente a fim de acompanhar lady Clotilda,

primeiro numa viagem marítima, depois de carruagem até a capital do

país.

— Acompanhar lady Clotilda?!

— Sim, marquês, isso é o que o príncipe consorte e eu decidimos

porque, infelizmente, o atual duque de Hyde, que é um primo bastante

idoso e tutor de Clotilda, não está bem de saúde e não pode

empreender uma viagem tão longa. O pobre homem se encontra

praticamente aleijado em consequência de uma artrite reumática e a

duquesa, sua esposa, não quer deixá-lo só.

Antes que o marquês pudesse dizer que não se julgava a pessoa

adequada para acompanhar uma jovem noiva, a rainha continuou:

— A viagem o afastará da temporada, mas penso que o marquês

concordará ser essa uma boa solução considerando as circunstâncias…

sobre as quais não desejo falar!

O marquês, percebendo não ter o que responder, apenas fez um

gesto de cabeça em sinal de consentimento. A rainha prosseguiu:

— Temo que a viagem seja penosa, mas o príncipe Frederick

prometeu mandar um navio de guerra para conduzir sua futura esposa.

Penso ser o único que Balutik possui, mas, uma vez no porto mais

próximo, tudo estará preparado, estou certa, para melhor conforto e

conveniência de todos.

Quando a rainha terminou de falar, o marquês concluiu que seu

castigo por ter se envolvido no duelo tinha sido bem planejado e, sem

dúvida, pelo príncipe consorte.

A única coisa a fazer era aceitar o inevitável e, ao mesmo

tempo, para salvar seu orgulho, dar a impressão de que estava achando

a tarefa muito agradável e que não se sentia humilhado em precisar

cumpri-la.

Com muita calma, e aparentando sinceridade, ele agradeceu:

— Muito obrigado, madame, por me incumbir dessa tarefa

altamente interessante. Sempre quis visitar alguns países bálticos e,

assim, terei a oportunidade de satisfazer esse meu desejo depois de

entregar a noiva ao futuro marido.

Observando a rainha, viu surpresa nos olhos dela pelo que

acabara de falar.

Sabia que tudo seria relatado, logo após sua saída, ao príncipe

consorte.

— O embaixador de Balutik se comunicará com o senhor esta

tarde, marquês, dando-lhe todos os detalhes sobre a viagem. E sei que

ele gostaria que a mesma fosse iniciada até sábado, o mais tardar.

— Não há dúvida de que tudo vai ser feito dentro desse

programa e mais uma vez obrigado, madame, por me confiar tarefa tão

agradável e por me dar a grande honra de representar a ambos, Sua

Majestade e o príncipe consorte.

Como não havia nada mais a ser tratado, o marquês fez uma

reverência e saiu da sala.

Fora, lorde Toddington o esperava, em vez do mordomo que o

tinha acompanhado antes.

Lorde Toddington havia sido, com toda a certeza, o responsável

por tudo. Tinha, no momento, a expressão odiosa de alguém que sabia

ter dado um golpe brilhante e que esperava, com ansiedade, por

qualquer pessoa com que pudesse comentar o ocorrido.

Cumprimentaram-se com um aperto de mão e, enquanto

caminhavam pelo corredor, o marquês comentou:

— Acabo de receber uma missão muito interessante e o

procurava, Toddington, para que me desse algumas informações sobre

Balutik. Sei que você é uma valiosa fonte de conhecimentos sobre isso.

Foi um convite irresistível para lorde Toddington.

— Você não viu o príncipe Frederick quando ele esteve aqui, há

mais ou menos cinco anos?

— Se o vi, não me lembro. Que idade tem ele?

— Quarenta e nove anos.

O marquês manifestou surpresa:

— Noivo… nessa idade?!

— Segundo casamento. —A mulher dele morreu há dois anos e

agora ele pretende se aliar mais intimamente à Coroa britânica.

— Sua Majestade disse que ele é parente distante do príncipe

consorte.

— Muito, muito distante… mas tira grande proveito disso!

— Que aparência tem ele? Resposta confidencial, é claro.

— Um alemão típico, sem nenhum senso de humor e cheio de si!

E está com a idéia fixa de fazer de Balutik um modelo de país, a

moldes germânicos.

O marquês riu.

— Um dia, Toddington, você vai ter que escrever um livro. Será

um best-seller.

— Já pensei nisso muitas vezes. Temo ser afastado do país por

anos ou talvez ser expulso por toda a minha vida, se falar a verdade

sobre as pessoas que vêm ao palácio! — Olhou para o marquês de

soslaio e este adivinhou exatamente o que ele estava pensando.

— Dê-me mais detalhes referentes ao príncipe Frederick — o

marquês pediu. — Para que eu não cometa ratas quando representar

Sua Majestade e o príncipe consorte no casamento.

Lorde Toddington parou no topo da escada, que levava ao

saguão.

Baixou a voz e disse:

— Se quer agradar ao príncipe Frederick, leve-lhe gravuras

pornográficas como as que se podem adquirir em Leicester Square, ou

em Charing Cross Road.

O marquês encarou lorde Toddington, com enorme espanto.

— Gravuras pornográficas?!

— Foi um problema entretê-lo quando esteve aqui… — lorde

Toddington prosseguiu. — Só queria ir aos antros da mais baixa

categoria e aos mais eróticos que podem ser encontrados na vida

noturna de Londres! Sabe o que quero dizer com vida noturna, não? —

O marquês não respondeu e lorde Toddington continuou: — Não me

importa confessar a você, mas tudo consistiu em novidade para mim.

Pessoalmente, nunca tive muito interesse nesse tipo de coisa, mas o

príncipe queria experimentar o que havia de mais baixo!

— Ele me parece muito germânico — o marquês opinou,

secamente.

— E é. — Concordou lorde Toddington. — E como não acho nada

agradável presenciar uma jovem sendo violentada ou chicoteada,

preferia esperar fora, na carruagem, até que ele ficasse

completamente satisfeito!

— Se o que você me conta é verdade, me parece que Sua Alteza

é um tanto anormal! Você informou a rainha sobre isso?

— Não, claro que não! — protestou lorde Toddington, chocado.

— Ela se recusaria a acreditar que qualquer parente do príncipe

Alberto, ainda que distante, pudesse não ser perfeito. Aliás, teria que

ser exatamente como ele!

— Alberto… o bom! — o marquês pronunciou entre dentes e

lorde Toddington sorriu.

Ambos desceram a escada e entraram no saguão.

Embora lorde Toddington parecesse ligeiramente surpreso ao

ver a sege do marquês que foi trazida à porta, nada disse. Este último

sentou-se na boléia e tomou as rédeas.

O marquês ergueu o chicote à guisa de cumprimento e partiu.

Lorde Toddington, entrando no palácio, falou consigo mesmo: “O

marquês de Weybourne é um homem cheio de imprevistos. Creio

realmente que está feliz por ter que ir a Balutik!” Não era o

esperado… Por um momento, questionou-se se não seria interessante

comunicar à rainha sua suposição.

O marquês, voltando a Park Lane, pensou com um sorriso cínico

nos lábios que tinha causado grande surpresa à rainha e a lorde

Toddington.

Mas não havia dúvida de que toda essa situação o impediria de

estar presente nas corridas reais de Ascot, onde tencionava ser o

grande ganhador, e não tinha certeza de poder voltar nem mesmo para

as festas de encerramento!

“Maldita viagem! Mas, de qualquer forma, consegui enganá-los!”

Só depois que chegou em casa lembrou-se de que havia

requisitado informações sobre o noivo, mas não tinha perguntado nada

sobre a noiva.

Nem lorde Toddington dissera coisa alguma sobre lady Clotilda…

CAPÍTULO II

Depois de cavalgar pelas terras do castelo, lady Clotilda

conduziu seu cavalo à estrebaria. O velho empregado aproximou-se

dela e indagou:

— Fez um bom passeio, milady?

— Maravilhoso, obrigada, Abbey! Nunca imaginei que Swallow

saltasse tão bem!

— Cuidado com esses saltos, milady. Pode cair e se machucar

seriamente.

— Vou tomar cuidado. — Lady Clotilda sorriu. Agradou o cavalo

mais uma vez e apressou-se em entrar pois, estando um pouco

atrasada, achou que sua tia talvez estivesse impaciente.

Mas tinha sido difícil interromper o passeio mais cedo. Ela não

podia imaginar prazer maior que cavalgar, ficar fora de casa

aproveitando o calor do sol, longe da tristeza que envolvia Hyde Castle

como uma névoa, desde que seu pai falecera.

Antes disso era como se vivessem rindo, apesar da dificuldade

financeira reinante no lar, porque o pai não tinha habilidade para gerir

as próprias finanças; achava graça de seus problemas econômicos.

Fora grande surpresa para ele transformar-se no senhor do

ducado.

Tinha dois irmãos mais velhos, por isso nunca pensara tomar

algum dia o lugar de seu pai.

Lorde Julian Tevington-Hyde, como então era intitulado, havia

sempre tirado o maior proveito da pequena mesada com a qual tinha

que viver, viajando com economia.

Vira o mundo de maneira diferente da dos mais abastados que

viajavam em transatlânticos de luxo, hospedavam-se em hotéis de

primeira classe ou, como se esperava de pessoas ricas com boa posição

social, em residências ou palácios luxuosos.

Lorde Julian usufruiu os prazeres da vida muito mais que seus

contemporâneos pois, sendo fluente em várias línguas, conheceu bem

os habitantes dos países visitados, como poucos ingleses conseguiam,

fazer.

Sua avó tinha sido uma princesa balcânica e se comunicava com

ele na própria língua. Daí o domínio fácil de mais um idioma

estrangeiro.

Clotilda achara fascinante ouvir o pai narrar as viagens e, mais

tarde, quando ele enviuvou, começou a viajar em companhia dele.

Visitaram várias regiões da África e da Europa, que não eram

necessariamente os lugares para onde outras moças de sua categoria

social teriam ido.

— É diferente quando se tem um filho, Julian… — seus parentes

insistiam em aconselhar. — Mas levar Clotilda com você é absurdo, vai

reduzir as oportunidades que ela poderia ter de um bom casamento!

Lorde Julian ria, nessas ocasiões.

— Acho, ao contrário, que isso aumentará as chances de Clotilda

levar felicidade a seu marido, evitando que ele saia de casa a procura

de outra mulher que lhe possa oferecer mais entretenimento.

Essa resposta chocou seus parentes ainda mais. Eles pararam de

discutir, concluíram que Julian não tinha o menor senso de

responsabilidade e ignoraram sua existência por completo.

Mas mudaram de tática quando ele se tornou duque de Hyde.

Foi uma extraordinária coincidência o fato de seus dois irmãos

morrerem no espaço de poucos meses, por razões bastante

diferentes.

Henry, o mais velho, morreu enquanto lutava na Índia. John, o

segundo, que combatia no mesmo regimento, contraiu febre amarela no

caminho de volta à casa e faleceu em Capetown.

A notícia da morte de ambos atingiu Julian e o resto da família

como uma bomba.

— Julian, o duque?! Nunca pensei que tal coisa pudesse

acontecer! — todos exclamavam.

Mas, por incrível que pudesse parecer, Julian, o novo duque de

Hyde, tomou as rédeas como chefe de uma grande e diversificada

família, assumindo todas as responsabilidades e agindo com muita

honradez.

Isso não surpreendeu Clotilda. Ela sempre soubera que seu pai

era generoso e compreensivo para com pessoas de todos os tipos e

condições sociais. Essas qualidades o fizeram um senhor de terras

muito clemente, mas também justo.

Infelizmente, não pôde traduzir em ação o que sentia,

providenciando o dinheiro. Isso era de grande importância para os

fazendeiros, arrendatários, pensionistas, enfim, todos os que

habitavam as terras de Hyde.

Não havia dinheiro!

Embora vendesse continuamente valiosos objetos do castelo

para manter as aparências, contrariando, aliás, os membros da família,

a situação ficava cada dia mais difícil.

Quando Clotilda completou dezoito anos de idade, pronta,

portanto para ser apresentada à corte como debutante, seu pai sofreu

um acidente fatal enquanto cavalgava, e ela caiu em profunda dor.

Era incrível que um homem acostumado a montar todas as

espécies de animais, do elefante ao iaque, tivesse que morrer num

acidente ao saltar uma pequena cerca, façanha essa que ele havia

realizado dúzias de vezes antes.

Ao cair do cavalo, o duque fraturou a espinha e o único consolo

de Clotilda quando ele morreu foi saber que, se tivesse vivido, ficaria

completamente paralisado.

“Papai odiaria esse tipo de vida!”, ela disse a si mesma, tentando

se consolar.

No mesmo instante em que Julian morreu, outro duque tomou

seu lugar.

Foi um primo do qual ninguém gostava. Tinha bastante idade, era

antipático por natureza, e sofria de uma forma aguda de artrite

reumática que o conservava numa cadeira de rodas.

Ele era uma pessoa de difícil convivência desde as primeiras

horas da manhã até as últimas da noite. Fazia da vida de sua esposa um

verdadeiro martírio, o que contribuía para transformá-la numa

criatura amarga e desagradável.

Para Clotilda foi tal a mudança da felicidade que conhecera

primeiro com a mãe e o pai, depois com o pai sozinho, que mal podia

acreditar na realidade dos fatos.

A vida no castelo era extremamente monótona. As queixas por

coisas de pequena importância eram contínuas. Os únicos momentos de

prazer ela encontrava nos passeios a cavalo e nas recordações do

passado.

Seu pai lhe dera Swallow quando este ainda era um potro e, por

ter sido sempre cuidado por sua dona, ele seguia Clotilda aonde quer

que ela fosse e obedecia prontamente quando ela o chamava.

Swallow se transformara num cavalo bonito, um excelente

saltador! Poderia vencer qualquer competição.

Clotilda ainda não havia tomado nenhuma providência quanto a

isso por não julgar o momento adequado, estando ela de luto.

Mas tinha muitos planos para Swallow e refletia sobre isso,

enquanto entrava pela porta lateral do castelo e subia a escada.

Foi só quando chegou ao saguão que viu, através da porta da

frente aberta, uma elegante carruagem conduzida por quatro cavalos.

Não era comum haver visitas pela manhã no castelo. Clotilda examinou

a carruagem, tentando adivinhar quem poderia ter vindo visitar o tio e

se os visitantes ficariam para almoçar.

Então, estando prestes a subir a escada para ir ao quarto, sua

tia saiu da sala e chamou-a bruscamente:

— Ah! Chegou afinal, Clotilda! Como sempre, atrasada!

— Desculpe tia Augusta, mas o dia está tão bonito que esqueci

as horas.

A duquesa aproximou-se, dizendo:

— Depressa, troque de roupa e volte aqui. O assunto é de suma

importância!

Clotilda, que já tinha começado a subir a escada, fitou-a

surpreendida.

— Importante? Por quê?

— Você saberá a razão assim que trocar de roupa. Faça o que

estou mandando e depressa! — Havia urgência no tom de voz da

duquesa, o que fez Clotilda arregalar os olhos.

Obediente, ela continuou a subir a escada e dirigiu-se ao seu

quarto, no fim do corredor.

O castelo era enorme. Quando o pai o herdara, decidiu que a

família deveria utilizar os melhores aposentos, que ficavam no

primeiro andar e geralmente eram usados por hóspedes importantes.

O segundo andar, que seria o da família, permanecia fechado.

Quanto aos quartos do terceiro andar, reservados aos criados

que não eram muitos agora, estavam quase todos fechados também.

Clotilda entrou no seu quarto, conhecido como “aposento de

Charles II”, apesar de haver bastante dúvida quanto ao fato de esse

rei ter alguma vez se hospedado no castelo. Começou a tirar a roupa

de montaria.

Era muito velha e de aspecto modesto e ela a vinha usando por

mais de dois anos, estando agora até um pouco pequena. Mas parecia

não haver qualquer possibilidade de substituí-la por uma nova roupa de

montaria num futuro próximo.

E sabendo disso, apesar da pressa, pendurou-a com cuidado no

guarda-roupa e pôs um vestido simples de algodão, feito por uma

costureira que trabalhava no castelo duas vezes por semana.

A Sta. Geery, como era chamada, recebia pouquíssimo pelo

trabalho que executava apesar de Clotilda achar que valia seu peso em

ouro. Sem ela, duvidava que pudesse ter alguma coisa decente para

vestir.

Abotoou o vestido e atravessou o quarto para se olhar no

espelho.

Viu uma linda imagem diante de si. Com cílios escuros

contornando enormes olhos, e cabelos claros, Clotilda era realmente

uma figura fora do comum.

— Você tem os olhos de sua bisavó, querida — seu pai lhe

dissera certa vez. — Ela era considerada um tipo de beleza na

Romênia; mas você também tem os cabelos claros dos Hyde, herdados

de algum antepassado viking. Sempre tive a intenção de investigar

essa procedência em nossa árvore genealógica.

Clotilda rira.

— Estou muito contente por ter meus cabelos da cor dos seus,

papai.

— O que importa mesmo é que tenho uma filha linda, que a amo

demais.

— Como eu também o amo, papai. E ninguém no mundo tem um

pai mais interessante, nem mais fantástico ou poliglota que o meu.

Disso tenho certeza!

Ambos riram e, para provar que tinha razão, Clotilda falara com

o pai em árabe e ele respondera em turco.

E agora, neste momento, seus cabelos tinham reflexos dourados

enquanto ela os arrumava rapidamente diante do espelho, pois não

havia tempo para fazer um penteado mais elegante. Apenas prendeu-

os com um coque na nuca.

Sabia que estava na moda cobrir a cabeça de caracóis, mas

nunca encontrava tempo para se pentear assim. E mesmo que tivesse

tempo, quem repararia nela?

O tio sempre a olhava com desdém e Clotilda não desconhecia

que ele cuidava dela por obrigação, não por amor.

Ela quebrara a cabeça, depois da morte do pai, tentando

descobrir alguma pessoa com quem fosse possível morar, a fim de não

ficar no castelo.

Mas ninguém a convidara, e ela não desejava ir a lugar algum

onde não pudesse levar Swallow.

Contudo, era humilhante saber que ambos, o tio e a tia, a

consideravam como uma cruz que eles deviam carregar, uma pesada

tarefa que tinham de cumprir, ainda que contra a vontade.

Clotilda apressou-se em descer a escada, mesmo sabendo que,

por mais rápido que chegasse à sala, a tia acharia que não havia sido

suficientemente rápida.

Entrando na sala, deparou com um estranho, um senhor distinto

de cabelos grisalhos, que a fitou de modo tão insistente que lhe

apareceu quase um insulto.

— Enfim, Clotilda! — o tio exclamou da cadeira de rodas, ao pé

da lareira.

— Sim, aqui estou tio Edward e desculpe se os fiz esperar por

mim.

— Temos uma visita… — o duque disse, pesando bem as palavras.

— Excelência, esta é a filha de meu predecessor, lady Clotilda

Tevington-Hyde.

Clotilda fez uma reverência e estendeu-lhe a mão. Então, para

sua grande surpresa, o cavalheiro saudou-a, tomou-lhe a mão e levou-a

aos lábios, à maneira estrangeira.

— É uma grande honra e inexplicável prazer conhecê-la, lady

Clotilda.

O modo como ele falou era um tanto incomum. O duque

expressou-se então, indo direto ao assunto:

— Sua Excelência veio aqui, com a aprovação de Sua Majestade

a rainha, para lhe oferecer uma proposta de casamento com o príncipe

Frederick de Balutik! — o duque falou devagar, pronunciando bem as

palavras. Mas, por um momento, Clotilda pensou não ter ouvido bem e

acreditou estar sonhando.

— O que… acabou de dizer… tio Edward?

— Acho que tudo foi dito com bastante clareza — a duquesa

interveio, bruscamente. — Sua Alteza Real deseja que você, por

incrível que pareça, seja sua esposa!

— Mas… isso não é possível! Não tenho sangue azul! O

embaixador sorriu:

— Esqueceu, milady, que sua bisavó foi a princesa Marie-Celeste

da Romênia?

— Ah! É verdade… — Clotilda concordou. — Mas achei que isso

não seria suficiente.

— Mais do que suficiente e posso lhe assegurar que Sua Alteza

Real ficará muito satisfeito pelo fato de a rainha Vitória ter

consentido esse casamento. Agora, nada pode impedir que continuemos

os preparativos, os quais, para apressar a realização da cerimônia, já

foram iniciados há algum tempo.

— Que… preparativos? — Clotilda indagou, confusa. — Não

entendo nada.

Por sentir-se de repente fraca e assustada, resolveu sentar-se

no sofá.

O embaixador tomou lugar ao lado dela e explicou:

— Acho que devo lhe esclarecer que Sua Alteza Real deseja

ansiosamente que Balutik possa apresentar seus respeitos e afeição à

Coroa britânica.

Clotilda sabia ser esse o anseio de muitas pequenas nações da

Europa, com a finalidade de conservarem a própria independência.

O embaixador continuou:

— Como Sua Alteza Real tem muito orgulho de ser aparentado

com o príncipe consorte, ele entrou em contato com Sua Majestade a

rainha Vitória e sugeriu ser interessante que ele se casasse com uma

súdita britânica a fim de compartilharem o trono de Balutik.

— Mas ele… nem me conhece! — Clotilda retrucou, atônita.

— Acho que a senhora está menosprezando a nossa eficiência

em Balutik! - O ministro protestou — E como representante de meu

país em Londres pude apresentar seu nome para aprovação, sabendo

ser a senhora afilhada da rainha.

Clotilda concluiu, pela explicação, que havia uma lista com vários

nomes, mas era bastante diplomática para não fazer perguntas, apesar

de sentir-se curiosa e surpreendida pelo que acabava de ouvir.

— Agora, tudo já está decidido… — o embaixador se expressou

com certo alívio. — A única dificuldade é que Sua Alteza Real deseja

que a senhora inicie sua viagem a Balutik até o fim da semana próxima.

— Até o fim da semana próxima?! — a duquesa repetiu. — Mas

isso é impossível!

O embaixador sorriu.

— Sua Graça deve saber que nada é impossível e eu lhe garanto

que Sua Alteza Real pensou em cada detalhe para que não haja

dificuldades desnecessárias.

— Pois eu acho fora de propósito para qualquer noiva se

preparar em tão curto espaço de tempo!

O embaixador fez um gesto de impaciência.

— Entendo a preocupação de Sua Graça. Ao mesmo tempo,

convém saber que Sua Alteza Real deseja casar no começo do verão,

quando grande número de súditos está de visita à capital. Ademais, um

atraso implicaria o risco de termos um calor insuportável e de sofrer…

a inconveniência da proximidade da colheita.

— Entendo o que diz… — o duque concordou. — Clotilda deverá

fazer o possível para se aprontar.

— O senhor está dizendo que não vou conhecer… o príncipe

Frederick… até que chegue a Balutik?!

— Sinto muito informar que é impossível a ele vir à Inglaterra

neste momento — o embaixador respondeu. — Mas Sua Alteza Real

está fazendo todo o possível para torná-la feliz. — Mais

vagarosamente, prosseguiu: — Um navio de guerra levará a senhora e

seus acompanhantes a Drina, que é o porto mais próximo. Lá haverá

uma escolta militar que os conduzirá, através da Albânia, até Balutik. É

uma viagem curta, que implicará apenas uma pernoite no caminho.

A duquesa apressou-se em falar, antes de Clotilda:

— Suponho que Sua Alteza Imperial tenha se esquecido de que

uma noiva precisa de um enxoval!

O embaixador sorriu.

— Sua Graça se engana nesse particular, perdoe-me dizê-lo. Sua

Alteza Real, devido à pressa com que tudo deverá ser feito,

encarregou-me de encomendar o que for necessário, nos melhores e

mais renomados costureiros de Londres… Clotilda o interrompeu:

— O senhor quer dizer que meu enxoval… já foi… encomendado?!

— Admito que consultei minha esposa, que tem bastante

conhecimento do assunto — o embaixador respondeu. — E,

considerando que os vestidos talvez precisem de alguma modificação,

milady, pedi aos costureiros que viessem aqui amanhã de manhã.

E olhando para o duque, ele continuou:

— Espero, se houver muito a fazer, que Sua Graça lhes ofereça

hospitalidade por uma ou duas noites. Eles trarão consigo, é claro,

todo o material necessário.

Fez uma pausa para constatar, com satisfação, o espanto

impresso nas faces dos membros de sua audiência. Depois o

embaixador prosseguiu:

— Qualquer coisa que não fique pronta, de sábado a uma

semana, poderá ser enviada posteriormente. Porém, minha esposa

acredita que muitos baús seguirão no mesmo navio.

— Não posso acreditar no que ouço! — a duquesa exclamou. —

Com franqueza, senhor, se quiser a minha opinião, acho que essa

pressa é inadequada. Além disso, uma noiva receber o enxoval das

mãos do noivo é quase um insulto!

— Sua Graça talvez deva tomar conhecimento de um pequeno

segredo — o embaixador frisou. — Sua Majestade a rainha não deu a

palavra final tão rapidamente como esperávamos. Nas últimas duas

semanas fui ao palácio todos os dias, aguardando obter uma resposta

favorável ao pedido de Sua Alteza.

Clotilda podia perceber, pelo modo como ele falou, que estivera

de fato preocupado.

Mas agora, com um sorriso nos lábios, o embaixador terminava

sua explicação:

— Ontem, para meu grande prazer, a rainha consentiu o

casamento e pude continuar com os preparativos.

— Penso que deveríamos ter sido informados com mais

antecedência — a duquesa queixou-se.

— A única coisa que posso fazer é pedir-lhe que me desculpe.

Mas acredite-me, senhora, fiz o que pude.

Depois de uns segundos de silêncio, Clotilda tentou expor sua

opinião:

— E se eu não aceitar a proposta de Sua Alteza? — falou muito

baixo, com medo.

Mas todos os presentes ouviram-na muito bem.

A consternação na face do embaixador foi evidente. Não se

moveu, como se tivesse se transformado numa estátua de pedra.

A duquesa encarou Clotilda.

O duque, que conseguiu vencer a surpresa com mais rapidez que

os outros, respondeu prontamente:

— O que você quer dizer com isso?! Não aceitar?! É claro que

vai aceitar! Essa união representa não só uma grande honra para você,

como também para toda a família. Deveria ter me expressado desde o

começo, em meu nome e no das pessoas de meu sangue, que

consideramos grande prova de estima esse pedido, e não há outra

palavra para qualificá-lo.

— Mas… eu nunca vi Sua Alteza, meu tio!

— Que diferença isso faz, Clotilda? Uma vez casada, você terá

bastante tempo de conhecê-lo bem!

Achando que o duque estava se portando sem habilidade, o

embaixador aproximou-se dela e disse com voz mais suave:

— Garanto-lhe, lady Clotilda, que todos em Balutik, do monarca

reinante ao mais humilde súdito, irão recebê-la muito bem e farão o

possível para torná-la feliz! — observou-a enquanto falava e, vendo que

não a tinha convencido, seguiu sua explicação: — Balutik é um país

muito agradável. Está situado no alto das montanhas e os rios que o

banham o fazem extremamente belo e fértil.

Vendo-a ainda duvidosa, continuou:

— No início, a senhora achará a língua um pouco difícil. É mais

similar ao sérvio que ao húngaro, mas tem muita semelhança com o

romeno.

— Eu falo ambos os idiomas, romeno e sérvio.

— Fala?! — Incrédulo, o embaixador prosseguiu: — Agora me

lembro! Ouvi dizer que seu pai era muito dotado em línguas

estrangeiras. Havia me esquecido por completo!

— Não creio que papai tenha ido a Balutik.

— Mas visitou muitos outros países dos Bálcãs.

— Papai viajou por todo o mundo e minha mãe falava romeno e

muitos outros idiomas balcânicos.

— Disso tenho certeza, lady Clotilda, como também sei que

ambos, seu pai e sua mãe, ficariam muito orgulhosos em ver que a

senhora vai reinar em Balutik, levando sua influência britânica à nossa

linda terra.

“Ele está tentando me adular, expondo as vantagens de minha

futura posição…”, Clotilda pensou.

Mas seu instinto lhe mostrava a injustiça de ser forçada a

fazer alguma coisa não somente assustadora, mas errada. Não lhe

parecia certo casar-se com um homem que nem ao menos conhecia!

Quase lendo os pensamentos dela, o embaixador lembrou:

— Trouxe comigo, milady, o retrato de Sua Alteza Real. Está na

carruagem e vou deixá-lo com a senhora.

Não havia nada que Clotilda pudesse fazer, além de murmurar:

— Obrigada…

O embaixador dirigiu-se ao duque.

— O que eu gostaria de sugerir, para a aprovação de Sua Graça,

é que minha esposa venha aqui amanhã com os costureiros. Ela traria

consigo a dama de companhia que vai com lady Clotilda para Balutik.

— Acho que minha sobrinha deveria ter uma dama de companhia

inglesa; o senhor não pensa assim? — a duquesa inquiriu.

O embaixador respondeu negativamente:

— Sua Alteza Real pensou, e concordo com ele, que seria um

erro lady Clotilda não ser acompanhada por uma dama de nosso país.

Uma camareira poderá vir também amanhã. Trata-se de uma mulher

agradável, de responsabilidade no trabalho, e com referências

excelentes de outras senhoras a quem serviu.

— Parece-me esse um modo estranho de conduzir as coisas! — a

duquesa protestou. — Presumo que ambos, o senhor e Sua Alteza Real,

saibam que meu marido não está bem de saúde para empreender tão

longa viagem e eu não posso deixá-lo sozinho. Mas acho que Clotilda

devia ter uma pessoa de nacionalidade britânica com ela, a fim de

ajudá-la e guiá-la até o casamento!

Contente por ter uma resposta pronta, como um trunfo nas

mãos, o embaixador replicou:

— Sua Graça precisa saber que Sua Majestade a rainha pensou

nisso e designou o marquês de Weybourne para representá-la e o

príncipe consorte na cerimônia e para acompanhar lady Clotilda na

viagem.

— O marquês de Weybourne?! — a duquesa exclamou,

surpreendida. — Mas que tipo de escolha é essa?!

— Foi sugestão de Sua Majestade, senhora.

A duquesa comprimiu os lábios e olhou para o duque, que

comentou:

— Weybourne? Ele tem ótimos cavalos. Ganhou o Derby este

ano!

— Estamos falando de Clotilda, Edward! Não de cavalos!

— Eu sei, eu sei, Augusta! Mas não podemos interferir, minha

cara, na escolha da rainha sobre quem a representará no casamento.

— Não, claro que não — a duquesa concordou. — Mas continuo

pensando que ela deveria ter uma dama de companhia inglesa a seu

lado.

— Acho que, quando a senhora conhecer a baronesa, que é a

pessoa designada para acompanhá-la, concluirá que ninguém poderia

dar melhor auxílio, em circunstâncias tão fora do comum. A baronesa é

a viúva de um dos nossos mais distintos diplomatas.

A duquesa não teve resposta.

Não podendo mais aguentar essa conversa, Clotilda levantou-se.

Foi até a janela e ficou observando o jardim maltratado; nunca

havia jardineiros em número suficiente para lhe dar um aspecto mais

agradável.

Na realidade, não pensava nesse momento no horror que seria

casar-se com um homem que nunca vira, e nem no país estranho onde

deveria morar no futuro.

Pensava em Swallow e na tristeza enorme que a separação

significaria para ela.

“Não posso fazer isso, não posso!”, Clotilda falou consigo mesma.

Assim pensando, voltou ao passado e enxergou o pai ao lado

dela, sorrindo, piscando o olho como sempre fazia quando alguma coisa

o divertia ou quando estava prestes a realizar uma façanha.

“Que posso fazer para recusar esse casamento? Que devo

fazer, papai?”

Então, como se pudesse ouvir uma resposta, sentiu que o pai lhe

dizia que ela não tinha muito a perder além de Swallow.

Frequentemente, nos últimos dois anos, nas longas noites em

que tivera dificuldade em dormir, Clotilda havia conversado com o pai,

em pensamento, e lhe contava como sentia saudade de sua presença e

como o castelo parecia desolador e lúgubre sem ele.

Nada acontecia lá, além de repetidas explosões de fúria da

parte do tio.

“Vai… vai…!”, sentia o pai dizer-lhe. “O mundo é muito grande e

qualquer coisa é melhor do que viver aqui nesta miséria”!

Isso é o que ela já estava pensando por algum tempo, mas nunca

sentira o pai tão perto dela ou tão pronto em responder ao seu apelo.

Voltou-se e se reuniu ao grupo, notando que todo o tempo em

que tinha estado na janela o silêncio fora completo na sala.

Então, com um sorriso nos lábios e com esforço quase sobre-

humano, ela disse:

— Espero ansiosamente encontrar sua esposa, Excelência.

Quero lhe agradecer por todo o trabalho que está tendo, cuidando de

meu enxoval.

Indo só em sua própria condução para Tilbury, o marquês não

desconhecia estar agindo contra o protocolo e certamente de maneira

um tanto rude por recusar-se a viajar como o embaixador esperava: na

carruagem da noiva ou na da comitiva.

Ele dissera altivo:

— Se há uma coisa que detesto, Excelência, é ficar fechado

numa carruagem, sozinho ou em companhia de uma mulher estranha,

provavelmente em prantos por estar se despedindo de sua família.

O embaixador apenas respondera:

— Esperava que Vossa Senhoria pudesse ser apresentado a lady

Clotilda na embaixada. De lá iríamos juntos, com minha esposa e

comigo, a Tilbury, pois queremos ver o navio partir.

— E havia acrescentado, para fazer seu convite mais atraente:

— Estaremos acompanhados de ministros e embaixadores de

outros países balcânicos, que querem apresentar suas homenagens à

futura esposa de Sua Alteza Real.

— Muito bem! — O marquês aprovara. — E eu terei tempo mais

que suficiente para dizer tudo o que não foi dito antes, durante a

inconfortável travessia da baía de Biscaia.

— Espero que não seja tão desconfortável — o embaixador

tinha replicado. — Mas não há dúvida de que o clima na baía é sempre

imprevisível.

— Como a maior parte das mulheres! — o marquês concluíra

cético.

Estava pensando, ao falar, na revolta que tinha provocado em

Hester quando lhe dissera que iria viajar.

Ele encontrara, é claro, um modo facílimo de terminar seu

envolvimento com ela. . muito mais simples do que jamais esperara.

Hester havia tentado apegar-se a ele e convencê-lo de que

morreria mil vezes nas semanas em que ele estivesse fora, e jurara

eterna fidelidade esperando o mesmo da parte dele…

Felizmente, o marquês não pôde permanecer muito tempo em

companhia da amante porque sir Anthony Dendall encontrava-se em

Londres.

Mas, o que tornou as coisas mais difíceis foi que a condessa de

Castleton, sabendo que ele iria deixar a cidade, arriscara sua

reputação e também provocara a ira do marido, visitando o marquês às

escondidas.

Quando o marquês entrou em casa em Grosvenor Square, o

mordomo informou-lhe que uma senhora o esperava, e ele deduziu que

a única pessoa bastante indiscreta para vir à sua casa seria Hester.

Mas, para sua completa surpresa, quando foi à biblioteca, viu

Sheila Castleton semicoberta com véus. Ele teve que admitir que a

condessa estava lindíssima.

— Tive que vir… — Ela adiantou se, antes que ele falasse. — Tive

que vir, Stanwin! — Aproximou-se mais do marquês e continuou: — Sei

que é minha culpa o fato de você ser enviado para fora do país.

— Como sabe?

— Arthur estava se vangloriando por ter sido o instrumento

para conseguir isso, pois sabia que se a rainha tomasse conhecimento

do duelo ficaria irritada e tomaria essa decisão.

— Como vê, estou ansioso para conhecer Balutik!

— E me deixar? Ah! Stanwin, como pode dizer tal coisa? —

Sheila Castleton protestou.

Ele quis explicar que não havia nada que pudesse fazer. Ao

mesmo tempo, bendisse essa ocorrência que lhe permitiu afastar-se

dela sem problemas…

Todos sabiam, no clube, que ele iria perder as corridas de

Ascot.

— Pensei que você fosse ganhar a taça de ouro, Weybourne — o

conde de Derby disse a ele.

— E vou! — o marquês respondeu.

— Quer dizer que vai competir com seus cavalos, mesmo

estando fora?

— E por que não? Infelizmente esses dois acontecimentos

agradáveis coincidiram na data, mas não acho que as corridas deste

ano vão ser diferentes das do ano passado. Também não serão

diferentes das do próximo ano!

— Não é possível entendê-lo… — os amigos comentavam entre si.

— Até parece que ele gostou da oportunidade de sair do país no meio

da temporada.

Só Harry sabia da verdade.

— Você está fingindo gostar da viagem e conseguiu enganar a

todos, Stanwin, mas estou com pena de você.

— Se quer saber da verdade, Harry, eu também tenho pena de

mim. Mas não pretendo dar a Sua Majestade a rainha ou a qualquer

outra pessoa a satisfação de pensar que tudo foi um castigo.

— Não, claro que não, e me esforçarei para conservar todos na

ilusão de que você está dando pulos de alegria pelo privilégio de

escoltar uma entediante noiva à sua condenação.

— Pelo amor de Deus, Harry, não ponha sal em minhas feridas!

Ainda se fôssemos viajar num navio inglês, poderia haver alguma

compensação! Não falo a maldita língua deles, e nem tenho intenção de

aprendê-la.

— Mas fala alemão, e aposto que os oficiais de marinha falam

esse idioma.

O marquês sorriu.

— Espero que você esteja certo. Nesse caso, tenho pena dos

pobres diabos que trabalham sob o tacão deles.

— Você vai é ter pena da pobre noiva… — Harry comentou. —

Pois ouvi referências muito desagradáveis sobre o príncipe Frederick.

— Também ouvi. Mas penso que para ela, como para qualquer

mulher, o que importa é usar uma coroa — falou com tanto azedume

que fez Harry voltar ao passado. Ele se lembrou da razão pela qual o

marquês ainda não havia casado.

Era um fato conhecido talvez apenas por ele mas, apesar de

ser… amigos íntimos, nunca falavam sobre o assunto.

O marquês tinha apenas vinte e um anos quando se apaixonou

seriamente pela primeira vez. Seu pai era o filho mais jovem, não

tendo portanto qualquer chance de herdar o título da família.

A moça pela qual ele perdera seu coração era lindíssima, uma

maravilhosa criatura que possuía grande quantidade de bons partidos a

seus pés, mas nenhum tão atraente como Stanwin Weybourne.

Ele a beijara pela primeira vez numa festa em Devonshire

House, nos jardins da mansão. Depois disso, encontravam-se quase

diariamente e eram vistos juntos sempre, dançando em todos os bailes