Celephais por H.P. Lovecraft - Versão HTML

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“Celephais” – H.P. Lovecraft

Tradução: Renato Suttana

Quem é Renato Suttana?

Renato Suttana é doutor em Letras e professor de Literatura Brasileira na Universidade Estadual do Centro-Oeste (UNICENTRO), em Guarapuava-PR. É autor de Uma poética do deslimite: o poema como imagem na obra de Manoel de Barros (dissertação de mestrado, PUC-MG, 1995), de João Cabral de Melo Neto: o poeta e a voz da modernidade (tese de doutorado, UNESP-Assis, 2003) e do livro de poesias Visita do fantasma na noite (2002). Suttana também mantem seu site na web: http://www.arquivors.com. Contatos com o tradutor podem ser feitos pelo e-mail: rsuttana@arquivors.com

um sonho Kuranes viu a cidade no vale, e a costa marinha mais adiante, e o pico nevado

N elevando-se sobre o mar, e as galeras pintadas com cores festivas que saíam do porto em

busca de regiões distantes onde o mar encontra o céu. Foi num sonho também que recebeu o

nome de Kuranes, pois em vigília era chamado de outra maneira. Talvez fosse natural para ele

sonhar com um novo nome, pois era o último de sua família, a viver solitário entre os milhões de Londres, de modo que não havia muitos para lhe falar e lembrar quem ele tinha sido. Perdera seu dinheiro e suas terras e não se incomodava com o modo de ser das pessoas à sua volta,

preferindo sonhar e escrever sobre seus sonhos. Riam-se aqueles para quem mostrava o que tinha

escrito; e então após algum tempo passou a guardar consigo seus escritos, até que finalmente

parou de escrever. Quanto mais se retirava do mundo ao redor, mais maravilhosos se tornavam

seus sonhos; e teria sido fútil tentar descrevê-los no papel. Kuranes não era moderno e não

pensava como outros que também escreviam. Enquanto estes se esforçavam para despir a vida de

suas míticas vestes bordadas e mostrar em nua fealdade a coisa suja que é a realidade, Kuranes

buscava somente a beleza. Quando a verdade e a experiência falhavam em revelá-la, ele a

buscava na fantasia e na ilusão, e a encontrava em sua própria soleira, em meio às memórias

nebulosas de histórias e sonhos da infância.

Poucas pessoas sabem que maravilhas estão abertas para elas nas histórias e nas visões da

juventude, pois enquanto somos crianças ouvimos e sonhamos, formulamos pensamentos

incompletos, mas, quando homens, ao tentar rememorá-los, estamos secos e prosaicos devido ao

veneno da vida. Porém alguns de nós despertarão na noite em meio a estranhos fantasmas de

colinas encantadas e de jardins, de fontes que murmurejam ao sol, de áureos penhascos que

contemplam mares rumorosos, de planícies que se estendem até os limites de cidades

adormecidas de bronze e de granito, e da penumbrosa companhia de heróis que cavalgam

brancos corcéis ajaezados na orla de densas florestas; e então conhecemos que olhávamos para

trás, através de portões de marfim, para aquele mundo de encantamento que foi nosso antes que

nos tornássemos sábios e infelizes.

Muito subitamente é que Kuranes descobriu seu velho mundo de infância. Tinha estado a sonhar

com a casa onde havia nascido – a grande casa de pedra coberta por heras, onde treze gerações

de seus ancestrais tinham vivido e onde ele esperara morrer. Havia luar, e ele se evadira para a fragrante noite de verão, através dos jardins, descendo pelos terraços, para além dos grandes

carvalhos do parque e ao longo da comprida estrada branca que conduzia ao vilarejo. O vilarejo

parecia muito velho, carcomido nas bordas como uma lua minguante, e Kuranes se perguntava

se os grandes tetos pontiagudos das casas ocultariam o sono ou a morte. Nas ruas brotavam

longas espadas de grama, e os vidros das janelas de cada lado estavam quebrados ou miravam

com fixidez. Kuranes não se demorou, mas avançou como se convocado em direção a alguma

meta. Não se atrevia a desobedecer à convocação, por receio de que pudesse revelar-se uma

ilusão, tal como as urgências e aspirações da vida desperta, que não conduzem a meta nenhuma.

Então foi levado por uma viela que conduzia da aldeia até os despenhadeiros do canal e chegou

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ao final das coisas, junto ao precipício e ao abismo onde toda a aldeia e todo o mundo

despencavam abruptamente no vazio do infinito sem ecos e onde até mesmo o céu à sua frente

era vazio e mal iluminado por uma lua embaçada e pelas estrelas bruxuleantes. A fé o

impulsionara por cima do precipício e em direção ao golfo, onde ele vogara, vogara, vogara –

para muito além dos sonhos disformes, não sonhados, de esferas baçamente luminosas que

podem ter sido sonhos parcialmente sonhados, e de coisas aladas que gargalhavam e pareciam

escarnecer dos sonhadores de todos os mundos. Então uma fenda pareceu abrir-se na escuridão à

sua frente, e ele viu a cidade no vale cintilando radiosa bem abaixo, muito abaixo, sobre um

fundo de mar e céu e uma montanha cujo pico a neve recobria na proximidade da costa.

Kuranes despertara no exato momento em que vislumbrou a cidade; no entanto soube por um

rápido olhar que não se tratava de outra senão de Celephais, no Vale de Ooth-Nargai, para além

das Colinas Tanarianas onde seu espírito habitara pela eternidade de uma hora num certo

entardecer de verão há muito passado, quando se esquivara de sua babá e permitira que a brisa

morna do mar o embalasse até o sono, enquanto observava as nuvens de uma falésia próxima ao

vilarejo. Ele protestara então, quando o encontraram, despertaram e levaram para casa, pois no

instante em que o chamaram estava prestes a zarpar numa galera dourada para aquelas

fascinantes regiões onde o mar encontra o céu. E agora, do mesmo modo, se ressentia de

despertar, pois havia encontrado sua cidade fabulosa após quarenta anos de exaustão.

No entanto três noites depois Kuranes retornou a Celephais. Como antes, sonhou primeiro com o

vilarejo que se achava adormecido ou morto e com o abismo pelo qual se deve descer flutuando

silenciosamente; então apareceu de novo o precipício, e ele avistou os minaretes coruscantes da cidade e viu as galeras graciosas se aproximando para ancorar no cais azul, e viu as copas das

árvores-gingko do Monte Aran estremecendo ao sopro da brisa marinha. Mas desta vez não foi

arrebatado e, como uma criatura alada, foi depositado gradualmente sobre a encosta coberta de

verde até que seus pés repousaram com suavidade sobre o relvado. Ele retornara, finalmente, ao

Vale de Ooth-Nargai e à esplêndida cidade de Celephais.

Colina abaixo, por entre a grama olorosa e as flores brilhantes, Kuranes caminhou, atravessando o borbulhante Naraxa por uma pequena ponte de madeira onde gravara seu nome havia muitos

anos, e através do bosque murmurante até a grande ponte de pedra junto ao portão da cidade.

Tudo estava como antes; nem as paredes de mármore se descoloriram, nem as estátuas de bronze

polido que as encimavam tinham se embaciado. E Kuranes percebeu que não teria de estremecer

com receio de que as coisas que sabia se desvanecessem, pois até as sentinelas no alto dos

baluartes eram as mesmas e estavam tão jovens quanto na época em que se lembrava delas.

Quando ele entrou na cidade, além dos portões de bronze e sobre o calçamento de ônix, os

mercadores e cameleiros o saudaram como se ele nunca tivesse se ausentado; e o mesmo

aconteceu no templo turquesa de Nath-Horthath, onde os sacerdotes coroados de orquídeas lhe

disseram que não existe tempo em Ooth-Nargai, mas apenas juventude perpétua. Então Kuranes

caminhou pela Rua dos Pilares até a muralha junto ao mar, onde se ajuntavam comerciantes e

marujos e homens estranhos provenientes das regiões onde o mar encontra o céu. Ali ele se

demorou, olhando por sobre o porto luminoso onde as ondas faiscavam debaixo de um sol

desconhecido e por onde passavam deslizando as galeras dos lugares distantes. E olhou também

para o Monte Aran, que se elevava majestoso da costa, suas faldas mais baixas verdejantes de

árvores trêmulas e seu ápice branco erguido para o céu.

Mais do que nunca Kuranes desejou navegar numa galera até os lugares distantes sobre os quais

ouvira contar tantas histórias bizarras e procurou de novo o capitão que aquiescera em conduzi-

lo havia tantos anos. Encontrou o homem – Athib – sentado sobre a mesma arca de especiarias

sobre a qual se sentara antes, e Athib parecia não notar que tanto tempo se passara. Então ambos remaram para uma galera no cais, e, dando ordens aos remadores, começaram a navegar para o

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agitado Mar Cerenariano, que conduz ao céu. Por vários dias eles deslizaram sobre a água

ondulante, até que finalmente chegaram ao horizonte onde o mar encontra o céu. Aqui a galera

não repousou de todo, pois flutuou com facilidade no azul do céu por entre nuvens lanosas que

se tingiam de roxo. E, muito para além da quilha, Kuranes pôde ver as terras estranhas e os rios e as cidades de inigualável beleza, a estender-se indolentemente ao sol que nunca parecia

esmorecer ou desaparecer. Por fim, Athib lhe disse que sua jornada estava para terminar e que

logo eles entrariam no porto de Serannian, a cidade de mármore rosado em meio às nuvens, que

está construída naquela costa etérea onde o vento oeste flui para o céu; mas, à medida que as

mais altas torres esculpidas da cidade se tornavam visíveis, um som ecoou no espaço, e Kuranes

despertou em seu sótão londrino.

Por muitos meses subseqüentes Kuranes buscou em vão a maravilhosa cidade de Celephais com

suas galeras destinadas ao céu. Embora seus sonhos o conduzissem a muitos lugares

deslumbrantes e inauditos, ninguém daqueles a quem falou pôde lhe dizer como achar Ooth-

Nargai, que fica para além das Colinas Tanarianas. Numa noite ele saiu voando sobre montanhas

escuras onde brilhavam algumas fogueiras solitárias e vagas, muito distanciadas umas das

outras, e onde havia estranhos, felpudos rebanhos cujos líderes portavam cincerros, e na parte

mais selvagem da região montanhosa, tão longínqua que raros homens a teriam visto, ele

encontrou uma muralha ou passadiço de pedra antiqüíssimo que ziguezagueava ao longo das

cumeadas e dos vales, gigantesco demais para ter sido edificado por mãos humanas e de tamanha

extensão que nenhum de seus extremos poderia ser visto. Para além daquele muro, na aurora

cinzenta, ele alcançou uma terra de jardins singulares e de cerejeiras, e quando o sol surgiu

vislumbrou uma tal beleza de flores vermelhas e brancas, folhagens verdes e gramados,

caminhos brancos, córregos adamantinos, pontes adornadas e pagodes de teto vermelho, que por

um momento, imerso em extrema delícia, esqueceu Celephais. Mas se lembrou dela outra vez,

quando desceu por uma senda branca em direção a um pagode de teto vermelho, e teria

perguntado às pessoas dessa terra a respeito dela, não tivesse descoberto que ninguém habitava

ali além de pássaros e abelhas e borboletas. Numa outra noite, Kuranes subiu pela espiral de uma escadaria úmida e interminável, alcançando a janela de uma torre que se abria para uma planície e um rio imponentes que a lua cheia iluminava; e na cidade silenciosa que se estendia a partir da margem do rio ele pensou descobrir certo aspecto ou arranjo que conhecera antes. Teria descido

e perquirido o caminho até Ooth-Nargai, não tivesse uma temível aurora crepitado de algum

lugar remoto além do horizonte, exibindo a ruína e a antigüidade da cidade e a estagnação do rio juncoso e a morte que se espraiava sobre aquela terra, como se espraiara desde que o Rei

Kynaratholis retornara de suas conquistas para se deparar com a vingança dos deuses.

Assim Kuranes procurou embalde pela maravilhosa cidade de Celephais e por suas galeras que

navegam para Serannian no céu, testemunhando muitas maravilhas nesse meio tempo e certa vez

escapando por pouco do sumo sacerdote que não deve ser descrito, que usa uma máscara de seda

amarela sobre a face e que vive inteiramente só num monastério de pedra pré-histórico, em meio

ao frio platô do deserto de Leng. Com o tempo ele se tornou tão impaciente com os intervalos

vazios do dia que começou a comprar drogas a fim de aumentar os períodos de sono. O haxixe

foi de grande valia e certa vez o enviou a uma parte do espaço onde não existe a forma, mas

onde gases fosforescentes estudam os segredos da existência. E um gás de tonalidade violeta

asseverou que essa parte do espaço se situava fora daquilo que ele costumava chamar de infinito.

O gás nada ouvira acerca de planetas e organismos antes, mas identificou Kuranes meramente

como alguém que tivesse vindo do infinito onde existem a matéria, a energia e a gravitação.

Kuranes estava agora aflito por retornar a Celephais que os minaretes guarneciam, e aumentou

suas doses de entorpecentes; entretanto já lhe minguara o dinheiro, de modo que não podia

comprar drogas. Por fim, num verão, viu-se expulso de sua mansarda e vagueou a esmo pelas

ruas, atravessando a ponte até um lugar onde as casas pareceram mais e mais esguias. E foi ali

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lhe adveio a completude e que o cortejo de cavaleiros provenientes de Celephais acorreu ao seu

encontro para escoltá-lo por lá para sempre.

Eram garbosos os cavaleiros – montados em cavalos ruões e a envergar armaduras polidas com

tabardos de fios de ouro elegantemente entretecidos. Tão numerosos pareciam, que Kuranes

quase os confundiu com um exército, mas tinham sido enviados em honra dele, desde que fora

ele quem criara Ooth-Nargai em seus sonhos, razão pela qual seria para sempre aclamado como

seu deus principal. Cederam, pois, a Kuranes um cavalo e o postaram à cabeça do grupo; e todos

cavalgaram altivamente pelas terras baixas de Surrey e mais além, em direção às regiões onde

Kuranes e seus ancestrais haviam nascido. Foi estranho, mas enquanto os cavaleiros avançavam

tinha-se a impressão de que retornavam no Tempo, pois quando quer que cruzassem algum

vilarejo ao crepúsculo viam somente casas e aldeões como aqueles que Chaucer e outros homens

antes dele teriam visto, e às vezes avistavam cavaleiros montados, seguidos por pequenos grupos de escudeiros. Quando escureceu, cavalgaram mais depressa, até que se puseram a flutuar

estranhamente como se voassem nos ares. Próximo da aurora alcançaram uma aldeia que

Kuranes conhecera viva em sua infância e que parecia adormecida ou morta em seus sonhos.

Estava viva agora, e alguns aldeões madrugadores fizeram reverência quando os cavaleiros

trotaram pela rua e penetraram pela senda que conduz ao abismo dos sonhos. Anteriormente

Kuranes entrara nesse abismo apenas durante a noite e se perguntava que aspecto teria à luz do

dia; de modo que observou com ansiedade quando a coluna se aproximou de sua borda. No

instante em que subiram pelo terreno até o precipício, uma fosforescência dourada surgiu de

algum lugar a oeste e ocultou toda a paisagem sob drapejamentos cintilantes. O abismo era um

caos fervilhante de esplendores róseos e cerúleos, e vozes invisíveis cantavam com exultação

enquanto o cortejo cavalheiresco saltava sobre a borda e flutuava graciosamente para além das

nuvens rútilas e das coruscações prateadas. Numa descida sem fim os cavaleiros pairaram, suas

montarias trotando no éter como se sobre areias douradas; e então os vapores luminosos se

afastaram para revelar um brilho maior, o brilho da cidade de Celephais, com a costa marinha

mais adiante e o pico nevado elevando-se sobre o mar e as galeras pintadas de cores festivas que saíam do porto em busca de regiões distantes onde o mar encontra o céu.

E a partir de então Kuranes reinou sobre Ooth-Nargai e sobre todas as regiões oníricas

adjacentes, e teve sua corte em Celephais e na enevoada Serannian. Ainda reina ali e reinará

venturoso para sempre, mesmo que ao pé das falésias de Innsmouth as ondas do canal

brincassem zombeteiras com o corpo de um vagabundo que atravessou aos tropeções o vilarejo

semideserto ao amanhecer; brincassem zombeteiras e o atirassem sobre os rochedos junto às

Trevor Towers, cobertas de hera, onde um obeso milionário da cervejaria, especialmente

repulsivo, desfruta da comprada atmosfera de uma nobreza extinta.

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