Cícero por Plutarco - Versão HTML

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Cícero, por Plutarco

C Í C E R O , por Plutarco

(Nascido no ano 106 e morto no ano 43 antes de J.

C.)

Capítulo de Vidas Paralelas ( Bioi Paralleloi) Sobre a tradução: Primeira tradução brasileira, de Sady Garibaldi. Atena Editora, São Paulo.

Para correções, comparações e compilação de notas foram usadas ainda outras edições: 1. Plutarco, Vidas Paralelas, Editora Paumape, Quinto Volume. Tradução de Gilson Cardoso e notas de Paulo Peixoto.

2.Plutarco, Vidas. Tradução e notas de Jaime Bruna. Editora Cultrix, São Paulo e 3. Plutarco, Vidas dos homens Ilustres, tradução do Pe. Vicente Pedroso a partir da edição clássica francesa de Amyot, com observações de Brotier, Vauvilliers e Clavier. Edameris, São Paulo Copista (edição virtual): Miguel Duclós

Digitalizado por consciencia.org

I. Quanto a Cícero, sua mãe segundo se diz, chamava-se Hélvia. Pertencia a uma família distinta e, desde seu nascimento, sua conduta se mostrou sempre digna. Há, a respeito da condição do seu pai, 1

opiniões contraditórias: uns pretendem que tenha nascido e que foi criado na oficina de um pisoeiro; outros o fazem descender de Tulo Átio 2, que reinou gloriosamente sobre os Volscos 3, e lutou sem muita desvantagem contra os romanos. Quanto ao mais, o primeiro dessa família que teve o sobrenome de Cícero parece ter sido um homem respeitável, e é por isso que seus descendentes, longe de desprezarem o sobrenome, começaram a usá-lo com ufania, não obstante isso ter sido, para muitos, motivo de pilherias. Cicer, em latim, significa "grão de bico".

Cícero, cuja vida descrevemos, a primeira vez que conseguiu uma causa e tomou parte nos negócios públicos, foi instado pelos seus amigos a que abandonasse esse nome e tomasse outro. Ele, porém, respondeu com nobre altivez:

- Eu farei todos os esforços possíveis para fazer o nome de Cícero mais célebre do que os de Scauro e de Catulo 4.

Durante sua questura na Sicília, ofereceu aos deuses um vaso de prata 5, no qual fez gravar os seus dois primeiros nomes: Marco Túlio. Porém, no lugar do terceiro, recomendou ao artista, por pilheria, que gravasse um grão de bico. Eis aí o que se conta a propósito do nome de Cícero.

II. Afirma-se que sua mãe deu-o à luz sem dores e sem trabalho: foi no terceiro dia das calendas novas 6, dia em que os magistrados de Roma fazem muitas preces e sacrifícios em intenção do imperador.

Assegura-se que um fantasma apareceu à sua ama e disse-lhe que o menino que ela amamentava seria o firme sustentáculo de Roma. Essas predições, que se costumam ordinariamente catalogar no rol dos sonhos e das bobagens, Cícero, mal chegado à idade de se aplicar ao estudo, tomou a peito transformá-las em realidade. O talento de que era possuidor tornou-o célebre entre os seus camaradas, a ponto de os pais Cícero, por Plutarco

destes irem à escola para ver Cícero com os seus próprios olhos e testemunharem eles próprios tudo quanto se dizia a respeito do seu engenho e da sua capacidade intelectual. Alguns destes, mais grosseiros, censuravam seus filhos quando os viam, na rua, colocar Cícero honrosamente entre eles. Nasceu com esta qualidade que constitui, segundo Platão, 7 a aptidão literária e filosófica: era capaz de abarcar todas as ciências e não desdenhava de nenhuma espécie de estudo e de saber. Cedo, porém, toda a sua paixão foi para a poesia. Existe ainda um pequeno poema em versos tetrâmetros 8, intitulado Pontius Glaucus, composto por ele em plena infância. À medida que avançava em idade, aperfeiçoava o talento pela cultura, e conseguiu a fama de ser não só o melhor dos oradores romanos, mas também o melhor dos seus poetas. O renome da sua eloqüência subsiste ainda, não obstante as modificações consideráveis introduzidas na língua latina. O grande número, entretanto, de excelentes poetas, aparecidos depois dele, apagou e arruinou completamente a sua glória.

III. Ao concluir os primeiros estudos, tomou lições com Filon o acadêmico, um dos discípulos de Clitomaco 9, do qual os romanos admiravam particularmente a eloqüência e o caráter. Cícero freqüentava, ao mesmo tempo, a casa de Múcio 10, grande homem de Estado e um dos mais ilustres senadores. Nessa convivência, adquiriu um profundo conhecimento das leis. Serviu, durante algum tempo, sob Sila, na guerra Mársica 11.

Depois, como visse a República afundar-se na guerra civil, e a guerra civil numa monarquia absoluta, inaugurou uma vida de meditação e de estudo, travando conversações com os sábios gregos, aplicando-se às ciências, até ao momento em que Sila se apossou do poder supremo e pôde dar ao governo uma espécie de estabilidade.

Nesse tempo, Crisógono, liberto de Sila, pôs em leilão os bens de um homem que disse ter sido morto em conseqüência da proscrição, e comprou-os ele mesmo pela importância de duas mil dracmas. Róscio, filho e herdeiro do morto, indignado com este negócio iníquo, provou que tais bens valiam 250 talentos.

Sila, convencido do contrário, não se conteve: instigado por Crisógono, intentou contra Róscio um processo em que o acusava de parricídio. Ninguém ousou socorrer o acusado: o pavor que a crueldade de Sila inspirava afastou quantos estivessem em condições de defendê-lo. O rapaz, abandonado por todos, recorreu a Cícero. Cícero viu-se logo rodeado de seus amigos, que o estimulavam a aceitar uma causa que lhe oferecia oportunidade de adquirir glória como ele não encontraria jamais, nem mais bela nem mais brilhante. Resolveu-se, pois, a defender Róscio e conseguiu salvá-lo. O sucesso lhe valeu a admiração geral. Temendo, porém, a vingança de Sila, abandonou Roma e foi viajar pela Grécia. Fez crer que tomava tal resolução em virtude da sua saúde abalada. Com efeito, era magro, fraco e possuía um estômago delicadíssimo, não podendo comer muito tarde e tomando apenas pequeníssimas rações.

Possuía uma voz forte e sonora, porém dura e pouco flexível. E, como declamasse com muito calor e muita veemência, atingindo, sem cessar, os tons mais altos, temia-se que sua saúde estivesse em perigo.

IV. Chegado a Atenas, tomou lições com Antíoco o Ascalonita: a doçura e a graça dos discursos desse filósofo o encantavam, se bem que não aprovasse as inovações por ele introduzidas nas doutrinas.

Antíoco já estava separado da nova Academia e da escola de Carneades - ou porque cedesse à evidencia da razão, ou, como querem outros, porque uma espécie de ambição e desavenças com os discípulos de Clitomaco e Filon o tivessem feito mudar de idéia e abraçar a maior parte dos dogmas do estoicismo.

Cicero amava a nova Academia: era a escola cujos escritos estudava de boa vontade. Projetava mesmo, no caso em que fôsse obrigado a abandonar a advocacia e renunciar ao Fórum e aos empregos públicos, retirar-se para Atenas, para aí viver uma vida tranqüila, toda entregue à filosofia.

Cícero, por Plutarco

Ao ter, porém, conhecimento da morte de Sila e sentindo seu físico revigorado pelos exercícios, e que sua voz, já bem formada, aliava a doçura à fôrça, correspondendo, assim, satisfatóriamente, à compleição do seu corpo; instado pelos seus amigos nas cartas que lhe vinham de Roma e levado pelos repetidos conselhos de Antíoco, decidiu-se a tomar parte nos negócios públicos. Antes, porém, quis formar, com mais cuidado do que o havia feito, a sua eloqüência, como um instrumento necessário, e, ao mesmo tempo, desenvolver a sua consciência política. Exercitava-se na composição e frequentava os retóricos mais reputados. Foi por isso que passou algum tempo na Ásia e em Rodes. Acompanhou as lições dos retóricos asiáticos Xenocles de Adramite, Denis de Magnésia e Menipo da Cária. Em Rodes, frequentou o retórico Apolônio, filho de Molon, e o filósofo Posidônio. Apolônio não compreendia a língua romana: pediu a Cícero que falasse em grego. Cícero concordou de boa vontade, crente de que assim os seus erros seriam mais fàcilmente corrigidos. Ao declamar, o auditório, tomado de admiração, não se cansou de louvá-lo. Apolônio, porém, ao ouvi-lo, não fez nenhum sinal de aprovação. E quando Cicero terminou o discurso, ficou durante muito tempo a pensar, sem nada dizer. Como Cícero se ressentisse com seu silêncio, Apolônio assim lhe falou:

- Cícero, eu te louvo e te admiro. Choro, -porém, sorte da Grecia, ao ver que as únicas vantagens que no restavam, o saber e a eloqüência, vão, por teu intermédio passar para as mãos dos romanos.

V. Cícero, cheio de esperanças, preparou-se para ingressar nos negócios públicos. Um oráculo, porém, abateu-lhe o entusiasmo. Ele havia perguntado ao deus de Delfos de que maneira poderia conquistar a glória:

- Tomando por guia da tua vida - respondeu a pitonisa - o teu próprio sentimento e não a opinião dos demais.

Chegado a Roma, aí se conduziu, nos primeiros tempos, com extrema reserva. Mostrava pouca vontade de assumir imediatamente qualquer encargo. Por isso, todos se isolavam dele e motejavam dele com os nomes injuriosos de grego e de escolar 12, termos habituais e familiares à mais vil populaça de Roma.

Mas a sua ambição natural e as exortações de seu pai e dos amigos o impeliram para o Foro.

Rapidamente colocou-se na primeira fileira, não por progressos lentos e necessários, mas por lances brilhantes e rápidos, ultrapassando, em curto prazo, todos os seus rivais na advocacia.

Ao que se afirma, possuía ele os mesmos defeitos que Demóstenes apresentava na pronúncia e no gesto. Mas as lições de Róscio, o comediante, e de Esopo, o ator trágico, o ajudaram a corrigí-los.

Conta-se que este Esopo representava o papel de Atreu, na cena em que este delibera a maneira de vingar-se de Tieste, e como passasse diante dele, casualmente, um contínuo do teatro, no momento justo em que a violência da paixão o pusera fora de si, assestou-lhe tal golpe com o cetro que o estendeu morto ali mesmo. A graça da declamação emprestava à eloqüência de Cícero uma força persuasiva. Assim, ele se ria dos oradores que não sabiam senão soltar tremendos gritos:

- É por fraqueza que eles gritam, - dizia ele - como os coxos montam a cavalo.

Essas finas anedotas, essas réplicas vivas, que lhe vinham amiúde, espontâneamente, davam muita graça ao discurso e são próprias de um homem de espírito. Mas o uso excessivo que Cícero fazia delas acabou por ferir muitas pessoas e dar ao orador uma reputação de malignidade.

VI. Nomeado questor numa época de crise, o destino apontou-lhe a Sicília. De inicio, começou a desgostar os sicilianos, exigindo-lhes contribuições de trigo para enviar a Roma. Mais tarde, porém, ao Cícero, por Plutarco

terem ocasião de pôr à prova o seu zelo, a sua justiça e a sua bondade, deram-lhe testemunhos tais de consideração, de estima e de respeito como nenhum magistrado romano em época alguma jámais os conheceu. Vários rapazes das melhores famílias de Roma, havendo sido acusados de insubordinação e de fraqueza no serviço militar, foram enviados à presença do pretor da Sicilia. Cícero advogou a sua causa com grande brilho e conseguiu-lhes a absolvição.

Cheio de confiança em si próprio, após estes sucessos, regressava a Roma, quando lhe sucedeu em caminho uma aventura interessante por ele mesmo referida. Ao atravessar a Campânia, encontrou um distinto romano que tratava como amigo. Persuadido de que Roma estava cheia do seu nome, perguntou-lhe o que lá se pensava dele e o que se dizia dos seus feitos.

- Oh! Cícero! Onde estiveste durante todo este tempo? - perguntou-lhe a personagem.

Cícero, no primeiro momento, perdeu toda a calma, ao constatar que a sua reputação em Roma ainda estava escondida, como mergulhada num mar imenso, sem lhe ter proporcionado ainda uma sólida glória.

A sua reflexão diminuiu com a ambição. Percebeu que essa glória a que aspirava era um campo sem limite, sem meta. Entretanto, o prazer de ouvir o elogio e o amor da glória foram, em toda a sua vida, a sua paixão dominante e o impediram muitas vêzes de seguir, no seu modo de proceder, os sábios conselhos da razão.

VII. Decidido a vencer, ao assumir os negocios do governo, achou vergonhoso que um homem de Estado, cujas funções públicas não se exercem senão pelo conhecimento das pessoas, não se apressasse a conhecer os seus concidadãos, tal como o artesão procura saber e conhecer minuciosamente o nome e o emprego dos ferros e dos instrumentos de que deve utilizar-se no seu ofício. Acostumou-se, não somente a reter os nomes das mais importantes figuras, mas ainda a saber os seus endereços na cidade, suas casas no campo, seus amigos, seus vizinhos. Não existia na Itália uma só região da qual Cícero não pudesse falar com conhecimento e mostrar, visitando-a, as terras e as casas dos seus amigos.

Suas posses eram modestas, mas suficientes para as despesas. Todos se admiravam de que não cobrasse um vintém pelas causas que advogava. Esse desinteresse ele focalizou-o por ocasião da acusação que produziu contra Verres 13. Verres havia sido pretor na Sicília e, no exercício do cargo, cometera excessos revoltantes. Os sicilianos levaram-no à barra do tribunal. E Cícero fê-lo condenar, não por falar contra ele mas, por assim dizer, por deixar de falar. Os pretores queriam salvar Verres: procuraram protelar o processo, conseguindo adiamentos contínuos até ao último dia das audiências. Era evidente que um dia não era bastante para o debate e que a sentença não poderia ser conseguida. Cícero se levanta e diz que não se fazem necessários os debates: ouve as testemunhas, tira as conclusões e obriga os juízes a se pronunciarem.

Recordam-se, entretanto, vários trechos que ele pronunciou no decorrer do processo. Os romanos chamam verres (varão) ao porco que não é castrado. E, como um liberto chamado Cecílio, que passava por ser um adepto da religião dos judeus 14, quisesse desviar a atenção dos sicilianos da marcha do processo, Cícero perguntou:

- Que há de comum entre um judeu e um varão? 15

Verres tinha um filho moço, que passava por usar desonestamente da sua beleza física. Tendo Verres classificado Cícero de efeminado, este respondeu:

- É essa uma censura que ele precisa fazer aos seus filhos, a portas fechadas.

Cícero, por Plutarco

O orador Hortênsio 16 não teve coragem de defender Verres pessoalmente. Obteve-se dele, porém, que estivesse presente no momento da fixação da multa. Como recompensa desta condescendência, Hortênsia recebeu uma esfinge de marfim. Como Cícero lhe dirigisse algumas palavras, cujo sentido não fosse bem claro, respondeu Hortênsio:

- Não sei adivinhar enigmas.

Ao que Cícero replicou:

- Entretanto, a esfinge está em teu poder.

VIII. Verres foi condenado e Cícero fixou a multa em 750 mil dracmas. Acusam-no de haver recebido dinheiro para limitar a multa a essa módica quantia. Entretanto, quando foi nomeado edil, os sicilianos, querendo testemunhar-lhe o seu reconhecimento, levaram-lhe da ilha vários ricos presentes. Cícero, porém, não fez uso de nenhum desses presentes e não se aproveitou da boa vontade dos sicilianos a não ser para conseguir a baixa no preço dos cereais. Cícero possuía em Arpinum uma bela casa de campo, uma propriedade nos arredores de Nápoles e outra, do mesmo tamanho, perto de Pompéia. O dote de Terência, sua mulher, era de 120 mil dinheiros e recebeu urna herança orçada em 90 mil. Com esta fortuna, vivia honrada e sabiamente no meio dos elementos mais instruídos da sociedade grega e romana.

Era raro sentar-se à mesa antes do pôr-do-sol, menos em virtude das suas ocupações do que da debilidade do seu estômago. Para a sua saúde, usava de precauções extremas. Fazia diariamente um número certo da fricções e caminhadas. Conseguiu, com este regime, fortalecer seu temperamento, tornando-se são e vigoroso, capaz de suportar as penosas e rudes lutas do trabalho.

Entregou a seu irmão a casa paterna e se alojou no Palatino 17, a fim de que seus clientes não tivessem o incômodo de procurá-lo longe. Todas as manhãs batia à sua porta tanta gente como à porta de Crasso e Pompeu, os mais honrados romanos e os de maior renome: um, por causa das suas riquezas; o outro, pela autoridade de que gozava no exercito. O próprio Pompeu procurava Cícero, e o apoio que lhe emprestou o orador foi-lhe utilíssimo para aumentar o podar e a glória.

IX. Quando Cícero pleiteava a pretoria, várias pessoas de prestígio se encontravam na sua frente: todavia, foi ele o nomeado em primeiro lugar. As sentenças que proferiu durante a sua magistratura granjearam-lhe uma sólida reputação de justiça e probidade. Licínio Mácer, homem de valor próprio e, além disso, sustentado inteiramente por Crasso, foi acusado de crime de peculato diante de Cícero.

Estribado na confiança que lhe dava a sua riqueza e no prestígio dos amigos, era tal a convicção de que triunfaria daquela situação que, quando os juízes começaram a proceder à votação, correu à sua casa, mandou cortar o cabelo, vestiu uma toga branca, disposto a retornar ao Fórum. Foi quando Crasso se dirigiu ao seu encontro e lhe avisou que havia sido condenado por unanimidade de votos. O choque sofrido por Licínio foi tão forte que morreu subitamente. Essa sentença despertou muita simpatia por Cícero, em virtude da firmeza com que se conduzira durante os debates. Vatinio, homem rude, que nos seus discursos tratava muito friamente os juízes, tinha o pescoço cheio de escrófulas. Aproximou-se um dia da tribuna de Cícero e perguntou-lhe alguma coisa. Como o pretor custasse a lhe responder, necessitando de tempo para refletir, assim falou Vatinio:

- Se eu fosse pretor, não trepidaria em responder.

Ao que Cícero retrucou, voltando-se para o seu interlocutor:

- Também, não possuo um pescoço tão grande como tu. 18

Cícero, por Plutarco

Dois ou três dias antes de expirar o seu cargo, levou-se Manílio à sua presença, acusado de peculato.

Manílio tinha a seu favor a simpatia do povo, que acreditava estar ele disposto a defender a causa de Pompeu, de quem era amigo. O acusado perguntou se lhe podiam conceder alguns dias de prazo para responder aos quesitos. Cícero notificou-o para o dia seguinte. Esse fato irritou bastante o povo, pois a tradição estabelecia, entre os pretores 19, o prazo de dez dias pelo menos aos acusados. Os tribunos levaram Cícero, por isso, diante da assembléia do povo e o acusaram de ter cometido um ato arbitrário.

Cícero pediu que o ouvissem.

- Tendo sempre tratado os réus - disse - com toda a equidade e humanidade, de acordo com a lei, eu me julgaria culpado se não houvesse tratado Manílio da mesma forma que os outros. Dei-lhe propositadamente o último dia de que ainda podia dispor, do meu cargo. Efetivamente, se tivesse enviado a outro pretor o julgamento desse processo, não lhe poderia ter prestado nenhum serviço.

Essa justificação produziu no animo do povo uma transformação profunda. Cícero foi alvo de elogios e, ao mesmo tempo, convidado a defender ele próprio a causa de Manílio. Aceitou-a de boa vontade, sobretudo em atenção a Pompeu, que se achava ausente.

X. Contudo, o partido dos nobres não se mostrou menos entusiasmado do que o povo para elevá-lo ao consulado. O interesse publico reuniu, nessa ocasião, todos os elementos de que dispunha e pela seguinte razão. As modificações operadas por Sila no governo, que a princípio foram encaradas como audaciosas, pareciam, por efeito do tempo e do hábito, ter tomado um aspecto de estabilidade, sem desagradar à massa popular. Homens, porém, movidos por um espírito de cupidez notável, cegos quanto ao bem geral, procuravam agitar e subverter tal estado de coisas. Pompeu se achava ocupado com a guerra contra os reis do Ponto e da Armênia. Ninguém em Roma possuía força bastante para deter os faciosos. Seu chefe era Lúcio Catilina, tipo audacioso e empreendedor, de um caráter que sabia se adaptar a todas as circunstâncias. A todas as culpas que lhe imputavam, acrescia o incesto com sua própria filha e o assassínio do seu irmão. Temendo que fosse levado à barra da justiça em virtude deste ultimo crime, ele se empenhara com Sila para incluir o irmão no número dos proscritos, como se ainda fosse vivo. Os celerados de Roma cerraram fileiras em torno do chefe. E, não contentes em comprometer mutuamente a sua fé com os juramentos ordinários, degolaram um homem e lhe comeram toda a carne. 20

Catilina havia corrompido grande parte da juventude romana, prodigalizando-lhe todos os prazeres, banquetes, mulheres, nada poupando para que tudo saísse a seu contento. Já toda a Etrúria e a maior parte dos povos da Gália Cisalpina estavam dispostos à revolta. E Roma se encontrava ameaçada de um movimento subversivo, em virtude da desigualdade reinante entre as fortunas, causa da ruína dos cidadãos mais distintos por seu nascimento e pela sua coragem. Estes, consumindo suas riquezas em espetáculos, festins, brigas pelos cargos, construções de edifícios, tinham visto passar seus bens para as mãos de homens abjetos e desprezíveis. Tudo havia chegado a tal ponto que, para derrubar o governo, não seria preciso mais do que um leve impulso dado pelo primeiro aventureiro que aparecesse.

XI. Seja como for, Catilina, a fim de assegurar à sua empresa um sólido e firme ponto de apoio, enfileirou-se entre os candidatos ao Consulado. Fundava ele suas grandes esperanças em um colega: Caio Antônio 21, homem por si só incapaz de chefiar um bom ou mau partido, mas que se tornaria um forte ponto de apoio para um colega enérgico. Os bons cidadãos, prevendo o perigo que ameaçava a República, levaram Cícero ao consulado, quase por unânimidade. O povo escolheu Cícero. Catilina foi rejeitado e Cícero nomeado cônsul com Antônio. De todos os candidatos, Cícero era, portanto, o único nascido de um pai simples cavaleiro e não senador.

Cícero, por Plutarco

XII. O povo ignorava ainda as conspirações de Catilina. Cícero, desde a sua entrada no Consulado 22, viu-se assoberbado de negócios difíceis: era o prelúdio dos combates que iria travar em seguida. De um lado, os que haviam sido excluídos da magistratura pelas leis de Sila e que, sem serem pouco poderosos nem pouco númerosos, se apresentaram para disputar os cargos: nos seus discursos ao povo eles se levantavam - tão cheios de verdade quanto de justiça - contra os atos tirânicos de Sila; mas empregavam mal seu tempo para realizar mudanças na República. De outro lado, os tribunos do povo propunham leis que seguramente subverteriam a ordem : reivindicavam o estabelecimento de dez comissários revestidos de um poder absoluto e que, dispondo como senhores da Itália, da Siria e das novas conquistas de Pompeu, tivessem o poder de vender as terras públicas, de instaurar os processos que desejassem, de banir à vontade, de fundar colônias, de usar dos dinheiros do Tesouro Público, de conservar e levantar tropas a seu talante. Essas leis eram apoiadas pelas pessoas mais consideradas de Roma e, à frente delas, Caio Antônio, o colega de Cícero que esperava vir a ser um dos decênviros. Acredita-se que ele não ignorasse os planos sediciosos de Catilina e não desgostaria de vê-los vitoriosos, pois se encontrava crivado de dívidas. É isso, sobretudo, o que horroriza os bons cidadãos. Cícero, para prevenir este perigo, fez dar a Antônio o governo da Macedônia e recusou para ele próprio o das Gálias, que lhe haviam destinado. Tendo prestado esse importante serviço a Antônio, Cícero esperou ter nele uma espécie de ator assalariado, que representaria, de acordo com ele o segundo papel num drama em que se tratasse da salvação da pátria. Conquistado ou domesticado Antônio, Cícero sentiu mais valentia e força para se erguer contra os que propunham inovações. Combateu no Senado a nova lei 23 e soube amedrontar tão bem os que a queriam votar, que estes não tiveram uma única palavra para lhe responder. Os tribunos da plebe fizeram novas tentativas e notificaram os cônsules para comparecerem perante o povo. Mas Cícero não se deixou assustar: fêz-se seguir pelo Senado ao Fórum e, subindo à tribuna, falou com tanto poder e brilho que a lei foi rejeitada. Além do mais, tirou aos tribunos toda esperança de sucesso nos outros projetos, tão completamente os havia vencido pela eloqüência!

XIII. Cícero foi, de todos os oradores, o que soube fazer sentir melhor aos romanos como o encanto da eloqüência amplifica o bem e como o direito é invencível, quando sustentado pelo talento e pela palavra!

Mostrou-lhes como o homem de Estado que quer governar bem deve, na sua conduta pública, preferir sempre o que é honesto ao que engana; mas que deve também, nos seus discursos, temperar a doçura da linguagem com o rigor dos atos que propõe. Nada prova melhor a graça da sua eloqüência do que o que fez no consulado, em relação aos espetáculos. Até então, os cavaleiros romanos haviam sido confundidos nos teatros com a multidão dos espectadores e se sentavam misturados com o povo. Marco Oton 24, porém, pretor, separou, como prova de distinção, os cavaleiros da multidão e lhes determinou lugares próprios que eles conservam ainda hoje. O povo sentiu-se ofendido com essa medida. E, quando Oton apareceu no teatro foi acolhido com uma vaia e assobios. Os cavaleiros, pelo contrário, o receberam com os mais vivos aplausos. O povo redobrou a assuada e os cavaleiros as ovações. Daí, a reciprocidade das injúrias e o teatro cheio de confusão. Cícero, informado da desordem, transportou-se imediatamente ao teatro e se fez seguir do povo ao templo de Belona: aí dirigiu aos amotinados severas e persuasivas admoestações, e o povo, retornando ao teatro, aplaudiu vivamente Oton e disputou com os cavaleiros quem lhe rendia mais honras e homenagens.

XIV. Entretanto, a conspiração de Catilina, que a princípio havia sido dominada, retomou sua audácia.

Os conjurados reuniram-se e decidiram meter mãos à obra ainda mais arrojadamente, antes que Pompeu -

que se dizia a caminho, seguido do seu exercito - voltasse a Roma. Os que mais insuflavam Catilina eram os antigos soldados de Sila, espalhados por toda a Itália e disseminados entre as cidades etruscas: esses homens sonhavam, uma vez ainda, com o roubo e a pilhagem das riquezas que tinham sob os olhos.

Cícero, por Plutarco

Tendo tomado Málio por chefe, um dos generais que haviam servido com honra sob Sila, entraram na conjuração de Catilina e se concentraram em Roma para o apoiar nas eleições, pois Catilina se fizera pretendente, pela segunda vez, ao Consulado, resolvido a matar Cícero no tumulto dos comícios.

Tremores de terra, raios, aparições de fantasmas, pareciam ser advertências do céu a respeito das conspirações que se tramavam. Recebiam-se também, da parte dos homens, indícios verdadeiros, mas que não bastavam ainda para abater uma personagem tão considerável pelo poder e pela nobreza como o era Catilina. Eis por que Cícero, tendo adiado o dia dos comícios, intimou Catilina a comparecer perante o Senado para interrogá-lo a respeito dos rumores que corriam. Catilina, persuadido de que havia no Senado mais do que um que desejava a revolução, e querendo também elevar-se aos olhos dos seus cúmplices, respondeu a Cícero com extrema arrogância:

- Que mal faço eu se, ao ver dois corpos, um com cabeça, mas magro e esgotado, e outro sem cabeça, mas robusto e grande, quero pôr uma cabeça neste último? 25

Cícero compreendeu que esse enigma era referente ao Senado e ao povo, e o seu pavor não fez mais do que aumentar. Pôs uma couraça e se fez escoltar da sua casa ao Campo de Marte, pelos principais cidadãos e por um grande número de moços. Entreabriu propositadamente sua túnica por debaixo das espáduas e deixou à mostra a couraça, dando assim a entender aos presentes que havia grande perigo.

Vendo isso, o povo, indignado, acercou-se dele. Enfim, Catilina fracassou mais uma vez e a votação foi favorável a Silano e Murena, que foram nomeados cônsules.

XV. Tendo os soldados da Etrúria, pouco tempo depois, se reunido para ficar às ordens de Catilina ao primeiro sinal, e aproximando-se o dia fixado para a execução da conspiração, três das primeiras e mais poderosas personagens de Roma, Marco Crasso, Marco Marcelo e Cipião Metelo, foram, na calada da noite, à casa de Cícero e bateram-lhe à porta. Chamando o porteiro, pediram-lhe que fosse acordar Cícero e anunciar-lhe a sua presença. Eis aqui do que se tratava. O porteiro de Crasso levara a seu senhor, ao sair da mesa, cartas que haviam sido entregues por um desconhecido e dirigidas a diferentes pessoas: entre elas havia uma para Crasso, mas sem assinatura. Crasso só leu a que trazia o seu endereço. Como lhe houvessem dito que Catilina devia, em breve, realizar uma carnificina em Roma e que lhe pediam que abandonasse a cidade, ele não teve tempo de abrir as demais. E, ou porque temesse o perigo que ameaçava Roma, ou porque procurasse se limpar das suspeitas que fizeram nascer as suas ligações com Catilina, o certo é que saiu a procurar Cícero imediatamente. O cônsul, após haver deliberado com eles, convocou o Senado de manhã cedo, remeteu as cartas aos seus respectivos destinatários e os convidou a lê-las em voz alta. Todas revelaram da mesma forma a existência da conspiração. Mas, depois que Quinto Arrio, antigo pretor, denunciou os ajuntamentos tumultuosos que se faziam na Etrúria, e que se soube, por outras denúncias, que Málio, à frente de um exército considerável, estava ao redor das cidades dessa província, para aí esperar os acontecimentos que se desenrolariam em Roma, o Senado votou um decreto pelo qual passava o govêrno às mãos dos cônsules e lhes ordenava que tomassem tôdas as medidas que julgassem convenientes para o bem do Estado e a salvação da República. É uma medida que o Senado raramente decide tomar e somente a toma quanto teme algum perigo.

XVI. Cícero, investido desse poder, confiou a Quinto Metelo os negocios exteriores e se encarregou ele próprio dos da cidade. Em geral, só caminhava pelas ruas de Roma escoltado por grande número de cidadãos e, quando ia ao Fórum, o seu lugar se enchia logo da multidão que o acompanhava. Catilina, impaciente com uma espera tão longa, resolveu correr ao campo de Málio. Antes, porém, de deixar Roma, encarregou Márcio e Cetego de irem, pela manhã, armados de punhais, à porta de Cícero e, fingindo saudá-lo, atirar-se sobre ele e matá-lo. Uma mulher de nascimento ilustre, Fúlvia, passou a noite Cícero, por Plutarco

na casa de Cícero para inteirá-lo do que se forjava e recomendar-lhe que ficasse em guarda contra Cetego. Os assassinos, de manhã cedo, para lá se dirigiram. E como lhes fosse recusada permissão para entrar, lamentaram-se em altos brados e fizeram grande barulho à porta, o que veio aumentar mais ainda as suspeitas. Assim que saiu, Cícero convocou o Senado no templo de Júpiter Stator, como chamam os romanos a esse deus que se encontra à entrada da rua sagrada, na subida para o Palatino. Catilina aí compareceu com os demais senadores, como se quisesse justificar-se das acusações que lhe faziam. Mas nenhum senador quis colocar-se perto dele. Abandonaram por completo o banco em que Catilina se sentava. Todavia, começou a falar. Sua voz, porém, não conseguiu dominar os clamores. Por fim, Cícero se levanta e ordena-lhe que abandone a cidade.

- Uma vez que empregamos no govêrno, - disse Cícero, -, eu a palavra e tu as armas, é preciso que um muro se erga entre nós.

Catilina saiu rapidamente de Roma, à frente de trezentos homens armados. Fazia-se preceder - como se fora um comandante militar - de litores com seus feixes. Carregavam-se diante dele as insígnias.

Marchou, dessa maneira, para o campo de Málio. Aí após a realização de uma assembléia de vinte mil homens mais ou menos, saiu pelo país, captando a simpatia das cidades e revoltando-as. Era uma fórmula de declaração de guerra. Antônio foi enviado para combatê-lo.

XVII. Os cidadãos corrompidos por Catilina, que ficaram em Roma, foram convocados e encorajados por Cornélio Lêntulo, apelidado Sura, homem de família distinta, mas cuja conduta infame e cujos deboches provocaram a sua expulsão do Senado. Ocupava, então, a pretoria pela segunda vez, como é do uso entre os que querem restabelecer a sua dignidade de senadores. Quanto ao apelido de Sura, conta-se ter sido o seguinte o motivo pelo qual lhe foi dado. Sendo questor no tempo de Sila, consumiu ele, em despesas loucas, grande parte dos dinheiros públicos. Sila, irritado, pediu-lhe contas da sua administração em pleno Senado. Lêntulo, com um ar de indiferença e de desdém, disse que não tinha contas a prestar, mas que apresentava a sua perna: é o que fazem as crianças quando cometem qualquer falta no jogo da péla. Eis o fato que lhe acarretou o apelido Sura, que em latim quer dizer perna. De outra feita, citado em juízo, e tendo corrompido alguns dos juízes, só foi absolvido pela maioria de dois votos.

- Perdi - exclamou Sura - o dinheiro que dei a um dos que me absolveram, pois me bastava a maioria de um voto.

Um homem de tal caráter foi logo convencido por Catilina; e os falsos adivinhos, os charlatães acabaram de corrompê-lo com as vãs esperanças com que o embalavam. Anunciaram-lhe predições e oráculos à sua maneira, tirados falsamente dos livros sibilinos 26 e que afirmavam que era dos destinos de Roma possuir três Cornélios por chefes.

- Dois, - asseguraram-lhe, - já preencheram os seus destinos: Cina e Sila: tu és o terceiro que a Fortuna chama à monarquia. Põe, pois, a tua alma na empresa e não deixes escapar, como Catilina pelos seus adiamentos, a ocasião favorável.

XVIII. Lêntulo só formulava vastos e temerosos projetos. Resolvera massacrar o Senado inteiro e tantos cidadãos quantos pudesse. Atearia fogo na cidade e só pouparia os filhos de Pompeu. Propunha-se roubá-los e retê-los na sua companhia, como dois reféns que pudessem facilitar as negociações de paz com seu pai. Corria já um rumor por toda parte, com visos de verdade, de que Pompeu regressava da sua expedição. A execução da conspiração estava marcada para a noite das Saturnais 27. Haviam já amontoado e escondido, na casa de Cetego, espadas, estopas, enxofre. Designaram cem homens e alguns Cícero, por Plutarco

quarteirões da cidade, atribuídos pela sorte a cada um desses homens, a fim de que, atiçado o fogo ao mesmo tempo em vários pontos, a cidade fosse em um instante presa das chamas. Outros deviam cortar os condutos d'água, colocar-se ao pé das fontes e matar os que delas quisessem se acercar.

Enquanto tomavam tais disposições, encontravam-se em Roma dois deputados dos Alóbrogos 28 , povo duramente tratado pelos romanos e que suportava impacientemente a sua dominação. Lêntulo, persuadido de que estes dois homens podiam ser-lhe úteis para agitar a Gália e fomentar a revolta, fê-los entrar na conspiração e lhes deu cartas para o Senado do seu país, nas quais prometia a liberdade aos gauleses. Deram-lhes outras para Catilina pedindo-lhe que se apressasse em libertar os escravos e marchasse sobre Roma. Fizeram partir, com os Alóbrogos, um certo Tito, o Crotoniata, a quem fizeram portador de cartas para Catilina. Todas essas diligências, porém, desses homens levianos, que não falavam nunca sobre os seus negócios, a não ser quando embriagados e entre mulheres, Cícero as seguia com uma vigilância, um sangue-frio e uma prudência extremos. Ele havia, entretanto, espalhado pela cidade, grande número de pessoas fiéis, para espiar com cuidado e despistar em seu proveito tudo quanto se passava. Cícero chegava até a conferenciar secretamente com várias pessoas que os conjurados acreditavam ser seus cúmplices e que o informavam das relações que estes mantinham com os estrangeiros. De acordo com esses dados, Cícero colocou pessoas da sua confiança em emboscada durante a noite. Entrevistou-se secretamente com os dois Alóbrogos e fez prender o Crotoniata e apreender as cartas de que era portador.

XIX. Cícero, desde cedo, convocou o Senado no templo da Concórdia e leu as cartas apreendidas e ouviu as testemunhas. Júnio Silano declarou que ouvira Cetego dizer que já degolara três cônsules e quatro pretores. Pison, personagem consular, prestou um depoimento parecido, e Caio Sulpício, um dos pretores, enviado à casa de Cetego, aí encontrou grande quantidade de dardos e de armas, sobretudo espadas e punhais recentemente aguçados. Enfim, falou o Crotoniata, sob a promessa de impunidade que lhe fez o Senado se quisesse tudo confessar. E Lêntulo, convencido por Cícero, demitiu-se imediatamente do seu cargo de pretor, deixou no próprio Senado a sua toga de púrpura e tomou outra mais conforme com a sua presente situação. Ele e seus cúmplices foram confiados à guarda dos pretores, cujas casas lhes serviram de prisão. Como já fosse tarde e o povo esperasse em massa à porta, Cícero saiu e comunicou aos cidadãos o que se passara. O povo o conduziu até a casa de um dos seus amigos, seu vizinho, porque a sua estava ocupada pelas mulheres romanas que aí celebravam os sagrados mistérios da deusa que se chamava, em Roma, a Boa-Deusa, e, na Grécia, Ginecia. Todos os anos a mulher, ou a mãe do cônsul efetua, em sua casa, um sacrifício a essa divindade, em presença das vestais 29.

Cícero, ao entrar nessa casa, só tendo consigo muito poucas pessoas, refletiu sobre a conduta que devia ter para com os conjurados. A doçura do seu caráter e o temor de que o acusassem de haver abusado do poder que lhe outorgaram, punindo com o máximo rigor homens de tão nobre nascimento e que tinham em Roma amigos poderosos, levavam-no a vacilar quanto à pena que merecia a enormidade das suas culpas. Por outro lado, se os tratasse com doçura, fremia lembrando-se do perigo a que estaria exposta a cidade, pois os conjurados, longe de se acalmarem se se lhes infligisse qualquer pena mais branda que a morte, não fariam senão atirar-se com mais audácia ainda do que nunca a todos os crimes, aliando à sua antiga perversidade o ressentimento novo por essa injúria. E ele próprio passaria por um covarde, aos olhos do povo, que já não possuía uma bela idéia da sua valentia.

XX. Enquanto Cícero flutuava nessa incerteza, as mulheres que realizavam o sacrifício são testemunhas de um prodígio. Do fogo do altar que parecia quase extinto lançou-se, de repente, do meio Cícero, por Plutarco

das cinzas e das cascas queimadas, uma flama brilhante. O clarão dessa flama assustou os presentes. As virgens sagradas, porém, aconselharam Terência, mulher de Cícero, a ir procurar seu marido imediatamente e forçá-lo a apressar a execução, sem perda de tempo, das resoluções tomadas para a salvação da pátria, assegurando-lhe que a deusa havia feito flamejar aquela luz como um presságio de segurança e de glória para Cícero. Terência, que, de resto, não era de caráter fraco nem tímido; que possuía mesmo ambição e, como disse o próprio Cícero, partilhava mais com o marido o zelo pelos negócios públicos do que lhe comunicava os negócios domésticos, foi levar-lhe as palavras das vestais e o incitou vivamente contra os conjurados. A mesma coisa fizeram Quinto, irmão de Cícero e Públio Nigídio, seu companheiro de estudos de filosofia, homem cujos conselhos ele escutava, muitas vezes, sobre os mais importantes negócios do governo.

No dia seguinte, deliberou-se, no Senado, sobre a punição dos conspiradores. Silano foi convidado a falar em primeiro lugar e propôs que eles fossem conduzidos à prisão pública, para aí serem punidos com a pena capital. Todos os que falaram depois adotaram a sua opinião, até que chegou a vez de Caio César 30, o que depois foi ditador. César era ainda jovem e começava, naquele tempo, a lançar os fundamentos do seu grande futuro. Já mesmo, por suas astúcias políticas e por suas esperanças, abria o caminho que o conduziu enfim a trocar por uma monarquia o governo de Roma. Ninguém se apercebia disso. Só Cícero mantinha grandes suspeitas contra ele mas nenhuma prova suficiente para convencê-lo. Afirmam alguns que Cícero atingia o momento de confundi-lo, mas que César teve a habilidade de escapar-se. Pretendem outros que Cícero negligenciou e rejeitou mesmo, de propósito, as provas que possuía da sua cumplicidade, porque temia o seu poder e o grande número de amigos que o sustentavam. Todos estavam persuadidos de que os acusados seriam envolvidos na absolvição de César, bem antes do que César no seu castigo.

XXI. Quando chegou a sua vez de opinar, César levantou-se e declarou que não estava de acordo em que se punissem os conjurados com a pena de morte.

- É preciso - afirmou - confiscar seus bens e colocar suas pessoas nas cidades da Itália que Cícero deverá escolher, para os ter a ferros até a inteira derrota de Catilina.

Esse voto, mais suave que o primeiro, e sustentado com toda a eloqüência por César, recebeu ainda um grande peso do próprio Cícero, que, estando de pé, discutiu os dois votos e alegou fortes razões, primeiro em favor do de Silano, depois em favor do de César. Seus amigos, que encontraram na opinião de César o interesse de Cícero, porque, se deixasse viver os culpados, teria que temer menos censuras, adotaram o último voto, de preferência ao primeiro. O próprio Silano voltou ao seu primitivo pensamento e explicou que não pretendera a pena de morte porque encarava a prisão como o máximo suplício para um senador romano.

O primeiro que combateu o voto de César foi Lutácio Catulo; Catão 31 falou depois de Lutácio, e, insistindo com força sobre as suspeitas que havia contra César, encheu o Senado de tanta indignação e ousadia, que a sentença de morte foi, afinal, pronunciada contra os conjurados. Quanto à confiscação dos bens, César a ela se opôs, alegando que não era justo rejeitar o que seu voto continha de humano para só adotar a sua disposição mais rigorosa. Como a maioria se declarasse abertamente contra o seu voto, apelou para os tribunos, que recusaram interceder. Cícero, porém, tomou o partido mais brando e abandonou a questão do confisco dos bens.

XXII. À frente dos senadores, Cícero foi à prisão dos condenados, pois não tinham sido encarcerados em uma mesma casa: estavam confiados à guarda dos pretores. Cícero se dirigiu primeiro ao Palatino, Cícero, por Plutarco

onde estava Lêntulo, que ele mandou conduzir pela rua sagrada e através do Fórum. As principais figuras da cidade cerravam-se em torno do cônsul e lhe serviam de guarda. O povo, numa imensa multidão, seguia em silêncio, trêmulo de horror ao pensar que se preparava a execução. Os moços, sobretudo, assistiam a esse espetáculo com uma admiração misturada de terror, como nos mistérios sagrados que celebrava a nobreza pela salvação da pátria. Quando Cícero atravessou a praça e chegou à prisão, entregou Lêntulo ao carrasco e ordenou que fosse executado. Conduziu em seguida Cetego e cada um dos outros sucessivamente, fazendo-os executar. Cícero via, entretanto, na praça, vários cúmplices da conspiração que se haviam reunido e que, ignorando o que se passava, esperavam a chegada da noite para arrebatá-los à prisão, julgando-os ainda com vida. Cícero gritou-lhes:

- Eles viveram!

E a maneira de falar de que se servem os romanos que querem evitar palavras funestas, para não dizer: Eles morreram.

A noite tombava. Cícero atravessou o Fórum para retornar à casa, não mais em meio de um povo silencioso e que o escoltava na melhor ordem possível, mas rodeado de uma multidão de cidadãos que o cobriam de aclamações e de aplausos e que o chamavam de salvador, de fundador de Roma. As ruas estavam iluminadas de lâmpadas e tochas colocadas diante de cada porta. As mulheres iluminaram também o alto dos tetos em homenagem a Cícero e para contemplá-lo subindo com o seu majestoso cortejo de patrícios, cuja maioria havia tomado parte em guerras importantes, entrado em Roma em carros de triunfo, ou conquistado para o império uma vasta extensão de terras e de mares. Marchavam, confessando entre si que, se o povo romano devia às vitorias dos generais contemporâneos ouro e dinheiro, ricos despojos e a condição de grande potência, Cícero fôra o único que lhe dera a segurança e a salvação, afastando da pátria um perigo espantoso. O admirável, em tudo isso, não foi que tivesse prevenido a execução da conspiração e mandado punir os culpados, mas que tivesse sabido sufocar, pelos meios menos violentos, a mais vasta conspiração que jamais se formara em Roma, extinguindo-a sem sedições e sem perturbações. Com efeito, a maioria dos que se haviam agrupado em torno de Catilina, ao saberem do suplício de Lêntulo e de Cetego, abandonaram seu chefe, e este mesmo, tendo combatido contra Antônio com os que lhe ficaram fiéis, foi derrotado e pereceu, assim como todo o seu exército.

XXIII. Não obstante, havia pessoas que criticavam a conduta de Cícero e se preparavam para fazê-lo arrepender-se. À sua frente estavam César, Metelo e Béstia, - um, pretor, e os outros dois tributos, designados para o ano seguinte. Quando entraram em ação, restavam ainda alguns dias a Cícero de permanência no consulado. Não lhe permitiram, pois, falar ao povo e puseram bancos na tribuna a fim de impedir que ele assomasse nela. Deixaram-lhe apenas a liberdade de comparecer, se assim o quisesse, para se demitir do cargo e abandoná-lo em seguida. Cícero acedeu e subiu à tribuna como se fôra para só pronunciar o juramento. Fez-se um profundo silêncio. Mas, em lugar do juramento da praxe, Cícero pronunciou outro em tom completamente novo e que não convinha senão a si próprio. Jurou que salvaria a pátria e conservaria o império. Todo o povo repetiu, após ele o mesmo juramento. César e os tribunos, irritados com esse gesto, maquinaram contra Cícero outras intrigas. Propuseram, principalmente, uma lei que chamava Pompeu com as suas tropas, contando destruir assim o poder quase absoluto de Cícero.

Felizmente, para Cícero e para Roma, Catão era então tribuno, e, como possuísse uma autoridade igual à de seus colegas, com uma maior consideração, fez oposição aos decretos de César. Catão viu facilmente o momento de satisfazer os seus desejos e de tal forma exaltou em seus discursos ao povo o consulado de Cícero, que a este se concederam as maiores honras jamais concedidas a nenhum romano, dando-se-lhe o nome de pai da pátria, título honorífico que teve a glória de haver sido o primeiro a possuir, e que Catão Cícero, por Plutarco

lhe conferiu em presença de todo o povo.

XXIV. Cícero gozou da maior autoridade em Roma. Tornou-se, porém, odioso para muita gente, não que praticasse alguma ação má, mas porque geralmente chocava o fato de elogiar-se ele próprio, exaltar a glória do seu consulado. Não ia nunca ao Senado, às assembléias populares e aos tribunais que não tivesse na boca os nomes de Catilina e de Lêntulo. Chegou mesmo a encher com os seus próprios elogios todos os livros e escritos que compunha. E a sua eloqüência, tão cheia de doçura e de graça, tornava-se enfadonha e fatigante para o auditório. Essa afetação importuna era como uma doença fatal inoculada na sua pessoa. Todavia, permaneceu puro, apesar dessa ambição desmedida, de todo sentimento de inveja a respeito dos outros. Prodigalizava louvores não só aos grandes homens que o haviam precedido, mas também aos seus contemporâneos, como se vê nos seus escritos. Lembram-se também dele várias palavras caraterísticas. Ele dizia, por exemplo, de Aristóteles, que era um rio em que rolava ouro em fortes ondas, e, dos diálogos de Platão, que, se Júpiter quisesse falar, seria aquele o seu estilo.

Costumavam chamar a Teofrasto "a sua delícia". Como lhe perguntassem; certa vez, qual era dentre os discursos de Demóstenes o que achava mais belo, respondeu: "O mais longo". Entretanto, alguns dos que se dizem fiéis zeladores da memória de Demóstenes, lhe censuraram por haver escrito, numa carta a um dos seus amigos, que Demóstenes, nos seus discursos, provoca algumas vezes o sono. Esses censores, entretanto, parecem não se lembrarem dos admiráveis elogios que ele fez a Demóstenes em várias passagens das suas obras, e de que aos discursos em que trabalhou com mais cuidado, os que pronunciou contra Antônio, deu-lhes Cícero o nome de Filípicas. 32

Dentre todos os oradores e filósofos célebres do seu tempo, não houve um só que não tivesse a sua fama acrescida pelos louvores que Cícero espalhava em seus discursos e escritos. Apoiou com sucesso, junto a César já ditador, a Cratipo, o peripatético, com o fim de lhe conseguir o direito de cidadania romana. Obteve também, do Areópago, um decreto pelo qual se lhe pedia que ficasse em Atenas, para aí instruir os moços, sendo ele como era um dos ornamentos da sua cidade. Há cartas de Cícero a Herodo e outras a seu filho, em que o exorta a tomar as lições de Cratipo. Censura no retórico Górgias o haver inspirado a seu filho o gosto pelos prazeres, inclusive os da mesa, e recomenda que se abstenha de qualquer relação com ele É essa, talvez, a única carta de Cícero, além de uma outra a Pelops de Bizâncio, que foi escrita em tom amargo. Mas ele tinha razão de se queixar de Górgias, se, de fato, este era realmente tão vicioso e tão corrompido como parecia ser. Quanto à carta dirigida a Pelops, com estreiteza de ânimo e com ambição pueril, queixava-se da sua negligência em não lhe haver conseguido, da parte dos bizantinos, certos títulos honoríficos.

XXV. É sem dúvida à sua ambição que se devem atribuir essas misérias, assim como a falta que cometeu, muitas vezes, de sacrificar toda a conveniência à reputação do bem-dizer. Munácio 33, que Cícero defendera e conseguira absolver, começou a perseguir Sabino, um dos amigos do orador. Cícero ficou tão irritado que chegou ao ponto de dizer

- Pensas, então, Munácio, que é à tua inocência que deves o fato de teres sido absolvido, e não a mim, que, com a minha eloqüência, ofusquei a luz aos olhos dos juízes?

Cícero fez, certa vez, da tribuna, um elogio a Marco Crasso, tendo sido muito ovacionado e, pouco tempo depois, fez, ao mesmo uma censura amarga.

- Não foi neste mesmo lugar, - lhe disse Crasso, que me elogiaste há poucos dias?

- Sim, - respondeu-lhe Cícero, - eu queria experimentar o meu talento num tema ingrato.

Cícero, por Plutarco

De outra vez, Crasso dissera que nenhum dos Crasso em Roma tinha vivido mais de sessenta anos. Em seguida porém, se retratou

- Em quem pensava eu - disse - quando fiz tal afirmação?

- Tu sabias, - respondeu Cícero, - que os romanos ouviriam isso com prazer e quiseste fazer-lhes a corte.

Tendo dito Crasso que apoiava a máxima dos estóicos "o sábio é rico", respondeu Cícero:

- Cuidado, para que não adotes antes esta outra máxima estóica: "tudo pertence ao sábio".

É que Crasso estava muito desacreditado em razão da sua avareza. Um dos dois filhos de Crasso parecia-se perfeitamente com um certo Áxio, contra cuja mãe se levantavam suspeitas desairosas. Tendo sido esse moço aplaudido num discurso que fizera no Senado, pediu-se a Cícero a sua opinião a respeito dele. Cícero respondeu, em grego:

- É digno (é filho) de Crasso. 34

XXVI. Crasso, no momento da sua partida para a Síria, pensou que lhe seria mais útil reconciliar-se com Cícero do que o ter como inimigo: fez-lhe uma porção de presentes e mandou dizer-lhe que ia jantar com ele 35. Cícero o recebeu com prazer. Poucos dias após, alguns dos seus amigos foram dizer a Cícero que Vatinio, com quem ele brigara, desejava fazer as pazes.