Cícero por Plutarco - Versão HTML

ATENÇÃO: Esta é apenas uma visualização em HTML e alguns elementos como links e números de página podem estar incorretos.
Faça o download do livro em PDF, ePub, Kindle para obter uma versão completa.

- Vatinio, - disse Cícero, - quererá mesmo jantar comigo?

Era assim que ele fazia com Crasso. Esse Vatinio tinha o pescoço cheio de escrófulas. Um dia, em que havia atuado em um processo, Cícero comentou:

- Eis aí um orador bem empolado.

Foram dizer-lhe, um dia, que Vatinio morrera, mas como se soube, algum tempo depois, com toda a certeza, que Vatinio vivia, Cícero teve estas palavras:

- Maldito o que mentiu tão mal a propósito!

César ordenara se distribuíssem aos soldados terras da Campania e essa lei descontentou vários senadores. Lúcio Gélio, que era já muito velho, declarou que a partilha não se realizaria enquanto ele vivesse.

- Esperemos, - falou Cícero, - pois Gélio não pede longo prazo.

Um certo Otávio, de quem se lamentava a origem africana, disse um dia a Cícero que não o ouvia.

- Tu tens a orelha furada, replicou Cícero. 36

- Fizeste perecer mais cidadãos, - dizia-lhe Metelo Nepote, - prestando testemunho contra eles, do que os que salvaste com tua eloqüência.

- Concordo, - replicou Cícero, - que haja em mim ainda mais crédito e fé do que eloqüência.

Um rapaz, acusado de ter envenenado o próprio pai com um bolo, enfureceu-se contra Cícero e o Cícero, por Plutarco

ameaçou de liquidá-lo com injúrias.

- Prefiro tuas injúrias ao teu bolo - foi a resposta.

Públio Sextio, envolvido num processo criminal, pediu a Cícero e a outros amigos que o defendessem; mas falava tanto que não dava lugar a que seus defensores pronunciassem uma só palavra. Como os juízes iniciassem a votação e parecessem favoráveis ao acusado, disse Cícero:

- Aproveita a ocasião, Sextio, porque amanhã serás um homem particular.

Públio Cota, que se tinha na conta de um jurisconsulto, se bem que fosse homem sem conhecimentos e sem espírito, invocado certa feita por Cícero como testemunha, respondeu que não sabia nada.

- Crês, talvez, - obtemperou Cícero, - que te interrogo sobre direito?

Metelo Nepote, disputando contra ele, repetiu-lhe várias vezes:

- Cícero, quem é teu pai?

- Graças à tua mãe, - redarguiu Cícero, - ficas mais embaraçado do que eu para responder a semelhante pergunta.

Ora, a mãe de Nepote não possuía boa reputação. Quanto a Nepote, era de caráter leviano: enquanto foi tribuno, abandonou, de repente, suas funções para ir encontrar Pompeu na Síria. Depois, retornou a Roma, mais loucamente ainda. Quando morreu Filagro, seu preceptor, ele, fez-lhe um magnífico enterro e colocou sobre seu túmulo um corvo de mármore.

- Não podias fazer melhor, - comentou Cícero, pois teu preceptor te ensinou mais a voar do que a falar.

Marco Ápio, havendo dito, no exórdio de um discurso, que o amigo que ele defendia o tinha conjurado a trazer à causa exatidão, raciocínio e boa fé, disse Cícero:

- Como tens o coração tão duro para nada fazeres de tudo quanto te pediu teu amigo?

XXVII. Sem dúvida, é uma das qualidades do orador saber lançar, contra inimigos ou contra a parte adversa, brocardos amargos e mordazes. Cícero, porém, que os prodigalizava ao acaso, unicamente para fazer rir, tornou-se odiado, por isso, de uma porção de gente. Citarei alguns exemplos. Marco Aquílio tinha dois dos seus genros banidos. Cícero lhe chamava Adrasto 37. Lúcio Cota, que amava com vigor o vinho, era censor, quando Cícero se candidatou ao consulado. Tendo sentido sede no dia da eleição, Cícero, de pé, entre os amigos que o rodeavam, falou:

- Fazeis bem em ter medo que o censor se volte contra mim ao me ver bebendo água.

Encontrando-se na rua com Voconio, que levava três filhas em sua companhia, todas extremamente feias, gritou em voz alta:

- Esse homem ficou pai a despeito de Febo! 38

Marco Gélio, que passava por ter nascido em condição servil, certa vez lia cartas diante do Senado, com uma voz muito forte e muito clara.

- Não vos maravilheis, - bradou Cícero, - pois ele outrora foi apregoador.

Cícero, por Plutarco

Fausto, filho de Sila, o que havia possuído em Roma a autoridade soberana e havia levado à proscrição grande número de cidadãos, tendo dissipado a maior parte da sua fortuna e encontrando-se cheio de dívidas, anunciou a cessão de todos os seus bens aos seus credores.

- Prefiro os seus anúncios, - disse Cícero, - aos do seu pai.

XXVIII. Atraiu, assim, muitos ódios. Quanto à inimizade que lhe votaram Clódio e seus partidários, eis aqui o motivo que a gerou.

Clódio, jovem romano de nobre nascimento, mas insolente e audacioso, amava Pompéia, mulher de César. Certa vez, introduziu-se secretamente na casa de César, disfarçado em músico, pois as mulheres aí celebravam um sacrifício misterioso do qual são excluídos os homens. Não havia um só homem na casa, mas Clódio, adolescente ainda, e completamente imberbe, esperou que pudesse se misturar com as mulheres até chegar ao pé de Pompéia, sem ser reconhecido. Tendo entrado de noite em uma casa assim tão grande, perdeu-se. E caminhava de um lado para outro, quando foi encontrado por uma das escravas de Aurélia, mãe de César, que lhe perguntou seu nome. Forçado a responder, disse que procurava uma das aias de Pompéia chamada Abra. Reconhecendo a escrava que tal voz não era uma voz feminina, chamou aos gritos as mulheres: estas fecharam as portas, revistaram tudo e encontraram Clódio no quarto da moça com a qual entrara. O ruído que causou esse acontecimento obrigou César a repudiar Pompéia e a intentar contra Clódio um processo por impiedade.

XXIX. Cícero era amigo de Clódio e, no processo de Catilina, Clódio o auxiliara com grande dedicação e havia sido como uma espécie de guarda da sua pessoa. Clódio, em resposta à acusação, asseverou que naquele dia não se encontrava em Roma, estivera no campo, bem longe da cidade. Mas Cícero depôs dizendo que Clódio tinha ido naquele dia à sua casa tratar de um negócio, o que era verdade. De resto, Cícero prestou esse depoimento menos para atestar a verdade do que para curar as suspeitas de Terência, sua mulher. Terência odiava Clódio, por causa de sua irmã Clódia, que ela supunha ter querido desposar Cícero e se servir, para negociar esse casamento, de um certo Túlio, íntimo amigo e familiar de Cícero. Túlio ia todos os dias à casa de Clódia e lhe fazia assiduamente a corte, sendo a casa de Clódia vizinha da de Cícero. Terência suspeitava, pois, dos seus desígnios. Era, aliás, uma mulher de um caráter complicado. E, como dominasse Cícero, animou-o a pôr-se em oposição a Clódio e a depor contra ele. Vários cidadãos distintos depuseram também contra Clódio e o acusaram de perjuro, de ter cometido gatunices, de ter corrompido o povo a peso de dinheiro e de haver seduzido várias mulheres. Lúcido levou escravas que atestaram haver Clódio mantido comércio incestuoso com a mais jovem das suas irmãs, sendo ela mulher de Lúculo. Era crença geral, aliás, que Clódio havia desonrado suas duas outras irmãs, das quais uma, Terência 39, havia desposado Márcio Rex e a outra, Clódia, Metelo Celer. Davam a Clódia o apelido de Quadrantaria, porque um dos seus amantes lhe enviava, numa bolsa, pequenas moedas de cobre, em lugar de moedas de prata. Ora, os romanos chamam quadrans à menor das suas moedas de cobre. O que mais difamou Clódio em Roma foi o incesto com Clódia. Entretanto, o povo não se mostrou satisfeito com os que se haviam ligado contra Clódio, na carga dos seus depoimentos. Os juízes temeram que se usasse de violência e guarneceram o tribunal de gente armada. Quase todos, ao escreverem a sua opinião nos caderninhos, só traçavam letras confusas 40.

Pareceu, contudo, que os votos absolutórios estavam em maioria. Correu o boato de que os juízes haviam sido corrompido a peso de dinheiro. Também Catulo, ao encontrá-los assim, falou:

- Tivestes razão de pedir guardas para vossa segurança, com medo de que arrebatassem o vosso dinheiro.

Cícero, por Plutarco

Clódio vangloriou-se com Cícero de que o seu testemunho não havia merecido a fé dos juízes.

- Ao contrário, - respondeu Cícero, - vinte e cinco deles acreditaram em mim, e este é o número dos que te condenaram; e trinta não te quiseram crer, e estes só te absolveram depois de terem recebido o teu dinheiro.

César, chamado como testemunha contra Clódio, negou-se a depor.

- Minha mulher, - asseverou, - não cometeu adultério. Eu a repudiei porque a mulher de César deve estar isenta não somente das ações vergonhosas, mas ainda de toda e qualquer suspeita.

XXX. Clódio escapou a esse perigo e, nomeado tribuno do povo, começou logo a perseguir Cícero.

Opôs-lhe tantos embaraços quantos lhe foi possível e levantou contra ele toda espécie de gente. Por meio de leis populares, ganhou o favor da multidão e conseguiu outorgar a cada um dos dois cônsules províncias consideráveis: Pison teve a Macedônia e Gabínio a Síria. Fazia passar medidas políticas com a ajuda de uma multidão de indigentes e tinha sempre ao pé da sua pessoa um contingente de escravos armados. Dos três homens que gozavam, então, de mais autoridade em Roma, Crasso era o inimigo declarado de Cícero; Pompeu fazia valer seu prestígio com um e com outro; e César estava a ponto de partir para a Gália com o seu exército. Cícero procurou insinuar-se junto a César, se bem que César nunca tivesse sido seu amigo e o houvesse considerado suspeito desde a conspiração de Catilina.

Rogou-lhe, pois, que o levasse consigo, na qualidade de seu lugar-tenente. César aceitou o seu pedido e Clódio, vendo que Cícero ia escapar ao seu poder de tribuno, aparentou querer reconciliar-se com ele.

Era de Terência, dizia ele de quem se queixava quase que unicamente; quanto a Cícero, não falava mais dele senão com as palavras mais doces e mais honestas. Afirmava que não lhe queria mal absolutamente e não alimentava contra ele nenhum rancor. Não lhe fazia senão leves censuras e, assim mesmo, num tom todo amigável. Conseguiu, dessa forma, dissipar todos os receios de Cícero, que agradeceu a César a nomeação de lugar-tenente e voltou a se ocupar com a gestão dos negócios públicos.

César, ofendido com essa atitude, apoiou Clódio nos seus desejos e apartou completamente de Cícero o espírito de Pompeu e declarou, diante do povo, que Cícero lhe parecia haver ferido a justiça e as leis, fazendo executar Lêntulo e Cetego sem nenhuma formalidade legal. Era, sob esse aspecto, que intentava a acusação contra Cícero e era a respeito desse fato que o intimava a responder. Cícero, para conjurar o perigo e escapar à perseguição dos seus inimigos, tomou a toga de luto, deixou crescer os cabelos e a barba e saiu por toda parte a suplicar ao povo o voto em seu favor. Clódio saiu no seu encalço, seguido de um grupo de homens violentos e audaciosos, que troçaram de Cícero pela sua mudança de traje e pelo seu ar abatido. Fizeram-lhe mil ultrajes, chegando mesmo ao ponto de lhe atirarem lama e pedras, com o fim de impedir que fizesse as suas solicitações ao povo.

XXXI. Entretanto, a ordem equestre quase toda tomou luto, como Cícero, e mais de vinte mil jovens o acompanharam, de cabelos crescidos, solicitando, com ele o favor do povo. O Senado reuniu-se para decretar que o povo mudasse de trajes, como num luto público. Os cônsules, porém, se opuseram a esse decreto, e Clódio, foi sitiar o lugar do conselho com seus homens armados, e maior parte dos senadores saiu soltando fortes gritos e rasgando suas togas. Mas, esse triste espetáculo não inspirava nem compaixão nem vergonha na alma dos inimigos de Cícero. Era necessário que Cícero se exilasse ou que decidisse pelas armas a sua querela com Clódio. Cícero pediu ajuda de Pompeu, que se afastara propositadamente e se encontrava no campo, na sua casa de Alba. Cícero lhe enviou primeiramente Pison, seu genro, depois foi ele próprio. Prevenido da sua chegada, Pompeu não quis o encontro. Estava Cícero, por Plutarco

envergonhado da sua conduta para com um homem que se havia empenhado por ele em tão grandes lutas e lhe tinha prestado tão notáveis serviços políticos. Mas Pompeu era genro de César. Sacrificou às exigências de seu sogro uma velhíssima amizade e saiu da sua casa por uma porta dos fundos. Evitou, assim, a entrevista.

Cícero, sentindo-se traído por Pompeu e abandonado de todo mundo, recorreu aos cônsules. Gabínio sempre se mostrou seu desafeto, mas Pison falou com mansidão e o aconselhou a retirar-se, a ceder por algum tempo aos impulsos de Clódio, a suportar pacientemente esse revés da fortuna e se considerar ainda, pela segunda vez, o salvador da sua pátria agitada, a esse tempo, por sedições funestas. Cícero procurou seus amigos para orientar-se nesse sentido. Lúculo foi de opinião que ele ficasse, assegurando-lhe que triunfaria dos seus inimigos. Os outros, porém, o aconselharam a que se exilasse voluntariamente por algum tempo, crentes como estavam de que o povo, uma vez satisfeito dos furores e das loucuras de Clódio, não tardaria a lastimá-lo. Cícero aceitou este último alvitre. Possuía, desde muito tempo, em sua casa, uma estátua de Minerva, que ele cultuava com especial devoção. Tomou-a e a levou ao Capitólio 41, onde consagrou-lhe esta inscrição: A Minerva, protetora de Roma. Depois, fez-se acompanhar de alguns amigos, saiu da cidade por volta da meia-noite e seguiu por terra a estrada de Lucânia, procurando o rumo da Sicília.

XXXII. Assim que se espalhou a notícia da fuga de Cícero, Clódio baixou contra ele um decreto de banimento, e mandou afixar uma ordem em que era proibido dar-lhe água e fogo, e recebê-lo em casa a uma distância de quinhentas milhas da Itália. O respeito, porém, que Cícero infundia foi bastante para que esta última medida fosse desprezada. Por toda parte, teve ele uma acolhida solícita e era acompanhado com demonstração da mais viva consideração. Somente em Hiponium, cidade da Lucânia, chamada hoje Vibone, o siciliano Víbio, a quem Cícero havia dado várias provas de amizade, e que tinha sido, durante o seu consulado, o intendente dos operários, não o recebeu em sua casa e lhe pediu que se retirasse da sua terra. E Caio Virgílio, pretor da Sicília, que devia grandes obrigações a Cícero, escreveu-lhe, pedindolhe que não fosse à Sicília. Lacerado com essa ingratidão, seguiu para Brindis, onde embarcou para Dirráquium, levando vento favorável. Como, porém, durante o dia, soprasse um vento contrário, Cícero aportou de novo à Itália. Imediatamente retomou a rota marítima; e, ao chegar a Dirráquium, quase prestes a desembarcar, registrou-se, afirma-se, um tremor de terra e ao mesmo tempo um súbito refluxo das aguas. Os áugures conjeturaram sobre esse prodígio, assegurando que o seu exílio não seria de longa duração; que essas espécies de sinais pressagiavam uma mudança favorável.

Em Dirráquium, ele foi visitado por uma multidão que lhe testemunhou vivo interesse, e as cidades gregas disputavam entre si qual prestaria a Cícero maiores homenagens. Ninguém, porém, conseguiu insuflar-lhe coragem nem dissipar-lhe a tristeza. Semelhante a um amante infeliz, voltava, sem cessar, os seus olhares para a Itália. Humilhado, abatido pelo seu infortúnio, mostrou várias vezes fraqueza e pusilanimidade, o que não se podia esperar de um homem que passara a sua vida mergulhado no estudo.

Assim, por mais de uma vez, pedira aos seus amigos que não lhe chamassem orador, mas filósofo.

- Eu me acho ligado à filosofia, - costumava dizer, - como ao fim de todas as minhas ações, e a eloqüência não é para mim senão o instrumento da minha política.

A opinião não tem senão o poder bastante para apagar da nossa alma as impressões da razão, como uma tintura que não penetrou profundamente, e os homens de Estado, à força de lidar com o povo, acabam por se impregnar das paixões vulgares, a menos que velem por si próprios com uma atenção ininterrupta. É preciso estar, exteriormente, em contacto com os negócios, mas não com as paixões que Cícero, por Plutarco

determinam os negócios.

XXXIII. Clódio, depois de ter banido Cícero, incendiou as suas casas de campo e a sua habitação em Roma, em cujo local mandou edificar o templo da Liberdade. Pôs em leilão os seus bens e todos os dias os fazia apregoar, sem que se apresentasse um só comprador. Tornando-se, pelas suas violências, temível a todos os nobres, pois dispunha do povo, que ele deixava abandonar-se a todos os excessos da licença e da audácia, ameaçou levantar-se contra Pompeu e censurou algumas medidas que tomara quando no comando dos exércitos. Pompeu, cuja reputação era alvo de ataques, lamentou-se de haver abandonado Cícero. E mudou de idéia. Ligou-se com seus amigos para conseguir a volta do orador. Clódio resistiu a esses esforços, mas o Senado decretou que ficaria suspensa a ação de todos os negócios públicos, até que fosse decretada a volta de Cícero. Sob o consulado de Lêntulo, a sedição avançara tanto, que houve tribunos do povo feridos em praça pública. Quinto, irmão de Cícero, foi abandonado como morto entre muitos outros. A lembrança desses excessos começou a sossegar o povo; e o tribuno Ânio Milon foi o primeiro a arrastar Clódio à barra do tribunal, para responder por violências cometidas. A maioria do povo e dos habitantes das cidades vizinhas se aliou a Pompeu que, seguro de tal ajuda, expulsou Clódio da praça pública e convocou os cidadãos para nova eleição. Jamais, afirma-se, decreto algum foi baixado pelo povo com tanta unanimidade. O Senado rivalizou em zelo com o povo e deliberou que se enviassem agradecimentos a todas as cidades que haviam acolhido Cícero no seu exílio e que a sua casa de Roma, com as suas habitações de campo incendiadas por Clódio, fossem reconstruídas a expensas do tesouro público.

Cícero voltou a Roma depois de 16 meses de exílio. Todas as cidades e todas as populações demonstraram tanta alegria e tanta ânsia em ir ao seu encontro, que Cícero dizia a verdade quando afirmava que a Itália inteira o conduzira a Roma sobre os seus ombros. O próprio Crasso, que já era seu inimigo antes do exílio, saiu também ao seu encontro e se reconciliou com ele querendo assim causar prazer a seu filho Públio, que era um dos mais ardentes admiradores de Cícero.

XXXIV. Aproveitando-se da ausência de Clódio, pouco tempo depois, Cícero foi ao Capitólio, acompanhado de vários cidadãos, arrancou as tábuas tribunícias em que se inscreveram os atos do tribunato de Clódio e as desfez em pedaços. Clódio quis, por isso, acusá-lo como criminoso.

Respondeu-lhe Cícero que foi desprezando a lei que Clódio, patrício de nascimento, chegara ao tribunato. Portanto, nada do que havia decretado, durante o exercício do seu cargo, era legal. Catão ficou descontente com essa violência e combateu o motivo invocado por Cícero. Não que ele aprovasse os atos de Clódio: pelo contrário, reprovava a sua administração, mas o Senado não podia, na sua opinião, sem injustiça, e sem abuso de autoridade, anular decretos e atos tão importantes, dos quais um, entre outros, era a comissão para a qual ele havia sido nomeado e que devia desempenhar em Chipre e Bizâncio.

Reinou, depois dessa questão, certa frieza entre Catão e Cícero, não que chegasse à ruptura decisiva, mas viveram daí por diante com menos intimidade.

XXXV. Pouco tempo depois, Milon matou Clódio e, processado por esse assassínio, encarregou Cícero de sua defesa. O Senado, temeroso de que o perigo em que se encontrava um homem considerado e violento como Milon causasse alguma perturbação em Roma, encarregou Pompeu de presidir não só a esse julgamento mas também aos outros processos e de velar pela segurança na cidade e nos tribunais.

Pompeu distribuiu, na véspera, soldados pelo Fórum e pelos lugares que o dominam. Milon, de medo que Cícero, perturbado por esse espetáculo incomum, não falasse com a sua eloqüência habitual, convenceu-o de que se devia transportar ao Fórum em liteira e conservar-se em repouso até que os juízes chegassem e que o tribunal começasse a funcionar. Cícero era tímido, ao que parece, não só quando se Cícero, por Plutarco

tratava de guerra, mas até quando se tratava de ir à tribuna. Jamais começava um discurso sem experimentar certo temor, embora uma longa prática tivesse fortalecido e aperfeiçoado a sua eloqüência, o que devia impedilo de tremer e comover-se. Advogado de Lúcio Murena 42, acusado por Catão, mostrou-se tão fatigado por esse trabalho extenuante e pela longa vigília, que pareceu inferior a si próprio. No dia do julgamento de Milon, quando, ao sair da, sua liteira, viu Pompeu sentado no alto do tribunal, como num campo e, em torno dele, soldados com armas reluzentes, ficou completamente emocionado e não começou seu discurso senão com grande dificuldade, o corpo todo tremendo e falando com uma voz entrecortada, ao passo que Milon assistia aos debates com um ar confiante e corajoso, desdenhando deixar crescer os cabelos e tomar uma roupa de luto. Foi isso, creio eu, o que mais contribuiu para a sua condenação. De resto, o terror de Cícero em tais circunstâncias parecia devido menos à sua timidez do que à sua afeição pelos amigos.

XXXVI. O colégio dos sacerdotes, a que os romanos chamam áugures, recebeu-o, em substituição a Crasso, o jovem, que fôra morto pelos Partos. Tendo-lhe cabido por sorte a Cilicia 43, na partilha das províncias, com um exército de doze mil homens de infantaria e dois mil e seiscentos de cavalaria, para lá embarcou. Levava, também, a missão de reconciliar os capadócios 44com o rei Ariobarzanes e de reconduzi-los à obediência. Conseguiu-o, sem dar lugar a nenhuma queixa e sem recorrer às armas. Os desastres experimentados pelos romanos no país dos Partos 45 e os movimentos da Síria que contaminaram os Cilicianos do espírito de revolta, ele os remediou e conteve pela brandura do seu governo. Recusava presentes, mesmo os que lhe eram oferecidos pelos reis, e repunha nos cofres da província as despesas da sua mesa. Recebia, à própria custa, pessoas cuja convivência lhe era agradável.

Tratava-as sem magnificência, porém com muita liberalidade. Não havia porteiro em sua casa e jamais alguém o encontrou na cama. Levantava-se de manhã cedo, passeava pelo quarto, acolhendo gentilmente os que iam saudá-lo. Nunca ninguém, com o seu consentimento, apanhou com varas e teve a sua roupa rasgada. Jamais, mesmo em estado de cólera, pronunciou uma palavra ofensiva ou impôs alguma multa que pudesse parecer injuriosa. Os fundos públicos tinham sido dilapidados: ele enriqueceu as cidades, fazendo-as recobrar o que haviam perdido. E, sem ferir ignominiosamente os prevaricadores, contentou-se em fazê-los devolver aquilo de que se tinham apossado. Teve de fazer uma guerra: pôs em fuga os bandidos que habitavam o Amanus 46. Essa vitória levou os soldados a dar-lhe o título de imperator 47 . O orador Célio pediu-lhe que enviasse panteras da Cilicia para as diversões que estava organizando em Roma. Cícero respondeu-lhe, algo envaidecido com as suas façanhas, que não havia mais panteras na Cilicia: tinham todas fugido para a Cária, furiosas de serem elas as únicas contra as quais se fez a guerra, enquanto que o resto da província vivia em paz.

Ao voltar da Cilicia, passou primeiramente em Rodes, depois em Atenas, onde se demorou prazerosamente algum tempo, pela lembrança que lhe trazia a estada que aí fizera outrora. Conversou em Atenas com os homens mais eminentes pelo saber e visitou os seus amigos e familiares que aí se encontravam então. Após haver recebido da Grécia um justo tributo de admiração, retornou a Roma, onde encontrou os negócios públicos em combustão, por assim dizer, e a guerra civil a ponto de rebentar.

XXXVII. O Senado quis lhe conceder o triunfo. Respondeu Cícero que seguiria com mais satisfação o carro triunfal de César, depois de feita a paz com ele. Não cessava, em particular, de aconselhar essa paz.

Escrevia frequentemente a César, da mesma maneira que a Pompeu, não poupando esforços no sentido de abrandar os seus dissentimentos. O mal, porém, era irremediável e, quando César avançou sobre Roma, Pompeu, em lugar de o esperar, abandonou a cidade seguido de um número considerável de cidadãos ilustres. Cícero não o acompanhou nessa fuga. Acreditava-se que ele se fosse juntar a César. É

Cícero, por Plutarco

verdade que oscilou durante muito tempo entre os dois partidos em vésperas de violenta agitação. Ele próprio escreveu nas suas Cartas: "De que lado devo me colocar? Pompeu tem, para fazer a guerra, um motivo glorioso e honesto. César, porém, se há de conduzir melhor nesta terrível crise e há de saber fazer melhor pela sua salvação e pela dos seus amigos. Sei muito bem que devo fugir, mas não vejo quem me dará refúgio".

Trebácio, um dos amigos de César, escreveu a Cícero dizendo-lhe que era pensamento de César que ele se devia juntar ao general e partilhar das suas esperanças, ou que, se sua idade não permitisse esse caminho ativo, devia retirar-se para a Grécia e aí viver tranquilamente, livre de compromissos com um e outro partido. Cícero, admirado de que César não lhe tivesse escrito diretamente, respondeu a Trebácio cheio de cólera, afirmando que não tomaria nenhuma atitude indigna dos atos políticos da sua vida. Eis o que se encontra, com os próprios termos seus, nas suas Cartas.

XXXVIII. Havendo César partido para a Espanha, Cícero embarcou imediatamente, a fim de se reunir a Pompeu. Todos viram com prazer essa resolução, exceto Catão, que, à sua chegada, o chamou em particular e reprovou-lhe o haver abraçado o partido de Pompeu.

- Quanto a mim - disse-lhe Catão - não posso, sem me causar prejuízo, abandonar uma causa a que estou ligado desde a minha estréia nos negócios públicos. Mas tu, porventura, não terias sido mais útil à tua pátria e aos teus amigos ficando neutro em Roma e adaptando a tua conduta aos acontecimentos, em lugar de vires aqui, sem razão e sem necessidade, declarar-te inimigo de César e empenhar-te em tão grande perigo?

Essas observações foram o bastante para que Cícero mudasse de opinião, tanto assim que Pompeu não o designou para nenhum cargo de importância. É verdade que Cícero não devia queixar-se senão de si próprio, pois não negava que se havia arrependido. Pilheriava francamente dos prepa rativos de Pompeu, desaprovava intimamente os seus projetos e não deixava de atirar contra os aliados os seus brocardos e ditos espirituosos. Passeava durante todo o dia pelo campo com um ar sério e morno, mas não deixava escapar nenhuma ocasião de fazer rir aos que não tinham vontade de divertir-se. Talvez não seja mau examinar aqui o seu aspecto de humorista.

Domício queria conferir um posto superior a um homem pouco afeito à guerra e louvava a pacatez e a honestidade dos seus costumes.

- Por que não o guardas, - replicou Cícero, - para educador dos teus filhos?

Teofano de Lesbos era, no exército, prefeito dos operários do acampamento. Como lhe louvassem a maneira pela qual ele consolava os ródios da perda da sua armada, observou Cícero:

- Como se é feliz quando se tem um grego por capitão!

César saía vitorioso em quase todos os combates e considerava Pompeu como sitiado.

- Afirma-se, - comentou Lêntulo, - que os amigos de César estão muito tristes.

- Queres dizer, - replicou Cícero, - que estão de má vontada com César?

Um certo Márcio, recentemente chegado da Itália, dizia que o boato corrente em Roma era de que Pompeu se encontrava sitiado.

Cícero, por Plutarco

- E embarcaste repentinamente, - disse Cícero, para vires te certificar disso com os teus próprios olhos?

Após a derrota de Pompeu, Nônio dizia:

- Tenhamos esperança! ainda restam sete águias no campo de Pompeu. 48

- Terias razão, - respondeu Cícero, - se fizéssemos guerra às gralhas.

Labieno, cheio de confiança em certas predições, sustentava que Pompeu acabaria como vencedor.

- No entanto, - assegurou Cícero, - foi com essa tática que acabamos perdendo o nosso campo.

XXXIX. Retido, no leito por uma doença, Cícero não havia podido ir à batalha de Farsália. Quando Pompeu fugiu, Catão, que possuía em Dirráquium um exército númeroso e uma frota considerável, quis que Cícero assumisse o comando das forças militares, em virtude da lei, pois estava revestido da dignidade de cônsul. Cícero, porém, recusou em absoluto essa prebenda, declarando que não tomaria parte nenhuma na guerra. Essa recusa quase lhe foi fatal: o jovem Pompeu e seus amigos apontaram-no como traidor, e atravessá-lo-iam com suas espadas, se Catão não o tivesse impedido. Ainda por interferência de Catão, Cícero abandonou o acampamento e se dirigiu a Brindis, onde se demorou por algum tempo à espera de César, retido fora da Itália, pelos negócios da Ásia e do Egito. Ao saber que César desembarcara em Tarento e que viria de lá, por terra, a Brindis, Cícero correu a esperá-lo, não desesperançado de obter o seu perdão, mas, entretanto, cheio de vergonha por ter de fazer, à vista de tanta gente, a prova das disposições de um inimigo vitorioso. Não lhe foi necessário, porém, tomar nenhuma atitude incompatível com a sua dignidade. César, ao perceber que Cícero, adiantando-se bastante dos demais, ia ao seu encontro, desceu do cavalo e o saudou, caminhando ao seu lado alguns estádios 49, numa palestra animada. Daí por diante, não cessou de testemunhar-lhe a sua estima e amizade. Tendo Cícero composto mais tarde um elogio de Catão, César, na resposta que lhe deu, elogiou a eloqüência e a vida de Cícero, que ele comparou às de Péricles e de Teramene. O discurso de Cícero intitula-se Catão e o de César AntiCatão.

Tendo sido Quinto Ligario acusado como um dos que tinham usado dás armas contra César, Cícero encarregou-se da defesa. César, ao que se conta, disse, então, a um dos seus amigos:

- Que impede que deixemos Cícero falar? Há muito tempo já que não o ouvimos. Quanto ao cliente, é homem mau, é meu inimigo: está julgado.

Cícero, porém, desde as primeiras palavras do seu discurso, comoveu singularmente César. E, à medida que avançava, empregando todos os recursos do patético, tudo quanto possuía a sua eloqüência de sedução, viu-se muitas vezes César mudar de cor e tornar sensíveis os diversos afetos que lhe agitavam a alma. Enfim, quando o orador tocou na batalha de Farsália, César, fora de si, estremeceu todo o corpo e deixou cair os papéis que tinha na mão. Cícero, vencedor do ódio de César, conseguiu a absolvição de Ligário.

XL. Substituído o antigo governo pelo poder de um só homem, Cícero abandonou desde então a vida pública e empregou todo o seu tempo no trato com os moços que desejavam aplicar-se à filosofia.

Pertenciam eles às principais famílias de Roma. Cícero reconquistou, por suas freqüentes relações com eles, um grande prestígio na cidade. Sua ocupação era compor e traduzir diálogos filosóficos e fazer Cícero, por Plutarco

passar para o latim os termos da física e da dialética. Foi ele afirma-se, quem naturalizou primeiramente, ou pelo menos com maior sucesso entre os romanos, as palavras gregas que significavam imaginação (fantasia), assentimento (catatesis), suspensão de julgamento (epoché), átomo, invisível, vazio (cenon) e várias outras semelhantes, explicando, ou por metáforas ou por termos conhecidos e vulgares, as que se aproximavam delas pelo sentido. Servia-se, no seu divertimento, da facilidade que possuía para a poesia: quando se abandonava à sua veia poética, fazia, conta-se, quinhentos versos numa noite.

Cícero passava a maior parte do seu tempo em Tusculum, domínio seu, de onde escrevia aos amigos dizendo que levava a vida de Laerte. Dizia-o, ou por troça, como era seu costume, ou porque a ambição lhe fizesse almejar o retorno à vida política. O certo é que estava descontente da situação em que se encontrava. Raramente ia a Roma e somente para fazer a corte a César. Era o primeiro a aplaudir as honras que se conferiam a César e encontrava sempre alguma coisa de novo e lisonjeiro para dizer sobre a sua pessoa ou suas ações. Tais são as palavras sobre as estátuas de Pompeu que haviam sido derrubadas e que César reergueu de novo.

- César, - disse Cícero, - levanta as estátuas de Pompeu, mas essa generosidade firma as suas próprias estátuas.

XLI. Sonhava Cícero escrever a história de seu país, enriquecendo-a com muitas tradições gregas e narrações das primeiras idades. Foi, porém, desviado do seu intento por uma série de ocupações públicas e particulares, por acontecimentos desagradáveis e outros que o atribularam, ao que parece, quase todos por sua própria culpa. Primeiro que tudo, repudiou sua mulher Terência, porque, durante a guerra, se ocupara muito pouco com ele e, quando ele partiu, deixara que faltassem as coisas mais necessárias para a viagem, e também porque, à sua volta à Itália, dela não recebera nenhuma prova de afeição.

Encontrando-se ele em Brindis durante muito tempo, Terência não procurou vê-lo e quando sua filha, que era extremamente jovem, aí foi juntar-se a ele sua mulher não lhe deu nem um séquito conveniente para um percurso tão longo, nem com que prover aos seus gastos, como era necessário. Terência, enfim, abandonara a casa de Cícero, deixando-a vazia e desprovida, carregada de dívidas consideráveis. Tais são os pretextos mais honestos que apresentou para o seu divórcio. Terência negava que houvesse verdade nessas acusações e o próprio Cícero - é preciso confessar - deu-lhe um excelente meio de justificação, desposando, pouco tempo depois, uma moça cuja beleza o havia seduzido, ao que dizia Terência. Tiron, porém, liberto de Cícero, afirma que ele se casara em virtude da riqueza da noiva, pois precisava pagar as suas dívidas. Essa moça era, com efeito, muito rica, e Cícero possuía seus bens em fideicomisso, por testamento do pai, até à sua maioridade. Como, porém, ele devesse somas consideráveis, deixou-se persuadir por seus amigos e parentes de que devia desposá-la, apesar da desproporção da idade, a fim de que, com sua fortuna, se livrasse dos credores. Antônio, no seu discurso em resposta às Filípicas, fala desse casamento, asseverando que Cícero repudiara uma mulher ao lado da qual envelhecera, dizendo com graça que ele tinha sido um homem pássaro, que jamais se havia afastado de sua casa, nem tinha estado na guerra para servir à causa pública.

Algum tempo depois do seu casamento, Cícero perdeu a sua filha Túlia, morta de parto na casa de Lêntulo, que ela desposara após a morte de Pison, seu primeiro marido. Os filósofos acorreram, de todos os lados, à casa de Cícero, a fim de consolá-lo. Essa infelicidade, porém, afetou-o tão profundamente, que foi até ao repúdio da sua nova mulher, pois estava convencido de que ela se alegrara com a morte de Túlia.

XLII. Eis aí a vida doméstica de Cícero.

Cícero, por Plutarco

Ele não tomou parte, absolutamente, na conjuração contra César, se bem que fosse um dos mais devotados amigos de Bruto e, descontente com o estado presente dos negócios do Estado, desejasse, como nenhum outro, o retorno de Roma à antiga ordem de coisas. Mas os conjurados não ousaram fiar-se num caráter tímido como o seu nem num homem já na idade em que tinham desaparecido a audácia e a firmeza próprias das almas vigorosas. Executado o plano de Bruto e Cássio, os amigos de César se prepararam para a vingança. Temia-se ver Roma mergulhada nas guerras civis. Antônio, que era cônsul, convocou o senado e falou, em poucas palavras, sobre a necessidade da concórdia. Cícero fez um longo discurso, de acordo com as circunstâncias, e convenceu os senadores de que deviam decretar, a exemplo de Atenas, uma anistia geral para tudo quanto se havia feito sob a ditadura de César, e distribuir províncias a Cássio e Bruto. Essas medidas, porém, ficaram sem efeito. O povo se deixou arrastar por uma paixão natural em frente ao corpo de César, que era conduzido através do Fórum. Quando Antônio tirou a túnica de César toda ensangüentada e furada pelos golpes de espada, esse espetáculo encheu a multidão de tal furor que procurou os assassinos na própria praça e correu, de tochas na mão, a incendiar as suas casas. Prevendo esse perigo, furtaram-se às perseguições. E, como temessem outras e maiores ainda, tomaram a resolução de abandonar Roma.

XLIII. Também Antônio levantou logo a cabeça e todos se assustaram, sobretudo Cícero, à idéia de que ia comandar Roma sozinho. Antônio, que via o crédito político de Cícero fortificar-se dia para dia, e o sabia amigo de Bruto, suportava sua presença impacientemente. Havia entre eles, desde muito já, um começo de desconfiança mútua, nascida da diferença absoluta dos seus costumes. Cícero, que temia a má vontade de Antônio, quis primeiramente ir à Síria, como lugar-tenente de Dolabela, mas Hírtio e Parsa, dois homens de bem e amigos de Cícero, que deviam suceder a Antônio no consulado, suplicaram a Cícero que não os abandonasse, prometendo, com a sua ajuda, destruir o poder de Antônio. Cícero, sem recusar acreditá-los, mas sem dar muita fé às suas palavras, deixou partir Dolabela. E, após ter combinado com Hírtio que iria passar o verão em Atenas 50 e que retornaria a Roma desde que seu colega e ele tivessem tomado posse do consulado - embarcou para a Grécia. Como a sua viagem por mar sofresse várias interrupções, conseguia todos os dias, como de costume, notícias de Roma: asseguravam-lhe que se operara em Antônio mudança extraordinária: que Antônio não tomava uma só resolução a não ser de acordo com o Senado e que não faltava mais do que a presença de Cícero para dar aos negócios públicos uma situação mais favorável. Cícero lamentou, então, a sua excessiva previdência e voltou a Roma. Ele não se enganou, desde logo, nas suas esperanças: saiu à sua frente uma multidão tão considerável que lhe foi necessário despender quase todo o dia em apertos de mãos e abraços, desde as portas da cidade até à sua casa.

No dia seguinte, Antônio convocou o Senado e chamou Cícero, que se absteve de aí comparecer, ficando de cama sob o pretexto de que a viagem o havia fatigado. Seu verdadeiro motivo, porém, era evidentemente o temor de alguma cilada, da qual tivera conhecimento durante a viagem. Antônio, ofendido com uma suspeita que classificava de caluniosa, mandou soldados para conduzi-lo à força, ou, então, incendiar sua casa, se se obstinasse a recusar sua presença no Senado. Em virtude da insistência de vários senadores, porém, Antônio revogou a sua ordem e se contentou com penhorar aperias alguns bens de Cícero. Desde esse dia, eles deixaram de se cumprimentar quando passavam um ao lado do outro na rua. Viviam nessa desconfiança, quando o jovem César 51 chegou da Apolônia, apresentando-se como herdeiro do antigo César e reclamando uma soma de 25 milhões de dracmas, de que Antônio se apossara.

É nesse momento que começa a ruptura franca de Cícero com Antônio.

XLIV. Filipe, que havia desposado a mãe do jovem César, e Marcelo, o marido da sua irmã, foram Cícero, por Plutarco

com ele à casa de Cícero. Aí, combinou-se que Cícero apoiaria César com a sua eloqüência e com o seu prestígio no Senado e diante do povo. Por seu turno, o jovem César empregaria seu dinheiro e suas armas na proteção à vida de Cícero, pois o rapaz dispunha de grande número de soldados que haviam servidor às ordens do ditador.

Parece, porém, que Cícero se viu obrigado, por motivos mais poderosos, a receber com alegria os oferecimentos de César. No tempo em que Pompeu e César viviam ainda, Cícero teve um sonho, no qual lhe pareceu que eram chamados ao Capitólio os filhos dos senadores. Júpiter devia, dentre eles, eleger o soberano de Roma. Os cidadãos acorriam em multidão e acercavam-se do templo. Os meninos, vestidos de túnica pretexta, mantinham-se sentados em silêncio. De repente, as portas se abrem, os meninos se levantam e passam, cada um na sua fila, diante do deus, que, após havê-los observado atentamente, os faz retornar a seus lugares cheios de aflição. Quando, porém, o jovem César se aproxima, Júpiter estende-lhe a mão e diz: "Romanos, eis aqui o chefe que porá termo às vossas guerras civis". Esse sonho, conta-se, gravou tão vivamente no espírito de Cícero a imagem do menino, que ele jamais a esqueceu. Ele não o conhecia, mas, no dia seguinte, quando descia o Campo de Marte, à hora em que os meninos voltavam dos seus exercícios, o primeiro que notou foi o jovem César, tal qual o vira em sonho. Impressionado com o encontro, perguntou-lhe o nome de seus pais. Seu pai chamava-se Otávio, homem de nascimento pouco ilustre; mas sua mãe, Átia era sobrinha de César 52, o qual, não tendo filhos, o instituíra, por testamento, herdeiro da sua casa e dos seus bens. Afirma-se que, depois dessa aventura, Cícero não encontrou nunca o menino sem lhe falar cordialmente e sem deixar de fazer-lhe carícias, que o jovem César aceitava com prazer. Aliás, o acaso determinara o seu nascimento sob o consulado de Cícero.

XLV. Eis ai as versões a respeito do fato. O que, porém, ligou Cícero a César foi, antes de tudo, seu ódio contra Antônio, e, depois, seu caráter, que não sabia resistir à ambição. Ele esperava pôr a serviço da República a atividade desse rapaz que, aliás, procurava por todos os meios insinuar-se na amizade de Cícero, chegando até a chamá-lo de pai. Bruto, indignado com essa fraqueza, censurou Cícero energicamente nas cartas a Ático. Cícero, segundo ele, adulando César pelo medo que lhe inspirava Antônio, não deixa lugar para dúvida: procura, não tornar livre a sua pátria, mas dar-se a si próprio um senhor doce e humano. Todavia, Bruto levou consigo o filho de Cícero, que se encontrava em Atenas ouvindo lições de filosofia.

Encarregou-o de uma tarefa, que desempenhou com excelente êxito. O poder de Cícero em Roma atingia, então, o seu apogeu: dispondo de tudo como senhor, expulsou Antônio, sublevou os espíritos contra este e enviou os dois cônsules Hírtio e Parsa para declarar-lhe guerra. Enfim, Cícero convenceu o Senado de que, por um decreto, devia conceder a César litores armados de feixes e todas as honras militares, como ao defensor da pátria. Como, porém, Antônio houvesse sido derrotado, e mortos, no campo de batalha, os dois cônsules, e como os dois exércitos que comandavam se tivessem ido reunir aos de César, o Senado, que temia esse rapaz, cujo futuro devia ser brilhante, fez todos os esforços no sentido de lhe arrebatar os soldados, conferindo-lhes honras e recompensas, e para lhe desorganizar as forças, sob o pretexto de que, com a derrota de Antônio, a República não mais tinha necessidade de defender-se pelas armas. César, alarmado com essas medidas, mandou secretamente algumas pessoas falar a Cícero, exortando-o, com suas súplicas, a disputar o consulado para si e para César. Cícero, afirmavam eles, dispunha da coisa pública a seu talante e, assim, governaria o rapaz, que não ambicionava outra coisa senão títulos honoríficos. O próprio César confessava que, temendo ver-se abandonado por todos em vista do licenciamento da sua tropa, jogou com a ambição de Cícero, pedindo-lhe se candidatasse ao consulado, prometendo-lhe ajudá-lo com o seu prestigio e os pedidos de votos nos comícios.

Cícero, por Plutarco

XLVI. Cícero, não obstante a sua idade, deixou-se fascinar e enganar nesse momento por um rapaz: apoiou a pretensão de César e conseguiu o favor do Senado para tais pretensões. Seus amigos mais que depressa o censuraram e não tardou que ele próprio reconhecesse que estava perdido, sacrificando, dessa maneira, a liberdade do povo. O jovem César, uma vez no poder, não quis mais saber de Cícero: ligou-se com Antônio e Lépido. Reunindo suas forças, todos três, partilharam o império entre si, como se se tratasse de uma simples herança. Organizaram uma lista de duzentos cidadãos, cuja morte lhes parecia necessária. A proscrição que deu lugar à mais viva disputa foi a de Cícero. Antônio não queria ouvir falar em acomodações, se Cícero não fosse o primeiro a perecer. Lépido apoiava os pedidos de Antônio. César resistia a um e outro. Passaram três dias perto da cidade de Bolonha 53em conferências secretas. Era numa ilha o lugar onde se reuniam, situada no meio do rio que separava os dois campos. César lutou vivamente, conta-se, os dois primeiros dias, para salvar Cícero. Ao terceiro dia, porém, cedeu, e o abandonou. Fizeram-se todos os três concessões recíprocas. César sacrificou Cícero; Lépido, o seu próprio irmão Paulo; e Antônio, o seu tio materno Lúcio César - tanto a cólera e a raiva haviam afogado neles todo e qualquer sentimento de humanidade! Que digo eu? Provaram que não há monstro mais selvagem do que o homem quando possui o poder de saciar a sua paixão.

XLVII. Enquanto isso acontecia, Cícero vivia na sua casa de campo de Tusculum, com seu irmão.

Logo que correu a primeira notícia das proscrições, resolveram ambos vir à Astira, outra casa de campo de Cícero, situada à beira-mar. Queriam embarcar aí para , a Macedônia, onde ficariam ao lado de Bruto, cujas forças, segundo boatos já correntes, estavam consideravelmente acrescidas. Puseram-se, cada um numa liteira, e partiram, tristes e abatidos e sem mais esperanças. Interromperam a viagem, aproximaram as liteiras e deploraram mutuamente a sua sorte. Quinto era o mais acabrunhado. Lamentava-se, sobretudo, da falta de recursos em que iria se encontrar: "Não trago nada comigo", queixava-se ele.

Cícero não levava mais do que poucas provisões para a viagem. Convieram em que era mais justo que Cícero continuasse a viagem e apressasse a fuga, enquanto Quinto correria até sua casa, a fim de prover-se de tudo quanto fosse necessário. Tomada essa resolução, abraçaram-se ternamente e separaram-se com os olhos banhados em lágrimas.

Poucos dias depois, Quinto, traído por um dos seus domésticos, e entregue àqueles que o procuravam, foi morto, juntamente com seu filho. Cícero, ao chegar a Astira, encontrou um barco preparado, no qual embarcou. Viajou, com bom tempo, até o monte Circé. Os pilotos quiseram logo fazer vela e demandar novo porto. Cícero, porém, ou porque temesse o mar, ou porque conservasse ainda alguma esperança na fidelidade de César, saltou em terra e caminhou cerca de cem estádios em direção a Roma.

Caindo, porém, em novas aflições, mudou de pensamento, retomando o caminho do mar. Ficou em Astira, onde passou a noite entregue a pensamentos terríveis, sem saber o que resolveria. Pensou, mesmo, num momento, em penetrar secretamente na casa de César e se degolar junto ao fogão, a fim de expor a pessoa de César à fúria vingadora do povo. O medo de ser torturado, caso lhe pusessem a mão em cima, o desviou dessa resolução. Sempre oscilando entre resoluções igualmente perigosas, abandonou-se aos seus domésticos, que o deveriam conduzir por mar a Caieté, onde possuía um domínio: era um retiro agradável no verão, quando os ventos etésios 54 fazem sentir o seu doce hálito. Há, nesse lugar, um pequeno templo dedicado a Apolo, situado ao, pé do mar. De repente, se ergueu do alto do templo um bando de corvos que dirigiam seu vôo, crocitando fortemente, para o barco de Cícero, que procurava alcançar a terra, e foram pousar nos dois lados da antena, enquanto os outros picavam as extremidades das cordas. Todos olharam esse signo como mau presságio. Cícero desembarcou, entrou em casa e foi deitar-se para descansar. A maior parte, porém, dos corvos, veio pousar na janela do seu quarto, soltando Cícero, por Plutarco

gritos aterradores. Houve um que desceu à cama de Cícero e tirou insensìvelmente, com o bico, a gola da túnica com que ele cobrira o rosto. Em vista disso, seus criados censuraram-lhe a fraqueza. "Esperaremos nós, - diziam eles, ser testemunhas aqui da morte do nosso senhor? E, quando até os animais acorrem em seu auxílio e se inquietam com a sorte indigna que o ameaça, não faremos nada pela sua conservação?".

Puseram-no, então, numa liteira, tanto com palavras como à força, e tomaram o caminho do mar.

XLVIII. Enquanto isso, chegaram seus assassinos. Eram um centurião, chamado Herênio, e Popílio, tribuno dos soldados. Este ultimo havia sido outrora defendido por Cícero, num processo em que era acusado de parricídio. Vinham seguidos de uma tropa de satélites. Encontrando as portas fechadas, arrombaram-nas. Cícero não apareceu e o pessoal da casa assegurava não o ter visto. Um rapaz, porém, chamado Filólogo, liberto de Quinto, a quem este havia instruído nas belas letras e na ciência, informou, ao que se conta, ao tribuno, que a liteira estava sendo conduzida para o mar, pelas aléias cobertas. O

tribuno, levando consigo alguns soldados, lançou-se por um atalho, rumo à saída das aléias. Cícero, ao perceber que a tropa conduzida por Herênio corria precipitadamente por sob o arvoredo, disse a seus servos que parassem a liteira. E, levando a mão esquerda ao queixo, gesto êste que lhe era peculiar, atirou sôbre os assassinos um olhar intrépido. Os cabelos eriçados e cheios de pó, o rosto desfigurado pelos pesares, exerceram sobre os soldados uma tal impressão que a maioria cobriu o rosto, enquanto Herênio o degolava. Cícero havia pôsto a cabeça fora da liteira, oferecendo assim o pescoço .ao carrasco. Morreu com a idade de 64 anos 55. Herênio, de acôrdo com a ordem que lhe dera Antônio, cortou-lhe a cabeça bem como as duas mãos com a qual havia escrito as Filípicas. Cícero intitulara Filípicas os seus discursos contra Antônio. É esse o título que trazem ainda hoje os seus discursos.

XLIX. Quando essa cabeça e essas mãos foram conduzidas a Roma, Antônio realizava os comícios para a eleição dos magistrados. "Agora, acabaram-se as proscrições", disse ele, depois de ouvir a informação sobre o assassínio e ao ver o aspecto sangrento dêsses despojos. Fê-los colocar nas bordas da tribuna: espetáculo terrível para os romanos que, parecia, estavam vendo não o rosto de Cícero, mas a própria imagem da alma de Antônio. Entretanto, em meio a tantas crueldades, Antônio fez seu ato de justiça, entregando Filólogo a Pompônia, mulher de Quinto. Pompônia, de posse do corpo do traidor, além dos vários suplícios terríveis a que o submeteu, forçou-o a cortar a própria carne, pouco a pouco, fazê-la assar e comê-la em seguida. É pelo menos o que narram alguns historiadores. Porém, Tiron, liberto de Cícero, não faz nenhuma referência à traição de Filólogo.

Ouvi dizer que César, longos anos após, entrando um dia em casa de um dos seus netos, este, surpreendido com uma das obras de Cícero na mão, escondeu o livro na sua túnica. César, notando isso, tomou do livro, leu de pé uma grande parte e entregando-o ao rapaz, disse-lhe:

- Foi um sábio, meu filho. Um sábio que amava a sua pátria.

De resto, logo que César derrotou Antônio em combate, tomou por colega no consulado o filho de Cícero. 56 O Senado, sob a sua magistratura, derrubou as estátuas de Antônio, revogou as honras de que gozava e proibiu, por decreto público, que qualquer pessoa da família dos Antônios trouxesse o prenome de Marco. Parece que, por esse meio, a vingança divina reservou para a família de Cícero o fim do castigo de Antônio.