Classes sociais e estilos de vida na sociedade brasileira por Edison Ricardo Emiliano Bertoncelo - Versão HTML

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Universidade de São Paulo

Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas

Departamento de Sociologia

Programa de Pós-Graduação em Sociologia

Edison Ricardo Emiliano Bertoncelo

Classes sociais e estilos de vida na sociedade brasileira

São Paulo

2010

2

Universidade de São Paulo

Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas

Departamento de Sociologia

Programa de Pós-Graduação em Sociologia

Classes sociais e estilos de vida na sociedade brasileira

Edison Ricardo Emiliano Bertoncelo

Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação

em Sociologia do Departamento de Sociologia da

Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências

Humanas da Universidade de São Paulo, para a

obtenção do título de Doutor em Sociologia.

Orientador: Prof. Dr. Brasílio Sallum Jr.

São Paulo

2010

3

À minha família, por tudo.

À Camila, por todo amor e compreensão,

sem os quais a caminhada não seria

possível.

4

Agradecimentos

Este trabalho se beneficiou do ambiente intelectual e das amizades que me

cercaram na Universidade de São Paulo.

Tive o privilégio de ver as versões iniciais do projeto de doutorado lidas por

colegas da área de Sociologia e de outras áreas acadêmicas durante os seminários de projeto coordenados pelo Prof. Dr. Paulo Roberto de Menezes.

Os comentários feitos e as questões levantadas por Nadya Guimarães e Álvaro

Comin, por conta do Exame de Qualificação, contribuíram enormemente para a

conformação final deste trabalho.

Agradeço à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo pela

concessão da bolsa de doutorado e pelo apoio financeiro para realização desta pesquisa.

Agradeço também à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior

(CAPES) pela concessão de bolsa de doutorado-sanduíche, que me permitiu realizar estágio doutoral no Departamento de Sociologia da Universidade de Essex (Inglaterra).

Agradeço especialmente ao Prof. Brasílio Sallum Jr. Sua dedicação ímpar e

enorme capacidade intelectual me inspiraram desde o ingresso no Mestrado e sempre orientarão minha conduta como sociólogo e acadêmico. Não é nenhum exagero ou mero formalismo dizer que, sem seu apoio intelectual e seus conselhos, este trabalho não teria sido possível. Claro, assumo toda a responsabilidade pelos erros e falhas que este texto possa conter.

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Resumo

O objetivo principal deste trabalho é investigar a formação das classes sociais na sociedade brasileira como possíveis coletividades que balizam a sociabilidade cotidiana e configuram estilos de vida. Para tanto, inicialmente faço uma breve incursão pela literatura de estratificação social e análise de classe, de forma a identificar os dilemas teóricos que caracterizam o campo de análise de classes atualmente. Investigo, então, se os padrões de escolha dos agentes sociais em domínios diversos da prática (alimentação, cuidados de si, cultura, etc.) variam segundo a classe e outros fatores, como gênero e idade. A hipótese principal é que a classe é um fator relevante para explicar os padrões de escolha dos agentes sociais e a formação de estilos de vida.

Palavras-chave: classe, coletividade, estilo de vida, cultura, sociabilidade

Abstract

This study aims at investigating the process of social class formation as social collectivities which shape social relations and lifestyles in the Brazilian society. We initially engage with the recent literature on social stratification and class analysis, in order to depict the main theoretical dilemmas which characterize that scientific field.

Then, social agents’ practices in different domains are examined in order to reveal the principles which might shape the probability of such practices (class, gender, age, etc.).

We expect that class remain a central factor to explain the patterns shaping social agents’ practices and the formation of lifestyles.

Key words: class, collectivity, lifestyle, culture, sociability

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Sumário

Introdução

p. 1-32

Os estudos de classe no campo neoweberiano: o Programa de Nuffield pp. 2-14

A análise de classes no campo neomarxista pp. 14-19

Classes como coletividades sociais: a perspectiva analítica de Pierre Bourdieu pp. 20-26

Problema de pesquisa e hipóteses pp. 20-32

Capítulo 1 – Classe e consumo: a formação das classes como coletividades sociais pp. 33-70

A literatura sociológica sobre classe e consumo: uma revisão pp. 34-56

Dilemas teóricos, problema e metodologia de pesquisa pp. 56-70

Capítulo 2 – Classe, consumo e estilos de vida na sociedade brasileira pp. 71-105

Os espaços dos estilos de vida: oposições simbólicas e princípios de organização pp.

72-83

A estrutura de classes na sociedade brasileira pp. 84-90

Conclusões pp. 90-94.

Capítulo 3 – Práticas alimentares, gênero e classes pp. 106-142

As lógicas das práticas alimentares pp. 106-112

Classe e padrões de consumo no campo da alimentação pp. 112-119

Alimentação, classe e economia doméstica pp. 119-137

Conclusão pp. 137-140

Capítulo 4 – Corpo e classe: autoapresentação e cuidados de si pp. 143-172

O corpo nas Ciências Sociais pp. 143-157

Apresentação de si e classes: classes incorporadas e corpos de classe na sociedade brasileira pp. 157-162

Civilização versus Distinção pp. 162-170

Conclusão pp. 171-172

Capítulo 5 – Classe, Educação e Cultura pp. 173-209

Capital cultural versus escolha racional pp. 176-185

Trajetória social, gosto, educação e cultura pp. 185-201

Conclusão pp. 201-209

Capítulo 6 – (Re)definindo as fronteiras de classe na sociedade brasileira pp. 210-240

Bibliografia

pp. 241-254

Apêndices

pp. 255-282

Apêndice 1 - Montante absoluto e relativo das despesas com itens diversos por categoria ocupacional pp. 255-272

Apêndice 2 - Resultados da Análise de Múltiplas Correspondências: contribuições relativas das modalidades para os eixos interpretados pp. 273-278

Apêndice 3 - Ajuste do modelo de Regressão Logística apresentado no capítulo 5

p. 279

Apêndice 4 - Perfil dos respondentes das classes latentes (capítulo 5) p. 280

Apêndice 5 - Códigos das ocupações que compõem as categorias ocupacionais usadas no estudo pp. 281-282

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Introdução

O tema desta tese é o espaço das classes sociais na sociedade brasileira. Nela, quero investigar a formação das classes enquanto possíveis coletividades sociais que balizam a sociabilidade cotidiana, configurando estilos de vida. Para apreender esse processo, analiso os modos como as classes condicionam as práticas de consumo e as fronteiras simbólicas demarcadas com base nessas práticas. Ora, se essas fronteiras simbólicas forem percebidas como significativas pelos agentes sociais, é provável que delineiem divisões sociais que conformam as práticas cotidianas, os processos de interação e associação social, enfim, as relações sociais em contextos diversos de ação.

A análise de classes geralmente não toma a questão da formação das classes

como uma preocupação central. No Programa de Nuffield, um dos principais centros de produção científica no campo da estratificação social (e análise de classes), as classes são concebidas como categorias analíticas que identificam os elementos ou as barreiras do ambiente externo de ação do ator racional. No campo neomarxista, cujo principal expoente é o sociólogo norte-americano Erik Olin Wright, as classes sociais são vistas como localizações dentro das relações de produção que podem dar origem a formas de ação de coletiva. Talvez tenha sido o sociólogo francês Pierre Bourdieu o principal pesquisador a ter construído um modelo teórico e analítico voltado para a investigação das formas de sociabilidade baseadas nas classes. A meu ver, o principal problema no campo da análise de classes é o modo de concebê-las: seriam as classes atores coletivos? Seriam elas categorias que identificam o sistema de oportunidades e

restrições que confronta o ator racional? Seriam elas coletividades sociais? Dessas diferentes concepções, derivam diferentes maneiras de definir as fronteiras que

8

possivelmente separam os agentes sociais e diferentes estratégias metodológicas para investigar esses processos sociais.

Nesta introdução, faço uma breve incursão sobre a produção teórica e empírica

recente no campo da análise de classes, de modo a construir o problema de pesquisa que orientará este estudo1.

As classes na teoria sociológica contemporânea

O principal eixo que estrutura o campo da análise de classes atualmente é, a meu ver, um que opõe, de um lado, perspectivas que enfocam a construção de esquemas de posições de classe com base em dimensões objetivas (definidas a priori pelo pesquisador) que buscam captar as principais divisões sociais geradas pelo

funcionamento do mercado e processos produtivos (em que se destacam os sociólogos John Goldthorpe e Erik Olin Wright) e, de outro, perspectivas que tomam as classes como possíveis coletividades sociais trazendo ao centro da investigação a dimensão cultural (simbólica) e as práticas classificatórias (e classificáveis) dos agentes sociais (em que se destaca Pierre Bourdieu).

Os estudos de classe no campo neoweberiano: o Programa de Nuffield

O chamado Programa de Nuffield, cujo principal expoente é o sociólogo britânico John Goldthorpe, é uma das principais referências na produção teórica e empírica no campo da análise de classes atualmente (GOLDTHORPE; MARSHALL,

[1992] 1997). A gênese e dinâmica desse conjunto de estudos estão ligadas a uma

1 Há diversos balanços sobre a produção na análise de classes produzidos na literatura sociológica nacional e internacional. Entre eles, Crompton, 2003; Savage, 2000; Scalon, 1999; Bertoncelo, 2009.

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apropriação peculiar da teoria sociológica clássica e aos embates com a teoria e pesquisa sobre estratificação social levadas a cabo nos Estados Unidos.

Nessa última, a estratificação das sociedades é concebida em termos de um

sistema de papeis sociais funcionalmente diferenciados e hierarquizados segundo sua importância para o funcionamento do sistema social (PARSONS, 1964). Sob essa

perspectiva, a estratificação social pode ser entendida como um mecanismo de

integração social. A hierarquia de funções e os diferencias de recompensas materiais e simbólicas expressam valores institucionalizados no sistema social e internalizados pelos atores sociais (DAVIS; MOORE, [1945] 1996).

Os estudos mais recentes sobre o tema nos Estados Unidos (especialmente de Otis

Blau, Peter Duncan e Donald Treiman) foram bastante influenciados pela teoria

funcionalista. Em geral, tais estudos argumentam que os processos alocativos no

sistema social seriam crescentemente conformados pelos valores do “universalismo” e do “desempenho” (componentes dos dilemas de orientação parsonianos), sob o impacto dos imperativos funcionais associados aos processos de industrialização e diferenciação social. Em tais estudos, as ocupações são distribuídas em escalas e hierarquizadas segundo variáveis socioeconômicas, como renda e qualificação educacional. Concebe-se que essa hierarquia expressa diferenciais de recompensas materiais e simbólicas conformados pelos valores institucionalizados no sistema social (BLAU; DUNCAN,

1967; TREIMAN, 1977).

Diferentemente, a teoria e pesquisa sobre estratificação social (mais

especificamente, os estudos sobre classe) na Sociologia britânica foram em grande parte influenciadas pela tradição sociológica clássica, conformada pelas teorias marxista e weberiana. A influência marxista direcionou o foco de muitos estudos para grupos de trabalhadores manuais e para a possível constituição deles como atores coletivos 10

(LOCKWOOD, [1960] 1996). Foi, no entanto, a teoria weberiana que inspirou mais

diretamente os modelos teóricos e os aparatos conceituais que deram fundamento às proposições e pesquisas nessa área.

Como aspecto mais geral da influência weberiana (Weber, 1982), a famosa

distinção entre classe, status e partido foi apropriada como uma forma de diferenciar as diversas dimensões da estratificação social e de acentuar a possibilidade de conflitos em torno das diferentes formas de distribuição de poder. Com base nisso, a perspectiva norte-americana sobre estratificação social foi criticada por reduzir a estrutura social a seus componentes normativos ( status), marginalizando, dessa forma, os componentes materiais (SCOTT, 1996). Essa ênfase sobre a dimensão normativa – que conforma as expectativas de recompensas materiais e simbólicas – impediria que se captasse o elemento do conflito gerado pela escassez (CROMPTON, 2003).

Na perspectiva analítica mais sintética, baseada na teoria weberiana, a

estratificação social é concebida como uma estrutura conformada por componentes

materiais e normativos que se interconectam empiricamente. Com base nesse

entendimento, a distinção weberiana entre situação de classe e classe social foi apropriada como uma forma de investigar como as relações econômicas que estruturam diferentes situações de classe se conectam a relações não-econômicas. O conceito de classe social permitiria, portanto, captar a imbricação empírica entre classe e status. 2

A essa vertente de intenção sintética, podemos contrapor outra que sublinhou as

dimensões instrumental e coercitiva da vida social com base na obra weberiana. Destaco a obra de Frank Parkin (1975). Nela, a estrutura social das sociedades modernas é conformada por duas estratégias antagônicas. Uma delas é a estratégia de

2 Nesse sentido, Giddens (1975) cunhou o conceito de estruturação para dar conta dos processos pelos quais relações tipicamente econômicas se transformam em sistemas estruturados de relações sociais baseados em classe. De forma semelhante, Lockwood ([1958] 1989) buscou captar os componentes materiais e simbólicos que estruturam a estratificação social ao propor um esquema analítico diferenciando as classes em termos de três dimensões: econômica, relacional e normativa.

11

monopolização, em que os indivíduos e grupos em posições sociais privilegiadas mobilizam mecanismos de fechamento social para restringir o acesso a essas posições e aos recursos e recompensas associadas a elas. Por outro lado, os indivíduos e grupos excluídos de posições sociais privilegiadas buscariam ampliar o acesso a recursos socialmente valorizados, através de estratégias de usurpação.

Os estudos sobre estratificação social baseados em Nuffield foram conformados pelas distintas formas de apropriação da obra weberiana na Sociologia britânica.

Enfatizou-se a distinção entre as formas de distribuição de poder e o componente do conflito entre os atores sociais por recursos e posições sociais valorizadas. 3 Igualmente importante, nota-se, em tais estudos, uma oscilação entre as duas formas principais de apropriação da teoria weberiana, aquela mais sintética e a outra que enfatiza as dimensões instrumentais e coercitivas da vida social. Ao longo do tempo, as

preocupações sintéticas deram lugar a uma teorização unidimensional, baseada na teoria da ação racional (TAR).

John Goldthorpe e seus colaboradores têm produzido os principais estudos de

classe dentro daquilo que foi denominado de Programa de Nuffield (GOLDTHORPE; MARSHALL, [1992] 1997). Com exceção dos estudos sobre os trabalhadores afluentes (que enfocaram as teses sobre a diluição da fronteira entre trabalho manual e não-manual – LOCKWOOD et al. , 1969), seus estudos de classe enfocaram a construção de um esquema de posições de classe que captasse as principais divisões produzidas pelo funcionamento do mercado e sistema produtivo, de forma a investigar o impacto dessas divisões sobre as chances de vida, especialmente chances de mobilidade social e de sucesso em trajetórias educacionais. Por isso, esse esquema não tem uma forma

hierárquica claramente definida, diferentemente das escalas de prestígio ou de status 3 Ver, entre outros, Goldthorpe, Llewellyn e Payne (1987).

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socioeconômico (GOLDTHORPE; LLEWELLYN; PAYNE, 1987; ERIKSON;

GOLDTHORPE, 1992; BREEN; HOTTMAN, 1995; GOLDTHORPE, 2007a).

Em um dos primeiros estudos, Goldthorpe, Llewellyn e Payne (1987) construíram

um esquema de posições de classe pela agregação de 36 categorias ocupacionais em termos de situações de mercado e de trabalho (LOCKWOOD, [1958] 1989). A situação de mercado se refere às fontes e níveis de rendimentos das ocupações e outras condições de emprego, tais como grau de estabilidade econômica, oportunidades de promoção, incrementos salariais, etc. A situação de trabalho se refere à posição dentro dos sistemas de autoridade e controle que regulam os processos produtivos (GOLDTHORPE,

LLEWELLYN E PAYNE, 1987, p. 40).

Esse esquema foi parcialmente alterado em estudos posteriores. 4 O esquema diferencia posições ocupacionais inicialmente em termos do status empregatício: empregador, autônomo e empregado. Entre estes últimos, os mais numerosos, as

posições de classe são diferenciadas em termos de relações de emprego. Estas se

expressam sob duas formas típico-ideais de contratos empregatícios, que emergem das exigências criadas pelas relações entre empregador e empregado, quais sejam, o

monitoramento do trabalho e o grau de especificidade do capital humano. De um lado, os contratos de trabalho definem relações de emprego em que o monitoramento do trabalho pode ser feito por supervisão direta da produção obtida e em que o capital humano mobilizado para a produção é relativamente abundante. Esse tipo de contrato regula tipicamente as relações de trabalho de trabalhadores manuais. De outro lado, os contratos de serviço definem relações de emprego em que o monitoramento do trabalho é relativamente difícil devido à especificidade do capital humano e à delegação de autoridade. Esse tipo de contrato estabelece relações de emprego de longo-prazo com 4 Erikson e Goldthorpe (1992) argumentam que o esquema de classes mais recente revela mais claramente que o objeto da análise de classe são as posições, definidas em termos de relações de emprego, e não as pessoas que ocupam tais posições.

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maiores benefícios (escalas salariais, planos de pensão, estabilidade no emprego, possibilidade de progressão na carreira) e maior autonomia no trabalho, como uma forma de produzir um alinhamento de interesses entre empregador e empregado. Formas modificadas ou mistas de contrato são definidas, resultando em onze posições de classe (ERIKSON; GOLDTHORPE, 1992; GOLDTHORPE; MCKNIGHT, 2006;

GOLDTHORPE, 2007a). Em tal esquema, as variações nas chances de vida são

explicadas em termos dos diferentes tipos de recompensa e incentivo associados aos diferentes tipos de contrato de trabalho (BREEN, 2005). 5

Quadro 1

Esquema de Posições de Classe

Classe

Regulação do emprego

I

Profissionais, administradores e gerentes de nível alto

Contrato de serviços

II

Profissionais, administradores e gerentes de nível

Contrato de serviços

baixo

IIIa Empregados

não-manuais de rotina (nível alto)

Mista

IIIb

Empregados não-manuais de rotina (nível baixo) –

Contrato de trabalho

geralmente mulheres

IVa Pequenos

empregadores

IVb

Pequenos proprietários, conta própria

IVc

Pequenos empregadores rurais

V

Técnicos de nível baixo e supervisores de trabalho

Mista

manual

VI Trabalhadores

manuais

qualificados

Contrato de trabalho

VIIa

Trabalhadores manuais não-qualificados

Contrato de trabalho

VIIb Trabalhadores

rurais

Contrato de trabalho

Fonte: Erikson e Goldthorpe (1992).

Os estudos de mobilidade social são centrais nessa perspectiva analítica. Quando medidas em termos absolutos (fluxos empiricamente observáveis de entrada e de saída das posições de classe), as taxas de mobilidade social permitem revelar níveis variados de associação, ao longo do tempo, entre indivíduos e famílias, de um lado, e posições de classe, de outro. Se tais níveis forem elevados, as posições de classe podem dar origem 5 Segundo Breen (2005), as diferenças entre o esquema de posições de classe baseado nas situações de mercado e de trabalho das ocupações e aquele baseado em relações de emprego são mínimas, pois as divisões sociais definidas com base no primeiro ou no segundo critério são bastante similares. Ademais, em ambos os casos, as diferenças teoricamente identificadas são tidas como base de desigualdades nas chances de vida que podem ser empiricamente examinadas.

14

a formações demográficas, ou seja, formações em que há grande probabilidade de

permanência de indivíduos e famílias nas mesmas posições de classe do ponto de vista intra e intergeracional. A formação das classes do ponto de vista demográfico pode facilitar a emergência de identidades culturais e políticas comuns aos indivíduos e famílias em uma mesma posição de classe. As classes, então, podem se constituir como coletividades socioculturais ou sociopolíticas. Quando medidas em termos relativos (que controlam os efeitos das variações no tamanho das categorias de origem e destino), as taxas de mobilidade social permitem calcular as chances de indivíduos de diferentes origens de classe de alcançarem certos destinos sociais. Nesse sentido, servem como um indicador do grau de abertura ou fluidez de uma sociedade (KURZ; MULLER, 1987;

GOLDTHORPE, LLEWELLYN E PAYNE , 1987; ERIKSON; GOLDTHORPE, 1992,

2002). Os estudos de classe nessa perspectiva tenderam a privilegiar a investigação do impacto das posições de classe sobre as taxas relativas de mobilidade, quer dizer, sobre as chances de ascensão, descenso ou reprodução social (BREEN; ROTTMAN, 1995;

ERIKSON; GOLDTHORPE, 2002).

Talvez as evidências empíricas mais importantes produzidas por tais estudos

sejam aquelas que demonstram a persistência de diferenciais de chances de vida –

especialmente chances de mobilidade social e de sucesso educacional – associadas a diferentes posições de classe em sociedades capitalistas avançadas (as chamadas

regularidades macrossociais), apesar de mudanças nas estruturas de classe ao longo das últimas décadas (aumento relativo das ocupações não-manuais e redução relativa das ocupações manuais) e dos esforços dos governos nessas sociedades em universalizar o acesso à educação em todos os seus níveis. Em outras palavras, as chances de

indivíduos de diferentes origens sociais de alcançarem destinos relativamente mais elevados e percorrerem trajetórias educacionais levando a qualificações valorizadas 15

permaneceram extremamente desiguais nessas sociedades (GOLDTHORPE, 1996a;

BREEN; GOLDTHORPE, 1997).

Nos últimos anos, a produção teórica e empírica dos autores vinculados a Nuffield tem se voltado para a construção de um modelo teórico que permita explicar tais

regularidades macrossociais, dando menor ênfase a questões como a formação de

coletividades de classe. De fato, em sua “primeira” versão, o Programa de Nuffield buscava investigar a possível formação de categorias demográficas e sociopolíticas com base em posições de classe (GOLDTHORPE; LLEWELLYN; PAYNE, 1987). De

forma similar, alguns estudos anteriores sobre os “trabalhadores afluentes” ou sobre frações de trabalhadores não-manuais tentavam dar conta não apenas das chances de vida desses indivíduos e famílias com base em suas posições de classe, mas também dos padrões culturais ou normativos que informavam suas condutas sociais (LOCKWOOD,

[1958] 1989, [1960] 1996, [1966] 1996; LOCKWOOD et al., 1969; GOLDTHORPE;

LOCKWOOD, [1963] 1996). Em sua versão mais recente, diferentemente, sublinha-se

que o objeto da teoria sociológica deve ser a explicação da estabilidade das relações de classe, quer dizer, da forte resistência a mudanças demonstrada pelas relações de classe e chances de vida associadas a ela (GOLDTHORPE; MARSHALL, 1992; BREEN;

ROTTMAN, 1995; GOLDTHORPE, 2007a). Argumenta-se, com base no

individualismo metodológico, que a explicação das referidas regularidades macrossociais deve ser buscada na dimensão microssocial, isto é, aquelas devem ser entendidas como resultados (não-esperados) de ações e escolhas individuais.

Uma versão da teoria da ação racional é formulada para dar conta dos processos

de decisão que ocorrem no nível micro e que sustentam as regularidades observadas no nível macro. A versão construída por Goldthorpe assume uma racionalidade de força intermediária, quer dizer, de tipo subjetivo e situacional (ao modo de Popper). Quer 16

dizer, os fins da ação não são incorporados ao modelo explicativo (portanto,

permanecem exógenos a ele) e se concebe que as ações sociais são informadas por

crenças subjetivamente formuladas com base nas informações disponíveis nas situações de ação, abandonando-se a proposição de que os atores sociais teriam conhecimento perfeito acerca do ambiente de ação. A ação racional orienta-se, segundo os autores, para a satisfação do critério de eficiência, uma vez que as situações de ação seriam demasiadamente complexas para permitirem a maximização de interesses. As principais proposições desse modelo explicativo sustentam que os atores sociais têm objetivos

[ goals], meios alternativos para persegui-los e, ao escolherem entre diferentes cursos de ação, tendem a avaliar seus custos e benefícios relativos (GOLDTHORPE, 1996a,

2007a).

A análise de classes oferece para esse modelo explicativo os elementos para a

identificação do ambiente condicional (externo) em que o ator racional age, ambiente esse conformado pela estrutura de oportunidades e restrições que confronta o ator externamente (os recursos potencialmente disponíveis, a probabilidade de sucesso ou fracasso em um dado curso de ação, os custos e benefícios prováveis associados a um curso de ação, etc.). Uma vez conhecidos os contornos principais do ambiente externo e dado o pressuposto analítico de que a ação se orienta pela norma da eficiência, os fins da ação podem, então, ser vistos como formas de adaptação eficiente às pressões

externas. Em outras palavras, as escolhas dos atores são, na verdade, estratégias adaptativas frente à estrutura de oportunidades e restrições que determina os custos e benefícios relativos de diferentes cursos de ação.

Assim, por exemplo, no caso dos filhos da classe trabalhadora, deixar a escola

após o período de estudos obrigatórios e optar por um curso profissionalizante que leve a um ofício manual seriam escolhas racionais (de fato, as mais racionais e eficientes) 17

diante da estrutura de oportunidades e restrições que se impõe sobre os atores

localizados nessa posição de classe: recursos escassos relativamente aos custos

prováveis de períodos mais longos de estudo; rendimentos de trabalho decrescentes ao longo do tempo no seio familiar, especialmente no período em que os custos da

educação dos filhos se tornam potencialmente maiores (associados à entrada no ensino superior); riscos relativamente maiores associados ao possível fracasso do filho em trajetórias educacionais mais ambiciosas, pois isso impediria o ingresso em posições de classe superiores e tornaria menos provável a obtenção posterior de trabalho manual.

Diferentemente, no caso daqueles com origens sociais em posições de classe mais

elevadas (como a “classe de serviços”), a escolha por trajetórias mais ambiciosas e prolongadas redundando em qualificações educacionais valorizadas seria a escolha mais racional: a probabilidade de desemprego de longa duração é menor; os rendimentos do trabalho são progressivos ao longo do tempo (portanto, os custos adicionais produzidos pelo “prolongamento dos estudos” impactariam relativamente menos); os riscos de

fracasso educacional podem ser compensados mais facilmente com a mobilização de

outros tipos de recursos (redes sociais, capital econômico), evitando, com isso, o risco de mobilidade descendente.

O Programa de Nuffield tem influenciado um conjunto de pesquisas sobre

estratificação social e também tem sido alvo de diversas críticas. Enquanto alguns autores argumentam que o esquema de classes de Goldthorpe capta adequadamente as divisões sociais resultantes das relações de emprego nas sociedades capitalistas avançadas – tomando este esquema como o mais adequado para apreender os “efeitos de classe” sobre um conjunto de fenômenos sociais (MARSHALL et al. , 1989; EVANS, 1992; BREEN; ROTTMAN, 1995) –, outros afirmam que este não é o caso.

Scott (1996, 2000, 2002), Scott e Morris (1996) e Edgell (1993) criticam o esquema e, 18

de forma mais geral, a perspectiva de análise de classe vista até aqui por não incorporar adequadamente as relações de propriedade e o processo de formação das classes

“superiores” (grandes proprietários capitalistas e rentistas). A literatura feminista, por sua vez, considera inadequada a estratégia metodológica de considerar a família como unidade de análise e derivar a posição dela daquela do chefe de família, além de enfocar as trajetórias de homens adultos nos estudos sobre mobilidade social. Esse tipo de enfoque impede que se capte como a segmentação do mercado de trabalho em termos de gênero conforma a estrutura de classes e os padrões de mobilidade social (WITZ, 1995; CROMPTON, 1995, 1996, 2003). 6

Igualmente relevante tem sido o enorme debate em torno da natureza e

orientações políticas da “classe de serviços”. De um lado, Goldthorpe utiliza este conceito para abarcar em uma mesma posição de classe ocupações gerenciais e

profissionais, com base no argumento de que os indivíduos nessas ocupações teriam uma orientação essencialmente conservadora do ponto de vista político, porque se inclinariam para a manutenção de suas posições sociais privilegiadas (GOLDTHORPE, 1995). De outro lado, alguns autores sustentam que a chamada “classe de serviços”

deveria ser dividida em termos do controle de ativos produtivos – aos moldes do

neomarxista Erik Olin Wright – dando origem a frações profissionais, gerenciais e empresariais. O ponto chave do argumento é que, das diferentes propriedades

relacionais desses ativos (em termos da capacidade de acumulação, grau de

convertibilidade e mobilidade espacial etc.) emergiriam diferentes padrões de

mobilidade social e geográfica, orientações políticas, estilos de vida, entre outros (SAVAGE, 1988; SAVAGE et al . , 1992; BUTLER; SAVAGE, 1995).

6 Para um contraponto, ver Goldthorpe ([1983] 1996). Voltarei a isso em um capítulo posterior.

19

Note-se, enfim, que a incorporação da análise de classes dentro do modelo teórico da ação racional teve conseqüências paradoxais. Por um lado, tendo como função

identificar os componentes ou barreiras do ambiente de ação postulado pelo referido modelo teórico, a análise de classes ganhou um fundamento mais sólido no interior do campo neoweberiano se comparado com outro baseado apenas na capacidade de

produzir evidências empíricas “significativas” (GOLDTHORPE; MARSHALL, 1992).

No referido artigo, a utilidade da análise de classes para a Sociologia é defendida em termos de sua capacidade de produzir correlações significativas entre posições de classe e fenômenos sociais diversos. Na teoria da ação racional, a análise de classes se torna parte de um modelo explicativo, e não apenas de uma perspectiva descritiva. Por outro lado, dados os pressupostos epistemológicos especificados pelo modelo teórico da ação racional (a ação humana seria essencialmente racional e estruturada por um sistema de recompensas e punições externo aos atores sociais), o escopo da análise de classes é reduzido à identificação do ambiente condicional de ação e à investigação das

regularidades macrossociais que resultam das estratégias adaptativas dos atores

racionais. Enquanto alguns estudos iniciais tentaram construir uma perspectiva analítica sintética centrada na investigação dos processos de formação de coletividades de classe (LOCKWOOD et al. , 1969; GOLDTHORPE; LLEWELLYN; PAYNE, 1987), a teorização e produção empírica recentes no Programa de Nuffield tornaram-se essencialmente unidimensionais, sublinhando, ao modo dos estudos de estratificação social de Frank Parkin, a instrumentalidade da ação social e a natureza coercitiva da ordem social. 7 Embora seja sublinhado que a teoria da ação racional permite incorporar sistematicamente a capacidade de escolha dos atores sociais, o que se sobressai na análise são atores adaptando-se ao ambiente externo. De fato, vemos atores fazendo 7 Para uma investigação dos pressupostos epistemológicos da tradição sociológica clássica, ver Alexander, 1982‐3.

20

“escolhas” entre cursos de ação que já estão pré-determinadas de antemão: as mais eficientes diante da estrutura de oportunidades e restrições que se impõe a partir de fora.

Por marginalizarem os componentes normativos da vida social (valores, normas,

códigos, símbolos), a voluntariedade da ação desaparece nos estudos de classe

vinculados a Nuffield. Quer dizer, a ação torna-se mecânica, movida por fatores puramente externa aos atores sociais. 8 Em suma, o paradoxo reside no fato de que a ênfase na ação acaba por sublinhar o peso do ambiente externo.

A análise de classes no campo neomarxista

Dois desafios importantes atingiram o campo marxista nas últimas décadas do

século passado. Um deles decorreu da crescente complexidade da estrutura social nas sociedades capitalistas avançadas devido à constituição e ampliação de uma camada gerencial e profissional. Na tradição marxista, argumentou-se que o processo de

reprodução capitalista tenderia a polarizar a estrutura social em torno das posições de capitalistas e trabalhadores. Essa divisão estrutural tenderia a se materializar em uma polarização política (e boa parte dos esforços de teóricos marxistas voltou-se para a explicação dos processos que medeiam essa passagem), que resultaria na superação revolucionária do capitalismo (MARX; ENGELS, [1848] 1998). Outro desafio dizia

respeito à emergência de novos atores coletivos que não tinham base no proletariado e, mais do que isso, formas de ação coletiva que não pareciam expressar o conflito entre capital e trabalho (OFFE, 1985).

8 Contrariamente, um estudo de Paul Willis (1977) sobre trajetórias educacionais de crianças oriundas da classe operária tenta incorporar os padrões simbólicos que medeiam a reprodução de classe e, de forma mais ampla, a reprodução das sociedades capitalistas. De fato, o referido estudo tenta mostrar que os filhos de classe operária, os lads, livre e entusiasticamente adentram posições subordinadas na estrutura de classes porque infundem o trabalho manual de significados positivos, embora essa escolha, objetivamente, resulte em seu aprisionamento permanente a posições relativamente inferiores e precárias no sistema capitalista (voltarei a esse tema em um capítulo posterior).

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Os teóricos marxistas tentaram lidar com essas questões de maneiras diversas

(POULANTZAS, 1979; CARCHEDI, 1977; CROMPTON; GUBBAI, 1977). A

estratégia de Erik Olin Wright tenta superar o argumento da polarização estrutural e política. A escolha por analisar mais detidamente os estudos de Wright baseia-se no fato de que este autor vem conduzindo o empreendimento teórico e empírico de maior

fôlego no campo neomarxista da análise de classe. 9

Enquanto o enfoque dos estudos anteriores de Wright se voltava para os modos

como as relações de dominação constituíam divisões sociais (WRIGHT, [1976] 1996), a atual perspectiva de análise de classes do autor enfoca as relações de exploração, que são, segundo ele, a característica distintiva de uma teoria marxista de classe. Tal perspectiva foi primeiramente apresentada em Classes (1985) e seus fundamentos têm como base o modelo teórico de John Roemer (1982), um autor marxista que tentou dar conta das relações de exploração utilizando uma versão da teoria dos jogos. Seguindo as linhas gerais dos argumentos de Roemer, Wright afirma que as relações de exploração em qualquer sociedade têm como base as relações de propriedade de ativos produtivos.

As relações de exploração são definidas com base no critério da opressão econômica, segundo o qual o bem-estar material da classe exploradora depende causalmente da privação da classe explorada do controle de ativos produtivos, e com base no critério da apropriação, segundo o qual o bem-estar material da classe exploradora depende causalmente do esforço da outra (WRIGHT, 1985, 1997).

As localizações de classes são “posições dentro das relações sociais de

produção...” em um dado modo de produção (WRIGHT, 1989, p. 13). Um modo de

produção qualquer é caracterizado por relações de propriedade constituídas em torno de um ativo produtivo. Em uma dada formação social, articulam-se diferentes modos de 9 Sua obra tem influenciado um conjunto de estudos comparativos internacionais nas últimas décadas. No Brasil, o trabalho de Wright foi incorporado em um estudo de Santos (2002).

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produção e mecanismos de exploração, pois há diversos ativos produtivos

desigualmente distribuídos. Com essa distinção entre modo de produção e formação social (POULANTZAS, 1979), Wright tenta dar conta da complexidade estrutural das sociedades capitalistas avançadas. Em formações sociais desse tipo, o mecanismo de exploração constituído em torno das relações de propriedade sobre os meios de

produção (ativos de capital) é dominante e define a principal divisão de classe: capitalistas e trabalhadores. Articulados a ele, operam dois outros mecanismos de exploração: um deles relacionado com o controle sobre ativos organizacionais e outro relacionado com ativos de qualificação (WRIGHT, 1989, pp. 17-23).

As relações de propriedade constituídas com base nos ativos de qualificação e

organização produzem um conjunto de localizações contraditórias na estrutura de

classes das sociedades capitalistas avançadas, distintas das duas classes polarizadas com respeito às relações de propriedade propriamente capitalistas. Tais localizações de classe são contraditórias com respeito às relações de exploração. Embora aqueles que controlam ativos de qualificação e de organização ocupem posições privilegiadas na apropriação do excedente socialmente produzido, eles estão sujeitos ao mecanismo de exploração capitalista, através do qual parte do produto de seu trabalho é apropriada pelos proprietários dos meios de produção. Em consequência disso, os interesses

objetivos que emergem dessas localizações de classe são essencialmente contraditórios, fazendo emergir orientações políticas potencialmente ambivalentes. Por estarem na interseção de diferentes mecanismos de exploração, os ocupantes das localizações contraditórias de classe podem defender os interesses da classe capitalista, da classe trabalhadora ou ainda interesses específicos à sua classe.

Portanto, as “novas” classes médias ganharam uma posição estrutural peculiar nos trabalhos de Wright, sendo definidas em função de relações de propriedade de ativos 23

produtivos. Essa conceituação teve implicações para o papel político das classes sociais.

O proletariado não aparece mais como o único ator coletivo revolucionário das

sociedades capitalistas e nem mesmo como o ator coletivo central e, além disso, o socialismo não é concebido como o futuro provável do capitalismo. De fato, dado o pressuposto de que os atores sociais se orientam para a ampliação dos retornos de seus ativos produtivos, Wright argumenta que os ocupantes das localizações contraditórias se inclinariam para a supressão das relações de propriedade baseadas no mecanismo de exploração tipicamente capitalista, tornando-se a classe dominante em uma formação social distinta, em que as relações de propriedade de ativos de qualificação ou de organização se tornassem dominantes (WRIGHT, 1989, pp. 23-31).

O esquema resultante possui doze localizações de classe em sua versão mais

desagregada. Os proprietários (controladores de ativos de capital) são diferenciados segundo a quantidade de empregados; os não-proprietários, em termos das relações de propriedade dos ativos de qualificação e organização (ver Quadro 2). 10

10 As relações de propriedade dos ativos organizacionais são operacionalizadas em termos de posições gerenciais e de supervisão. As primeiras se distinguem em termos do poder decisório sobre o processo produtivo. As posições de supervisão são definidas em termos do poder de supervisão sobre o trabalho alheio. A operacionalização do conceito de ativo de qualificação é mais complexa e depende de títulos ocupacionais, credenciais educacionais e de uma medida de autonomia no trabalho. Os especialistas ( experts) incluem todos os profissionais, e os gerentes (por título ocupacional) e técnicos, ambos com título universitário. Os trabalhadores qualificados ( skilled workers) incluem professores de escola, artesãos, gerentes e técnicos sem título universitário, e trabalhadores de escritório e de vendas com título universitário e autonomia no trabalho (Wright, 1989, p. 141-54, 303-17).

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Esquema de Posições de Classes de Wright

Proprietários Empregados

+10

Capitalistas Gerentes

Gerentes

Gerentes não-

especializados qualificados

qualificados

gerentes

Pequenos

Supervisores Supervisores Supervisores

empregadores especializados qualificados

não-

2-9

supervisores

qualificados

Pequena

Especialistas Trabalhadores

Trabalhadores

Burguesia

qualificados

não-

0-1 não-gerentes qualificados

Especialistas Qualificados Não-qualificados Fonte: Wright (1989, p. 25).

Precisamente pelo fôlego empírico e teórico dos trabalhos de Wright, críticas

foram direcionadas a diversas dimensões de sua obra. Talvez a crítica mais frequente questione a conexão entre relações de propriedade de ativos produtivos e relações de exploração (BURRIS, 1989; SAVAGE; WARDE; DEVINE, 2005). Embora tais

relações de propriedade possam gerar capacidades diferenciais de apropriação do

excedente social, não fica claro se há, de fato, relações de exploração, especialmente quando consideramos o controle de ativos de qualificação e de ativos organizacionais.

As relações de exploração implicam, como vimos, que os que controlam ativos

produtivos não apenas mobilizam estratégias de fechamento social que buscam

reproduzir a escassez relativa de seus ativos, mas também se apropriam do trabalho daqueles excluídos do controle desses ativos. Aqueles que controlam ativos de

qualificação e organizacionais exploram, de fato, os que estão privados do controle desses ativos ou simplesmente estão em melhores condições de resistir à exploração de seu trabalho? A meu ver, Wright não consegue esclarecer essa questão

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satisfatoriamente. Em última análise, a perspectiva analítica de Wright não se diferencia muito, nesse ponto, da perspectiva neoweberiana que enfoca os mecanismos de

fechamento social (PARKIN, 1975; MURPHY, 1988). 11

Creio, no entanto, que o principal problema da perspectiva de Wright refere-se à conexão entre classe e ação coletiva, pela centralidade dessa questão para a teoria marxista. Wright tenta conectar esses elementos construindo um modelo teórico

complexo que distingue um nível micro – apreendido pelos conceitos de localização de classe, consciência de classe e práticas de classes – e um nível macro, conformado pela estrutura de localizações de classe (WRIGHT, 1997, pp. 185-215). O problema é que esse modelo especifica um pressuposto marxista tradicional de que os interesses que orientam a ação são estruturados essencialmente pelo ambiente material conformado pelas relações de produção. Por isso, ele não vai muito além da estratégia marxista de ligar classe e ação coletiva pelo elo mediador da consciência de classe (LOCKWOOD,

[1981] 1988). Como nos ensina Lockwood (1992), a imagem marxista de uma

sociedade dividida em duas classes antagônicas – e da formação de uma classe como um sujeito histórico – implica a existência de fortes elos de solidariedade moral unindo seus membros e a teoria marxista – pelo menos em sua vertente analítica – não

consegue dar conta da formação desses elos, porque não incorpora sistematicamente os componentes normativos da vida social. 12

11 Uma crítica semelhante poderia ser feita em relação aos trabalhos de Aage Sorensen (2000), em que exploração é definida como a apropriação de uma fatia do excedente social maior do que os custos associados à produção e reprodução dos ativos produtivos. Essa sobrevalorização ocorre com base em estratégias de fechamento social que restringem o acesso a esses ativos produtivos. Para uma crítica aos argumentos de Sorensen, ver Goldthorpe, 2000.

12 Para uma visão sobre a vertente analítica do marxismo, ver Roemer, 1989.

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Classes como coletividades sociais: a perspectiva analítica de Pierre

Bourdieu

A perspectiva analítica de Pierre Bourdieu enfoca o processo de formação de

coletividades sociais e os modos como elas balizam a sociabilidade cotidiana. Há uma intenção fundamentalmente sintética que se expressa na tentativa de superar as

antinomias clássicas da sociologia (estrutura e ação, material e simbólica, estratégico e interpretativo), incorporando os componentes objetivos que estruturam a vida social bem como as práticas de classificação dos agentes que delineiam fronteiras nas relações sociais (BOURDIEU, [1989] 2005a). Essa intenção sintética é explicitada na ruptura com três postulados da tradição marxista:

“ruptura com a tendência para privilegiar as substâncias [...] em detrimento das relações e com a ilusão intelectualista que leva a considerar a classe teórica, construída pelo cientista, como uma classe real, um grupo efetivamente mobilizado; ruptura com o economicismo que leva a reduzir o campo social, espaço multidimensional, ao campo econômico, às relações de produção econômica constituídas assim em coordenadas do espaço social; ruptura, por fim, com o objetivismo, que caminha lado a lado com o intelectualismo e que leva a ignorar as lutas simbólicas desenvolvidas nos diferentes campos e nas quais está em jogo a própria representação do mundo social...” (Bourdieu, 2005b, p. 133).

Em seu principal trabalho sobre classes sociais ( La Distinction), Bourdieu ([1979]

2008) investiga os determinantes sociais do gosto e, mais especificamente, conecta a capacidade de julgamento ou o juízo estético às classes sociais. 13 Para captá-los, o autor propõe investigar a gênese do princípio gerador e unificador das práticas sociais (o habitus) como produto da incorporação de uma condição de classe e de seus condicionamentos sociais. Classe é definida por Bourdieu (ibid., p. 97) como um

“conjunto de agentes situados em condições homogêneas de existência, impondo

condicionamentos homogêneos e produzindo sistemas de disposições homogêneas, próprias a engendrar práticas semelhantes, além de possuírem um conjunto de propriedades comuns, propriedades objetivadas, às vezes, garantidas juridicamente – por exemplo, a posse de bens ou poderes – ou incorporadas, tais como os habitus de classe – em particular, os sistemas de esquemas classificatórios”.

13 Para uma análise da apropriação da tradição sociológica clássica por Bourdieu, ver Brubaker (1985).

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Há três dimensões analiticamente distintas que se interconectam empiricamente: a dimensão do espaço social, a do habitus e a do espaço simbólico.

O espaço social é “construído na base de princípios de diferenciação ou de

distribuição constituídos pelo conjunto de propriedades que atuam no universo social considerado, quer dizer, apropriadas a conferir, ao detentor delas, força ou poder neste universo.” (BOURDIEU, 2005b, pp. 133-4). O espaço social é um espaço

multidimensional de posições. Cada agente ou conjunto de agentes ocupa uma posição relativa nesse espaço segundo sua posição na distribuição das propriedades relevantes consideradas para construí-lo. As propriedades primárias do espaço social correspondem ao volume global de capital possuído pelo agente e pela composição ou estrutura de seu capital. O conceito de capital se refere aos recursos ou poderes “que definem as probabilidades de ganho em um campo determinado” (ibid., p. 134). O

conceito de capital econômico é concebido de modo amplo por Bourdieu, englobando renda, relação com os meios de produção e posses materiais. O capital cultural pode existir sob três formas distintas, mas inter-relacionadas. Bourdieu enfatiza que o capital cultural é, em um sentido, incorporado sob a forma de disposições para apreciar e se apropriar de objetos da “cultura legítima”, institucionalizada no sistema educacional e em aparatos culturais (museus e galerias de arte). Essas disposições incorporadas podem adquirir, através do sistema escolar e universitário, uma forma institucionalizada (credenciais). Além disso, essas disposições informam as escolhas de consumo dos agentes sociais, objetivando-se em bens e práticas, e modalidades de consumo ( forma objetivada). Definindo “as probabilidades de ganho em um campo determinado...”

(Bourdieu 2005b, p. 134), capital cultural e capital econômico estruturam, de forma autônoma, as desigualdades socialmente existentes. Ressalte-se, neste ponto, que a perspectiva de Bourdieu distingue-se das outras vistas anteriormente (e do mainstream 28

da análise de classe) por conceber gostos e práticas culturais como fatores que