Classes sociais e estilos de vida na sociedade brasileira por Edison Ricardo Emiliano Bertoncelo - Versão HTML

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estruturam as probabilidades de ganhos em diferentes campos sociais. 14

Assim, o espaço social é construído segundo duas dimensões principais: volume e

composição do capital possuído pelo agente. Tais dimensões são apreendidas sincrônica e diacronicamente. A diacronia se refere às trajetórias modais, que são as trajetórias percorridas com mais freqüência pelos agentes ligando origens e destinos particulares e que representam os modos típicos de apropriação do capital (BOURDIEU, 2008, pp.

103-6).

São essas dimensões (volume e composição do capital, e trajetórias modais),

segundo Bourdieu, que diferenciam mais fortemente posições relativas no espaço social por conformarem as principais linhas de divisão e conflito em sociedades capitalistas avançadas, “com base nas quais os agentes têm mais possibilidades de se dividirem e de voltarem a agrupar-se realmente em suas práticas habituais, além de se mobilizarem ou serem mobilizados... pela e para a ação política, individual ou coletiva.” (Ibid., 101). 15

Em A Distinção, vemos que o espaço social (que é, na verdade, um mapa “sociológico”

da sociedade francesa dos anos de 1970) é estruturado por dois eixos formando quatro quadrantes. O eixo vertical corresponde ao volume de capital total e o eixo horizontal a duas espécies de capital: à esquerda, o capital cultural, e, à direita, o capital econômico.

Bourdieu distingue três grandes classes ao longo do primeiro eixo: classe burguesa (região superior), pequena burguesia (região intermediária) e classe manual (região inferior). Ao longo do outro eixo, são diferenciadas frações de classe segundo a composição do capital. De um lado (à direita), vemos as frações cujo volume de capital 14 Em seu estudo sobre a sociedade francesa, Bourdieu argumenta que o componente mais valorizado do capital cultural refere-se ao controle da “cultura legítima” e à estética do desinteresse, que conforma uma

“capacidade para neutralizar as urgências habituais e suspender as finalidades práticas, [uma] inclinação e aptidão duradouras para uma prática sem função prática...” (BOURDIEU, 2008, p. 55).

15 Bourdieu utiliza ocupações como indicadores das posições relativas no espaço social, pois elas frequentemente indicam – especialmente nas sociedades capitalistas – a participação relativa dos agentes na apropriação de capital cultural e econômico.

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é determinado especialmente pela posse de capital econômico (ex.: empresários,

comerciantes, etc.). Do outro lado, estão as frações distinguidas em termos da posse de capital cultural (professores, intelectuais, etc.). Por sua vez, o eixo diacrônico diferencia regiões do espaço social em termos das trajetórias coletivas das frações de classe (de decadência ou ascensão) e de seus padrões típicos de recrutamento e composição.

As posições no espaço social diferenciam-se relacionalmente em termos de

condicionamentos sociais de diversos tipos (constituindo diferentes condições de classe), sendo que o principal deles é a distância relativa à necessidade material. Uma dada condição de classe é incorporada pelos agentes ao longo do processo de

socialização, conformando os habitus de classe, que são sistemas de disposições duráveis e transponíveis que orientam as percepções, ações e classificações dos agentes em campos sociais diversos. Como um sistema de disposições, habitus não pode ser confundido com hábito, que implica uma mera repetição ou rotinização de ações.

Embora o habitus carregue as marcas das estruturas externas, ele delimita, ao mesmo tempo, um espaço para a improvisação e a criatividade dos agentes. As práticas sociais são resultado da interação dos sistemas de esquemas de ação incorporados com as

estruturas externas, quer dizer, das disposições dos agentes com as lógicas operantes e relações de poder nos diversos campos sociais. O habitus é, ao mesmo tempo, uma estrutura estruturada, por ser produto da incorporação das propriedades relacionais do espaço, e uma estrutura estruturante, por operar como princípios pré-reflexivos que regulam as escolhas dos agentes e que fixam probabilidades de ação. 16

Pela mediação do habitus e sua capacidade de gerar práticas classificáveis e classificadoras, o espaço social transmuta-se em espaço simbólico e as práticas dos 16 A noção de disposições enfatiza o caráter pré-reflexivo do princípio orientador das práticas sociais.

Essa noção de prática segue uma tradição formada por filósofos como Heidegger, Merleau-Ponty e Wittgenstein, que situaram o ator em suas práticas, em contraposição a outra que o via fundamentalmente como um sujeito de representações (TAYLOR, 1993).

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agentes tornam-se signos de distinção. O espaço simbólico é o espaço dos estilos de vida, definidos como “conjunto unitário de preferências distintivas que exprimem, na lógica específica de cada um dos subespaços simbólicos – mobiliário, vestuário,

linguagem e hexis corporal – a mesma intenção expressiva...” (BOURDIEU, 2008, p.

165). Essas retraduções expressivas, que dão certa homogeneidade às práticas dos agentes de uma mesma classe independentemente de qualquer intencionalidade,

decorrem de uma propriedade particular do habitus, qual seja, a transponibilidade. O

habitus produz continuamente transposições sistemáticas requeridas pelas condições particulares das práticas dos agentes. Essa unidade expressiva se manifesta através do gosto de classe, a “fórmula geradora que se encontra na origem do estilo de vida”, pois constitui “a propensão e aptidão para a apropriação – material e/ou simbólica – de determinada classe de objetos ou de práticas classificadas e classificantes...” (Ibid., p.

165). Nesse sentido, o habitus tende a produzir uma homologia entre o espaço simbólico e o espaço social (e um conjunto de homologias entre os diferentes campos sociais), de forma que a hierarquia de estilos de vida exprime, simbolicamente, as diferenças objetivas do espaço social, o que tende a naturalizar as desigualdades entre os agentes sociais.

As propriedades dos estilos de vida são constituídas relacionalmente, no interior das disputas em torno da apropriação de práticas e objetos disponíveis na sociedade.

Tais disputas são, ao mesmo tempo, instrumentais e expressivas, pois os agentes se orientam para os objetos e práticas de um campo social em termos de estratégias de

“maximização” do capital simbólico conformadas no interior das expectativas

estruturadas pelo habitus. A objetivação dessas lutas simbólicas em distintos estilos de vida tende a demarcar fronteiras simbólicas e sociais. Como salienta Bourdieu, o gosto é o “operador prático da transmutação das coisas em signos distintos e distintivos, de 31

distribuições contínuas em oposições descontínuas; ele faz com que as diferenças inscritas na ordem física dos corpos tenham acesso à ordem simbólica das distinções significantes” (BOURDIEU, 2008, pp. 166; grifos do autor).

Como podemos ver, as disputas simbólicas constituem a dimensão chave da “luta

de classes” para Bourdieu. Estas são disputas essencialmente classificatórias e

envolvem a definição do conteúdo (objetos e práticas) da cultura legítima, os modos legítimos de dele se apropriar e a hierarquização dos diferentes estilos de vida. Embora as disputas simbólicas sejam parcialmente condicionadas pelas propriedades objetivas do espaço social, elas também impactam sobre ele, delimitando fronteiras sociais (WACQUANT, 1991). Por isso, a incorporação dessas propriedades através do habitus é, ao mesmo tempo, uma incorporação das classificações dominantes e,

consequentemente, uma “naturalização” do mundo. Precisamente porque os agentes

mobilizam os capitais acumulados nessas disputas simbólicas, as frações dominantes tendem a levar ampla vantagem sobre as demais frações de classe, tendo maior

probabilidade de impor seus padrões de julgamento e classificação nos diversos campos sociais. Embora ocupando lugar central nas teorias marxistas como sujeito histórico de superação do capitalismo, as frações trabalhadoras se encontram, na teoria de Bourdieu, em situação extremamente desfavorável nas disputas em torno dos sistemas

classificatórios que sustentam as relações de dominação de classe.

A meu ver, o modelo teórico de Bourdieu permite construir uma perspectiva de

análise de classe que avança em relação às demais em termos de sua capacidade de sintetizar dimensões diversas da vida social17. Nela, as classes sociais se distinguiriam umas das outras em termos de estilos de vida internamente coerentes e unificados. Estes 17 Não há espaço aqui para discutir em detalhes as principais críticas à teoria de Bourdieu. Por isso, remeto o leitor aos seguintes textos, que abordam questões centrais dessa teoria. Em Jenkins (1992) e Alexander (1995), argumenta-se que a teoria de Bourdieu falha em construir uma teoria sintética que supera as clássicas antinomias sociológicas. Sallum Jr. (2005) questiona a estreita conexão entre posição social e habitus. Bennett (2007) questiona a propriedade da transponibilidade do habitus.

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seriam produtos de diferentes habitus de classe, cuja unidade expressiva estaria ancorada, estruturalmente, em conjuntos diferenciados de condições de existência. O

processo de formação das classes envolveria a interpenetração das dimensões simbólica e objetiva da vida social. Em outros termos, os estilos de vida são retraduções

expressivas de condições objetivas de classe (WEININGER, 2005; SALLUM JR.,

2005). Isso porque as disposições para agir incorporadas sob a forma de habitus de classe orientariam as escolhas por certos bens e práticas (e por certas modalidades de se apropriar deles) que, por sua vez, demarcariam fronteiras simbólicas e sociais. O ponto fundamental é que a cultura (o componente simbólico da vida social, como os códigos ou sistemas classificatórios que orientam as escolhas dos agentes sociais) seria um componente constitutivo das relações e fronteiras de classe. Ou seja, as classes para Bourdieu são mais do que agregados de emprego, definidos pelo pesquisador com base em critérios objetivos (basicamente econômicos), como parece ser o caso nas

perspectivas neomarxista e neoweberiana de análise de classe (CROMPTON, 2003). Ao invés, na perspectiva de Bourdieu, as classes se constituem no plano material e cultural, balizando a sociabilidade cotidiana e configurando estilos de vida. Por isso, a

investigação do processo de formação das classes como coletividades supõe observar as práticas dos agentes sociais e os modos como aquelas delineiam fronteiras nas relações sociais.

Problema de pesquisa e hipóteses

Este breve balanço da literatura nos coloca diante de maneiras diferentes e

contraditórias de conceber as classes. Nos estudos de classe vinculados ao Programa de Nuffield (especialmente em seu período mais recente), as classes são concebidas como 33

categorias que identificam as principais barreiras no ambiente externo de ação do ator racional: tais barreiras se referem à distribuição de recursos, oportunidades,

recompensas de vários tipos, etc., estruturadas por diferentes tipos de relações de emprego, e fixam probabilidades de escolha entre os cursos de ação disponíveis. Em um sentido, os estudos de classe de Nuffield se alinham com a teoria weberiana sobre estratificação social por enfatizar a importância das classes para a conformação das chances de vida de indivíduos e famílias. No entanto, tais estudos se afastam desta ao confundirem posição de classe e classe social, ignorando os processos que conectam relações econômicas a relações não-econômicas, fazendo das classes sociais formas de sociabilidade coletiva (SCOTT, 1996). De fato, como enfatizei anteriormente, os

estudos iniciais do que viria a ser chamado de Programa de Nuffield buscavam construir uma perspectiva analítica sintética para investigar o processo de formação das classes sociais como coletividades. Posteriormente, houve uma redução do escopo da análise de classes, enfatizando a investigação e explicação do impacto das posições de classe – em comparação com outras variáveis – sobre fenômenos sociais diversos, abandonando-se a intenção existente nos estudos iniciais de identificar classes sociais. Como argumenta Scott (1996, pp. 215-6; tradução própria):

Apesar de Goldthorpe continuar a usar o termo ‘classe social’, suas novas categorias não são de modo algum classes sociais. Elas são categorias econômicas nominalmente definidas de situações de classe que foram criadas para maximizar o poder de previsão do esquema em pesquisas comparativas. Se o termo não causasse maiores confusões, as novas categorias de Goldthorpe poderiam ser chamadas de ‘classes econômicas’ para distingui-las das classes sociais que Weber viu como as verdadeiras coletividades em uma sociedade de classes. Por essa razão, Goldthorpe abandonou qualquer tentativa de mapear as fronteiras reais de classe e buscou uma estratégia de pesquisa puramente preditiva, ao invés de explicativa.

Na perspectiva neomarxista de Olin Wright, as classes são concebidas como

possíveis atores coletivos. Seguindo em linhas gerais os pressupostos da tradição marxista em sua vertente analítica, temos um esquema utilitário de ação, em que os fins da ação, e os meios para alcançá-los, são determinados pela posição nas relações de 34

produção. Daí, emergem os interesses que orientam as ações coletivas das classes sociais.

Embora empregando modelos teóricos distintos, os estudos de classe vinculados

ao Programa de Nuffield e ao empreendimento neomarxista de Olin Wright se assemelham sob vários aspectos (EDGELL, 1993). De um ponto de vista mais abstrato ou metafísico, tais estudos pressupõem que a ação social é essencialmente utilitária e se orienta para um ambiente externo que a conforma por meio de uma estrutura de

oportunidades e restrições. Mais concretamente, ambas as perspectivas de análise empregam um modelo dedutivo para construir esquemas de posições ou localizações de classe. Em um modelo desse tipo, as posições ou localizações de classe são

diferenciadas com base em critérios objetivos definidos pelo pesquisador (como a propriedade dos meios de produção, qualificação, hierarquia organizacional, relações de emprego, etc.). Os critérios são definidos teoricamente, quer dizer, em termos das expectativas produzidas pela teoria sobre onde estão e quais são as principais divisões sociais geradas no âmbito do mercado e da produção. As posições de classe assim

definidas se assemelham a agregados de emprego (CROMPTON, 2003). Isso se dá não apenas porque as ocupações são utilizadas como proxy das posições de classe. Além disso, os critérios utilizados para identificar as divisões de classe são basicamente critérios econômicos ou, pelo menos, relacionados com o funcionamento do mercado e da produção. Por fim, em ambos os casos, a estratégia de investigação enfoca possíveis correlações entre tais posições de classe e fenômenos sociais diversos (oportunidade de mobilidade social, trajetórias educacionais, voto, probabilidade de auferir rendas elevadas, etc.).

Embora não sem problemas, o modelo teórico de Pierre Bourdieu permite

construir uma perspectiva de análise de classe que avança em relação àquelas em termos 35

de sua capacidade de sintetizar dimensões diversas da vida social. Quer dizer, ao distinguir um espaço de posições de classes sociais e um espaço de estilos de vida (cujas homologias são produzidas pela mediação dos habitus de classe), Bourdieu permite incorporar sistematicamente a cultura (os componentes simbólicos da vida social: valores, normas, códigos, classificações, etc.) como elemento conformador das relações sociais. As classes se constituem tanto no plano material quanto no plano cultural.

Contrariamente ao modelo dedutivo utilizado em outros estudos de classe, a perspectiva analítica de Bourdieu nos propõe um modelo indutivo, em que são observadas as práticas dos agentes em diversos domínios da vida social – através de suas escolhas de consumo e das modalidades sob as quais os bens são consumidos – e os modos como

aquelas demarcam fronteiras nas relações sociais (SAVAGE et al., 2007). As classes, então, são construtos analíticos que permitem apreender o processo de formação de coletividades sociais. Nesse sentido, as classes “fixam balizas, por sua posição relativa no plano material e cultural, à sociabilidade cotidiana, aos movimentos sociais, aos grupos de pressão e às coletividades moldadas por aparelhos institucionais...”

(SALLUM JR., 2005, p. 40; grifos do autor).

Nas ciências sociais brasileiras, essa concepção de classe foi muito pouco

explorada. Os estudos sobre estratificação social, pelo menos em sua fase mais recente, enfocam a construção de esquemas de posições de classe (aos moldes dos estudos

vinculados a Nuffield) para a investigação dos padrões de mobilidade social ou, de forma mais geral, dos diferenciais de chances de vida. As pesquisas nessa área têm produzido evidências importantes acerca dos fluxos de mobilidade social, do grau relativo de fechamento da sociedade brasileira, etc. (entre outros, RIBEIRO; SCALON, 2001). Privilegia-se, portanto, a investigação das correlações entre agregados

ocupacionais e chances de vida. Uma exceção é o estudo de Scalon, em que a autora 36

enfoca a possível formação das classes como coletividades demográficas com base na observação das taxas de mobilidade absoluta, ou seja, dos fluxos de entrada e de saída entre as posições de classe (SCALON, 1999). 18 Nele, a autora nota uma expressiva coesão no topo dessa estrutura [de classe], expressa nas taxas de mobilidade intergeracional, que denota a forte tendência de herança social e a eficácia da elite em transmitir e manter sua posição privilegiada. No entanto, tomando como base as taxas de mobilidade total, é possível argumentar a favor da existência de uma relativa abertura para a entrada de indivíduos oriundos de estratos menos favorecidos. No entanto, se a homogeneidade de origem nos estratos superiores não é perfeita, ela é francamente visível e real nos estratos inferiores... (1999, pp. 106-107).

De forma semelhante ao estudo de GOLDTHORPE; LLEWELLYN; PAYNE

(1987) sobre os padrões de mobilidade na sociedade britânica nas décadas que se

seguiram à II GM, Scalon descreve taxas de reprodução demográfica relativamente

maiores nas posições de classe (ou estratos) superiores e inferiores, especialmente entre os últimos.

A meu ver, essa forma de investigar a formação de coletividades de classe fornece um retrato parcial sobre a constituição e reprodução de divisões sociais. Se, como Bourdieu nos diz, os indivíduos carregam as marcas de suas origens sociais em seus corpos (através do habitus), ascensão social não implica necessariamente aceitação pelo grupo de destino. Ao contrário, embora os socialmente ascendentes possam desenvolver uma forte orientação de status, buscando adotar os padrões de comportamento e de julgamento do grupo de referência (através de estratégias de consumo conspícuo e investimento no aprendizado sobre os modos corretos de se comportar e portar), o modo de aquisição do capital cultural (rápido e superficial, não-incorporado) acabaria por revelar, segundo o autor, as lacunas e falhas no aprendizado e as pretensões

interessadas, marcando-os negativamente (BOURDIEU, 2008, pp. 298-349). Isso

implica que devemos estar atentos para a possível manutenção de fronteiras simbólicas entre ascendentes e estabelecidos, embora, de um ponto de vista “objetivo” ou dos 18 Para a distinção entre taxas de mobilidade absolutas e relativas, ver KURZ; MULLER, 1987.

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critérios adotados pelo pesquisador, possam ocupar uma mesma posição de classe (ver também ELIAS; SCOTSON, 2000). 19

Mais fundamentalmente, as evidências empíricas sobre mobilidade social

dependem, em larga medida, de escolhas sobre onde traçar as fronteiras de classe. De fato, onde e por que traçar as fronteiras de classe são questões importantes no interior do campo da análise de classes. Os estudos de classe nas ciências sociais brasileiras têm optado pelo modelo dedutivo, em que se identificam as fronteiras de classe com base em critérios objetivos definidos pelo pesquisador. Ao modo dos estudos de classe de Nuffield, alocam em uma mesma categoria de classe, “aquelas posições cujos membros são tipicamente comparáveis em termos de suas fontes e níveis de rendimento, seus graus de segurança econômica, suas oportunidades de avanço econômico e seus graus de autonomia ao desempenhar tarefas de trabalho.” (BREEN; WHELAN, 1996, p. 20;

apud RIBEIRO, 2007, p. 121). No entanto, por mais relevantes – do ponto de vista estatístico – que esses critérios “objetivos” sejam para alocar ocupações em diferentes categorias de classe da forma mais homogênea possível, eles podem não captar as

percepções dos agentes sobre suas posições relativas no espaço social e as experiências de mobilidade social vivenciadas por eles. Talvez, por não incorporarem a cultura e o modo como ela conforma as fronteiras sociais, esses estudos de classe nos forneçam esquemas de posições de classe pouco adequados para apreender os padrões de

sociabilidade cotidiana (muito embora produzam correlações significativas entre

posição de classe e outros fenômenos sociais).

A questão central deste estudo, o seu problema, concerne justamente identificar o modo mais adequado de conceber as classes sociais, de forma a detectar as fronteiras reais que balizam a sociabilidade cotidiana e estruturam as práticas sociais. Para 19 Por isso, Bourdieu salienta que a trajetória, como modo típico de apropriação do capital, é uma propriedade relevante do espaço social, que conforma, por meio do habitus, as escolhas e práticas dos agentes sociais.

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apreender os processos que possivelmente levam à formação e reprodução dessas

fronteiras sociais, utilizo um modelo teórico e um aparato analítico-conceitual inspirado nos estudos de classe de Pierre Bourdieu. A hipótese principal que orienta este estudo sustenta que as classes sociais são construtos analíticos úteis para apreender o processo de formação de coletividades sociais que estruturam as práticas cotidianas dos agentes, configurando estilos de vida. Em outros termos, é provável que a “presença das classes”

na vida cotidiana possa ser detectada por meio da investigação dos estilos da vida.

Espero que, ao incorporar a dimensão simbólica da vida social através da investigação dos modos como a cultura (entendida como as diversas modalidades de apropriação de bens e práticas em campos sociais diversos) possivelmente conforma as relações sociais, tenhamos um mapa social e simbólico – onde se localizam as fronteiras que realmente separam os atores sociais – da sociedade brasileira diferente daqueles produzidos nos estudos de classe realizados em âmbito nacional. Para tanto, o espaço das classes sociais na sociedade brasileira constitui o objeto principal deste estudo, dentro dos limites impostos pelos dados existentes20.

20 Os dados utilizados neste estudo provêm de fontes secundárias, quer dizer, não foram obtidos especialmente para a realização desta pesquisa. Para a realização da parte empírica deste estudo, utilizo a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), 2002-2003, e um banco de dados sobre a Região Metropolitana de Belo Horizonte, referente ao ano de 2002 e organizado por Neuma Aguiar.

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Capítulo 1 – Classe e consumo: a formação das classes como coletividades

sociais

Na perspectiva analítica de Pierre Bourdieu, as classes se distinguem em termos

de estilos de vida internamente coerentes (e relacionalmente referidos), produtos da transposição dos mesmos esquemas de classificação e percepção para diferentes

subespaços simbólicos. A formação de coletividades sociais pode ser explicada da seguinte forma: agentes que ocupam uma mesma região do espaço social, de um ponto de vista sincrônico e diacrônico, têm alta probabilidade de compartilhar sistemas de esquemas de percepção, classificação e ação, devido à internalização das propriedades relacionais do espaço. Por mediação dos habitus, as escolhas de consumo e práticas sociais em domínios diversos da vida social tornam-se expressivas das posições de classe. De fato, é a referida conexão entre classe e consumo (status) que permite pensar o processo de formação das classes como coletividades sociais.

No entanto, a produção sociológica recente tem enfatizado uma crescente

desconexão entre classe e consumo. Entre aqueles que investigam consumo e estilos de vida, argumenta-se que a classe é um elemento cada vez mais marginal na explicação das escolhas de consumo e na conformação de estilos de vida (BAUDRILLARD,

[1975] 2008, [1981] 1991; PAKULSKI; WATERS, 1996; LASH; URRY, 1994;

GIDDENS, [1999] 2002). Entre teóricos da análise de classe, especialmente os

associados ao Programa de Nuffield, argumenta-se que as classes são fatores que estruturam chances de vida no mercado, mas têm pouca relevância para explicar

escolhas de consumo ou estilos de vida (GOLDTHORPE; CHAN, 2005, 2006, 2007c,

2007d). Se, de fato, as classes se tornaram marginais para a conformação de gostos e 40

práticas sociais, então, fará pouco sentido tomá-las como categorias úteis para investigar a formação de coletividades sociais e padrões de sociabilidade cotidiana. O objetivo deste capítulo é analisar o debate em torno da (des)conexão entre classe e consumo e propor uma forma de conectar esses elementos.

A literatura sociológica sobre classe e consumo: uma revisão

Parte da literatura contemporânea sobre a “época atual” argumenta que as

mudanças associadas à transição para a alta modernidade ou modernidade tardia (BECK, 1992; LASH; URRY, 1994; GIDDENS, [1999] 2002) ou pós-modernidade

(BAUDRILLARD, [1981] 1991) teriam cindido a relação entre classe e consumo e,

mais profundamente, atenuado (ou destruído) a determinação das classes sobre

processos sociais diversos.

A transição para a alta modernidade envolveria mudanças profundas nas relações entre estrutura e agência. A libertação dos indivíduos de contextos tradicionais de ação (entre eles, as classes sociais) seria acompanhada pela emergência de um novo regime de construção do eu: um regime baseado na reflexividade. Em um contexto de forte ampliação das oportunidades de escolha (e dos riscos associados a elas), produzida pela emergência de uma ordem social pós-tradicional, os atores sociais seriam

crescentemente responsáveis pela construção de trajetórias de vida em termos de uma

“biografia do eu”. Segundo Giddens (2002, p. 79), “nas condições da alta modernidade, não só seguimos estilos de vida, mas num importante sentido somos obrigados a fazê-lo

– não temos escolha senão escolher. Um estilo de vida pode ser definido como um

conjunto mais ou menos integrado de práticas que um indivíduo abraça [...] porque dão forma material a uma narrativa particular da autoidentidade.” A reflexividade na alta 41

modernidade estaria relacionada, portanto, com a ampliação do leque de escolhas em torno dos estilos de vida e do planejamento da vida.

Entre os teóricos da pós-modernidade, afirma-se que a inflação e circulação rápida de bens e signos (e a separação destes em relação a seus referentes), no contexto da emergência de um regime de significação baseado na figuração (LASH, 1990), podem colocar em risco a legibilidade dos bens e práticas usados como marcadores sociais. Nas condições da pós-modernidade, os indivíduos poderiam manipular os signos da cultura de consumo por livre associação, o que permitiria um posicionamento social apenas precário e instável em termos das escolhas de consumo. A estabilização do sentido dos objetos culturais e a estruturação deles em formas hierárquicas relativamente estáveis, correlacionadas a divisões sociais em termos de classe ou outra categoria qualquer, se tornariam problemáticas. Isso implicaria uma implosão do espaço social e da lógica da distinção, ou um desaparecimento das coordenadas do espaço social (BAUDRILLARD,

[1981] 1991).

Como enfatiza Featherstone ([1990] 1995), os exemplos de desordem ou

desclassificação cultural – nos estudos sobre a pós-modernidade – produzidos pela inflação de bens e signos são geralmente retirados da mídia, especialmente da televisão.

Nos trabalhos de Baudrillard, enfoca-se, segundo Featherstone (ibid., p. 34), como “a superprodução de signos e a reprodução de imagens e simulações resultam numa perda do significado estável e numa estetização da realidade, na qual as massas ficam

fascinadas pelo fluxo infinito de justaposições bizarras, que levam o espectador para além do sentido estável.” Ao invés, sublinha Featherstone, se tomarmos as práticas cotidianas dos atores sociais, envolvidos em relações de interdependência e balanças de poder, veremos que as interações sociais implicam práticas de classificação, quer dizer,

“os estilos e marcas diferentes de roupas e produtos da moda, conquanto estejam

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sujeitas a mudança, imitação e cópia, constituem um conjunto de pistas usados no ato de classificar os outros.” (Featherstone, 1995, p. 39).

As formas culturais pós-modernas (marcadas pela mistura de códigos e estilos,

pelo pastiche, pela subversão de fronteiras simbólicas tradicionais, etc.) podem ser vistas como movimentos “novos” dentro do espaço social, associados à emergência de uma “nova” fração de classe (a dos intermediários ou especialistas culturais). Nesse sentido, a produção e expansão dessas formas culturais seriam o resultado de processos de longa duração que elevaram o número de especialistas culturais (especializados na produção de bens simbólicos) nas sociedades capitalistas avançadas. Sendo marcada por um habitus que valoriza uma atitude de aprendizagem perante a vida, de estetização da vida cotidiana e de relaxamento dos padrões de comportamento, essa fração de classe buscaria legitimar novos gostos e estilos de vida nas disputas simbólicas com outras frações de classe. No contexto dessas disputas, os especialistas culturais atuariam como intermediários entre o campo cultural e o campo das classes sociais, ampliando o leque de bens culturais disponíveis ao consumo e estimulando uma nova pedagogia e

orientação em relação à vida, que valorizam a estetização da vida, a exploração

emocional e a mistura de estilos e códigos (FEATHERSTONE, 1995; LASH, 1990).

Por isso, as imagens de desordem cultural (e seus slogans, como “nada de regras, apenas escolhas”), associadas às versões mais radicais do argumento pós-modernista, não implicariam exatamente a ausência total de controles ou determinações. Ao invés, tratar-se-ia de um descontrole controlado, em que hedonismo e cálculo instrumental se interpenetrariam: “assim, é possível falar no hedonismo calculista, no cálculo do efeito estilístico e numa economia das emoções, por um lado, e numa estetização da dimensão racional instrumental ou funcional, mediante a promoção de um distanciamento

estetizante, por outro” (FEATHERSTONE, 1995, p. 123).

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Em suma, a expansão de formas culturais pós-modernas estaria associada a

estratégias de reposicionamento social e à emergência de novos marcadores sociais com base em estilos de vida marcados pela estetização da vida cotidiana, não implicando necessariamente a implosão do espaço social e da conexão entre classe e consumo. De forma similar, a ênfase sobre a reflexividade na teorização sobre a modernidade tardia ou alta modernidade poderia expressar as orientações de grupos sociais específicos (daqueles que, de fato, possuem as disposições e os recursos para fazer das “trajetórias de vida” a materialização de projetos do eu reflexivamente construídos) e não uma condição geral de um “novo” período histórico (SAVAGE, 2000; SKEGGS, 2004). Ou

seja, talvez nem todos possam se tornar “os novos heróis da cultura de consumo [que]

transformam o estilo num projeto de vida e manifestam sua individualidade e senso de estilo na especificidade do conjunto de bens, roupas, práticas, experiências, aparências e disposições corporais destinadas a compor um estilo de vida.” (FEATHERSTONE,

1995, p. 123).

Em outra vertente desse debate, nos campos da sociologia da cultura e da análise de classes, pesquisas recentes têm chegado a conclusões diferentes, mesmo

contraditórias, quanto à conexão entre classe e consumo e, de forma mais ampla, sobre a possibilidade de concebermos as classes como uma categoria útil para entendermos a sociabilidade cotidiana. As principais questões em debate concernem os argumentos de Bourdieu de que haveria homologias entre o espaço das classes sociais e o espaço dos estilos de vida e de que o capital cultural seria um mecanismo crucial de reprodução social.

Nas ciências sociais norte-americanas, a obra de Bourdieu foi apropriada sob o

foco da relação entre capital cultural e reprodução de classe, por um conjunto de sociólogos orientados para a construção de um novo tipo de Sociologia da Cultura (Paul 44

DiMaggio, Craig Calhoun, Richard Peterson, Michele Lamont, David Halle).

Particularmente, busca-se examinar em que medida, nessa sociedade, as práticas

culturais teriam efeitos classificatórios que demarcam fronteiras simbólicas e,

possivelmente, divisões sociais, de modo que o capital cultural seria um mecanismo central à reprodução de classe. O capital cultural é geralmente concebido, ao modo de Bourdieu em A Distinção, como disposições (estética Kantiana) para apreciar e consumir “alta cultura” (que são as formas culturais abstratas): ópera, literatura, arte, música clássica, teatro, etc. Em seus estudos, Bourdieu encontrou padrões distintivos de consumo cultural associados às diferentes classes (e suas frações): as frações

dominantes dotadas de uma estética do desinteresse, as frações populares marcadas por uma estética da necessidade, e as frações intermediárias caracterizadas por uma estética da boa vontade cultural (2008, pp. 241-370). Contrariamente, as pesquisas norte-americanas em geral não encontraram evidências conectando classe e consumo cultural ou de que o capital cultural demarque fronteiras sociais relevantes.

Em um de seus principais estudos sobre o tema, Michele Lamont examina a

possível existência de formas de capital cultural na sociedade norte-americana e na sociedade francesa, com base em entrevistas com indivíduos de “classe média”

(especialmente profissionais e administradores) em Paris, Clermont-Ferrand, Nova Iorque e Minnesota. As evidências do estudo apontam que as fronteiras simbólicas nessas sociedades podem ser construídas com base em três eixos distintos: hierarquia cultural, valores morais e posses materiais. Comparativamente, nota a autora, as fronteiras baseadas em posses materiais e valores morais são mais relevantes na

sociedade norte-americana do que na sociedade francesa, enquanto o oposto se daria com as fronteiras baseadas em hierarquias culturais. Ou seja, as classificações

simbólicas baseadas em hierarquias culturais seriam pouco importantes para distinguir 45

conjuntos de agentes na sociedade norte-americana (LAMONT, 1992). De forma

semelhante, Halle (1991) investiga a possível formação de capital cultural na sociedade norte-americana com base em dados sobre a posse de obras de arte em residências. As evidências do estudo mostram que o gosto pela arte abstrata, tal como objetivado na posse de obras de arte, é predominantemente encontrado entre as “classes médias”, mas esse é minoritário mesmo nessa fração de classe. Isso indicaria que o consumo de alta cultura (ou, pelo menos, de arte abstrata) não seria uma marca de classe importante nessa sociedade, não constituindo, consequentemente, um capital relevante que poderia ser mobilizado para reprodução de vantagens sociais.

Embora tais estudos sejam relevantes para desenvolver a perspectiva analítica de Bourdieu de um ponto de vista comparativo, talvez eles não apreendam adequadamente sua natureza relacional. Bourdieu sublinha que os resultados empíricos de seus estudos (as homologias particulares encontradas entre o espaço social e o espaço simbólico) deveriam ser entendidos relacionalmente (BOURDIEU, 2005a). Quer dizer, o sentido ou significado de um objeto social deriva não de suas características intrínsecas, o que caracterizaria uma leitura substancialista. Ao invés, um bem ou prática qualquer adquire um sentido específico (vulgar ou elegante, legítimo ou ilegítimo, belo ou feio, etc.) devido às relações com outros bens ou práticas em um campo social qualquer, com outros bens ou práticas em outros campos sociais (pois o habitus seria transponível de um campo a outro) e devido às relações dos campos sociais entre si. Isso implica, ainda, que o sentido de um objeto social pode mudar ao longo do tempo no contexto de

mudanças nas relações entre os campos sociais e dentro deles. De fato, enfatiza Holt (1998), a literatura sociológica norte-americana anteriormente analisada tende a fazer uma leitura substancialista (por isso, não-relacional) dos estudos de Bourdieu, na medida em que enfoca:

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se a articulação particular do capital cultural na sociedade parisiense de 1960, objetivada primariamente nas artes legítimas e incorporada na apreciação estética formal, vale para os Estados Unidos contemporaneamente... A falha nesse argumento é que as artes constituem apenas uma pequena fração do universo dos campos de consumo que podem ser alavancados para a reprodução social. Ao enfocarem exclusivamente o campo artístico, esses estudos subestimam as atividades para as quais as elites culturais norte-americanas dedicam a maior parte de suas energias fora do trabalho, como alimentação, decoração de interiores, férias, moda, esportes, leitura, hobbies e eventos sociais. (1998, p. 6; tradução própria)

Adicionalmente, Holt (1998) argumenta que os esquemas de classe usados para

operacionalizar a teoria de Bourdieu na sociedade norte-americana não costumam

distinguir analiticamente entre as propriedades estruturantes do espaço social, ou seja, capital econômico, capital cultural e capital social, o que impede que se capte o processo através do qual essas propriedades possivelmente estruturam o gosto e as práticas de consumo (e, mais amplamente, os estilos de vida).

Levando em conta essas críticas, Holt produziu um estudo empírico comparando

as práticas de consumo em campos sociais distintos (alimentação, decoração, moda, esportes, etc.) de dois pequenos grupos (compostos por 10 indivíduos cada), mas

bastante diferentes entre si. Um deles é constituído por profissionais, gerentes ou especialistas com títulos acadêmicos, cujos pais têm elevado capital cultural (curso universitário). O outro é composto por indivíduos vinculado ao trabalho manual: os indivíduos nesse grupo possuem, no máximo, o equivalente ao ensino médio, exercem trabalho manual e vêm de famílias de trabalhadores manuais com escasso ou pouco

capital escolar. As evidências obtidas, segundo o autor, apontam para a existência de um conjunto de oposições entre as práticas de consumo dos dois grupos. No caso do

primeiro grupo, as escolhas de consumo expressariam o princípio (que se transpõe para vários campos) do distanciamento estetizante em relação à necessidade material (por exemplo, escolha de mobília em termos do valor estético do objeto, e não em termos de sua funcionalidade), enquanto que as escolhas de consumo do segundo grupo estariam fortemente marcadas pela proximidade em relação à necessidade material, que se

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manifestaria na aplicação de esquemas classificatórios que enfatizam a funcionalidade do objeto e julgamentos que apelam para a “imanência” do bem consumido (por

exemplo: preferência por filmes ou livros que “dizem” algo sobre o mundo). Holt

argumenta que o distanciamento estetizante à necessidade material viria acompanhado de uma ênfase sobre a capacidade de combinação criativa e experimentação estilística, sobre a autenticidade e o ecletismo. Diferentemente, as práticas de consumo do segundo grupo estariam muito mais “amarradas” à dinâmica da cultura de massa (Holt, 1998, pp.

7-22).

Embora os resultados desse estudo não possam ser generalizados do ponto de

vista estatístico (uma vez que os grupos não são representativos da sociedade norte-americana), eles nos mostram que a perspectiva analítica de Bourdieu pode ser útil para a investigação das práticas de consumo (e, mais fundamentalmente, da sociabilidade cotidiana) em sociedades contemporâneas fortemente marcadas pela cultura de

consumo, ou seja, pela proliferação de bens e signos (para usar a linguagem dos pós-modernistas) disponíveis aos indivíduos e grupos sociais. As evidências do estudo de Holt apontam que a classe seria um elemento conformador do gosto e,

consequentemente, das práticas de consumo e estilos de vida e que tais estilos de vida se estruturariam em termos de oposições simbólicas. Assim, embora o capital cultural possa se articular de forma diferente na sociedade norte-americana em relação ao modo como ele se articulava na sociedade francesa na década de 196021, esse conceito ainda pode ser relevante para compreendermos o processo de reprodução social e da formação de fronteiras sociais contemporaneamente.

21 Nessa sociedade, o capital cultural se articulava sob duas formas diferentes e, mesmo, contraditórias.

De um lado, estavam os intelectuais, artistas e professores universitários, cujo gosto se orientava para as formas culturais abstratas e para a valorização da forma em detrimento da função, e cujas escolhas de consumo expressavam disposições marcadas pela estética kantiana do desinteresse. De outro lado, estavam os industriais e comerciantes, cujo gosto se orientava para a indulgência, para o luxo e consumo conspícuo, expressando uma estética hedonista (BOURDIEU, 2008, pp. 264-275).

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Atentando para as especificadas históricas da articulação do capital cultural em uma sociedade fortemente marcada pela cultura de consumo, Holt sublinha a

centralidade da dimensão incorporada do capital cultural: “as elites culturais nas sociedades capitalistas avançadas agora buscam assegurar distinção adaptando suas práticas de consumo de forma a acentuar a forma incorporada.” (1998, p. 5; tradução própria) Quer dizer, o modo de se apropriar de um bem ou prática vale tanto ou mais do que simplesmente consumi-lo. Se, no contexto da cultura de consumo, as práticas das

“elites sociais” tendem a atravessar fronteiras culturais tradicionais (argumento defendido nos debates em torno da emergência dos onívoros culturais), isso não

significa necessariamente o desaparecimento de fronteiras simbólicas. Na verdade, possivelmente temos uma apropriação seletiva de elementos da “cultura popular”, na busca de um estilo de vida único e autêntico (SKEGGS, 2004), criando uma oposição entre a “originalidade” e a “mera imitação”. Nesse sentido, a combinação entre

connoisseurship”, que acentua saberes sobre objetos culturais não-sabidos pela maioria dos consumidores, e o ecletismo, marcado pela mistura de estilos e códigos, experimentação seletiva e transposição de fronteiras, pode se tornar um trunfo relevante nas disputas classificatórias contemporaneamente.

Questões semelhantes surgem no debate em torno da possível emergência dos

onívoros culturais. Alguns indivíduos são assim classificados porque suas escolhas de consumo tendem a atravessar fronteiras culturais tradicionais, como aquela existente entre “alta cultura” e a “cultura popular”. Parece haver certo consenso na literatura sobre o tema de que as classes médias, nos EUA e Europa Ocidental, possuem maior diversidade de gostos e práticas culturais que outros grupos (PETERSON, 2005). No entanto, há enormes divergências acerca da natureza desse “novo” padrão de consumo e do seu significado para a articulação do capital cultural (WARDE; MARTENS;

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OLSEN, 1999; WARDE; WRIGHT; GAYO-CAL, 2007). Talvez a principal

divergência se dê em relação ao modo de caracterizar os onívoros culturais. Estes podem ser caracterizados em termos do volume de gostos, da diversidade de gostos ou da orientação em relação aos objetos sociais. O terceiro critério é possivelmente o mais adequado para apreender o princípio que orienta as escolhas de consumo dessas grupos sociais, qual seja, a abertura em relação à diversidade [ openness to diversity], princípio que caracterizaria gostos que se apropriam seletivamente de objetos socialmente

disponíveis (WARDE; WRIGHT; GAYO-CAL, 2007). Nessa linha de argumento,

pesquisas recentes que utilizam dados qualitativos apontam para o fato de que os onívoros culturais não se distinguem de outros grupos especialmente em termos da quantidade de seus gostos e práticas. Ao invés, distinguem-se pela composição deles: embora seus gostos e práticas culturais atravessem fronteiras tradicionais, os onívoros culturais tendem a gostar relativamente mais de “bens legítimos” e a desprezar certos objetos e práticas “populares”, como assistir várias horas de TV e comer fast food (idem, ibid.). Certas fronteiras culturais são raramente atravessadas, mesmo pelos onívoros culturais (BENNETT et al. , 2009). Essas evidências parecem indicar que a emergência dos onívoros culturais não está associada necessariamente à maior

tolerância no campo cultural, embora esteja associada à maior fluidez em suas

fronteiras. Ao invés, essa “nova” orientação em relação ao consumo pode ser “um modo de negociar e demonstrar uma forma de distinção social” nas sociedades de consumo contemporâneas (WARDE; WRIGHT; GAYO-CAL, 2007, p. 164; tradução própria).

De certo modo, as evidências que apontam para a emergência desse novo

princípio orientador das práticas e escolhas de consumo vão de encontro às evidências encontradas por Bourdieu quanto à articulação do capital cultural na sociedade francesa da década de 1960. Lá, o capital cultural articulava-se em torno do controle da cultura 50

legítima e de orientações ao consumo marcadas pela estética kantiana ou pela estética do hedonismo. Contemporaneamente, ao invés, “a participação ou o conhecimento da cultura legítima não é mais a única, ou mesmo a principal, marca de distinção.”

(WARDE; WRIGHT; GAYO-CAL, 2007, p. 149, tradução própria). No entanto, isso

não quer dizer que a cultura tenha se tornado um componente irrelevante de

conformação de fronteiras simbólicas e sociais (LAMONT; MOLNÀR, 2002).

Crescentemente, o capital cultural se articularia em torno de uma orientação ao

consumo marcada pela abertura à diversidade, em que elementos da “cultura legítima”

se combinam com elementos, seletivamente apropriados, da “cultura popular”. Uma

orientação desse tipo seria uma marca distintiva de conjuntos de agentes sociais contemporaneamente. Fundamentalmente, o argumento em torno da emergência dos

onívoros culturais pode ser útil para explicar “como o consumo cultural respondeu ao volume, taxa e variedade crescentes da produção de uma indústria cultural em expansão em um contexto de afluência material.” (WARDE; WRIGHT; GAYO-CAL, 2007, p.

249; tradução própria)

Em estudos de classe recentes, encontramos evidências contraditórias acerca da

relação entre classe e consumo. Na Grã-Bretanha, um dos principais centros de

produção de pesquisa sobre estratificação social, parece haver um consenso

razoavelmente amplo de que as classes não estão mais associadas às principais

clivagens constituídas em torno das escolhas e práticas de consumo. De fato, um dos principais expoentes do Programa de Nuffield, John Goldthorpe, produziu um conjunto de artigos (com Tag Wing Chan) acentuando a importância da distinção weberiana entre classe e status (GOLDTHORPE; CHAN, 2005, 2006, 2007c, 2007d). Contrariamente a Bourdieu, os autores argumentam que classe e status estruturariam aspectos distintos da 51

ordem de estratificação social e impactariam sobre as chances de vida dos indivíduos através de mecanismos diferentes.

No capítulo anterior, vimos que os estudos de classe de Goldthorpe distinguem

posições de classe com base em relações de emprego. Diferentemente, concebem status como se referindo a uma estrutura de relações (percebida e, em certa medida,

socialmente aceita) de superioridade, inferioridade ou igualdade entre indivíduos posicionados em ocupações. Com base em informações sobre a ocupação de amigos

próximos, a ordem de status é construída como uma hierarquia de ocupações (assume-se que as relações de amizade são mais frequentes entre indivíduos que se veem como iguais) (GOLDTHORPE; CHAN, 2007d). Assim definidos e operacionalizados, status e classe impactariam diferencialmente sobre a ordem de estratificação social. As posições de classe constituiriam o principal fator a conformar as chances de vida no mercado. De fato, as evidências apontam para uma forte correlação entre classe, de um lado, e desemprego de longo-prazo e variações de rendimentos no curto-prazo e longo-prazo, de outro (GOLDTHORPE; MCKNIGHT, 2006). Diferentemente, status se

correlacionaria mais fortemente com práticas de consumo e diferenças de estilo de vida (GOLDTHORPE; CHAN, 2005).

De modo a explorar essa hipótese, os autores investigaram empiricamente práticas de consumo (os dados de consumo referem-se à participação) em três campos culturais distintos: música, teatro e cinema e artes visuais. As evidências produzidas apontaram (parcialmente) a existência de uma divisão, nesses campos, entre onívoros e unívoros culturais, sendo que a probabilidade de um indivíduo se encaixar em um ou outro tipo é condicionada, em grande parte, pelo status, e não por classe. O argumento da pós-modernidade, que sublinha a individualização do consumo, não se sustentaria, segundo os autores, pelo simples fato de as evidências revelarem a existência de tipos de 52

consumidores bem diferentes entre si, o que apontaria para algum tipo de padronização das práticas e escolhas de consumo para além de idiosincracias individuais ou, em outros termos, para além da livre manipulação dos signos e bens de consumo pelo

indivíduo. Tampouco se sustentaria o argumento das homologias postulado por

Bourdieu, uma vez que não há evidências de uma oposição entre um “gosto legítimo e exclusivo”, que se expressa nas práticas das frações de classe dominantes, e um “gosto vulgar”, predominante entre as frações de classe inferiores22 (GOLDTHORPE; CHAN, 2005, 2006, 2007c).

Contrariamente, estudos recentes realizados por pesquisadores sediados na

Universidade de Manchester, e baseados no esquema analítico de Bourdieu, acentuam a importância da classe para a estruturação das práticas e escolhas de consumo e a relevância destas para a conformação das relações de classe, especialmente para o processo de reprodução de posições sociais mais elevadas (SAVAGE et al., 2005;

SAVAGE et al.; 2007; BENNETT et al., 2009).

Segundo os autores, os estudos recentes que investigam a relação entre classe e

cultura teriam problemas teóricos e metodológicos, o que os impediria de apreciar adequadamente a importância da classe como um fator estruturante das práticas sociais e a relevância da cultura como componente conformador das relações de classe. De forma similar a Holt (1998), argumentam que tais estudos tenderiam a fazer uma leitura

“substancialista” da obra de Bourdieu, ligando posições de classe a tomadas de posição específicas no plano simbólico (por exemplo: a estética do desinteresse seria o princípio orientador das escolhas de consumo das frações dominantes; ou as elites gostariam de tênis, enquanto as frações populares prefeririam o futebol, etc.), marginalizando a concepção relacional e a ênfase sobre a autonomia dos campos sociais, que perpassam 22 Como vimos, esse tipo de leitura não aprecia corretamente a dimensão relacional da obra de Bourdieu.

A relevância do consumo da “cultura legítima” para diferenciar conjuntos de agentes nos planos simbólico e social varia de uma sociedade para outra.

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o trabalho desse autor. Essa leitura “substancialista” teria informado escolhas

metodológicas inadequadas: são utilizados esquemas de posições de classe em que estas são definidas a priori com base em critérios objetivos – o chamado modelo dedutivo

e, então, tomadas como uma variável independente que possivelmente impacta sobre a probabilidade de diferentes escolhas ou práticas de consumo. De fato, as pesquisas sociológicas sobre consumo geralmente empregam procedimentos estatísticos que

buscam identificar os efeitos de variáveis independentes (classe, gênero, idade, educação,etc.) sobre variáveis dependentes (frequência ao cinema, teatro, etc.), através do uso de técnicas multivariadas (regressão, modelos log-lineares, etc.). Ao invés, seria mais adequado, segundo os autores, utilizar um modelo indutivo, em que se constrói um

“mapa cultural” das práticas e gostos dos agentes sociais e, a partir daí, observar as prováveis fronteiras demarcadas pelas tomadas de posição no plano simbólico. Essa estratégia metodológica permitiria apreciar a importância da cultura como um possível fator estruturante das relações de classe e operacionalizar a concepção relacional que informa os estudos de Bourdieu (SAVAGE et al.; 2007).

Em Bennett et al. (2009), encontramos uma tentativa de replicar o estudo de Bourdieu, A Distinção, através da investigação de práticas culturais e das relações de classe na sociedade britânica, ao mesmo tempo, qualificando-o à luz de

desenvolvimentos subseqüentes nas ciências sociais. Há três questões principais que orientam o referido estudo. Em primeiro lugar, investiga-se a possível relevância do capital cultural na Grã-Bretanha e as formas que ele toma nessa sociedade. Para os autores, o conceito de capital cultural deve ser desagregado, para que se possa apreciar como seus diferentes componentes operam diferencialmente (por exemplo: gerando

taxas de retorno desiguais em termos de outros tipos de capital) em contextos sociais diversos. Em segundo lugar, aborda-se o argumento da homologia, ou seja, em que

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