Conhecimento, evolução e complexidade na filosofia sintética de Herbert Spencer por Daniel Cerqueira Baiardi - Versão HTML

ATENÇÃO: Esta é apenas uma visualização em HTML e alguns elementos como links e números de página podem estar incorretos.
Faça o download do livro em PDF, ePub, Kindle para obter uma versão completa.

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS

DEPARTAMENTO DE FILOSOFIA

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM FILOSOFIA

Daniel Cerqueira Baiardi

Conhecimento, Evolução e Complexidade na Filosofia

Sintética de Herbert Spencer

SÃO PAULO

2008

Daniel Cerqueira Baiardi

Conhecimento, Evolução e Complexidade na Filosofia

Sintética de Herbert Spencer

Dissertação

apresentada

ao

programa de Pós-Graduação em

Filosofia do Departamento de

Filosofia da Faculdade de Filosofia,

Letras e Ciências Humanas da

Universidade de São Paulo, para

obtenção do título de Mestre em

Filosofia sob a orientação do Prof.

Dr. Osvaldo Pessoa Jr.

São Paulo

2008

“Vemo-los moverem-se assim como, em mecânica,

vemos massas e sistemas, ou como, no mar, vemos

pedras e anêmonas. Percebemos multidões de

homens, de forças móveis, flutuando em seu meio e em

seus sentimentos”.

Marcel Mauss

Agradecimentos

Muito especialmente ao meu orientador, Professor Osvaldo

Frota Pessoa Jr., por sua abnegada dedicação e espirituosa

companhia durante todo o trajeto percorrido nesta pesquisa.

Aos membros da banca, pela gentileza de aceitarem esta

função e pela superior atenção com que a desempenharam.

Aos funcionários do Departamento de Filosofia, por sua

cordialidade e atenção.

Aos meus estimados pais, Amílcar e Stella, pelo apoio

incondicional e motivação constante.

RESUMO

BAIARDI, D. C. Conhecimento, Evolução e Complexidade na Filosofia

Sintética de Herbert Spencer. 2008. 146 f. Dissertação – Faculdade de

Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Departamento de Filosofia,

Universidade de São Paulo, São Paulo, 2008.

Esta dissertação é um estudo da doutrina evolucionária do gradual

desenvolvimento da mente de Herbert Spencer, em especial como aparece na

terceira parte de seus Principles of Psychology: General Synthesis (1855).

Atenção é dada aos princípios epistemológicos basilares do seu sistema da

Filosofia Sintética, assim como os conceitos de complexidade, estrutura,

função e teleologia, em sua concepção evolucionista pré-darwiniana.

Examinam-se também alguns debates em que se envolveu Spencer nesse

período vitoriano.

Palavras-chave: Conhecimento, Evolução, Epistemologia, Complexidade,

Teleologia, Herbert Spencer, Filosofia Sintética.

ABSTRACT

BAIARDI, D. C. Knowledge, Evolution and Complexity in Herbert

Spencer’s Synthetic Philosophy. 2008. 146 f. Thesis (Master Degree) –

Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Departamento de

Filosofia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2008.

This thesis is a study of the evolutionary doctrine of gradual development of the

mind of Herbert Spencer, especially as it appears in the third part of his

Principles of Psychology: General Synthesis (1855). The basic epistemological

principles of his Synthetic Philosophy are studied, as well as the concepts of

complexity, structure, function and teleology, in his pre-Darwinian evolutionary

conception. Some of his debates in this Victorian era are also examined.

Key-words: Knowledge, Evolution, Epistemology, Complexity, Teleology,

Herbert Spencer, Synthetic Philosophy.

SUMÁRIO

RESUMO......................................................................................................................5

ABSTRACT..................................................................................................................6

INTRODUÇÂO..............................................................................................................9

CAPÍTULO 1 – INTRODUÇÃO AO PENSAMENTO SPENCERIANO.......................10

1. VIDA E OBRA DE HERBERT SPENCER...........................................................10

2. A FILOSOFIA SINTÉTICA..................................................................................15

3. OS CONCEITOS ONTOLÓGICOS DE ORGANISMO E DE AMBIENTE..........22

4. O POSTULADO UNIVERSAL.............................................................................24

CAPÍTULO 2 - CIRCUNSTÂNCIAS HISTÓRICAS.....................................................31

1. A CRÍTICA AO IDEALISMO................................................................................31

2. SPENCER E O POSITIVISMO...........................................................................34

3. FRENOLOGIA E ASSOCIACIONISMO..............................................................36

4. A INFLUÊNCIA CONTINENTAL: O ILUMINISMO E O ESTUDO DO

DESENVOLVIMENTO EMBRIONÁRIO........................................................... .. .40

5. A INFLUÊNCIA DA ECONOMIA CLÁSSICA .................................................... 45

6. OS CONCEITOS DE ESTRUTURA E DE FUNÇÃO..........................................48

7. O EVOLUCIONISMO..........................................................................................53

CAPÍTULO 3 – ANÁLISE DA TERCEIRA PARTE DOS PRINCIPLES OF

PSYCHOLOGY: General Synthesis” .....................................................................65

1. MÉTODO..............................................................................................................67

2. DEFINIÇÃO DO FENÔMENO VITAL...................................................................71

3. A CORRESPONDÊNCIA ENTRE A VIDA E SUAS CIRCUNSTÂNCIAS............75

4. A CORRESPONDÊNCIA ENQUANTO HOMOGÊNEA E HETEROGÊNEA.......85

5. A CORRESPONDÊNCIA ENQUANTO EXTENDIDA NO ESPAÇO E NO

TEMPO.................................................................................................................88

6. A CORRESPONDÊNCIA ENQUANTO INCREMENTO EM ESPECIALIDADE,

GENERALIDADE E COMPLEXIDADE.................................................................94

7. A DOUTRINA DA COORDENAÇÃO DE CORRESPONDÊNCIAS....................107

8. A CORRESPONDÊNCIA NA SUA TOTALIDADE..............................................112

CAPÍTULO 4 - SÍNTESE CONCEITUAL DOS PRINCIPLES OF

PSYCHOLOGY..........................................................................................................115

1. A TEORIA DO CONHECIMENTO DE HERBERT SPENCER ........................115

2. JUÍZOS DE VALOR NO SISTEMA SPENCERIANO.......................................120

3. A CRÍTICA DE W. JAMES À DEFINIÇÃO SPENCERIANA DE MENTE.........122

4. SPENCER E A VISÃO TELEOLÓGICA DE CHAMBERS................................126

5. TELEOLOGIA...................................................................................................128

6. TELEONOMIA, TELEOLOGIA CÓSMICA E ESTADOS PREFERIDOS..........132

CONSIDERAÇÕES FINAIS.......................................................................................138

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS..........................................................................141

ABREVIAÇÕES

PP – Principles of Psychology

INTRODUÇÃO

A presente dissertação visa acompanhar a aplicação do conceito

biológico de evolução por Herbert Spencer ao desenvolvimento das faculdades

do entendimento e de suas estruturas correlatas. Tal desenvolvimento é

tomado enquanto um processo histórico, no sentido que procura lançar luz

sobre o objeto através de sua gênese e de sua evolução. Neste percurso,

Spencer ansiou por oferecer uma explicação para a existência das faculdades

que se encontravam a priori no entendimento. Concentrar-se-á atenção

especial na análise dos Principles of Psychology (1855).

O capítulo 1 empreende uma breve reconstituição da obra de Herbert

Spencer, atendo-se aos fatos de maior relevância para a compreensão do

desenvolvimento de alguns elementos utilizados na composição de sua

doutrina. O capítulo 2 reúne as idéias que mais influenciaram Spencer na

construção do seu sistema da Filosofia Sintética. Realizamos neste capítulo

uma abordagem histórica, com a finalidade de produzir uma apreciação

epistemológica da construção do seu sistema da Filosofia Sintética.

O Capítulo 3 analisa a terceira parte de Principles of Psychology

(1855) de Herbert Spencer, e tem por pretensão demonstrar como operam os

conceitos de evolução, estrutura e função em sua investigação do

entendimento humano, tanto no seu desenvolvimento como na evolução do

sistema nervoso e sensorial. O Capítulo 4 sintetiza o conjunto axiomático da

teoria do conhecimento de Spencer, assim como as principais implicações para

a sua teoria do conhecimento.

Capítulo 1: Introdução ao Pensamento de Herbert

Spencer

Empreender-se-á nas próximas páginas uma breve reconstituição da

trajetória intelectual de Herbert Spencer, atendo-se aos fatos de maior

relevância para a compreensão do desenvolvimento de alguns elementos

utilizados na composição de sua doutrina. No intuito de esclarecer seus

principais pressupostos, também será exposto o conjunto axiomático de seu

sistema da Filosofia Sintética, apresentando suas entidades ontológicas

fundamentais, seguidas pelo princípio metodológico que Spencer denominou

como Postulado Universal.

1.1: Vida e Obra de Herbert Spencer

De brilhante engenheiro a filósofo, Herbert Spencer (1820-1903) produziu

uma extensa e diversificada obra que desfrutou de grande sucesso no final do

séc. XIX. Mas, em parte devido à independência de sua filosofia, acabou por

se isolar intelectualmente cada vez mais com o passar dos anos. O nome de

Herbert Spencer fica na História da Filosofia, ainda que no testemunho de

poucos autores, intimamente ligado ao que ficou conhecido como darwinismo

social, que por sua vez é considerado por muitos como uma justificativa

científica para alguns dos horrores produzidos por estados autoritários durante

o séc. XX. A leitura da obra de Spencer demonstra que esta associação entre

suas idéias e, por exemplo, o extermínio de minorias pelo nazismo, é uma

associação errônea. O próprio Spencer ficava espantado com muitas

aplicações das leis da evolução à sociedade, aplicações estas que eram

elaboradas por seus contemporâneos. Spencer alertara sobre o fato de que o

conceito de evolução funciona como uma armadilha, possibilitando gerar as

mais equivocadas interpretações. Antes da publicação de Principles of

Psychology (1855), Spencer já havia divulgado sua concepção particular do

processo evolutivo em “The Development Hypothesis” (1852), refinando-a em

11

“Progress: its Law and Cause” (1857), e por fim, apresentando-a enquanto

integrada a um sistema em First Principles (1862).

Muitos atribuíram a Spencer o epíteto de “filósofo da evolução”. Michael

Ruse sugere que coube a Spencer assumiu o papel do profeta da evolução

(Ruse, 1999, p.78). John Dewey (1859-1952) comenta que sua imagem pública

era a da teoria da evolução encarnada (Dewey, 1904, p. 167). Classificam-no

genericamente como um educacionalista, Spencer foi reconhecido como

propagador e divulgador do conhecimento científico, e insistia na ampliação do

ensino das ciências naturais já nos primeiros estágios após a alfabetização,

como em sua obra Education (1861), a qual reunia também algumas de suas

idéias expostas em artigos como “Mr. Hume and National Education” (1843),

“The Art of Education” (1854) e “Moral Discipline of Children” (1858).

Dewey via em Spencer um certo individualismo psicológico, um

individualismo não exatamente como o de John Locke (1632-1704), mas sim um

individualismo exportado e reimportado da França e de seus enciclopedistas

(Dewey, 1904, p. 166). A educação e a formação de Spencer nos sugerem

algumas características que se exibiriam recorrentes na análise de seu trabalho

no sistema da Filosofia Sintética. O modelo de conhecimento em Spencer é um

modelo geométrico, fato que não é surpreendente, uma vez que foi seu próprio

pai, William George, que o instruiu privadamente, desde a infância, através de

um sistema de ensino baseado em deduções geométricas, conhecido por

Inventional Geometry, sistema que o próprio William havia desenvolvido

(Spencer, 1899, p.534-7).

Para procedermos com a reconstituição das circunstâncias históricas nas

quais Spencer estava inserido, é preciso conhecer as suas motivações.

Spencer se apresenta como pertencente a uma linhagem de ativa participação

política e religiosa, e era descendente de não-conformistas tanto através de

seu pai como de sua mãe. Segundo ele próprio: “Nossa família era uma família

dissidente, e dissentir é uma expressão antagônica a controle arbitrário”. Sua

educação foi complementada ainda por seu tio, o Reverendo Thomas Spencer,

um radical e pessoa cientificamente inclinada. Dewey considera Spencer como

12

uma notória referência intelectual do período vitoriano. Em sua opinião, até

meados da década de 30, a Sociologia tinha as suas bases naquilo que

Spencer defendia (Dewey, 1904). Em sua análise do sistema spenceriano

assevera:

A gênese do sistema spenceriano através da fusão de noções

científicas e considerações filosóficas fornece sua atual

sustentação e também o legitima (Dewey, 1904, p. 173).

Uma breve reconstituição biográfica nos auxilia a vislumbrar esta transição

entre o jovem Spencer e aquele que dedicou o restante de sua vida na

constituição do sistema da Filosofia Sintética. Em sua juventude, na aurora das

locomotivas, fora um notável engenheiro ferroviário, tomando parte na

construção da imensa malha ferroviária que se formava no território britânico.

Suas patentes registradas em desenvolvimentos como o velocímetro, o

dinamômetro de torque (aparelho mensurador da força tratora de um motor) e o

pino de pressão (mecanismo de engate dos vagões, hoje plenamente difundido

em qualquer encaixe plástico), o possibilitaram dedicar o restante de sua vida a

um projeto como o a Filosofia Sintética. Em um jantar em família, Spencer

criticava algumas obras políticas quando seu pai, já convencido de seu

potencial, o desafiou a redigir um tratado em política. Este desafio resultou

primeiramente nas obras intituladas “On the Proper Sphere of Government”

(1842), e mais tarde em Social Statics (1855), obras onde Spencer defendia o

fim da propriedade privada, o sufrágio universal, entre outras posturas mais

radicais que acabou por abandonar com o passar dos anos. Sua família era

composta por não-conformistas e liberais, e havia se lançado em uma

discussão política, segundo alguns críticos, sem o preparo necessário: o

estudo aprofundado da tradição política e moral de seus compatriotas,

principalmente Hobbes (1588-1679) e Locke. Segundo ele mesmo, em sua

formação careceu de cultura nas humanidades (Spencer, 1899, p. 535).

Mesmo assim, publicou considerável literatura sobre o assunto, como em

“Justice before Generosity” (1846), “A Theory about Population” (1852), “Over

Legislation” (1853), “The Morals of Trade” (1859), entre outros artigos de menor

relevância. É importante lembrar que o sistema spenceriano começa a ser

construído a partir de meados da década de 1850. Os fundamentos de suas

13

primeiras obras políticas são diferentes daqueles tomados na construção de

seu sistema.

Logo após deixar a engenharia ferroviária, Spencer tornou-se membro do

staff de editores do The Economist, e nesta posição estava exposto aos

principais debates políticos de sua época. O período vitoriano foi sem dúvida

um momento de extrema atividade científica e intelectual, isto fica claro ao

notar a vasta e notável produção nas ciências econômicas, no estudo da

natureza (principalmente na Geologia e nas ciências do orgânico), assim como,

no campo da filosofia. Entretanto, também é no período vitoriano que a

Inglaterra se fixa como um império ultramarino e experimenta o

desenvolvimento de sua indústria em uma escala que ainda não tinha sido

observada. Naturalistas eram enviados além-mar na esperança de encontrar

novas fontes de alimento e matéria prima, propiciando um universo de novas

possibilidades para pesquisadores, ou mesmo, os mais simples colaboradores

das ciências naturais.

Spencer realizou apenas um experimento científico ao longo de toda

sua vida, mas, ao mesmo tempo, se enveredava em diversos campos de

estudo, se utilizando, segundo ele próprio, de seu método dedutivo. Dizia-se

possuidor de uma característica pessoal que não o permitia se contentar com

uma indução, dando sempre continuidade a uma investigação até que a

generalização obtida fosse reduzida a uma dedução (Spencer, 1899, p. 535).

Através desta prática ele acreditou que poderia sintetizar em seu sistema boa

parte dos frutos do conhecimento científico de seu tempo. Ao mesmo tempo

em que a atividade de Spencer muitas vezes o associava à postura de

pragmáticos, iluministas ou utilitaristas (termos que pouco podem esclarecer

neste âmbito), em Spencer não observamos uma influência marcante de uma

escola filosófica. Sua filosofia é de certa forma independente, e seu projeto

como um todo é inovador. Segundo Dewey, a posição política de Spencer

forneceu as idéias e os ideais fundamentais; as fórmulas da Biologia proveram

uma definição dos elementos necessários para colocarem estes vagos ideais

em alguma coisa com uma roupagem científica (Dewey, 1904, p.170). No

14

entanto, o que Spencer nos confessa é que ansiava oferecer às ciências

humanas um embasamento científico e não somente um disfarce. Quando

Spencer passou a se dedicar plenamente ao desenvolvimento de seu primeiro

tratado político, Social Statics (1851), julgava que seus contemporâneos e

predecessores trabalhassem com os problemas morais ignorando total ou

parcialmente o princípio de causalidade. Assim, Spencer ansiava por tornar a

Ética mais científica, elaborando um sistema capaz de construir proposições

verdadeiras de ordem racional e não simplesmente empíricas. A tal disciplina

denominou Moral Science. Ele defendia que os estudos dos problemas morais

deveriam seguir os métodos que proporcionaram o progresso substancial das

pesquisas desenvolvidas no campo das ciências naturais.

Esta necessidade de embasar suas convicções em solo rígido, de

natureza objetiva, acabou por alterar algumas de suas primeiras propostas. No

entanto, comentou-se que seu sistema era uma tentativa ingênua e nada

modesta, porém, digna de reconhecimento. Dewey acrescenta:

O ponto que me parece mais significante (e, dessa forma, tão

absolutamente necessária de se tomar em reconhecimento),

quando calculamos os débitos com o trabalho intelectual de

Herbert Spencer, é o fato de ter se debruçado para atingir uma

idéia pré-concebida, uma idéia que, acima tudo, demonstra

uma compreensão dedutiva, sintética, de tudo que está contido

no universo (Dewey, 1904, p. 160).

Esta é, segundo Dewey, a razão de seu poder e também de sua

inevitável fraqueza. Esta característica impessoal do sistema spenceriano é, no

seu entender, o registro de uma separação de seu autor da participação vital

nos movimentos correntes daquele momento histórico. O isolamento de

Spencer, na opinião de Dewey, não é físico, uma vez que participava

intensamente das reuniões da intelligentsia britânica, mas intelectual, pois não

se associava com as principais doutrinas daquele período histórico. Não

obstante o trabalho de Spencer ser um tanto quanto original e independente,

sua intensa correspondência e ativa participação intelectual em meio a

associacionistas, empiristas, evolucionistas e liberais não sugerem exatamente

um isolamento como Dewey observa.

15

1. 2: A Filosofia Sintética

As leis principais da Filosofia Sintética são apresentadas como um

sistema completo pela primeira vez somente em First Principles (1862), apesar

da exposição antecipada de seus princípios em “The Development Hypothesis”

(1852) e em “Progress: Its Law and Cause” (1857). Pretendemos reproduzir

aqui somente a estrutura elementar de seu sistema, e para tanto

apresentaremos algumas teses que compõem o núcleo teórico do programa e

que não poderiam ser negligenciadas nesta tarefa. Estes conceitos, que

auxiliam na fundamentação de todo o seu modelo evolutivo particular, vão

permitir uma compreensão privilegiada dos conceitos componentes da doutrina

exposta nos Principles of Psychology.

1. 2. 1: Axiomas

(i) Persistência da força

Nenhuma força pode surgir do nada nem tampouco desaparecer no

nada (Spencer, 1862, p. 185). Spencer aqui é certamente influenciado pelos

estudos sobre a conservação da energia. Este princípio começa a ser

esclarecido com os trabalhos de Julius Robert Mayer (1814-1878) em 1842, e

um ano depois por James Joule (1818-1889), que calcularam o fator de

conversão entre energia mecânica e térmica. Em 1847 diversos elementos

desta doutrina foram sistematizados e divulgados por Hermann von Helmholtz

(1821-1894), atribuindo valores numéricos concretos aos processos de

conversão tratados, auxiliando na interpretação de fenômenos fisiológicos

(Coleman, 1985, p. 122). Comenta-se que em certo momento Spencer aponta

que sua visão fora fortemente influenciada pelo trabalho de William Robert

Grove (1811-1896), intitulado On The Correlation of Physical Forces (1846),

posterior ao primeiro trabalho de Joule, mas anterior ao de Helmholtz (Taylor,

16

1996, p. xiv). A doutrina da conservação da energia fascinava Spencer por seu

poder explicativo e sintético, a qual postulava uma lei comum para a mecânica,

termodinâmica, eletricidade e magnetismo. Esta característica de persistência

de “força”, o que hoje denominamos “energia”, está fortemente presente no

sistema spenceriano, o qual admite apenas um conjunto de leis ordenando

desde a organização da matéria até a mecânica do desenvolvimento das

sociedades, como exposto em Social Statics (1855).

Deste axioma, Spencer deriva outros dois de seus primeiros princípios

que tomaremos como premissas nesta reconstrução:

(ii) Indestrutibilidade da matéria

No sistema spenceriano, admite-se também a lei da conservação da

matéria, de onde se deduz que a matéria é indestrutível (Spencer, 1862, p.

172) . Esta tese estava, a época, associada ao trabalho de Lavoisier (1743-

1794): na natureza nada se cria nada se perde, tudo se transforma. Para

Lavoisier há também somente uma física e suas leis não admitem exceção,

tanto nos organismos como na matéria inerte (Coleman, 1985, p.126). Em

Spencer, estas leis da física transpassam as ciências do orgânico, penetrando

com a mesma força nas ciências sociais.

(iii) Continuidade do movimento

Assim como a matéria é indestrutível, o movimento para Spencer é

contínuo (Spencer, 1862, p. 180). À medida que o movimento diminui, a

integração da matéria aumenta, e vice-versa. O movimento pode ser

representado por forças mecânicas, térmicas ou eletromagnéticas em ação

sobre qualquer sistema finito isolado. Esta tese auxilia na sustentação das

fórmulas seguintes, onde Spencer relaciona a redução do movimento com o

incremento de heterogeneidade.

17

1. 2. 2: Formulações

A partir deste conjunto axiomático, herdado de concepções com ampla

divulgação no século XIX, Spencer constrói as seguintes generalizações:

(i) Lei da instabilidade do homogêneo:

Esta lei determina que qualquer sistema finito homogêneo deve

inevitavelmente perder sua homogeneidade. Isso se deve ao fato de este

sistema se encontrar na natureza exposto de maneira desigual a qualquer força

que esteja operando sobre ele em um determinado momento. Como esta força

externa não pode agir sobre o sistema todo, simultaneamente e no mesmo

grau, acaba por tornar aquele sistema heterogêneo por modificação

diferenciada de suas partes (Spencer, 1862, p. 401). Assim, duas partes

quaisquer de um mesmo agregado nunca podem ser igualmente condicionadas

em relação às forças incidentes, estando então, sujeitas a forças mais ou

menos desiguais, elas se tornariam mais ou menos desiguais.

Esta lei demonstra o papel decisivo do ambiente externo nestas

definições, justificando a identificação do trabalho de Spencer com uma visão

“externalista”. Tomaremos aqui como externalista a perspectiva segundo a

qual as modificações de um sistema dependem essencialmente de aspectos e

de forças exteriores ao sistema. As explicações oferecidas por Spencer para o

incremento em complexidade estão quase exclusivamente baseadas sobre

esta perspectiva externalista (Godfrey-Smith, 1996, p. 4).

Esta lei entraria em conflito com a 2ª lei da termodinâmica, de aumento

de entropia, cujo valor máximo está associado a um estado homogêneo. De

acordo com a 2ª lei da termodinâmica, tomando o universo enquanto um

sistema fechado, seu curso geral é no sentido de crescente entropia, i. e., no

sentido de uma ordem decrescente (homogeneidade crescente). Porém, a

contínua existência de seres vivos e outros sistemas altamente organizados

18

parece contradizer este princípio. Contudo, a existência de bolsas temporárias

de ordem crescente é completamente compatível com a 2ª lei da

termodinâmica. Os organismos vivos mantêm sua organização à custa de

energia oriunda de seu meio ambiente (Hull, 1974, p. 186).

(ii) Lei da multiplicação dos efeitos:

Em Spencer o conceito de causa e efeito admite uma natureza mais

complexa: onde existe uma causa podemos ter mais de um efeito, assim como

também é possível que tenhamos de reunir muitas causas para produzir um

efeito desejado. A multiplicação dos efeitos aliada à instabilidade do

homogêneo justifica o aumento incessante da complexidade tanto dos sistemas

finitos observados como o do nosso universo infinito. Outra propriedade

apresentada por Spencer é que a multiplicação dos efeitos se acentua através

de uma progressão geométrica, acompanhando o avanço da heterogeneidade

do sistema. Esta contínua e crescente divisão e subdivisão de forças que agem

sobre o sistema transformam o uniforme em multiforme, e o que já é multiforme

em algo ainda mais multiforme (Spencer, 1862, p. 431). Uma vez admitido este

conjunto axiomático, somadas as leis da multiplicação dos efeitos e da

instabilidade do homogêneo, Spencer constrói as outras três últimas fórmulas

nas quais devemos nos deter aqui, a saber: evolução, dissolução e equilíbrio.

(iii) Lei da contínua re-distribuição da matéria e do movimento:

Segundo Spencer, a lei da contínua re-distribuição da matéria e do

movimento é derivada da lei da persistência da força, e também sintetiza os

outros dois axiomas: continuidade do movimento e indestrutibilidade da

matéria. Uma vez inserida a perspectiva da lei da multiplicação dos efeitos

podemos atingir as outras três últimas fórmulas que devemos aqui tratar:

evolução, dissolução e equilíbrio.

19

(iv) Fórmula da evolução:

A fórmula da evolução é também deduzida a partir da lei de persistência

da força, e através da lei da contínua re-distribuição da matéria e do movimento

ela toma sua forma. A definição de Spencer para o processo evolutivo é: uma

integração da matéria e concomitante dissipação do movimento, durante o qual

a matéria passa de uma indefinida e incoerente homogeneidade para uma

definida e coerente heterogeneidade, ao mesmo tempo em que o movimento

que é retido sofre uma transformação paralela (Spencer, 1862, p. 397). Este

processo é marcado por uma maior integração das partes, em alguns casos,

como em organismos vivos e sociais, esta integração envolve também uma

maior interdependência das partes. Em Spencer, a complexidade é

compreendida enquanto heterogeneidade organizada.

Segundo o sistema spenceriano, evolução é também diversificação.

Estando as partes desigualmente expostas a diferentes forças e elementos,

elas vão se diferenciando, assumindo formas e funções diferenciadas. Estas

partes podem ser corpos celestes, espécies, espécimes ou mesmo os grupos

sociais humanos e também sua cultura, tudo sujeito ao mesmo princípio que

abarca quase a totalidade dos fenômenos conhecidos. Esta evolução

compreende muito mais que o universo dos seres vivos, com a pretensão de se

sustentar através de princípios mecânicos. Devido a um conjunto de fatores, o

modelo de transformação spenceriano adequou-se melhor ao progresso das

sociedades do que à evolução dos organismos.

Exemplificando o processo, consideremos uma nação formada por

pequenas tribos, distribuídas ao longo de um vale que é regado por um rio que

cruza toda a nação no sentido norte-sul. Denominaremos nossa nação por N, e

ela é ainda caracterizada pela submissão de todas as suas pequenas tribos a

um poder central, o “grande chefe” de N. Nosso vale hipotético é protegido por

duas cadeias de montanhas paralelas, nas quais encontramos caça e madeira

em pequenas matas. Ao longo do rio subsistem outras duas nações de

estrutura semelhante: Na, ao norte, caracterizada por um comportamento mais

agressivo; e Np, ao sul, caracterizada por um comportamento pacífico. No

20

modelo de transformação spenceriano, as tribos, que antes realizavam todas

as tarefas necessárias à sua própria sobrevivência, passam a se especializar

nas tarefas que executam mais constantemente, por força da necessidade.

Aquelas próximas às matas são tribos que se aperfeiçoam na caça e no corte

da madeira; aquelas próximas ao rio, na pesca e na navegação. As tribos

vizinhas a Na certamente desenvolvam hábeis guerreiros e as vizinhas a Np

provavelmente bons comerciantes. Em um organismo vivo, os tecidos expostos

ao alimento especializam-se na assimilação, aqueles mais próximos ao

substrato, na locomoção, e assim por diante.

(v) Fórmula da dissolução:

Inversamente à evolução, Spencer define o processo de dissolução

como: uma desintegração da matéria e concomitante concentração do

movimento; durante o qual a matéria passa de uma definida e coerente

heterogeneidade para uma indefinida e incoerente homogeneidade

(Spencer, 1862, p. 518).

Assim como acontece com a evolução, a dissolução spenceriana pode

ser observada tanto nos organismos individuais como nos sociais, porém

não apresentam as mesmas semelhanças que foram demonstradas no

processo evolutivo. Segundo Spencer, as forças no universo possuem um

ritmo [ rhythm], assim haveria um limite para aquela dissipação do

movimento, propriedade exibida no processo evolutivo. Assim que o limite

da integração da matéria é atingido, inicia-se um processo de distribuição

reverso onde a energia do movimento passa a crescer, a integração das

partes diminui, e se inicia assim o processo de dissolução. Este processo,

de certa forma, é perfeitamente consistente com o princípio de aumento de

entropia da termodinâmica.

Em nossa nação hipotética N, tal processo pode ser exemplificado

através da dissolução das estruturas de submissão ao poder central,

21

causado por um ataque massivo por parte do vizinho agressivo, a nação Na,

a morte do “grande chefe”, ou mesmo devido a uma outra causa suficiente

para o enfraquecimento da integração entre as pequenas tribos que a

compõem. Tal desintegração do corpo social, ou a morte para um

organismo, demonstra um sentido duplo, ou dois processos de

transformação, evolução e dissolução, que em essência possuem a mesma

dinâmica, mas sentidos opostos.

(vi) Lei do equilíbrio:

Assim como as fórmulas precedentes, a lei do equilíbrio é deduzida a

partir da lei da persistência da força. Diante desta co-existência de forças

antagônicas é também possível que se instaure um equilíbrio entre elas,

este equilíbrio spenceriano está intimamente ligado à noção de ritmo

comentada anteriormente. Na versão revisada de Social Statics1, Spencer

oferece-nos uma pista de como este equilíbrio delimita o seu complexo

fenômeno evolutivo:

A velocidade do progresso sentido por qualquer forma adaptada

deve diminuir à medida que se aproxima da completa adaptação,

uma vez que a força que o produz diminui ao se aproximar da

completa adaptação, dessa forma, não assumindo outras causas,

a perfeita adaptação só pode ser atingida em um tempo infinito.

(Apud. Taylor, 1996, p. xv).

Com a lei do equilíbrio, concluímos as teses mais relevantes para nosso

objetivo entre o que ele denominou de seus primeiros princípios. Este

trecho, somado ao conteúdo exposto nestas leis de First Principles, auxilia

a demonstrar a pretensa fundamentação mecânica do processo evolutivo

em Spencer, estabelecendo suas causas nas propriedades organizadoras

da matéria. Este fato nos auxiliará na tarefa de analisar se o sistema

spenceriano é necessariamente fundamentado em um pensamento

teleológico.

1 Este trecho pertence à versão revisada de 1892, p. 31, nas notas de rodapé.

22

Após apresentar esta breve exposição dos fundamentos de seu sistema,

e de sua pretensa fundamentação mecânica, partiremos para a aplicação

generalizada dos princípios evolutivos de Spencer ao estudo da mente e de

seu desenvolvimento.

1.3: Os Conceitos Ontológicos de Organismo e de Ambiente

Os Principles of Psychology apresentam duas entidades fundamentais,

o organismo e o ambiente:

(i)

O Organismo: enquanto ser vivo dotado de dois processos

elementares;

(a) integração (associada à assimilação); e

(b) desintegração (associada à oxidação).

O conceito de organismo é um construto teórico que corresponde a

inúmeras entidades no mundo real. O organismo exibe ainda um

comportamento adaptativo, i.e., possui capacidade intrínseca de corresponder

às mudanças externas, conforme a definição de vida de Spencer: o contínuo

ajuste das relações internas com as relações externas ( PP, p. 374).

(ii)

O Ambiente: enquanto o universo que cerca o indivíduo, aonde

podem ser distinguidas pelo organismo duas relações fundamentais, nas quais

Spencer concentrará sua atenção na terceira parte do seu Principles of

Psychology (1855):

(α) Coexistências: enquanto relação composta entre fenômenos e

seres, os quais exibem uma existência contínua em uma

determinada extensão no espaço ou no tempo ( PP, p. 302-9);

23

(β) Seqüências: enquanto relações de mudança, as quais produzem

no indivíduo a sensação de diferença entre o presente estado de

consciência e aquele vivenciado no passado ( PP, 317-321).

A ontologia spenceriana é construída em termos realistas, no sentido

de considerar que organismo e ambiente têm existência real. O programa de

pesquisa spenceriano sustenta ainda que o ambiente ruma sentido a um

aumento de complexidade, em outras palavras, todo o universo que nos cerca

obedece a uma lei fundamental que estabelece a inexorável transformação do

homogêneo no heterogêneo, do mais simples para o mais complexo, de acordo

com a sua fórmula da evolução.

Uma integração da matéria e concomitante dissipação do

movimento, durante o qual a matéria passa de uma indefinida e

incoerente homogeneidade para uma definida e coerente

heterogeneidade, ao mesmo tempo em que o movimento que é

retido sofre uma transformação paralela (Spencer, 1862,

p.397).

Dessa forma, podemos determinar o que sustenta o modelo de

mudança spenceriano: um progresso gradual do mais simples para o mais

complexo, fundamentado na lei da instabilidade do homogêneo2.

Quanto ao papel desempenhado pelas relações de coexistências e

seqüências na produção do conhecimento científico, Spencer comenta que

certamente a percepção direta nos reporta às coexistências e seqüências do

modo mais simples e mais acessível, enquanto a ciência nos reporta às

coexistências e seqüências que, ou apresentam dependência, ou são

inacessíveis à observação imediata (Spencer, 1854, p. 4).

Apesar de o Postulado Universal endossar nossas crenças em

um mundo externo e na existência pessoal – na matéria, força,

espaço, tempo, mudança, movimento, extensão, forma, as assim

chamadas propriedades primárias das coisas – ele não endossa