Conhecimento, evolução e complexidade na filosofia sintética de Herbert Spencer por Daniel Cerqueira Baiardi - Versão HTML

ATENÇÃO: Esta é apenas uma visualização em HTML e alguns elementos como links e números de página podem estar incorretos.
Faça o download do livro em PDF, ePub, Kindle para obter uma versão completa.

nossas crenças em cor, odor, som, ou as propriedades

classificadas como secundárias (PP, p. 60).

2 Conforme exposto na introdução ao pensamento spenceriano, seção 1.2.

24

Segundo Spencer, nossas crenças apoiadas no primeiro grupo

(propriedades primárias) são do tipo cuja negação é inconcebível, enquanto

podemos, após breve análise, conceber a negação de nossas crenças

apoiadas no segundo (propriedades secundárias).

As coisas pertencentes à mesma classe são, por implicação,

coisas cujas propriedades e modos de comportamento – as

coexistências e seqüências – são mais ou menos as mesmas; e

o reconhecimento dessa identidade entre coexistências e

seqüências é o raciocínio (Spencer, 1854, p. 40).

Através dessas duas entidades fundamentais Spencer sustentará a

doutrina geral da correspondência, a qual é exposta na terceira parte dos

Principles of Psychology, e que estabelece que o grau de desenvolvimento de

um organismo está diretamente relacionado com o grau de correspondência

das mudanças internas com as mudanças externas.

1.4: O Postulado Universal

O programa spenceriano tem como objetivo realizar uma demarcação

clara entre conhecimento certo e crença (ou opinião). Para tanto, a noção de

verdade em Spencer situa suas bases no Postulado Universal. O Postulado

Universal é um recurso heurístico do sistema spenceriano, assim como

exposto nos Principles of Psychology (1855), e possui uma função de

confirmador lógico das proposições obtidas na investigação. Tanto na opinião

de Taylor como na de J. S. Mill (1806-1873), Spencer ajuda pouco ao seu leitor

colocando no começo do livro a sua conclusão, o referido Postulado Universal

(Taylor, 1996, p. x).

Nosso autor parte das especulações de Descartes (1596-1650),

Berkeley (1685-1753) e Hume (1711-1776) e inicia nos PP uma breve

especulação sobre as origens do entendimento. Spencer começa com uma

investigação dos conceitos de existência, não-existência e de crença. A

distinção entre o ego e o não-ego também é fundamental, assim como seria

25

para Mill (1865, p. 148). Spencer ansiava contribuir para o esclarecimento

desta distinção erigindo sua doutrina geral da correspondência. Diante da

dificuldade de estabelecer a primazia entre aquele que percebe, o percebido e

o ato de perceber, Spencer recorre à gênese destas entidades. Segundo ele, é

plausível a afirmação de que uma crença é um estado de consciência, e deve

ser subseqüente ao ego. Porém, nenhum argumento tomado como premissa

desta proposição pode sustentar tal conclusão, pois todos os argumentos são

crenças e todas as razões oferecidas como provas são também crenças. Por

mais longe que perpetramos em nossas especulações, atingiremos crenças, e

nada mais do que crenças. Por esta razão, a crença é a forma pela qual todo

fato se apresenta para nós, e assim é a base comum a todo fato ( PP, p. 15).

Apesar de Spencer eleger a proposição como a unidade epistêmica

básica do conhecimento, esta se baseia na palavra “crença” [ belief], termo

também salientado por Hume3. Em Spencer, uma crença é sempre uma

predicação, e todo ato lógico de nosso intelecto é uma inferência de que

alguma coisa é ( PP, p. 14). Uma vez tomada a crença como fato e unidade

fundamental, e como todo nosso raciocínio é uma atividade de distinguir o erro

da verdade, nosso autor classifica as crenças em dois grupos, segundo ele, a

única distinção possível: (i) crenças que existem invariavelmente; (ii) crenças

que não existem invariavelmente ( PP, p. 16) .

Segundo Spencer, a persistência é uma propriedade da crença,

manifestando-se em diferentes graus de acordo com os seus antecedentes 4.

Quando, depois de fornecidos os antecedentes, se estabelece

um determinado estado de consciência, o qual podemos

modificar com um esforço pequeno, temos uma crença fraca

( PP, p. 30).

Assim, Spencer realiza mais uma distinção na sua unidade do

conhecimento, a força da crença em relação a determinados antecedentes:

3 Spencer utiliza a palavra “crença” em dois sentidos, segundo ele mesmo, em dois sentidos

“paralelos”: a princípio usa o termo para descrever a persistência de um estado de consciência,

e em outras ocasiões como um estado de consciência persistente.

4 Os antecedentes são a experiência de suporte a partir da qual é estabelecida esta

consciência, satisfazendo, a princípio, uma postura empirista rígida.

26

Quando o estado de consciência é modificado somente com

dificuldade, nós a denominamos uma crença forte; quando se

trata de uma cuja modificação é impossível, considerar-se-á

uma crença da mais alta ordem ( PP, p. 30).

Uma vez determinado que a existência da crença é o fato fundamental,

e que as crenças que invariavelmente existem são aquelas que tanto

racionalmente como necessariamente devemos adotar, Spencer descreve o

seu teste fundamental de validade das proposições, o Postulado Universal, ou

em outras palavras: o fato de a negação de uma crença ser inconcebível é o

teste pelo qual nós confirmamos que esta crença é dada invariavelmente ( PP,

p. 26).

O teste proposicional (de uma crença) em Spencer é parte da tentativa

de conceber sua negação ( PP, p. 27). Para ele, o fato de uma crença existir

invariavelmente é a mais alta garantia de sua veracidade, pois o fato dela

existir invariavelmente é o obverso do fato de que não há outra crença

alternativa ( PP, p. 27). Notamos que Spencer não caracteriza estas

proposições como “tautologias” ou verdades lógicas “analíticas”, que segundo o

empirismo lógico do século XX, não se referiam ao mundo factual. Para

Spencer, uma proposição factual pode satisfazer ao postulado universal.

É importante reafirmar que, em Spencer, a habilidade de conceber a

negação de uma crença envolve toda a experiência passada (os

antecedentes), o que pode, obviamente, comprometer seu julgamento ( PP, p.

61). Assim, a possibilidade de erro estaria sujeita a todo o universo de dados

empíricos, ou aos antecedentes, reunidos pela experiência passada daquele

que executa o teste.

Spencer sustenta que quando não podemos unir na mesma intuição

sujeito e predicado, a proposição é impensável. Se, pelo contrário, duas

experiências recorrentemente vêm à consciência unidas, tornando-se tão

coerentes que uma sugere fortemente a outra, manifestando tal recorrência de

27

forma perpétua e invariável, a conexão entre elas se torna indissolúvel

(Spencer, 1865, p. 202).

Uma exigência da epistemologia spenceriana é a confirmação positiva

dos seus pressupostos, só assim seria possível tocar a construção da Filosofia

Sintética:

Se a Psicologia um dia se tornar mais do que a mera

agregação de opiniões, isto se dará somente diante do

estabelecimento de pressupostos universalmente aceitos

( PP, p. 4).

A única garantia que nós temos da veracidade de uma crença é o

resultado de sua submissão ao postulado universal: “Nós não temos outra

garantia para qualquer axioma” ( PP, p. 31).

Dessa forma, o teste de uma crença é passível de erro, condicionado

por seus antecedentes, e comenta: “obviamente, o teste não é infalível” (PP, p.

31). Entretanto, na concepção spenceriana, o grau de falibilidade do teste é

proporcional à complexidade da proposição a ele submetida, e o fato dela

poder, ou não, ser decomposta em proposições independentes: “a formação da

crença pode ser desmembrada em muitos passos, e cada um submetido ao

postulado” e “a possibilidade de erro em qualquer inferência aumenta na

proporção ao número de vezes que o resultado positivo do teste foi assumido”

(PP, p. 32). Segundo Spencer, não somente julgando instintivamente, mas

também pela lógica fundamental, “as conclusões mais certas são aquelas que

envolvem o postulado o menor número de vezes” ( PP, p. 33).

Segundo este postulado, a crença que é provada através do fato de

sua negação ser inconcebível, por hora, é invariavelmente verdadeira. Tal

postulado é um princípio lógico, semelhante a uma redução ao absurdo em

demonstrações matemáticas. Segundo Spencer, Mill é quem elabora uma feliz

formulação do postulado:

Uma verdade necessária é uma proposição cuja negação não é

somente falsa, é também inconcebível (apud Spencer, PP, p.

31).

28

Daí, Spencer assevera:

Uma crença que é provada pelo fato de sua negação ser

inconcebível, invariavelmente existe ( PP, p. 31).

Na discussão do Postulado Universal, o filósofo da evolução traz

argumentos de J. S. Mill e de William Whewell (1794-1866) a respeito da

legitimidade do postulado enquanto mecanismo de certificação. Whewell5,

filósofo e polímata inglês, um frenologista, foi um outro autor que exerceu forte

influência sobre a obra de Spencer. Whewell empreendia pesquisas em áreas

como a economia, física, geologia e também é conhecido por seus tratados em

lógica e epistemologia. Em Philosophy of Inductive Sciences (1847), sugeriu

um teste para determinar se uma proposição está a priori no entendimento: o

da impossibilidade de imaginar a sua negação. Isto fica claro diante do fato de

ser inimaginável um mundo onde a soma de dois e dois tenha por resultado

cinco, ou um mundo onde exista um triângulo com mais de 180° na soma de

seus ângulos internos. Um outro exemplo, observando duas linhas, lado a lado,

com diferentes extensões, seria impensável a possibilidade delas serem iguais.

Apesar de Whewell ter defendido uma postura kantiana, sustentando

que existiam verdades que eram conhecidas antes da experiência, como

aquelas contidas nas proposições da lógica e da matemática, ele exerceu uma

influência considerável sobre a epistemologia spenceriana. Nesta discussão,

Spencer toma partido de Whewell, discordando de Mill no que toca à

confiabilidade do uso do postulado universal como teste. O argumento de Mill

coloca em questão o valor de prova do postulado, devido ao fato que este

estaria submetido ao escrutínio da experiência antecedente daquele que

realiza o teste, uma experiência sujeita a erros. No entender de Mill, ao longo

da História da Ciência, alguns fatos que muitos tinham por inconcebíveis, com

o passar dos séculos, tornaram-se perfeitamente imagináveis. Spencer admite

o valor do argumento, mas justifica que a experiência é a única garantia que

5 Whewell foi um dos professores de Darwin em Cambridge, e Darwin cita sua obra

Bridgewater Treatise nas primeiras páginas de A Origem das Espécies (1859).

29

nós temos; apesar de sua falibilidade não poderíamos contar com outro

recurso que oferecesse garantia maior ( PP, p. 19-20).

Charles S. Peirce (1839-1914), no exame da abdução em suas

Conferências sobre o Pragmatismo, concorda plenamente com Mill no que toca

à falta de valor do teste, e justifica: “O que é inconcebível hoje, pode tornar-se

provável amanhã” (Peirce, 1905, p. 54). Dessa forma, segundo Peirce, nunca

poderemos estar certos de que um juízo seja perceptivo e não abdutivo.

Entretanto, tanto Peirce quanto Mill viam uma outra função para o teste:

verificar se um juízo está presente a priori no entendimento, fato que Mill, um

defensor do empirismo, não cogitava admitir. Tanto para William Hamilton

(1788-1856) como para o de Whewell o teste era adequado para determinar se

uma intuição é ou não parte de nossa consciência primitiva no sentido

racionalista do termo.

Mill reconhece o valor dos argumentos de Spencer em An Examination

of Sir William Hamilton’s Philosophy (1865), e reconhece que havia se

enganado a respeito da posição de Spencer no que tocava à origem do

entendimento.

Isto não enfraquece em nada o valor das análises psicológicas

as quais devemos ao Sr. Spencer, cujos serviços à filosofia

como aplicador e defensor da “hipótese da experiência” são

inestimáveis (Mill, 1865, p. 144).

Neste momento, Spencer já havia assumido publicamente uma

posição favorável à “hipótese da experiência”. Apesar do breve mal-entendido,

os dois passaram a limpo seus respectivos argumentos. A posição de Spencer

no que tocava à natureza do conhecimento intuitivo colocava os dois em plena

concordância, a hipótese spenceriana atribuiu a origem do conhecimento

intuitivo à experiência dos antepassados que estaria de alguma forma

registrada nas manifestações psíquicas dos seres viventes, um registro pelo

qual o organismo perceptivo organizaria sua interação física com o ambiente.

Uma vez considerado por Mill que a nossa breve experiência individual não

seria capaz de nos certificar desta ligação indissolúvel entre sujeito e

predicado, Spencer justifica:

30

Mesmo assim, se ele [J. S. Mill] permitir-se supor que esta

coesão de pensamentos em correspondência com objetos tem

se dado através de incontáveis gerações precedentes, e os

resultados da experiência têm sido herdados na forma de

estruturas orgânicas modificadas, então é capaz de interpretar

todos os fenômenos (Spencer, 1865, p. 213).

Spencer crê no exame das categorias a priori, pois confiava na

natureza do entendimento enquanto produto da sobrevivência de toda uma

filogenia. O sucesso de uma linhagem significava que o entendimento foi, ao

menos na maioria das vezes, confiável. Para o filósofo da evolução, o que era

então conhecido por “formas do conhecimento”, não eram mais que

uniformidades internas absolutas, geradas por inúmeras repetições de

uniformidades exibidas na exterioridade (Spencer, 1865, p. 213).

Capítulo 2: Circunstâncias Históricas

O objetivo deste segundo capítulo é o exame de princípios ou idéias

que mais influenciaram Spencer até os anos que precederam o lançamento de

First Principles (1862), com a finalidade de produzir uma apreciação

epistemológica da construção do seu sistema da Filosofia Sintética. Após um

breve comentário a respeito de sua refutação ao idealismo extremado de

Berkeley (1685-1753) e ao positivismo de Comte (1798-1857), concentrar-se-á

atenção especial ao papel que desempenha os conceitos de estrutura e de

função na síntese empreendida por Spencer, e quais as conseqüências da

assimilação destes conceitos para sua teoria do conhecimento. O estudo e o

uso destes conceitos são transmitidos a Spencer principalmente através das

pesquisas no campo do desenvolvimento embrionário como também por via

dos teóricos da economia clássica. Enfatizar-se-á o processo da gênese deste

texto e a sua relação com alguns dos principais debates intelectuais do

período vitoriano, especialmente, a questão entre o associacionismo e a

frenologia.

2.1: A Crítica ao Idealismo

O sistema spenceriano se funda essencialmente em uma visão

realista, a qual considera que a evolução se dá objetivamente, independente

da presença de sujeitos ou observadores, e que atribui valores de verdade

para suas leis gerais, como na transformação do homogêneo em

heterogêneo. Nosso autor acredita que suas teses gerais abrem caminho

para uma ciência positiva da mente, fundamentada em leis naturais e

privilegiando aspectos fisiológicos em detrimento dos metafísicos. Spencer

apresenta com certa regularidade argumentos a favor do realismo enquanto

contraposto ao idealismo.

32

O idealismo imaterialista de Berkeley assume que “mente” e “idéia”

são entidades e que idéias existem na mente. Segundo Spencer, “mente” não

é uma entidade, mas sim um processo, “idéia” também não é uma entidade,

mas sim, somente parte do processo denominado “mente” ( PP, p. 49). Na

psicologia de Spencer as idéias não habitam a mente, mas, são os elementos

de que é composta a mente. Para o realismo spenceriano, uma inferência não

é uma intuição, nossa noção do mundo externo não é imediata, mas envolve

uma síntese ( PP, p. 50). Conforme aponta Michael Taylor (1996, p. xvi),

Spencer conclui a discussão do Postulado Universal apresentando uma

refutação do idealismo, e conseqüentemente, oferecendo uma justificação ao

realismo.

Em seu argumento, Spencer reforça a confiança depositada sobre o

mecanismo natural de certificação. Este mecanismo é utilizado quando

tocamos um objeto o qual havíamos suposto previamente sua composição,

quando nos certificamos de certas propriedades que poderiam ser enganosas

às nossas primeiras impressões acerca de tal objeto. Quanto aos exames da

validade do conhecimento empreendidos por idealistas e céticos (do modelo

humeano), Spencer comenta:

Nós não podemos prosseguir com tais investigações sem tomar

como certo a confiabilidade de nossa inteligência [...] A

inteligência não pode provar sua própria invalidez pelo fato de

que estaria postulando sua própria validade realizando tal tarefa

( PP, p. 6).

O filósofo da evolução identifica a ilusão comum a toda metafísica: a

ilusão de que nossa cognição das necessidades lógicas é mais certa que

nossa cognição de qualquer outra coisa. A cada novo silogismo acumulamos

dúvidas a respeito do grau de certeza (p. 60-1). Spencer acusa Berkeley de

confundir ter uma sensação com o conhecimento de ter uma sensação.

Inconscientemente homenageando o princípio pelo qual o menor

número de vezes que o postulado é assumido, mais certa é a

conclusão, ele [Berkeley] professa reconhecer que somente o que é

imediatamente percebido – que envolve apenas uma consulta ao

postulado, e se nega a reconhecer as percepções mediadas, que o

envolvem mais de uma vez ( PP, p.40).

33

Alguns autores, como Greene (1969), acusam Spencer de não

conhecer bem a doutrina idealista, desfrutando de uma compreensão

completamente superficial, e ainda, que não teria se detido muito em sua

rápida leitura, se não para repudiá-la em notas feitas apressadamente. De uma

forma ou de outra, no interior do sistema spenceriano, enquanto a recepção de

uma sensação deve ser um simples e indecomponível ato mental, observar a

recepção de uma sensação é decididamente um ato composto.

O conhecimento de ter uma sensação, longe de ser um ato de

consciência imediata, pressupõe um processo mais complexo. Ele

pressupõe a síntese das idéias constituintes da identidade pessoal,

somada à recordação de como sua identidade pessoal foi afetada

pela sensação ( PP, p. 40).

Segundo Spencer, nossa noção da externalidade das coisas não é

imediata, mas envolve uma síntese. Em sua opinião, o realismo é superior ao

idealismo, pois o idealismo é construído a partir de silogismos que consistem

de sínteses sobre sínteses ( PP, p. 50-1). No seu entender, a característica

falaciosa de toda doutrina idealista é o argumento comum de descredenciar a

capacidade do intelecto de oferecer ao indivíduo conhecimento certo a respeito

das coisas e de suas propriedades. Para o filósofo da evolução, a mente pode

ser integralmente compreendida como um produto de processos naturais,

dessa forma, desenvolvida através de uma demanda crescente por

correspondência, e assim, fazer frente às ameaças e às oportunidades em sua

exterioridade. Spencer radicalmente conclui que qualquer objeção ao realismo

seria uma postura autodestrutiva para a ciência.

Segundo Spencer, sustentando uma postura realista e se valendo do

Postulado Universal 6, endossamos as nossas crenças em um mundo externo –

Matéria, Força, Espaço, Tempo, Mudança, Movimento, Extensão e Forma – as

chamadas qualidades primárias, como também na existência pessoal ( PP, p.

61-2). Apesar da força do argumento cético da distorção da percepção dos

objetos nos sentidos, Spencer afirma enfaticamente que não podemos dar um

6 Conforme exposto na seção 1.4

34

único passo no sentido de invalidar o realismo sem cometer um suicídio lógico

( PP, p. 65).

2.2: Spencer e o Positivismo

Spencer é por vezes visto como um positivista, porém este epíteto deve

ser aplicado em seu caso com ressalva. Se, entendermos como positivismo a

doutrina de Auguste Comte e como positivista alguém que é um discípulo deste

outro pioneiro da ciência social, esta denominação se torna inapropriada. De

acordo com certo ponto de vista (Kolakowski, 1981), hoje Spencer é

denominado um positivista; curiosamente, ele próprio havia alarmado para o

despropósito desta classificação. Ambos se aprofundaram durante anos nas

questões envolvidas no progresso da ciência. Na opinião de Coleman (1971, p.

111), Comte, apesar de detentor de uma filosofia da ciência mais sofisticada,

possuía uma visão muito restrita a respeito da dinâmica do processo

evolucionário, exemplificada pelo mecanismo de três estágios, negligenciando

o que Spencer considerava os elementos fundamentais de seu modelo de

transformação: matéria e movimento. Nas palavras do próprio Spencer, em

artigo especialmente dedicado a esclarecer suas diferenças com o positivista

francês, podemos vislumbrar o que os separa e o que os une em suas

respectivas investigações filosóficas:

O próprio Comte de nenhuma forma clama que alguns de seus

partidários sejam considerados, por implicação, seus discípulos.

Ele diz: - “Há, sem dúvida, uma forte analogia entre minha

filosofia positiva e o que os cientistas ingleses, especialmente

desde Newton, querem dizer com filosofia natural”; e mais tarde

aponta o “grande movimento impresso na mente humana, dois

séculos atrás, pela ação combinada dos preceitos de Bacon, as

concepções de Descartes, e as descobertas de Galileu, como um

momento no qual o espírito da filosofia positiva começa a ser

expresso no mundo”. Fazendo referência ao modo geral de

pensamento e à forma de interpretar os fenômenos, Comte o

denomina “filosofia positiva” e reconhece ter se desenvolvido por

dois séculos, tendo atingido, quando ele escreveu, um notável

desenvolvimento, e sendo a herança de todos os homens de

ciência (Spencer, 1896, p. 45).

35

Se não omitirmos o fato de que a formação de Spencer em sua juventude

é mais científica do que propriamente filosófica, podemos compreender melhor

o significado deste argumento. Porém, a insatisfação de Spencer em ser

denominado um positivista se deve a discordâncias claras entre as suas idéias

e as de Comte. Em uma carta ao Dr. Edward Youmans, fundador da revista

Popular Science, e membro de seu circulo de amizades, desabafa:

A Filosofia Positiva continuará a ser entendida como a filosofia

de Comte, e como eu expressamente repudio a filosofia de

Comte, é necessário o esclarecimento de alguns pontos para

prevenir a confusão. Uma vez que não há outra denominação

para expressar uma filosofia formada de conhecimento

científico organizado, não se pode esperar que as pessoas

sejam capazes de discriminá-las.

Herbert Spencer, 7 de junho de 1867 (Apud. Duncan, 1908, p.

131).

Entre o pensamento de Comte e o de Spencer as diferenças são bastante

expressivas, inclusive em suas teorias do conhecimento. Para Comte, existem

três formas distintas de conhecimento, de certa forma até antagônicas, em

comunhão com aqueles três estágios mui semelhantes aqueles que são

exibidos em certos modelos de desenvolvimento no idealismo alemão,

especialmente no sistema hegeliano, a saber: o teológico (ou ficcional), o

metafísico (ou abstrato) e o científico (ou positivo). No entanto, em Spencer, o

progresso das nossas concepções, através de cada estágio do

desenvolvimento, desde os primórdios até os dias de hoje, revela-se

intrinsecamente o mesmo. Não admite três métodos de conhecimento

radicalmente opostos, mas um método que permanece, na essência, o mesmo.

Assim, o sistema spenceriano, no entender de seu autor, é comprometido com

uma postura realista, e não comprometido com um modelo de transformação

fragmentado como em Hegel, ou como em Comte, baseado nestas três fases

bem definidas. O desenvolvimento, ou a evolução, em Spencer é sempre

gradual, assumindo que traçar qualquer divisão no curso no progresso do

entendimento é uma divisão arbitrária e despropositada. Além disso, o

positivismo de Comte tende a ser instrumentalista, valorizando acima de tudo o

fato e as leis empíricas, ao passo que em Spencer observamos uma postura

36

realista, buscando explicações que superam o conjunto dos fenômenos

observados.

2.3: Frenologia e Associacionismo

Para a boa compreensão da discussão levada a cabo nas páginas dos

PP é necessário visualizar o debate encenado nos estudos sobre o

entendimento, ao menos no cenário britânico. O cenário deste debate era

ocupado por duas principais correntes, as quais possuem entre si uma

distinção que perdurara através dos séculos precedentes; aquela mantida entre

empirismo e racionalismo. Os estudos em psicologia no começo do século XIX

se delineavam sob a interferência deste debate filosófico.

De um lado, a corrente racionalista, defensora não só dos

mecanismos, mas também de certos elementos do entendimento a priori,

satisfaziam-se nas pesquisas frenológicas. Em outras palavras, os

frenologistas acreditavam que as faculdades da mente eram todas pré-

estabelecidas. A Frenologia (do grego: φρήν, phrēn, "mente") é o estudo que

afirma poder determinar o caráter e a inteligência, entre outras traços pessoais,

a partir da análise das formas do crânio e das partes do cérebro, constituindo-

se em uma espécie de anatomia do entendimento. Segundo Boring, a

frenologia é um desdobramento das pesquisas nas quais o cérebro é

considerado o “órgão da mente”7. Entretanto, a doutrina de Franz Joseph Gall

(1758-1828) vai mais longe, uma vez que determina a localização e a função

das diferentes partes constituintes da consciência, e deste percurso podemos

extrair três teses principais:

(i)

Os frenologistas se comprometiam com o fato de que o formato

exterior do crânio é correspondente ao formato de seu interior, e

também com as formas das partes do cérebro.

7 Esta idéia não era nova, uma vez que Pitágoras já defendia na antiguidade que a mente

residia no cérebro.

37

(ii)

Sustentavam também que a mente poderia ser satisfatoriamente

analisada como um conjunto de faculdades ou funções.

(iii)

Defendiam que regiões particulares do cérebro eram as

responsáveis pelas diferentes faculdades ou funções da mente

(Boring, 1929, p. 47).

A segunda tese experimenta na psicologia spenceriana um franco

desenvolvimento. Embora Spencer não tenha se esforçado em relacionar estas

funções com as partes anatomicamente descritas do cérebro, ele estabeleceu

algumas relações entre o desenvolvimento de faculdades, ou funções, e o

desenvolvimento de determinadas estruturas8.

De um outro lado, organizavam-se os herdeiros do empirismo britânico

em torno do associacionismo. O associacionismo (ou sensacionalismo) era a

mais antiga das duas escolas concorrentes. Esta doutrina defendia que as

sensações são o material básico da mente humana, e a experiência sensorial

sozinha era suficiente para explicar todos os elementos da mente, inclusive a

habilidade do raciocínio, da volição e da consciência. Desde Hume o empirismo

britânico praticamente se confunde com o associacionismo, tomando a mente

como um espelho, cujas imagens seriam as representações da natureza.

Na filosofia da mente, o associacionismo se funda como uma teoria a

respeito de como as idéias se combinam na mente. Esta teoria das

associações de idéias admite que exista um padrão segundo o qual itens

diferentes ocorrem conjunta ou sucessivamente na consciência. As leis dessas

associações desempenhariam, no estudo dos processos conscientes, o mesmo

papel que as leis da natureza desempenham no estudo dos fenômenos

naturais. O associacionismo, ou a crença de que deve haver este tipo de leis,

baseando-se na semelhança de idéias ou de sua contigüidade no tempo, foi

um importante elemento na filosofia de David Hartley (1705-1757) e em

especial na de Hume.

8 Principalmente no que toca aos órgãos dos sentidos, conforme análise da parte III dos PP:

General Synthesis.

38

O associacionismo de Hartley também admitia, como Hume, que

existiam tanto sensações externas quanto internas. Para ele, as sensações são

entendidas como vibrações no cérebro decorrente do calor e da pulsação das

artérias. A natureza dessas vibrações é determinada de acordo com as

experiências vivenciadas por cada indivíduo, e pelas circunstâncias do

momento. Sensações são associadas constantemente, cada sensação é

associada com idéias correspondentes a outras sensações; e as idéias

correspondentes às sensações associadas passam a serem associadas juntas,

algumas vezes tão intimamente associadas que aparentam ser uma idéia

simples, e somente com uma cuidadosa análise é possível decompô-las em

suas partes elementares. Mais tarde, o associacionismo foi ainda desenvolvido

por Alexander Bain (1818-1903), J. S. Mill (1806-1873) e Condillac (1715-

1780), mas, ao que parece, no século XX, a ascensão do behaviorismo e de

perspectivas mais sofisticadas sobre a relação entre a consciência e seus

processos subjacentes tornaram a concepção associacionista menos sedutora

(Boring, 1963, p. 150).

É notório o trânsito spenceriano entre abordagens de cunho frenológico

e aquelas especulações que se circunscrevem em um paradigma

associacionista. Parece lícito supor que este trânsito procura estabelecer uma

conciliação entre estas duas posturas, quase que antagônicas, no estudo do

entendimento humano. Spencer julgava a discussão ainda pouco esclarecida,

acreditava que tanto associacionistas como frenologistas tinham somente

acesso parcial à verdadeira natureza do entendimento, e só através de uma

perspectiva evolucionista aliada a uma investigação rigorosa poderia se ter

acesso à compreensão do desenvolvimento e da verdadeira natureza da mente

(Taylor, 1996, p. vii).

John Stuart Mill, membro do circulo de amizades de Spencer e parceiro

em alguns empreendimentos, considerado uma das figuras centrais do

pensamento vitoriano, influenciou fortemente o sistema da Filosofia Sintética.

As contribuições de Mill foram diversas, porém cabe aqui ressaltar a sua

influência no debate a respeito do postulado universal, um dos principais

recursos heurísticos do sistema spenceriano. Apesar de Spencer descordar de

39

Mill e se associar a Whewell na admissão do inconcebível como teste de

verdade, o filósofo da evolução o cita com freqüência e nutre grande

admiração. Assim, negligenciar-se-á aqui a influência que Mill exerceu tanto na

filosofia política como na fundamentação da sociologia spenceriana. Boa parte

da teoria do conhecimento de Spencer se comunica com a lógica de Mill. Antes

de 1850, Spencer já havia recebido uma cópia de System of Logic (1843), obra

reconhecida como a consolidação da doutrina do associacionismo. Foi através

desta influência que Spencer reexaminou sua adoção da frenologia e começou

a explorar as teorias da escola rival (Taylor, 1996, p. ix). Entre as idéias

aproveitadas podemos citar a multiplicação dos efeitos9, como também a

multiplicidade das causas.

Aos poucos, Spencer desenvolveu uma nova abordagem para o campo

da psicologia, empreendendo um estudo da mente orientado pela perspectiva

da evolução. A novidade, a ruptura, com a frenologia e com o associacionismo

se dá quando Spencer afirma que, através da correspondência, a

complexidade do ambiente estava intimamente ligada com o desenvolvimento

da inteligência. Hoje, esta concepção de desenvolvimento é conhecida como

tese da complexidade ambiental (Godfrey-Smith, 1996), apresentando

características de um programa de pesquisa em franca progressão. No seu

entender, “inteligência” é a capacidade de responder às alterações do

ambiente com eficiência, acelerando os processos adaptativos e garantindo a

sobrevivência. Se, para Bacon, o saber é poder, para Spencer, o saber é

sobreviver. O conhecimento das coexistências – que poderíamos tratar

enquanto a capacidade de reconhecer a existência, não-existência e

continuidade das coisas, enquanto função da estrutura denominada sistema

nervoso – estaria presente desde os mais simples organismos, para a

identificação de riscos e oportunidades. E, tomando conhecimento das

seqüências, ou o princípio lógico da causalidade, ou ainda, a operação de

identidade entre relações causais, enquanto função da estrutura denominada

sistema

nervoso,

poderia

proporcionar

ao

organismo

antecipar

9 Como exposto na seção 1.2.2

40

cronologicamente as mudanças do ambiente, conseqüentemente, assegurando

a sobrevivência da sua linhagem.

Parte da tradição britânica fica de certa forma negligenciada nas páginas

dos PP, como aponta Dewey, e isso fica claro nas poucas vezes que Spencer

cita autores como Hume ou Locke. Talvez isto se deva ao fato de Spencer ter

sido influenciado por estes apenas indiretamente, como sugere Dewey. Na

construção de seu empirismo, conforme indícios do próprio Spencer (1854,

1899), parece lícito supor que autores como Alexander Bain (1818-1903), G.H.

Lewes (1817-1878) e J. S. Mill estariam entre os responsáveis pela

transmissão de tal paradigma.

2.4: A Influência Continental: O Iluminismo e o Estudo do

Desenvolvimento Embrionário

Dewey não vê em “Absolute Political Ethics” (1890) de Spencer, algo

dedutivamente derivado do conjunto axiomático spenceriano, tampouco

nenhuma conexão com a ciência, mas sim com a razão e a natureza do

iluminismo. Ele acreditava que o sistema filosófico de Spencer tomou forma

através de sua conexão íntima com a dominante concepção de progresso

social herdada do iluminismo. Algumas das mais amplas generalizações na

Fisiologia (particularmente sobre o desenvolvimento como mudança do

homogêneo para o heterogêneo, e a “divisão fisiológica do trabalho” com uma

crescente interdependência das partes) e na idéia de uma mudança cósmica

derivada da Astronomia e da Geologia, formulada sob o nome de “Nebular

Hypothesis” (1858), estão, no entender de Dewey, intimamente ligadas a certos

princípios iluministas.

O iluminismo francês fornece uma atmosfera que favorecia uma visão

não-estática da natureza, as mudanças na sociedade e nas possibilidades do

conhecimento científico criavam um cenário apropriado para alguns modelos

evolutivos tomarem forma. Autores como Voltaire (1694-1778) e Denis Diderot

41

(1713-1784) também podem ser agrupados com os demais pioneiros que

empreendiam especulações evolutivas, ainda que despretensiosas, já no séc.

XVIII (Matos, 2004, p.121-122). Diderot transmite através do Sonho de

D’Alembert uma imagem não muito clara deste processo.

Quem sabe se esse bípede deformado, que mede apenas alguns

pés de altura, que mesmo na vizinhança do pólo se chama

homem, e que não tardaria a perder esse nome deformando-se

um pouco mais, não é a imagem de uma espécie que passa?

Quem sabe não acontece o mesmo com todas as espécies de

animais? Quem sabe se tudo não tende a reduzir-se a um grande

sedimento inerte e imóvel? (Diderot, 1779, p. 100).

A este grupo de pioneiros pode ser acrescido os nomes de Hooke (1635-