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Contos Libertinos por Marquês de Sade - Versão HTML

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Marquês de

Sade

Contos

Libertinos

SUMÁRIO

O MARIDO PADRE....................................................................03

O MARIDO QUE RECEBEU UMA LIÇÃO..................................09

A PUDICA OU O ENCONTRO IMPREVISTO............................15

HÁ LUGAR PARA DOIS.............................................................21

ENGANAI-ME SEMPRE ASSIM.................................................24

O ESPOSO COMPLACENTE.............................................…....26

O TALIÃO...................................................................................27

O PROFESSOR FILÓSOFO................................…...................31

O CORNO DE SI PRÓPRIO, OU A RECONCILIAÇÃO

IMPREVISTA..............................................................................33

AUGUSTINE DE VILLEBLANCHE,OU O ESTRATAGEMA DO

AMOR...........................….…….…..............................................42

A CRUELDADE FRATERNA......................................................54

2

O marido padre

Conto provençal

Entre a cidade de Menerbe, no condado de Avinhão, e a de

Apt, em Provença, há um pequeno convento de carmelitas

isolado, denominado Saint-Hilaire, assentado no cimo de uma

montanha onde até mesmo às cabras é difícil o pasto; esse

pequeno sítio é aproximadamente como a cloaca de todas as

comunidades vizinhas aos carmelitas; ali, cada uma delas relega

o que a desonra, de onde não é difícil inferir quão puro deve ser

o grupo de pessoas que freqüenta essa casa. Bêbados,

devassos, sodomitas, jogadores; são esses, mais ou menos, os

nobres integrantes desse grupo, reclusos que, nesse asilo

escandaloso, o quanto podem ofertam a Deus almas que o

mundo rejeita. Perto dali, um ou dois castelos e o burgo de

Menerbe, o qual se acha apenas a uma légua de Saint-Hilaire -

eis todo o mundo desses bons religiosos que, malgrado sua

batina e condição, estão, entretanto, longe de encontrar abertas

todas as portas de quantos estão à sua volta.

Havia muito o padre Gabriel, um dos santos desse eremitério,

cobiçava certa mulher de Menerbe, cujo marido, um rematado

corno, chamava-se Rodin. A mulher dele era uma moreninha, de

vinte e oito anos, olhar leviano e nádegas roliças, a qual parecia

constituir em todos os aspectos lauto banquete para um monge.

No que tange ao Sr. Rodin, este era homem bom, aumentando o

seu patrimônio sem dizer nada a ninguém: havia sido negociante

de panos, magistrado, e era, pois, o que se poderia chamar um

burguês honesto; contudo, não muito seguro das virtudes de sua

cara-metade, era ele sagaz o bastante para saber que o

verdadeiro modo de se opor às enormes protuberâncias que

ornam a cabeça de um marido é dar mostras de não desconfiar

de os estar usando; estudara para tornar-se padre, falava latim

como Cícero, e jogava bem amiúde o jogo de damas com o

padre Gabriel que, cortejador astuto e amável, sabia que é

preciso adular um pouco o marido de cuja mulher se deseja

possuir. Era um verdadeiro modelo dos filhos de Elias, esse

3

padre Gabriel: dir-se-ia que toda a raça humana podia

tranqüilamente contar com ele para multiplicar-se; um legítimo

fazedor de filhos, espadaúdo, cintura de uma alna* , rosto

perverso e trigueiro, sobrancelhas como as de Júpiter, tendo seis

pés de altura e aquilo que é a característica principal de um

carmelita, feito, conforme se diz, segundo os moldes dos mais

belos jumentos da província. A que mulher um libertino assim

não haveria de agradar soberbamente? Desse modo, esse

homem se prestava de maneira extraordinária aos propósitos da

Sra. Rodin, que estava muito longe de encontrar tão sublimes

qualidades no bom senhor que os pais lhe haviam dado por

esposo. Conforme já dissemos, o Sr. Rodin parecia fazer vistas

grossas a tudo, sem ser, por isso, menos ciumento, nada

dizendo, mas ficando por ali, e fazendo isso nas diversas vezes

em que o queriam bem longe. Entretanto, a ocasião era boa. A

ingênua Rodin simplesmente havia dito a seu amante que

apenas aguardava o momento para corresponder aos desejos

que lhe pareciam fortes demais para que continuasse a opor-

lhes resistência, e padre Gabriel, por seu turno, fizera com que a

Sra. Rodin percebesse que ele estava pronto a satisfazê-la...

Além disso, num breve momento em que Rodin fora obrigado a

sair, Gabriel mostrara à sua encantadora amante uma dessas

coisas que fazem com que uma mulher se decida, por mais que

hesite... Só faltava, portanto, a ocasião.

Num dia em que Rodin saiu para almoçar com seu amigo de

Saint-Hilaire, com a idéia de o convidar para uma caçada, e

depois de ter esvaziado algumas garrafas de vinho de Lanerte,

Gabriel imaginou encontrar na circunstância o instante propício à

realização dos seus desejos.

- Oh, por Deus, senhor magistrado, - diz o monge ao amigo -

como estou contente de vos ver hoje! Não poderíeis ter vindo

num momento mais oportuno do que este; ando às voltas com

um caso da maior importância, no qual haveríeis de ser a mim

de serventia sem par.

- Do que se trata, padre?

- Conheceis Renoult, de nossa cidade.

- Renoult, o chapeleiro.

- Precisamente.

- E então?

4

- Pois bem, esse patife me deve cem écus* , e acabo de saber

que ele se acha às portas da falência; talvez agora, enquanto

vos falo, ele já tenha abandonado o Condado... Preciso

muitíssimo cor

*Antiga m rer até

edida de lá, mas não posso f

comprimento de três pal

azê-lo

mos. (N. .

dos T.)

- O que vos impede?

- Minha missa, por Deus! A missa que devo celebrar; antes a

missa fosse para o diabo, e os cem écus voltassem para o meu

bolso.

- Não compreendo: não vos podem fazer um favor?

- Oh, na verdade sim, um favor! Somos três aqui; se não

celebrarmos todos os dias três missas, o superior, que nunca as

celebra, nos denunciaria à Roma; mas existe um meio de me

ajudardes, meu caro; vede se podeis fazê-lo; só depende de vós.

- Por Deus! De bom grado! Do que se trata?

- Estou sozinho aqui com o sacristão; as duas primeiras missas

foram celebradas, nossos monges já saíram, ninguém suspeitará

do ardil; os fiéis serão poucos, alguns camponeses, e quando

muito, talvez, essa senhorazinha tão devota que mora no castelo

de... A meia légua daqui; criatura angelical que, à força da

austeridade, julga poder reparar todas as estroinices do marido;

creio que me dissestes que estudastes para ser padre.

- Certamente.

- Pois bem, deveis ter aprendido a rezar a missa.

- Faço-o como um arcebispo.

- Ó meu caro e bom amigo! - prossegue Gabriel lançando-se

ao pescoço de Rodin - são dez horas agora; por Deus, vesti meu

hábito, esperai soar a décima primeira hora; então celebrai a

missa, suplico-vos; nosso irmão sacristão é um bom diabo, e

nunca nos trairá; àqueles que julgarem não me reconhecer, dir-

lhes-emos que é um novo monge, quanto aos outros, os

deixaremos em erro; correrei ao encontro de Renoult, esse

velhaco, darei cabo dele ou recuperarei meu dinheiro, estando

de volta em duas horas. O senhor me aguardará, ordenará que

grelhem os linguados, preparem os ovos e busquem o vinho; na

volta, almoçaremos, e a caça... Sim, meu amigo, a caça, creio

que há de ser boa dessa vez: segundo se disse, viu-se pelas

redondezas um animal de chifres, por Deus! Quero que o

agarremos, ainda que tenhamos de nos defender de vinte

processos do senhor da região!

5

- Vosso plano é bom - diz Rodin - e, para vos fazer um favor,

não há, decerto, nada que eu não faça; contudo, não haveria

pecado nisso?

- Quanto a pecados, meu amigo, nada direi; haveria algum,

talvez, em executar-se mal a coisa; porém, ao fazer isso sem

que se esteja investido de poderes para tanto, tudo o que

dissentes e nada são a mesma coisa. Acreditai em mim; sou

casuísta, não há em tal conduta o que se possa chamar pecado

venial.

- Mas seria preciso repetir a liturgia?

- E como não? Essas palavras são virtuosas apenas em nossa

boca, mas também esta é virtuosa em nós... Reparai, meu

amigo, que se eu pronunciasse tais palavras deitado em cima de

vossa mulher, ainda assim eu havia de metamorfosear em deus

o templo onde sacrificais... Não, não, meu caro; só nós

possuímos a virtude da transubstanciação; pronunciaríeis vinte

mil vezes as palavras, e nunca faríeis descer algo dos céus;

ademais, bem amiúde conosco a cerimônia fracassa por

completo; e, aqui, é a fé que faz tudo; com um pouco de fé

transportaríamos montanhas, vós sabeis, Jesus Cristo o disse,

mas quem não tem fé nada faz...

* Antiga moeda francesa. (N. dos T.)

eu, por exemplo, se nas vezes em que realizo a cerimônia

penso mais nas moças ou nas mulheres da assembléia do que

no diabo dessa folha de pão que revolvo em meus dedos,

acreditais que faço algo acontecer? Seria mais fácil eu crer no

Alcorão que enfiar isso na minha cabeça. Vossa missa será,

portanto, quase tão boa quanto a minha; assim, meu caro, agi

sem escrúpulo, e, sobretudo, tende coragem.

- Pelos céus, - diz Rodin - é que tenho uma fome devoradora!

Ainda faltam duas horas para o almoço!

- E o que vos impede de comer um pouco? Aqui tendes

alguma coisa.

- E a tal missa que é preciso celebrar?

- Por Deus! O que há de mal nisso? Acreditais que Deus se há

de macular mais caindo numa barriga cheia em vez de numa

vazia? O diabo me carregue se não é a mesma coisa a comida

6

estar em cima ou embaixo! Meu caro, se eu dissesse em Roma

todas as vezes que almoço antes de celebrar minha missa,

passaria minha vida na estrada. Além disso, não sois padre,

nossas regras não vos podem constranger; ireis tão-somente dar

certa imagem da missa, não ireis celebrá-la; conseqüentemente,

podereis fazer tudo o que quiserdes antes ou depois, inclusive

beijar vossa mulher, caso ela aqui estivesse; não se trata de agir

como eu; não é celebrar, nem consumar o sacrifício.

- Prossigamos - diz Rodin - hei de fazê-lo, Podeis ficar

tranqüilo.

- Bem - diz Gabriel, dando uma escapadela, depois de fazer

boas recomendações do amigo ao sacristão... - contai comigo,

meu caro; antes de duas horas estarei aqui - e, satisfeito, o

monge vai embora.

Não é difícil imaginar que ele chega apressado à casa da

mulher do magistrado; que ela se admira de vê-lo, julgando-o em

companhia de seu marido; que ela lhe pergunta a razão de visita

tão imprevista.

- Apressemo-nos, minha cara - diz o monge, esbaforido -

apressemo-nos! Temos para nós apenas um instante... Um copo

de vinho, e mãos à obra!

- Mas, e quanto a meu marido?

- Ele celebra a missa.

- Celebra a missa?

- Pelo sangue de Cristo, sim, mimosa - responde o carmelita,

atirando a Sra. Rodin ao leito - sim, alma pura, fiz de seu marido

um padre, e, enquanto o farsante celebra um mistério divino,

apressemo-nos em levar a cabo um profano...

O monge era vigoroso; a uma mulher, era difícil opor-se-lhe

quando ele a agarrava: suas razões, por sinal, eram tão

convincentes... Ele se põe a persuadir a Sra. Rodin, e, não se

cansando de fazê-lo a uma jovem lasciva de vinte e oito anos,

com um temperamento típico da gente de Provença, repete

algumas vezes suas demonstrações.

- Mas, meu anjo - diz, enfim, a beldade, perfeitamente

persuadida - sabeis que se esgota o tempo... Devemos nos

separar: se nossos prazeres devem durar apenas o tempo de

uma missa, talvez ele já esteja há muito no ite missa est.

7

- Não, não, minha querida - diz o carmelita, apresentando outro

argumento à Sra. Rodin -, deixai estar, meu coração, temos todo

o tempo do mundo! Uma vez mais, minha cara amiga, uma vez

mais! Esses noviços não vão tão rápido quanto nós... Uma vez

mais, vos peço! Apostaria que o corno ainda não ergueu a hóstia

consagrada.

Todavia, mister foi que se despedissem, não sem promessas

de se reverem; tracejaram novos ardis, e Gabriel foi encontrar-se

com Rodin; este havia celebrado a missa tão bem quanto um

bispo.

- Apenas o quod aures - diz ele - embaraçou-me um pouco; eu

queria comer em vez de beber, mas o sacristão fez com que eu

me recompusesse; e quanto aos cem écus, padre?

- Recuperei-os, meu filho; o patife quis resistir, peguei de um

forcado, dei-lhe umas pauladas, juro-vos, na cabeça e noutras

partes.

Entretanto, a diversão termina; nossos dois amigos vão à caça

e, ao regressar, Rodin conta à sua mulher o favor que prestou a

Gabriel.

- Celebrei a missa - dizia o grande tolo, rindo com todas as

forças - sim, pelo corpo de Cristo! Eu celebrava a missa como

um verdadeiro vigário, enquanto nosso amigo media as

espáduas de Renoult com um forcado... Ele dava com a vara;

que dizeis disso, minha vida? Colocava galhos na fronte; ah! Boa

e querida mãezinha! Como essa história é engraçada, e como os

cornos me fazem rir! E vós, minha amiga, o que fazíeis enquanto

eu celebrava a missa?

- Ah! Meu amigo - responde a mulher - parecia inspiração dos

céus! Observai de que modo nos ocupavam de todo, a um e a

outro, as coisas do céu, sem que disso suspeitássemos;

enquanto celebráveis a missa, eu entoava essa bela oração que

a Virgem dirige a Gabriel quando este fora anunciar-lhe que ela

ficaria grávida pela intervenção do Espírito Santo. Assim seja,

meu amigo! Seremos salvos, com toda certeza, enquanto ações

tão boas nos ocuparem a ambos ao mesmo tempo.

8

O Marido que

Recebeu uma Lição

Um homem já na decadência pensou em se casar embora até

aquele momento tivesse passado sem mulher, e é possível que

a coisa mais tola que fez, de acordo com os seus sentimentos,

tenha sido unir-se a uma jovem de dezoito anos, com o rosto

mais atraente do mundo e com a cintura não menos proveitosa.

Bernac - esse era o seu nome -, fazia tolice ainda maior

desposando uma mulher, porquanto se exercitava o menos

possível nos prazeres que concede o himeneu, e muito faltava

para que as manias por que trocava os castos e delicados

prazeres dos laços conjugais agradassem a uma jovem do porte

da srta. Lurcie, pois assim se chamava a infeliz a quem Bernac

acabava de participar seu destino. Desde a primeira noite de

núpcias, ele relatou suas preferências à jovem esposa, após tê-

la feito jurar nada revelar aos pais dela; tratava-se assim diz o

célebre Montesquieu - de procedimento ignominioso que leva de

volta à infância: a jovem mulher, na postura de uma menina que

merece um corretivo, se prestava então por quinze ou vinte

minutos, mais ou menos, aos caprichos bestiais do velho

esposo, e era à vista dessa cena que ele conseguia

experimentar a deliciosa embriaguez do prazer que todo homem

mais bem organizado que Bernac decerto teria desejado sentir

apenas nos braços encantadores de Lurcie. A experiência

pareceu um pouco dura àquela moça delicada, bela, educada no

conforto, mas longe do pedantismo; entretanto, como lhe

houvessem recomendado ser submissa, julgou tratar-se aquilo

de hábito comum aos esposos, e talvez até mesmo Bernac

tivesse contribuído para que pensasse assim, e ela se submeteu

de modo mais honesto possível à depravação do seu sátiro;

todos os dias era a mesma coisa e, com freqüência, até duas

vezes em vez de uma. Ao cabo de dois anos, a srta. Lurcie, que

continuamos a chamar sempre por esse nome, de vez que na

ocasião se achava tão virgem quanto no primeiro dia de suas

9

núpcias, perdeu o pai e a mãe, e com eles a esperança de fazer

abrandar seus sofrimentos, como começava a figurar já havia

algum tempo. Essa perda só fez tornar Bernac mais audacioso,

e se mantivera dentro de alguns limites, por respeito aos pais de

sua mulher enquanto vivos, não demonstrou mais nenhuma

moderação tão logo ela os perdeu e ele percebeu-a incapaz de

quem a pudesse vingar. O que parecia de início apenas um

divertimento, tornou-se pouco a pouco um verdadeiro tormento;

essa srta. Lurcie não podia mais suportar isso, seu coração se

exasperava, e ela sonhava o tempo todo com vingança. Via

pouquíssimas pessoas; o marido a isolava tanto quanto possível.

Apesar de todas as admoestações de Bernac, o primo dela, o

cavalheiro d'Aldour, não deixara em absoluto de ver sua parenta;

esse jovem tinha um belo rosto e não era sem interesse que

teimava em visitar a prima; como fosse bastante conhecido de

toda a gente, o ciumento, temendo que escarnecessem dele,

não ousava muito afastar-se de sua casa... A srta. Lurcie deitara

os olhos nesse parente para se libertar da escravidão na qual

vivia: ouvia diariamente as belas palavras do primo, e, por fim,

revelou-se por completo a ele, tudo lhe confessando.

- Vingai-me desse homem vil - disse-lhe -, e fazei isso por meio

de uma cena que o impressione o bastante para ele próprio

jamais ousar falar dela a alguém: o dia em que obtiverdes êxito

há de ser o dia de vossa glória; apenas a esse preço serei

vossa.

Encantado, d'Aldour tudo promete e só se empenha para o

sucesso de uma aventura que vai lhe assegurar tão belos

monumentos. Quando tudo está pronto:

- Senhor - diz ele um dia a Bernac -, tenho a honra de ser

muito íntimo de vós, e em vós confio o bastante para não deixar

de vos participar o matrimônio secreto que acabo de contrair.

- Um matrimônio secreto? - diz Bernac, encantado de se ver

livre do rival que o fazia tremer.

- Sim, senhor! Acabo de me unir ao destino de uma esposa

encantadora, e amanhã é o dia em que ela me deve tornar feliz;

confesso que se trata de uma moça sem bens; mas o que

importa isso se o que tenho basta aos dois? Caso-me, é

verdade, com uma família inteira, quatro irmãs que vivem juntas,

porém, como me apraz a companhia delas, para mim é apenas

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uma felicidade a mais... Muito me alegraria, senhor - continua o

jovem -, se minha prima e vós me désseis amanhã a honra de vir

ao menos ao banquete de núpcias.

- Senhor, saio muito pouco, e minha mulher menos ainda;

vivemos ambos num grande retiro; ela está contente assim, e eu

não a incomodo absolutamente.

- Conheço vossas preferências, senhor - retruca d'Aldour -, e

respondo-vos que sereis servido a contento... Amo a solidão

tanto quanto vós e, por sinal, tenho razões de discrição, como já

disse: é na campanha, faz um belo dia, tudo vos convida e dou-

vos minha palavra de honra que estaremos absolutamente

sozinhos.

Lurcie a propósito deixa entrever certo desejo; seu marido não

ousa contrariá-la diante de d'Aldour, e combinam o passeio.

- Devíeis querer tal coisa - diz o homem, irritado no momento

em que se vê a sós com sua mulher -, bem sabeis que

absolutamente não me preocupo com tudo isso; saberei como

dar fim a todos esses vossos desejos, e previno-vos de que em

pouco tempo planejo isolar-vos numa de minhas terras, onde

não vereis ninguém mais além de mim.

E como o pretexto, com ou sem fundamento, acrescentasse

muito aos atrativos das cenas luxuriosas às quais Bernac

inventava planos quando lhe faltava o realismo, aproveitou a

oportunidade, fez Lurcie passar ao seu quarto e lhe disse:

- Iremos... Sim, eu prometi, mas pagareis caro pelo desejo que

demonstrastes...

A infeliz, acreditando estar próxima do desfecho, suporta tudo

sem se queixar.

- Fazei o que vos aprouver, senhor - diz ela humildemente -,

vós me concedestes uma graça, sou-vos muito grata.

Tanta doçura, tanta resignação teria desarmado qualquer um

que não tivesse um coração tornado empedernido pelos vícios

como o do libertino Bernac, mas nada é capaz de o deter;

satisfaz-se, dorme tranqüilo; no dia seguinte, d'Aldour, conforme

o combinado, vem buscar o casal e partem.

- Vereis - diz o jovem primo de Lurcie, entrando com o marido

e a mulher numa casa completamente isolada -, vereis que isso

não tem lá muito jeito de uma festa popular; nenhum coche,

nenhum lacaio, já vos disse; estamos completamente sozinhos.

11

Entretanto, quatro mulheres altas de uns trinta anos, fortes,

vigorosas e de cinco pés e meio de altura cada uma, avançam

sobre a escadaria e vêm receber o Sr. e a Sra. Bernac da

maneira mais honesta.

- Eis minha mulher, senhor - diz d'Aldour, apresentando uma

delas -, e estas três aqui são suas irmãs; casamo-nos esta

manhã ao alvorecer, em Paris, e os esperamos para celebrar as

bodas.

Tudo se passa segundo as leis da mútua cortesia; depois de

algum tempo de reunião no salão, onde Bernac se convence,

para grande surpresa sua, que ele se encontra tão só quanto o

pôde desejar, um lacaio anuncia o almoço, e sentam-se à mesa.

Nada mais descontraído que a refeição, as quatro pretensas

irmãs muito acostumadas aos repentes, trouxeram à mesa toda

a vivacidade e todo o bom humor possíveis, mas como a

decência não é esquecida um minuto sequer, Bernac, enganado

até o fim, crê-se na melhor companhia do mundo; todavia, Lurcie

encantada de ver o seu tirano numa situação difícil, divertia-se

com seu primo, e, decidida em desespero de causa a renunciar

enfim a uma continência que não lhe trouxera até aquele

momento senão tristezas e lágrimas, bebia com ele o

champanhe, inundando-o com os mais ternos olhares; nossas

heroínas, que tinham de buscar forças, consagravam-se

igualmente à libação, e Bernac, motivado, ainda sem conceber

senão uma alegria simples em tais circunstâncias, não se

poupava mais do que as outras pessoas. Entretanto, como era

mister não perder a razão, d'Aldour interrompe a tempo e propõe

passar ao café.

- Por Deus, meu primo - diz ele, assim que Bernac se encontra

afetado -, consenti em vir visitar minha casa; sei que sois homem

de bom gosto; eu a comprei e a mobiliei propositadamente para

meu casamento, mas temo ter feito um mau negócio; dir-me-eis

vossa opinião, por favor.

- De bom grado - diz Bernac -, ninguém como eu entende mais

dessas coisas, e estimarei tudo a mais ou menos dez luíses de

diferença, garanto.

D'Aldour lança-se sobre as escadas dando a mão a rua bela

prima, posicionam Bernac no meio das quatro irmãs, e penetram

12

nessa ordem num apartamento muito escuro e muito afastado,

absolutamente ao extremo da casa.

- É aqui a câmara nupcial - diz d'Aldour ao velho ciumento -,

vedes essa cama, meu primo; eis onde a esposa vai deixar de

ser virgem; ela já não arde de desejos tempo demais?

Era o sinal: no mesmo instante, nossas quatro malandras

saltam sobre Bernac, armadas cada uma de um punhado de

varas; retiram-lhe as calças, duas delas o imobilizam, e as outras

duas se alternam para fustigá-lo e enquanto o molestam

vigorosamente:

- Meu caro primo - exclama d'Aldour -, não vos disse ontem

que seríeis servido a contento? Não imaginei nada melhor para

agradar-vos do que devolver-vos o que dais todos os dias a essa

encantadora mulher; vós não sois bastante bárbaro para fazer-

lhe uma coisa que não gostaríeis de receber; assim, orgulho-me

de fazer-vos minha corte; falta ainda uma circunstância,

portanto, à cerimônia; minha prima, segundo dizem, embora há

muito esteja ao vosso lado, ainda é tão virgem como se vós

tivésseis vos casado apenas ontem; tal abandono de vossa parte

provém unicamente da ignorância, seguramente; garanto que é

por que não sabeis como proceder... Vou mostrar-vos, meu

amigo.

Ao dizer isso, tendo ao fundo uma agradável música, o homem

fogoso deita sua prima na cama e a torna mulher aos olhos de

seu indigno esposo... Só nesse momento termina a cerimônia.

- Senhor - diz d'Aldour a Bernac ao descer do altar -, achareis

a lição talvez um pouco severa, mas admiti que o ultraje a que

submetíeis vossa esposa era, pelo menos, igual; não sou, nem

quero ser, amante de vossa mulher; ei-la, devolvo-a, mas vos

aconselho a comportar-vos doravante de maneira mais honesta

com ela, caso contrário, ela ainda encontraria em mim um

vingador que vos pouparia ainda menos.

- Senhora - diz Bernac furioso -, na verdade esse

procedimento...

- É o que vós merecestes - responde Lurcie -, mas se ele vos

desagrada, entretanto, tendes toda a liberdade de expressá-lo;

exporemos cada um nossas razões, e veremos de qual dos dois

rirá o povo.

13

Bernac, confuso, reconhece seus erros, não inventa mais

sofismas para legitimá-los, lança-se aos joelhos de sua mulher

para rogar seu perdão: Lurcie, terna e generosa, o levanta e

abraça, ambos retornam a sua casa, e não sei que meios utilizou

Bernac, mas desde esse dia, nunca a capital viu casal mais

unido, amigos mais ternos e esposos mais virtuosos.

14

A Pudica ou o

Encontro Imprevisto

O Sr. Sernenval, que contava aproximadamente quarenta

anos, e que possuía doze ou quinze mil libras de renda que

despendia de modo despreocupado em Paris, não se ocupando

mais do comércio do qual outrora fizera sua profissão, e se

contentando, por sua total distinção, com o título honorífico de

burguês de Paris, com vistas ao Conselho municipal, desposara

havia poucos anos a filha de um dos seus antigos confrades, de

mais ou menos vinte e quatro anos. Nada havia de tão viçoso,

tão roliço, tão gorduchinho e branco quanto a Sra. Sernenval:

não fora ela feita como as Graças, mas era apetitosa como a

mãe dos amores; não tinha o porte de uma rainha, mas possuía

tamanha volúpia no conjunto, olhos tão ternos e cheios de

langores, tão bonita boca, pescoço tão firme e torneado, e todo o

resto do corpo tão propício a causar o nascimento do desejo,

que bem poucas mulheres belas havia em Paris às quais se teria

preferido. Entretanto, a Sra. Sernenval, com tão diversos

encantos físicos, tinha um defeito capital no espírito... Uma

pudicícia insuportável, uma devoção exagerada que ao marido

impossibilitava persuadi-la de aparecer em suas reuniões

sociais. Levando ao extremo a beatice, muito raramente a Sra.

Sernenval passaria uma noite inteira em companhia do seu

marido, e, mesmo nos momentos em que ela condescendia

conceder-lhe esse favor, era sempre com excessiva reserva, -

uma camisola que jamais despia. Uma abertura artisticamente

acrescentada ao pórtico do templo do hímen só permitia a

entrada com as cláusulas expressas de nenhuma apalpadela

desonesta, e de nenhuma conjunção carnal; ter-se-ia enfurecido

a Sra. Sernenval, se tivesse desejado ultrapassar os limites que

a modéstia dela impunha, e o marido que tentasse, talvez

corresse o risco de não mais cair nas boas graças dessa casta e

virtuosa fêmea. O Sr. Sernenval ria-se de todas essas beatices,

mas, como adorasse a mulher, condescendia em respeitar-lhe as

15

tibiezas; vez por outra, entretanto, tentava aconselhá-la;

provava-lhe, do modo mais claro, que não é passando a vida nas

igrejas ou junto aos padres que uma mulher honesta cumpre

realmente os seus deveres, dentre os quais os primeiros são os

de sua casa, por força, negligenciados por uma devota; e que

ela haveria de honrar muito mais as imagens do Eterno, vivendo

de uma maneira honesta no mundo, do que indo trancafiar-se

nos claustros; que havia infinitamente mais perigo em se

tratando dos modelos de Maria do que desses amigos

verdadeiros dos quais ela recusava ridiculamente a companhia.

- É preciso que eu vos conheça e que vos ame tanto quanto

faço - acrescentava a isso o Sr. Sernenval - para que não me

inquiete convosco durante todas essas práticas religiosas. Quem

me assegura que algumas vezes vós não vos esqueceis sobre o

leito macio dos levitas, em vez de ao pé dos altares de Deus?

Nada há de tão perigoso quanto todos esses padres patifes; é

sempre falando de Deus que seduzem nossas mulheres e filhas,

e é sempre em seu nome que eles nos desonram ou enganam.

Acreditai-me, cara amiga, possível é ser honesto em qualquer

lugar; nem na cela do bonzo, nem no nicho do ídolo, a virtude

ergue seu templo, mas no coração de uma mulher casta, e as

companhias decentes que vos ofereço nada têm que se alie ao

culto que vós lhe deveis... Vós passais por uma de suas mais

fiéis sectárias: creio nisso; mas que prova possuo de que

realmente mereceis tal reputação? Eu acreditaria bem mais se

vos visse resistir a astuciosos ataques; não é a mulher que se

coloca na condição de nunca ser seduzida, cuja virtude é a que

mais se pode apurar; mas a que está bastante segura de si

mesma para se expor a tudo sem nada temer.

Sobre isso a Sra. Sernenval nada respondia, pois que, de fato,

não havia resposta para esse argumento, mas ela chorava -

expediente comum das mulheres fracas, seduzidas ou falsas - e

seu marido não ousava prosseguir com a lição.

As coisas estavam nesse estado quando um antigo amigo de

Sernenval, de nome Desportes, chegou de Nancy para vê-lo, e

para concluir, ao mesmo tempo, alguns negócios que tinha na

capital. Desportes era um bon vivant, de idade semelhante à do

seu amigo, e não odiava nenhum dos prazeres dos quais a

natureza benfazeja permitiu ao homem fazer uso para esquecer

16

os males com que o abate; ele não resiste absolutamente à

oferta que lhe faz Sernenval de hospedá-lo em sua casa,

regozija-se com a satisfação de vê-lo, e surpreende-se

concomitantemente com a severidade de sua mulher, a qual, no

momento em que toma conhecimento desse estranho na casa,

recusa-se absolutamente a aparecer, e nem ao menos desce

mais para as refeições. Desportes crê incomodar, quer se

hospedar alhures; Sernenval o impede de fazê-lo, e confessa-

lhe, enfim, todos os ridículos de sua terna mulher.

- Devemos perdoá-la, - dizia o marido crédulo ela compensa

essas faltas com tantas virtudes que acabou obtendo minha

indulgência, e ouso te pedir a tua.

- Assim seja, - responde Desportes - desde que não seja nada

pessoal... Esqueço tudo, e os defeitos da mulher de quem

estimo nunca serão, a meus olhos, senão qualidades

respeitáveis.

Sernenval abraça o amigo, e só conversam sobre prazeres.

Se a parvoíce de dois ou três ineptos que, há cinqüenta anos,

administram em Paris o negócio das mulheres públicas e,

especialmente, a de um pulha espanhol que no último reinado

ganhava cem mil écus por ano na espécie de inquirição da qual

se vai falar, se o medíocre rigorismo dessas pessoas não tivesse

estupidamente imaginado que uma das mais belas célebres

maneiras de conduzir o Estado, um dos meios mais seguros do

governo, uma das bases, em suma, da virtude, era ordenar

essas criaturas a prestar conta exata da parte de seu corpo com

que se regala ao máximo o indivíduo que a corteja; se não

tivesse imaginado que, entre um homem que observa um seio,

por exemplo, e outro que se ocupa de um quadril, há

decididamente a mesma diferença que entre um homem probo e

um canalha, e que aquele que se acha em um ou em outro

desses casos (depende do que esteja em moda) deve

necessariamente ser o maior inimigo do Estado, sem essas

desprezíveis vilanias, como já disse; certo é que dois estimados

burgueses, um dos quais tendo uma mulher beata, o outro sendo

solteiro, poderiam ir passar muito legitimamente uma hora ou

duas entre as moças; mas quanto a essas absurdas infâmias

intimidando o prazer dos cidadãos, não ocorreu a Sernenval

17

fazer sequer com que Desportes vislumbrasse esse tipo de

dissipação. Este, percebendo isso e não imaginando os motivos,

perguntou ao amigo por que ele já lhe tendo proposto todos os

prazeres da capital, não lhe havia falado desse em absoluto.

Sernenval objeta o estúpido inquérito, Desportes graceja sobre

isso, e, não obstante as listas de m., os relatórios de

comissários, os depoimentos de oficiais de polícia e todos os

outros ramos dessa velhacaria estabelecidos pelo chefe quanto

esse negócio dos prazeres do labrego de Lutécia* , diz a seu

amigo que ele queria, com efeito, jantar com prostitutas.

- Escuta, - respondeu Sernenval - concordo, inclusive te

servirei de introdutor como prova de meu modo filosófico de

pensar sobre esse assunto, mas por uma delicadeza que espero

não ma censures, pelos sentimentos que devo, em resumo, à

minha mulher e que não está em mim dominar, permitirás que eu

não partilhe de teus prazeres; eu os proporcionarei a ti, e ficarei

nisso.

Desportes zomba um instante de seu amigo, mas vendo-o

decidido a não se deixar de modo algum enveredar por esse

caminho, a tudo consente, e partem.

A célebre S. J. foi a sacerdotisa no templo da qual Sernenval

imaginou sacrificar seu amigo.

- É de uma mulher segura que precisamos, diz Sernenval - de

uma mulher honesta; esse amigo, para o qual imploro vossos

cuidados, está em Paris por pouco tempo apenas; ele não

gostaria de levar más recordações para sua província e lá

arruinar vossa reputação; diga-nos com franqueza se tendes o

que ele precisa e o que desejais a fim de proporcionar-lhe o

deleite.

- Ouçam, - retoma S. J. - bem vejo a quem tenho a honra de

me dirigir, não são pessoas como vós que eu engano; vou,

portanto, falar-vos como mulher honesta, e meus procedimentos

vos provarão que eu o sou. Tenho o que vos interessa; trata-se

apenas de pagar o preço justo, é uma mulher encantadora, uma

criatura que vos arrebatará assim que a escutardes... é, enfim, o

que denominamos um banquete de padre, e vós sabeis que a

essas pessoas sendo meus melhores clientes, não lhes dou o

que tenho de pior... Faz três dias que o bispo de M. por ela deu-

me vinte luíses, o arcebispo de R. fê-la ganhar cinqüenta ontem

18

e, ainda nesta manhã, ela me valeu trinta do coadjutor de... Eu

vô-la ofereço por dez, e isso, na verdade, senhores, para

merecer a honra de vossa estima; mas é preciso ser pontual no

dia e na hora, ela está sob o controle do marido, e de um marido

ciumento que só tem olhos para ela; só podendo gozar instantes

furtivos, é necessário não perder nem um minuto daqueles que

tivermos combinado...

Desportes regateou um pouco; nunca uma prostituta fez com

que se lhe pagasse dez luíses em toda a Lorena; quanto mais

ele procurava baixar o preço, mais ela elogiava a mercadoria;

em resumo, ele acabou por concordar e, no dia seguinte, dez

horas em ponto foi a hora marcada para o encontro. Sernenval,

não desejando de modo algum entrar a meias nesse

divertimento, não concordou com um jantar, em troca do qual

haviam combinado essas horas de prazer de Desportes, muito

satisfeito por resolver tal assunto bem cedo para poder ocupar-

se o resto do dia de outros deveres mais essenciais. Soa a hora;

nossos dois amigos chegam à casa de sua encantadora

alcoviteira; um boudoir, onde reina apenas uma luz tênue e

luxuriosa, guarda a deusa, lugar onde Desportes vai oferecer em

sacrifício.

- Felizardo filho do amor, - diz-lhe Sernenval, empurrando-o

para o santuário - voa para os braços voluptuosos que a ti se

estendem, e só depois me vem falar de teus prazeres; regozijar-

me-ei por tua felicidade, e minha alegria será ainda mais pura

porque não serei absolutamente invejoso.

Nossa catecúmena aparece; três horas inteiras mal bastam à

sua homenagem; ele retorna, enfim, para assegurar a seu amigo

que em sua vida nada viu de semelhante, e que a própria mãe

dos amores não lhe teria proporcionado tantos prazeres.

- Ela é, portanto, deliciosa - diz Sernenval, meio inflamado.

- Deliciosa? Ah, não encontraria expressão que te pudesse

reproduzir o que ela é, e mesmo agora que a visão deve

esvanecer-se, sinto que não há pincel capaz de pintar as

torrentes das delícias que me inundaram. Ela acrescenta às

graças que recebeu da natureza essa arte tão sensual que lhes

confere validade; conhece um certo tempero, possui no gozo tão

real ardor que ainda me encontro inebriado... Oh! Meu amigo,

experimenta, rogo-te, por mais habituado que estejas às belezas

19

de Paris, estou bem seguro de que me confessarás que nunca

alguma outra valeu, a teus olhos, o preço desta aqui.

Sernenval, sempre firme, contudo emocionado por certa

curiosidade, pede a S. J. para que faça passar essa moça diante

dele, no momento em que sair do aposento... Ela consente, os

do

* is amigos mantêm

Cidade gaulesa

-se de

sobre cujas ruí pé para

nas edif

a

icou-se poder observar

Paris. (N. dos T.) mais, e a

princesa passa com altivez...

- Pelos céus, - Sernenval transtorna-se quando reconhece sua

mulher - é ela... É essa pudica que, não ousando descer dos

seus aposentos por pudor diante de um amigo de seu esposo,

tem a impudência de vir se prostituir em tal casa.

- Miserável! Exclama, furioso...

Mas é em vão que tenta se lançar sobre essa pérfida criatura;

ela o reconhecera bem no momento em que foi vista, e já ia

longe da casa. Sernenval, num estado difícil de expressar, quer

incriminar S.J .; esta se desculpa por sua ignorância, ela

assegura Sernenval que há mais de dez anos, isto é, bem

anteriormente ao casamento desse infortunado, essa jovem

criatura participa de encontros em sua casa.

- A celerada!, - exclama o infeliz esposo, a quem o amigo tenta,

em vão, consolar... - mas não, que isso termine! O desprezo é

tudo que lhe devo; que ela seja para sempre alvo do meu, e que

eu tenha aprendido a lição, por meio dessa cruel prova, que

nunca é segundo a máscara hipócrita das mulheres que se as

deve tentar julgar.

Sernenval retornou a sua casa; porém, não mais encontrou

sua prostituta: ela já tomara seu rumo, e ele não se incomodou;

seu amigo, não mais podendo suportar sua presença depois do

acontecido, despediu-se dele no dia seguinte, e o infortunado

Sernenval, isolado, com vergonha e cheio de dor, escreveu um

in-quarto contra as esposas hipócritas, o qual não corrigiu em

absoluto as mulheres, e que os homens jamais leram.

20

Há Lugar para Dois

Uma belíssima burguesa da rua Saint-Honoré, de

aproximadamente vinte e dois anos, gorduchinha e roliça, carnes

as mais viçosas e apetitosas, todas as formas modelares ainda

que um pouco cheias, e que acrescentava a tão fartos encantos

presença de espírito, vivacidade, e gosto o mais aguçado por

todos os prazeres que lhe proibiam as rigorosas leis do himeneu,

decidira, havia quase um ano, arranjar dois ajudantes para seu

marido que, sendo velho e feio, a ela não somente desagradava

muito, como também cumpria mal, se não raramente, os deveres

que, talvez, com um pouco mais de desempenho, poderiam

acalmar a exigente Dolmène - assim se chamava nossa bela

burguesa. Nada mais bem combinado do que os encontros

marcados com esses dois amantes: Des-Roues, jovem militar,

ficava normalmente das quatro às cinco horas da tarde e das

cinco e meia às sete chegava Dolbreuse, jovem negociante com

o rosto mais bonito que se pode ver. Era impossível fixar outros

momentos; eram os únicos em que a Sra. Dolmène estava

tranqüila: de manhã, era preciso estar na loja e, à tarde, também

tinha de aparecer por lá algumas vezes, ou então o marido

voltava, e deviam falar de seus negócios. Por sinal, a Sra.

Dolmène havia confidenciado a uma de suas amigas que ela

gostava muito que os momentos de prazer se sucedessem

assim muito próximos um do outro: a chama da imaginação não

se apagava, ela assegurava; desse modo, nada mais temo do

que passar de um prazer a outro; não era difícil retomar a ação,

pois a Sra. Dolmène era uma criatura encantadora que calculava

ao máximo todas as sensações do amor; pouquíssimas

mulheres conheciam-nas como ela própria e, em virtude dos

seus talentos, reconhecera que, depois de muito meditar, dois

amantes valiam muito mais do que um; com respeito à

reputação, era quase a mesma coisa, um encobria o outro;

poderiam se equivocar, poderia ser sempre o mesmo a entrar e

sair várias vezes durante o dia, e com relação ao prazer, que

diferença! A Sra. Dolmène, que temia em particular a gravidez,

bem segura de que seu marido jamais com ela cometeria a

21

loucura de lhe arruinar a cintura, havia igualmente imaginado

que, com dois amantes, havia muito menos risco, quanto ao que

temia, do que com um, porque, dizia ela, na condição,de

excelente anatomista, dois frutos se destruíam mutuamente.

Certo dia a ordem fixada nos encontros veio a se alterar, e

nossos dois amantes, que nunca se tinham visto, conheceram-

se de maneira engraçada, conforme mostraremos. Des-Roues

foi o primeiro, mas chegara muito tarde, e como se o diabo

tivesse se intrometido, Dolbreuse, que era o segundo, chegou

um pouco mais cedo.

O leitor inteligente percebe de imediato que, da combinação

desses dois pequenos erros, deveria acontecer, infelizmente, um

encontro infalível: e assim sucedeu. Porém, mencionaremos

como isso se deu e, se possível, ocupemo-nos desse assunto

com toda decência e moderação que tal assunto já por si muito

licencioso, exige.

Por obra de um capricho bastante bizarro - mas tão comum

entre os homens - nosso jovem militar, cansado do papel de

amante, quis, por uns momentos, representar o da amante; em

lugar de ser amorosamente abraçado por sua divindade, quis,

por sua vez, abraçá-la: em resumo, o que está embaixo, coloca-

o em cima, e, por essa inversão de posição, inclinada sobre o

altar onde normalmente se oferecia o sacrifício, era Sra.

Dolmène que, nua como a Vênus calipígia, e encontrando-se

estendida sobre seu amante, apresentava, diante da porta do

quarto onde se celebravam os mistérios, o que os gregos

adoravam com devoção na estátua que acabamos de

mencionar, essa parte mui bela que, em suma - sem sair à

procura de exemplos tão remotos - encontra tantos adoradores

em Paris. Tal era a atitude quando Dolbreuse, acostumado a

entrar sem dificuldade, chega cantarolando, e vê por um ângulo

o que uma mulher verdadeiramente honesta não deve, segundo

dizem, jamais mostrar.

O que teria causado grande prazer a muitas pessoas fez com

que Dolbreuse recuasse.

- O que vejo? - exclamou -... Traidora... é isso que me

reservas?

22

A Sra. Dolmène que, naquele momento, se encontrava numa

dessas crises em que uma mulher age infinitamente melhor do

que raciocina, resolve mostrar-se audaciosa:

- Que diabo tens tu, - diz ela ao segundo Adônis - sem deixar

de se entregar ao outro - não vejo nisso nada que te cause muito

pesar; não nos perturbes, meu amigo, e contenta-te com o que

te resta; como bem podes notar, há lugar para dois.

Dolbreuse, não conseguindo deixar de rir-se do sangue-frio de

sua amante, pensou que o mais simples era seguir o conselho

dela, não se fez de rogado, e dizem que os três lucraram com

isso.

23

Enganai-me Sempre

Assim

No mundo há poucos seres tão libertinos quanto o cardeal de...

do qual, considerando-se que ainda seja homem saudável e

vigoroso, permiti-me guardar o nome em segredo. Sua

eminência tem um acordo feito em Roma com uma dessas

mulheres cuja profissão oficiosa é fornecer aos devassos objetos

necessários ao alimento de suas paixões; todas as manhãs ela

leva até ele uma jovem de no máximo treze a catorze anos, a

qual monsenhor só usufrui da maneira inconveniente com que os

italianos não raro se deliciam, de modo que a vestal, saindo das

mãos de Sua Grandeza tão virgem quanto antes, possa, uma

segunda vez, ser vendida como nova a algum libertino mais

decente. A matrona, totalmente a par das máximas do cardeal,

não encontrando, certo dia, a seu alcance, o objeto cotidiano o

qual era obrigação sua fornecer, imaginou travestir como uma

menina um belíssimo menino do coro da igreja do chefe dos

apóstolos; colocaram-lhe uma peruca, uma touca, saiotes, e todo

o aparato falso que se devia impor ao santo homem de Deus.

Todavia, não se lhe pôde conferir o que realmente ter-lhe-ia

assegurado semelhança total com o sexo que ele imitava; mas

essa circunstância muito pouco embaraçava a alcoviteira... - Ele

não pôs as mãos lá nestes dias, - dizia àquela dentre suas

companheiras que a ajudava na trapaça ele só visitará, com toda

a certeza, o que assemelha essa criança a todas as meninas do

universo; assim, nada devemos temer...

A mãezinha se equivocara; decerto ignorava que um cardeal

italiano era homem de tato muito delicado, e gosto apurado o

bastante para se enganar em semelhantes coisas; chega a

vítima, o grande padre a imola, mas ao estremecer pela terceira

vez:

- Per Dio santo, - exclama o homem de Deus - sono ingannato,

questo bambino è ragazzo, mai non fu putana!

24

E ele verifica... Contudo, nada acontecendo de muito

embaraçoso para um habitante da santa cidade nesse lance

aventuroso, sua eminência prossegue, dizendo, talvez, como

esse camponês a quem se serviu trufas como batatas: Enganai-

me sempre assim. Mas quando a operação terminou:

- Senhora, - diz ele à aia - não vos censuro por vossa

confusão.

- Monsenhor, desculpai-me.

- Como vos disse, não vos censuro, mas quando isso

acontecer-vos de novo, não deixai de advertir-me, porque... O

que eu não vir no primeiro momento, verei neste aqui.

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O Esposo

Complacente

Toda a França sabia que o príncipe de Bauffremont tinha mais

ou menos as mesmas preferências do cardeal de quem acabo

de falar. Haviam dado a ele em matrimônio uma mocinha assaz

inexperiente, e que, segundo era costume, só foi instruída às

vésperas.

- Sem mais explicações, - diz a mãe - pois que a decência me

impede de ocupar-me de certos pormenores, tenho uma única

coisa a recomendar-vos, minha filha; desconfiai das primeiras

propostas que vosso marido vos fizer, e dizei-lhe, veemente:

Não, senhor, não é por aí que se aborda uma mulher honesta;

em qualquer outro lugar que vos agrade, mas, certamente, aí

não...

Vão ao leito e, por uma norma do decoro e da honestidade

sem margem para dúvida, o príncipe, querendo fazer as coisas

conforme com os costumes, ao menos pela primeira vez, oferece

à sua mulher apenas os castos prazeres do himeneu: mas a

jovem bem educada, lembrando de sua lição:

- Por quem me tomais, senhor? - diz-lhe - pensais que eu

consentiria essas coisas? Em qualquer lugar que vos agrade,

mas, certamente, aí não...

- Mas senhora...

- Não, senhor, inútil insistirdes, nunca me fareis mudar de

opinião.

- Pois bem, senhora, devo contentar-vos, - diz o príncipe

apropriando-se de seus altares preferidos - eu ficaria bem

zangado se dissessem que alguma vez eu quis vos desagradar.

E venham nos dizer agora que não é necessário instruir as

moças quanto às obrigações delas, um dia, para com seus

maridos!

26

O Talião

Um bom burguês da picardia, talvez descendente de um

desses ilustres trovadores das margens do Oise ou do Somme,

e cuja vida entorpecida, acabara de ser retirada às trevas havia

dez ou doze anos por um grande escritor do século; um bom e

honesto burguês, eu dizia, habitava a cidade de Saint-Quentin,

tão célebre pelos grandes homens que deu à literatura, e o fazia

honradamente, ele, a mulher e uma prima em terceiro grau,

religiosa em um convento dessa cidade. A prima em terceiro

grau era uma moreninha de olhos vivos, rosto bonito e olhar

leviano, nariz arrebitado e cintura esbelta; estava ela aflita aos

vinte e dois anos e religiosa havia quatro; irmã Petronille era seu

nome; tinha, além disso, bela voz, e muito mais temperamento

que religião. Quanto ao Sr. Esclaponville - assim se chamava

nosso burguês - era ele um gorducho bom e alegre, de mais ou

menos vinte e oito anos, amando mormente a prima mas nem

tanto a Sra. Esclaponville, pois que já fazia dez anos que com

ela dormia e um hábito de dez anos é bem prejudicial ao fogo do

himeneu. A Sra. Esclaponville - pois é preciso pintar, por quem

passaríamos se não pintássemos num século em que só se

precisa de quadros, em que nem mesmo uma tragédia seria

aceita se os negociantes de telas não encontrassem nela ao

menos seis temas retratados - a Sra. Esclaponville, eu dizia, era

uma loura algo insípida, porém branquíssima, com bonitos olhos,

bem gordinha, e com essas grandes bochechas comumente

denominadas no mundo de bom gozo.

Até o presente momento, a Sra. Esclaponville ignorava que

existisse um modo de se vingar de um esposo infiel; casta como

sua mãe, que vivera oitenta e três anos com o mesmo homem

sem o trair, ainda era bastante ingênua, muito cheia de candura

para sequer suspeitar desse crime horrendo que os casuístas

denominaram adultério, e que os hedonistas que tudo

edulcoram, chamaram simplesmente galanteria; mas uma

mulher enganada logo recebe de seu ressentimento conselhos

de vingança, e como ninguém gosta de ser ludibriado, nada há

que não faça, tão logo seja possível, para não ser motivo de

27

censura. A Sra. Esclaponville percebeu, enfim, que seu caro

esposo visitava muito amiúde a prima em terceiro grau: o

demônio do ciúme apodera-se de sua alma, ela espreita,

informa-se e acaba por descobrir e poucas coisas podem ser

constatadas em Saint-Quentin como o romance de seu esposo

com a irmã Petronille. Segura de seu ato, a Sra. Esclaponville

declara enfim a seu marido que a conduta que ele segue

trespassa-lhe a alma, que, por seu próprio comportamento, não

merecia tais atitudes, e suplica-lhe que abandone seus erros.

- Meus erros - responde fleumático o esposo ignoras, portanto,

que me salvo, minha cara amiga, ao dormir com minha prima

religiosa? - Purifica-se a alma em tão santo romance; trata-se de

uma identificação com o Ser supremo; é incorporar em si o

Espírito Santo: não há nenhum pecado, minha cara, quando

estão envolvidas pessoas consagradas a Deus; elas depuram

tudo o que se faz com elas e visitá-las, em suma, é abrir

caminho à beatitude celeste.

A Sra. Esclaponville, bem descontente com o insucesso da

repreensão, não diz palavra, mas em seu íntimo jura encontrar

recursos para tornar sua eloqüência mais persuasiva... Nisso

tudo, diabo é que as mulheres têm um meio sempre à

disposição: por menos bonitas, basta que se manifestem para

que acorram vingadores de toda parte.

Havia na cidade certo vigário de paróquia denominado abade

du Bosquet, grande folgazão de uns trinta anos, cortejando todas

as mulheres e fazendo da testa de todos os esposos de Saint-

Quentin, verdadeira floresta. A Sra. Esclaponville fez contato

com o vigário; insensivelmente, o vigário também fez contato

com a Sra. Esclaponville, e os dois acabaram por se conhecer

enfim de modo tão completo que teriam podido pintar-se

mutuamente dos pés à cabeça sem que fosse possível se

equivocarem quanto ao corpo. Ao cabo de um mês, todos vieram

felicitar o pobre Esclaponville, que se gabava de ser o único a

escapar aos temíveis galanteios do vigário, e de que, em Saint-

Quentin, era ela a única fronte que esse patife ainda não

maculara.

- Isso não pode ser - diz Esclaponville aos que lhe falavam -,

minha mulher é casta como uma Lucrécia; poderiam me dizer

cem vezes, que eu não acreditaria.

28

- Vem, pois - diz-lhe um de seus amigos -, vem que eu te

convenço por meio de teus próprios olhos, e veremos em

seguida se duvidarás.

Esclaponville deixa-se levar, e seu amigo o conduz a meia

légua da cidade, num local solitário onde o Somme, estreitado

nas margens entre duas sebes frescas e cobertas de flores,

oferece agradável banho aos habitantes da cidade; porém, como

o encontro houvesse sido marcado numa hora em que

normalmente as pessoas não se banham, nosso pobre marido

tem a tristeza de ver chegar, um após o outro, sua honesta

mulher e seu rival, sem que ninguém os possa interromper.

- Pois bem - diz o amigo a Esclaponville sentes coceira na

testa?

- Ainda não - diz o burguês, esfregando-a contudo, é possível

que, involuntariamente, ela venha até aqui para se confessar.

- Permaneçamos, pois, até o desfecho, - diz o amigo...

Não demorou muito: mal havia chegado à deliciosa sombra da

sebe olente, o abade du Bosquet desabotoa tudo o que impede

as apalpadelas voluptuosas com que sonha, e põe-se no dever

de trabalhar santamente para reunir, é possível que pela

trigésima vez, o bom e honesto Esclaponville aos outros esposos

da cidade.

- Pois bem, acreditas agora? - Diz o amigo.