Contra Um Mundo Melhor por Luiz Felipe Pondé - Versão HTML

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Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais lutando por

dinheiro e poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a um novo nível.

Ficha Técnica

Copyright © Luiz Felipe Pondé, 2010

Preparação e revisão de textos Beatriz Marchesini e Débora Tamayose Lopes

Capa Gabriel Calou

Fotos de miolo AC

Foto de capa Paul Fusco/Magnum Photos/Latinstock

Foto de orelha Rodrigo Paiva/Folhapress - Digital

2010

Todos os direitos desta edição reservados a

TEXTO EDITORES LTDA.

[Uma editora do grupo Leya]

Av. Angélica, 2163 – Conjunto 175

01227-200 – Santa Cecília – São Paulo – SP – Brasil

www.leya.com

Dados internacionais de catalogação na publicação (CIP-Brasil)

Ficha catalográfica elaborada por Oficina M iríade, RJ, Brasil.

P796 Pondé, Luiz Felipe, 1959-

Contra um mundo melhor : ensaios do afeto / Luiz Felipe

Pondé. – São Paulo : Leya, 2010.

216 p. : il.

ISBN 9788580441536

1. Antropologia filosófica. 2. Filosofia. 3. Ensaios. I. Título.

10-0047 CDD 128

Para Danit, minha mulher, Noam e Dafna, meus filhos, que fazem minha vida melhor do que eu seria capaz de

fazer por mim mesmo, e minhas irmãs, Eliane e Mônica, que tornaram minha infância melhor do que teria sido

sem elas. E aos meus alunos, que fazem a minha vida profissional ter sentido.

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“O que eu sei aos 60, sabia aos 20: 40 anos de um longo e inútil trabalho de verificação.”

Émil Cioran

Introdução

A forma pura da pedra

Os ensaios e os fragmentos que aqui ofereço ao leitor são, no seu corpo,

cenas de uma filosofia do afeto. O afeto que pensa o cotidiano. Na sua alma, estes ensaios

são um tratado – aos pedaços, assim como eu – contra um mundo que mente sobre si mesmo.

Dizia pedaços porque a descontinuidade descreve melhor uma filosofia do afeto, que se

move a sobressaltos, e também porque o cotidiano é descontínuo. Sinto-me em casa numa

filosofia que tem uma razão cética e uma sensibilidade trágica. Muita gente me perguntará ao

ler estes ensaios: “afinal, por que sou contra um mundo melhor? E por que o ceticismo e a

tragédia seriam a minha casa?”. A resposta a essas questões – por que sou contra um mundo

melhor e por que o ceticismo e a tragédia são minha casa – se encontra nestes ensaios e

fragmentos, de modo impreciso e incerto, e aos pedaços, como dizia acima. Ao longo dos

ensaios e dos fragmentos, o leitor perceberá que sou contra um mundo melhor, que sou cético

e que carrego uma sensibilidade trágica, independentemente de minha vontade filosófica. E

por quê? Porque o que nos humaniza é o fracasso, homens e mulheres muito felizes não são

homens e mulheres. Tenho medo de pessoas muito felizes. A consciência trágica, seja ela

cósmica, seja miserável, miúda e cotidiana, determina o horizonte onde se move o humano.

Dedico essas palavras a todos os nossos fracassos, e com esses olhos atentos ao medo que

porta seu nome próprio é que o leitor deve ler estes ensaios e fragmentos aos pedaços. Os

ensaios se movem em dois níveis, mas em velocidade, assim como numa montanha russa. Um

mais superficial, rápido, no qual descrevo imagens, pressinto dramas, fotografo pensamentos

na sua nascente. Noutro, mais profundo, em que mergulho na filosofia, indicando meu trajeto

filosófico, apontando minha filiação, descortinando quem fotografa os pensamentos

superficiais e sem peso que preenchem meu imaginário cotidiano. A passagem de um nível

geográfico do pensamento para o outro se dá de forma abrupta, violenta, sem mediações nem

concessões às dificuldades do leitor. Minha intenção ao fazer uso dessa indiferença

metodológica para com as dificuldades do leitor é testar seu fôlego. É necessária certa

agilidade para acompanhar as passagens entre os dois níveis. Frases curtas (com o objetivo

confesso de nunca dizer tudo que penso, nem tudo que sei sobre o assunto), falo aos homens

e às mulheres do mundo contemporâneo, sem tempo, sempre com pressa e sem tempo; com

pressa e fazendo contas; falando ao celular, enquanto fazem contas; correndo, assim como

insetos assustados que correm como crianças com medo, em busca do repouso oferecido

pela sombra e pelo esquecimento. E no futuro, sonhando com a vida silenciosa na forma pura

da pedra. Uma pedra que pressente a divindade.

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1

Imperfeição

DETESTO A VIDA PERFEITA. E mais, com o passar do tempo, tornei-me um

preguiçoso. Da preguiça facilmente se passa à tristeza. Resisto como posso porque minha

fisiologia ainda está do meu lado. Como dizia Jorge Luis Borges, prefiro escrever textos

curtos, falta-me a paciência necessária para textos longos. Claro que existem razões

filosóficas para essa opção. A primeira delas é a preguiça enquanto tal, um vício, um

pecado, algo que se deve evitar – tema amplamente tratado pela filosofia. E reconheço-me

no pecado. Segundo alguns sábios, a preguiça seria uma espécie de ceticismo da matéria, do

corpo. Nestes ensaios e fragmentos, a preguiça me persegue: quero ser rápido assim como

quem rouba, assim como quem conhece a si mesmo e sabe que desgraçadamente cansa

rápido de tudo que faz e quer. Minha inspiração dura pouco. Outra razão? Não confio mais

em sistemas de pensamento organizados, não porque acredite nessa bobagem que hoje em dia

os “idiotas” (de que nos falava Nelson Rodrigues nos anos de 1960) cultuam como uma

verdade última: o caos inteligente. Não. Acho que a vida provavelmente não tem nenhum

sentido, apesar de que é na sua forma profunda um movimento que busca a ordem. Em

matéria de sentido, prefiro os antigos: Deus, a fidelidade, a castidade, a culpa, a disciplina,

a família, o medo, Shakespeare, a Bíblia, a Ilíada. Rejeito todos os novos sentidos: a

democracia como religião moderna, a revolução sexual, que não passa de puro marketing de

comportamento (continuamos a mentir sobre o sexo e a ser infelizes), a sustentabilidade

(nova grife para o ambientalismo), a cidadania, a igualdade entre os homens, uma

alimentação balanceada, o fascismo dos direitos humanos, enfim, tudo o que os idiotas

contemporâneos cultuam em seu grande cotidiano. Aliás, aqui também tenho um parceiro

ilustre: o filósofo romeno Émil Cioran (século XX), para quem só um mau-caráter ou a alma

arrogante fazem sistemas em filosofia. O ceticismo (que, quando se instala em alguém como

um modo da respiração, como em mim, ganha força de uma segunda natureza) não se delicia

tanto em torturar almas religiosas, mas sim encontra seu maior gozo em humilhar almas

científicas, racionalistas e bem resolvidas. Se você se acha uma pessoa equilibrada, dessas

que respeitam o parceiro no amor, que creem na igualdade entre os sexos como adorno na

sua cama de casal, que comem apenas comida saudável, que conversa com plantas porque se

julgam mais consciente, que se julgam sensível e honesta, que reciclam lixo, feche este livro.

Todas as poucas palavras que você encontrará aqui são contra você. Não acredito em você.

Você é um mentiroso, ou uma mentirosa. Chego a ter pesadelos nos quais o mundo se tornou

sua casa e em que homens e mulheres só respiram o que acham correto. Dedico horas do meu

dia a pensar em formas variadas de fazer gente como você sofrer. E isso em mim também é

um vício. Por mais que eu tente aceitar suas mentiras que enchem os filmes, os jornais, as

novelas, os livros, as salas de aula, os tribunais, mais fracasso. Não consigo escrever ou

pensar uma linha se não sai assim como um grito. Mas, se você for mesmo esse mentiroso e

ainda quiser continuar a ler este livro, esteja à vontade. Talvez ele seja um paliativo para

sua hipocrisia. Cansei da filosofia, por isso comecei a escrever para não filósofos, porque a

universidade, antes um lugar de gente inteligente, se transformou num projeto contra o

pensamento. Todos são preocupados em construir um mundo melhor e suas carreiras

profissionais. E como quase todas são pessoas feias, fracas e pobres, sem ideias e sem

espírito inquieto, nada nelas brota de grandioso, corajoso ou humilde. Eu não acredito num

mundo melhor. E não faço filosofia para melhorar o mundo. Não confio em quem quer

melhorar o mundo. É isso mesmo: acho um mundo de virtuosos (principalmente esses

virtuosos modernos que acreditam em si mesmos) um inferno. Um bom charuto, cachimbo ou

cigarro pode ser uma boa companhia na leitura destes ensaios. Ou uma mulher gostosa do seu

lado, ou um homem charmoso. Depois do sexo – e do cigarro –, leia um desses ensaios,

quem sabe a quatro mãos. Se acompanhados por uma música clássica, melhor ainda. Enfim,

se você não tiver nenhum vício, daquele tipo de compulsão fora de controle que esmaga sua

vontade, aí não há qualquer esperança para você. Vire budista. Esboço uma filosofia do

cotidiano. O que é uma filosofia do cotidiano? É uma filosofia que acompanha você no

trabalho, na cama, entre as pernas, no carro, no hospital, no cemitério, no celular, no avião,

no free shop, no amor, no ódio, no ciúme, na inveja, na gratidão. Uma filosofia ideal em

meio ao cotidiano deveria caber numa frase que pode ser dita ao ouvido de alguém numa

festa quando você passa por ela. E por que uma filosofia do cotidiano? Porque o cotidiano é

rasgado, na espessura das suas horas, por questões filosóficas clássicas. E como não temos

tempo, não vemos isso com frequência. Quando enterra alguém que ama, diante do pó você

sente o peso do vazio de seu corpo e de sua alma (creia nela ou não, você não escapará

desse sentimento); quando adoece gravemente, é de novo o mesmo pó que em você

estremece. Quando ama, teme a inviabilidade do amor ou a infidelidade inevitável. Quando

tem filhos, sente o cheiro do abandono. Medos, medos e medos essenciais. Devemos nós nos

dedicar apenas a bens materiais ou valemos pelo que somos? Seria essa questão o divisor de

águas entre a ingenuidade romântica e a dureza da idade adulta? Somos capazes de escolher

nossos valores, ou a vida e a sociedade nos esmagam nos fazendo engolir valores sem

qualquer escolha? Somos livres? E se formos, pagamos pela liberdade o alto preço da

solidão e da insegurança? E, afinal, diante daquele pó de onde viemos e para onde

retornaremos (aquele mesmo pó do qual você sente o cheiro quando chove, e a terra fica

molhada à sua volta), quem somos? Seremos mais do que este pó? Essa questão, tão

filosófica, o acompanha ao médico, quando você vai ouvir resultados de exames de

laboratório ou quando morre alguém que estudou na sua classe há apenas 20 anos. Tudo isso

é concreto como uma pedra. A filosofia nasceu na Grécia com gente como Tales de Mileto,

Sócrates, Platão e Aristóteles, uns 2.500 anos atrás, como uma tentativa de responder a

questões assim, querendo fugir do mito, mas não conseguiu escapar plenamente do mito

porque ele nos é visceral como uma pele. A ideia era compreender a vida apenas lançando

mão de nossa capacidade de pensar e de observar o mundo naquilo que nele é visível. Há

quem diga que fracassamos nessa tentativa, há quem diga que devemos sempre tentar.

Pessoalmente, digo que nunca saberemos tudo, por isso sempre poderemos crer e dialogar

com o invisível, e que a história dos últimos séculos nos provou que, quando deixamos de

acreditar em Deus, sempre acabamos acreditando em qualquer bobagem como “História,

natureza, ciência, energias, política, em si mesmo, tanto faz” (como dizia o escritor inglês

Chesterton no começo do século XX). Para mim, Deus permanece uma ideia mais elegante.

Saltará aos seus olhos o fato de que não sou neutro na exposição dos problemas. Falo em

primeira pessoa. Para falar em primeira pessoa, antes tive que viver o tédio da “profissão”

de filósofo acadêmico (embora ainda permaneça sendo um deles) e seus rituais de

aniquilamento da coragem intelectual em favor da banalidade profissional. Como disse

Nelson Rodrigues, sou um “ex-covarde”. Ou, parodiando o filósofo francês e cético

Montaigne (século XVI), “esta é minha metafísica”. Não a de ninguém mais, ainda que fale

na companhia de muitos outros com quem concordo ou discordo. Assim sendo, os pequenos

ensaios que você tem em mãos foram escritos por um filósofo de carreira, que cumpriu todos

os rituais exigidos e que finalmente os recusou. Hoje, os vejo como vazios de sentido.

Alguém que passou pela faculdade de medicina, trabalhou como voluntário num necrotério,

formou-se em psicanálise e cada vez mais está interessado no que pessoas comuns

perguntam, como disse certa feita o filósofo judeu-alemão Franz Rosenzweig (século XX), e

cada vez menos interessado no que a universidade quer. E o que ela quer? Como comecei a

dizer acima, ela quer burocratas medíocres que se escondam atrás de grandes teorias para

não confessar sua insegurança diante da temida falta de sentido da vida e de sua matéria

concreta, o envelhecimento. Não controlamos a vida. Grandes planos podem dar em nada, ter

fé pode levar você ao fracasso, acreditar em si mesmo pode levá-lo a erros definitivos,

escolher ficar rico pode ou não dar certo, ter muito dinheiro pode sim garantir pessoas ao

seu redor amando-o (Nelson Rodrigues dizia que dinheiro só compra amor verdadeiro...) ou

pode levá-lo à solidão – enfim, não há garantias. É por isso que o normal é ser inseguro,

mentiroso, covarde, e não santo ou corajoso. Cuidado, a leitura destes ensaios pode trazer

efeitos colaterais: dúvidas, insegurança, insônia, raiva. Se isso acontecer, e você não gostar

do que está sentindo, leia livros de autoajuda, tome remédios, faça meditação por cinco

minutos. Mas não me entenda mal, caro leitor, pois não quero dizer que ser covarde é bonito

ou louvável porque, enfim, a vida é dura e não parece ter sentido, e por isso valeria a pena

ler livros de autoajuda. Acho que essa literatura não vale a pena, melhor sofrer sendo gente

do que sorrir sendo uma pedra burra. Quero dizer que, ainda que a vida não tenha sentido, o

mal vença, a mentira impere, foi exatamente o vício pela filosofia na sua busca incansável

pela verdade que me trouxe aqui e que me levou a querer falar com você, aí na sua cama, ao

lado dessa pessoa que você não sabe mais se ama (ou se ela ama você), mas morre de medo

de pensar nisso, ou no seu trabalho, esse lugar onde você dificilmente repousa ou confia em

alguém, ou seja, no ínfimo lugar que você ocupa nesse oceano de pedras e silêncio no qual

nascemos e no qual morreremos. Outra coisa: os ensaios foram pensados num tamanho que

dê para você ler pelo menos um a cada dia. Mas, como tudo nesta coletânea é assistemático,

os tamanhos variam, alguns beiram a miséria de conteúdo por ser meros fragmentos de

pensamento, como “migalhas filosóficas”, nos termos do grande dinamarquês Kierkegaard

(século XIX). Entretanto, o melhor é que leia todos, pouco importa a ordem, porque juntos

eles comunicam de forma mais clara minha visão do inferno. Certa feita, o filósofo alemão

Peter Sloterdikj (em atividade) me disse, em meio a uma conversa regada a charutos,

cachimbos e vinho, que, numa época em que a covardia impera como lei da alma, em busca

frenética de felicidade, o pensamento tende a se refugiar na forma de migalhas que têm a

mesma missão da guerrilha, combater em flashes e se esconder. Adorno (século XX) disse a

mesma coisa, de forma diferente: assim como Simmel (sociólogo alemão do início do século

XX), devemos pensar com o lápis, isto é, fazer rascunhos, esboços, leves e efêmeros como

forma de resistência a um mundo obcecado pela felicidade. O grande crítico e pensador Otto

Maria Carpeaux (século XX) disse certa feita que um ensaísta é um escritor sério cujo texto

é transfigurado por um raio de poesia. Não tenho poesia em meu sangue, mas tenho muita

tortura e a partilho com você. E por fim: você deve ter percebido que citei o Nelson

Rodrigues algumas vezes neste pequeno ensaio. Sim. Ofereço a ele estes ensaios. Hoje,

faltam homens como ele: homens que não têm medo. Assim como ele, não acredito num

mundo melhor e direi isso de várias formas diferentes até morrer. Nos últimos séculos,

acreditar num mundo melhor se transformou na pior prisão para o pensamento e para a alma.

No limite, uma falha de caráter.

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2

A ruína

O CETICISMO ME ARRUINOU. Começou com exercícios de linguagem,

observando suas incongruências na definição dos objetos e dos tempos verbais, depois

comparando teorias sobre a vida após a morte, a existências da alma e de Deus (coisas às

vezes sem muita importância, dependendo da hora do dia ou da idade que você tem), para

finalmente atingir a respiração, e aí talvez o dano seja irreparável, porque você se torna

quase desumano. A falta de fé (em qualquer coisa) pode dar falta de ar. O mundo fica

distante. Há algo na condição do ser humano que demanda certa ingenuidade ao olhar do

cético. Não é humano saber que a vida é sustentada numa ilusão contínua. Pagamos um

preço. Outro risco: pensamos que a dúvida, esse ácido do espírito, só afeta as ideias; mas

não, ele também afeta a alma, o corpo, o desejo, os gestos, a capacidade de sonhar à noite.

Os céticos gregos já sabiam disso: chamavam o efeito da dúvida sistemática sobre os afetos

de apátheia (viver sem paixões). Só que para os gregos isso era desejável. O cético viraria

uma espécie de sábio blasé, com a alma sob controle. Talvez sim, mas comigo não foi assim.

Hoje, luto contra a dúvida geral, o ceticismo em mim atingiu a matéria da alma, quase a

reduzindo a nada. Não acredito em nenhum sistema de valor disponível. Ando como quem

anda num deserto, sem direção e sem discernimento porque a paisagem é toda igual, feita da

mesma matéria efêmera e sem forma. Acho que esta é a condição pós-moderna por

excelência. Estes ensaios são um exercício dessa consciência que se desespera porque tudo

vê e tudo analisa. Uma consciência saturada de informação e conhecimento. Um exercício de

uma consciência em ruínas. Além do mais, não penso que esta seja uma tragédia particular

minha; penso que se trata de uma experiência histórica. Caminhamos por ruínas, e isso me

deixa um pouco mais feliz porque nelas me sinto em casa.

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3

Medos masculinos e mulheres obsoletas

ESTE ENSAIO É UMA BREVE REFLEXÃO do ponto de vista

masculino acerca de algumas questões que afetam a relação entre homens e mulheres no

momento contemporâneo. E, portanto, tudo começa com o advento da chamada emancipação

feminina e o medo que ela causa nos homens que gostam de mulheres.

Não gosto do termo “emancipação”, mas, como ele é de uso corrente, farei uso dele aqui.

“Emancipação” não significa felicidade. Aliás, entendo “emancipação” da seguinte forma,

e assim o leitor deverá entendê-lo toda vez que aparecer neste ensaio.

“Emancipação”, para mim, define-se em três etapas:

1. Partir de problemas reais. Por exemplo, submissão de algumas mulheres a maridos

insuportáveis por falta de grana para mandá-los para o inferno ou impossibilidade de

mulheres herdarem patrimônios, como era prática comum no passado.

2. Solucionar esses problemas de modo eficaz. Por exemplo, divórcio, profissionalização

definitiva das mulheres, nova legislação para proteção dos direitos das mulheres.

3. Negar sistematicamente os efeitos colaterais indesejáveis causados pelas soluções dadas

(item 2) aos problemas reais (item 1). Por exemplo, mulheres independentes

financeiramente, mas sozinhas e desesperadas que se iludem dizendo “pelo menos hoje eu

posso transar livremente com meninos de 20 anos sem dar satisfação pra ninguém”, mães

solteiras e disfuncionais cotidianamente, repressão sistemática pela mídia ou intelectuais

engajadas de qualquer discussão séria acerca desses efeitos colaterais indesejados,

acusando-os de mera propaganda machista.

Interessa-me principalmente aqui o item três, principalmente naquilo que afeta diretamente

os homens, que é quase tudo, porque, quando se é heterossexual, se é necessariamente

dependente do que afeta “o outro”, isto é, o sexo oposto. Experiência estranha ao

homossexual que não ama o outro ( hetero) sexo, mas sim o mesmo ( homo) sexo. Os dois

outros itens já me cansaram, seja pela verdade deles, seja pelo sono que me causam.

Sim, os homens estão de saco cheio das mulheres emancipadas. Mas não podemos transar

com nossas avós, nem queremos. Há coisas a aprender com a emancipação das mulheres.

Mas, para começar a aprendê-las, é necessário que possamos falar do assunto, e raramente

falamos disso, até porque nossas mulheres têm o hábito de falar em nosso lugar mesmo

quando dizem que querem nos ouvir. A capacidade feminina de enterrar qualquer conversa

num sem-fim de detalhes é atávica.

Alguns darwinistas remetem essa capacidade feminina infinita para falar ao fato de que

nossas ancestrais viviam coletando com suas crias e suas amigas e, enquanto isso,

conversavam. Já nossos ancestrais, ocupados com a caça e o risco implícito na caça,

precisavam ser silenciosos e focados na presa, logo, os que falavam demais eram

malsucedidos e por isso sumiram na poeira dos inadaptados. Já para as fêmeas, a conversa

era parte do cotidiano saudável, e, por isso, as silenciosas não tiveram sucesso, porque eram

isoladas e antipáticas.

Por razões evolucionistas ou não, os homens são “travados”, falam pouco e temem a

intimidade consigo mesmos. Falta-lhes a “cultura da subjetividade”, normalmente farta nas

mulheres. Isso dificulta as coisas em tempos de crise de identidade masculina, como a que

vivemos.

O escritor americano Philip Roth, em seu maravilhoso Animal agonizante, diz que existem

vantagens na emancipação feminina, mas dificilmente os melhores entre nós percebem. Essas

vantagens têm a ver com a superação da eterna e falsa fragilidade feminina, arma mortal

usada contra os homens que querem “cuidar” das suas amadas. Temos vergonha de ser fracos

e não atendê-las em suas demandas. E essa vergonha é utilizada dia a dia, sem nenhuma

cerimônia, pela quase totalidade das mulheres. Dizem que existem mulheres que não fazem

uso desse “recurso”, mas eu nunca conheci uma delas. Na troca de pneus, no enfrentamento

de brigas, nas dificuldades financeiras, nos fracassos em geral, se repete o uso desse

“recurso”.

Segundo Roth, uma vez libertas das garras de uma sociedade que as impediria de crescer,

as mulheres não mais poderiam se esconder atrás da fragilidade como destino feminino, mas

sim alçariam altos voos por si mesmas e, assim, realizariam sua força até então reprimida. E

aí entra a vantagem: os homens poderiam abandoná-las a sua sorte de solitárias livres

quando se cansassem delas sem sentir culpa por suas misérias de mulheres abandonadas.

Desse modo, estaríamos todos livres e solitários.

O primeiro problema é que, assim como a dominação muitas vezes é erótica na cama (ouvi-

las gemer sob a força do sexo que as penetra é uma delícia), a dependência feminina sempre

seduziu a maioria esmagadora dos homens. A dependência feminina sempre foi, no plano

mais sofisticado da química entre os amantes, uma manipulação da qual o homem só escapa

quando não ama a mulher. A única libertação seria a indiferença. Todo homem casado que

ama sua esposa sabe que ela é quem manda na relação cotidiana: escolhe mesas em

restaurantes, decide quais amigos vão ao cinema, manda em suas roupas, escolhe a casa em

que vão morar, a cor das paredes, controla seus silêncios, interpreta seus sonhos. Engana-se

quem supõe que detalhes assim não tecem a vida e contaminam a alma das pessoas. Uma

mulher lhe diz se você é vencedor ou derrotado. Quando um homem cansa de obedecer, ele

vai embora. Quando ele já não teme o que ela sente ou pensa, ela já está só.

Sim, eu sei que isso pode ser visto como mera retórica machista: as mulheres podem

mandar em casa, no microcosmo (diria La Beauvoir em seu Segundo sexo, bíblia feminista),

mas os homens mandam no espaço público. O problema é que o amor não se dá no espaço

público, e os homens cansam sim do “pequeno” poder feminino (que nada tem de pequeno)

em seu cotidiano microscópico. Com o impacto das mudanças nas vidas das mulheres e dos

homens nas últimas décadas, esse cotidiano microscópico passou a sofrer de novas agonias:

quais os papéis sociais de homem e mulher? Ao final, a sutil dominação feminina sobre a

alma masculina era o preço a pagar por sua infinita doçura hoje morta.

Mas deixe-me dizer um segredo, minha bela leitora: neste ensaio pouco me importa o que

você ou qualquer outro argumento feminista queira dizer. Desta vez, eu falo, e você ouve.

Isso, claro, se você quiser ter alguma chance de escapar dessa cama solitária na qual você se

deita todas as noites porque os homens ou bem têm medo de você e de seu sucesso e

(pretensa) segurança, ou bem a acham uma chata que fala demais e (pensa) que sabe demais.

Quem sabe posso ajudá-la a entender a “alma masculina” que algumas de suas amigas mais

nervosas estão prestes a varrer do mundo, civilizando-a até a morte.

Não pense que, porque dormimos quando vocês querem discutir a relação, isso implica que

não sabemos do que vocês falam. Levem a sério nosso tédio com o que vocês dizem. Ele fala

da descrença (e do desencanto) que a experiência com o mundo prático gera com relação às

palavras e também fala acerca de alguns medos essenciais que temos.

Quais são esses medos?

Antes de tudo, segure a respiração porque sei que você se apavora só em pensar que os

homens têm medo de alguma coisa. A sensibilidade masculina a desorienta. Você só gosta

dela nos filmes e nos carinhos no sexo. No fundo, você quer o monopólio da sensibilidade

para você. E quer o mesmo homem de sempre (seguro, sólido, sem dúvidas), só não quer

sentir-se submetida a ele.

Mas os homens têm sido empurrados para a sensibilidade e para a cultura da subjetividade.

Talvez sempre fôssemos capazes disso, mas a vida tal como era nos poupava ou impedia.

Agora nos afogamos em palavras que não dominamos.

Mesmo com toda a conversa da modernidade, os homens permanecem presos ao sentimento

de que devem sustentar suas mulheres (quando de fato as querem para valer), e as mulheres

também querem ser sustentadas. Podemos dizer que isso é cultura (isto é, poderia ser

mudado via reeducação contínua) ou natureza inata (difícil de mudar). O problema é que

sentimos que tudo que queremos (atenção, cuidados, delicadeza, dedicação, “a janta”) é

opressão para as mulheres, enquanto tudo que caracteriza o desejo da mulher (ser meio

paranoica com tudo, exigir mil coisas, ou mais, para se sentir amada suficientemente, fazer-

nos esperar por elas, sermos capazes de saber de antemão o que elas querem que saibamos,

darmos presentes todos os dias) é direito da natureza feminina. Este é um nó que, com o

tempo, desgasta a relação no cenário cotidiano.

O sentimento é de exigência sem fim. Mas, por outro lado, não podemos exigir nada

porque, de repente, acende a luz vermelha da “opressão sobre a mulher”.

Em sala de aula, quando discutimos questões assim, entre alunos de 20 anos, mais ou

menos, a queixa masculina é sempre esta: temos que ser sensíveis, temos que ser durões (a

própria metáfora física da potência sexual aponta para isso), temos que ser compreensivos,

companheiros, mas..., mas, se chorarmos, se perdermos o emprego, se ficarmos tristes, já

era... As mulheres são absolutamente insensíveis a qualquer sofrimento masculino que dure

mais do que cinco minutos. Casamentos não resistem ao fracasso masculino, homens

deprimidos são sistematicamente abandonados, enquanto mulheres deprimidas reconstroem a

vida todo dia. Homens reconstroem suas vidas mais facilmente quando se casam de novo

com outras mulheres mais jovens, mas dificilmente homens deprimidos casam de novo,

comumente são recusados por outras mulheres porque quase sempre a depressão masculina

vem junto com perda financeira e perda de saúde, e mulheres, normalmente, não suportam

homens fracos e sem dinheiro. Mulheres deprimidas saem mais facilmente da depressão,

muitas vezes sem ter o seu casamento original danificado.

O que homens de 20 anos sentem é que não há plano B para eles. Casamento e paternidade

não são suficientes nem para eles como sucesso masculino, nem para suas namoradas. É

comum, nesta dita era pós-moderna, ouvirmos mulheres discutirem opções como “quero

trabalhar, mas não tanto que ponha em risco a maternidade”. Ou discutirem opções

profissionais “que estejam em sintonia com sua energia pessoal”. O homem sente que isso

não existe para ele. Não há opções a não ser o sucesso profissional que deve sustentar todo o

resto, mesmo que esteja vivendo com uma mulher emancipada e bem-sucedida. O único

ganho real do homem com a emancipação feminina, como diz Roth, é poder abandoná-la à

sua sorte sem culpa. E os melhores entre nós nunca fariam isso.

Nada mudou no mundo, tirando o fato de que nós perdemos todos os “direitos” que

tínhamos.

Essa realidade, essa sensação de injustiça cometida contra os homens, produz

comportamentos de baixo investimento afetivo porque muitos de nós caímos na fobia. Medo

de investir e receber de volta uma petição de direitos que vai do direito a deixar a cozinha

vazia até o de deixar a cama desinteressante e o afeto desorientado, mas com a manutenção

da exigência de alta renda por parte dos homens. Isso nos estimula à canalhice por razões

“sociopolíticas”: “hoje em dia a mulher tem não os mesmos direitos, mas mais direitos, logo,

de mim, elas não tirarão nada”. O cinismo, como sempre, aparecerá na sua face profunda:

ressentimento agressivo.

Algum tempo atrás, uma aluna num curso em que as pessoas eram velhas (tipo 40 anos,

mais ou menos), fez um desabafo: “os homens me punem porque sou emancipada”. Minha

cara, os homens não punem você. Eles têm medo e ressentimento porque sabem que não têm

nenhum direito diante de sua infinita insatisfação (traço eterno da mulher), nem diante

(depois das últimas décadas) da sociedade, porque não querem o horror de ser chamados de

machistas. O resultado é a fuga.

Com o passar dos anos, os homens envelhecem e mudam, e também o seu olhar sobre as

mulheres. Pior ainda se pensarmos em homens mais inteligentes e exigentes. Não, não basta

“trazer uma cerveja e vir pelada”. O problema é que as mulheres, na realidade, apesar de

dizerem que buscam homens mais inteligentes e exigentes, não estão preparadas para isso

quando encontram. Para além das fantasias da empregada, da enfermeira e da colegial,

queremos sutileza e pouca preparação. Mais espontaneidade e menos obviedade. Não

acredite na história de que somos gorilas com pouco pelo. O homem busca menos controle

sobre o que pensam e sobre o que devem fazer para serem vistos como “bons

companheiros”. As regras da civilização da emancipação fazem a mulher ficar

excessivamente desinteressante e interesseira.

A filosofia, a sociologia, a antropologia e a psicologia muitas vezes apenas atrapalham. A

filosofia idealiza, fazendo-nos pensar que o amor seja mais do que é – banal, passageiro,

incoerente. A sociologia contamina o amor com suas bobagens foucaultianas: dar um

presente para uma mulher é assediá-la, querê-la dominada sobre uma cama, machismo

atávico ou falocentrismo. A antropologia relativiza tudo, fazendo o amor romântico ser mais

uma mania, como comidas ou bebidas típicas, ou mera invenção da literatura ocidental. A

psicologia nos obriga a levar Freud para a cama, faz da paixão um sintoma. Você não é

apenas você, você é sua classe social, sua cultura, seus traumas, suas ilusões e idealizações.

Informação demais atrapalha. Torna a ação confusa, insegura, desorienta o que em nós é

hábito.

A grande metáfora da condição masculina, independentemente de qualquer blá-blá-blá

moderno, é: diante de uma mulher carregando algo pesado, se você não carregar para ela, é

um mal-educado, um covarde, um fraco. Mesmo que ela seja “culpada” por tentar transportar

algo com peso acima de sua capacidade, ao homem ainda é negada a possibilidade de dizer

“não”. Quando amamos, carregamos tudo com felicidade. Se o peso for exagerado,

morreremos, mas não desistiremos de carregá-lo se amarmos a mulher que está do nosso

lado. Normalmente, antes de tudo, morrerá o amor por ela.

Talvez o resumo da ópera seja: o homem precisa aprender a dizer “não”, assim como a

mulher aprendeu. Ela diz “não” para a cozinha, para a maternidade, para a virgindade, para a

fidelidade, sob as palmas da cultura pós-moderna. Como uma liberta das amarras do

passado, ela caminha solta em meio aos escombros de seus velhos papéis sociais. O homem

precisa aprender a dizer “não” para a mulher que se oferece sexualmente, para a suspeita

sobre ele lançada de que não seja capaz de sustentá-la (em todos os sentidos da palavra),

para a obrigação de estar sempre presente quando ela desperta de seu sonambulismo

emancipado e volta à atávica cobrança de sempre.

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4

Passado

QUANDO LI Origem de Thomas Bernhard (escritor austríaco do século XX), senti

uma imediata sinergia: sua demolição das lembranças infantis e adolescentes me tornou um

irmão seu. Não guardo nenhuma sensibilidade especial pelo passado. Minhas lembranças de

infância são quase insignificantes, as amizades, um dia essenciais, se apagaram. Talvez eu

seja um homem sem alma. Talvez minha alma seja constituída do tipo de substância inútil e

efêmera da qual são feitas as cinzas. Com isso não quero dizer que não tenha mágoas ou

lembranças. Sou banal. Quero dizer que, quando olho para trás, vejo sombras num deserto

sem apelo emocional. Claro, fiz análise por anos. Talvez os analistas digam, a partir de sua

ciência de anatomistas de almas, que tenho problemas. Sim, tenho muitos. Mas não chorei a

morte de meus pais. Deve haver amor em algum lugar da casa em que vivi quando criança,

mas não sei onde. Sei, sim, que havia (e há) falta de ar.

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5

Baratas

É COMUM SE DIZER QUE AS BARATAS sobreviveriam a desastres

nucleares. Isso deveria ter sido levado mais a sério. Não no sentido comumente explorado

pelo cinema B, mas no sentido do profeta Kafka: a besta em nós não está em nosso passado,

mas em nosso futuro. E o engano mais comum nessa matéria se dá pelo fato de que o aliado

da condição de besta no humano é a sistematização da vida em busca da felicidade plena.

Todo mundo já ouviu falar do livro Metamorfose de Kafka, o livro em que o personagem

Gregor Samsa amanhece transformado num inseto e morre de depressão na janela. Aliás,

janelas são lugares típicos onde morremos à espera de uma redenção que nunca chega. O

próprio Kafka volta a essa imagem outras vezes em sua obra.

Um dos trechos inesquecíveis é quando a jovem barata passeia pela parede do quarto. Sei

que especialistas dirão que Kafka nunca usa a palavra “barata” no livro, mas os

especialistas aqui pouco importam, a tradição dos leitores imortalizou a barata em Kafka.

Ela é parte da formação de qualquer amante da literatura. E mais: o importante na leitura de

um livro como esse é como ele faz você ver a barata no seu espelho. Em Kafka, a literatura

se realiza quando você vê a barata refletida no espelho. Ao final, a barata Samsa morre de

tristeza na janela.

Mas voltando às paredes do quarto. Muitas vezes, em horas de agonia, contemplamos as

paredes e o teto de nosso quarto, mergulhados no silêncio da solidão. No trecho em questão,

a jovem barata caminha pelas paredes e pelo teto, deixando uma espécie de gosma marrom

produzida por suas infinitas perninhas. Essa mesma gosma a faz capaz de andar de lado e de

cabeça para baixo, coisa que, quando humano, Gregor não conseguia fazer. Aí já vemos um

dos ganhos de Gregor em virar uma barata. No mundo melhor que desprezo, as baratas

teriam uma passeata anual e direito a direitos humanos porque uma delas foi capaz de se

emocionar ao experimentar a nova forma de liberdade presente em suas perninhas e sua

gosma marrom. Suspeitava Kafka, não sem alguma razão, que o darwinismo falava de nosso

futuro e não de nosso passado. Uma barata feliz pode ser uma opção.

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6

A janela

A MAIOR IMPOSTURA MODERNA não é sua utopia racionalista, mas sim

sua denegação sistemática da infelicidade. Pagamos por esse ônus cada vez que mentimos

organizadamente. A afirmação de que a modernidade está em crise é já senso comum, temos

até mesmo uma grife para essa crise: “pós-modernidade”. O epicentro da crise seria a

descoberta de que a razão – essa “deusa” dos iluministas – não é um agente autônomo porque

vítima das paixões. Essa dependência da razão não é um fato “recém”-descoberto. Já no

século XVIII, o romantismo alemão afogara essa iludida razão no oceano contextual do

“espírito do povo” ( Volksgeist), e o cético David Hume declarava sua condição de escravo

das paixões. Mesmo antes disso, grande parte da reflexão filosófico-religiosa interna à

tradição abraâmica (judaísmo, cristianismo e islamismo) nunca legitimou tal delírio

racionalista – o que, a rigor, implica a consciência de que a aposta moderna num caráter

humanista e racionalista já era para a teologia, na sua fonte, má-fé ou ignorância. No fundo,

trata-se apenas do orgulho humano em querer ser mais do que é: não somos animais

autônomos na cadeia de produção de sentido. Resumindo: não somos nós que produzimos

conscientemente o que faz sentido em nossas vidas. Esse fato ilumina uma realidade contínua

acerca da produção do saber humano: nossa cadeia de produção de sentido não é

historicamente cumulativa (grandes cadeias de sentido podem ser sepultadas com o declínio

de grandes civilizações), nem carrega em si um eixo essencialmente justificável. O acaso, o

pecado, a injustiça, a miséria, a escuridão, a guerra, tudo pode produzir sentido. Ao

elegermos apenas a razão feliz como máquina de sentido, ignoramos o possível mistério na

experiência humana de atribuição de sentido. A crítica dessa ilusão foi feita sem

misericórdia por gente grande como Santo Agostinho, Freud, Marx ou Nietzsche (de modos

diferentes): pecado, inconsciente, ideologia, relativismo, convencionalismo, gênero, enfim, o

racionalismo seria uma forma sofisticada de impostura. Resta-nos criticar outra impostura

moderna: o fetiche da felicidade, esse “falso” universal que escapou à navalha de Ockham, o

franciscano antimetafísico do século XIV imortalizado por Umberto Eco em seu livro O

nome da Rosa, ali chamado de Baskerville. Penso que essa outra crítica é mais dura de ser

feita porque suas causas e seus efeitos estão mais “fisiologicamente” impregnados na

química humana: a busca da felicidade seria nosso atavismo biológico. Todavia, essa mesma

natureza biológica seria a plataforma na qual se narra o fracasso último e necessário da

fisiologia humana (que prova a impostura infeliz da felicidade): a morte e sua crônica

anunciada, o envelhecimento. Um modo de descrever esse envelhecimento é o lento – na

maioria das vezes – processo de invasão da vida pelas diversas faces da morte. A razão

desesperada necessita fazer aqui uma ação rápida em favor da impostura: precisamos

multiplicar os modos sofisticados de denegar esse processo e, assim, criarmos uma razão

feliz, ainda que ao final se trate apenas de uma mentira elegante.

Evidentemente o envelhecimento não é uma invenção moderna, tampouco o são a felicidade

e a obsessão por ela. A filosofia mesma já teceu poemas sobre essa obsessão. O ser humano

padece dessa mania porque obviamente é um “ser-para-a-infelicidade”. O fundamental seria

identificar qual é a relação específica entre modernidade e (in)felicidade. Essa relação

caracteriza-se, dentre outros modos de descrevê-la, pela técnica denegativa dessa condição

íntima humana (o ser-para-a-infelicidade), técnica esta que, em muitos casos, constituiu-se

num repertório variado de pseudoteorias a serviço do fetiche da felicidade.

O fracasso

O psiquiatra e filósofo alemão Karl Jaspers sintetiza assim o ethos que rompe com essa

denegação (e que aqui defendo):

As situações limites – a morte, o acaso, a culpa e a desconfiança que o mundo desperta – me ensinam o que é fracassar.

O que farei diante desse fracasso absoluto, a visão do que não posso escapar quando represento para mim mesmo as

coisas honradamente?

Karl Jaspers, La filosofia (Fondo de Cultura

Económica, México, p. 19, trad. minha)

O que define o “moderno” tardio diante da aporia humana é a “desonra” (no sentido de

Jaspers) em não encarar que a consciência é, em última instância, uma consciência de um

fracasso inevitável. Para compreender um pouco melhor esse fato, é preciso apropriarmo-

nos do locus específico da “invasão fisiológica” da morte (o envelhecimento) ao longo do

estabelecimento da modernidade, isto é, a dissolução sistemática dos “mecanismos”

metafísicos que produziam algum sentido para a inviabilidade do ser humano (a morte) que o

pensamento de viés materialista moderno gerou. Em virtude desse sistema dissolutivo, o

processo consciente de invasão da morte viu-se diante da necessidade de cumprir alguma

agenda que lidasse com essa entropia última do sentido – já que o envelhecimento acabou

por transformar-se, em decorrência de sua desqualificação como lugar de valor psicossocial,

em mero processo através do qual a entropia invade o corpo. O filósofo alemão Peter

Sloterdijk denomina esse processo de “terror pós-metafísico” e o define como o surplus

moderno no estatuto existencial essencialmente trágico do homem e da mulher: resta-nos

enfrentar essa devastação do sentido em relação às ilusões metafísicas e religiosas. O

processo de enfrentamento desse “deserto de sentido” acabou por se submeter às vãs

tentativas de construir um sistema mais ou menos organizado de fuga (a cultura da autoajuda

travestida de teorias “pró-ativas” a serviço da “autoestima”). Uma consciência atormentada

pela dor humana alimenta implicitamente o desejo dessa fuga: a percepção de que o homem é

um animal aporético (isto é, sem saída) serviria para legitimar todo e qualquer processo de

autojustificação, desde que tal processo de alguma forma alivie essa consciência infeliz.

Trata-se de um tipo de instrumentalismo (muitas vezes inconsciente, creio eu) psicossocial

que busca criar modos de sobrevida “feliz”, ainda que sem fundamento real. Mas, afinal,

perguntaria um instrumentalista consciente, de que adianta essa “honra”, de que nos fala

Jaspers, se no fim das contas vivemos um fracasso do sentido? O problema é que a

impostura moderna da felicidade não aceita ser caracterizada como uma forma de

mercenarismo retórico existencial, ela quer para si o estatuto de uma ética não instrumental,

pois recusa a consciência sofista ou cética profunda que fundamenta qualquer atitude

pragmática sólida. Em poucas palavras: ela recusa a condição de uma ética que se reconhece

como filha desesperada da tragédia, a qual apenas lida localmente com os efeitos nefastos de

uma espécie (a humana) que sobrevive fechando os olhos para os abismos que habita.

O que nos diria Kafka sobre isso?

“Esperança há muitas, mas não para nós”

Franz Kafka

É conhecida a hipótese de que a inteligência judaica do centro-leste europeu, na virada do

século XIX, teve um cenário privilegiado para desenvolver uma consciência particularmente

negativa (em termos dialéticos, o momento negativo é aquele propriamente crítico, antes do

restabelecimento de uma nova tese) perante o fracasso da modernidade em realizar suas

promessas. Essa condição teria sido responsável pela atmosfera “pessimista” que parece

surgir quando lemos obras de autores judeus como Adorno, Horkheimer, Benjamim,

Rosenzweig, Buber, Strauss, Kafka, Freud, Marx (o “Marx” da aporia do capital), Bauman

(mais recentemente), entre outros. Essa particularidade estaria ligada ao fato de que os

judeus, na esteira do “otimismo napoleônico” filossemita, teriam aderido radicalmente à

modernidade, na medida em que esta representava, finalmente, a tão desejada cidadania

ocidental. Mas logo, e aqui estaria a consciência privilegiada, esses judeus perceberam que

o preço pela modernidade existencial era a dissipação da identidade judaica, filha de

processos tradicionais, sedimentados, que, aos olhos da modernidade, era precisamente o

“inimigo” lógico a ser destruído: o atavismo que alimentava um passado a ser esquecido e

superado. Nessa passagem, os judeus teriam se dado conta de que a emancipação moderna

implica um mergulho no vazio de sentido, e que a produção de sentido era, em sua maior