Conversa em verso por Alexandrina Pinto - Versão HTML

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CONVERSA

em verso

Alexandrina Pinto

2

CONVERSA

em verso

À Alexandra, Ao Zé, Aos meus Pais, À Bina, ao Manolo, ao Francisco e à Mila

aos Amigos,

da blogosfera incluídos

Alexandrina Pinto

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CONVERSA

em verso

Alexandrina Pinto

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CONVERSA

em verso

CONVERSA

em verso

2009

Alexandrina Pinto

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CONVERSA

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Pela cidade

Calcorreei as ruas, quase desertas. Em passo ligeiro, cautelosamente, sobre o tapete escorregadio das folhas sobre a calçada. O vento arrefeceu-me a cara nos seus doze graus. Enegreceu o céu. Caiu em força a água da chuva.

Encharcada, regressei a casa.

A chuva alagava a rua. O vento levantava em chapa a água e projectava-a no ar.

Alexandrina Pinto

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CONVERSA

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Mar

A noite apoderou-se da tarde, sorrateira, ali, num momento, junto às ondas do mar a quebrarem naturalmente na areia da praia.

Quedámo-nos sentidamente na varanda dos pensamentos em recolhimento, numa oração inabitual em honra dos deuses que conceberam estes instantes.

Só para mim. Mesmo que apenas tenha restado desse tempo, no início da noite, sobre o tabuleiro, um artístico ramo de rosas. Inventado para mim.

O mar quebra e requebra em ondas, som e espuma. Os grãos de areia, indiferentes, desprendem-se da sola dos sapatos.

Uma televisão continua a falucar uma linguagem monótona, incompreensível e desatenta, marcando um sono passado pelas brasas. Um telemóvel choca a calma semi-silenciosa com palavras de longe.

E o mar quebra e requebra, enfeitiçado, em espuma sobre a areia da praia.

Alexandrina Pinto

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CONVERSA

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Ventania

Desceu da serra, pelas encostas, numa correria endoidecida, o vento gélido.

Silvou pelos desfiladeiros, com perfume de neve. Arrastou nuvens cinzentas e brancas, carregadas de granizo e chuva, despejadas sem cerimónia.

Num caprichoso movimento, afastou as pedrinhas redondas e brancas como camarinhas e resgatou o sol para o esconder atrás de uma cortina de nuvens…

A noite caiu com estrondo negro sobre as casas. À janela, brilham estrelas cintilantes. O frio enrosca-se à lareira.

Alexandrina Pinto

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CONVERSA

em verso

Reflexos

A noite

gelada

a geada

cobre

de branco

o campo

os montes

o sol

lança

os braços

em abraços

preguiçosos

ansiosos

pelos vales

lacrimejantes

das chuvas

pelas encostas

rochosas

chorosas

de ventos

o sol

afoga-se

em reflexos

nas barragens

nos rios

nos tanques

perplexos.

Alexandrina Pinto

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CONVERSA

em verso

Frio

A claridade transparente e nua do crepúsculo cola-se estática e crua ao azul desbotado da tarde gélida.

O horizonte rosado do lusco-fusco contorna o nevoeiro algodoado que se escapa entre montanhas.

Entrada a noite, os abetos recolhem nas suas folhas as gotículas geladas da neblina que desce das serras. Adormecidos, permanecem vidrados até ao nascer do sol.

Alexandrina Pinto

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CONVERSA

em verso

Abaixo de zero

Rasga os sentidos

um ar de cortar à faca

na corrente

de vento brutal

junto à catedral…

os passos perdem-se

no granito gelado

os ombros encolhidos

escondidos

no meio do frio…

os lábios gretados

fechados

da aragem campestre

agreste!

as luzes de cores

espalham

estranhas flores

pela cidade …

sob o sol frouxo

brincam pardalitos

pequenitos

saltitantes …

seca

a pele dorida

estremecida

um ar constante

cortante

pelas ruelas

e vielas.

por cima um céu

branco escorrido

sem alarido…

Alexandrina Pinto

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CONVERSA

em verso

Tempo de mudanças

O Sol nascia

Cada dia

A oriente

Como sempre

Atravessava

A transparência

Do ar azulado

E chegava

Na essência

Intacto

Sem sopro

De aragem…

Agora tenta

Sem graça

Furar a carapaça

Do nevoeiro

Reposteiro

Cinzento

E denso

Gotículas

Partículas

De água lenta

Um logro

Na paisagem…

Alexandrina Pinto

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CONVERSA

em verso

Primavera em qualquer Outono

Outono com cara de primavera.

Céu azul com nuvens esfarrapadas e formas bizarras.

Nem o cheirinho apetitoso das castanhas, nem uma aragenzinha fresca no rosto, só greves a desgosto...

Cortaram o Outono aos pedaços

Eram jovens, tinham sonhos.

Estavam apaixonados e o coração expandia-se em ilusões, solidariedades várias.

Eram jovens e estavam apaixonados. Por seus amores, pelos amigos, pelas ideias, pelo sol e pelo céu. Era possível alcançar a Lua. Marte e Vénus planetas atingíveis.

Tinham sonhos. Todos possíveis. Urgentes.

Estavam apaixonados. Por risos, pela juventude, pelas crianças, pelos velhos.

Era Coimbra dos amores de Pedro e Inês.

O André, também apaixonado, escreveu um dia: “ Esta tarde cortaram o Outono aos pedaços”.

Alexandrina Pinto

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CONVERSA

em verso

Fantasmas

Acabrunhada sob uma carapaça de nevoeiro passa a manhã, de lado para lado, sem poiso nem destino.

Descendo, subindo escadas, entrando, saindo portas, conversas destoam, repetidas, massacrantes, entediantes.

Numa feira de gentes insatisfeitas, mas acomodadas, obedientes, fechadas atrás de fachadas, quietas, olhos encolhem-se, atrás de cortinas imaginárias, opacas, medrosas.

Vozes rasteirinhas, melífluas, envenenam o ar fumarento empurrado pelo vento frio.

Branco-sombra, o nevoeiro entranha-se nos ossos das pessoas pequeninas, minúsculas, envoltas num halo de fantasmas.

Marca o tempo uma canção velha, dentro da cabeça, para cá e para lá, a (des)compasso sem ritmo nem letra, numa cadeira de baloiço despropositada.

Janelas de bocas abertas, escancaradas, portas desgarradas, sem trancas, abrem-se no caminho dos céus, numa vertigem de vidas antigas, engolidas na voragem passageira dos séculos.

Arrastam-se os pés no lajedo escorregadio, acorrentados aos passos.

As luzes, embaciadas de chuvinha lacrimosa, afastam-se até ao invisível.

Na varanda-marquise, cora de vergonha uma flor despudorada de uma sardinheira.

Alexandrina Pinto

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CONVERSA

em verso

Domingo

Ponho o colar

contra o mau olhado

Saio para a rua

Recolho na pele

O calor de abrasar

Não quero pensar

Só deixar correr

Ponho o colar

Contra o mau olhado

Sítio costumado

Para um café devagar

Passeio sem rumo

Almoço demorado

Sempre a falucar

Ponho o colar

Contra o mau olhado

Num clique a teclar

Mensagens sem parar

Passa a tarde quente

Cola-se o calor na gente

E o sol indiferente

a pasmar...

Alexandrina Pinto

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CONVERSA

em verso

Ano Novo

Cinzas

Esquecidas

Numa lareira apagada

Nostalgia

Da despedida

De uma era passada

estremecido

pelo desconhecido

o coração sobressaltado

a esperança

balança

entre a dolência

do primeiro dia

e um salto

para o outro lado

do tempo…

Alexandrina Pinto

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CONVERSA

em verso

Vidas

Um gato

espalmado

na estrada

sob o sol

atormentado

notícias

malfadadas

pingas

esparsas

de nuvens

passageiras

encasteladas

arquivos

remexidos

passos

perdidos

em eras

passadas

folhas

carcomidas

e as horas

seguidas

contam

indiferentes

as vidas

das gentes.

Alexandrina Pinto

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CONVERSA

em verso

Moinhos

Na cumeeira do monte

passa

o passado

na estrada

romana

nem moinhos

de velas ao vento

nem o grão

estraçalhado

sob o peso da mó

nem farinha branca

nas mãos do moleiro…

Na lonjura

a estrutura

metálica

mecânica

de três braços

desenha no céu

uma imagem

excêntrica…

Uma mulher

sentada

num banco

sozinho

do jardim

fala

às plantas

mirradas

do Inverno…

Um bêbado

da tarde

titubeia

junto ao muro

gritando

frases e risos

de zurrapa.

Salpicos

miúdos

de chuva

cansativa

borrifam

a calçada.

Alexandrina Pinto

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CONVERSA

em verso

Por ti

Enrolei

o cachecol

colorido

comprido

de entrançado

grosso

à volta do pescoço

penduradas

as cores variadas

até às franjas

para fingir

que estás aqui

comigo a rir

apertada

num abraço

o espaço

derrubado

para fingir

que a distância

não é nada...

Alexandrina Pinto

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CONVERSA

em verso

Companhia

Trago

pela mão

a minha alma

angustiada

a escuridão

desesperada

prestes

a desprender-se

em chuva

gelada

ou neve

anunciada.

Transparência

Transparência

e brilho

de cristal

aparência

de um azul

celeste clarinho

gela

no trilho

da terra

parada.

Alexandrina Pinto

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CONVERSA

em verso

Arco-íris

Desceu do espaço

inopinadamente

lançou as raízes

de repente do céu

cinzento escuro

do meio das gotas

da chuva em cordas

um raio de luz

branca dispersa

em nítidas cores

e fez-se ponte

transitório efeito

em arco perfeito.

Alexandrina Pinto

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CONVERSA

em verso

Escultura

A geada

chegou mansinha

pela madrugada,

arrimou-se

ao tronco gelado;

o nevoeiro

aconchegou

o arbóreo corpo

em branco manto

e esculpiu-lhe

as formas gélidas.

Alexandrina Pinto

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CONVERSA

em verso

Azul

Esborrachada

contra a vidraça

a chuva estrelada

fustigada a vento

caía ...

mansamente

devagarzinho

a manhã clareou

e o céu azulou.

Tempestade e bonança

Caiu a chuva

embrulhada

em ar violento

ensopou

a terra

as nuvens

emigraram

além-fronteiras

estrangeiras

imaginárias

deixaram

farfalhos

suspeitos

sujeitos

ao sabor

dos ventos

pensamentos

dispersos

ideias fugidias

fantasias

encantadas

plasmadas

nos céus

entretanto

enxutos

impolutos

apagadas

as pinceladas

de branco...

Alexandrina Pinto

23

CONVERSA

em verso

Palavras soltas

Notícias de última hora que aconteceram ontem.

Estas televisões de agora trazem novidades já gastas: Temperaturas que sobem carta de uma FIFA com muitas fífias incêndios que nunca acabam, opção da energia que não se pode escolher mais futebóis dentro e fora do campo em campos estranhos leis por regulamentar desgraças no nosso pequeno grande mundo atentados por ali

atentados por além

origem da lua e origem da terra

trabalho escravos tráficos das crianças e adolescentes esperanças

num rio da Galiza um derrame

imigrantes que chegam em catadupa às canárias fugindo de quê esperando que luz no mar profundo?

vanessa fernandes medalha de prata triatlo do mundo basquetebol de espanha com precioso ouro são horas de arrumar papéis antigos abrir cadernos novos com cheiro a futuro são horas de arrumar as ideias descer ao ramerrame são horas de encher o peito de ar abrir e esquecer expectativas são horas de encontro desencontro de vidas são horas de viajar ou ficar

ou escapar

no mesmo lugar

sentir os pés descalços

em cada passo

a compasso

fugidio do instante

são horas de escrevinhar

garatujar rascunhos sem jeito

são horas de deixar a tv calada

sentar-me na esplanada

e tomar um café

são horas...

Alexandrina Pinto

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CONVERSA

em verso

Primavera em Janeiro

Manhã bizarra

de primavera

em Janeiro

Aragem serena

um sol matreiro

No alto do azul

sulcos brancos

esborrratados

destinos

cruzados

Rosas frescas

vermelhas

fulgentes

na jarra

transparente

na tranquilidade

quente

de um tempo

trocado

Alexandrina Pinto

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CONVERSA

em verso

Caminhos

visões nocturnas

psicadélicas

estradas soturnas

patéticas

para lado nenhum...

brilhos luminosos

incandescentes

asfaltos perigosos

descendentes

para lado nenhum...

distâncias vazias

pesadas

curvas esguias

paradas

para lado nenhum...

só a lua secreta

misteriosa

cheia e esperta

voluntariosa

agarra o sonho

sombreada a lua

feiticeira

orgulhosa e crua

na dianteira

mostra o caminho

e fico à janela

noite quente de ilusão

viajando com ela

serena atracção

........................................................

para lado nenhum

........................................................

para qualquer lado

no caminho do sonho...

Alexandrina Pinto

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CONVERSA

em verso

Rosas

Bate o sol em branco

nas paredes das casas

da serra esturricada...

Tonteia pelos montes

em desnorte de asas

uma ave assustada...

E, num jardim à margem,

no meio da folhagem

verde aperaltada,

vive um botão em flor

por momentos escassos

(que tisna tudo o calor)

e amanhã de manhã

uma rosa em esplendor

desmaia de rubra-cor

nos castanhos abraços

da terra chã...

Alexandrina Pinto

27

CONVERSA

em verso

Manhã

Manhã

de andar

barata

tonta

patarata

escada

acima

abaixo...

a chuva

pronta

desce

a calçada

empedrada

de tristeza...

a manhã

arrastada

sem sentido

perdido

o tino

entre palavras

à toa

soa

sem tom

nem som

por entre

os dedos

escorregadios

de um tempo

sem volta...

a manhã

desliza

devagar...

Alexandrina Pinto

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CONVERSA

em verso

Torre de Menagem

O sol

atravessa

a aragem

fresca

no azul

puro

onde se acolhe

a torre

de menagem

colagem

de outrora

em tempos

de agora.

Alexandrina Pinto

29

CONVERSA

em verso

Primavera

Espelham-se

nos lagos

menores

as folhas

branquíssimas

pequeníssimas

dos agriões

e meruges

as urzes

brilham

nos montes

lilases

vivazes

as mimosas

frondosas

amarelas

de flores

as cores

dos malmequeres

minúsculos

pontículos

vibrantes

exuberantes

de rosa

vestidos

na calma

da tarde

os pessegueiros…

Alexandrina Pinto

30

CONVERSA

em verso

Flagrantes

A mãe desce a rua, com a filha pequena pela mão.

Uma mulher passeia com o cão enorme.

De mochila às costas, o turista caminha em direcção à porta da Sé.

O rapaz volta-se e lança com o olhar um piropo extasiado à jovem que passou, com o umbigo à mostra.

Na Praça, duas garotas andam de patins em linha.

As zonas de peões - ruas com trânsito incessante, autorizadas, proibidas, condutores transgressores passeiam entre os obstáculos como em gincana.

(Des)constroem-se rotundas lá mais abaixo.

Passa um calmo desassossego de Primavera pelo jardim.

Alexandrina Pinto

31

CONVERSA

em verso

Papéis

Ando

de cabeça

perdida

amachucada

com papéis...

e a vida

apressada

em passos

cruéis

a correr

lá fora

sem esperar

por mim,

arquivada

entre o inútil

e o vazio...

Alexandrina Pinto

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CONVERSA

em verso

Pôr-do-sol

Corre um rumor

de neve

vindo da serra...

um esplendor

de fogo

mergulha na terra...

Alexandrina Pinto

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CONVERSA

em verso

Miragem

a lua

esquiva

ladina

cheia

candeia

na noite escura

amanhece

em bailarinos

fugidios

vadios

flocos

loucos

no dia

que arrefece.

Alexandrina Pinto

34

CONVERSA

em verso

Noite

na terra repousada

a noite adormecia

à luz estremecida

trilava num canto

do escuro

uma cotovia.

Trovoada

rasgou-se o céu

em ânsias

de clarões erráticos

e gritos fantásticos,

o negro véu

esbarrondou-se

em água.

Alexandrina Pinto

35

CONVERSA

em verso

Jasmim

Da noite estrelada

lua em quase

quarto crescente

nasceu a manhã

fulgente

e neste verão

recente

dos ramos mirrados

explodem rebentos

de verde limão.

do chão

brota o alecrim

e o ar perfumado

pela flor do jasmim.

nas hastes direitas,

o rosmaninho...

e uma cegonha,

em voo rasante,

desceu do ninho!

Alexandrina Pinto

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CONVERSA

em verso

Tílias

O tédio adormece

mão encostada

à cabeça parada

à espera

desta máquina pachorrenta

em vagares de câmara lenta

a olhar pela janela...

As duas tílias guardiãs

do portão da entrada

bamboleiam os ramos

como duas irmãs

numa risota pegada...

A manhã passa

letárgica e mansa!

Alexandrina Pinto

37

CONVERSA

em verso

Tempo

Passeio até à janela:

altas, luminosas

as tílias frondosas

de sentinela

e o céu cinzento

macilento

e a torre estática

majestática...

vão escoando

entre os dedos

sem segredos

as horas andando

pasmadas

enroladas

perdido

o sentido

do tempo.

Alexandrina Pinto

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CONVERSA

em verso

“A la minuta”/instantâneo

Um dia

céu turvo

e tudo

salpicado

de chuva

fotografia

“a la minuta”

ao lado

do jardim.

Outro dia

um círculo

de luz

agitado

afastou

neblinas

nuvens

peregrinas

e alargou-se

em azul.

Reina

a calma

mágica

de flores

pintalgando

os verdes

de cores…

…em moldura

repousada

o fotógrafo

de antigamente

itinerante

paciente

sonha!...

Alexandrina Pinto

39

CONVERSA

em verso

Lua cheia

Esconde-se a lua

bem cheia

atrás da chuva

lacrimejante

e fria

leva a magia

para o fundo

do céu de breu

e eu

fico a olhar

o vazio

um calafrio

arrepia

a noite e a lua

cheia oculta

recolhe

pedra preciosa

um segredo

uma lenda

misteriosa...

Alexandrina Pinto

40

CONVERSA

em verso

Sonho

Impensável dedicar

tempo à informática

pensar em gramática

e descortinar

o sentido das palavras:

anda uma pomba

a esvoaçar

em círculos

a toda a hora

e leva os sonhos

lá para fora!

Alexandrina Pinto

41

CONVERSA

em verso

Aparições

Povoam

antigos caminhos

recentes estradas

carreiros de peregrinos

velhos e novos

a pão e água

livres de mágoa

ou de dor encravada

no corpo e na alma

em direcção ao sítio

mítico

de reais

ou eventuais

aparições

... a pé!

Que os move?

Quem os conduz?

a trancendência

de alguma luz?

terríveis aflições?

pagamento

de promessas

dessas

em momento

de um mundo às avessas?

pendor para o sofrimento?

uma energia invulgar

daquele lugar?

ou uma cega

e inexplicável

fé?

Alexandrina Pinto

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CONVERSA

em verso

Devagar

Andam os passos devagar

preguiçosamente

a gozar

o sol quente!

E os amores-perfeitos amarelos a brincar no jardim...

Risos

O sol ficou mais quente esta tarde... entrou-me pela sala dentro com a tua voz alegre e serena e encheu-me de luz e riso.

Alexandrina Pinto

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CONVERSA

em verso

Namorados

Esborratado

de branco

o azul celeste

da tarde morna...

um par de namorados

agarradinho

no meio do caminho

fica parado

entrelaçado

de beijos calados

quentes,

indiferentes

ao mundo parado

ali ao lado.

Alexandrina Pinto

44

CONVERSA

em verso

Vento

No terreno

da quinta em frente

ondula o feno

sob a vaga insistente

da fantasia

e do vento.

Valsa

Saio para passear

a volta do costume

para não me instalar

em solitário azedume

ou apática estupidez;

regresso a desafinar

uma canção em inglês

e, na sala, rodopio

num espaço vazio

em passos inventados,

ao som imaginado

de uma valsa curiosa

risonha e caprichosa...

Alexandrina Pinto

45

CONVERSA

em verso

Mensagem especial

Trazes no sangue

o sangue de guerreiros,

de nobres e plebeus,

caseiros e senhores,

comerciantes, marinheiros

transmontanos,

galegos e beirões,

trazes no sangue

o sangue das vinhas

dos socalcos e do rio,

o trabalho e o amor

a saudade e a dor,

o cheiro da terra e do mar,

o brilho das constelações

do sol o calor…

a calma natureza

a alma lutadora

o coração sereno

a força persistente

a coragem, o humor

a amizade duradoura:

é essa a tua beleza!

Parabéns, Princesa!…

Alexandrina Pinto

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CONVERSA

em verso

Maio

Houve meses de Maio em que as horas se alongavam nas tardes calorosas o mundo e o tempo viviam ao alcance das mãos e as crianças enfeitavam-se de brincos de cerejas vaidosas...

Chuva

Na manhã clara de silêncio

a chuva mansa

à janela envidraçada

canta uma balada;

nos lençóis quentes

dolentes

aninha-se a alma sossegada;

os pardais tontos

baloiçam extasiados

nos finíssimos caules

dos arbustos molhados.

Alexandrina Pinto

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CONVERSA

em verso

Poeira nos olhos

Vai uma fábrica fechar:

a prazo serão

quinhentos,

parece um número

sem expressão;

vem um ministro

sinistro

falar

à televisão

que abrirão

novos empregos

na região

longe,

afinal já não;

foram ocupados

por outros desempregados…

Alexandrina Pinto

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CONVERSA

em verso

Quotidiano

Acelerei

a pressa

para escapar

à treva

a alastrar

sobre a cabeça;

não escapei

desatei

a correr

sob as pingas

vagarosas

primeiro,

depois, grossas,

em aguaceiro.

Um cão esguio

atrevido

ao volante

tocava

elegante

a buzina

de uma carrinha

parada.

Alexandrina Pinto

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CONVERSA