Conversa virtual por Alexandrina Pinto - Versão HTML

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CONVERSA

virtual

Alexandrina Pinto

1

CONVERSA

virtual

à alexandra

ao zé

aos meus pais

à bina, ao manolo,

ao francisco

à mila,

aos amigos,

aos amigos da blogosfera

Alexandrina Pinto

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CONVERSA

virtual

Alexandrina Pinto

CONVERSA

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Alexandrina Pinto

3

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CONVERSA

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Sonho

A chuva gelada

mistura o frio

nos flocos tímidos...

De braço dado no meio

da praia isolada

sonho o passeio...

Alexandrina Pinto

4

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CONVERSA

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Neve

O plano não é o mais bonito

Mas a vista ainda assim

vislumbra quase no infinito

a montanha descansada

sob uma colcha bordada

a branco-cetim...

Alexandrina Pinto

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CONVERSA

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A menina do shopping

... a menina do shopping

não sabe se chove se faz sol

se está frio ou calor

( a luz ali é sempre igual

sem brilho, artificial)

está apenas deserta

por dois dedos de conversa

enquanto embrulha a alma

em papel dourado

e laço bem apertado

nas prendas de outros

num horário todo trocado...

A menina do shopping II

a menina do shopping sabe o dia do relógio não sabe o calor de sol

não sabe o cheiro de chuva

a menina do shopping sabe bem que há graus na sombra, que são sempre os mesmos graus

que vêm de vários sóis que se chamam mitsubishi a menina do shopping não sabe que há outro dia a menina do shopping sabe bem que a luz é lâmpada e vem do quadro geral.

Alexandrina Pinto

6

CONVERSA

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Abstracção

Abstracção:

nada me interessa

hoje.

Recolho-me no ontem

à volta de uma mesa

composta

e bem disposta

jorram em beleza

as palavras

e os risos num copo de vinho

e no pão;

aceso o frio,

espevito as brasas,

enrodilho-me

num casaco de lã.

Abrigo-me da chuva .

Dos anúncios patéticos.

De mais uma decisão vã.

Alexandrina Pinto

7

CONVERSA

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Fim de tarde dezassete horas doze de Janeiro

Pedra em redor

pedra no altar

pedra no chão

em construção

pedra vertical

em direcção

ao céu nas paredes

da Catedral

pedra na mão

do criador

pedra na tarde

muito fria

a obra vadia

nas veias

do escultor

as nuvens cheias

de um esplendor

de fogo corre

o vento em chama

a chuva acorre

ao chamamento.

Alexandrina Pinto

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CONVERSA

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Marcas

Ficam marcas

na areia

ficam marcas

na memória

as conchas

da beira-mar

os risos

o olhar

Ficam marcas

entrelaçadas

na história

das vidas

Ficam marcas...

Alexandrina Pinto

9

CONVERSA

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Pedras

A luz do sol vai varrendo a humidade das pedras da calçada.

O escultor ajoelhado. Ergue-se numa estatura de monumento.

Era a pedra. Uma pedra qualquer em qualquer lugar e momento.

Ganhou alma e magia. Desceu sobre a pedra uma força encantada.

O escultor acaricia o novo ser. Agarra-a contra o peito, emocionado.

Depois, desprende-se dela num suspiro, em despedida contida.

Às vezes, as pessoas não compreendem, diz em voz sumida.

Fechou a voz sedosa no coração, Pegou noutra pedra qualquer,

E, ajoelhado em adoração,

Resgatou outra alma para viver…

Alexandrina Pinto

10

CONVERSA

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Simplesmente

É bonito pegar num livro e ler

pegar num lápis e escrever...

é bonita a escola.

mas mais fantástico ainda

é correr portão fora

ao toque da campainha

pegar numa bola

seguir os amigos

desatar aos gritos

pelo descampado

em dia de sol crescente,

mostrar uns truques

fazer umas fintas,

dar um abraço,

ensaiar novo passe,

cheio de classe,

é assim bonito

aprender a ser!

Alexandrina Pinto

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CONVERSA

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As tílias

As tílias

perderam

cada folha

uma a uma...

Olha!

nem parecem

as mesmas!

Só os ramos

em prece

agradecem

o sol.

Céu

Hoje não quero pensar em nada,

Apenas inspirar um pouco de sol Sentir na pele a aragem fresca

Ver a criançada junto à Capela

A jogar à bola entusiasmada

numa parcela

de céu…

Alexandrina Pinto

12

CONVERSA

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Breve o caminho

Junto ao rio

o nevoeiro

cegou

os caminhantes...

o sol surgiu

quente e inteiro

a despropósito

sem mais adiantes

quando o caminho

terminou...

A concha

Esta tarde

foi uma tarde sozinha...

Em certo momento,

encontrei, por acaso,

uma concha...

A concha trouxe

as memórias

na corrente do sol...

Alexandrina Pinto

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CONVERSA

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Desânimo

dói o corpo às horas arrastadas até à exaustão até uma hora incompreensível num relógio qualquer; vagueia a mente angustiada e triste em nebulosos tempos de invisível cansaço; quebra-se a vontade a alegria o ânimo em atalhos labirínticos e confusos; perde-se a graça de uma nuvem que passa da chuva que cai da lama na alma; vem e prende-me nos teus abraços quentes afasta este frio do futuro...

Amanhã

Veio o sono e escondeu os pesadelos bem no no fundo da gaveta do esquecimento.

Chegou a manhã límpida e azul, espraiou os braços na madrugada.

De ontem, nada mais sobrou... soprou apenas um ligeiro arrepio, uma dúvida, uma ruga, uma espécie de frágil lamento...

as horas os montes as levadas trazem agora a cara lavada pela chuva e as gralhas empoleiradas nos ramos ralham ao desafio...

Alexandrina Pinto

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CONVERSA

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Árvores Árvores...

braços ancorados no céu

beijam o sol

no torpor da Primavera

uns nus despidos e secos

outros enfeitados de flores

rindo da surpresa...

Alexandrina Pinto

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CONVERSA

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Recado

O teu espírito

pairava sobre nós

quando o silêncio

gritava a uma voz

as almas magoadas

quando cada passo

caminhava sereno

vestido de negro

quando a garganta

amarrada em lágrimas

sufocava os olhos.

O teu espírito

pairava sobre nós

na força da nossa voz...

Alexandrina Pinto

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CONVERSA

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Primavera

O sol

floresce

na flor amarela

do tojo.

...

A urze

canta

em verso rosa

a primavera.

...

Espantalhos

bem vestidos

passeiam

cores do campo

e descem

às cidades.

Alexandrina Pinto

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Aleluia

apesar

das nuvens escuras

da chuva

dos entraves

das traves

dos muros caídos

dos muros levantados

do arame farpado

do céu enevoado

das sebes altas

das curvas da estrada

da voz embargada

da pedra no caminho

da pedra no sapato

das ambiguidades

das duplicidades

do golpe de vento

de falta de sorte

do desnorte

da dentada na maçã

da maçã envenenada

dos amores desfeitos

dos amores contrafeitos

ri uma flor escondida num recanto floresce o sol acima das nuvens sobe o riso cristalino das águas em nome de um amor por descobrir……

Alexandrina Pinto

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CONVERSA

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Tempo de (matar) saudades

foi o tempo de

um sopro

uma aragem

uma paragem

uma giesta em flor

um floco de neve

uma pedra de granizo

um carinho

um abraço

uma palavra

um gesto

chegaste

no tempo de

um sorriso

e partiste

como brisa

de saudade!

Alexandrina Pinto

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CONVERSA

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Insónia

às voltas na cama

enrodilhadas as ideias

aos lençóis

embrulhados de um lado para o outro o copo branco de leite

as páginas do livro aberto

as imagens tolas da tv

as ideias enroladas

num sono desconjuntado

o copo de leite

da noite em branco

as páginas do livro

adentradas na noite

as imagens da tv

plasmadas de insónia

as ideias a tremeluzir

dentro de um sonho

o começo o fim

não fomos beber um copo

como se fôssemos eternos

e o tempo infinito

e existissem sempre amanhãs

agora já não temos tempo

o rio chegou à foz

e as águas enredaram-se

noutras vidas já idas

e as ideias enrodilham-se

sem parar entre os lençóis

e o copo do livro parte-se em páginas brancas e escorre da tv em imagens incompreensíveis e pardas...

Manhã

manhã ensolarada subindo as escadas des-coor-de-na-das ninguém nas vielas sozinhas o chão granitado em lajes frias jovens esboçam janelas sentados nas escadinhas da Sé o caminho vazio no café dois dedos de conversa o mundo parece parado e o sol tão macio...

Alexandrina Pinto

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CONVERSA

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um ninho

uma árvore

aninha nos seus braços fortes

uns rebentos frágilmente verdes e vela por eles

como se fossem pássaros...

antes da chuva

Antes da chuva

a árvore

vestiu-se de noiva

com saudades

da neve!

Alexandrina Pinto

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CONVERSA

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Desencontros

Um galo desatinado

sem desafio

canta a horas extemporâneas

e os pardalitos pequenos

riem aos saltinhos

dos amores desperfeitos

pela paixão da chuva!

Com sabor a chuva

Pus-me a contar os riscos da chuva a bater nos vidros da janela

até formar uma corrente

descendente…

olhei para lá do verde e do longe e dei comigo na terra da infância qual proust a provar a madalena recupero o sabor desafiante

do pão centeio com travo escuro numa terra de arribas de um belo horrível onde nas escarpas ainda vivem águias e onde no remanso do rio cresciam laranjeiras e as laranjas sabiam a mel e a sossego e fazia frio um frio tão nítido que ainda hoje se instala em mim a cada Inverno que passa

numa terra em que o frio era tão branco que nunca mais vi um branco igual à brancura daquela neve intacta…

e quando o sol voltar a terra vai mudar e chega-me um mar de recordações com cheiro a maresia que entra na barra e percorre a baía –concha

e sobe dos canteiros o perfume

a ervilhas de cheiro coloridas

e eu tenho tranças…

Parou de chover!

Alexandrina Pinto

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CONVERSA

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A minha Mãe

A minha Mãe

tem os dedos enrugados e os ossos dos dedos deformados …

quando olho as suas mãos com os dedos enrugados e tortos lembro os momentos em que ainda sem eu saber, ela as gastava se gastava nas hortas nas regas à volta das batatas das favas lembro as manhãs as tardes geladas nos tanques das “nossas” casas onde lavava a roupa na água fria cada vez mais fria e as lareiras e as simples máquinas a petróleo e os fogões e os tachos e as panelas num virote a toda a hora e a máquina de costura singer e uma bainha por coser e a solidão quotidiana e a dureza das horas a correr…

resgato dessa longínqua melancolia e rudeza a presença do mar num desatino de água e de praia e sol as garridas ervilhas-de-cheiro e corolas azuis sobre o muro a lareira acesa, a neve a cair até toldar o entendimento as laranjas, as frieiras, o pó de Maio, a carqueja, as procissões, as flores atapetando o chão da rua, os quintais, o comboio, as viagens de cestos e malas, a casa dos avós num mundo de completo desprendimento, o Douro lá em baixo, o miradouro das Gravotas, as nêsperas, um pássaro ferido, os sonhos…

A minha Mãe

tem os dedos enrugados e os ossos dos dedos deformados: foi assim que, ao lado do meu pai, Ela escreveu, mal sabendo escrever, a vida dela e a nossa …

Alexandrina Pinto

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CONVERSA

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Oração

Nas serranias

verde

tudo verde

e o coração

feito de amarelo-flor-de-giesta; no vale

verde

tudo verde

salpicado

de vermelho-cereja;

lugares

onde a alma

se ergue

em oração...

Maio Um som ... como grãos de milho a cair sobre o lajedo da eira!

Olhei:

pérolas brancas de granizo

saltitam sobre a calçada!

Em volta, explode

uma girândola de cores

em rosmaninho e alfazema,

numa embriaguez de água

e, planando no céu

rodando sobre a terra

voa um peneireiro

enfeitiçado!

Alexandrina Pinto

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CONVERSA

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Um pássaro

Um pássaro

camuflado

sorridente

quieto

entre a primavera...

...

uma nuvem cresce

negra no céu aterrado

por trovoada estridente

sobre o telhado...

...

em orgasmo diluviano

rebenta a escuridão

em chuva e granizo

descendo a rua

em cachão...

...

o pássaro pressentiu o perigo

e sem aviso

procurou abrigo.

Não sei onde.

Breve apontamento de viagem

... e à noite

uma surpresa...

nos Mercat de les Flors

subiu à cena

Maria la Portuguesa...

sonhos tão rápidos: aconteceram?...

Alexandrina Pinto

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CONVERSA

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Tarde

Está uma tarde de pássaros,

de sol morno,

de bola em jogo,

de estátuas de pedra...

Está uma tarde de alfazema,

de papoilas encarnadas,

de margaridas perdidas,

de rosas mimosas...

Está uma tarde de flores,

de tílias e sabugueiro,

de água do ribeiro,

- rasto branco de avião brinca no céu...-

- pardais na corda bamba dos fios aéreos ...

Ah!... Distraí-me!...

Ficou tarde!...

Alexandrina Pinto

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CONVERSA

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A chamar o verão

a chuvinha chegou de novo cheia de surpresa a joaninha vermelha às pintas pretas abrigou-se no caule de um trevo de quatro folhas escondido com sorte no meio das florzinhas silvestres enquanto as gotas caíam em volta numa festa quase estival...

Alexandrina Pinto

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CONVERSA

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Verão

um pardal

no canto do muro

um pardal

no fio do telefone

um pardal

espaneja as asitas

para se manter no ar

baixinho

um pardal

esconde-se

num buraco escuro

da parede abandonada

onde tem o ninho

papoilas

espalhadas

no meio do feno

papoilas

agarradas

às pedras

inclinadas

papoilas

à beira do caminho

Alexandrina Pinto

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CONVERSA

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Languidez

o corpo possuído de um torpor

a cabeça cheia de fantasias:

três meninas

dormindo a sesta

à sombra dos canaviais

o silêncio silenciado

rumorejam as folhas

longas nos milheirais

em sussurro segredado

a música das rãs e das relas

ao longe nas quelhas

sobem os pés de feijão

pelos caules do milho

cantarolando pelas levadas

chegam as águas apressadas

às plantas sequiosas

veio o avô à frente

enxada na mão

compondo os torrões

abrindo ou fechando o caminho

aproximam-se os passos

os socos de madeira calando na terra ecoando na pedra

soluçam as folhas dos canaviais cheira a calor e a malvasia

as três meninas acordam da sesta chega a voz da avó

em requebros musicais

a chamar por elas

Alexandrina Pinto

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CONVERSA

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e tudo acorda

- as folhas do milho,

as canas a baloiçar,

as águas ligeiras,

as uvas, os figos,

o avô segue numa canseira,

a avó à espera,

as meninas escondidas

em grandes risadas

caladas -

tudo acorda numa festa

de Verão!...

ah quem dera

não fosse ilusão!

.......

o corpo possuído de um torpor

a cabeça cheia de fantasias:

por estes dias

andam três meninas

a rir entre os canaviais

e os avós

a vigiar!

Calor

A sombra abrasada pelo calor escorrendo das pedras ao sol correu e colou-se às paredes de granito da Catedral...

Alexandrina Pinto

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CONVERSA

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Nada

A noite abraça o silêncio quedo fecho os olhos - não sei nada!

nem palavra, nem medo,

nem sonho, nem segredo...

sem saber se durmo ou desperto

canta um galo doidivanas

na madrugada tão perto

de algum sítio secreto...

caminho sem sair do lugar

a uma luz azul sem túnel...

Ruas estreitas

Nas ruas estreitas

As palavras caem das janelas à rua!

Muitas partem-se em cacos.

Ideias dispersas

Nas ruas estreitas

As palavras caem das janelas à rua!

Muitas partem-se em cacos.

Outras, ficam no parapeito

poisadas

de peito feito

a ver quem passa!

Outras ainda

leva-as o vento

com o pensamento!...

E há aquelas

perdidas de loucas

que soam desfeitas

de boca em boca;

ou então, na tarde calma,

de tão perfeitas

chegam à tua alma,

enrolam-se em ti

e ficam até de madrugada!...

Com a colaboração um tudo-nada involuntária, mas querida, da Carminda, Bell e Papoila!!!... amigas da blogosfera) Alexandrina Pinto

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CONVERSA

virtual

Praias e praias

S. Martinho do Porto

vem lá de longe da infância

de começar a conhecer,

da noção de existir e ser,

vem de uma distância

até à Escola de laçarote,

de jogar como um rapazote,

de viver junto à desenhada

Concha inconfundível,

de nos escapulirmos a correr

para nos espantarmos

com a recém-chegada TV,

dos banhos no mar no Verão,

da praia a toda a hora,

Alexandrina Pinto

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CONVERSA

virtual

do mar a entrar pela casa fora

no surpreso Inverno terrível,

os búzios, o cheiro a maresia,

o nascimento de uma irmã,

a praia vazia pela manhã,

a Mãe, tão jovem e linda,

um cágado no jardim, o perfume

das ervilhas de cheiro ainda,

as corda-de-viola ou campainhas a saltar por todos os muros,

as mulheres de negro

noite dentro à espera

dos pescadores, homens,

filhos e irmãos, amigos,

em presságios cruéis e duros,

como estátuas doloridas,

Alexandrina Pinto

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CONVERSA

virtual

a irmã cortou-se num pé

não pode andar,

está sentada, sossegada,

numa cadeira

e eu, à sua beira,

leio a história do José

do Egipto de fio a pavio,

o mar a marulhar,

em música de fundo.

Alexandrina Pinto

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CONVERSA

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Tarde de Verão

Num voo raso sobre os telhados até à Sé corre uma aragem calmante de verão.

Nas vielas estreitas onde quase se tocam as janelas bate o silêncio num jogo de sombras e sol.

À porta de uma casa crescem mal umas flores tristes dentro de um mal-humorado vaso de barro fingido.

Dias

O varredor - bom dia!

anda a varrer a monotonia

junto às paredes!

Uma mulher à porta de casa

procura companhia

esfarelando miolo de pão:

as pombas correm em voo

aos círculos, pousam no chão, chia uma dobradiça no primeiro andar, e, sem se dar por ela,

fica sozinho um vaso de flores à janela!

Alexandrina Pinto

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CONVERSA

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Só mar

As gaivotas nasciam com o sol

- e durante todo o dia era o mar!

Punha-se o sol e recolhiam as gaivotas deixando um perfume de silêncio

- e durante toda a noite era o mar!

Onda

Marcas de passos impressos na areia, vem uma onda devagarinho e faz umas cócegas nas marcas de passos impressos na areia, chega a sétima onda e apaga tudo!

Alexandrina Pinto

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CONVERSA

virtual

Era o mar

Ao pôr-do-sol, ficávamos suspensos das cores do céu e do mar;

- nada nem ninguém entre nós e o céu ou o mar!-

mais tarde, só o mar percebia o imenso silêncio desencadeado pela noite fora-dentro...

já as manhãs mansinhas entre neblinas transparentes vinham fustigadas de ventos persistentes até desaparecerem e os raios do sol bem quentes incendiavam corpos e adormeciam princesas; pelos areais sem fim, os minúsculos grãos de luzes acesas deixam-nos sem fôlego de tão brilhantes e intensos; magicamente, escapam-se por entre a areia espumas brancas, leves e fofas e as ondas enredam-se umas nas outras e desafiam-se em corridas e as águas límpidas e frescas são pérolas a cantar a beleza; fechamos os olhos no silêncio com mar em fundo e cheiro a maresia e guardamos este verão em nós como um sonho ou fantasia...

Passeios

Espelho de água azul

na albufeira;

a descoberto,

as pedras-limite

de antigas leiras

desafogadas;

amieiros

delineando as margens

do ribeiro;

junto ao milho,

dálias;

roupa estendida

à beira do caminho;

rosas vermelhas

trepando o granito!

Relógios

Está ali um relógio

a matraquear enlouquecido

tic-tac-tic-tac

um tempo irreversível

numa cadência sistemática,

matemática,

que entorpece,

só me apetece

parti-lo contra a parede

e ver o tempo

avançar comedido

e beijar cada segundo...

Alexandrina Pinto

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CONVERSA

virtual

Reflexos

Vai ou vem

o rio pachorrento

tão lento

que não sei se anda

se está quieto;

a ponte

é uma varanda

e as margens

miragens

deste tempo

ou reflexos

de outro tempo,

registos perplexos

em vigília permanente

acima da corrente!

Alexandrina Pinto

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CONVERSA

virtual

Vazio

Esta noite

sentei a minha alma

no cantinho do sofá

e para ali está

numa amorfa calma,

amarfanhou-se

toda a tarde em papéis

esvaziou-se de mim,

não tarda nada adormece,

arrefece

e eu adormeço

junto dela,

afasto-lhe os pesadelos

com as mãos, devagar,

aqueço

o seu alento,

lamento

este vazio...

Manhã

manhã de sol doce

com sabor a mosto

espraia-se no ar

o perfume das uvas

Alexandrina Pinto

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CONVERSA

virtual

Nuvens

No céu encoberto

decerto

estupefacto

entre a luz do estio

e a sombra do outono,

o trovão num impacto

de eléctrico brilho

abre as entranhas

das nuvens estranhas

em chuva cantada

sobre a terra ansiosa

e o cheiro sempre novo

nunca esquecido

sobe do chão molhado

até à janela entreaberta...

o avô espreita e o milho dourado volta a estender-se na eira:

foi só uma nuvem passageira!...

Manhã de Outono

Que linda manhã:

a luz suave

o céu acetinado

o cheiro a maçã

a voar, uma ave,

pássaro endiabrado,

na árvore,

as folhinhas

ainda verdes

a dançar, a dançar,

atrás e adiante

muito devagar!...

Alexandrina Pinto

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CONVERSA

virtual

A noite chegou mais cedo hoje No limiar da noite

adormeceu a tarde

na linha do horizonte

rosa-pálido ...

A noite chegou

mais cedo hoje

- ou foi ontem?

terá ocorrido

no ano passado?

não sei já,

o tempo corre

tão rápido

que o meu relógio

transtornado

não lhe segue o passo!

A noite chegou

mais cedo hoje

- ou foi a manhã?

não sei já,

ainda esta tarde

era criança

e brincava na praia

com a minha irmã

e esta noite

foge o sol,

secam as folhas

amarelecem as vidas,

perde-se a seiva...

Alexandrina Pinto

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CONVERSA

virtual

A noite chega

cada vez mais cedo

num céu adamascado

de azul e rosa...

Espreitam os lobos

à espera da hora,

vão os javalis

beber a desoras,

estalam as folhas

sem energia,

os ouriços

engrossam

nos ramos

dos velhíssimos

castanheiros,

espinhosos

imitando sem jeito

certas rosas...

A noite chega

cada vez mais cedo

à hora do repouso

dos pássaros,

bate o coração

célere e louco

ao cruzar os caminhos

no lugar das alminhas:

um ramo de cravos frescos

enrolados na cruz...

e no cruzamento

pelo lusco-fusco

as almas penadas

desencaminhadas

procuram as rezas

no limiar da noite

em que a tarde

adormece

na linha do horizonte

rosa-pálido!

Alexandrina Pinto

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CONVERSA

virtual

Quando falta o chão

Eras o esteio:

a morte sobreveio

dura

numa loucura

de outros

na estrada

molhada,

na ponte,

a alegria

estagnou.

Tomou

o teu lugar

o teu coração

a serenidade

do teu irmão.

Hoje faltou

o nosso chão!

Palavras soltas à volta de um castanheiro

vendaval de desesperança

bonança

limpidez do ser

céu azul

nas entrelinhas tresler

linha perpétua

desesperada a régua

no horizonte longínquo

rosa oblíquo

sem chegada sem partida

despida

viagem adiada

palavra nada inspirada

desfeita em acrónimo

de despoeta anónimo

no castanheiro

o primício

ouriço

inteiro

inflecte

reflecte

cai ou não

introspecção…

Alexandrina Pinto

43

CONVERSA

virtual

Eu decido

pois quero ser eu

a escolher a hora

da partida,

quero uma manhã serena

com vontade imensa

um desejo intenso

de fazer gazeta,

ir até ao parque

declamar por inteiro

a Nau Catrineta:

o afoito marinheiro

sobe ao tope real

num banco de pedra,

afirma-se bem:

vê terras de Espanha

e areias de Portugal,

imagina-se uma Infanta

com três filhas à espera

debaixo de plátanos

de um fingido laranjal,

e, Garrinchas, pelo Natal, inventa uma consoada

pueril e abençoada,

no cimo da colina nevada,

junto à ermida solitária,

não se abre a montanha

à voz de “abre-te, Sésamo”,

mas a imaginação pode tudo

e os montes, num murmúrio,

desvendam lendas e fábulas,

e, nos vinhedos, uma mãe

faz a trança à filha,

muitas lembranças boas

( lembranças más,

quem as quer agitar

neste momento?)

dispersas pelas paredes

que atravessam as portas

e partem soltas, livres, à toa

pelas encostas perto da torre

num castelo de antigamente,

nem Ítaca, nem Tróia,

nem descida ao Inferno,

nem impiedoso Inverno,

apenas outro caminho,

apenas outras viagens,

novas encruzilhadas…

Alexandrina Pinto

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CONVERSA

virtual

Intermezzo

( a Biblioteca

mudou de lugar

alguém descobriu

que os livros

da última estante

- principalmente!-

paravam um instante

de contar histórias

e dizer palavras

para namorar

as tílias paradas

ao fundo do portão…

agora as últimas folhas

rumorejam cem cessar

segredos de amores

e saudades..)

Eu decido parte II

Quero escolher a hora

de partir numa manhã

com cheiro a tílias,

não quero trazer pó

nas solas dos sapatos,

bato com força os pés,

a desfazer o triste nó

que trazia em mim

nesta cena de fim,

levanto a cabeça,

como sempre,

insubmissa, decidida

para seguir a vida

sem olhar

nem uma vez

para trás…

… as tílias seguirão

junto ao portão

como é habitual,

do lado de fora…

… como eu,

e, contudo…

… apesar de tudo,

sempre vivas

e verticais …

Alexandrina Pinto

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CONVERSA

virtual

Talvez a neve

Um bando de pardais

perfiladitos no muro...

veio o vento frio e duro

e todos partiram sem mais

endiabrados em gritaria absurda...

as pombas desorientadas

procuram migalhas espalhadas

às voltas no chão cinzento

de pedra, o céu pardacento

anunciando neve ...

talvez...

Neve A noite ficou queda, muito quieta , em espera, sonolenta e alerta,

para lá das janelas fechadas,

as ruas secas, geladas,

um instante, uma brisa

da serra, uma estrela breve,

devagarinho desliza

sobre a terra, cai a neve

sem talvez!...

Alexandrina Pinto

46

CONVERSA

virtual

Não sei se é noite se é tarde se é escuridão simplesmente A lareira brilha

esconde no fogo

a tarde escura

fora de portas

e a triste chuva

cai-sem-cair nem

sabe se é chuva

a televisão em ponto

morto em música

repetida e lenta

a roupa sobre a tábua

lisa e pachorrenta

o ferro sobre a roupa

passa-que-passa

pára e repassa

a cabeça na lua

jornais caídos no sofá

revistas fechadas

num canto esquecido

livros lidos nunca-lidos

talvez-lidos repetidos

um-dia-hão-de ser-lidos

lidos repetidamente

nos mesmos capítulos

as fotos nas molduras

de sempre-para-sempre

o quadro das mulheres

com cores imaginárias

os bibelôs barrigudos

em estantes de granito

a lareira o único grito

de calor de luz e vida

a mão agarra o ferro

sobre a roupa sobre

a tábua tão quieta

a lareira quente

e desperta...

Alexandrina Pinto

47

CONVERSA

virtual

Percursos

Dois anos são uma vida

Está toda a gente mais crescida!

Como é que isso aconteceu?

Ninguém deu conta de nada!

No fim desta encruzilhada

Voltamos os olhos atrás

e que vemos? Estou pasmada!

Tanto caminho se andou

tanto que se aprendeu

tantas palavras trocadas

tantas palavras escritas

tantas palavras não ditas

tantos risos e suspiros

E agora chega mansinha

a saudade a nostalgia

a vontade de ficar

Alexandrina Pinto

48

CONVERSA

virtual

o desejo de seguir

sem nunca excluir

cada passo cada dia

cada erro cada acerto

ficamos todos mais perto

mesmo que seja em silêncio

sereno de cumplicidade..

mesmo que fique cá dentro

a aventura que não se vê...

Palavras então para quê,

se dizemos tudo sem dizer nada?

Alexandrina Pinto

49

CONVERSA

virtual

Cai neve

Gota de chuva

chuva tão fria

que até dói...

o vento assobia

e remói

dentro da chaminé

uma saída...

uma folha esquecida

cai do alto ramo

da árvore

como ave ferida

numa asa oblíqua

a queda ...

..............................

na magia da noite

a neve amacia

a manhã branca!

Alexandrina Pinto

50

CONVERSA

virtual

Natal ???

Coloco a minha aura azul e saio para a rua num dia bonito de sol; a geada com traços de neve persiste nos cantos sombrios; a sombra esconde o ar agreste do vento da serra; três mulheres de negros vestidos gralham no jardim, sentadas na beira do banco; um par de namorados aos longos abraços, o rapaz grava em risos a vistosa figura da rapariga; a luz natural acende os brilhos dos enfeites natalícios, vermelhos e prata; há gente que vai e vem sem destino; o escultor molda nas suas imagens o alento da pedra aos pés da Catedral; entretanto, some o dia em neblina de encantamento, acima da marca visível do horizonte, uma cor azul-turquesa imaculada...

De dois mil e oito

Guarda

2009

Alexandrina Pinto

51

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