Coração Satânico por William Hjortsberg - Versão HTML

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WILLIAM HJORTSBERG

Tradução de SÉRGIO HENRIQUE POMPEU

EDITORA BEST SELLER

Título original: Falling Angel

Copyright © Wil iam Hjortsberg Publicado sob licença de Harcourt

Brace Jovanovich, Inc./

Direitos exclusivos da edição em língua portuguesa adquiridos por EDITORA

NOVA CULTURAL LTDA., que se reserva a propriedade desta tradução.

EDITORA. BEST SELLER uma empresa da Editora Nova Cultural Ltda.

Av. Brig. Faria Lima, 2000 — CEP 01452 — Caixa Postal 9442 São Paulo, SP

ISBN 85-85091-66-5

10 9 8 7 6 5 4 3 2 1

Para Bruce, Jada, El en e Nick,

"meninos e meninas juntos... nas calçadas de Nova York".

E para Bob,

que viajou na luz fantástica.

– Ah, quão terrível é a sabedoria quando não traz benefício algum ao homem que

é sábio!

SÓFOCLES

Édipo Rei

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1

ERA UMA SEXTA-FEIRA 13, e um palmo de neve derretida, resquício do dia anterior,

ainda cobria as ruas. Do outro lado da Sétima Avenida as manchetes se sucediam no

luminoso ao redor da fachada de terracota da Torre Times: HAVAÍ É ACEITO COMO 50?

ESTADO DA UNIÃO: CONGRESSO APROVA LEI POR 232 VOTOS A 89; SANÇÃO DA LEI POR

EISENHOWER ASSEGURADA. Havaí, doce terra de abacaxis, sol, surfe e saias requebrando

ao sabor da brisa tropical, embaladas pelo som das guitarras típicas, os ukuleles.

Girei a cadeira na direção da Times Square. No Claridge, o outdoor de Camel

despejava grossos anéis de fumaça sobre o tráfego agitado. Dias antes, graças a

pintores suspensos por andaimes, o garboso cavalheiro do anúncio, a boca petrificada

num "O" de permanente surpresa, trocara seu sobretudo e chapéu de brim escuros por

uma roupa mais leve, listrada, e chapéu-panamá; apesar da falta de poesia, o fumante

era o mensageiro da primavera na Broadway.

Meu prédio fora construído antes da virada do século: quatro andares de tijolos,

fuligem e excremento de pombos, o telhado tomado por cartazes anunciando vôos para

Miami e várias marcas de cerveja. Havia uma charutaria na esquina, um salão de

pôquer, duas barracas de cachorro-quente e, no meio do quarteirão, o Teatro Rialto,

cuja entrada espremia-se entre a de uma livraria pornográfica e a de uma loja de

trucagens, com suas vitrines cheias de almofadas, daquelas que fazem barulho quando

alguém senta nelas, e imitações de cocô de cachorro.

Meu escritório ficava no segundo andar, ao lado da Eletrólise Olga, Importadora

Teardrop e do Escritório de Patentes Ira Kipnis. Letras douradas de vinte centímetros

garantiam minha supremacia sobre a vizinhança: Agência de Detetives Crossroads,

nome que comprei, junto com o negócio, de Ernie Cavalero, de quem me tornara

assistente ainda no tempo da guerra, recém-chegado à cidade.

Eu estava de saída para um café quando o telefone tocou:

– Senhor Harry Angel? — perguntou a voz distante de uma secretária. — Herman

Winesap, da Mclntosh, Winesap and Spy chamando. — Balbuciei qualquer coisa e ela

completou a ligação.

A voz suave de Herman Winesap entrou na linha, anunciando que eu falava a um

procurador. Isso significava que seus honorários eram altos; alguém que se intitula

advogado sempre custa muito mais barato. Winesap se exprimia tão bem que o deixei

comandar a conversa:

– A razão pela qual liguei, senhor Angel, foi certificar- me da disponibilidade de

seus serviços no momento.

– Algo relacionado com sua firma?

– Não. Falo em nome de um de meus clientes. O senhor está disponível?

– Depende do trabalho. Preciso de alguns detalhes.

– Meu cliente prefere discuti-los pessoalmente. Ele sugeriu que almoçassem

juntos hoje. No Top of The Six, à uma em ponto.

– Talvez você possa me dizer o nome de seu cliente, ou devo procurar por

alguém usando um cravo vermelho?

– Tem um lápis à mão? Vou soletrá-lo para você.

Escrevi Louis CYPHRE no bloco de anotações e perguntei como se pronunciava;

Herman Winesap exibiu sua classe, acentuando o erre como um professor da Berlitz

faria. Perguntei então se o cliente era estrangeiro:

– O senhor Cyphre possui passaporte francês, embora eu não esteja certo

quanto a sua verdadeira nacionalidade. Quaisquer perguntas que queira fazer, ele

ficará muito satisfeito em respondê-las durante o almoço. Posso dizer a ele que o

espere?

– Estarei lá, à uma em ponto.

O procurador Herman Winesap ainda fez alguns gentis comentários finais antes

que eu pudesse acender um de meus charutos preferidos em comemoração.

2

O NÚMERO 666 da Quinta Avenida era um infeliz casamento de estilo internacional

com a moderna tecnologia americana. Construído dois anos antes entre as Ruas 52 e

53, seus trezentos mil metros quadrados de escritórios cercados de painéis de alumínio

pareciam um ralador de queijo de quarenta andares. Nem mesmo a queda-d'água no

lobby conseguia ajudar muito.

Tomei o elevador expresso até o último andar, peguei a senha com a moça da

chapelaria, e apreciava a vista quando chegou o maitre, lançando-me,

desdenhosamente, um rápido olhar de avaliação, como um fiscal de abastecimento

examinando uma fatia de bife. Nem mesmo o nome de Cyphre no livro de reservas fez

com que ele descesse de seu pedestal. Segui-o, através do murmurar polido de

executivos, até uma pequena mesa junto à janela.

Sentado ali, com um terno azul de listras finas feito sob medida, botão de rosa

vermelho na lapela, estava um homem aparentando entre quarenta e cinco e sessenta

anos. Apesar dos cabelos negros e cheios, penteados para trás, o bem aparado

cavanhaque e o bigode pontudo eram brancos como ar- minho. A pele tinha um tom

bronzeado e os olhos eram de um azul etéreo, distante. O brilho de uma pequena

estrela de ouro invertida, presa ao nó de sua gravata de seda castanha, dava o toque

final a sua elegância:

Sou Harry Angel — disse, enquanto o maitre afastava a cadeira para que eu me

sentasse. — Um advogado chamado Winesap disse que você queria falar comigo.

Aprecio homens que vão direto ao ponto! Aceita um drinque?

Pedi um manhattan duplo, sem hesitar; Cyphre, batendo no copo com o dedo,

unhas cuidadosamente aparadas, pediu que repetissem a dose. Era fácil imaginar

aquelas mãos bem tratadas segurando um chicote. Nero deve ter tido mãos como

aquelas; Jack, o Estripador, também. Lânguidos, embora letais, seus dedos eram

alongados, cruéis, perfeitos instrumentos do mal.

Quando o garçom nos deixou, Cyphre inclinou-se para frente, fitando-me com um

sorriso cúmplice:

– Detesto ater-me a trivialidades, mas gostaria de ver alguma identificação antes

de começarmos.

– Aqui está — disse, enquanto entregava a carteira, mostrando a ele minha

licença e o emblema de inspetor honorário. — Aí estão também minha autorização para

porte de arma e carteira de motorista.

Ele correu os dedos pelos suportes de celulóide e, ao devolver-me a carteira,

observou, com um sorriso ainda mais branco nos lábios:

– Prefiro acreditar na palavra de um homem, mas meus consultores legais

insistiram nessa formalidade.

– Nunca é demais tomar alguns cuidados.

– Achava que fosse do tipo que gosta de se arriscar, senhor Angel.

– Só quando há necessidade. — Eu me esforçava por identificar algum sotaque,

mas a voz de Cyphre era lisa e clara como uma moeda a tilintar desde o dia em que

fora cunhada. — Acho que deveríamos começar a tratar de negócios. Não sou muito

bom para conversa miúda.

– Outra qualidade admirável! — exclamou, retirando do bolso de dentro do paletó

uma cigarreira de couro com motivos dourados, da qual tirou um panatela esverdeado,

longo e fino. — Aceita um? — Ante a minha recusa, Cyphre cortou a ponta do charuto

com um canivete prateado e, enquanto aquecia o panatela com o isqueiro, perguntou:

– Por acaso você se lembra do nome Johnny Favorite?

– Ele era crooner de uma orquestra de swing antes da guerra, não?

– Exato. Um sucesso da noite para o dia, como gostam de dizer os jornais.

Cantou com a orquestra de Spider Simp- son em mil novecentos e quarenta.

Pessoalmente, nunca me interessei por swing nem consigo lembrar-me dos títulos de

seus sucessos; de qualquer modo foram vários. Ele quase causou uma tragédia no

Teatro Paramount dois anos antes de alguém sequer ter ouvido falar em Sinatra. Você

deveria se lembrar, o Paramount fica do seu lado da cidade.

– Johnny Favorite não é do meu tempo. Em mil novecentos e quarenta eu tinha

acabado de sair da faculdade, era um tira inexperiente em Madison, Wisconsin.

– Meio-Oeste? Imaginei que você fosse nova-iorquino.

– Espécime meio raro, esse, especialmente acima da Rua Houston.

– Tem razão — concordou Cyphre, suas feições diluídas na fumaça azul do

panatela, cuja qualidade era evidenciada pelo odor, fazendo com que eu me

arrependesse de tê-lo recusado. — Esta é uma cidade de forasteiros. Eu mesmo sou

um deles.

– De onde?

– Digamos que eu seja um viajante. — Desconversou

Cyphre enquanto afastava a fumaça com a mão, gesto que fez irradiar o brilho de

uma esmeralda que até mesmo o papa gostaria de beijar.

– Para mim é o suficiente. Por que perguntou sobre Johnny Favorite?

Tão imperceptível quanto uma nuvem passageira, o garçom colocou nossos

drinques sobre a mesa.

– Uma voz agradável, pensando bem — disse Cyphre, erguendo o copo à altura

do olho, num brinde silencioso. — Como já disse, nunca tive muito estômago para

swing; muito alto e agitado para o meu gosto. Mas quando Johnny queria, soava doce

como um carola. Eu o tomei sob minha proteção no início da carreira: um jovem

impetuoso, franzino, nascido no Bronx, o pai e a mãe mortos. Seu nome verdadeiro era

Jonathan Liebling... mudado por razões profissionais. Favorite ficava muito melhor nos

letreiros. Sabe o que aconteceu a ele?

– Não faço a menor idéia.

– Foi chamado em janeiro de quarenta e três. Recrutado pela Seção de Serviços

Especiais de Entretenimento, devido a seus talentos profissionais, e mandado à Tunísia

em março. Não tenho certeza dos detalhes exatos. Uma tarde, durante uma

performance, houve um bombardeio da Luftwaffe; o palco onde a banda se

apresentava foi atingido, e boa parte da tropa morreu. Johnny, por alguma obra do

destino, escapou com ferimentos no rosto e na cabeça. Escapou não é a palavra certa.

Não tenho conhecimentos médicos, por isso não posso ser preciso quanto a sua

condição. Acho que foi algum tipo de trauma de guerra.

Disse a ele que, por experiência própria, sabia alguma coisa sobre trauma de

guerra:

– Verdade? Esteve na guerra, senhor Angel?

– Por alguns meses, logo no início. Tive sorte.

– Bem, esse não foi o caso de Johnny Favorite. Foi mandado de volta num navio,

um verdadeiro vegetal.

– Uma pena! Mas onde eu entro nisso tudo? O que exatamente você quer de

mim?

Cyphre apagou o charuto no cinzeiro, com o auxílio da piteira de marfim. Já

amarelada pelo uso, esta tinha a forma de uma serpente enrodilhada, cuja cabeça era

a de um galo com o bico aberto:

– Seja paciente comigo, senhor Angel. Estou chegando aonde quer, ainda que

sinuosamente. Ajudei Johnny no começo de sua carreira. Nunca fui seu agente, mas

pude usar minha influência a seu favor. Em reconhecimento pela minha assistência, que

foi considerável, nós tínhamos um contrato... certas cláusulas estavam envolvidas,

cláusulas que deviam ser cumpridas por ocasião de sua morte. Peço que me desculpe

por não poder ser mais explícito, mas os termos de nosso contrato especificavam que

os detalhes permaneceriam confidenciais. De qualquer modo, Johnny estava

desenganado. Foi enviado a um hospital de veteranos em New Hampshire e tudo

indicava que fosse passar o resto de sua vida numa enfermaria. Mas ele tinha amigos e

dinheiro, uma quantidade considerável de dinheiro. Embora fosse um estróina por

natureza, seus ganhos durante os dois anos anteriores ao recrutamento foram

consideráveis, mais do que um homem poderia desperdiçar. Parte desse dinheiro

estava investida, e o empresário de Johnny tinha procuração para movimentá-lo.

– A coisa começa a ficar complicada.

– De fato, senhor Angel — concordou Cyphre, com ar distante, batendo a piteira

de marfim contra a borda do copo vazio, fazendo o cristal soar como sinos ao longe. —

Amigos de Johnny o transferiram para um hospital privado, ao norte do Estado. Foi

aplicado um tipo de tratamento radical. Típico abracadabra psiquiátrico, decerto. O

resultado final foi o mesmo, Johnny continuou um zumbi. A única diferença foi que as

despesas saíram de seu bolso, ao invés do governo pagá-las.

– Você sabe os nomes desses amigos?

– Não. Espero que não me tome por mercenário por dizer que meu interesse por

Jonathan Liebling se refere apenas a nosso arranjo contratual. Nunca mais o vi desde

que foi para a guerra. Tudo o que interessava era saber se ele estava vivo ou morto.

Umg ou duas vezes por ano meus procuradores entram em contato com o hospital e

obtêm dele um atestado juramentado de que Johnny ainda está vivo. Esta situação

permaneceu inalterada até o último final de semana.

– O que aconteceu então?

– Algo bastante curioso. O hospital fica nos subúrbios de Poughkeepsie. Eu

estava na vizinhança, a negócios, e, de maneira bastante casual, nada premeditada,

decidi fazer uma visita a meu velho conhecido. Talvez eu quisesse ver o que dezesseis

anos numa cama fazem a um homem. Fui informado no hospital de que as visitas eram

permitidas apenas em dias de semana na parte da tarde. Insisti, e o doutor de plantão

apareceu. Informou que Johnny estava sendo submetido a uma terapia especial e tião

poderia ser perturbado até a segunda-feira seguinte.

– Parece que alguém está tentando passar-lhe a perna.

– Exato. Havia algo na maneira de agir daquele sujeito que não me agradou. —

Cyphre guardou a piteira no bolso do colete e cruzou as mãos sobre a mesa.—

Permaneci em Poughkeepsie até segunda-feira e voltei ao hospital, tendo o cuidado de

chegar durante o horário de visita. Não encontrei o doutor, mas na recepção, quando

dei o nome de Johnny, a garota perguntou se eu era algum parente. Respondi que não,

naturalmente. Ela então disse que as visitas a pacientes efam restritas a membros da

família.

– Alguma menção a isso antes?

– Nem uma palavra. Fiquei bastante indignado e acho que

fiz uma cena, o que foi um erro. A recepcionista ameaçou chamar a polícia caso

eu não saísse imediatamente.

– O que você fez então?

– Fui embora. O que mais poderia ter feito? É um hospital privado, eu não queria

confusão. É por isso que estou contratando seus serviços.

– Quer que eu vá lá e cheque isso para você?

– Exatamente. — Cyphre, num gesto largo, virou as palmas das mãos para cima,

como alguém demonstrando não ter nada a esconder. — Primeiro preciso saber se

Johnny Favorite ainda está vivo, isto é essencial. Se estiver, gostaria de saber onde.

Peguei uma caneta e um pequeno caderno.de anotações de couro no bolso de

meu colete:

– Parece bastante simples. Qual é o nome e o endereço do hospiral?

– É Clínica Emma Dodd Harvest Memorial. Fica a leste da cidade, na Rodovia

Pleasant Val ey.

Tomei nota e perguntei a Cyphre o nome do doutor que tentara levá-lo na

conversa:

– Fowler. Acho que seu primeiro nome é Albert ou Alfred.

– Favorite está registrado com o nome verdadeiro?

– Sim. Jonathan Liebling.

– Acho que isso basta. — Guardei o caderno e levantei- me. — Como posso

entrar em contato com você?

– Através do meu procurador, é a melhor maneira. — Cyphre alisou o bigode com

a ponta do dedo indicador. — Mas você já vai? Pensei que iríamos almoçar juntos.

– Odeio perder uma refeição grátis, mas, se sair imediatamente, posso chegar a

Poughkeepsie antes que o hospital feche.

– Hospitais não trabalham em horário comercial.

– Mas o pessoal do escritório, sim. Qualquer disfarce que eu use dependerá

disso. Além do que, vai custar-lhe dinheiro se eu esperar até segunda-feira. Cobro

cinqüenta dólares por dia, mais despesas.

– Parece razoável por um trabalho bem-feito.

– O trabalho será feito. Satisfação garantida. Ligo para Winesap assim que eu

souber de alguma coisa.

Perfeito. Foi um prazer conhecê-lo, senhor Angel.

– O olhar de desdém do maitre ainda me seguiu quando, na saída, apanhei minha

pasta preta e o sobretudo.

3

MEU CHEVROLET 53 estava estacionado na garagem do Hipódromo, Rua 44, perto

da Sexta Avenida. Do legendário teatro restara apenas o nome: Pavlova chegou a

dançar nele; John Philip Sousa era maestro da banda da casa. Agora o local exalava

fumaça de automóvel, e a única música existente vinha de um rádio portátil no

escritório, entre uma e outra intervenção do locutor porto-riquenho, matraqueando seu

script em espanhol.

Por volta de duas da tarde eu já seguia para o norte pela Rodovia Oeste. O

êxodo de final de semana ainda não havia começado e o tráfego fluía bem na Estrada

Saw Mil River.

Parei em Yorkers e comprei uma garrafa de bourbon. Quando passei por

Peekskil , ela já estava pela metade, e então resolvi guardá-la no porta-luvas para a

viagem de volta. Dirigi em silêncio através dos campos cobertos de neve que, ao

contrário do tom amarelado e sujo da cidade, aqui era clara e limpa. Era uma bela

tarde, bonita demais para se ligar o rádio e estragá-la com paradas de sucesso

repletas de cantores medíocres.

Atingi os subúrbios de Poughkeepsie um pouco depois das três e não foi difícil

achar a Rodovia Pleasant Val ey. Oito quilômetros após a cidade cheguei a uma

propriedade cercada de muros, com um portão ornamentado, de ferro forjado, cm

forma de arco. No muro ao lado, grandes letras de bronze indicavam: CLÍNICA EMMA

DODD HARVEST MEMORIAL. Entrei por uma alameda de cascalho, um traçado sinuoso de

aproximadamente quinhentos metros através de densas cercas vivas, até deparar-me

com um prédio georgiano, de seis andares, com paredes iguais ao muro, de tijolo à

vista, mais parecendo um dormitório de colégio do que propriamente um hospital.

O interior, porém, era típico ambiente hospitalar, paredes de um verde claro e

chão de linóleo cinza, limpo o bastante para se operar nele. Um balcão de recepção

envidraçado fora construído numa reentrância em uma das paredes; diante dele, havia

um enorme retrato a óleo de uma senhora idosa com cara de buldogue que adivinhei

ser Emma Dodd Harvest, sem precisar olhar para a plaqueta presa à moldura dourada.

Olhando a minha frente, avistei um corredor iluminado, por onde um enfermeiro, mais

parecendo um autômato, empurrava tranqüilamente uma cadeira de rodas vazia.

Sempre odiei hospitais. Passei muito tempo neles, durante a guerra, em

convalescença. Havia algo de deprimente na eficiente esterilidade desses lugares. O

barulho de solas de borracha arranhando o chão de corredores impecáveis. Anônimos

atendentes em uniformes brancos, engomados. Uma rotina tão monótona que a simples

troca de um urinol assume Importância de ritual. Memórias da enfermaria em que ficara

me voltaram com um arrepio de horror. Hospitais, como prisões, são todos iguais por

dentro.

A garota atrás do balcão de recepção tinha aparência simples e jovial; vestia-se

de branco, um pequeno crachá preto revelando tratar-se de R.. Fleece. A abertura na

parede dava para um escritório cercado de fichários:

– Posso servi-lo? — A voz da srta. Fleece era doce como a de um anjo; a luz

fluorescente brilhava nas grossas lentes de seus óculos sem aro.

– Espero que sim. Meu nome é Andrew Conroy; faço trabalho de campo para o

Instituto Nacional de Saúde. — Coloquei minha pasta de couro no balcão e mostrei a

ela uma identificação falsa que trago numa carteira extra, sempre pronta para tais

ocasiões. Havia mudado o cartão frontal do suporte de plástico enquanto descia no

elevador, ainda no Top of the Six.

A srta. Fleece encarou-me com um olhar de suspeita, seus olhos escuros,

aquosos moviam-se por trás das lentes espessas, como peixes num aquário. Podia

apostar que ela não gostara do meu terno amarrotado, nem das manchas de sopa em

minha gravata, mas a impressão favorável causada pela pasta salvou o dia:

– Há alguém em particular que gostaria de ver, sr. Conroy? — perguntou,

esboçando um sorriso tímido.

– Talvez você saiba a resposta. — Deixei a carteira falsa escorregar para dentro

do bolso do colete e inclinei-me sobre o balcão. — O instituto está desenvolvendo uma

pesquisa sobre casos de traumas incuráveis. Meu trabalho é coletar informações sobre

vítimas atualmente internadas em hospitais privados. Acho que você tem um paciente

aqui que corresponde a esta descrição.

– Qual o nome do paciente, por favor?

– Jonathan Liebling. Qualquer informação que você puder" fornecer ficará em

segredo. Na verdade, nenhum nome constará do relatório oficial.

– Um momento, por favor. — A recepcionista de voz angelical recuou para o

interior do escritório e abriu a última gaveta de um dos fichários. Não demorou a achar

o que procurava e voltou trazendo um envelope aberto, passando-o para mim através

de uma abertura no vidro. — Nós já tivemos um paciente com esse nome, mas, como

pode ver, Jonathan Liebling foi transferido para o hospital de veteranos do Exército em

Albany há anos. Esta é sua ficha. Contém todas as informações que possuímos a seu

respeito.

A transferência estava devidamente anotada no formulário, a data marcada

embaixo: 5 de dezembro de 1945- Tirei minha caderneta e fingi tomar nota de alguns

dados:

– Quem era o médico responsável pelo caso, você sabe?

Ela esticou o braço e pegou o envelope, virando-o para ler o nome:

– Era o Dr. Fowler — respondeu, apontando com o dedo o papel.

– Ele ainda trabalha no hospital?

– Sim, claro. Está trabalhando neste exato momento, inclusive. Gostaria de

conversar com ele?

– Se não for muito incômodo...

Ela fez outra tentativa de sorriso:

– Vou chamá-lo e ver se está livre. — Ela se dirigiu para a mesa de controle e

falou baixo num pequeno microfone. Sua voz amplificada ecoou através de um corredor

distante. — Dr. Fowler no balcão de recepção, por favor... dr. Fowler no balcão de

recepção.

– Você estava trabalhando neste final de semana? — perguntei, enquanto

esperava.

– Não, fiquei fora por alguns dias. Minha irmã. se casou.

– Pegou o buquê?

– Não. Não tenho tanta sorte assim.

Dr. Fowler apareceu como que do nada, esquivo como um gato, silencioso em

seus sapatos de solado de borracha. Era um homem alto, bem acima de um metro e

oitenta, e puxava um pouco a perna ao andar, o que o fazia parecer ligeiramente

corcunda. Usava um terno marrom de listras horizontais, amarrotado. O pouco de

cabelo que lhe restava era grisalho.

A srta. Fleece apresentou-me como sendo o sr. Conroy, e eu usei com ele o

mesmo disfarce do Instituto Nacional de Saúde, acrescentado:

– Ficarei muito grato se houver alguma coisa que possa me dizer sobre Jonathan

Liebling.

Dr. Fowler pegou o envelope pardo. Pode ter sido disritmia o que fez seus dedos

tremerem, mas eu tinha minhas dúvidas.

– Foi há tanto tempo. Um caso triste: ele era artista antes da guerra. Não

apresentava evidência física de trauma neurológico, mesmo assim não houve resposta

ao tratamento. Não parecia haver sentido algum em mantê-lo aqui, com as despesas e

tudo o mais, então nós o transferimos para Albany. Era um veterano de guerra e

destinado a viver numa cama pelo resto de seus dias.

– Então é li que ele pode ser encontrado, em Albany?

– Eu diria que sim, se ainda estiver vivo.

– Bem, doutor então não tomarei mais seu tempo. Obrigado!

– Não há de quê. Lamento não ter podido ajudar muito.

– De maneira alguma. O senhor ajudou bastante. — E era verdade. Seus olhos

haviam contado toda a história.

4

DIRIGI DE VOLTA a Poughkeepsie, parando no primeiro bar que encontrei, primeiro

liguei para o hospital em Albany. Demorou um pouco mas eles confirmaram o que eu já

sabia: nunca houve um paciente transferido chamado Jonathan Liebling, nem em l94 5,

nem em qualquer época. Agradeci a informação e, depois de colocar o fone no gancho,

procurei na lista o nome de Fowler. Anotei o endereço e o telefone e liguei ao bom

doutor. Nenhuma resposta. Deixei tocar uma dúzia de vezes antes de desligar.

Tomei um rápido drinque e pedi ao barman instruções sobre como chegar à Rua

South Kittridge, 419- Ele desenhou um mapa tosco num guardanapo, comentando com

estudada indiferença que aquela era a parte chique da cidade.

A observação do barman estava correta: South Kittridge era uma rua agradável,

ladeada de árvores, a poucos quarteirões do campus. A casa do doutor era de

madeira, em estilo gótico vitoriano, com uma pequena torre circular de um lado e uma

série de intrincados ornamentos pendendo sob a meia-água, como laços na gola de

uma velha senhora. Uma ampla varanda com colunas dóricas cercava a casa e o jardim

era completamente separado da vizinhança por altas sebes lilás.

Passei vagarosamente pela casa, fazendo um reconhecimento do terreno, e,

dobrando a esquina, estacionei o Chevy diante de uma igreja de parede de pedra; uma

placa na calçada anunciava o sermão de domingo: A SALVAÇÃO ESTÁ DENTRO DE VOCÊ.

Peguei a pasta e caminhei de volta ao 419 da South Kittridge — apenas mais um

vendedor de apólices de seguro atrás de sua comissão.

Na porta da frente, um vidro oval granulado permitia a visão de um hall escuro, as

paredes forradas de madeira até a metade e degraus acarpetados levando ao andar

superior. Toquei a campainha duas vezes, e nada. Toquei de novo e tentei entrar, mas

a porta estava trancada. A fechadura deveria ter pelo menos quarenta anos, e eu não

tinha nada que servisse para abri-la.

Caminhei ao longo da varanda lateral, tentando cada uma das janelas, sem

sucesso. Nos fundos da casa encontrei a porta de um porão. Estava fechada a

cadeado, mas a madeira à qual o fecho fora parafusado parecia velha e amolecida.

Peguei um pé-de-cabra dentro da mala e forcei o anel do cadeado.

Os degraus estavam escuros e havia teias de aranha por toda parte. Minha

caneta-lanterna impediu-me de quebrar o pescoço num aquecedor de carvão, curvado

sobre si mesmo no centro do porão como um ídolo pagão.

Encontrei uma escada e subi até chegar a uma porta, que não estava trancada.

Passando por ela, deparei-me com o que devia ter sido a última palavra em matéria de

cozinha na época da Grande Depressão. Havia um suporte de botijão de gás com

pernas altas, sinuosas, e uma geladeira antiquada, sobre a qual aninhava-se um motor

circular, mais parecendo uma caixa de chapéus. Se vivesse sozinho, o dr. Fowler era

um homem asseado: os pratos haviam sido lavados e postos no escorredor, o chão de

linóleo estava encerado. Deixei a pasta sobre o oleado da mesa de cozinha e iniciei

minha busca pela casa.

As salas de jantar e de visitas pareciam nunca ter sido usadas: havia pó

acumulado e a pesada mobília estava disposta com precisão, como se fizesse parte de

um show-room. No andar de cima ficavam três quartos, dois deles com os armários

vazios; no menor, com uma cama de ferro e uma penteadeira lisa, de carvalho, dormia

o dr. Fowler.

Revistei primeiro a penteadeira, não achando nada além de camisas, lenços e

roupas de baixo de algodão. No armário, ao lado de uma sapateira, estavam

pendurados vários ternos de lã cheirando a mofo; apalpei os bolsos, sem saber por que

o fazia, mas nada encontrei. Sobre o criado-mudo havia, lado a lado, uma pequena

bíblia de couro e um revólver Webley-Mark 5, calibre 455- Era uma arma portátil

fornecida a oficiais britânicos na Primeira Guerra Mundial. A bíblia não me interessava.

Chequei o conteúdo do Webley; estava descarregado.

Tive mais sorte no banheiro. Sobre a pia, ainda exalando vapor, havia um

esterilizador; dentro dele, meia dúzia de agulhas e três seringas. No armário encontrei

apenas aspirinas, xaropes para tosse, tubos de pasta de dente e colírios. Examinei

vários vidrinhos contendo cápsulas, mas todos pareciam legítimos — nenhum era de

narcótico.

Eu sabia que tinha de estar em algum lugar, então voltei ao térreo e dei uma

olhada na velha geladeira. Ali estava, na mesma prateleira do leite e dos ovos. Morfina:

contando por alto, pelo menos vinte frascos de cinqüenta centímetros cúbicos.

Suficiente para abastecer uma dúzia de viciados por um mês.

5

LÁ FORA A noite ia caindo aos poucos; as árvores desfolhadas do jardim da frente

faziam sombras sob o céu de cobalto antes de imergir completamente na escuridão. Eu

fumava um cigarro atrás do outro, amontoando guimbas no cinzeiro, uma valiosa peça

de antiquário. Pouco antes das sete, as luzes de um automóvel adentraram o pátio e se

apagaram. Fiquei atento, esperando pelos passos do médico no átrio, mas não ouvi

barulho algum até a chave girar na fechadura.

Ele acendeu uma lâmpada localizada acima de sua cabeça e um retângulo de luz

invadiu a sala de visitas, iluminando minhas pernas até a altura dos joelhos. Permaneci

em silêncio, quebrado apenas pelo som de minha própria respiração, mas esperava

que ele sentisse o cheiro da fumaça de cigarro. Estava errado: Fowler pendurou o

sobretudo no balaústre e tomou a direção da cozinha. Assim que ele acendeu a luz,

levantei-me e fui a seu encontro. O médico parecia não ter notado minha pasta sobre a

mesa. Estava inclinado sobre a geladeira aberta, procurando alguma coisa. Eu o

observava, encostado contra a entrada em arco da sala de jantar:

– Hora de sua picada noturna?

Ele virou-se, segurando um saco de leite contra o peito com ambas as mãos:

– Como entrou aqui?

– Pelo buraco da fechadura. Por que não senta e toma seu leite, enquanto

batemos um longo papo?

– Você não trabalha para o Instituto Nacional de Saúde. Quem é você?

– O nome é Angel. Sou detetive particular, da capital.

Puxei uma cadeira e Fowler deixou-se cair pesadamente, segurando o leite como

se fosse tudo o que lhe restasse no mundo.

– Arrombamento e invasão é um crime sério — disse ele. — Suponho que saiba

que perderia a licença, caso eu chamasse a polícia.

Peguei outra cadeira, do lado oposto da mesa, e sentei-me, apoiando os braços

no encosto:

– Nós dois sabemos que você não faria isso. Seria embaraçoso demais se eles

achassem a droga escondida na geladeira.

– Sou um médico. Está perfeitamente dentro de meus direitos estocar produtos

farmacêuticos em casa.

– Não me venha com essa, doutor, vi seus apetrechos cozinhando no banheiro.

Há quanto tempo você é viciado?

– Eu não sou um... drogado! Tal insinuação é inadmissível. Sofro de uma grave

artrite reumática. Às vezes, quando a dor se torna insuportável, uso um leve analgésico

narcótico. Agora sugiro que vá embora, do contrário eu realmente chamarei a polícia.

– Vá em frente. Posso até discar o número, se quiser. Eles adorariam fazer o

teste de detecção de drogas em você.

Fowler tremeu dentro das dobras do terno folgado, grande demais para seu

tamanho. Ele parecia estar encolhendo diante de meus olhos.

– O que quer de mim? — disse, pondo de lado o litro de leite e apoiando a

cabeça nas mãos.

– O mesmo que queria lá no hospital. Informações sobre Jonathan Liebling.

– Disse-lhe tudo o que sabia.

– Vamos deixar de brincadeira, doutor Liebling jamais foi transferido para um

hospital de veteranos. Sei disso porque liguei para Albany; não foi muito inteligente de

sua parte inventar uma história assim tão vulnerável. — Peguei um cigarro no maço e o

coloquei na boca, apagado. — Seu segundo erro foi usar uma caneta esferográfica

para anotar, no relatório, a falsa transferência de Liebling. Esferográficas ainda não

tinham sido inventadas em mil novecentos e quarenta e cinco.

Fowler resmungou algo e baixou a cabeça entre os braços sobre a mesa:

– Eu sabia que estava tudo acabado quando ele finalmente recebeu uma visita.

Em quase quinze anos nunca houve um único visitante.

– Popular esse nosso amigo, hem? — ironizei, acendendo o cigarro. — Onde

está ele agora?

– Não sei — respondeu Fowler, aprumando-se na cadeira com a aparência de

alguém à beira do esgotamento —, não o vejo desde que era meu paciente durante a

guerra.

– A algum lugar ele deve ter ido, doutor.

– Não faço idéia de onde seja. Algumas pessoas vieram certa noite há muito

tempo... ele entrou num carro com eles e foi embora. Nunca mais o vi.

– Num carro? Eu supunha que ele tivesse se tornado um vegetal.

O doutor esfregou os olhos, piscando:

– Quando chegou a nós ele estava em coma. Mas o tratamento surtiu efeito e em

um mês ele já estava de pé. Costumávamos jogar tênis de mesa às tardes.

– Então ele estava normal quando foi embora?

– Normal? Palavra odiosa essa; sem o mínimo significado. — Os dedos nervosos

e trêmulos de Fowler fecharam- se, seus punhos cerrando-se sobre o oleado

esmaecido. Na mão esquerda ele usava um anel de sinete dourado, com uma estrela

de cinco pontas encravada. — Respondendo a sua pergunta: Liebling não era igual a

você ou a mim. Mesmo após recobrar a consciência, a fala, a visão, o uso dos

membros superiores e inferiores e tudo o mais, ele ainda continuava a sofrer de

amnésia aguda.

– Quer dizer que ele perdeu totalmente a memória?

– Por completo. Não tinha idéia de quem era ou de onde vinha. Nem mesmo seu

nome significava alguma coisa: ele insistia que era outra pessoa e que se lembraria

mais tarde. Eu disse que ele foi embora com amigos: sei disso apenas porque eles o

disseram. Jonathan Liebling não os reconheceu. Eram estranhos para ele.

– Conte-me mais sobre esses amigos. Quem eram? Como se chamavam?

O doutor fechou os olhos, pressionando as têmporas com os dedos trêmulos:

– Foi há tanto tempo! Anos e anos. Fiz o melhor que pude para esquecer.

– Não vá me dizer que também sofre de amnésia, doutor.

– Eram dois — disse ele, falando muito baixo, como se arrancasse as palavras

do fundo da alma —, um homem e uma mulher. Dela nada posso dizer: estava escuro e

ela ficou no carro. De qualquer forma, nunca a tinha visto. O homem era familiar, eu o

havia encontrado várias vezes. Foi ele quem arranjou tudo.

– Qual era o nome dele?

– Ele disse que era Edward Kel ey. Não tenho meios de saber se era verdade.

Anotei o nome em meu caderninho preto:

– E os arranjos de que falou? Em que consistiam?

– Dinheiro — o médico cuspiu a palavra como se fosse um pedaço de carne

podre. —'Todo homem tem seu preço, não? Bem, eu tinha o meu, é claro. Esse sujeito,

Kel ey, veio um dia e me ofereceu dinheiro.

– Quanto?

– Vinte e cinco mil dólares. Talvez não pareça muito nos dias de hoje, mas

durante a guerra era mais do que eu jamais sonhara ter.

E deve embalar muitos sonhos ainda hoje. O que Kel ey queria de você?

– Aquilo de que você provavelmente já suspeita: dar alta a Jonathan Liebling sem

documentá-la. Destruir qualquer evidência de sua recuperação. Acima de tudo, eu

deveria fazer todos acreditarem que ele ainda era paciente do Emma Harvest.

– E foi justamente o que você fez.

– Não foi difícil. Além de Kel ey e do agente teatral, ou empresário de Liebling,

nós nunca tivemos visitas.

– Qual era o nome do agente?

– Acho que era Wagner. Não consigo lembrar-me do primeiro nome.

– Ele estava metido em seu trato com Kel ey?

– Não que eu soubesse. Nunca os vi juntos, e ele não parecia saber que Liebling

se fora. Ligava de tempos em tempos, durante um ano e pouco, para saber se havia

ocorrido algum progresso, mas nunca veio pessoalmente. Após um certo tempo, parou

de ligar.

– E sobre o hospital? A administração não suspeitou da falta de um paciente?

– E por que deveria? Eu mantinha os relatórios atualizados semanalmente, e todo

mês era enviado um cheque do fundo de investimentos de Liebling para cobrir suas

despesas. Desde que as contas estivessem sendo pagas, ninguém faria muitas

perguntas. Inventei uma história qualquer para satisfazer as enfermeiras, mas elas

tinham outros pacientes para cuidar, de modo que não foi assim tão difícil. Como já

disse, nunca houve visitas. Após um certo tempo, tudo o que eu tinha a fazer era

preencher uma declaração legal que chegava a cada seis meses, com a precisão de

um relógio, de um escritório de advocacia em Nova York.

– Mclntosh, Winesap and Spy?

– Esse mesmo. — O médico ergueu os olhos assustados, antes fixos na mesa, e

nossos olhares se encontraram. — O dinheiro não era para mim. Minha esposa, Alice,

ainda estava viva. Ela tinha um carcinoma e precisava se submeter a uma operação

para a qual não tínhamos recursos. O dinheiro foi usado para isso, e para uma viagem

às Bahamas, mas ela morreu mesmo assim. Não levou nem um ano. Nada pode

reparar uma dor, nem mesmo todo o dinheiro do mundo.

– Fale-me sobre Jonathan Liebling.

– O que quer saber?

– Qualquer coisa, por menor que seja: hábitos, hobbies, de que jeito gostava dos

ovos no café da manhã. Qual era a cor dos olhos dele?

– Não consigo lembrar-me.

– Fale então sobre aquilo que puder lembrar. Comece com uma descrição física.

– Isso é impossível. Não faço a menor idéia da aparência dele.

– Não tente me enrolar, doutor — disse, inclinando-se para a frente e soprando

fumaça em seus olhos marejados.

– Estou dizendo a verdade — retrucou Fowler enquanto tossia. — Liebling

chegou ao hospital seguindo um tratamento intensivo de restauração facial.

– Cirurgia plástica?

– Sim. Sua cabeça esteve envolta em bandagens durante toda a estada. Como

eu não era o encarregado de trocá-las, não tive nenhuma oportunidade de ver seu

rosto.

– Eu sei por que a chamam de cirurgia "plástica" — lamentei, apalpando o nariz.

O médico estudou minhas feições com ar profissional:

– Cera?

– Uma "recordação" da guerra. Pareceu bem-feito por alguns anos. O cara para

quem eu trabalhava tinha uma casa de veraneio em Barnegat, na costa de Jersey.

Certa vez, na praia, adormeci: quando acordei, o nariz havia derretido por dentro.

– Cera não é mais utilizada em tais procedimentos.

– É o que me dizem. — Levantei-me, apoiando-me sobre a mesa. — Fale o que

sabe sobre Edward Kel ey.

– Foi há muito tempo — disse o médico —, e as pessoas mudam.

– Há quanto tempo, doutor? Qual foi a data da saída de Liebling da clínica?

– Foi em mil novecentos e quarenta e três ou quarenta e quatro. Durante a

guerra. Não consigo lembrar-me precisamente.

– Tendo outro ataque de amnésia?

– Mais de quinze anos já se passaram. O que mais você quer?

– A verdade, doutor. — Estava começando a perder a paciência com o velho.

– Até onde me lembro estou dizendo a verdade.

– Como era esse Edward Kel ey? — perguntei, deixando transparecer toda a

minha irritação.

– Era um homem jovem, uns trinta e cinco anos, eu diria. De qualquer maneira,

deve ter mais de cinqüenta hoje.

– O senhor não está me deixando muitas alternativas, doutor...

– Encontrei o homem só três vezes.

– Doutor — prendi o nó de sua gravata entre o indicador e o polegar, sem forçar

muito; quando o puxei, no entanto, ergui-o tão facilmente que seu corpo parecia não

sofrer a ação da lei da gravidade —, poupe aborrecimentos a si mesmo. Não me

obrigue a arrancar a verdade de você.

– Disse-lhe tudo o que sabia.

– Por que está tentando proteger Kel ey?

– Mas não estou. Eu mal cheguei a conhecê-lo. Eu...

– Se não passasse de um velho inútil, eu faria picadinho de você.

Ele tentou afastar-se, mas torci o nó de sua gravata um pouco mais, sufocando-

o.

– Por que me cansar tanto assim quando há um modo mais fácil?

Os olhos injetados de Fowler denunciavam o pânico.

– Está suando frio, hem, doutor? Não pode esperar para se ver livre de mim e

tomar uma picadinha na veia, não?

– Todos precisam de algo para ajudar a esquecer — sussurrou Fowler.

– Não quero que esqueça, doutor. Quero que se lembre. – Peguei-o pelo braço e

empurrei-o para fora da cozinha.

– É por isso que vamos para seu quarto lá em cima, onde você pode se deitar e

pensar melhor, enquanto eu saio e arranjo algo para comer.

– O que quer saber? Kel ey tinha cabelos escuros e bigo- dinho à Clark Gable.

– Ainda não é o bastante, doutor. — Forcei-o escada acima, segurando-o pelo

colarinho de seu terno de tweed. — Algumas horas longe de seu brinquedinho devem

refrescar sua memória.

– Sempre vestido com roupas caras — ainda tentou Fowler —, ternos sóbrios,

nada de espalhafatoso.

Empurrei-o pela porta estreita de seu quarto espartano e ele tombou de frente na

cama:

– Pense melhor, doutor.

– Tinha dentes perfeitos; sorriso dos mais atraentes. Por favor, não se vá.

Fechei a porta atrás de mim e girei a chave na fechadura. Como tudo na casa de

Fowler, era uma chave antiquada, do tipo que a vovó usava para guardar seus

segredos. Deixei-a escorregar para dentro do bolso e desci os degraus acarpetados,

assobiando.

6

JÁ PASSAVA de meia-noite quando voltei à casa de Fowler. Havia uma única luz

acesa, no quarto do andar superior. O pobre médico não estava conseguindo pegar no

sono. Eu havia devorado um excelente jantar e assistira a uma sessão de cinema sem

o menor remorso. Piedade é uma palavra que não existe em minha profissão.

Entrei na casa, passando pelo hall escuro em direção à cozinha. Abri a geladeira,

apanhei um frasco de morfina na prateleira superior para tentar refrescar a memória de

Fowler, e subi a escada, guiado por minha caneta-lanterna. A porta do quarto

continuava trancada.

– Vou ser correto com o senhor, doutor — gritei, revirando os bolsos à procura

da chave. — Trouxe-lhe até um aperitivo.

Virei a chave e abri a porta. O dr. Albert Fowler não disse uma palavra. Ele

estava na cama, apoiado contra os travesseiros, ainda vestindo o terno marrom. Sua

mão esquerda segurava contra o peito uma moldura com um retrato de mulher. O

Webley Mark 5 estava na mão direita. O tiro fora dado no olho direito. O sangue

coagulara-se no ferimento, parecendo lágrimas de rubi. A concussão impulsionara o

outro olho meio para fora da órbita, o que dava ao médico o olhar esbugalhado de um

peixe tropical.

Toquei as costas de suas mãos. Estavam frias, como carne pendurada na vitrine

de um açougueiro. Abri minha pasta e retirei do bolso da tampa superior um par de

luvas de látex, próprias para cirurgia.

Havia algo de errado com aquela cena. Dar um tiro no próprio olho pode parecer

uma maneira esquisita de cometer suicídio, mas, presumivelmente, médicos são

pessoas mais bem informadas sobre tais assuntos. Tentei imaginar o doutor segurando

à Webley com o cano para baixo, a cabeça pendendo para trás, como alguém

pingando colírio nos olhos. Não me pareceu nem um pouco convincente.

A porta estava trancada, eu estava com a chave no bolso. Suicídio era a única

explicação lógica. O quarto continuava exatamente o mesmo, sóbrio como um aposento

militar.

Peguei a bíblia no criado-mudo e uma caixa de munição caiu aberta no assoalho;

o livro era oco por dentro. Peguei as balas do chão, olhando sob a cama para me

certificar de que nenhum projétil rolara lá para baixo, e as coloquei de volta na bíblia

oca.

Refiz meu trajeto pelo quarto, limpando com um lenço tudo o que tocara durante

minha busca inicial. A polícia de Poughkeepsie não ficaria muito satisfeita se soubesse

que um detetive particular de fora da cidade havia levado um de seus cidadãos

proeminentes ao suicídio. Dizia a mim mesmo, enquanto limpava, que se este fosse

mesmo o motivo da morte de Fowler, eles não iriam procurar por impressões, mas

continuei apagando os traços de minha passagem pelo quarto.

Limpei a maçaneta e a chave e fechei a porta, deixando-a destrancada. Esvaziei

o cinzeiro no bolso da jaqueta, lavei-o e deixei-o secar no escorredor, junto dos pratos.

Guardei â morfina e o leite na geladeira, cuidando de apagar vestígios de minha

passagem pela cozinha. Depois foi a vez do porão: os corrimões e as maçanetas foram

limpos, mas não havia nada que eu pudesse fazer a respeito do fecho da porta.

Coloquei-o no lugar, enfiando os parafusos de volta na madeira apodrecida. Qualquer

um fazendo seu trabalho perceberia.

A volta a Nova York proporcionou-me tempo bastante para refletir. Eu não

gostava de pensar que podia ser o responsável pela morte de Fowler. Vagos

sentimentos de angústia e remorso me assaltavam. Foi um erro grave tê-lo trancado no

quarto com uma arma. E o pior era que o doutor ainda tinha muito o que contar.

Tentei fixar a cena em minha mente, como uma foto. O dr. Fowler esticado na

cama com um buraco no olho e os miolos espalhados na colcha. Havia um abajur no

criado-mudo, ao lado da bíblia. Dentro dela as balas. O porta-retrato, antes na

penteadeira, agora estava preso ao abraço gélido do doutor, cujo dedo ainda

repousava no gatilho.

Quanto mais eu relembrava a cena, mais me certificava de que faltava alguma

coisa, uma peça do quebra-cabeça havia sumido. Mas qual? E onde ela se encaixava?

Eu não tinha nada em que me apoiar, a não ser em meus instintos, algo que não me

deixava em paz. Talvez eu apenas não quisesse encarar de frente minha própria culpa,

mas estava certo de que a morte do dr. Albert Fowler não fora suicídio. Fora

assassinato.

7

A MANHÃ DE segunda-feira estava clara e fria. A limpeza pública já dera conta dos

restos da nevasca. Após sair do Chelsea Hotel, onde morava, estacionei o Chevy na

garagem do Hipódromo e fui a pé até o escritório, aproveitando para comprar um

exemplar do Poughkeepsie New Yorker na banca que vendia jornais de outras cidades,

na esquina norte da Torre Times. Nenhuma menção ao dr. Albert Fowler.

Passava um pouco das dez quando abri a porta do escritório. Do outro lado da

rua, as más notícias de sempre: SÍRIA ALEGA Novo ATAQUE IRAQUIANO... SOLDADO FERIDO

EM INCURSÃO PELA FRONTEIRA DE UMA TROPA DE TRINTA. Liguei para o escritório de

Herman Winesap em Wal Street, e a secretária colocou-nos em contato sem demora:

– E o que posso fazer pelo senhor hoje, senhor Angel? — indagou o procurador,

a voz lisa como dobradiças bem azeitadas.

– Tentei entrar em contato no final de semana, mas a empregada disse que você

estava em Sag Harbor.

– Tenho lá um lugar onde posso descansar. Sem telefone. Aconteceu algo

importante?

– Preferia passar a informação ao senhor Cyphre. Não consegui encontrá-lo na

lista também.

– Você calculou bem a hora de ligar. O senhor Cyphre está sentado à minha

frente neste exato momento. Vou passar- lhe o fone.

Pude ouvir o som abafado de alguém falando com a mão no bocal do telefone e,

em seguida, o sotaque polido de Cyphre do outro lado:

– É bom que tenha ligado, senhor. Estou ansioso para saber o que descobriu.

Contei-lhe quase tudo o que acontecera em Poughkeepsie, omitindo a morte de

Fowler. Quando terminei, escutava apenas o som de alguém respirando

pausadamente. Esperei. Cyphre murmurou "incrível" por entre dentes fortemente

cerrados.

– Há três possibilidades — retomei. — Kel ey e a garota queriam Favorite fora do

caminho e levaram-no a um passeio; nesse caso, ele já se foi há muito tempo. Pode

ser também que os dois estivessem trabalhando para outra pessoa, com o mesmo

objetivo. Ou então Favorite estava fingindo em relação à amnésia, e arquitetou ele

mesmo todo o plano. De qualquer modo, todas as três hipóteses desembocam num

sumiço perfeito.

– Eu quero que o encontre — disse Cyphre —, não me importa o tempo que

levará, nem quanto vai custar, quero que o encontre.

– Não acha que é pedir demais, senhor Cyphre? Quinze anos é um bocado de

tempo. Dê uma pista desta a alguém e ele provavelmente voltará de mãos abanando.

O senhor faria melhor se procurasse a Seção de Pessoas Desaparecidas.

– Nada de polícia. Este é um assunto particular. Não quero vê-lo trazido à tona

por um bando de servidores civis xeretas. — O escárnio aristocrático tornava áspera a

voz de Cyphre.

– Fiz a sugestão porque eles estão aparelhados para o serviço. Favorite pode

estar em qualquer lugar do país, ou do exterior. Eu trabalho sozinho. Não se pode

esperar que vá alcançar os mesmos resultados de uma organização com uma rede

internacional de informações.

– O ponto a que chegamos, senhor Angel — interviu Cyphre, com um tom de voz

ainda mais corrosivo —, é simplesmente este: você quer ou não o trabalho? Se não

estiver interessado, tratarei de encontrar quem esteja.

– Ah, mas estou interessado, senhor Cyphre. O problema é que não estaria

sendo justo com o senhor, como meu cliente, se subestimasse a dificuldade de fazer o

que me pede. — Por que Cyphre me fazia sentir como uma criança?

– Sim, claro. Aprecio sua honestidade, assim como compreendo as dificuldades

de se levar adiante este caso. — Cyphre fez uma pausa, e ouvi o som do isqueiro,

enquanto ele acendia mais um de seus caros panatelas. Voltou a falar, agora mais

calmo, talvez por causa do tabaco: — O que quero que faça é começar agora mesmo.

Faça do jeito que achar melhor. A chave de toda a operação, no entanto, deve

continuar sendo a discrição.

– Posso ser discreto como um padre no confessionário.

– Estou certo de que pode, senhor Angel. Estou instruindo meu procurador para

enviar-lhe quinhentos dólares adiantados. O cheque deve ir pelo correio hoje. Caso

precise de mais para cobrir despesas, por favor, entre em contato com o senhor

Winesap.

Respondi que quinhentos dólares certamente dariam conta do recado, e

desligamos. A vontade de abrir uma garrafa para um drinque de comemoração nunca

foi tão forte, mas resisti, acendendo um charuto ao invés de beber: fazê-lo antes do

almoço dava azar.

Resolvi ligar para Walt Rigler, um conhecido meu que era repórter do Times:

– O que pode me dizer a respeito de Johnny Favorite? — perguntei após as

formalidades de praxe.