Coração Satânico por William Hjortsberg - Versão HTML

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– Johnny Favorite? Você deve estar brincando. Por que não me pergunta o nome

dos outros caras que cantavam com Bing Crosby naquele grupo, os ciganos A&P?

– É sério. Pode desenterrar algo sobre ele?

– Estou certo de que o obituário tem uma ficha. Dê-me cinco ou dez minutos e

terei tudo a sua disposição.

– Obrigado, chapa. Sabia que poderia contar com você.

Após desligar, acabei meu charuto, enquanto olhava a correspondência, a maioria

contas e folhetos de mala direta, e fechei o escritório. A escada de incêndio era um

meio sempre mais rápido do que o elevador do tamanho de um caixão, mas eu não

tinha pressa: apertei o botão e esperei, ouvindo o bater das teclas da somadora de Ira

Kipnis na porta ao lado.

Para chegar ao edifício Times na Rua 43 eu só tinha que dobrar a esquina.

Caminhei até lá, sentindo-me esperançoso, e tomei o elevador até a redação no

terceiro andar, após trocar olhares carrancudos com a estátua de Adolph Ochs no

saguão de mármore. Dei o nome de Walt ao velho no balcão de recepção e esperei um

minuto e pouco até que ele aparecesse, em mangas de camisa e com o nó da gravata

afrouxado, como um repórter nos filmes.

Apertamos as mãos e ele me levou até a sala de redação, onde centenas de

máquinas de escrever, com ritmo staccato, repicavam no ar pesado de fumaça de

cigarro.

– Isto aqui tem estado fúnebre Como um velório desde que Mike Berger morreu,

no mês passado — disse Walt, meneando a cabeça em direção a um lugar vazio na

fileira de mesas da frente. Uma rosa vermelha ressecada jazia num copo d'água sobre

uma,máquina de escrever coberta por uma capa.

Segui-o, em meio ao bater das teclas, até sua mesa, no centro da sala. Uma

grossa pasta estava na cesta de arame da escrivaninha. Peguei-a e dei uma olhada

nos recortes amarelados:

– Tudo bem se eu tomar alguns destes emprestado?

– O regulamento da casa proíbe .— Walt enfiou o dedo no colarinho do terno de

lã que estava pendurado no encosto da cadeira giratória. — Estou saindo para

almoçar. Há alguns envelopes oito por doze na gaveta de baixo. Tente não perder nada

e minha consciência estará limpa.

– Obrigado, Walt. Se precisar de um favor qualquer dia...

– Tá bom. Tá bom. Para um cara que lê o Journal-American, você veio ao lugar

certo para suas pesquisas.

Observei-o caminhar desengonçadamente por entre as fileiras de escrivaninhas,

trocando gracejos com outros repórteres e acenando para um dos editores na sala

envidraçada antes de sair. Sentado em sua mesa, dei uma olhada na pasta de Johnny

Favorite.

A maioria dos velhos recortes não havia sido retirada do Times, mas de outros

diários nova-iorquinos e de algumas revistas de circulação nacional. Grande parte deles

era sobre as aparições de Favorite com a banda de Spider Simpson. Havia também

algumas notas biográficas que li com atenção.

Favorite fora abandonado pelos pais ainda criança. Um policial achou-o numa

caixa de papelão; dentro dela, preso com um alfinete, um papel com seu nome e data

de nascimento. Seus primeiros anos de vida foram passados no Hospital Fowndling. Foi

criado num orfanato de Bronx e aos dezesseis anos já se virava sozinho, trabalhando

como copeiro em vários restaurantes. Um ano depois, já tocava piano e cantava em

boates de beira de estrada no norte do Estado.

Ele foi "descoberto" por Spider Simpson em 1938 e logo estava à frente de uma

orquestra de quinze músicos. Numa semana de apresentações no Teatro Paramount,

estabeleceu o recorde de público, igualado apenas em 44, com a explosão de Sinatra.

Em 1941, seus discos venderam mais de cinco milhões de cópias, e seus ganhos, dizia-

se, eram superiores a setecentos e cinqüenta mil dólares. Havia várias histórias

relatando o que ocorrera com ele na Tunísia, uma delas dando-o como

"presumivelmente morto", e isso era tudo. Nada havia sobre a hospitalização ou o

retorno aos Estados Unidos.

Dei uma olhada no resto do material, fazendo uma pequena pilha daquilo que me

interessava. Duas fotos, uma de estúdio, em papel acetinado, mostrando Favorite de

smoking, o cabelo brilhando de vaselina encimado por um topete negro. O nome e o

endereço

do

agente

estavam

carimbados

no

verso: WARREN

WAGNER,

REPRESENTANTE TEATRAL, BROADWAY 1619 (EDIFÍCIO BRILL).

A outra foto mostrava a orquestra de Spider Simpson em 1940, com Johnny de

um lado, as mãos entrelaçadas numa pose angelical, e do outro os músicos

acompanhantes, com os nomes assinalados embaixo.

Separei três outros itens, recortes que me chamaram a atenção porque

destoavam do resto do conteúdo da pasta. O primeiro era uma foto da revista Life,

tirada no bar de Dickie Wel no Harlem, mostrando Johnny encostado a um pequeno

piano de cauda, segurando um copo numa das mãos e cantando junto com um pianista

negro, identificado como Edison "Toots" Sweet. Havia uma matéria da Downbeat

falando sobre as superstições do cantor: contava que, sempre que estava em Nova

York, Favorite ia uma vez por semana a Coney Island, onde uma cartomante cigana,

Madame 2ora, lia-lhe as mãos. Por último, uma nota da coluna de Walter Winchel ,

datada de 20 de novembro de 1942, registrava que Johnny Favorite estava rompendo o

noivado de dois anos com Margaret Krusemark, filha de Ethan Krusemark, o armador

milionário.

Juntei tudo o que me interessava e guardei num envelope pardo que achei em

uma das gavetas. Então, num estalo, retirei do envelope a foto de Favorite e disquei o

número do Edifício Bril carimbado no verso:

– Warren Wagner Associados — respondeu uma jovial voz feminina.

Dei-lhe meu nome e pedi para marcar uma entrevista para a hora do almoço:

– Ele tem um almoço de negócios ao meio-dia e meia e só pode dispor de alguns

minutos.

– É o suficiente — respondi.

8

"QUANDO VOCÊ não está na Broadway, tudo é Bridgeport." Esta máxima famosa

foi dita a George M. Cohan em 1915 por Arthur "Bugs" Baer, cuja coluna no Journal-

American li todos os dias durante anos. Pode ter sido verdade em 1915- Não posso ter

certeza, não tinha nem nascido nessa época. Aquela foi a era do Rector's, do Shanley's

e do New York Roof. A Broadway que eu conhecia era Bridgeport: uma verdadeira

feira ambulante com stands de tiro, salões de pôquer e barracas de cachorro-quente.

Dois velhos viúvos, o Hotel Astor e a Torre Times eram tudo o que restava da época de

ouro lembrada por "Bugs" Baer.

O Edifício Bril ficava na 49, na Broadway. Caminhei da 43 até lá, tentando me

lembrar de como era a Times Square quando a vi pela primeira vez. Tanta coisa havia

mudado. Era a noite do réveillon de 1943. Todo um ano de minha vida tinha

desaparecido. Eu havia recém-saído do hospital do Exército com uma cara

completamente nova e nada além de trocados no bolso. Alguém roubara minha carteira

naquela noite, levando tudo o que eu possuía: carteira de motorista, certificado de

dispensa, plaqueta de identificação militar etc. Preso no meio da multidão e cercado

pela pirotecnia elétrica dos cartazes, sentia meu passado se desprender de mim como

pele de cobra na época de muda. Eu não tinha identificação, dinheiro, lugar para viver,

e sabia apenas que me dirigia ao centro da cidade.

Levei uma hora para ir do Teatro Palace ao centro da Times Square, entre o

Astor e a Roupas Bond. Estava lá à meia- noite e vi a bola dourada cair no topo da

Torre Times, ponto de referência que levei mais uma hora para alcançar. Foi então que

vi as luzes acesas na Agência de Detetives Crossroads e, guiado pelo instinto, cheguei

a Ernie Cavalero e ao trabalho que jamais deixei.

Naquele tempo, um par de gigantescas estátuas nuas, masculina e feminina,

ladeava a queda-d'água, do tamanho de um quarteirão, no telhado da Roupas Bond.

Hoje, enormes garrafas de Pepsi ocupam o lugar das estátuas. Eu ficava imaginando

se as duas não estariam lá ainda, presas dentro das garrafas de metal como lagartas

adormecidas em seus casulos.

Do lado de fora do Edifício Bril , um vagabundo, vestindo um esfarrapado casaco

do Exército, andava dç um lado para outro, lançando impropérios a todos que

entravam. Dei uma olhada no quadro de informações no final do saguão em formato de

"T" e localizei a Warren Wagner Associados, cercada por dúzias de agentes musicais,

promotores de boxe e editores de música pouco confiáveis. O elevador subiu rangendo

até o oitavo andar, e eu vaguei até a extremidade de um corredor escuro, onde ficava o

escritório, na verdade uma série de pequenos cubículos interligados por portas.

A recepcionista estava tricotando quando abri a porta:

– É o senhor Angel? — perguntou, com a boca cheia de chiclete.

Respondi que sim e dei-lhe um cartão, com meu nome, como representante da

Seguradora Ocidental. Um amigo com uma gráfica no Vil age fizera vários para mim,

com dúzias de profissões diferentes. Tudo, de advogado de porta de cadeia a zoólogo.

A recepcionista pinçou o cartão entre as unhas verdes e brilhantes como asas de

um besouro. Tinha seios grandes e quadris estreitos, realçados por um suéter rosa-

angorá e uma saia preta justa. Seu cabelo era platinado, na tonalidade menos discreta

possível:

– Espere um minuto, por favor — disse, sorrindo e mascando ao mesmo tempo

—, sente-se.

Ela passou por mim, andando de esguelha, bateu com o nó do dedo numa porta

onde se lia PRIVADO, e entrou. Atrás dessa porta havia outra, idêntica e com os mesmos

dizeres. Entre uma e outra, paredes repletas de fotografias emolduradas, os sorrisos

esmaecidos preservados como mariposas sob o vidro. Dei uma espiada e encontrei a

mesma foto oito por doze de Johnny Favorite que carregava no envelope debaixo do

braço. Estava na parede da esquerda, no alto, ladeada por fotos de uma ventríloqua e

de um homem gordo tocando clarineta.

A porta às minhas costas se abriu e a recepcionista apareceu:

– O senhor Wagner o verá imediatamente.

Agradeci e entrei. O escritório era a metade do tamanho da ante-sala. As

fotografias pareciam mais novas, mas os sorrisos estavam tão apagados quanto os da

outra sala. Uma escrivaninha de madeira marcada por brasas de cigarro tomava a

maior parte do espaço. Atrás dela um homem jovem, em mangas de camisa, barbeava-

se com um aparelho elétrico:

– Cinco minutos — disse ele, levantando a mão espalmada de modo que eu

pudesse contar os dedos.

Coloquei minha pasta no tapete verde surrado e olhei para o garoto, que acabava

de fazer a barba. Tinha cabelos cacheados, cor de ferrugem, e sardas. Usava óculos

aro de tartaruga e não devia ter mais de vinte e quatro ou vinte e cinco anos:

– Senhor Wagner? — perguntei, quando ele desligou o barbeador.

– Sim?

– Senhor Warren Wagner?

– Exato.

– Certamente o senhor não é o mesmo homem que agenciava Johnny Favorite...

– Você está falando de meu pai. Sou Warren Júnior.

– Então é com seu pai que eu gostaria de falar.

– Está sem sorte. Ele morreu há quatro anos,

– Entendo.

– Do que se trata? — Warren Jr. recostou-se em sua poltrona de couro e cruzou

as mãos atrás da cabeça.

– Johnny Favorite é beneficiário de uma apólice de propriedade de um de nossos

clientes. Este escritório foi dado como endereço.

Warren Jr. desatou a rir.

– A soma em dinheiro envolvida não é grande — continuei —, gesto de um velho

fã, talvez. Pode dizer-me onde encontrar o senhor Favorite?

O garoto ria como um louco agora:

– É incrível! — exclamou, tomando fôlego. — É mesmo muito engraçado. Johnny

Favorite, o herdeiro desaparecido!

– Para falar com franqueza, não consigo ver onde está a graça nisso tudo.

– Ah, é? Pois bem, deixe-me esclarecer as coisas. Johnny Favorite está duro

numa cama de hospital, ao norte. Há vinte anos que ele não passa de um traste inútil.

– Sei... é uma ótima piada. Conhece outras assim tão boas?

– Você não entendeu — disse ele, tirando os óculos e enxugando as lágrimas. —

Johnny Favorite era o grande número de papai. Ele gastou cada centavo que tinha no

mundo para comprar o contrato de Favorite com Spider Simpson. Então, logo quando

tudo parecia correr bem, Favorite foi convocado. Havia várias coisas engatilhadas,

contratos para filmes e tudo o mais. O Exército mandou uma propriedade de um milhão

de dólares para a África e, três meses depois, devolveu um saco de batatas.

– Mas isso é péssimo.

– Pode estar certo disso. Péssimo para meu pai. Ele nunca conseguiu se

recuperar. Por anos ainda pensou que Favorite poderia ficar bom algum dia, fazer um

retorno triunfal, e deixá-lo na "Rua da Felicidade". Pobre coitado!

– Pode dar-me o nome e o endereço do hospital onde Favorite está internado?

– Pergunte a minha secretária. Ela deve tê-los enfiado em algum lugar.

Agradeci pelo tempo concedido e saí. Na sala de espera, cumpri a formalidade

de conseguir da recepcionista o endereço por escrito do Emma Dodd Harvest

Memorial.

– Já esteve em Poughkeepsie? — perguntei, guardando o pedaço de papel

dobrado no bolso da camisa. — É um lugar adorável.

– Tá brincando? Ainda nem conheço o Bronx.

– Não conhece nem o zoológico?

– Zoológico? O que tenho a ver com zoológico?

– Não sei — respondi —, experimente fazer uma visita qualquer dia. Quem sabe

eles têm lá uma vaga para você.

Minha última visão dela enquanto saía era a de uma boca vermelha redonda

como um bambolê e uma massa disforme de goma de mascar sobre a língua.

9

HAVIA DOIS BARES no andar térreo do Edifício Bril , ambos com frente para a

Broadway. Um era o Jack Demsey's, ponto de encontro do pessoal do boxe. O outro, o

Turf, na esquina da 49, com sua convidativa fachada de vidro azul, era freqüentado por

músicos e compositores.

Por dentro, o Turf era apenas mais uma espelunca onde serviam gim. Dei um giro

pelo bar e encontrei exatamente o homem que tinha em mente, Kenny Pomeroy, músico

e ar- ranjador desde quando eu nem era nascido.

– O que me diz então, Kenny? — perguntei em voz baixa, sentando-me no banco

a seu lado.

– Ora, ora, Harry Angel, o xereta profissional. Há quanto tempo, companheiro.

– Um bocado. Seu copo parece vazio, Kenny. Fique sentadinho aí enquanto lhe

pago um drinque. — Fiz sinal ao barman e pedi um manhattan e outra rodada para

Kenny.

– Saúde, garoto — disse ele, erguendo o copo, quando os drinques foram postos

a nossa frente.

Kenny Pomeroy era um homem gordo, extrovertido, com um nariz avermelhado e

um estoque de queixos duplos que ficavam um sobre o outro como peças

sobressalentes. Seu estilo de vestir-se ia de jaquetas axadrezadas a anéis de safira

rosa. O único lugar em que o vira, fora dos estúdios de gravação, era o bar do Turf.

Batemos um curto papo relembrando os velhos tempos, antes que Kenny

perguntasse:

– Então, o que o traz a estes lados? Perseguindo malfeitores?

– Não exatamente. Estou trabalhando num caso e você pode me ajudar.

– A qualquer hora, em qualquer lugar.

– O que pode me dizer a respeito de Johnny Favorite?

– Johnny Favorite? O que é isso? Sessão Reminiscências?

– Você o conhecia?

– Não. Vi umas poucas apresentações dele, antes da guerra. Da última vez foi no

Starlight Lounge em Trenton, se não me engano.

– Tem visto ele por aí, em algum lugar, digamos, nos últimos quinze anos, mais

ou menos?

– Tá brincando? Ele está morto, não está?

– Não exatamente. Está num hospital, mais ao norte.

– Bem, se está no hospital, como poderia tê-lo visto por aí?

– Ele esteve lá, não está mais. Veja, dê uma olhada nisto. — Peguei a foto da

orquestra de Spider Simpson no envelope e passei-a a Kenny. — Qual destes é Spider

Simpson? Não diz na foto.

– É o baterista.

– O que ele faz atualmente? Ainda lidera alguma banda?

– Não. Bateristas nunca se tornam bons líderes. — Kenny tomou um gole de seu

drinque e pareceu-me pensativo. Ao franzir o cenho, provocou o aparecimento de uma

ruga cortando toda a extensão de sua testa. — Da última vez que ouvi falar dele,

estava fazendo trabalho de estúdio na Costa Oeste. Você pode tentar falar com Nathan

Fishbine no Edifício Capitol.

Anotei o nome e perguntei a Kenny se ele não conhecia alguns dos outros

músicos:

– Trabalhei em Atlantic City com o trombonista, anos atrás. — Kenny apontou

com o dedo gordo um dos músicos na foto. — Este cara, Red Diffendorf, toca

atualmente com Lawrence Welk.

– Mais alguma coisa sobre qualquer um dos outros? Sabe onde posso encontrá-

los?

– Bem, eu reconheço vários dos nomes. Eles ainda estão na ativa, só não sei

dizer onde. Você teria que perguntar pelas redondezas, ou ligar para o sindicato.

– E sobre um pianista chamado Edison Sweet?

– Toots? Ele é o maior. Tem uma mão esquerda deliciosa, como Art Tatum. Não

vai ter que andar muito para achá-lo. Faz cinco anos que vem tocando no Red Rooster,

da Rua 138.

– Kenny, você é um arquivo de informações valiosas. O que diz de almoçarmos

juntos?

– Você sabe que não sou muito chegado a essas coisas. Mas não recusaria mais

uma dose.

Pedi mais drinques para nós dois e um cheeseburger com fritas para mim e,

enquanto esperava, achei um telefone e liguei para a Federação Americana de

Músicos. Disse que era um jornalista free lancer a serviço da Look e queria entrevistar

os músicos ainda vivos da orquestra de Spider Simpson.

Passaram a ligação para a garota responsável pelas fichas dos membros do

sindicato. Prometi a ela que a entidade seria mencionada em meu artigo e dei-lhe o

nome dos músicos e os instrumentos que tocavam.

Fiquei na linha por dez minutos enquanto ela procurava. Dos quinze músicos

originais, quatro haviam falecido e seis não pertenciam mais ao sindicato. Ela me

passou o endereço e o telefone dos restantes. Diff, o trombonista, vivia em Hol ywood.

Spider Simpson também morava nas redondezas de Los Angeles, no Val ey, em Studio

City. Os outros moravam em Nova York.

Havia um saxofonista chamado Vernon Hyde, na banda do show Esta Noite,

correspondência aos cuidados da NBC; e dois outros homens de sopro, Ben Hogarth,

trompete, com endereço na Avenida Lexington, e outro trombonista, Carl Walinski, que

vivia no Brooklin.

Anotei tudo em meu caderninho, agradeci à garota do fundo de meu coração e

tentei os números locais com sucesso. Hogarth e Walinski não estavam em casa e o

máximo que consegui com a telefonista da NBC foi deixar o número do telefone do

escritório.

Estava começando a me sentir um tolo, procurando uma agulha num palheiro. As

chances de que algum dos ex- companheiros de Johnny Favorite tivesse cruzado com

ele desde que fora convocado eram menores que uma em um milhão. Mas eram a

única esperança que me restava e tinha de me ater a eles.

De volta ao bar, comi meu sanduíche e algumas batatas fritas já murchas.

– É uma grande vida, não é, Henry? — disse Kenny Po- meroy, brincando com o

gelo no copo vazio.

– É a melhor, e a única que tenho.

– Alguns pobres coitados têm que trabalhar para viver.

Peguei o troco no balcão:

– Você não vai embora já, vai, Henry?

– Tenho que ir, velho amigo, ainda que eu queira ficar e envenenar meu fígado

com você.

– Bem, do jeito que as coisas vão, logo, logo, você vai precisar de um cartão

para bater o ponto. Você sabe onde me encontrar, caso precise novamente de meus

serviços.

– Obrigado, Kenny — agradeci, colocando o sobretudo. — O nome Edward

Kel ey significa alguma coisa para você?

Kenny franziu novamente a testa larga, concentrando-se:

– Havia um Horace Kel y em Kansas City — disse ele —, mais ou menos na

época que Floyd Bonitão deu cabo daqueles federais na Estação da União. Horace

tocava piano no Clube Reno. Escreveu um livro sobre o caso. Será que tem algo a ver

com esse Kel ey?

– Espero que não — respondi. — Vejo você por aí.

10

PARA ECONOMIZAR sola de sapato, tomei o metrô na Sétima Avenida, e desci na

estação seguinte, Times Square. Assim que entrei no escritório, o telefone começou a

tocar. Era Vernon Hyde, o saxofonista de Spider Simpson.

– Foi ótimo você ter ligado — eu disse, repetindo a história da Look. Hyde caiu

direitinho, e sugeri que ele escolhesse um lugar para tomarmos um drinque.

– Estou no estúdio agora. Vamos começar a ensaiar em vinte minutos. Não

estarei livre antes das quatro e meia.

– Esse horário está bom para mim. Se você dispuser de meia hora, podemos nos

encontrar quando sair do estúdio. Em que rua ele fica?

– Na 45- É o Teatro Hudson.

– Está bem. A Casa Hickory fica a apenas alguns quarteirões. O que me diz de

nos encontrarmos lá às quinze para as cinco?

– Acho que está perfeito. Vou levar meu machado junto comigo, assim você não

terá problemas em me reconhecer.

– Um homem com um machado sempre se sobressai na multidão.

– Não, homem, você não entendeu. Machado é o instrumento, morou?

Disse que agora havia entendido, e desligamos. Após retirar o sobretudo, sentei-

me à mesa e dei uma olhada nas fotos e recortes que carregara o dia todo. Arrumei-os

sobre a mesa como se fossem parte da exposição de um museu e fiquei olhando o

sorriso de Johnny Favorite até enjoar. Onde você procura um cara que, para começo

de conversa, nunca esteve lá?

O papel da coluna de Winchel parecia prestes a desmanchar, de tão velho. Reli o

item sobre o fim do noivado e liguei para Walt Rigler, no Times:

– Oi, Walt, sou eu de novo. Preciso saber alguma coisa a respeito de Ethan

Krusemark.

– O armador graúdo?

– Ele mesmo. Gostaria de dar uma olhada em tudo o que vocês tiverem sobre

ele, começando pelo endereço. Estou especialmente interessado no noivado de sua

filha com Johnny Favorite no começo dos anos quarenta.

– Johnny Favorite de novo. Parece que o homem está com tudo.

– É, ele é o astro do show. Você pode me ajudar?

– Vou checar com o Departamento Feminino. Eles cobrem a sociedade e suas

sujeiras. Ligo de volta em alguns minutos.

– Deus o abençoe — brinquei, antes de colocar o fone no gancho.

Faltavam dez minutos para as duas. Peguei meu bloco de anotações e fiz dois

interurbanos para Los Angeles. Não havia ninguém no número de Diffendorf em

Hol ywood, mas quando tentei Spider Simpson a empregada atendeu. Ela era

mexicana, e embora meu espanhol não fosse melhor que seu inglês, consegui deixar

meu nome e o telefone do escritório, além de passar a impressão de que se tratava de

algo importante.

Deliguei e, antes que tirasse a mão do fone, o telefone tocou de novo. Era Walt

Rigler:

– Aqui vai — disse ele. — Krusemark está por cima: bailes de caridade, colunas

sociais, esse tipo de coisa. Tem um escritório no Edifício Chrysler. Mora no número 2

da Sutton Place, o telefone está na lista. Pegou tudo?

Respondi afirmativamente e ele continuou:

– Krusemark nem sempre esteve na crista da onda. Trabalhou na Marinha

Mercante no começo dos anos trinta. Dizem que começou a fazer dinheiro

contrabandeando bebida. Nunca foi condenado por nada, por isso sua ficha está limpa,

ainda que as mãos não estejam. Começou a montar a própria frota durante a

Depressão, tudo com registro no Panamá, é claro.- Saiu-se bem — continuou Walt —

construindo navios como parte do esforço de guerra. Houve acusações de que sua

firma teria usado material de construção de qualidade inferior, e muitos de seus Liberty

Ships racharam em dois em meio a temporais, mas ele foi absolvido por uma

investigação do Congresso, e não se falou mais nada a respeito.

– O que me diz da filha? — perguntei.

– Margaret Krusemark, nascida em mil novecentos e vinte e dois; pai e mãe

divorciados em mil novecentos e vinte e seis. A mãe cometeu suicídio nesse mesmo

ano. Conheceu Favorite num baile da universidade. Ele estava lá cantando com a

banda. O noivado dos dois foi o escândalo da sociedade em mil novecentos e quarenta

e um. Parece que a iniciativa de terminar com tudo partiu dele, embora ninguém saiba

dizer o motivo do rompimento. A garota era tida por todos como desequilibrada, pode

ter sido esta a razão.

– Desequilibrada como?

– Parece que tinha visões. Costumava ler a sorte em festas. Ia a todos os

lugares com um baralho de tarô na bolsa. As pessoas acharam aquilo chique por algum

tempo, mas mudaram de idéia quando ela começou a lançar maldições em público.

– Isso está nos arquivos?

– Certamente. Ela era conhecida como a "Bruxa de Wel esley". Era a piada

favorita nos meios que freqüentava.

– Onde está ela agora?

– Ninguém com quem conversei parece saber. O editor da coluna social diz que

não mora com o pai, e ela não é do tipo que é convidada para o Baile do Waldorf

Astoria, por isso não temos nada sobre ela aqui. A última menção a Margaret no Times

fala de sua partida para a Europa há dez anos. Ela ainda pode estar por lá.

– Walt, você ajudou bastante. Eu até começaria a ler o Times, se ele tivesse

histórias em quadrinhos.

– O que significa todo esse interesse por Johnny Favorite? Algo que eu possa

aproveitar?

– Não posso abrir o jogo ainda, meu chapa, mas quando chegar a hora você terá

tudo com exclusividade.

– Muito agradecido.

– Eu é que agradeço. Nos vemos qualquer dia desses, Walt.

Peguei a lista telefônica na gaveta da escrivaninha e corri o dedo pelas folhas até

chegar a uma página na letra K. Ali estavam os números de Krusemark, Ethan;

Estaleiros Krusemark e Krusemark, M., Consultas Astrológicas. Este último parecia

mercer uma tentativa. O endereço era 881, na Sétima Avenida. Disquei o número e

esperei um instante. Uma mulher atendeu:

– Cheguei a você através de um amigo — eu disse. — Pessoalmente não confio

nas estrelas tanto assim, mas minha noiva acredita nelas, e muito. Pensei em fazer-lhe

uma surpresa e encomendar a alguém nossos mapas astrais.

– Cobro quinze dólares por mapa — respondeu a mulher.

– Por mim está bem.

– Não faço consultas por telefone. Você terá que marcar uma entrevista.

Não coloquei objeções e perguntei a ela se havia possibilidade de marcar uma

entrevista para aquele mesmo dia.

– Minha agenda está totalmente livre esta tarde, por isso pode escolher o horário

que melhor lhe convier.

– O que me diz de agora mesmo? Digamos, em meia hora?

– Seria ótimo.

Dei-lhe meu nome. Ela o achou ótimo também e disse-me que seu apartamento

ficava no Carnegie Hal . Expliquei que sabia onde era e desliguei.

11

TOMEI O METRÔ até a Rua 57 e subi pelas escadas que davam para o Nedick's, no

Carnegie Hal . No quarteirão anterior, do outro lado da Sétima Avenida, um piquete se

postava em frente ao Hotel Sheraton.

Cheguei aos Estúdios Carnegie Hal , não sem antes ter sido parado por um

pedinte à cata de esmolas. O saguão do prédio era pequeno e entulhado de

decoração. As portas dos elevadores ficavam à direita, ao lado de uma caixa de

correspondência com escaninhos de vidro. Havia uma passagem que dava para os

fundos da Taverna Carnegie, na Rua 56, e um quadro de informações na parede.

Procurei por Krusemark, M., Consultas Astrológicas, e encontrei-a no segundo andar.

A seta de metal sobre o elevador da esquerda descreveu um arco descendente

através de um semicírculo de números de andares, como um relógio andando de trás

para a frente. O indicador fez uma pausa no sétimo e depois no terceiro, antes de

chegar à posição horizontal. Um enorme cão de raça foi o primeiro a sair, arrastando

atrás de si uma robusta senhora com um casaco de peles. Eles foram seguidos por um

homem barbado, carregando um estojo de violoncelo. Entrei e dei o número do andar a

um ascensorista que mais parecia um soldado da reserva em seu uniforme apertado.

Ele olhou para meus sapatos e continuou em silêncio. Instantes depois, fechou a porta

metálica e começamos a subir.

Não houve paradas até que chegássemos ao segundo andar. O corredor era

longo e espaçoso, e tão cheio de mobília quanto o saguão de entrada. Mangueiras

dobradas de lona estavam penduradas ao longo das paredes, a intervalos regu- lares.

Sons de vários pianos contrapunham-se, dissonantes, atrás de portas fechadas. A

distância podia-se ouvir uma soprano cavalgar as escalas, aquecendo-se.

Encontrei o apartamento de M. Krusemark. Seu nome estava pintado na porta em

letras douradas, abaixo das quais encontrava-se um estranho símbolo, que parecia um

"M" com uma seta virada para cima, como uma cauda. Toquei a campainha e esperei.

Ouvi passos de alguém usando salto alto lá dentro; a chave girou na fechadura e a

porta se abriu no limite permitido pelo pega-ladrão.

Um olho observou-me das sombras. Ouvi uma voz:

– Sim?

– Sou Harry Angel. Marquei uma consulta por telefone.

– Ah, sim, claro. Só um minuto, por favor.

A porta se fechou, e eu ouvi o ruído da corrente sendo destravada. Quando a

porta foi reaberta, um par de olhos verdes, como os de um gato, brilhavam sob

sobrancelhas escuras, grossas, num rosto pálido, anguloso:

– Entre — disse ela, afastando-se para me dar passagem.

Ela estava toda vestida de preto, como um boêmio de fim de semana num café

do Vil age: saia e suéter de lã preta, meias de seda preta; até seus grossos cabelos

negros estavam presos num coque por algo que parecia ser um par de agulhas de tricô

de ébano. De acordo com Walt Rigler, ela deveria ter cerca de trinta e seis ou trinta e

sete anos, mas a ausência de maquilagem fazia com que parecesse muito mais velha.

Era bastante magra, os seios pequenos quase imperceptíveis sob as grossas dobras

do suéter. Usava um único enfeite, uma corrente com um medalhão de ouro. Era uma

estrela de cinco pontas de cabeça para baixo.

Nenhum de nós disse palavra alguma, e eu me surpreendi olhando fixamente para

o medalhão em seu movimento pendular. "Vá e pegue a estrela cadente...." O verso

inicial do poema de Donne ecoava dentro de mim, acompanhado pela imagem das

mãos do dr. Albert Fowler. Por um instante cheguei a ver o anel de ouro em seus

dedos trêmulos. Uma estrela de cinco pontas estava encravada no anel que o médico

não mais usava quando encontrei seu corpo trancado no quarto. Eis a peça que faltava

no quebra-cabeça.

A revelação atingiu-me como um raio. Um frio subiu-me pela espinha, eriçando os

pêlos de minha nuca. O que acontecera ao anel do médico? Poderia estar em seu

bolso, eu não revistara suas roupas; mas por que ele o tiraria antes de estourar os

miolos? E, se não foi Fowler que o tirou, quem o fez?

Senti os olhos de raposa da mulher fixos em mim.

– Você deve ser a senhorita Krusemark — perguntei, para quebrar o silêncio.

– Sou. — Respondeu ela sem sorrir.

– Vi seu nome na porta, mas não reconheci o símbolo.

– Meu signo — disse, fechando a porta e trancando-a. — Sou de Escorpião. —

Fitou-me por um longo momento, como se meus olhos fossem buracos de fechadura

revelando algo em meu interior. — E você?

– Eu?

– Qual o seu signo?

– Não sei ao certo. Astrologia não é o meu forte.

– Quando nasceu?

– Dois de junho de mil, novecentos e vinte. — Dei a data de nascimento de

Johnny Favorite, apenas para testá-la, e por um instante julguei ter surpreendido um

brilho distante em seu olhar intenso, desprovido de emoção.

– Gemini — disse ela —, os gêmeos. Curioso: conheci uma vez um rapaz nascido

exatamente no mesmo dia.

– Sério? Quem era?

– Não importa. Foi há muito, muito tempo... Mas que grosseria de minha parte

mantê-lo aqui no vestíbulo. Entre, por favor, e sente-se.

Segui-a através do vestíbulo imerso em sombras até uma espaçosa sala de estar

de teto alto. A mobília era uma indescritível coleção de peças que bem poderiam ter

pertencido ao Exército da Salvação, salva apenas pelo estofamento de intrincados

motivos coloridos e várias almofadas bordadas. A geometria precisa de finos tapetes

persas contrabalançava a decoração barata. Havia avencas de todas as variedades,

plantas pendendo de vasos pendurados no teto e miniaturas de florestas em viveiros de

vidro.

– Bela sala — disse, enquanto ela pegava meu sobretudo e o colocava, dobrado,

no encosto de um sofá.

– Sim, é maravilhosa, não é? Tenho sido muito feliz aqui. — Um silvo agudo, ao

longe, a interrompeu. — Gostaria de tomar um chá? Eu havia acabado de colocar a

chaleira no fogo quando você chegou.

– Só se não der muito trabalho.

– Trabalho nenhum. A água acaba de ferver. Que tipo você prefere: darjeeling,

jasmim ou oolong?

– Você escolhe. Não conheço muito a respeito de chá.

Ela deu um meio-sorriso e apressou-se em direção ao insistente assobio.

Aproveitei para olhar melhor a sala.

Um exótico bricabraque se amontoava em cada superfície disponível. Coisas

como flautas sagradas e rosários budistas, fetiches e figuras de deuses hindus em

papel machê. Na prateleira, livros sobre o Tibet e o I Ching faziam companhia a uma

opaca adaga asteca, entalhada na forma de um pássaro.

Quando M. Krusemark voltou, trazendo uma bandeja de prata e um jogo de chá,

eu estava diante de uma janela, pensando no anel desaparecido do dr. Fowler. Ela

colocou o serviço numa mesa baixa perto do sofá e juntou-se a mim. Do outro lado da

Sétima Avenida, uma mansão em estilo oficial, com colunas dóricas brancas, lembrava

uma coroa escondida no topo do edifício Osborn.

– Alguém comprou o Congresso e mudou-o de lugar? — perguntei.

– Pertence a Earl Blackwel . Ele dá festas maravilhosas. Engraçadas de se

assistir, pelo menos.

Voltamos ao interior da sala e sentamo-nos no sofá:

– Aí está uma cara familiar — disse, virando o rosto para um retrato a óleo de

um pirata envelhecido trajando smoking.

– Meu pai, Ethan Krusemark — atalhou ela, despejando o chá em xícaras

translúcidas de porcelana.

Havia a ameaça de um riso travesso nos lábios determinados, um quê de

crueldade e astúcia nos olhos verdes como os da filha.

– É o construtor de navios, não? Vi sua foto na revista Forbes.

– Ele odiou o quadro. Disse que era como ter um espelho petrificado. Creme ou

limão?

– Prefiro puro, obrigado.

Ela passou-me a xícara:

– Foi feito no ano passado. Acho que a semelhança é incrível.

– Ele é um homem bonito.

Ela concordou com a cabeça:

– Acreditaria que ele tem mais de sessenta? Ele sempre aparentou dez anos

menos que sua verdadeira idade. Seu sol está em conjunção com Júpiter, um indicador

bastante favorável.

Evitei enveredar por esse caminho e observei que ele se parecia com os capitães

de filmes de pirata que eu vira quando pequeno.

– É verdade. Quando eu estava na faculdade, todas as meninas do dormitório

pensavam que ele fosse Clark Gable.

Tomei um gole do chá. Tinha gosto de pêssego fermentado:

– Meu irmão conheceu uma garota chamada Krusemark quando estava em

Princeton — eu disse. — Ela acabou indo para Wel esley, e certa vez leu a sorte dele

num baile no campus.

– Deve ter sido minha irmã, Margaret. Eu sou Mil icent. Somos gêmeas. Ela é a

bruxa da família; eu sou a fada.

Senti-me como um homem que acorda após sonhar que era rico, seu tesouro

dourado desfazendo-se como névoa por entre os dedos:

– Sua irmã mora aqui em Nova York? — perguntei, tentando manter as

aparências. Eu já sabia a resposta.

– Por Deus, não. Maggie mudou-se para Paris há mais de dez anos. Não a vejo

há séculos. Qual é o nome de seu irmão?

– Jack — respondi, já sem o menor ânimo.

– Não me recordo de Maggie ter alguma vez mencionado Jack. É claro, havia

tantos rapazes em sua vida naquele tempo. Preciso que você responda a algumas

perguntas — disse ela, pegando um caderno de couro e uma lapiseira sobre a mesa

—, só assim posso fazer sua carta astrológica.

– Pode começar. — Puxei um cigarro do maço e o coloquei na boca.

Mil icent Krusemark estendeu a mão espalmada em frente ao rosto, como se

estivesse secando as unhas:

– Por favor, não. Sou alérgica a fumaça.

– Pois não — disse, prendendo o cigarro atrás da orelha.

– Você nasceu em dois de junho de mil, novecentos e vinte. Só este dado já me

permite saber um bocado a seu respeito.

– Diga-me tudo sobre mim mesmo.

Mil icent Krusemark encarou-me com seu olhar felino:

– Sei que é um ator nato. Representar para você é algo natural. Você muda de

identidade com a facilidade instintiva de um camaleão mudando de cor. Embora esteja

profundamente interessado em descobrir a verdade, mentiras jorram de seus lábios

sem hesitação.

– Muito bom. Continue.

– Sua capacidade de representar tem um lado obscuro e lhe traz problemas

quando confrontada com a dualidade característica de sua personalidade. Eu diria que

você é freqüentemente assaltado pela dúvida. "Como pude fazer tal coisa?" é sua mais

constante preocupação. Você pode facilmente tornar-se cruel, embora ache

inconcebível essa sua facilidade em machucar os outros. Você é tenaz e metódico,

mas, por outro lado, deposita grande confiança na intuição. — Ela sorriu. — Quanto às

mulheres, você prefere as jovens e morenas.

– Dez com louvor. Você acertou na mosca. — E era verdade. Tudo que ela

dissera estava absolutamente correto. Um analista com aquela capacidade poderia

cobrar o quanto quisesse por suas consultas. Apenas um problema: data de

nascimento errada. Ela estava falando de mim, mas as características vitais eram de

Johnny Favorite. — Sabe onde posso encontrar mulheres jovens e morenas?

– Poderei dizer muito mais quando tiver o que preciso. — A fada começou a fazer

anotações em seu bloco. — Não posso garantir a garota de seus sonhos, mas posso

ser mais específica. Aqui: estou assinalando as posições das estrelas neste mês, para

poder ver como afetam seu mapa. Para dizer a verdade, não o seu mapa, mas o do

rapaz de quem lhe falei. Seus horóscopos são similares, indubitavelmente.

Mil icent Krusemark franziu o cenho, estudando suas anotações:

– Este é um período de grande perigo. Você esteve envolvido em uma morte

recentemente, há cerca de uma semana, no mínimo. O falecido não era alguém que

você conhecesse bem; mesmo assim, você foi profundamente afetado pela morte dele.

A profissão médica está envolvida. Talvez você mesmo acabe num hospital, e logo; os

aspectos desfavoráveis são muito fortes. Tome cuidado com estranhos.

Encarei aquela estranha mulher de preto e senti invisíveis tentáculos de pavor

abraçarem meu coração. Como podia ela saber, tanto?! Minha boca estava seca, meus

lábios, colados um no outro. Então lhe perguntei:

– O que é este ornamento em seu pescoço?

– Isto? — A mão da mulher moveu-se como um pássaro planando, até pousar em

seu pescoço. — É apenas um pentáculo. Traz sorte.

O pentáculo do dr. Fowler não lhe trouxera muita sorte, mas ele não o usava

quando morreu. Ou será que alguém retirou o anel após matar o velho?

– Preciso de mais informações — disse Mil icent Krusemark, apontando a

lapiseira dourada em minha direção, como se fosse um dardo. — Onde e quando

nasceu sua noiva? Preciso da hora e lugar exatos, para poder determinar a latitude e a

longitude. Além disso, você não me disse onde nasceu.

Inventei algumas datas e lugares e fiz o gesto ritual de olhar o relógio antes de

colocar a xícara na mesa. Levantamo-nos ao mesmo tempo, como se estivéssemos

num elevador.

– Obrigado pelo chá.

Ela mostrou-me a porta e disse que os mapas estariam prontos na semana

seguinte. Eu disse que ligaria, e apertamos as mãos com a formalidade mecânica de

soldadinhos de corda.

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12

LEMBREI-ME DO cigarro atrás da orelha no elevador e o acendi, assim que cheguei à

rua. O vento de março parecia tornar a atmosfera mais limpa. Faltava quase uma hora

para meu encontro com Vernon Hyde, por isso desci a Sétima Avenida sem pressa,

tentando entender a razão do inexplicável medo que me assaltara no apartamento

submerso em folhagens da astróloga. "Cuidado com estranhos." Este era o tipo de

besteira que se lê em horóscopos de jornais de quinta categoria. Ela me fizera de idiota

com sua voz de oráculo e olhos- hipnóticos.

A Rua 52 estava em franca decadência. Dois quarteirões ao leste, o 21 ainda

preservava recordações da época em que era uma bem freqüentada casa clandestina

de bebidas. A maioria dos clubes de jazz, no entanto, fora substituída por casas de

strip-tease. Com o fechamento do Onyx, apenas o Birdland ainda mantinha o fogo do

bebop ardendo na Broadway. O Jimmy Ryan e a Casa Hickory eram os últimos

remanescentes de uma rua cujas casas de pedra marrom haviam abrigado mais de

cinqüenta bares clandestinos durante a Lei Seca.

Caminhei para o leste, passando por restaurantes chineses e prostitutas vestindo

apertadas roupas de couro. O trio de Don Shirley estava se apresentando na Casa

Hickory, mas o show só começaria em algumas horas e o bar estava quieto e escuro

quando entrei.

Pedi um uísque sour e sentei-me numa mesa de onde podia ver quem entrava.

Dois drinques mais tarde, entrou um homem carregando um saxofone. Ele usava uma

jaqueta de camurça com elástico nos punhos e cintura sobre um suéter creme de gola

olímpica. Seus cabelos eram curtos e grisalhos. Acenei e ele veio em minha direção.

— Vernon Hyde?

— Ele mesmo — respondeu o homem, com um sorriso de viés.

— Descanse seu machado e beba alguma coisa.

Ele depositou o saxofone cuidadosamente sobre a mesa e puxou uma cadeira:

— Então você é um escritor. Que tipo de coisas escreve?

— Trabalho para revistas, principalmente perfis, matérias com personalidades.

A garçonete apareceu e Hyde pediu uma garrafa de Heinneken's. Conversamos

amenidades até que ela chegasse com a cerveja. Hyde tomou um longo gole e foi direto

ao ponto:

Então você quer escrever sobre a banda de Spider Simpson. Bem, você veio ao

lugar certo. Se cimento falasse, as calçadas lá fora poderiam contar-lhe a história de

minha vida.

— Ouça, eu não quero iludi-lo. A matéria irá mencionar a banda, mas estou

principalmente interessado em ouvir a respeito de Johnny Favorite.

O sorriso de Vernon Hyde retorceu-se ainda mais:

— Ele? Por que cargas d'água quer escrever sobre aquele calhorda?

— Vejo que vocês não eram lá muito amigos.

— Além do mais, quem ainda se lembra de Johnny Favorite?

— Um editor da Look lembra-se dele o bastante para ter sugerido a matéria. E

mesmo você parece ter recordações suficientemente fortes. Como era ele?

— O cara era um bastardo. O que ele fez com Spider foi algo baixo demais.

— E o que ele fez?

— Você tem que entender que Spider o descobriu, tirou- o de uma espelunca

qualquer no fim do mundo.

— Sei disso.

— Favorite devia muito a Spider. Ele tinha uma porcentagem da bilheteria

também, não apenas um salário como o resto de nós, por isso não vejo como pudesse

ter do que reclamar. Seu contrato com Spider ainda se prolongaria por mais quatro

anos, quando ele caiu fora. Algumas apresentações importantes foram canceladas por

causa daquele idiota.

Peguei meu caderno e uma caneta e fingi tomar algumas notas:

— Ele manteve contato posterior com algum dos acompanhantes de Spider?

— Fantasmas falam?

— Como?

— O cara entrou bem, homem. Morreu na guerra.

— Tem certeza? Ouvi dizer que ele estava num hospital.

— Pode ser, mas acho que me lembro de ele ter morrido.

— Disseram-me que ele era supersticioso. Lembra-se de alguma coisa a

respeito?

Vernon Hyde sorriu, repuxando os lábios de novo:

— Sim, estava sempre atrás de sessões espíritas e bolas de cristal. Certa vez,

quando excursinávamos, acho que foi em Cincinnatti, pagamos à prostituta do hotel

para que fingisse ser uma cartomante. Ela disse a Favorite que ele ia bater as botas, e

ele não pôs mais o nariz para fora de nenhum hotel até o final da excursão.

— Ele tinha uma namorada grã-fina que lia a sorte, não?

— É, alguma coisa assim. Nunca cheguei a vê-la. Johnny e eu vivíamos em

órbitas diferentes naquele tempo.

— Segregação racial?

— Você sabe, éramos todos- negros. Só houve um ano em que tivemos um

cubano no xilofone. — Vernon Hyde terminou sua cerveja. — Nem mesmo Duke

El ington quebrou o preconceito da cor naqueles tempos, você sabe.

— Verdade. — Rabisquei algo em meu caderno. — Reunir- se após o show

devia ser uma outra história, completamente diferente.

O sorriso de Vernon Hide perdeu muito de sua faceirice ao relembrar aquelas

salas esfumaçadas:

—- Quando a banda de Count Basie estava na cidade, muitos de nós se reuniam e

tocavam a noite inteira.

— Favorite tomava parte nessas sessões?

— Que nada! Johnny não ligava para acompanhantes. Depois de uma

apresentação, as únicas pessoas negras que ele queria ver eram as empregadas das

suítes de Park Avenue.

— Interessante. Achava que Johnny fosse amigo de Toots Sweet.

— Vai ver que Favorite o convidou alguma vez para engraxar seus sapatos.

Estou lhe dizendo, Johnny Favorite tinha algo contra músicos acompanhantes. Lembro-

me de ouvi- lo dizer que Georgie Auld era melhor tenor que Lester Young, imagine!

Disse-lhe que era incompreensível que alguém pensasse uma coisa daquelas.

— Achava que eles traziam azar — explicou.

— Quem? Tenores?

— Acompanhantes, cara. Para Johnny, eram como gatos pretos, sem nenhum

trocadilho.

Perguntei se Johnny Favorite tivera um contato mais próximo com alguém da

banda.

— Não acho que Johnny tivesse um amigo sequer no mundo. E pode citar-me na

matéria, se quiser. Ele era um solitário, vivia para si próprio. Oh, ele podia brincar com

você, e sempre tinha um enorme sorriso nos lábios, mas isso nada significava. Johnny

tinha charme, nisso ele era bom; usava-o como escudo para manter os outros

afastados.

— O que pode me contar sobre a vida privada dele?

— Nunca o vi, a não ser no palco ou nos ônibus, quando viajámos. Spider

conhecia-o melhor que qualquer um. É com ele que deve conversar.

— Tenho o número dele na Califórnia, mas não consegui entrar em contato com

ele ainda. Outra cerveja?

Por que não? — respondeu Hyde, e pedi outra rodada. Passamos a hora

seguinte trocando mentiras sobre a 52 dos velhos tempos, e o nome de Johnny

Favorite não foi mais mencionado.

13

VERNON HYDE deixou-me logo após as sete e andei duas quadras até o Gal agher's,

onde serviam o melhor filé da cidade. Por volta das nove horas havia fumado um charuto

e tomado uma segunda xícara de café. Paguei a conta e peguei um taxi até a garagem

onde estava o Chevy, oito quarteirões adiante.

Acompanhando o tráfego, rumo ao norte, andei até a Sexta Avenida, cortando

caminho pelo Central Park, depois do reservatório e do Harlem Meer. Após o Warrior's

Gate, na esquina da Sétima com a 110, entrei num mundo de escuras ruas secundárias.

Há um ano não punha os pés no Harlem, desde a demolição do salão de baile do Hotel

Savoy, mas tudo parecia igual. A Park Avenue estava sob as pistas da Nova York

central por estes lados, por isso a Sétima, com suas ilhas de concreto dividindo o

tráfego, era a rua onde importava ver e ser visto.

Ao atravessar a Rua 125, as luzes brilhavam como na Broadway. Mais à frente,

SmalTs Paradise e a casa noturna de Count Basie pareciam cheios e prósperos. Avistei

um lugar para estacionar em frente no Red Rooster, do outro lado da rua, e esperei que

o sinal abrisse. Um rapaz negro, com uma pena de faisão no chapéu, emergiu de um

grupo que espreitava nas sombras e perguntou-me se queria comprar um relógio. Ele

arregaçou as mangas de seu elegante sobretudo e mostrou- me meia dúzia deles em

cada braço:

— Posso fazer um bom preço para você. Legal mesmo.

Respondi que já tinha relógio e atravessei a rua. O Red Rooster era um bar escuro

e acarpetado. As mesas ao redor do palco estavam repletas de celebridades, que

torravam dinheiro ao lado de mulheres em cintilantes vestidos de noite.

Sentei-me junto ao balcão e pedi um tira-gosto. O trio de Edison Sweet tocava no

palco, mas, de onde eu estava, só podia enxergar as costas do pianista curvado sobre o

teclado. Os dois músicos tocavam baixo e guitarra elétrica.

A banda tocava um blues, entrando e saindo da melodia como um colibri numa flor.

O piano pulsava e trovejava. A mão esquerda de Toots Sweet era exatamente como

Kenny Pomeroy dissera. O grupo não tinha a menor necessidade de um baterista. Sobre

o ritmo tristonho e variado do baixo, Toots traçava um intrincado lamento e, quando

cantava, o sofrimento fazia sua voz soar agridoce:

Eu tenho o blues vodu

Esse blues mau e agourento

Petro Loa não me deixa em paz;

Toda noite ouço os lamentos dos zumbis

Senhor, eu tenho o velho e malvado blues vodu

Zu-zu era um mambo, ela amava um hungan

Mexer com Erzuli não estava em seus planos

A maldição dos tom-tons tornou-a uma escrava