Coração de Bilionário por Ruth Candello - Versão HTML

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Ficha Técnica

© 2011 by Ruth Candello

Diretor editorial: Pascoal Soto

Editora executiva: M aria João Costa

Assessores editoriais: Bruno Fiuza e Raquel M aldonado

Preparação de texto: Natalia Klussmann

Revisão: Fabrício Fuzimoto

Designer de capa: M aria M anuel Lacerda

Imagem de capa: © Shutterstock

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE

SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ

C256c Cardello, Ruth

Coração de bilionário / Ruth Cardello; tradução M aria João. – Rio de Janeiro: Leya, 2013.

Tradução de: Maid for the billionaire

ISBN 9788580447842

1. Romance americano I. João, M aria II. Título.

13-0383. CDD: 813

CDU: 821.111.(73)-3

2013

Todos os direitos desta edição reservados a

TEXTO EDITORES LTDA.

[Uma editora do Grupo Leya]

Rua Desembargador Paulo Passaláqua, 86

01248-010 – Pacaembu – São Paulo – SP – Brasil

www.leya.com.br

Este livro é dedicado a Heather e Karen —

duas amigas que jamais se cansam de rever a

história comigo. Ele também é dedicado a

meu querido marido — um homem bom, que

muitas vezes faz todas as tarefas de casa para

me dar mais tempo para escrever.

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UM

Morrendo naquele momento, seu pai tinha ganhado

novamente. Aquele velho desgraçado.

Dominic Corisi bateu a porta de seu Bugatti Veyron

preto e pisou na quente calçada de Boston sem lançar a

seu carro de um milhão de dólares uma outra olhada. A

alegria de o possuir havia morrido há muito tempo, do

mesmo modo que seu desejo de atender o toque incessante

do celular que ele andava ignorando desde a véspera. Em

vez de desligá-lo, ele abafou o som enterrando

profundamente o aparelho dentro de um bolso de seu

casaco, mantendo a conexão com sua vida feito um sinal

de advertência.

Apesar do calor opressivo, ele parou no final da escada

de sua antiga casa de três andares. Não havia nada de

espetacular nela, apenas sua localização perto da animada

rua Newbury. Se ele ainda se lembrava bem, seus quartos

eram pequenos e a escadaria principal sempre fazia um

rangido que nunca chegou a ser consertado. Nada parecida

com as fantásticas mansões que ele agora possuía em

vários países ao redor do mundo.

Mas foi o mais próximo que ele teve de uma casa.

Seu celular tocou com um som que ele não podia

ignorar. Jake. Seu homem de confiança voltaria a

telefonar, matando qualquer chance de Dominic ter um

pouco de paz dentro daquelas paredes de tijolo.

— Corisi — latiu ele para o telefone.

— Dominic, graças a Deus, peguei você — disse

Walton Jake calmamente, como se ele não viesse ligando

sem sucesso por mais de vinte vezes nos últimos dois

dias. Aquele era Jake, calmo e profissional, mesmo em

meio à tempestade das aquisições hostis. Nada intimidava

aquele homem.

Normalmente, Dominic apreciava seu temperamento,

mas, hoje, isso o irritou. Talvez as mais de quarenta horas

sem dormir estivessem começando a fazer efeito. Precisou

lutar contra o impulso de jogar seu celular nos trilhos de

metal. O mundo não era aquele lugar organizado e

racional que Jake queria que fosse. Era uma bagunça. Era

feio. E, mais recentemente, era injusto.

— Tudo bem em Boston?

A pergunta inútil quase fez Dominic explodir.

— O que você acha?

Provavelmente, era esperar demais que aquele

incaracterístico silêncio marcasse o fim de uma conversa

que Dominic queria evitar.

— Precisamos discutir o contrato com a China. O

Ministro do Comércio está esperando para se encontrar

com você amanhã e discutir os detalhes. Esse é seu sonho,

Dominic. Na próxima semana, a Corisi Entreprises será

um grande parceiro mundial. O que você quer que eu diga

para o Ministro?

— Não sei — disse Dominic, cansado.

Jake fez um som entre um estrangulamento e uma tosse,

então ficou sem palavras — uma resposta esclarecedora

para um homem que tratava com coléricos diplomatas

internacionais sem perder o passo. Ele sempre estava no

comando e resolvia qualquer assunto inesperado com

facilidade. Até agora.

Pobre Jake. Nada na história que eles partilhavam tinha

preparado um dos dois para o desejo repentino de

Dominic de retirar-se do mundo. Criadores de impérios

financeiros não saem de férias de repente e, sem dúvida,

eles jamais se escondem, especialmente depois de

haverem preparado o terreno para um empreendimento

único, o maior do século. O próprio Bill Gates havia

telefonado a ele na semana anterior para discutir as

ramificações do negócio.

— Jake, por favor, vê se me esquece por uma semana.

Por que você não trata do contrato com a China?

— O-o-o-k! — falou Jake, sem jeito. Em outra situação,

a perda de compostura de Jake teria até sido divertida.

— Você pode resolver isso ou não? — Quis saber

Dominic, desafiador. Ele mal conseguia pensar em outra

coisa além de sua enorme dor de cabeça.

Talvez vir para Boston tivesse sido um erro. Fora ali,

aos dezessete anos, que ele largara sua herança e virara

garçom para financiar a busca de sua mãe. Ali, naquela

casa de três andares, ele tinha cultivado seu ódio por um

pai que havia se negado tanto a se envolver como a se

interessar pelo desaparecimento da esposa. A voz de Jake

trouxe Dominic de volta ao presente.

— Sem problema. Eu acompanhei suas negociações

com a Agência Chinesa de Promoção de Investimentos.

Eles estão ansiosos. Desmarcar minha agenda e cobrir os

seus horários. Duhamel irá encaminhar todas as chamadas

para mim até novo aviso.

— Ótimo!

— Dom… — Jake hesitou. — É normal você estar

precisando de um tempo de luto. Acabou de perder seu

pai.

Dominic deixou escapar uma risada áspera.

— Acredite em mim, Jake, não estou me sentindo nem

um pouco de luto. — Ele encostou o quadril no corrimão

de metal e olhou o edifício para onde, instintivamente,

estava voltando em busca do homem que um dia havia

sido e onde esperava encontrar alguma coisa que

chacoalhasse a apatia em que estava vivendo desde

aquela época; grandes expectativas depositadas naqueles

tijolos e naquele papel de parede antigo.

— É isso que está me preocupando. Não importa quais

eram seus planos ou o que ele fez com você, ele se foi. E

agora você precisa deixá-lo em paz. — Jake falou.

Jake estava lhe pedindo algo impossível. É claro que o

passado era importante. Por vezes, era mesmo a única

coisa importante.

— Faça seu trabalho, Jake. Se não der, me avise e eu

coloco Priestly para ajudá-lo.

Pela segunda vez, desde que eles haviam se conhecido

em Harvard, Jake perdeu a paciência.

— Besteira, Dom! Você quer mandar Priestly para a

China? Mande ele. Você está certo. Você me fez um

homem muito rico. Eu não preciso mais disso. Mas eu

estou avisando, você não vai continuar bilionário por

muito tempo se ficar longe do leme. Há muito em jogo

com este contrato. Se você estragar tudo, basta um

processo judicial para congelar todos seus bens. Você

investiu a maior parte de seu dinheiro e agora está

jogando com os maiores. Os governos não perdoam

quando você recua no último momento.

Esse discurso deveria ter abalado Dominic, mas nem

chegou a perturbar o entorpecimento em que ele estava

desde que havia recebido o telefonema do advogado de

seu pai. Afinal, o que importava todo aquele dinheiro? Ele

passara os últimos quinze anos de sua vida construindo

um império para, um dia, poder atirar aquele gigantesco

contrato na enorme mesa de mogno do pai. Dominic

deveria ter agido anos atrás, mas seu nível de sucesso

jamais lhe parecia suficiente. Ele havia coreografado esse

dia de ambos os lados, a construção de sua empresa à

medida em que minava a de seu pai, sempre trabalhando

para aquela vitória absoluta. Dominic imaginava que o

desespero do pai finalmente o forçaria a confessar o que

realmente havia acontecido com sua mãe.

Agora, era essa a perda que ele lamentava.

Em vez de tudo isso, recebera do advogado de seu pai

um conjunto de instruções cuidadosamente orquestradas.

Não, não chegava simplesmente deserdar seu único filho;

Antonio Corisi também tomara medidas para que Dominic

assistisse à leitura do testamento. Ele usara a única

fraqueza de Dominic, sua única dor, para reafirmar seu

controle, até mesmo no túmulo.

Jake tossiu, lembrando a Dominic que precisava de uma

resposta. O que poderia dizer? Como de costume, Jake

estava certo ao avaliar a situação. Dominic havia usado

sua própria fortuna, bem como a de outros investidores,

para apoiar aquele empreendimento. O risco parecia valer

a pena. O contrato com o governo iria obrigar o mercado

chinês de software a se abrir para eles e sua influência

global dobraria exponencialmente. Havia sido uma jogada

ousada que, se cuidadosamente executada, iria colocar a

Corisi Enterprises na estratosfera do poder, onde poucas

empresas chegavam; uma meta que há uma semana parecia

imperativa.

Jake podia liderar as negociações. Dominic sempre

havia sido aquele que ia à frente, avaliando a situação e

abrindo caminho. Desta vez, não seria diferente. Desta

vez, Jake apenas assumiria suas funções um pouco mais

cedo. Priestly era bom no terreno, mas não estava ao nível

de Jake.

— Uma semana, Jake! — Isso era a coisa mais parecida

com um pedido de desculpas que Dominic era capaz de

falar. Ele esperava que fosse suficiente.

— Tire duas semanas, se você precisar — disse Jake,

parecendo mais um irmão mais velho do que um parceiro

de negócios. — Coloque sua cabeça no lugar. Eu cuido do

contrato com a China mas, no final, você vai precisar

assinar e estar presente. Eu vou fazer um comunicado para

a imprensa hoje mesmo e pedir que a mídia respeite seu

luto privado; isso vai dar a você alguns dias até os

jornalistas aparecerem por aí.

— Telefone para Murdock. O homem me deve alguns

favores.

— Você está querendo dizer o Murdock? Achei que ele

tinha se aposentado.

“Ah! Essa é a verdadeira diferença entre nós dois”,

pensou Dominic. Jake jamais combatera nas trincheiras da

guerra financeira e suas parcerias empresariais haviam

permanecido acima de qualquer suspeita, no entanto, por

isso mesmo, ele também não tinha aquelas importantes

ligações com pessoas que pareciam sem importância mas

que, de fato, exerciam uma influência mundial.

Casualmente, Dominic deu a Jake um número de celular

que muitos teriam desembolsado uma pequena fortuna

para discar apenas uma vez.

— Homens como Murdock não se aposentam, eles se

mudam para climas mais quentes. Diga a ele que eu não

quero nem uma boa notícia sobre isso. É sem notícia. Ele

vai entender.

Jake assobiou, elogiando.

— Tem alguém que você não conhece?

— Sim, tem. Você mesmo, se voltar a me ligar hoje.

Jake riu, mas ambos sabiam que não havia sido uma

piada.

— Ora, por favor, Dom… — Jake continuava falando

em um tom incomumente autoritário.

O que ele queria agora? Dominic suspirou.

— Largue o uísque por uma noite e pegue uma dessas

modelos com quem você costuma ficar. Você vai dormir

melhor.

Dominic deu um grunhido não comprometedor e

desligou. Se fosse assim tão fácil.

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DOIS

Carregando uma enorme pilha de lençóis, Abby

Dartley ficou gelada quando ouviu o clique da

abertura da porta da frente. Droga. Ela não podia ser

apanhada ali, especialmente quando estava usando uma

camisa grande demais e calça jeans em vez do uniforme

de empregada de sua irmã. Lil precisava daquele

emprego. Limpar a casa de um homem que jamais morava

ali havia parecido uma maneira bem simples, embora

chata, de ajudar sua irmã a manter aquele emprego.

— Não deixe ninguém ver você. — Lil havia implorado

em meio a um acesso de espirros acompanhados de febre

baixa porém persistente. — Eles vão me botar no olho da

rua se descobrirem que você está fazendo meu trabalho.

— Você não pode telefonar a eles, avisando? — Abby

lembrou de sugerir, esperançosa.

— Eu já usei meus dois dias de falta por doença com

Colby. — E começou a chorar.

Um ano atrás, Abby teria deixado sua irmã adicionar

mais este emprego à longa lista dos que ela já havia

perdido e teria pago suas despesas até Lil encontrar outro

trabalho. Isso já havia acontecido um monte de vezes,

resultando apenas em mais e mais ressentimento de Lil

contra Abby a cada ano que passava. A intimidade que

elas haviam partilhado até que a morte de seus pais

parecia agora uma memória bem distante e surreal.

Abby havia, inclusive, pensado em pedir a Lil que

saísse de sua casa, esperando que uma separação fizesse a

irmã caçula virar a mulher independente que ela sempre

falava que queria ser, mas isso tudo havia sido antes de

segurar em seus braços sua nova sobrinha. Agora, não era

apenas Lil. Colby precisava ter uma mãe com uma

carreira estável e Lil estava bem perto de conseguir isso.

Faltava apenas um semestre para que terminasse seu curso

de assistente administrativa. Mesmo quando o pai de

Colby ficou sabendo da gravidez de Lil e deu o fora, a

irmã mais nova não havia desistido. Pela primeira vez,

desde que haviam recebido a notícia do acidente que

matara os pais delas, Lil não estava fugindo de suas

responsabilidades.

Colby também havia mudado isso.

Lil não tinha culpa de ter pegado aquela gripe. Metade

da cidade ou estava se recuperando ou estava sucumbindo

a ela. Mais importante ainda, havia muito que Lil

começara a pedir ajuda, em vez de aceitá-la a contra

gosto. Abby não queria dar muita importância a uma

mudança tão pequena, mas ela sentia certa esperança de

que as coisas entre ela e sua irmã melhorassem.

A primeira impressão de Abby, quando viu o homem na

entrada da casa, sem notar a presença dela, foi que ele

parecia bem mais cansado do que alguém de sua idade

deveria. Círculos escuros eram evidentes, mesmo contra

sua pele cor de oliva. Seu terno caro não fazia nada para

esconder o fato de que seus ombros largos estavam

caídos. De acordo com Lil, ele pagava para ter a casa

limpa semanalmente mas, na verdade, havia mais de uma

década que não aparecia por ali. Alguma coisa o havia

trazido de volta e, o que quer que fosse, tinha caído direto

em cima dele.

Ele olhou para cima e através dela enquanto atravessou

o átrio.

— Agora você pode ir.

Ela pensou em seguir aquela ordem cansada, mas algo a

manteve imóvel.

— Você é surda? Eu mandei você sair. Acabe o que

está fazendo amanhã.

Sr. Armani parecia uma criança demasiado cansada,

embora ela tivesse certeza que ele não iria gostar dessa

comparação.

A coisa mais sábia a ser feita teria sido obedecer e sair

antes que ele tivesse a chance de questioná-la sobre seu

traje, mas ela não podia.

Ele não se parecia com alguém que deveria ficar só.

Ela estava simplesmente projetando? Seus amigos,

muitas vezes, diziam que ela costumava ver coisas onde

não existia nada para ser visto, mas isso era por causa de

seu trabalho. Uma professora do ensino médio sempre

precisa ver além da bravata. Abby ensinava inglês para

não falantes do idioma, então ela sempre trabalhava nas

escolas mais problemáticas da cidade. Ela sabia como

controlar a raiva mal direcionada. Irreverência era um

grito por socorro. Palavras duras frequentemente

escondiam medo. Sua paciência acabava sendo

recompensada. Seus estudantes voltavam, anos após ano,

para agradecê-la pela confiança. Abby sabia que, para

alguns daqueles garotos, ela era a única pessoa que

demonstrava confiar neles. Mas aquilo ali não era sua sala

de aula, na verdade, ela não tinha ideia de quem seria

aquele homem.

Ela quase podia ouvir a voz de Lil dizendo que algumas

coisas simplesmente não eram da sua conta, e ela estava

certa. Como costumava acontecer com sua irmã,

certamente este homem também não receberia bem seus

cuidados, mas isso não impediu que o coração de Abby

sentisse ternura por ele.

Ela colocou os lençóis sobre uma mesa que estava ali

do lado, no corredor, e falou:

— Há toalhas limpas lá em cima. Por que não toma um

banho e eu vou no mercadinho da esquina comprar alguma

coisa para você comer?

As costas dele se endireitaram e ela prendeu a

respiração, se sentindo insegura com o impacto de sua

atenção. “Nossa, como ele é lindo!” Seus olhos cinza-

escuros pousaram sobre ela, faiscando de irritação e,

depois, algo mais. Em algumas curtas passadas, ele se

aproximou. O cheiro de álcool a atingiu quando ele parou

apenas a alguns centímetros. Ela inclinou a cabeça para

trás a fim de olhar para ele.

— Foi Jake que mandou você? — perguntou ele,

avaliando-a. — Você não se parece com uma modelo.

Ela piscou algumas vezes, surpresa, um pouco de sua

simpatia por ele havia desaparecido.

— E você não cheira como um homem que está usando

um terno Armani, mas eu nem ia comentar isso — ela

respondeu num acesso de raiva.

As palavras de Abby mexeram com ele, seus ombros se

endireitaram e seus olhos se estreitaram. Aquele homem

não estava acostumado que as pessoas lhe respondessem,

mas se ele estava tentando intimidá-la, sua proximidade

estava criando uma reação totalmente diferente no corpo

de Abby. Mesmo em seu terno amarrotado, ou talvez por

causa dele, ele era o homem mais sexy que ela jamais

havia visto pessoalmente. Homens como ele existiam

apenas no cinema e nos livros. Ela sentiu vontade de

passar a mão em seu rosto e acariciar sua barba áspera.

— Eu não disse que você não é atraente — rosnou ele.

— Você só não é magrinha como as mulheres com as

quais estou acostumado.

Então era assim. Ela colocou as mãos nos quadris e

levantou as sobrancelhas em um desafio silencioso.

O tempo congelou enquanto aquele impasse continuava.

O olhar de chateado dele ficou repleto de expectativa de

que ela fosse fazer alguma coisa para lhe agradar. Mas ela

simplesmente continuou a olhá-lo nos olhos, dando a ele

tempo para pensar melhor no que dizer a seguir. Ele

desviou o olhar primeiro, um leve rubor colorindo seu

pescoço.

— Ok, foi mal. — Ele passou a mão, frustrado, por seu

espesso cabelo negro, deixando-o um pouco despenteado

e ficando ainda mais sexy… Se é que isso era possível.

Ele já ganhara uma nota doze ou um treze na escala de um

a dez dela, mesmo depois de Abby haver descontado

alguns pontos por falta de habilidades sociais. — Você

acabou de me dizer que estou fedendo?

Não havia nada de cansado na maneira como ele se

inclinou até que seus lábios quase se tocaram. O cheiro de

sua pele se misturava com o do álcool numa combinação

inebriante. Ele era um macho completo, indomável e

interessado apenas na resposta a sua pergunta. Nenhum

homem jamais olhara para ela com tanta intensidade. A

energia sexual dele exigia uma resposta que o corpo dela

parecia muito disposto a oferecer. Abby precisou lutar

contra o desejo de acabar com a curta distância entre os

dois. Ela havia perdido demais para acreditar em alguma

coisa que fazia ela se sentir tão bem. Abby deu meio

passo para trás e levantou uma mão apaziguadora.

— Eu não quis ser dura.

Os cantos da boca dele se contorceram, divertidos.

— Você sabe quem eu sou? — Perguntou ele, fazendo

com que suas palavras, de algum modo, soassem com

mais curiosidade do que pompa.

Talvez a tragédia houvesse trazido a ele um pouco de

notoriedade, mas Abby não assistia muita tevê e, como

sempre, Lil havia apenas dado a ela a breve informação

necessária, numa conversa tensa, típica daquilo em que o

relacionamento delas havia se transformado.

— Eu espero que você seja o dono dessa casa, caso

contrário, eu vou ter problemas por ter deixado você

entrar — disse ela, com um humor um pouco forçado.

Ele não riu.

— Você não sabe mesmo, não é? — A pergunta dele

soou estranhamente esperançosa.

Abby encolheu os ombros, mas os cabelos de sua nuca

se arrepiaram. Que gênero de homem se sente aliviado

por não ser reconhecido?

“Um criminoso. Droga!”

Roupas chiques não significavam nada. Aquele terno

podia ter ficado amassado durante a briga com seu

verdadeiro dono. Ela balançou a cabeça quando pensou

isso.

— Você é mesmo o dono dessa casa, não é?

Ele não respondeu e ela olhou em volta, procurando

alguma coisa para atirar na cabeça daquele homem no

caso de precisar correr até a porta. O objeto mais

próximo era um enorme abajur de latão. Se ele fizesse um

movimento rápido…

Abby sentiu que todos os seus pensamentos coerentes

fugiam de sua cabeça quando ele sorriu levemente

passando suas mãos pelos dois braços dela.

— Sim, eu sou o dono dessa casa.

O coração dela não precisava ficar batendo com força

só por que um homem estava se preparando para contê-la

caso ela o atacasse mortalmente com um abajur de latão.

Ela já havia estado perto de outros homens antes, porém

suas

relações

anteriores

sempre

haviam

sido

aproximações cautelosas. E também nenhum homem

colocara em sua mente as palavras “abandono carnal”

como aquele estava fazendo. Quando ele olhava para ela,

nada nem ninguém mais existia.

— Antes de você me socar, quer ver minha carteira de

identidade? — Perguntou ele enquanto seu polegar traçava

a linha da clavícula dela ritmicamente. Hipnoticamente.

— Quer? — Ele insistia em uma resposta.

— Sim — disse ela, sem folêgo, não conseguindo se

concentrar em mais nada além da maneira como seu corpo

estava respondendo ao toque dele. A pele de Abby

queimava com suas carícias suaves. O estômago tremia

em antecipação. “Sim, para tudo o que você pedir”, ela

pensou.

A excitação que prendia ela aquele homem e o prazer

com que os olhos dele lhe correspondiam a perturbavam

demais. Abby deu um passo para trás, se afastando do

toque dele e tentando colocar as ideias no lugar. Esse tipo

de paixão não tinha cabimento na vida que ela havia

construído para si mesma.

— Não, eu queria dizer. Não, eu acredito em você.

Você está certo. Preciso ir. Eu posso terminar tudo

amanhã.

Ele baixou ligeiramente as pálpebras, tornando ilegíveis

seus pensamentos.

— Sabe no que estou pensando? — Perguntou a ela.

Ela se sentiria perplexa se ele também estivesse

imaginando os dois nus, rolando no macio tapete da sala.

— Não — Abby murmurou.

— Estou morrendo de fome e odeio comer sozinho. Eu

ficaria muito grato se você aceitasse se juntar a mim para

comer alguma coisa.

Não era sensato. Havia, no mínimo, uma centena, talvez

até mesmo um milhar, de razões para ela precisar ir antes

de fazer alguma bobagem. No entanto, se sentia tentada.

Era mais do que a largura de seus ombros atléticos,

mais do que a linha forte de sua mandíbula. Ela nem

sequer podia culpar a tristeza nos olhos dele, porque o

homem cansado de antes havia sido substituído por um

homem viril que sabia exatamente como conseguir tudo

aquilo que desejava. E era a ela que ele queria.

Cada célula sensível do corpo de Abby pedia a ela para

dar de costas e correr, mas não era isso mesmo que ela

sempre fazia quando a vida oferecia a ela alguma coisa

que considerava boa demais para ser verdade? Ela

sempre escolhia segurança e certeza, em vez de sonhos e

desejos menos confiáveis.

Porém, dessa vez, ela estava querendo provar aquilo

que faltava em sua vida. Dessa vez, ela não iria fugir.

Bom, não imediatamente, pelo menos.

Ela iria comer alguma coisa com aquele deus que estava

ali, junto a ela, iria desfrutar a maneira como sua pele

formigava apenas com um olhar dele, e sairia antes que

alguma coisa mais acontecesse. Ele não precisava comer

sozinho e, por uma hora, ela podia sonhar que tudo aquilo

era real.

— Tem problema com chinês? — Perguntou Abby

enquanto pensava em todos os restaurantes com sistema de

entrega que conhecia.

A pergunta pareceu chocá-lo.

— Chinês o quê?

— Comida!

— Oh! — Ele relaxou visivelmente. — Eles entregam

aqui?

— Sim, há um bom restaurante aqui bem perto e eles

têm serviço de entrega… A não ser que você queira que

eu procure outra coisa.

— Não. — Ele abanou a cabeça, se lembrando de

alguma coisa divertida. — Desculpe, por um instante eu

me esqueci... — Colocou as mãos nos bolsos e balançou

nos calcanhares, continuando a parecer muito divertido

com seus pensamentos.

— Você se esqueceu do quê? — Ela não foi capaz de se

impedir de perguntar.

Com uma ternura inesperada, ele colocou um dos

cachos dela para trás da orelha.

— Que você é exatamente aquilo de que estou

precisando. — Antes que ela pudesse recuperar o folêgo,

ele recuou e lhe entregou um monte de dinheiro, sem

mesmo querer saber que comida ela iria pedir. — Peça

alguma coisa para nós comermos enquanto eu tomo um

banho. — Seu charme mortífero retornou quando ele

sorriu, afastando-se, e então falou por cima do ombro: —

Alguém disse que eu estava precisando um.

Abby usou as cédulas para abanar seu rosto vermelho à

medida em que via aquele homem subir os degraus de

dois em dois. Enquanto buscava sua bolsa e seu celular,

Abby não conseguia se livrar da imagem mental daquele

Sr. Armani, nu, debaixo do vapor e da água que caía do

chuveiro.

“Um homem sexy assim só trazia confusão.”

Mas, felizmente, depois de hoje, ela jamais voltaria a

encontrá-lo. Eles iriam compartilhar uma refeição rápida

e logo após ela voltaria para junto de Lil, para sua vida

real.

Voltaria para aquela vidinha quieta e previsível que

havia construído para si mesma.

Esse pensamento pareceu a ela menos atraente do que o

habitual.

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TRÊS

Aquele banho quente que ele havia tomado, em um

banheiro tão pequeno que facilmente caberia em um

dos armários de uma de suas muitas mansões, havia sido

revigorante e rápido. Ele se secou com uma toalha macia,

lutando para afastar uma excitação de adolescente. Seu

sangue fervia sempre que ele se perguntava o que sua

empregada estaria fazendo… E isso acontecia a cada dez

segundos.

Ela não era o tipo de moça de capa de revista, está

certo, mas ele gemeu ao se lembrar do que tinha falado

para ela. Como ela era gostosa. Ele podia atribuir sua

grosseria ao cansaço que sentia, mas a verdade é que

estava suspeitando que isso tinha mais a ver com o modo

como as curvas dela se encaixavam perfeitamente na calça

jeans.

Ela era gostosamente arredondada naqueles lugares

onde as mulheres devem ser arredondadas. Sua pele era

clara e sem maquiagem, salpicada por sardas, e seus

cachos morenos, que sempre escapavam às tentativas de

serem colocados no lugar certo, acrescentavam

ingenuidade a sua imagem. Nada naquela moça deveria tê-

lo impressionado, mas quando ela o olhou com seus

escuros olhos âmbar, ele quase parou de respirar.

Ela parecia inocente e saudável, exatamente o tipo de

mulher que ele normalmente evitava. Não tão inocente,

porém, se o fogo que saltou de seus olhos quando o

homem se aproximou fosse uma indicação. Ela ficara ou

teria aproveitado que ele fora tomar banho para ir

embora? Essa incerteza era uma novidade e, de alguma

maneira, tratava-se de uma experiência desagradável para

ele. Impaciente, passou o pente pelos cabelos, vestiu suas

calças cáqui, uma camisa de algodão branca e se obrigou

a caminhar calmamente em vez de correr pelas escadas

para se certificar de que ela ainda estava lá.

Ele sabia que era um homem muito atraente mas fazia

tempo desde que uma mulher olhava para além de sua

fama e de sua imensa fortuna para enxergá-lo como

pessoa. Agora, sua diarista não só não tinha ficado nem

um pouco impressionada com suas roupas caras como

também havia criticado seu comportamento. Além de

Jake, com sua recente fúria, ele não conseguia se lembrar

de nenhuma outra pessoa com tal atrevimento.

E ele gostava disso.

A moça, lá embaixo, também não tinha a mínima ideia

de quem ele era, ou estava fingindo não ter para aumentar

seu interesse por ela. Em qualquer caso, estava

conseguindo. Ele estava se sentido cada vez mais

interessado por aquela mulher.

Dominic se obrigou a descer os degraus um a um, bem

devagar. Nessa noite não haveria pressa. Não, ele queria

saborear cada momento e cada centímetro daquela bonita

moça.

Ela estava ajoelhada em uma almofada, ao lado de sua

antiga mesa de centro feita de mármore, abrindo as caixas

de comida que o entregador trouxera. Quando ele se

aproximou, ela olhou para cima e por um momento

pareceu estar reconsiderando sua decisão de ficar. Ela se

levantou rapidamente, porém se manteve firme quando ele

parou de maneira deliberada perto a ela.

“Droga, como ela é cheirosa!”

As pupilas dela se dilataram mais, escurecendo seus

olhos, exatamente como ele havia previsto que

aconteceria. Ele sabia que ela não ia ceder fácil.

Provavelmente, era essa emoção de ter pela frente uma

excitante caçada que estava fazendo-o se sentir vivo, pela

primeira vez em muito tempo. No entanto, sem esforço

algum, aquela moça havia conseguido aquilo que, na noite

anterior, uma garrafa inteira de uísque não pudera fazer;

ela havia calado as questões que se debatiam

incessantemente na cabeça dele.

Ela apontou para a refeição informal na frente deles.

— Assim está bom?

A mesa tinha dois copos com água e os pratos de papel

que o restaurante havia mandado. Ele falou antes de

conseguir pesar suas palavras:

— Acho que é a primeira vez que vou comer no chão.

Ela se virou e começou a recolher as caixas.

— Você está certo. Um homem como você sempre come

na mesa da sala de jantar. Eu mudo…

Ele segurou o braço dela, a impedindo de apanhar outra

caixa de comida.

— Eu não disse que não iria gostar. Eu só disse que

jamais havia comido assim. — Tocá-la era bom, muito

bom. Ele lentamente soltou o braço da moça e pegou as

caixas que ela estava segurando, colocando-as sobre a

mesa. — Sente-se — ordenou.

As sobrancelhas dela levantaram, em surpresa.

— As pessoas sempre fazem o que você manda? —

Perguntou ela, mantendo-se de pé.

— Normalmente, sim! — Respondeu ele, com um

grande sorriso e sem mostrar arrependimento algum.

Fogo brilhou naqueles olhos cor de âmbar.

— Eu não tenho certeza se eu gosto de você.

Um arrepio de excitação percorreu o corpo dele.

— Eu não tenho certeza de que você precise gostar.

Seus olhos se encontraram e não havia como esconder a

atração escaldante entre eles. Ele desviou o olhar

primeiro, voltando a se sentar em sua almofada e

ocupando as mãos com o ato de abrir cuidadosamente um

par de pauzinhos. Ele se ajoelhou em sua própria

almofada sem tirar os olhos de cima dela. Ela pegou uma

das caixas de comida, para se servir de um pouco, e ele se

sentiu estranhamente excitado. Não sabia quase nada

sobre aquela moça, mas seus gostos o interessavam.

“Quase nada?”, ele pensou. Droga! Ele não sabia sequer o

nome dela. Mas ele não queria perguntar porque isso o

obrigaria também a dizer o seu. Só por essa noite, ele não

queria que o mundo lá fora se intrometesse entre eles dois.

— Obrigado — disse ele simplesmente.

A mão dela tremia e quase deixou cair o frango

agridoce que estava colocando em seu prato. No último

segundo, ela endireitou a caixa e a colocou novamente

sobre a mesa, com a mão trêmula.

— Por que você está me agradecendo?

Ele esperou ela voltar a olhá-lo para responder:

— Porque você não foi embora. Ficou aqui.

Ela inclinou a cabeça para o lado e falou baixinho:

— Você parecia precisar de alguém para conversar.

— Conversar? — Zombou ele.

Isso não era o que as mulheres normalmente ofereciam a

ele e, com certeza, não era o que ele estava buscando

nessa noite. Ele deu a ela seu mais sugestivo sorriso.

— É disso mesmo que você acha que eu estou

precisando?

Inesperadamente, ela respondeu de maneira mordaz em

vez de oferecer uma resposta melosa.

— Espere! Não fale nada. Você também não tem o

costume de conversar, certo?

Ele não pôde deixar de rir. Ela era dona de um senso de

humor que o fazia rir. Há quanto tempo ele não encontrava

uma mulher que não fosse emocionalmente entediante e

pegajosa?

— Você não é como as mulheres com que estou

acostumado — falou espontaneamente. Ela ia dizer

alguma coisa mas ele a cortou. — E isso é bom.

Ela gemeu e desviou o olhar.

— Não, de novo, não.

Ele se inclinou sobre a mesa e segurou o queixo dela de

maneira suave, apenas com um dos dedos, erguendo-o até

que ela o olhasse de novo nos olhos.

— Obviamente, meu charme está enferrujado. — Ele

passou o dedo, suavemente, nos lábios dela, vendo eles se

abrirem instintivamente, e precisou refrear o desejo de

levantá-la por cima da pequena mesa que estava entre os

dois. — Estou tentando dizer que acho você muito

atraente.

Ela engoliu nervosamente, afastando seu queixo do

alcance dele. E pegou mais uma vez nos pauzinhos,

distraída.

— Se você quer mais do que companhia durante a

refeição, então escolheu a mulher errada — disse,

enchendo rapidamente a boca com arroz enquanto ele

digeria o que ela acabara de falar.

Ele se sentou sobre os calcanhares.

— Tão cerimoniosa e formal. Você sempre começa seus

encontros com uma declaração assim?

Ela continuou comendo, dando pequeninas mordidas na

comida, e falou:

— Isto não é um encontro.

— Mas poderia ser.

Ela se engasgou com a comida e pegou o copo d’água.

Depois de beber um pouco, levantou-se e anunciou:

— Isto foi um erro.

Ele se levantou rapidamente, bloqueando sua saída.

Sentiu que a respiração dela ficava mais rápida.

— Diga que eu não estou louco, diga que você também

está com vontade. — Ele a puxou suavemente contra seu

corpo, até seus corpos ficarem grudados um no outro.

— Não acho uma boa ideia.

Ele roçou seus lábios nos dela, muito levemente,

conseguindo calar seus protestos. Por um momento, ela

não correspondeu, se manteve fria em seus braços. Então,

deu um estremecimento e seus lábios começaram a se

mover contra os dele. Ele foi aprofundando o beijo e o

corpo dela foi relaxando contra o daquele homem. Ela

suspirou e seus braços, que antes estavam rígidos, se

enroscaram calorosamente em torno do pescoço dele.

Ele se moveu um pouco para trás e ela precisou ficar na

ponta dos pés e deixou seu corpo descansar

completamente sobre o dele. Com um gemido, ela se

colou mais ainda a ele, excitando-o mais e mais. Nada

mais interessava a ele, só aquela mulher, aquela noite.

— Fique comigo esta noite — murmurou contra o

pescoço dela. — Se eu soubesse que minha diarista era

tão sexy eu já teria vindo a Boston há mais tempo.

Ela se afastou de forma tão abrupta que ele deixou cair

os braços.

— Droga! — Exclamou ela, e continuou a se afastar

dele.

Ele estendeu de novo a mão para ela que, desta vez, se

esquivou. Qualquer conexão que haviam estabelecido

havia sido claramente quebrada por sua menção ao

trabalho dela naquela casa. Ele lamentou de imediato a

estupidez que acabara de cometer.

— Eu preciso ir. — Ela começou a caminhar,

descrevendo um grande círculo em torno dele, tentando

chegar à porta.

— Fique. Eu sei que isso é uma loucura. Eu sempre fiz

questão de me afastar de...

— De encontros amorosos com a diarista? — Ela

sugeriu, sua voz cheia de censura pelo julgamento dele.

— Sim, mas só porque eu nunca quis deixar ninguém em

uma posição desconfortável... — Ele reconheceu a ironia

de suas palavras enquanto tentava se colocar entre ela e a

porta. Mas agora era diferente. Ela era diferente.

— Como você é simpático — disse ela.

— Eu não quero saber se você é a diarista. Isso não

interessa.

— Pois eu acho que interessa.

Ele bloqueou a porta. Ela não podia ir embora. Não

assim.

— Fique.

— Não posso. Eu preciso mesmo ir.

— Mas não é isso que você quer.

— O que eu quero é que você pare de bloquear essa

porta e me deixe sair — respondeu ela.

Ele deixou cair as mãos e saiu do caminho. Ela não

podia estar falando sério.

— Por que negar? Você está querendo isso tanto quanto

eu.

Ela passou por ele se dirigindo para o átrio sem nem

mesmo olhar para trás. A voz dela soando mais nervosa

do que raivosa.

— Eu avisei que ficava para lhe fazer companhia

enquanto você comia, nada mais.

Sua atração por aquele homem não era imaginação dele.

Ela havia gostado daquele beijo tanto quanto ele. Primeiro

quente, depois frio. Tudo fora um jogo? Se era isso, ele

não tinha a menor intenção de o perder. Ele só conhecia

uma maneira de saber das verdadeiras intenções daquela

moça.

— Você fica se eu lhe pagar dez mil dólares? —

Perguntou.

Ele sentiu uma pontada de decepção quando ela parou

antes de abrir a porta e voltou-se para encará-lo.

— Você acha que eu estou à venda?

Ele esperava que não.

— Dou cem mil. Você fica? — Ele forçou as palavras.

— Você está achando que pode falar assim comigo só

porque eu sou a diarista? — Ela colocara as mãos nos

quadris, seus olhos faiscavam de raiva, e tudo isso só a

fazia ficar ainda mais bonita.

O teste final.

— Você é uma negociadora astuta. Um milhão. Eu

jamais conheci uma mulher que valesse esse dinheiro, mas

desconfio de que não vá me arrepender desta noite.

Ela abriu a porta com uma das mãos e falou:

— Você é um porco, um porco egoísta. Se você tem

esse milhão de dólares, sugiro a você enrolá-lo e enfiar

no seu... — A última palavra se perdeu debaixo do som

da porta batendo atrás dela.

Ele sabia exatamente onde ela havia sugerido que ele

colocasse o dinheiro.

Seu riso abafado explodiu em uma sonora gargalhada.

Ele riu tanto que as lágrimas começaram a cair de seus

olhos. Liberar a tensão o fazia se sentir bem. Nossa, como

aquela mulher era incrível! Ele recordou tudo o que havia

se passado naquela noite e riu ainda mais. Depois, se

sentou novamente em sua almofada, junto da mesinha de

centro, e encheu seu prato com arroz frito.

Ela voltaria.

Ele iria fazer com que ela voltasse.

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QUATRO

Osom das gargalhadas daquele idiota fizeram Abby ter

vontade de voltar a abrir a porta e jogar um sapato

no rosto dele. Mas não foi isso que ela fez. Em vez disso,

ela respirou profundamente enquanto descia as escadas de

pedra. Uma grande parte de seu trabalho como professora

era ensinar as virtudes de respostas não violentas a

conflitos. O Sr. Armani estava exigindo que ela usasse

muito dessa filosofia.

Ele lhe havia oferecido dinheiro, como se ela fosse uma

prostituta. Que tipo de homem faz isso? O tipo de homem,

ela lembrou a si mesma, que dorme no carro ao sair dos

bares.

Abby olhou por cima do ombro para ter certeza de que

ele não a estava seguindo e falou para ela própria que não

se sentia surpresa por ver que ele não havia saído de casa.

Aquele homem era um idiota arrogante. “Um grande,

lindo, sexy e arrogante idiota.”

Um chamativo carro negro estava displicentemente

estacionado bem perto da traseira de seu sedã Saturn azul.

Havia bastante espaço atrás. No entanto, o dono daquele

carro prendera o seu por indiferença e não por

necessidade. Ela puxou seu carro para a frente, depois

para trás. Mas não tinha espaço suficiente para sair de seu

lugar de estacionamento junto da calçada.

Que tipo de… Oh, não! Não podia ser! A placa era de

Nova Iorque. Ela apostaria seu último dólar em como o

Sr. Armani tinha vindo até Boston dirigindo seu carro

troféu. Ela engatou a marcha à ré e agiu num impulso;

recuou lentamente até seu carro chocar com o outro. Os

para-choques dos dois carros protestaram e os pneus do

carro dela viraram e, finalmente, seu carro pôde se mover

alguns centímetros. O carro de Abby se liberou e entrou

na faixa e ela olhou rapidamente para trás, através do

espelho. O para-choque do carro dele estava um pouco

arranhado e amassado, mas ele merecia isso mesmo e

Abby estava se lixando para ele saber que havia sido ela

a fazer aquilo. Na verdade, ela até tinha vontade de deixar

sua assinatura naquela obra-prima, se fosse possível.

“Quem está rindo agora?”, pensou ela, no caminho para

casa.

Mas esse triunfo durou pouco. O que ela iria dizer para

Lil? Se seu objetivo era fazer a irmã perder o emprego,

ela, então, havia conseguido. Mesmo se ele não

mencionasse sua aparência geral ou seu comportamento

inadequado, havia sempre a chance de ele denunciá-la por

haver danificado seu luxuoso carro.

Ela se sentia mal por conta disso. Na verdade, tinha a

intenção de explicar a Lil o quanto lamentava

profundamente o acontecido, mas só quando fosse

obrigada a fazer isso. Por agora, Abby estava se sentido

super bem. Não podia evitar sorrir enquanto imaginava a

cara dele ao descobrir o que ela havia feito. Ficaria

furioso!