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Corpo e identidade feminina por Mirela Berger - Versão HTML

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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS

DEPARTAMENTO DE ANTROPOLOGIA

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ANTROPOLOGIA

CORPO E IDENTIDADE FEMININA

Mirela Berger

Tese apresentada ao Programa de Pós-

Graduação em antropologia, do

Departamento de antropologia da

Faculdade de Filosofia, Letras e

Ciências Humanas da Universidade de

São Paulo, para obtenção do título de

Doutor em antropologia social.

Orientador: Prof. Dr.Renato da Silva Queiroz

Corpo e identidade feminina

Mirela Berger

FFLCH, antropologia, USP, 2006.

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Corpo e identidade feminina

Tese de doutorado de Mirela Berger,

FFLCH, antropologia, U.S.P.

A meu pai, que na véspera de seu falecimento

Pediu-me: “Filha, promete que esta é a última?!”.

Papai fica muito orgulhoso, mas também muito nervoso

Quando você escreve qualificação e tese...”

A Satine, com amor de mãe...

“Uma sociedade só encontra existência nos corpos pulsantes dos seres

humanos que a constituem: ela é vísceras, nervos, sentidos, neurônios... A

história, desta maneira, não se concretiza apenas em guerras, decretos, tratados, obras, monumentos ou entronizações: materializa-se também – e talvez até

primordialmente – em perfumes, sons, miragens, memórias, carícias, distâncias, ascos, evitações, esquecimentos... Não há outra concretude social: uma sociedade estará nos corpos de seus membros ou não residirá em parte alguma.”

(José Carlos Rodrigues, O Corpo na História)

Sumário

1 - APRESENTAÇÃO DO TEMA E DOS OBJETIVOS ..................................................... 1

2 - CONTEXTUALIZAÇÃO DO CAMPO TEÓRICO E DA PESQUISA DE CAMPO . 6

2.1 - METODOLOGIA DE COLETA E ANÁLISE DOS DADOS .......................................................... 6

2.2 - DEFINIÇÃO DA AMOSTRA................................................................................................ 10

2.2.1 - Atores e cenários: .................................................................................................. 10

2.2.2 - Perfil sócio-econômico.......................................................................................... 15

a) Estabelecendo os indicadores ................................................................................... 16

b) Analisando e correlacionando os indicadores .......................................................... 26

2.2.3 - Por uma antropologia do corpo. ............................................................................ 37

3 - O LUGAR DO CORPO NA HISTÓRIA. ....................................................................... 45

3.1 - DEFINIÇÃO DO RECORTE HISTÓRICO .............................................................................. 45

3.2 - IDADE MÉDIA E CORPO.................................................................................................. 46

3.2.1 - As festas medievais e os banquetes....................................................................... 47

3.2.2 - O comportamento à mesa...................................................................................... 49

3.2.3 - Higiene e Imagens Corporais ................................................................................ 51

3.3 - MODERNIDADE E CORPO ............................................................................................... 54

3.3.1 - Datação Histórica .................................................................................................. 54

3.3.2 - Novas sensibilidades e fronteiras corporais: os manuais de etiqueta.................... 55

3.3.3 - Higiene e Imagens Corporais ................................................................................ 59

3.3.4 - Correspondências e rupturas entre medievais e modernos ................................... 63

4 - A NOÇÃO DE BELO: REFERÊNCIAS HISTÓRICAS E NOÇÕES DE BELEZA

PARA AS MULHERES PESQUISADAS. ........................................................................... 69

4.1 - SENTIDO DAS PRÁTICAS CORPORAIS E DA BELEZA: REFLEXÕES HISTÓRICAS. ................. 70

4.2 - CONCEPÇÃO DE BELEZA PARA AS MULHERES PESQUISADAS. ......................................... 86

4.2.1 - Sentidos da “ malhação” ....................................................................................... 86

a) Saúde ou estética ...................................................................................................... 87

b) O exercício como um hábito de infância.................................................................. 92

c) Bem estar geral e alívio da depressão. ..................................................................... 93

d) Gosto ou obrigação?................................................................................................. 95

e) Corpo e maternidade................................................................................................. 99

4.2.2 - Modelos atuais de corpo...................................................................................... 101

a) Freqüência e tipos de atividades físicas.................................................................. 101

b) Modelos de corpo e beleza ..................................................................................... 106

4.2.3 - Corpo e auto-estima ............................................................................................ 120

4.2.4 - Importância do corpo: Presente e passado .......................................................... 124

5 - O CULTO AO CORPO: PRODUÇÃO DE SI MESMO, ESTETIZAÇÃO DA VIDA

COTIDIANA E ESPETÁCULO. ........................................................................................ 131

5.1 - O CULTO AO CORPO. .................................................................................................... 131

5.1.1 - Entendendo e datando o processo de culto ao corpo........................................... 131

5.1.2 - Existência do culto ao corpo e suas justificativas para as entrevistadas ............ 135

a) Importância do Momento Presente, da Técnica e do Esforço Individual............... 138

b) Importância do corpo na obtenção de parceiros afetivos e no mercado de trabalho:

.................................................................................................................................... 142

c) Exposição do corpo. ............................................................................................... 148

d) Modelos de beleza e culto à perfeição. .................................................................. 152

e) Competição e Cobrança Social............................................................................... 158

5.2 - CORPO PERFEITO, ESTETIZAÇÃO DA VIDA COTIDINA E IDENTIDADE ............................. 165

5.3 - MÍDIA E ESPETÁCULO NO CULTO AO CORPO: O CORPO MIRAGEM. ................................ 181

6 - A POLISSEMIA DO CORPO. ...................................................................................... 191

6.1 - MECANISMOS PARA A OBTENÇÃO DO CORPO PERFEITO................................................ 192

6.1.1 - Rotina de exercícios físicos................................................................................. 198

6.1.2 - Alimentação e Suplementos Alimentares ........................................................... 201

6.1.3 - Cirurgias Plásticas ............................................................................................... 210

6.2 - O ESPETÁCULO DO CULTO AO CORPO: CONTRADIÇÕES E DILEMAS. .............................. 223

6.2.1 - Hedonismo, Ascese e disciplinas. ....................................................................... 223

6.2.2 - Perigos do Culto ao Corpo: A Perda da Identidade, Distúrbios Alimentares e espelhamentos................................................................................................................. 232

a) A perda do eu: identidade ou identificação ............................................................ 232

b) O culto à magreza: os distúrbios alimentares......................................................... 237

c) Espelhamentos: Em quais espelhos as mulheres se miram? .................................. 262

7 - CONSIDERAÇÕES FINAIS ......................................................................................... 270

8 - BIBLIOGRAFIA............................................................................................................. 285

Índice de Gráficos

Gráfico 1- Indica a faixa etária de todas as entrevistadas......................................................... 17

Gráfico 2 - Distribuição da mulheres que possuem namorado ou convivem maritalmente..... 18

Gráfico 3 - Distribuição das entrevistadas que têm filhos........................................................ 19

Gráfico 4 - Distribuição das entrevistadas segundo a escolaridade ......................................... 20

Gráfico 5 - Distribuição das entrevistadas segundo a inserção no mercado de trabalho.......... 21

Gráfico 6 - Distribuição das Entrevistadas, segundo a faixa de renda ..................................... 24

Gráfico 7 - Gastos com cuidados estéticos............................................................................... 25

Gráfico 8 - Renda de quem está profissionalizada ................................................................... 28

Gráfico 9 - Renda das entrevistadas com nível superior .......................................................... 28

Gráfico 10 - Renda das entrevistadas com nível médio ........................................................... 28

Gráfico 11 - Nível de escolaridade apenas entre as desempregadas ........................................ 29

Gráfico 12 - Renda de quem não exerce a profissão ................................................................ 29

Gráfico 13 - Distribuição de renda entre mulheres com companheiro..................................... 30

Gráfico 14 - Distribuição de renda entre mulheres sem companheiro ..................................... 30

Gráfico 15 - Relação entre estado civil e mercado de trabalho ................................................ 31

Gráfico 16 - Renda entre as casadas que não trabalham .......................................................... 31

Gráfico 17 - Mulheres que gostam de malhar .......................................................................... 95

Gráfico 18 - Freqüência semanal a academia ......................................................................... 102

Gráfico 19 - Horas diárias de malhação ................................................................................. 102

Gráfico 20 - Exercício e auto-estima...................................................................................... 120

Gráfico 21 - Interferência da malhação nos cuidados corporais ............................................ 122

Gráfico 22 - Aumento da importância do corpo..................................................................... 124

Gráfico 23 - Culto ao corpo.................................................................................................... 135

Gráfico 24 - Aparência física na escolha de parceiros afetivos.............................................. 142

Gráfico 25 - Aparência e Mercado de Trabalho ..................................................................... 145

Gráfico 26 - Exibição do corpo .............................................................................................. 148

Gráfico 27 - Malhadores como uma tribo urbana................................................................... 157

Gráfico 28 - Importância da aparência física.......................................................................... 167

Gráfico 29 - Aparência e desempenho sexual ........................................................................ 170

Gráfico 30 - Nudez e corpo .................................................................................................... 171

Gráfico 31 - Gosta do próprio corpo ...................................................................................... 176

Gráfico 32 - Mídia e culto ao corpo ....................................................................................... 181

Gráfico 33 - Regimes.............................................................................................................. 202

Gráfico 34 - Medicação para emagrecer................................................................................. 204

Gráfico 35 - Evolução das cirurgias plásticas ao ano............................................................. 212

Gráfico 36 - Já fez cirurgia estética ........................................................................................ 214

Gráfico 37 - Pretende se submeter a cirurgia estética no futuro? .......................................... 214

Gráfico 38 - Apoio ao silicone ............................................................................................... 220

Gráfico 39 - Conhecimento de pessoas com Distúrbio Alimentar. ........................................ 240

Gráfico 40 - Possui distúrbio alimentar ? ............................................................................... 248

Gráfico 41 - Para quem você se cuida? ................................................................................. 263

Gráfico 42 - Para quem as mulheres se cuidam...................................................................... 265

Índice de Figuras

Figura 1 - Glúteos e mídia ...................................................................................................... 113

Figura 2 - Padrão corporal magra - malhada .......................................................................... 119

Figura 3 - A beleza como obrigação....................................................................................... 126

Figura 4 - Geladeiras vazias e perfeição física ....................................................................... 137

Figura 5 - Tecnologia e corpo................................................................................................. 140

Figura 6 - Aparência e sucesso ............................................................................................... 160

Figura 7 - Feiticeira ................................................................................................................ 183

Figura 8 - Mídia e modelos de beleza .................................................................................... 184

Figura 9 - Disciplina e beleza .................................................................................................198

Figura 10 - Mario Forente usuário de anabolizante................................................................ 206

Figura 11 - Bonecos Falcon e Action Man............................................................................. 206

Figura 12 - Fisiculturismo e anabolizantes............................................................................. 207

Figura 13 - Usuários de HGH................................................................................................. 209

Figura 14 - Cristina com 5 Kg a mais e a direita, na pior fase das cicatrizes da lipo............. 213

Figura 15 - Anorexia .............................................................................................................. 238

Figura 16 - Capas das revistas "Corpo","Boa Forma" e “Dieta Já” ....................................... 245

Figura 17 - Gisele Bündchen .................................................................................................. 256

Índice de tabelas

Tabela 1 - Ìndice de Massa Corpórea ....................................................................................... 15

Tabela 2 - Atividades Físicas Realizadas ............................................................................... 104

Tabela 3 - Partes Corporais .................................................................................................... 107

Tabela 4 - Academias x Número de habitantes ...................................................................... 211

Tabela 5 - Cirurgias plásticas por habitantes.......................................................................... 211

Tabela 6 – Idade média dos operados..................................................................................... 212

Tabela 7 - Escolaridade apenas das mulheres com Distúrbio Alimentar ............................... 250

Resumo

O trabalho tem como objetivo perceber e compreender como as mulheres brasileiras de classe média-alta e urbanas (a partir de 1990) pensam a construção de sua auto-imagem, quais os modelos corporais que influenciam este processo, bem como as técnicas corporais para alcançá-los. Os eixos de análise são as representações corporais, já que uma das hipóteses centrais do projeto é que através da análise do ideal de corpo perseguido pelas mulheres, seja possível ter acesso a todo um sistema de percepção não apenas de si, mas também do mundo do qual estas mulheres fazem parte, já que o corpo pode ser visto como um microcosmo e atesta uma marca social. O trabalho investiga as relações entre corporalidade e identidade para as mulheres da amostra, questionando, entre outras coisas, se a obtenção de um corpo específico é, na percepção das mulheres, fundamental para que estas se sintam donas de um estilo de vida e de um pertencimento social específicos. Investiga a importância da mídia neste processo, bem como os perigos do culto ao corpo, discutindo e alertando, entre outros aspectos, para os distúrbios alimentares.

Palavras Chaves: corpo, representações corporais, técnicas corporais, culto ao corpo, identidade feminina e mídia.

ABSTRACT

The work has as objective to perceive and to understand as the Brazilian women of upper-middle class and urban (from 1990) they think the construction of its auto-image, which the corporal models that influence this process, as well as the corporal techniques to reach them. The analysis axles are the corporal representations, since one of the hypotheses central offices of the project is that through the analysis of the ideal of body pursued for the women, either possible to have access all a system of perception not only of itself, but also of the world of which these women are part, since the body can be seen as a microcosm and certifies a social mark. The work investigates the relations between corporalidade and identity for the women of the sample, questioning, among others things, if the attainment of a specific body is, in the perception of the women, basic so that these if feel owners of a style of specific life and a social belonging. It investigates the importance of the media in this process, as well as the perigos of the cult to the body, arguing and alerting, among others aspects, for the alimentary riots.

Key Words: body, corporal representations, corporal techniques, cult of the body, feminine identity and media.

AGRADECIMENTOS E CRÉDITOS

“Digam o que disserem, os nossos dias serão para sempre”

(Renato Russo)

Embora escrever um doutorado seja uma das atividades mais solitárias do mundo, é também um processo resultante de várias mãos. Umas mais próximas, outras mais distantes, mas todas presentes de uma forma ou de outra. Talvez seja injusto tentar nomear a todas, a memória nos trai, deixamos de fora pessoas que torceram pelo trabalho, se fizeram presentes... A estas deixo minhas sinceras desculpas... Mas, seria igualmente injusto deixar de mencionar alguns nomes e, assim, aqui vamos nós.

Algumas contribuíram diretamente para o processo, lendo os textos preliminares,

discutindo e apontando idéias.

Meu prezado orientador, Prof. Dr. Renato da Silva Queiroz, sabiamente administrou meus delírios e ansiedades e colocou o trabalho numa perspectiva muitas vezes negligenciada, qual seja, da biologia, fornecendo contribuições valiosas. Seu bom senso e erudição foram prestimosos e sou muitíssimo grata por ter sido sua orientanda.

Agradeço em especial a Dra Maruska Freire Rameck, que leu não apenas o texto da

qualificação, mas também a primeira versão da tese. Considero-a uma co-orientadora, que indicou divisões que organizaram melhor o texto, bem como sugeriu vasta literatura a respeito das questões de gênero. Sem sua disponibilidade e atenção esta tese não seria o que é. O Prof.

Dr. John Dawsey, argüidor da qualificação, sugeriu prestimosas leituras e abriu searas onde eu via apenas deserto.

Quanto ao campo da pesquisa, o apoio da academia de ginástica “Cia Athletica” , unidade Shooping Morumbi foi fundamental. Agradeço às meninas da recepção, em especial, Karla, Renata, Carol e Cyntia, por todo apoio e atenção. Muitas entrevistas foram gravadas no restaurante “Paolla Panine”, cujos funcionários, complacentes, deixavam que eu

permanecesse horas por ali, mesmo depois deles terem arrumado o espaço e encerrado as atividades.

Não posso, para preservar a identidade das entrevistadas, nomear cada uma das 80

mulheres que preencheram os questionários, bem como as 70 que gravaram entrevistas. Mas sou extremamente grata a elas pela disponibilidade de falarem sobre aspectos tão íntimos quanto à relação com o corpo. Muitas deram depoimentos comoventes e polêmicos, e na medida do possível, procurei contemplar a todas, na escolha dos depoimentos. Ainda assim, os diálogos travados foram muito mais densos do que parecem aqui, revelando o quanto estas mulheres estão conscientes acerca da importância dada ao corpo na atualidade. Além de gravarem entrevistas, muitas mulheres ainda fizeram a gentileza de ampliar o espectro da amostra, levando questionários extras e pedindo que suas amigas os respondessem. Fernanda e Cássia foram imbatíveis na abordagem das entrevistadas, às vezes com mais ímpetos do que eu mesma.

As professoras de ginástica Alessandra, Carol, Cícera, Cíntia, Elaine, Halane, Sabrina, Tatiana, Val e Vivian foram informantes especiais e levaram–me por meandros

desconhecidos dentro do universo da academia. Neste sentido, um agradecimento especial a doce e inesquecível Catarina ( in memorium), cuja voz por vezes escuto, para dissimular sua ausência.

Para minhas amigas de academia, das varias tribos, – BodyPump, BodyBalance,

Spinning, alongamento e dança - todo o meu amor e gratidão por tantas situações partilhadas, informações, chamegos, paciência e tudo mais que só amigas queridas podem dar. Ternuras especiais para Dirce, Maru, Adriana, Carmem, Clara, Cristiane, Daniela, Eunice, Gabriela, Juliana, Marília, Licia, Lúcia, Luciana, Maruska, Karen, Joana, Marlucci, Nara, Net, Pratricia, Suzana, Viviane, Márcia, Walquiria... Graças a Deus, são tantas que se torna impossível nomear todas!

Rosa, amiga de todas as horas, só Deus sabe o quanto lhe sou grata, e também ao

Marcinho, por tudo! (e isso, como sabemos, não é pouca coisa!)

Jose, Raimundo e Gabriel são amigos novos, capixabas, meus portos-seguros nesta terra ainda misteriosa para mim. Agradeço também a Diana e Nilsete, as únicas responsáveis em cuidar do meu lar físico, enquanto eu morava no escritório e literalmente, “vivia” (teses não se escrevem, se vivem) um doutorado.

Ana, mais do que amiga, guru, que você continue a içar as mulheres perdidas dentro de nós. Sua dança e sabedoria nos levam a vários templos, e ao mais precioso deles, nosso corpo, não só em sua aparência, mas realmente, em seu âmago.

Agradecimentos especiais ao prof. Villas, que sempre demonstrou interesse pelos rumos desta pesquisa e que acredita, como eu, que falar de corpo nos remeta a universos mais amplos do que pareça em princípio.

A vida também me agraciou com amigos ultrapolivalentes, que por hora consolam as mágoas e partilham as alegrias; noutras vezes, transcrevem entrevistas, digitam textos, elaboram gráficos, analisam estatísticas, brincam de arguidoras em pleno Ano-novo. Em especial, minha cunhada Antonieta e minhas amigas desde sempre, Luciene, Silvana, Lodi, Patrícia, e é claro, Juliana. Amigas de décadas, tão presentes em minha vida que seria impossível pensar-me sem elas: são esteio, parceiras, irmãs de alma. São, simplesmente, tudo de bom que alguém pode ter.

Fernando, Otávio, Guilherme e Kauê são sobrinhos/afilhados de alma e sangue e,

sobretudo a eles, peço desculpas pelas ausências, que graças a Deus, incomodam mais a mim que a eles.

A Camilo, por todo amor que vivemos e que ficara em mim para sempre, como

acontece com nossos momentos mais caros e a toda sua família, que tantas vezes foi minha também.

Ao meu ex-colegas e coordenadores da Unisa, que como eu acreditam que ainda vale a pena lecionar, mesmo com toda precariedade de nosso sistema educacional, todo meu afeto e gratidão. Nelly Robles Baccelar, Vera Góes, Rafa, Luis, Ioli, Tereza, Patricia, Julia, Zeca, Carlos, Alfredo, Márcia, Kátia, Celso e tantos outros, bem como ao pessoal das secretárias e do xerox, meus agradecimentos.

Meus ex-alunos de todas as áreas e turmas quero que saibam que se um dia fui

professora, foi graças a cada um de vocês. Nada tomará de mim o prazer de ter visto olhares que mais pareciam fagulhas – ver o saber refletido e emanado de vocês, partilhar descobertas... Cada turma foi especial a sua maneira e esta tese é também para vocês, bem como minhas desculpas pela longa ausência imposta pelo doutorado. Um dia eu volto e aí, será para ficar.

Agradeço em especial a Ivan, que nunca perdeu uma só oportunidade para me instigar sobre a importância social em divulgar aspectos nocivos do culto ao corpo.

Agradeço também a toda FFLCH, em especial ao departamento de antropologia, não só pela excelência de seus professores – e em especial Carlos Rodrigues Brandão, Heloísa e José de Sousa Martins, Margarida Moura, Leonel Itaussu de Mello, Carmem Cinira, Lux Vidal, Sylvia Caiuby, Guilherme Manhani, Eunice Durham, Thiago Pinto de Oliveira, Dominique Gallois e Maria Lucia Montes -, mas também pela confiança em mim depositada. E, sempre, ao pessoal da ANPOCS, tanto pelos encontros em Caxambu, fundamentais para o progresso desta pesquisa, quanto pelo carinho e atenção a mim dedicados: Cristina, Mírian, Maurício, Robson, Prof. Dr. Flávio Pierucci (em especial) e Prof. Dr. Sérgio Adorno, a vocês todos, minha gratidão.

A concessão de bolsa de pesquisa da Capes foi vital para a realização deste trabalho.

Outras pessoas também são e serão sempre lembradas: as “meninas do café”, Maria

Alice, Geni, Carlota e Maria, pelo café e carinho nele embutido; S. Guigui e família; Soraia, Ednaldo, Celso, Rose e Ivonete; S. Lino, Raul, Da. Terezinha, Carminha, Nair e seu pessoal, Bia e Maria.

Por fim, agradeço a minha família (lembremos que as melhores partes de tudo sempre ficam para o fim) por todo apoio ao longo de tantos anos. Minha avó materna, até hoje se pergunta por quanto tempo eu vou ficar escrevendo teses. Minha irmã, atriz e agora historiadora bem sabe as agruras da vida acadêmica. É bom que saibam –e esta é uma boa oportunidade de dizer-lhes em público- que as amo, apesar e por conta de todas as diferenças inerentes a todos nós.

Pode parecer pieguice –e talvez seja mesmo - mas meus bichos de estimação são muito mais do que meros seres animados, são membros da família, companheiros, amigos, do tipo que se sentam aos nossos pés e esperam, esperam, esperam... Tudo me dão e pouco me pedem, e na solidão intelectual e física do doutorado eles sempre se fizeram presentes, em especial, Batata, Ana, Morgana, Pipoca, Kiara e Satine.

Meu companheiro e amor, Edson Silva Marques, bem como toda sua extensa família

entrou em minha vida quando eu menos esperava e são muito mais especiais do que eu poderia imaginar. Além de diagramar toda a tese, Edson contribuiu com idéias, corrigiu meus rumos e deu sugestões inusitadas e talvez, por isso mesmo, algumas das melhores que eu recebi. Inúmeras vezes adentramos pela madrugada editando imagens e trabalhando até a exaustão. É um companheiro em todas as acepções possíveis e me faz acreditar, mesmo a duras penas, que ainda há sentido nesta vida, ainda mais, quando estamos juntos no mesmo abraço.

Por fim, esta tese é um compromisso de honra com meus pais, que tanto sonharam com ela, mas não a puderam ver concluída. Não há dia em que eles não estejam comigo em pensamento, e enquanto coloco o ponto final desta tese, sei que eles sorriem e dizem, em uníssono: “Está feita. E é nossa.”

Ponta da Fruta (E.S), 14 de julho de 2006.

Corpo e identidade feminina – Mirela Berger

1 - Apresentação do tema e dos objetivos

“Felicidade é entrar num vestido P”

(frase de um outdoor de “diet shake”, produto auxiliar de dietas de

emagrecimento).

Estar magra. Malhada. “Definida”. Coxas duras. Ausência de barriga. Bumbum

proeminente e durinho. “Perca peso e não ache nunca mais”. “Fique linda, em clínicas especializadas no tratamento estético facial e corporal”.

Outdoors, comerciais de televisão, anúncios de revistas nos bombardeiam com mensagens verbais ou imagéticas que salientam a importância de atingirmos um padrão corporal específico. Homens e mulheres são confrontados diariamente com anúncios nas mais variadas fontes de informação, tais como revistas especializadas, de variedades, jornais televisivos ou escritos. São comuns, ademais, programas, e mesmo canais de televisão voltados para a estética corporal e facial.

As academias de ginástica proliferam pelos bairros (abastados ou não) e fornecem suportes àqueles que querem atingir o hoje tão alardeado corpo ideal. Quem tem maior poder aquisitivo, recorre aos personal trainers1, que prometem melhores resultados, já que dedicam atenção a uma única cliente num determinado número de horas. Para estas pessoas, recorrer a tal serviço, além de ser importante na construção da estética desejada, também indica um estilo de vida, em que a vaidade, a negação das marcas de envelhecimento e o “estar na moda” são itens fundamentais.

Também nunca foi tão fácil adquirir aparelhos de ginástica, que hoje podem ser

encontrados em qualquer grande supermercado, comprados por telefone ou pela internet. O

recurso às clínicas de estética, que se multiplicaram consideravelmente a partir de 1990, também é um dos instrumentos das mulheres na busca do corpo ideal. Isto, sem mencionar as cirurgias plásticas, bastante comuns entre as brasileiras.

Estamos vivendo um período de culto ao corpo, que se aprofundou a partir de1980 em países como os Estados Unidos e, a partir de 1990, no Brasil.

Neste processo, o corpo configura-se como uma nova cultura e pode fornecer caminhos para se pensar os mecanismos de identidade feminina.

1 Profissionais formados em Educação Física, que atuam como professores particulares.

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Corpo e identidade feminina – Mirela Berger

Assim, este trabalho tem como objetivos perceber e compreender como as mulheres brasileiras urbanas a partir de 1990 pensam a construção de sua auto-imagem, que modelos corporais exercem influência neste processo, bem como as estratégias para alcançá-los.

Embora o trabalho priorize os modelos corporais, é claro que, ao tentar compreender e retratar os padrões de beleza entre as mulheres, os cuidados com o rosto, mãos e cabelos também deverão ser levados em consideração, pois, como afirma Ivo Pitangy, são constitutivos da auto-imagem, expressando a individualidade2.

Estamos interessados em apreender os modelos de corpo feminino preponderantes entre 70 mulheres urbanas que se exercitam regularmente e quais as técnicas para alcançá-los. É de interesse da pesquisa perceber, ademais, se houve um crescimento da importância dada à estética a partir de 1990, traçando uma retrospectiva histórica para comparar a importância conferida ao corpo nas décadas anteriores.

Outro ponto central da pesquisa é refletir sobre o fenômeno do culto ao corpo,

procurando entender suas origens e implicações para a auto-estima e identidade femininas.

As hipóteses centrais do projeto são as seguintes.

1) Acredita-se que por meio da análise do ideal de corpo almejado e perseguido

pelas mulheres seja possível ter acesso a todo um sistema de percepção não

apenas de si, mas também do mundo do qual estas mulheres fazem parte, já

que o corpo pode ser visto como um microcosmo. Ou seja, pretendemos

perceber se a obtenção de um corpo específico é, na percepção das mulheres,

fundamental para que estas se sintam donas de um estilo de vida e de um

pertencimento social específico;

2) A pesquisa de campo aponta para a importância da mídia na definição e

constituição destes modelos corporais. As mulheres entrevistadas afirmam

que querem se parecer com os modelos corporais estampados nos outdoors,

comerciais de televisão, novelas, revistas de moda, de estética (como, por

exemplo, a “Boa Forma”), de variedades (“Veja”, “Revista da Folha”, entre

outras), que abordem celebridades (“Caras”, “Chiques e Famosos”). Neste

sentido, a etnografia parece apontar para uma grande importância dos meios

de comunicação neste processo de definição e busca do corpo ideal. Caso

este dado de fato se confirmasse preponderante, na pesquisa de campo, a

2 Os cabelos, por exemplo, carregam uma vasta simbologia e revelam não só estados de personalidade quanto a inserção em determinado grupo social.

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Corpo e identidade feminina – Mirela Berger

análise envolveria também, além das academias e clínicas de estética, as

imagens corporais que estas mulheres consideram significativas.

Para melhor compreensão e organização dos dados e análise, esta tese está dividida em três segmentos, o primeiro, trata-se desta apresentação; o segundo reserva-se às considerações finais; e o terceiro, refere-se à bibliografia; bem como por seis capítulos que procuram expor os tópicos centrais. Em seguida, apresenta-se subdividida em itens e sub-itens, que desenvolvem pontos mais específicos do trabalho.