Críticas de Luiz Geraldo de Miranda Leão: Analisando Cinema: Críticas de LG por Aurora Miranda Leão - Versão HTML

ATENÇÃO: Esta é apenas uma visualização em HTML e alguns elementos como links e números de página podem estar incorretos.
Faça o download do livro em PDF, ePub para obter uma versão completa.

index-1_1.png

Analisando cinema:

críticas de L. G. de Miranda Leão

L.G. Miranda miolo.indd 1

29/5/2008 13:00:49

L.G. Miranda miolo.indd 2

29/5/2008 13:00:49

Analisando cinema:

críticas de L. G. de Miranda Leão

organização Aurora Miranda Leão

São Paulo, 2006

L.G. Miranda miolo.indd 3

29/5/2008 13:00:49

Governador Cláudio Lembo

Secretário Chefe da Casa Civil

Rubens Lara

Imprensa Oficial do Estado de São Paulo

Diretor-presidente

Hubert Alquéres

Diretor Vice-presidente

Luiz Carlos Frigerio

Diretor Industrial

Teiji Tomioka

Diretora Financeira e

Administrativa

Nodette Mameri Peano

Chefe de Gabinete

Emerson Bento Pereira

Coleção Aplauso Cinema Brasil

Coordenador Geral

Rubens Ewald Filho

Coordenador Operacional

e Pesquisa Iconográfica

Marcelo Pestana

Projeto Gráfico

Carlos Cirne

Assistência Operacional

Andressa Veronesi

Editoração

Aline Navarro

Tratamento de Imagens

José Carlos da Silva

Revisor

Heleusa Angelica Teixeira

L.G. Miranda miolo.indd 4

29/5/2008 13:00:49

Apresentação

“O que lembro, tenho.”

Guimarães Rosa

A Coleção Aplauso, concebida pela Imprensa

Oficial, tem como atributo principal reabilitar e

resgatar a memória da cultura nacional, biogra-

fando atores, atrizes e diretores que compõem a

cena brasileira nas áreas do cinema, do teatro e

da televisão.

Essa importante historiografia cênica e audio visual

brasileiras vem sendo reconstituída de maneira

singular. O coordenador de nossa cole ção, o crítico

5

Rubens Ewald Filho, selecionou, criteriosamente,

um conjunto de jornalistas espe cializados para rea-

lizar esse trabalho de aproximação junto a nossos

biografados. Em entre vistas e encontros sucessivos

foi-se estrei tando o contato com todos. Preciosos

arquivos de documentos e imagens foram aber-

tos e, na maioria dos casos, deu-se a conhecer o

universo que compõe seus cotidianos.

A decisão em trazer o relato de cada um para a

primeira pessoa permitiu manter o aspecto

de tradição oral dos fatos, fazendo com que a

memória e toda a sua conotação idiossincrásica

aflorasse de maneira coloquial, como se o biogra-

fado estivesse falando diretamente ao leitor.

L.G. Miranda miolo.indd 5

29/5/2008 13:00:49

Gostaria de ressaltar, no entanto, um fator impor-

tante na Coleção, pois os resultados obti dos ultra-

passam simples registros biográ ficos, revelando ao

leitor facetas que caracteri zam também o artista e

seu ofício. Tantas vezes o biógrafo e o biografado

foram tomados desse envolvimento, cúmplices dessa

simbiose, que essas condições dotaram os livros de

novos instru mentos. Assim, ambos se colocaram em

sendas onde a reflexão se estendeu sobre a forma ção

intelectual e ideológica do artista e, supostamente,

continuada naquilo que caracte rizava o meio, o

ambiente e a história brasileira naquele contexto

e momento. Muitos discutiram o importante papel

que tiveram os livros e a leitu ra em sua vida. Deixa-

6

ram transparecer a firmeza do pensamento crítico,

denunciaram preconceitos seculares que atrasaram

e conti nuam atrasando o nosso país, mostraram o

que representou a formação de cada biografado e

sua atuação em ofícios de linguagens diferen ciadas

como o teatro, o cinema e a televisão – e o que cada

um desses veículos lhes exigiu ou lhes deu. Foram

analisadas as distintas lingua gens desses ofícios.

Cada obra extrapola, portanto, os simples rela-

tos biográficos, explorando o universo íntimo e

psi cológico do artista, revelando sua autodeter-

minação e quase nunca a casualidade em ter se

tornado artista, seus princípios, a formação de sua

personalidade, a persona e a complexidade de seus

personagens.

L.G. Miranda miolo.indd 6

29/5/2008 13:00:50

São livros que irão atrair o grande público, mas

que – certamente – interessarão igualmente aos

nossos estudantes, pois na Coleção Aplauso foi

discutido o intrincado processo de criação que

envolve as linguagens do teatro e do cinema. Fo-

ram desenvolvidos temas como a construção dos

personagens interpretados, bem como a análise,

a história, a importância e a atualidade de alguns

dos personagens vividos pelos biogra fados. Foram

examinados o relaciona mento dos artistas com seus

pares e diretores, os processos e as possibilidades

de correção de erros no exercício do teatro e do

cinema, a diferenciação fundamental desses dois

veículos e a expressão de suas linguagens.

7

A amplitude desses recursos de recuperação da

memória por meio dos títulos da Coleção Aplauso,

aliada à possibilidade de discussão de instru mentos

profissionais, fez com que a Imprensa Oficial passas-

se a distribuir em todas as biblio tecas importantes

do país, bem como em bibliotecas especializadas,

esses livros, de gratificante aceitação.

Gostaria de ressaltar seu adequado projeto gráfico,

em formato de bolso, documentado com iconogra-

fia farta e registro cronológico completo para cada

biografado, em cada setor de sua atuação.

A Coleção Aplauso, que tende a ultrapassar os

cem títulos, se afirma progressivamente, e espe-

ra contemplar o público de língua portu guesa

L.G. Miranda miolo.indd 7

29/5/2008 13:00:50

com o espectro mais completo possível dos

artistas, atores e diretores, que escreveram a rica

e diversificada história do cinema, do teatro e

da televisão em nosso país, mesmo sujeitos a per-

calços de naturezas várias, mas com seus protago-

nistas sempre reagindo com criati vidade, mesmo

nos anos mais obscuros pelos quais passamos.

Além dos perfis biográficos, que são a marca da Co-

leção Aplauso, ela inclui ainda outras séries: Projetos

Especiais, com formatos e carac terísticas distintos,

em que já foram publicadas excep cionais pesquisas

iconográficas, que se ori gi naram de teses universitá-

rias ou de arquivos documentais pré-existentes que

8

sugeriram sua edição em outro formato.

Temos a série constituída de roteiros cinemato-

gráficos, denominada Cinema Brasil, que publi cou

o roteiro histórico de O Caçador de Dia mantes, de

Vittorio Capellaro, de 1933, considerado o primeiro

roteiro completo escrito no Brasil com a intenção

de ser efetivamente filmado. Parale lamente, ro-

teiros mais recentes, como o clássico O Caso dos

Irmãos Naves, de Luis Sérgio Person, Dois Córregos,

de Carlos Reichenbach, Narrado res de Javé, de Elia-

ne Caffé, e Como Fazer um Filme de Amor, de José

Roberto Torero, que deverão se tornar bibliografia

básica obrigatória para as escolas de cinema, ao

mesmo tempo em que documentam essa impor-

tante produção da cinematografia nacional.

L.G. Miranda miolo.indd 8

29/5/2008 13:00:50

Gostaria de destacar a obra Gloria in Excelsior, da

série TV Brasil, sobre a ascensão, o apogeu e a que-

da da TV Excelsior, que inovou os proce dimentos

e formas de se fazer televisão no Brasil. Muitos

leitores se surpreenderão ao descobrirem que vá-

rios diretores, autores e atores, que na década de

70 promoveram o crescimento da TV Globo, foram

forjados nos estúdios da TV Excelsior, que sucumbiu

juntamente com o Gru po Simonsen, perseguido

pelo regime militar.

Se algum fator de sucesso da Coleção Aplauso

merece ser mais destacado do que outros, é o in-

teresse do leitor brasileiro em conhecer o percurso

cultural de seu país.

9

De nossa parte coube reunir um bom time de

jornalistas, organizar com eficácia a pesquisa

documental e iconográfica, contar com a boa

vontade, o entusiasmo e a generosidade de

nossos artistas, diretores e roteiristas. Depois,

apenas, com igual entusiasmo, colocar à dispo-

sição todas essas informações, atraentes e aces-

síveis, em um projeto bem cuidado. Também

a nós sensibilizaram as questões sobre nossa

cultura que a Coleção Aplauso suscita e apre -

senta – os sortilégios que envolvem palco, cena,

coxias, set de filmagens, cenários, câmeras –

e, com refe rência a esses seres especiais que

ali transi tam e se transmutam, é deles que todo

L.G. Miranda miolo.indd 9

29/5/2008 13:00:50

esse material de vida e reflexão poderá ser extraído

e disse minado como interesse que magnetizará o

leitor.

A Imprensa Oficial se sente orgulhosa de ter

criado a Coleção Aplauso, pois tem consciência

de que nossa história cultural não pode ser negli-

genciada, e é a partir dela que se forja e se constrói

a identidade brasileira.

Hubert Alquéres

Diretor-presidente da

Imprensa Oficial do Estado de São Paulo

10

L.G. Miranda miolo.indd 10

29/5/2008 13:00:50

Prefácio

Reflexões indispensáveis

Ao apresentar o volume de críticas do eminente

crítico e professor cearense L. G. de Miranda

Leão, confesso sentir-me um pouco na posição

de quem, sendo não mais do que aluna, é convi-

dada a apresentar o mestre. Não pode ser outro

meu sentimento do que orgulho da honraria

que me cabe ao lembrar nesta introdução um

pouco da importância desta figura de destaque

da cultura brasileira, que completou 50 anos

de crítica cine matográfica. Um feito que raros

11

profissionais terão a perseverança e a paixão

de igualar, ainda mais com o extremo cuidado

e profissionalismo que caracterizaram sempre

seus textos densos e cristalinos.

É de admirar que um profissional da crítica man-

tenha intocado seu fôlego intelectual tantas

décadas num mister assim polêmico, não raro

ingrato e carregado de incompreensões. Afinal,

alguns desavisados costumam confundir os críti-

cos com infalíveis juízes do bom gosto e alguns

entre estes, os mais vaidosos, aceitam assim ser

considerados. Não é o caso de Miranda Leão que,

embora mestre, ensina nas entrelinhas de seus

iluminados comentários com a sutileza que cabe

L.G. Miranda miolo.indd 11

29/5/2008 13:00:50

aos dotados da melhor sabedoria, amparado

numa pedagogia que vem da enorme intimidade

com o assunto que comenta.

Mestre em literatura de língua inglesa e portu-

guesa, Miranda Leão domina a língua com uma

fina expressão, construindo frases certeiras

que, embora se alonguem num estilo precioso,

cultivado em épocas mais eruditas do que esta

apressada nossa, sempre sabem onde querem

chegar. Suas palavras acertam sempre no alvo,

construindo análises e conceitos capazes de enri-

quecer o universo de seus leitores.

12

Ler sua prosa cristalina é quase assistir aos filmes

que ele tão cuidadosamente comenta, com total

ausência de preconceito, não se esquivando de

analisar tanto o último clássico do cinema euro-

peu ou americano quanto algum exemplar do

descartável cinema de terror adolescente que

ultimamente pulula nas telas dos multiplex. Para

todos os filmes, desenvolve o crítico uma argu-

men tação serena, fazendo uma progressão segu-

ra num mundo de idéias e erudição ao qual não

faltará, sempre que oportuno, uma pincelada de

sua fina ironia e bom humor.

Lembrando muito bem que o cinema “não é

uma ciência exata”, aconselha Miranda Leão que

se vejam os filmes ao menos duas vezes, ainda

L.G. Miranda miolo.indd 12

29/5/2008 13:00:50

que seja para desancá-los depois. Assim sendo,

a eventual crítica será feita com propriedade.

Lembra ele que as imagens passam rápido, são

efêmeras, cabe ler os signos e o subtexto. Cine-

ma é, portanto, uma arte em que cabe cultivar a

paciência no olhar, sob pena de perder de vista

os melhores detalhes.

Esse olhar cinéfilo foi despertado, inadvertida-

mente – ou quem sabe nem tanto –, pelo pai do

futuro crítico, o médico João Valente de Miranda

Leão. Poliglota e entusiasta das artes, levou o

filho, ainda garoto, em 1942, para assistir às fil-

magens de um episódio de It’s All True, o malfa-

dado projeto brasileiro do genial Orson Welles,

13

que se desenvolvia então em Mucuripe. Talvez a

prova de que pretendia mesmo instalar no san-

gue do filho o “micróbio” do cinema, foi tê-lo

presenteado, tempos depois, com um livro sobre

o cineasta americano D. W. Griffith, considerado

o precursor do cinema narrativo e de ação.

O fato é que a semente germinou e o menino não

abandonou mais o cinema. No Colégio São João,

onde fez seus estudos fundamentais, integrou um

grupo de análise sobre a sétima arte. Uma ativi-

dade que tomou um vulto ainda maior quando

conheceu Darcy Xavier da Costa, o emérito fun-

dador, em 1948, do Clube de Cinema de Fortaleza

(CCF), do qual Miranda Leão brevemente se torna-

L.G. Miranda miolo.indd 13

29/5/2008 13:00:50

ria um dos principais entusiastas e, futuramente,

um de seus maiores incentivadores.

A partir do CCF, Miranda Leão começou a redigir

e divulgar seus primeiros artigos sobre cinema –

como aqueles produzidos sobre os filmes Pacto

de Sangue, de Billy Wilder; O Processo, de Orson

Welles; e O Grande Golpe, de Stanley Kubrick.

Iniciando aí sua prática redacional, aprofundou-

se o crítico na confecção de textos que eram

repro duzidos na imprensa local (como o de Pacto

de Sangue, no jornal O Povo) e nos miniprogra-

mas do próprio CCF. Nesses primeiros dias do

cineclube, esses textos eram mimeografados e

14

distribuídos aos freqüentadores, que assistiam a

filmes projetados pelo próprio Darcy Xavier, seu

fundador, a quem cabia igualmente a missão de

rebobiná-los ao final de cada sessão.

Com uma fibra forjada nesses tempos heróicos

do cineclubismo em Fortaleza, Miranda Leão

aprimorou seu talento conduzindo ou organi-

zando diversos cursos e seminários de iniciação à

apreciação cinematográfica que tornaram o CCF

um marco na vida cultural da capital cearense. Os

temas: linguagem cinematográfica, teoria do fil-

me, relação cinema x teatro, a questão dos signos

e do significado do cinema, como ler um filme,

Freud no cinema e tantos outros. Sem contar

a análise de filmes que passaram pelo circuito

L.G. Miranda miolo.indd 14

29/5/2008 13:00:50

comer cial ou ciclos, como de cinema holandês ou

do cineasta canadense Norman McLaren. Enfim,

seria impossível listar em tão pouco espaço a

gama de atividades que tornou única a história

do CCF de tal maneira que, mesmo desapare-

cendo em meados dos anos 80, deixou indelével

sua marca em outras salas de arte que a partir

dali nasceram em Fortaleza.

Colaborador constante de alguns dos principais

órgãos da imprensa cearense, como o Diário do

Nordeste, o crítico alimenta sua notável longe-

vidade cultural atento à renovação do cinema

brasi leiro, que já se tornou lugar-comum denomi-

nar de “retomada”, mas que Miranda Leão, mais

15

preci samente, prefere definir como “renovação

qualitativa de nosso cinema”.

Atento às novidades, não teme, contudo, tomar

posições, recusando, por exemplo, entrar no coro

quase unânime dos admiradores da iconoclastia

do dinamarquês Lars von Trier. Defende o cine-

ma americano, tantas vezes objeto de crítica

apressada e leviana, por conta de abrigar a mais

lucrativa e onipresente indústria do mundo. Para

o crítico veterano, que sabiamente não se deixa

levar pelos modismos que ciclicamente infestam

tanto o cinema quanto a crítica, esse cinema

yankee “funciona” e ainda é capaz de produzir

“marcos culturais e artísticos”.

L.G. Miranda miolo.indd 15

29/5/2008 13:00:50

Concorda Miranda Leão com a posição mani-

festada pelo cineasta e crítico americano Peter

Bogdanovich que todos os grandes filmes já

foram feitos e persevera com ele neste conceito:

Hoje só podemos aspirar a fazer filmes bons e de

alguma forma inesquecíveis. Portanto, não des-

crê do cinema e deve, assim, por muito tempo,

continuar a brindar nossas retinas com as suas

reflexões atentas e indispensáveis.