Crônica do Viver Baiano Seiscentista - A Cidade e Seus Pícaros - Alguns Passos Discretos e Tristes por Gregório de Matos - Versão HTML

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LITERATURA BRASILEIRA

Textos literários em meio eletrônico

Gregório de Matos

Texto-fonte: Obra Poética, de Gregório de Matos,

3ª edição, Editora Record,Rio de Janeiro, 1992.

Crônica do Viver Baiano Seiscentista

Índice

ALGUNS PASSOS DISCRETOS E TRISTES

NESTE RETIRO DEVEMOS SUPPOR O POETA CONSULTADO DE VARIOS AMIGOS

COM ALGUNS ASSUMPTOS PARA RESOLVER, E ASSIM PROSSEGUIREMOS COM

AS OBRAS SEGUINTES.

CONTINUA O POETA EM LOUVAR A SOLEDADE VITUPERANDO A CORTE.

PERGUNTA-SE NESTE PROBLEMA, QUAL HE MAYOR, SE O BEM PERDIDO NA

POSSE, OU O QUE SE PERDE ANTES DE SE LOGRAR? DEFENDE O BEM JA

POSSUIDO.

DEFENDE-SE O BEM QUE SE PERDEO NA ESPERANÇA PELOS MESMOS

CONSOANTES.

TENTADO A VIVER NA SOLEDADE SE LHE REPRESENTÃO AS GLORIAS DE QUEM

NÃO VIO, NEM TRATOU A CORTE.

MORALIZA O POETA OUTRA VEZ A SUA DECLINAÇÃO PELO SEU LUZIMENTO NO

AMORTECIDO DESMAYO DE HUMA POMPOSA FLOR.

MORALIZA O POETA SEU DESASOCEGO NA HARMONIA INCAUTA DE HUM

PASSARINHO, QUE CHAMA SUA MORTE A COMPAÇOS DE SEU CANTO.

MORALIZA O POETA NOS OCIDENTES DO SOL A INCONSTANCIA DOS BENS DO

MUNDO.

A HUMA DAMA QUE SE MOSTRAVA PARA O POETA TODA DESDENHOSA, E CRUEL.

A HUMA DAMA A QUEM NÃO RENDIÃO FINEZAS.

ESTRIBILHO

A HUMA DAMA, QUE SE RECATAVA DE PAGAR FINEZAS.

A HUMAS SAUDADES.

NASCE A ROSA, E NASCE A FLOR.

ENFADA-SE O POETA DO ESCASSO PROCEDER DE SUA SORTE.

ZELOSO, E TRISTE CONSULTA O POETA A SOLEDADE DOS MONTES PARA SEU

DESAFÔGO.

QUEYXA-SE DE QUE NUNCA FALTEM PENAS PARA A VIDA, FALTANDO A VIDA PARA

AS MESMAS PENAS.

CHORA O POETA SUA INFELICIDADE COM HUM PENSAMENTO OCCULTO.

AUSENTE DE HUM CONHECIDO BEM RECEA TEMEROSO AS QUEBRAS.

AO MESMO ASSUMPTO.

AO MESMO INTENTO.

CHORA UM BEM PERDIDO, PORQUE O DESCONHECEO NA POSSE.

COMPARA SUAS PENAS COM AS ESTRELLAS MUYTO SATISFEYTO COM A

NOBREZA DO SIMILE. A PRIMEYRA QUARTA NÃO HE SUA.

NO FLUXO E REFLUXO DA MARE ENCONTRA O POETA INSENTIVO PARA

RECORDAR SEUS MALES.

PONDERA NA CORRENTE ARREBATADA DE HUM CAUDALOSO RIO QUAM

DISTINTO VEM A SER O CURSO DA HUMANA VIDA.

SE NÃO POSSO IR RASTEJANDO.

NUMA ILUSTRE ACADEMIA.

CORAÇÃO, QUE UM PERTENDER.

SERVIU LUÍS À ISABEL.

AMOR, QUE ES FUEGO, Y AMADO.

SE HOUVERA CONFORMIDADE.

VIDINHA: POR QUE CHORAIS?

DE UNS OLHOS SE VIU RENDIDO.

PARECE QUE JA SE ENFASTIAVA O POETA DO SEU RETIRO COMO SE VÊ NA OBRA.

DESPEDE-SE O POETA DO SEU AMOROSO DIVERTIMENTO COM PRETEXTOS

FRIVOLOS, E TOTALMENTE CONTRARIOS A RAZÃO DO AMOR.

17 - ALGUNS PASSOS DISCRETOS E TRISTES

Eu fiquei com minhas mágoas

Oh nunca foram tantos

nem tão fortes meus males

como as ondas

NESTE RETIRO DEVEMOS SUPPOR O POETA CONSULTADO DE VARIOS AMIGOS

COM ALGUNS ASSUMPTOS PARA RESOLVER, E ASSIM PROSSEGUIREMOS COM

AS OBRAS SEGUINTES.

Fábio; que pouco entendes de finezas.

Quem faz só, o que pode, a pouco obriga;

Quem contra os impossíveis se afadiga,

A esses se dê amor em mil ternezas.

Amor comete sempre altas empresas;

Pouco amor muita sede não mitiga;

Quem impossíveis vence, este me instiga

Vencer por ele muitas estranhezas.

As durezas da cera o Sol abranda,

E da terra as branduras endurece,

Atrás do que resiste, o Raio se anda.

Quem vence a Resistência, se enobrece,

Quem pode, o que não pode, impera, e manda;

Quem faz mais do que pode, esse merece.

CONTINUA O POETA EM LOUVAR A SOLEDADE VITUPERANDO A CORTE.

Ditoso aquele, e bem aventurado,

Que longe, e apartado das demandas

Não vê nos tribunais as apelandas,

Que à vida dão fastio, e dão enfado.

Ditoso, quem povoa o despovoado,

E dormindo o seu sono entre as Holandas

Acorda ao doce som, e às vozes brandas

Do tenro passarinho enamorado.

Se estando eu lá na Corte tão seguro

Do néscio impertinente, que porfia,

A deixei por um mal, que era futuro;

Como estaria vendo na Bahia,

Que das Cortes do mundo é vil monturo,

O roubo, a injustiça, a tirania.

PERGUNTA-SE NESTE PROBLEMA, QUAL HE MAYOR, SE O BEM PERDIDO NA

POSSE, OU O QUE SE PERDE ANTES DE SE LOGRAR? DEFENDE O BEM JA

POSSUIDO.

Quem perde o bem, que teve possuído,

A morte não dilate ao banimento,

Que esta dor, esta mágoa, este tormento

Não pode ter tormento parecido.

Quem perde o bem logrado, tem perdido

O discurso, a razão, o entendimento:

Porque caber não pode em pensamento

A esperança de ser restituído.

Quanto fosse a esperança alento à vida,

Té nas faltas do bem seria engano

O presumir melhoras desta Sorte.

Porque onde falta o bem, é homicida

A memória, que atalha o próprio dano,

O Refúgio, que priva a mesma morte.

DEFENDE-SE O BEM QUE SE PERDEO NA ESPERANÇA PELOS MESMOS

CONSOANTES.

O bem que não chegou ser possuído,

Perdido causa tanto sentimento,

Que faltando-lhe a causa do tormento,

Faz ser maior tormento o padecido.

Sentir o bem logrado, e já perdido

Mágoa será do próprio entendimento,

Porém o bem, que perde um pensamento,

Não o deixa outro bem restituído.

Se o logro satisfaz a mesma vida,

E depois de logrado fica engano

A falta, que o bem faz em qualquer Sorte:

Infalível será ser homicida

O bem, que sem ser mal motiva o dano,

O mal, que sem ser bem apressa a morte.

TENTADO A VIVER NA SOLEDADE SE LHE REPRESENTÃO AS GLORIAS DE QUEM

NÃO VIO, NEM TRATOU A CORTE.

Ditoso tu, que na palhoça agreste

Viveste moço, e velho respiraste,

Berço foi, em que moço te criaste,

Essa será, que para morto ergueste.

Aí, do que ignoravas, aprendeste,

Aí, do que aprendeste, me ensinaste,

Que os desprezos do mundo, que alcançaste,

Armas são, com que a vida defendeste.

Ditoso tu, que longe dos enganos,

A que a Corte tributa rendimentos,

Tua vida dilatas, e deleitas!

Nos palácios reais se encurtam anos;

Porém tu sincopando os aposentos,

Mais te deleitas, quando mais te estreitas.

MORALIZA O POETA OUTRA VEZ A SUA DECLINAÇÃO PELO SEU LUZIMENTO NO

AMORTECIDO DESMAYO DE HUMA POMPOSA FLOR.

1 De que serviu tão florida,

caduca flor, vossa Sorte,

se havia da própria morte

ser ensaio a vossa vida?

quanto melhor advertida

andáveis em não nascer,

que se a vida houvera ser

instrumento de acabar,

em deixares de brilhar,

deixaríeis de morrer.

2 Enquanto presa vos vistes

no botão, onde morastes,

bem que a vida não lograstes,

de esperança vos vestistes:

mas depois que, flor, abristes,

tão depressa fenecestes,

que quase a presumir destes

(se se pode presumir)

que para a morte sentir,

somente viver quisestes.

3 Fazendo da pompa alarde

abre a Rosa mais louçã,

e o que é gala na manhã,

em luto se torna à tarde:

pois se a dita mais cobarde,

se a mais frágil duração

renascestes, porque não

terei de crer fundamento,

que foi vosso luzimento

da vossa sombra ocasião.

4 E pois acabais florida,

bem se vê, flor desditosa,

que a não seres tão formosa,

não fôreis tão abatida:

desgraçada por luzida,

ofendida por louçã

mostrais bem na pompa vã

as mãos do tempo cobarde,

que fenecestes à tarde,

por luzires na manhã.

5 Assim pois quando contemplo

vossa vida, e vossa morte,

em vós, flor, da minha sorte

encontro o mais vivo exemplo:

subi da fortuna ao templo,

mas apenas subi digno,

quando me mostra o destino,

que, a quem não é venturoso,

o chegar a ser ditoso

é degrau de ser mofino.

MORALIZA O POETA SEU DESASOCEGO NA HARMONIA INCAUTA DE HUM

PASSARINHO, QUE CHAMA SUA MORTE A COMPAÇOS DE SEU CANTO.

Contente, alegre, ufano Passarinho,

Que enchendo o Bosque todo de harmonia,

Me está dizendo a tua melodia,

Que é maior tua voz, que o teu corpinho.

Como da pequenhez desse biquinho

Sai tamanho tropel de vozeria?

Como cantas, se és flor de Alexandria?

Como cheiras, se és pássaro de arminho?

Simples cantas, e incauto garganteias,

Sem ver, que estás chamando o homicida,

Que te segue por passos de garganta!

Não cantes mais, que a morte lisonjeias;

Esconde a voz, e esconderás a vida,

Que em ti não se vê mais, que a voz, que canta.

MORALIZA O POETA NOS OCIDENTES DO SOL A INCONSTANCIA DOS BENS DO

MUNDO.

Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,

Depois da Luz se segue a noite escura,

Em tristes sombras morre a formosura,

Em contínuas tristezas a alegria.

Porém se acaba o Sol, por que nascia?

Se formosa a Luz é, por que não dura?

Como a beleza assim se transfigura?

Como o gosto da pena assim se fia?

Mas no Sol, e na Luz, falte a firmeza,

Na formosura não se dê constância,

E na alegria sinta-se tristeza.

Começa o mundo enfim pela ignorância,

E tem qualquer dos bens por natureza

A firmeza somente na inconstância.

A HUMA DAMA QUE SE MOSTRAVA PARA O POETA TODA DESDENHOSA, E

CRUEL.

MOTE

Gileta siempre cruel,

mira-me piedosa un dia,

pues saben todos, que matas,

sepan, que puedes dar vida.

1 Que diré de tu crueldad,

de tu rigor que diré,

Gileta, si no que fué

mi estrella, y fatalidad:

que eres mi estrel a, es verdad,

pero tan mala, y infiel

no lo dirá mi pincel,

solo diré de sentido,

que para mi ruego has sido,

Gileta, siempre cruel.

2 Ni un solo dia pudiste

perder tu fiero rigor,

que para perder mi amor

tu condicion no perdiste:

si ni aun esto conseguiste

de la fé, y firmeza mia,

ociosa es la tyrannia,

y pues no sierve a tu affecto

ser tyranna sin effecto,

Mira-me piedosa um dia.

3 Si por matar-me inhumana

te precias de rigorosa,

quien puede matar de hermosa,

no me mate de tyranna:

y se a que más soberana

te sepan, los que maltratas,

tantas vidas desbaratas,

conocida tu inclemencia,

ya escusas la diligencia,

Pues saben todos, que matas.

4 Quando a dar muertes te inclina

tu ser, humana te muestra,

que si a dar vidas te adiestra,

te acreditas por divina:

tu fama haze peregrina,

si eres, Gileta entendida,

y a todos, bella homicida,

muestra tu poder, de suerte

que aquel os, a quien dás muerte,

Sepan, que puedes dar vida.

A HUMA DAMA A QUEM NÃO RENDIÃO FINEZAS.

Sobre esta dura penha,

que repartida em rocas

contra o mar inimigo

quatro fileiras forma:

Dos mares combatida,

escalada das ondas,

incêndios de salitre

não rendem tanta força.

A rocha permanente

às ondas porfiosa,

cheio o mar de coragem

a penha de vitórias.

Não há um desengano

para fúrias tão loucas

de um elemento débil,

a quem o vento assopra.

Mas o curso dos dias,

e a carreira das horas,

que dão a todo o mundo

escarmento e memória,

Hão de mostrar-lhe enfim,

que nas maiores forças

não há intento sisudo

com esperanças loucas.

Aqui pois onde o fado

me conduz, ou me arroja

a escrever desenganos

ao mar desde esta roca:

Quero queixar-me ao céu

nas cordas numerosas

de minha triste lira

já de queixar-me rouca.

Porque razão, pergunto,

a esfera luminosa

me fez tão semelhante

desta invencível roca?

A roca inexpugnável

reveste-se animosa

da pólvora dos ventos,

que dentro d'água estoura:

E eu também me resisto,

há mais de mil auroras

aos vaivéns da fortuna,

vários, como ela própria.

A penha incontrastável,

cada maré se molha,

e leva o branco pé

nas sucessivas ondas.

Eu também incansável

rne levo cada hora

no sucessivo pranto,

que me inunda, e me afoga.

As ondas à porfia

até ver se se prostra

o firme de um penhasco

o duro de uma rocha.

Também minha fortuna

tenaz, e porfiosa

insiste, em que se prostre

minha firmeza heróica.

ESTRIBILHO

Oh nunca semelhante

fora eu desta roca,

oh nunca foram tantos

nem tão fortes meus males

como as ondas.

A HUMA DAMA, QUE SE RECATAVA DE PAGAR FINEZAS.

1 Filena: eu que mal vos fiz,

que sempre a matar-me andais,

uma vez, quando me olhais,

outra quando me fugis:

vi-vos, e logo vos quis

tão inseparavelmente,

que nem a vista ao presente

ao menos sabe dizer-me,

entre ver-vos, e render-me

qual foi primeiro acidente.

2 Vós sois tão esquiva, e tal,

que outras cousas não sabendo,

da vossa esquivança entendo,

que o meu amor me fez mal:

não cabe em meu natural

fugir, de quem me maltrata,

e se me sai tão barata

a vingança de querer-vos,

quero amar-vos, e sofrer-vos,

porque fiqueis mais ingrata.

3 Não sinto esta pena atroz,

que me fazeis padecer,

antes folgo de morrer,

vendo, que morro por vós:

e se com passo veloz

vejo a morte já chegar,

não sinto ver-me acabar,

sinto a glória, que vos cresce,

que uma ingrata não merece

a glória de me matar.

4 Vivam vossas esquivanças,

e vossa crueldade viva,

que a sem-razão de uma esquiva

acredita as esperanças:

tudo tem certas mudanças,

também se muda o rigor,

e se Amor me dá valor

para sofrer-vos, e amar-vos,

claro está, que hão de mudar-vos

firmezas do meu amor.

A HUMAS SAUDADES.

1 Pelo mar do meu tormento,

em que padecer me vejo,

já que amante me desejo

navegue meu pensamento:

meus suspiros formem vento,

com que me faças ir ter,

onde me desejo ver,

e diga minha alma assi,

Parti, coração parti,

navegai sem vos deter.

2 Ide donde meu amor

apesar desta distância

nem há perdido a constância,

nem há admitido rigor:

antes mais superior

assim se quer exceder,

porém se desfalecer

em tantas adversidades

Ide-vos minhas saudades

a meu amor socorrer.

NASCE A ROSA, E NASCE A FLOR.

MOTE

Para que nasceste, rosa,

se tão depressa acabaste,

nasces na manhã triunfante,

morres despojo de tarde.

1 Nasce a rosa, e nasce a flor

de tanta cor matizada,

quando se vê desmaiada

triste sem vida, e sem cor:

tudo quanto no candor

se ostentava majestosa,

então menos venturosa

perde toda a louçania,

e para brilhar um dia

Para que nasceste Rosa?

2 Se por nascer tão subida

perde a rosa a perfeição,

enquanto a rosa em botão

mais se lhe dilata a vida:

nessa pompa já perdida,

com que, rosa, te enfeitaste,

vendo o pouco que duraste,

da vida foste um nonada,

nem foste rosa, nem nada,

Se tão depressa acabaste.

3 Se na manhã encarnada

te julgas perfeita rosa,

olha o lustre de formosa

como o perdes desmaiada:

quem te viu na madrugada

entre as mais flores reinante,

que na tarde não se espante,

quando murcha assim te vê!

dize, rosa, para que

Nasces de manhã triunfante.

4 Se como rosa nasceste

com tão galhardo valor,

como rosa, e como flor

a pompa, e garbo perdeste:

se tanto te engrandeceste,

como te mostras cobarde,

pois quando fazendo alarde

de te ver tão majestosa,

por ver-te na manhã rosa,

Morres despojo de tarde.

ENFADA-SE O POETA DO ESCASSO PROCEDER DE SUA SORTE.

Oh que cansado trago o sofrimento,

E que injusta pensão de humana vida,

Que dando-me o tormento sem medida,

Me encurta o desafogo de um contento!

Nasceu para oficina do tormento

Minha alma a seus desgostos tão unida,

Que por manter-se em posse de afligida,

Me concede os pesares de alimento.

Em mim não são as lágrimas bastantes

contra incêndios, que ardentes, me maltratam,

Nem estes contra aqueles são possantes.

Contrários contra mim em paz se tratam,

E estão em ódio meu tão conspirantes,

Que só por me matarem, não me matam.

ZELOSO, E TRISTE CONSULTA O POETA A SOLEDADE DOS MONTES PARA SEU

DESAFÔGO.

Montes, eu venho a buscar-vos

para contar-vos meu mal,

inda que o vosso silêncio

interrompa com meus ais.

Já sabeis, que adora à Menga,

a quem para sujeitar

frágil corrente é meu pranto

desatado em seu cristal.

Já vos referi mil vezes,

como Menga com Pascoal,

em cima de me dar zelos,

zelos me obriga a aceitar.

Se o remédio é não tomá-los,

dá-me Menga em se queixar,

de que sou Pastor grosseiro,

pois não tomo, o que me dá.

QUEYXA-SE DE QUE NUNCA FALTEM PENAS PARA A VIDA, FALTANDO A VIDA

PARA AS MESMAS PENAS.

Em o horror desta muda soledade,

Onde voando os ares a porfia

Apenas solta a luz a aurora fria,

Quando a prende da noite a escuridade.

Ah cruel apreensão de uma saudade,

De uma falsa esperança fantasia,

Que faz que de um momento passe o dia,

E que de um dia passe à eternidade!

São da dor os espaços sem medida,

E a medida das horas tão pequena,

Que não sei, como a dor é tão crescida.

Mas é troca cruel, que o fado ordena,

Porque a pena me cresça para a vida,

Quando a vida me falta para a pena.

CHORA O POETA SUA INFELICIDADE COM HUM PENSAMENTO OCCULTO.

MOTE

Amargo paguen tributo

mis ojos al desamor,

pues de una esperança en flor

es oy desengaño el fruto.

1 Solos de mi triste enojo

ojos, podreis dar indicios,

pues aquestos desperdicios

los tuvisteis siempre de ojo:

oy, a que lloreis, me arrojo

con desengaño absoluto,

que el reconcentrado luto,

(con causa a los ojos tanto)

pide a los ojos, que en l anto

Amargo paguen tributo.

2 No es, ojos, intento mio

soltar la corriente en vano,

ni que sea en castellano,

lo que en portuguez es rio:

corrientes de um l anto pio

abono de mi dolor

manifesten al amor,

digan con iras, y affecto

su tyranno, y vil effecto

Mis ojos al desamor.

3 Rebentad de sentimiento,

Ojos, en tanto delirio,

porque de aqueste martirio

saquen muchos escarmiento:

sepan de vuestro tormento,

para que tengan horror,

huyan, huyan del amor

que nunca es bien de raiz,

sepan. sepan, que moris

Pues de una esperança en flor.

4 Y pues conocisteis vos

lo mucho, que el amor daña,

lo que para niño engana,

lo que miente para Dios,

la esphinge de humana voz,

y coraçon resoluto

l orad con ardiente luto:

temed con tristes dolores,

pues de sus lindas flores

Es oy desengaño el fruto.

AUSENTE DE HUM CONHECIDO BEM RECEA TEMEROSO AS QUEBRAS.

MOTE

Ausencias, y soledades

llora mi fe, y mi amor,

que el adorar-te, y no ver-te

deste effecto causa son.

1 Oy, Fili, doble passion

me offende en dura piedad,

los ojos la soledad,

y la ausencia el coraçon:

el pecho, y los ojos son

testigos de mis verdades,

pues llorando vanidades,

miro con opposiciones,

que son causa a mis passiones

Ausencias, y soledades.

2 Mi amor, y mi fe conmigo

l oran, y rien mi estrago,

pues al merito es alhago,

lo que al deseo es castigo:

assi complicado sigo

el plazer por el horror,

pues por no ver su esplendor,

quando el merito me vê,

rie mi amor, y mi fe,

Llora mi fe, y mi amor.

3 Las ausencias nescio llora

de una, que deidad se infiere,

que quien al divino quiere,

no mira, si bien adora:

la vista a la fe minora

con el peligro al querer-te;

no muera pues, que la suerte

precia menos por amar-te,

el ver-te, sin adorar-te,

Que el adorar-te, y no ver-te.

4 Ya quiero la soledad,

y el merito en el tormento

no lo engendre el suffrimiento,

podiendo la enfermedad:

effecto de tu beldad

es tan noble adoracion,

pues tu culto, y mi attencion,

tu deidad, y mis affectos,

desta causa son effectos,

Deste effecto causa son.

AO MESMO ASSUMPTO.

MOTE

Ao pé de uma junqueirinha

nasce uma fonte de prata,

assentei-me junto dela,

bem tolo é, quem se mata.

1 Por divertir saudades

de Fílis do céu traslado

quis escolher meu cuidado

por alívio as soledades:

e revolvendo as verdades

da fé, e firmeza minha,

como cessado não tinha,

de sentir, e imaginar,

me deitei por descansar

Ao pé de uma junqueirinha.

2 Tomou-me o sono os sentidos,

e em sonhos e fantesia

arrebatado me guia

a ver uns campos floridos:

e para mais divertidos

meus cuidados, me retrata

uma graciosa mata

fabricada de craveiros,

donde entre verdes oiteiros

Nasce uma fonte de prata.

3 Estava as graças notando

de tão linda arquitetura,

quando a melhor formosura

à fonte se vem chegando:

um véu de rosto tirando

para melhor poder vê-la,

conhecer ser Fílis bela,

a que a minha alma roubou,

e vendo, que se assentou,

Assentei-me junto dela.

4 Eis que gozando de amor

as delícias, acordei,

e só sem Fílis me achei

da junqueirinha ao redor:

que presto vence uma dor

qualquer aparência grata!

quem em seus amores trata

de glórias, não tem razão,

e por deleites em vão

Bem tolo é, quem se mata.

AO MESMO INTENTO.

MOTE

Deixai-me, tristes memórias.

Nesta ausência, bem querido,

nada me serve de gosto,

que o bem, que em vós tenho posto,

por ausente está perdido:

mas aparta-te, sentido,

pois se apartam essas glórias,

porque as antigas vitórias,

com que amor triunfou então,

já lá vão, já nada são,

Deixai-me, tristes memórias.

CHORA UM BEM PERDIDO, PORQUE O DESCONHECEO NA POSSE.

Porque não conhecia, o que lograva,

Deixei como ignorante o bem, que tinha,

Vim sem considerar, aonde vinha,

Deixei sem atender, o que deixava.

Suspiro agora em vão, o que gozava,

Quando não me aproveita a pena minha,

Que quem errou, sem ver, o que convinha,

Ou entendia pouco, ou pouco amava.

Padeça agora e morra suspirando

O mal, que passo, o bem, que possuía,

Pague no mal presente o bem passado.

Que quem podia, e não quis, viver gozando,

Confesse, que esta pena merecia,

E morra, quando menos confessado.

COMPARA SUAS PENAS COM AS ESTRELLAS MUYTO SATISFEYTO COM A

NOBREZA DO SIMILE. A PRIMEYRA QUARTA NÃO HE SUA.

Una, dos, trez estrel as, veinte, ciento,

Un mil on, mil mil ares de mil ares;

Valga-me Dios! que tengan mis pezares

Su retrato en el alto firmamento!

Que siendo las estrellas tan sin cuenta,

Como son las arenas de los mares,

Las iguale en sus numeros impares

Mi pezar, mi desdicha, y mi tormento!

May yo de que me espanto, o que me abismo!

Tenga esse allivio enfim mi desconsuelo,

Que se vá pareciendo al cielo mismo.

Pues podiendo mis males por mas duelo

Semejar-se a las penas del abismo,

Tienen su semejança al á en el cielo.

NO FLUXO E REFLUXO DA MARE ENCONTRA O POETA INSENTIVO PARA

RECORDAR SEUS MALES.

Seis horas enche e outras tantas vaza

A maré pelas margens do Oceano,

E não larga a tarefa um ponto no ano,

Depois que o mar rodeia, o sol abrasa.

Desde a esfera primeira opaca, ou rasa

A Lua com impulso soberano

Engole o mar por um secreto cano,

E quando o mar vomita, o mundo arrasa.

Muda-se o tempo, e suas temperanças.

Até o céu se muda, a terra, os mares,

E tudo está sujeito a mil mudanças.

Só eu, que todo o fim de meus pesares

Eram de algum minguante as esperanças,

Nunca o minguante vi de meus azares.

PONDERA NA CORRENTE ARREBATADA DE HUM CAUDALOSO RIO QUAM

DISTINTO VEM A SER O CURSO DA HUMANA VIDA.

MOTE

Vai-te, mas tornas a vir,

eu vou, e não torno mais,

nascemos mui desiguais,

hemo-nos de dividir:

em ti tudo é repetir,

vazas, e tornas a encher:

em mim tudo é fenecer,

tudo em mim é acabar,

tudo em mim é sepultar,

finalmente hei de morrer.

1 Vai-te refazer ao mar

do cabedal, que hás perdido

pela terra divertido,

e és ditoso em o cobrar:

eu não posso restaurar,

nem tampouco conseguir,

o que de mim fiz fugir,

tudo se tem acabado:

tu, em que vais apressado,

Vai-te, mas tornas a vir.

2 O cansaço, e amargura,

que te custa o teu correr,

tornas logo a converter

em leite, mel e doçura:

eu correndo à sepultura

cada vez me dano mais:

somos muito desiguais

em converter dissabores,

tu te voltas com favores.

Eu vou, e não torno mais.

3 Suposto que sem medida

roubando vás dessa sorte,

nem por isso passas morte,

que dure, ou seja sentida:

eu, enquanto dura a vida,

se cometo absurdos tais,

sem que me valham meus ais,

pago mui pelo miúdo,

o que a morte faz a tudo,

Nascemos mui desiguais.

4 Afogas mil passageiros,

mas tu a ti não te prendes,

antes mais forçoso emprendes

submegir montes, e oiteiros:

eu, se não são verdadeiros

meus passos para a Deus ir,

me encaminho a destruir:

tudo em mim é puro estrago,

diversamente naufrago,

Hemo-nos de dividir.

5 Inda que assim te despenhes,

não vejo não naufragar-te,

antes mais vejo espalhar-te

por campos, vales, e brenhas:

de mim pobre não há senhas,

em chegando a me fundir

não me hei de reproduzir,

antes para meu encanto

fico num contino pranto,

Em ti tudo é repetir.

6 Qualquer tronco, que por si

se vê murcho, ou molestado,

este mui regozijado

se arranca, e vai trás de ti:

eu, se culpas cometi,

tudo é chorar, e gemer,

ninguém me dá seu poder,

ando corrido, e feneço,

e tu, enquanto eu padeço,

Vazas, e tornas a encher.

7 És vandoleiro, e pirata

de ramos, flores, e frutos

teus procederes são brutos,

e a ti ninguém te maltrata:

eu, se falta em mim se trata,

e nela chego a morrer,

tudo em mim é padecer,

peno toda a eternidade,

tu tens outra liberdade,

Em mim tudo é fenecer.

8 Tens mui tiranos efeitos

no furor, com que devoras,

e todos todas as horas

te têm notáveis respeitos:

eu, aguardam-me sujeitos

para me mais estragar,

gusanos para me dar

o pago, que hei merecido,

tu vives obedecido,

Tudo em mim é acabar.

9 Vê, quanto tens destruído,

quanto tens desbaratado,

o que tens morto de gado,

de toda a sorte nascido:

mostra-te disso doído?

não: que não tens que penar,

em mim sim tudo é chorar,

tudo em mim é sentir danos,

tudo em mim são desenganos.

Tudo em mim é sepultar.

10 Enfim certamente és rio,

foste mar, mar hás de ser,

mas eu só devo de crer,

que fui, e serei pó frio:

assim creio, assim confio,

nele me hei de converter,

os bichos me hão de comer

hei de todo acabar,

hei de estreita conta dar,

Finalmente hei de morrer.

SE NÃO POSSO IR RASTEJANDO

MOTE

Como se pode alcançar

de dous, que se querem bem,

qual terá maior pesar,

se o que vai para tornar,

se o que espera, por quem vem.

1 Se não posso ir rastejando

a pena, que pode ter,

quem há temor de perder

a prenda, que está logrando:

e se me confundo, quando

me disponho a penetrar

aquela pena, e pesar,

que deixa um bem já perdido,

do mal de ausente o sentido,

Como se pode alcançar?

2 Parece uma pena chica,

que chica é por tal arte,

que inda que a dor se reparte,

toda em um se multiplica:

pena, que mais se duplica,

quanto mais partida vem,

na extensão o aumento tem,

que a pena, que a ausência ordena,

sobre ser de dous, é pena

De dous, que se querem bem.

3 Se é pena de dous, que se amam,

quem não vê, que em tal querer

dobrado incêndio há de haver,

se há dous fogos, que se inflamam:

quando dous a um tempo clamam,

por força se há de aumentar

a um clamar outro clamar;

assim no mal de não ver-se

cresce a pena, sem saber-se

Qual terá maior pesar.

4 Quem vai, porque a pena rima,

deixa a alma, que se inflama,

para que anime, adonde ama

muito mais, que adonde anima:

quem fica, e se desanima,

quer logo as almas trocar,

por confundir, e ocultar,

qual mais sabe padecer,

quem fica para não ver,

Se o que vai para tornar.

5 Nesta confusão de amor

duvida a perplexidade,

nunca se sabe a verdade

sobre a ventagem da dor:

mas o discreto Leitor,

que quer lhe resolva em bem,

o que o mote em si contém,

veja, que tem mais cuidado,

quem não vem, sendo esperado,

Se o que espera, por quem vem.

NUMA ILUSTRE ACADEMIA

MOTE

Perguntou-se a um discreto,

qual era a morte tirana:

respondeu, que estar ausente

daquilo, que mais se ama.

1 Numa ilustre academia,

que com ciências infusas

fizeram as nove Musas,

onde Apolo presidia:

leu o Secretário Admeto,

um problema mui seleto

propôs, para argumentar-se,

e havendo de perguntar-se,

Perguntou-se a um discreto.

2 Ele, que estava distante,

e não ouvia a proposta,

não deu por então resposta

de Surdo, e não de ignorante:

mas vendo no seu semblante

a academia Sob'rana,

que tinha a desculpa lhana,

lhe advertiram com agrado,

que lhe haviam perguntado:

Qual era a morte tirana.

3 Ele entonces como um raio

prontamente, e sem detença

tomando vênia, e licença

fez consigo um breve ensaio:

o mais horrível desmaio

que um peito amoroso sente,

é a falta do bem presente:

ficou-lhe a resposta lhana;

e a qual é a morte tirana,

Respondeu, que estar ausente.

4 Deixou a resposta absorto

a aquele douto congresso,

porque é já provérbio expresso,

que ausente é o mesmo que morto:

eu me persuado, e exorto,

que quem se abrasa, e inflama

de amor na contínua chama,

inda que sinta abrasar-se,

e menos mal, que ausentar-se

Daquilo, que mais se ama.

CORAÇÃO, QUE EM PERTENDER

MOTE

Se de um bem nascem mil males,

de um mal quisera saber

quantos bens podem nascer?

1 Coração, que em pertender

perdes tempo em esperanças,

e quando algum bem alcanças,

é por ter mais que perder:

por cousas, que não têm ser,

e de que nunca te vales,

como direi, que te abales?

como direi, que convém,

andar em busca de um bem,

Se de um bem nascem mil males?

2 Quando um firme bem procuras,

te desavéns com teus bens,

porque perdendo os que tens,

noutros males te asseguras:

aos bens nunca te aventuras

sem certos males colher,

e eu para te defender,

e a vida te conservar,

um bem não tomara achar,

De um mal quisera saber.

3 Do bem os males nasceram

do mal nunca nasceu bem,

salvo o mal de quem não tem

bens, de que os males se geram:

e inda que do mal puderam

os bens produzidos ser,

se os hás de vir a perder,

antes toma um mal por gosto

Quantos bens podem nascer.

SERVIU LUÍS A ISABEL

MOTE

Amar Luís a Maria,

amaria não é amar

logo como pode estar

num tempo amar, e amaria.

1 Serviu Luís a Isabel

Por prêmio de um favor só

mais tempo do que Jacó

serviu à bela Raquel:

e porque Isabel infiel

o enganou de dia em dia,

em pena de aleivosia

em Maria o empreguei,

e então lhe certifiquei

Amar Luís a Maria.

2 Deixei-a tão persuadida,

quanto ela é presuntuosa,

que o presumir de formosa

persuade o ser querida:

porém como é entendida,

e em toda a arte de amar

sabe mui bem conjugar,

disse, tomando-me a mão,

que em boa conjugação

Amaria não é amar.

3 Que amaria é imperfeito,

e perfeito o ter amado,

e a um presente cuidado

não serve o plus-quão-perfeito:

vi eu a Moça de jeito,

que me pus pela quietar

nesta forma a conjugar

"Amar Luís, e amaria

não está em filosofia",

Logo como pode estar?

4 Este aparente argumento,

e sutil proposição

não só tirou a questão,

mas deu-lhe contentamento:

firme enfim ao fundamento

da minha sofisteria

diz, que a boa astronomia

tem uns pontos tão sutis,

que pode estar em Luís

Num tempo amar, e amaria.

AMOR, QUE ES FUEGO, Y AMADO

MOTE

Antandra, el Amor, si nó

ocultas tus rayos, sé,

que te ha de roubar, lo que

Prometeo al sol robó.

1 Amor, que es fuego, y amado

com arco, aljaba, y saetas

com mil amorosas tretas

mil armas ha conquistado:

pero tu, Antandra, has ganado

más victórias, que el ganó,

de suerte que dudo yo

(viendo unos, y otros despojos)

si puede más que tus ojos,

Antandra, el Amor, si no.

2 Porque en severa conquista

tienen flechas, arco, y fuego,

y luz, con que el amor ciego

dexan a perder de vista:

y ansi no ay, quien resista

la luz, que en ellos se vê,

y aun el mismo Amor por lé

(como no puede mirando)

que te adora, Antandra, quando

Ocultas tus rayos, Sé.

3 Mas de sus adoraciones

no debes mucho fiar-te

que dizen, que hade robar-te,

pues le robas coraçones:

no ay, que fiar en ladrones,

que enbistem a falsa fé;

mas yo le perguntaré,

Antandra, quando tu queiras,

pues afirman tan deveras,

Que te hade robar? Lo que?

4 Y si a tus ojos dixere,

bien se dexa ver, que es ciego,

y se dixeres, que el fuego,

señal, que el tuyo prefiere:

luego bien claro se infiere,

que el mismo se condenó,

y pues asi te embidió

puedes dar-lhe de barato,

lo que por un falso trato

Prometeo al sol robó

SE HOUVERA CONFORMIDADE

MOTE

Não quero, o que vós quereis,

só quero, que vós queirais

aquilo, que não quereis,

só quero, não quero mais.

1 Se houvera conformidade

em um, e outro querer,

ambos poderiam ser

atos da mesma vontade:

porém na diversidade

de uma, e de outra vereis,

quando firme pergunteis,

onde minha alma está posta,

como tendes por resposta,

Não quero, o que vós quereis.

2 E se acaso se oferece

outro objeto a vosso amor,

e publicais por favor,

que em vós só o meu floresce:

esta ação nada merece,

mas antes me ofende mais,

e do prêmio, que buscais,

deponde a louca esperança

e não ter de mim lembrança

Só quero, que vós queirais.

3 Se nesta deformidade,

que em vossas vontades há,

algum meio indústria dá

para haver conformidade,

é, que na vossa vontade

mil impossíveis obreis,

porque amando não ameis,

sendo fino, o não sejais,

e não querendo queirais

Aquilo, que não quereis.

4 Se isto muito parecer

em uma vontade humana

isso mesmo desengana

os quilates do seu ser:

pouco amor, pouco querer

é força, que concedais,

pelo que não pertendais

as lisonjas do meu gosto,

porque, o que tenho proposto,

Só quero, não quero mais.

VIDINHA: POR QUE CHORAIS?

MOTE

Se lágrimas aliviam,

como padece, quem chora?

1 Vidinha: por que chorais?

porque padeço, meu bem.

Mui grande dúvida tem

a resposta, que me dais:

se lágrimas são sinais

dos que dantes padeciam,

alívio já sentiriam

das lágrimas ao verter;

logo implica o padecer

Se lágrimas aliviam.

2 Dúvida não pode haver,

que enquanto os olhos me choram,

suposto a pena melhoram,

se está rindo o padecer:

alívio deve de ter,

quem já seus males melhora,

mas se nele a pena mora

até o choro acabar,

fácil é de se mostrar

Como padece, quem chora.

DE UNS OLHOS SE VIU RENDIDO

MOTE

Para retratar uns olhos

Cupido se fez pintor,

desfez o céu para tinta

moeu para luz o Sol.

1 De uns olhos se viu rendido

Amor, que os arpões quebrou,

porque afrontados julgou

arpões doutro arpão vencido:

cego, e turbado Cupido

guiado de seus antolhos

trilha espinhos, pisa abrolhos,

e por curar seu cuidado

um pincel pede emprestado

Para retratar uns olhos.

2 Para uns olhos tão brilhantes

buscava o melhor pincel,

negou-lhe Apeles cruel,

piedoso lhe deu Timantes:

como Mestres tão prestantes

puseram de morte cor,

olhos, que vencem a Amor:

nesta pena, que o soçobra,

para colorir a obra

Cupido se fez pintor.

3 Sempre eu vi que aos amadores

nada falta em bom primor:

porém hoje ao mesmo Amor

para pintar faltam cores:

ele perdeu as melhores

em ter a presença extinta

dos olhos belos, que pinta,

cuja cor é celestial,

e por lhe dar natural

Desfez o céu para tinta.

4 Para cópia tão divina,

como Amor a imaginou,

todo o aparelho tirou

dessa esfera cristalina:

excedia a ultramarina

cor desse azul arrebol,

e do divino farol

sendo precisa a luz pura,

por dar claros à pintura

Moeu para luz o Sol.

PARECE QUE JA SE ENFASTIAVA O POETA DO SEU

RETIRO COMO SE VÊ NA OBRA.

MOTE

Contentamento, onde estás,

que te não acha ninguém,

se intenta buscar-te alguém,

não sabe, por onde vás.

1 Amigo contentamento,

peço-te por esta vez,

que não me busques, que intento

buscar-te em teu aposento,

para lançar-me a teus pés:

que não qués, e a ousadia,

ou a desserviço o hás,

para que te acha algum dia,

me digas em cortesia,

Contentamento, onde estás.

2 Por mil partes diferentes

andei, e te certifico

não ver-te por entre as gentes,

antes todos descontentes

alto, baixo, pobre, rico:

fui-me aos palácios e ouvi,

que se acaso ali te vêem,

sem deixar sinais de ti,

tão cedo te vais dali,

Que te não acha ninguém.

3 Dei logo em imaginar,

que estás entre os namorados,

busquei-te, e vendo-os queixar,

mal (disse) se podem dar

contentamento, e cuidados:

com que vendo o teu desvio

julguei, que passar além

era trabalho baldio,

e que intenta um desvario,

se intenta buscar-te alguém.

4 Fiquei tão desenganado,

que direi por toda a parte,

que quem por dita, ou por fado

se não vir de ti buscado,

não se canse com buscar-te:

Porque é tal tua conquista,

que inda o triste, a quem te dás,

por muito, que ele te assista,

em perdendo-te de vista,

Não sabe, por onde vás.

DESPEDE-SE O POETA DO SEU AMOROSO DIVERTIMENTO COM PRETEXTOS

FRIVOLOS, E TOTALMENTE CONTRARIOS A RAZÃO DO AMOR.

MOTE

Deixar quero o vosso bem,

para tomar vosso mal,

porque o vosso bem é tal,

que do mal melhor me vem.

1 Se dor me infunde no peito,

Clóri, quererdes-me assaz,

dai ao demo amor, que traz

mais dano, do que proveito:

não vi amor de tal jeito

no mundo daquém, e além,

e pois simulado vem

todo o mal, que me fazeis,

neste bem, que me quereis,

Deixar quero o vosso bem.

2 Se mal vosso bem me influi,

bens vosso mal dará vários,

porque de agentes contrários

contrário efeito se argúi:

a conseqüência conclui

por força filosofal;

e pois vosso mal é tal,

que em vós doutro bem não sei,

que bens não repudiarei,

Para tomar vosso mal?

3 Pois o bem pelo mal troco

pelas causas, que já disse,

terei a grã parvoíce,

que vós me tenhais por louco,

que eu o que exprimento, e toco

neste bem prejudicial

me faz homem desigual,

avesso, néscio, e sandeu:

porém tal homem sou eu,

Porque o vosso bem é tal.

4 Se tal fora o vosso amor,

como são outros amores,

fecundo para os favores,

estéril para o rigor:

tivera a grande favor,

Clóri, quererdes, a quem

vos adorara um desdém,

que outro tempo aborrecia,

porque então não entendia,

Que do mal melhor me vem.

Núcleo de Pesquisas em Informática, Literatura e Lingüística

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