Crônica do Viver Baiano Seiscentista - A Cidade e Seus Pícaros - Bárbora ou Babu por Gregório de Matos - Versão HTML

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LITERATURA BRASILEIRA

Textos literários em meio eletrônico

Gregório de Matos

Texto-fonte: Obra Poética, de Gregório de Matos,

3ª edição, Editora Record,Rio de Janeiro, 1992.

Crônica do Viver Baiano Seiscentista

Índice

OS SEUS DOCES EMPREGOS

PEDE O POETA NESTA OBRA CONTA DO SEU PROCEDER À SUAS IRMÃAS

EUGENIA E MACOTTA.

PONDERA QUE OS DESDENS SEGUEM SEMPRE COMO SOMBRAS O SOL DA

FORMOSURA.

HUMA TARDE ENTROU O POETA EM CASA DESTA DAMA, QUE ESTAVA NO

INTERIOR ENOJOADA PELA MORTE DE SUA MÃE, E COMO ERA HOMEM

DIVERTIDO, TANGEU NUMA VIOLLA, QUE ACASO VIO, PONDO A VIOLLA OS

SENTIMENTOS DE BARBORA: E ELLA ENFURECIDA LHE DISSE ALGUMAS

INJURIAS.

COLHE-SE DO ESTILO DESTAS OBRAS QUE O AMOR DESTA DAMA NÃO

INQUIETAVA AO POETA.

ENFERMOU E O POETA DA VISTA DE BARBORA, FEZ O SEU TESTAMENTO, E

ACABOU OS DIAS: MAS APENAS FOY VISTO PELA MESMA DAMA LOGO RESURGIO

PARA NOVAS FINEZAS: E ISTO HE SER LAZARO DE AMOR. DIZ, QUE SE HA DE

CASAR COM BARBORA, E EM CONSCIENCIA O PODIA FAZER: PORQUE QUEM

RESURGE, NÃO ESTÁ OBRIGADO AO PRIMEYRO MATRIMONIO.

ESTA CANTIGA ACCOMODA O POETA COM PROPORÇÃO À BARBORA PELO NOME

E TRATO, NÃO DEYXANDO DE FORA OS SEUS AMANTES DEZEJOS.

AMOROSA HYPOCREZIA DE CONFORMIDADE EM PENAS.

DE HUMA QUEDA QUE DEO O POETA EM CASA DESTA BARBORA, ERGUE NOVOS

CONCEYTOS À SUA ROGATIVA.

AO MESMO ASSUMPTO.

VENDO-SE FINALMENTE EM HUMA OCCASIÃO TAM PERSEGUIDA ESTA DAMA DO

POETA, ASSENTIO NO PREMIO DE SUAS FINEZAS; COM CONDIÇÃO POREM, QUE

SE QUERIA PRIMEYRO LAVAR; AO QUE ELLE RESPONDEO COM A SUA

COSTUMADA JOCOSERIA.

A BARBORA HUMA MULATA MERETRIZ A QUEM CERTOS FRADES LHE PASSARAM

HUM GERAL, DO QUAL FICOU TAM PERIGOSA QUE VEIO A SACRAMENTAR-SE.

OS SEUS DOCES EMPREGOS

7 – BÁRBORA OU BABU

Foy Dama muy caprichosa e bel a: rematada de notável

genio com engraçada viveza. Teve mais duas Irmãas

Eugenia e Maria. O Poeta jocosamente galantea

os seus desdens.

Manuel Pereira Rabelo, licenciado

Nunca meu pai me fizera

branco de cagucho, e cara,

mas não deixes de querer-me,

porque sou branco de casta,

que se me tens cativado,

sou teu negro, e teu canalha

PEDE O POETA NESTA OBRA CONTA DO SEU PROCEDER À SUAS IRMÃAS

EUGENIA E MACOTTA.

Eugênia, convosco falo,

e com Macota também,

dai-me novas de Babu,

se acaso dela sabeis.

Que me dizem, que esta noise

a bruxa se foi meter

e ninguém a viu em casa

até que amanheceu.

Dizei-me, se está arranhada,

porque se está, sinal é,

que andou por barro de folha

Carmo aquém, e Carmo além.

Eu não sinto estas mudanças,

e só me queixo, de que

correndo a cidade toda

não chegasse a esse vergel.

Porque pudera eu sair,

e acompanhá-la também

por todo esse lararipe

e embruxar toda a mulher.

A minha fora a primeira,

e morrendo de uma vez

casar-me-ia com Babu,

para ter cunhadas três.

Qualquer delas me fizera

mil regalos, mil mercês,

e engordando como um Conde

levará vida de rei.

Mas ela me tem tal ódio,

que fugirá té de ser

madrasta do Gonçalinho,

que é lindo enteado à fé.

Vós Eugênia, e vós Macota,

vigiai-me essa Mulher,

que é bruxa, e tem-se embruxado

desde a cabeça até os pés.

Porque ou há de resolver-se

a querer, que a queira eu,

ou lhe hei de tirar o sangue,

e o fadário há de perder.

Não quero, que seja a bruxa,

ou hei de sê-lo também

para acompanhar de noite,

e de dia a recolher.

Aliás hei de acusá-la

a seu Pai, quando vier,

porque se em prisões me mata,

em prisões morra também.

PONDERA QUE OS DESDENS SEGUEM SEMPRE COMO SOMBRAS O SOL DA

FORMOSURA.

Cada dia vos cresce a formosura,

Babu, e tanto cresce, que me embaça,

Se cresce contra mim, alta desgraça,

Se cresce para mim, alta ventura.

Se cresce por chegar-me à mor loucura,

Para seres mais dura, e mais escassa,

Tal rosto se não mude, antes se faça

Mais firme do que a minha desventura.

De que pode servir, seres mais bela,

Ver-vos mais soberana, e desdenhosa?

Dai ao demo a beleza, que atropela,

Bendita seja a feia, e a ranhosa,

Que roga, que suspira, e se desvela

Por dar-se toda a troco de uma prosa.

HUMA TARDE ENTROU O POETA EM CASA DESTA DAMA, QUE ESTAVA NO

INTERIOR ENOJOADA PELA MORTE DE SUA MÃE, E COMO ERA HOMEM

DIVERTIDO, TANGEU NUMA VIOLLA, QUE ACASO VIO, PONDO A VIOLLA

OS SENTIMENTOS DE BARBORA: E ELLA ENFURECIDA LHE DISSE ALGUMAS

INJURIAS.

Babu: dai graças a Deus,

que um dia vos vi bonita,

não tendes mais que andar sempre

raivosa para ser linda.

Apareceste na sala

tão fera, e tão raivosinha,

que à fé, que vos tive medo,

sendo homem, e vós menina.

Vi a escarlata co'a neve

tão casada, e tão unida

na face do vosso rosto,

que sangrado o presumia.

Devia de ser vergonha,

que o vosso rosto então tinha

de ver-se ante quem o adora,

sendo vós de ingrata indigna.

Os olhos vibrando raios,

porque sempre raios vibra

o céu incendido em fogo,

ou encapotado em ira.

Agastastes-vos deveras,

vendo, que ali se tangia

em uma casa enojada

tão enlutada, e sentida.

Deus me não salve a minha alma,

se eu então vos conhecia,

porque vós não sois magreira,

e por ética vos tinha.

Levantei-me da cadeira

sem saber, o que fazia,

que me tinha perturbado

tão supitânea visita.

Destes-me quatro razões,

que eram quatro mil faíscas

do fogo da vossa raiva

em o meu erro incendidas

Inda assim vos respondi

dois verbos em cortesia,

que a beleza foi respeito,

e a fraqueza é comedida.

Fostes-vos lá para fora

vagarosamente altiva,

paráveis de quando em quando,

e olháveis de travessia.

Eu logo me pus na rua,

e perguntando a Matias

quem era aquela Senhora,

disse, que era minha Tia.

Fiquei entendendo então,

que vós só por seres vista

tomastes do meu cantar

aquele pé de cantiga.

Já não hei de cantar mais,

nem que o mande a minha amiga,

chorareis vossa dureza,

chorarei minha mofina.

COLHE-SE DO ESTILO DESTAS OBRAS QUE O AMOR DESTA DAMA NÃO

INQUIETAVA AO POETA.

Babu: como há de ser isto?

eu já me sinto acabar,

e estou tão intercadente,

que não chegue até amanhã.

Morro de vossa beleza,

se ela me há de matar,

como creio, que me mata,

formosa morte será.

Mas seja formosa, ou feia,

se o Deão me há de enterrar,

por mais formosa que seja,

sempre caveira será.

Todos aqui desconfiam

tudo é já desconfiar

da minha vida os doutores

e eu do vosso natural.

Desconfio, de que abrande

vosso rigor pertinaz,

e a minha vida sem cura

sem dúvida acabará.

Porque se estais incurável,

e tão sem remédio vai

o achaque de não querer-me,

e o mal de querer-me mal:

Que esperança posso ter,

ou que remédio há capaz,

se vós sois a minha vida,

e morreis por me matar?

Amor é união das almas

em conformidade tal,

que, porque estais sem remédio,

por contágio me matais.

Curai-me do mal querer-me,

e do fastio, em que estais

à minha triste figura,

que ao demo enfastiará.

Comei, e seja o bocado,

que corn gosto se vos dá,

porque em vós convalescendo,

então me hei de eu levantar.

Assim sararemos ambos,

porque se vós enfermais

pelo contágio, o remédio

por simpatia será.

Vós, Babu, virais-me as costas?

pois eu feito outro que tal,

estou às portas da morte,

e a fala me falta já.

Quero fazer testamento;

mas já não posso falar,

que vós por costume antigo

sempre a fala me quitais.

Mas testarei por acenos,

que tudo em direito há

e se por louco não posso,

posso por louco em amar.

Todos meus bens, se os tivera.

os deixara a vós não mais,

mas deixo-vos para os outros,

que é, o que posso deixar.

Se hei de deixar-me a vós

quantos bens no mundo há,

em vos deixar a vós mesma,

arto deixada ficais.

Em sufrágios da minha alma

não gasteis o cabedal,

que aos vossos rigores feito,

penas não hei de estranhar.

Mas se por minhas virtudes,

ou se por vos jejuar,

ou se por tantas novenas,

que à vossa imagem fiz já:

Vos mereço algum perdão

dos pecados, que fiz cá,

assim em vos perseguir,

como em vos desagradar:

Com as mãos postas vos peço,

que no vosso universal

juízo mandeis minha alma

ao vosso céu descansar.

Não a mandeis ao inferno

que arto inferno passou cá,

Adeus, apertai-me a mão,

que eu já vou a enterrar.

ENFERMOU E O POETA DA VISTA DE BARBORA, FEZ O SEU TESTAMENTO, E

ACABOU OS DIAS: MAS APENAS FOY VISTO PELA MESMA DAMA LOGO

RESURGIO PARA NOVAS FINEZAS: E ISTO HE SER LAZARO DE AMOR. DIZ, QUE

SE HA DE CASAR COM BARBORA, E EM CONSCIENCIA O PODIA FAZER: PORQUE

QUEM RESURGE, NÃO ESTÁ OBRIGADO AO PRIMEYRO MATRIMONIO.

1 Ontem para ressurgir

vos tornei, Babu, a ver,

e tornou-se-me a acender

o gosto de vos servir:

não vos quereis persuadir,

a que eu com todo o primor

mereça o vosso favor,

porque em casando-me absorto

cuida o Brasil, que sou morto

para negócios de amor.

2 O Brasil é um velhaco,

um falso, e um embusteiro,

porque ou casado, ou solteiro

quanto ensaco, desensaco:

e a vez que me desataco,

a pecúnia tanta, ou quanta

deu por pagar mercê tanta;

porque sei, que na Bahia

a coisa por qualquer via

val, conforme se levanta.

3 Se por casado não sigo

a dita de vos servir,

daqui venho a inferir,

que quereis casar comigo:

casemo-nos, que o perigo,

que eu corro, é ser açoutado

por duas vezes casado;

e quando nisto me encoutem,

que me dá a mim, que me açoutem

depois de vos ter logrado?

4 A Cota, que é toda treta,

vendo, que o algoz madraço

me vai limpando o espinhaço

com toalha de vaqueta,

rirá como uma doideta,

e dando um, e outro amém,

alegre dirá, inda bem,

que me deu Deus um cunhado

homem de bem no costado,

e nas costas de rebém.

5 Ora sus, minha Senhora

já me canso de esperar,

dai-vos pressa a me chamar,

e não seja ali a desoras:

que para quem se namora

de vários aventureiros,

se os quer trazer prazenteiros,

há de ter sempre chamados

ao meio-dia os casados,

e à meia-noite os solteiros.

ESTA CANTIGA ACCOMODA O POETA COM PROPORÇÃO À BARBORA PELO

NOME E TRATO, NÃO DEYXANDO DE FORA OS SEUS AMANTES DEZEJOS.

MOTE

Pobre de ti, Barboleta,

imitação do meu mal,

que ern chegando ao fogo morres,

porque morres, por chegar.

1 Passeias em giro a chama,

simples Barboleta, em hora,

que se a chama te enamora,

teu mesmo estrago te chama:

se o seu precipício ama,

quem o seu mal inquieta,

e tu simples, e indiscreta

tens por formosura grata

luz, que traidora te mata,

Pobre de ti, Barboleta.

2 Ou tu imitas meu ser,

ou eu tua natureza,

pois na luz de uma beleza,

ando ardendo por arder:

se à luz, que vejo acender,

te arrojas tão cega, e tal

que imitas ao natural,

com que arder por ti me vês,

me obrigas a dizer, que és

Imitação do meu mal.

3 És, Barboleta, comua,

pois a toda luz te botas,

e eu cego, se bem o notas,

sou só, Barboleta, tua:

qualquer segue a estrela sua,

mas tu melhor te socorres,

quando em fogo algum te torres,

porque eu nunca ao fogo chego,

e tu logras tal sossego,

Que em chegando ao fogo morres.

4 Tu mais feliz, ao que entendo,

inda que percas a vida,

porque a dá por bem perdida,

quem vive de andar morrendo:

eu não morro, e o pertendo,

porque falta a meu pesar

a fortuna de acabar:

tu morres, e tu sossegas,

e vais morta, quando cegas,

Porque morres por chegar.

AMOROSA HYPOCREZIA DE CONFORMIDADE EM PENAS.

Deus vos dê vida, Babu,

para tirar-me, a que tenho,

que segundo usais comigo,

eu vos não sinto outro jeito.

Todo o bairro sente o dano,

que ides ao bairro fazendo,

só eu não sinto o meu mal,

mas antes vo-lo agradeço.

Porque se a vossa beleza

é causa do meu tormento,

como hei de sentir meu mal,

se é tão forçoso, e tão belo.

Matai-me, embora, contanto

que saibam, que estou morrendo,

Babu, de vossa beleza,

porque entendam, que o mereço.

Quem perder por vós a vida,

e com tal merecimento,

que chegue a morrer por vós,

que mais quer, que merecê-lo?

É verdade, que lastimo,

aos que assim me vêem morrendo,

que a glória do padecer

não pode entendê-la um néscio.

Lástima os néscios me têm,

e poderão ter-me os néscios

de ver-me morrer inveja,

mais de que ver-me vivendo.

Viver, não pode, quem ama,

e eu olvidar-vos não quero,

se hei de morrer, quando amo,

e viver, quando aborreço.

Morra embora de adorar-vos,

que este é formoso tormento,

esta a suave agonia,

este o pesar lisonjeiro.

Dai-me licença, que escolha,

nestes dois contrários meios

antes morrer por amar-vos,

que viver de aborrecer-vos.

DE HUMA QUEDA QUE DEO O POETA EM CASA DESTA BARBORA, ERGUE NOVOS

CONCEYTOS À SUA ROGATIVA.

Fui, Babu, à vossa casa

e indo com sentido em mim,

do sentido combatido

vim finalmente a cair.

Com cair a vossos pés

nenhum resguardo senti,

porque eram vossos sapatos

poucos para me cobrir.

Fui reverente a beijá-los,

e querendo-o conseguir

sobrou boca, e faltou pé,

e assim os beijos perdi.

Que com pé tão pequenino

tão abreviado, e sutil

uma boca desmedida

faz maridagem ruim.

Ergui-me por melhorar,

e então menos consegui,

que se os pés por si me fogem,

vós cos braços me fugis.

Fiquei muito envergonhado,

e em caso tão infeliz

envergonhei-me de ver-vos,

porém não me arrependi.

Mas se o meu sangue, e meus rogos,

vos não podem persuadir,

verta-se o sangue em dilúvios,

e os rogos em frenesi.

Não se quis o meu rogado,

pois no instante, em que vos vi,

se inclinou meu sangue ao vosso,

e rebentou por se unir.

Para queimardes-me o sangue,

me matar, e me afligir

rogos não são necessários,

para admitir-me isso sim.

E tão bom dia, que bastem

para um amor se admitir,

pois rogar, a quem não ama,

é tão mau, como pedir.

Por isso nunca vos peço,

que não sois vós a Beatriz,

que me hei de fazer ditoso

com vossa graga a ceitis.

Pois por dar-vos desenganos

vós, como os dou a mim,

sabei, que hei de sempre amar-vos

uma vez, que bem vos vi.

Pois esse rosto de neve,

esses dedos de jesmim,

esse Maio florescente

de boca, que bota Abris,

Me estão sempre aconselhando,

que vos queira, pois vos quis,

que vos sofra, pois vos amo,

vos busque, pois vos perdi.

AO MESMO ASSUMPTO.

1 Babu: o ter eu caído,

nenhum susto me tem dado,

porque a vossos pés prostrado

me julgo então mais subido:

direis, que fiquei sentido:

mas sabei, que não sentira,

inda que me não subira

o cair, onde caí,

se como no chão me vi,

convosco em terra me vira.

2 Porém que isso me suceda,

por mais quedas, que inda dê,

não creio, pois vejo, que

não tenho convosco queda,

vossa crueza me veda

este bem, que entanto abraço:

quem viu semelhante passo,

que encontre meu desvario,

Babu, em vosso desvio

a minha queda embaraço?

3 Confesso, que então caído

fiz tenção de me sangrar,

mas não me quis mais picar,

porque assaz fiquei corrido:

não andei pouco advertido

(falo, como quem vos ama)

porque eu sei, formosa Darna,

que por mais que me sangrasse

livre estou, de que chegasse

a ver-me por vós na cama.

4 E com toda essa desgraça

por satisfeito me dera,

se com cair merecera

sequer cair-vos em graça:

mas porque, Babu, eu faça

desta queda estimação

inda sobeja razão,

se a queda motivo é

de prostar-me a vosso pé,

para beijar-vos a mão.

VENDO-SE FINALMENTE EM HUMA OCCASIÃO TAM PERSEGUIDA ESTA DAMA

DO POETA, ASSENTIO NO PREMIO DE SUAS FINEZAS; COM CONDIÇÃO POREM,

QUE SE QUERIA PRIMEYRO LAVAR; AO QUE ELLE RESPONDEO COM A SUA

COSTUMADA JOCOSERIA.

1 O lavar depois importa,

porque antes em água fria

estarei eu noite, e dia

batendo-vos sempre à porta:

depois que um homem aporta,

faz bem força por entrar,

e se hei de o postigo achar

fechado com frialdade,

antes quero a sujidade,

porque enfim me hei de atochar.

2 Não serve o falar de fora,

Babu, vós bem o sabeis,

dai-me em modo, que atocheis,

e esteja ele sujo embora:

e se achais, minha Senhora,

que estes são os meus senãos,

não fiquem meus gostos vãos,

nem vós por isso amuada,

que ou lavada, ou não lavada

cousa é, de que levo as mãos.

3 Lavai-vos, minha Babu,

cada vez que vós quiseres,

já que aqui são as mulheres

lavandeiras do seu cu:

juro-vos por Berzabu,

que me dava algum pesar

vosso contínuo lavar,

e agora estou nisso lhano,

pois nunca se lava o pano,

senão para se esfregar.

4 A que se esfrega amiúdo

se há de amiúdo lavar,

porque lavar, e esfregar

quase a um tempo se faz tudo:

se vós por modo sisudo

o quereis sempre lavado,

passe: e se tendes cuidado

de lavar o vosso cujo

por meu esfregão ser sujo,

já me dou por agravado.

5 Lavar a carne é desgraça

em toda a parte do Norte,

porque diz, que dessa sorte

perde a carne o sal, e graça:

e se vós por esta traça

lhe tirais ao passarete

o sal, a graça, e o cheirete,

em pouco a dúvida topa,

se me quereis dar a sopa,

dai-ma com todo o sainete.

6 Se reparais na limpeza,

ides enganada em suma,

porque em tirando-se a escuma,

fica a carne uma pureza:

fiai da minha destreza,

que nesse apertado caso

vos hei de escumar o vaso

com tal acerto, e escolha,

que há de recender a olha

desde o Nascente ao Ocaso.

7 As Damas, que mais lavadas

costumam trazer as peças,

e disso se prezam, essas

são Damas mais deslavadas:

porque vivendo aplicadas

a lavar-se, e mais lavar-se

deviam desenganar-se,

de que se não lavam bem,

porque mal se lava, quem

se lava para sujar-se.

8 Lavar para me sujar

isso é sujar-me em verdade,

lavar para a sujidade

fora melhor não lavar:

do que serve pois andar

lavando antes que mo deis?

Lavai-vos, quando o sujeis,

e porque vos fique o ensaio,

depois de foder lavai-o,

mas antes não o laveis.

A BARBORA HUMA MULATA MERETRIZ A QUEM CERTOS FRADES LHE

PASSARAM HUM GERAL, DO QUAL FICOU TAM PERIGOSA QUE VEIO A

SACRAMENTAR-SE.

1 Não era muito, Babu,

o sentires dor de madre,

se vos pespegou um Padre,

ou Padres o sururu:

grandes poderes tens tu,

e vigor mais que papal,

que no clima Americal,

onde um Rodela te topa,

estando fora de Europa,

escamastes um geral.

2 A Macotinha, e Jelu,

Luísa, e Inácia levaram

o geral, porém ficaram,

não como ficaste tu:

ou foi o caralho açu,

que o interno te burniu,

porque jamais ninguém viu,

que molestasse um caralho,

havendo tanto escorralho,

como o teu vaso cumpriu.

3 Se fora a primeira vez,

seria por fraca via,

mas a tua serventia

mil velhacarias fez:

e se tu tão puta és,

e sentisse o tal baldão,

qualquer era fradigão,

dos que dão treze por dúzia,

e já que foste brandúzia,

sente a dor do madrigão.

4 Chegaste do caso tal,

a tomares o Senhor,

e fora muito melhor

dar-te Berzabu bestial:

que quem pecado mortal

comete, e dele enfermou

logo o diabo o levou,

e quem se serve do demo,

navegando a vela, e remo

nos infernos ancorou.

Núcleo de Pesquisas em Informática, Literatura e Lingüística

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