Crônica do Viver Baiano Seiscentista - A Cidade e Seus Pícaros - Betica por Gregório de Matos - Versão HTML

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LITERATURA BRASILEIRA

Textos literários em meio eletrônico

Gregório de Matos

Texto-fonte: Obra Poética, de Gregório de Matos,

3ª edição, Editora Record, Rio de Janeiro, 1992.

Crônica do Viver Baiano Seiscentista

Índice

BETICA

FOY ESTA DAMA VISTA DO POETA EM CERTA MANHÃ A SUA JANELLA, E ELLE LHE

DÀ OS BONS DIAS COM ESTE GRACIOSSISSIMO ROMANCE.

PASSOU O POETA PELA PORTA DESTA DAMA, ARRIBANDO DE FORA POR CAUSA

DA CHUVA, COM HUM CASACÃO, E HUA CARAPUÇA. E ELLA LHE DICE, QUE SE

FORA POETA, COMO ELLE, O HAVIA DE SATYRIZAR PELO DESCOCO: AO QUE ELLE

FEZ ESTAS DÉCIMAS.

INDO O POETA, E GONÇALLO RAVASCO A CASA DE BETICA E QUERENDO TRATAR

COM ELLA LHE PEDIO HUA GALA DE ANTEMÃO.

TEVE O POETA NOTICIA, QUE SEBASTIÃO DA ROCHA PITTA SENDO RAPAZ, SE

ESTRAGAVA COM BRITES.

OFFENDIDO SEBASTIÃO DA ROCHA PITTA POR CAUSA DE HUNS CIUMES À QUIZ

CASTIGAR: AO QUE ACODIO A MAY E LHE FEZ AS DESCOMPOSTURAS

SEGUINTES.

POR UM ESCRAVO MANDOU O POETA À BETICA HUM FORMOSO CARÁ COM ESTE.

VINDO ESTA DAMA HUMA VEZ A CASA DO POETA LHE PEDIO CEM MIL REIS PARA

HUM DESEMPENHO.

TORNA ESTA DAMA A INVESTIR SEGUNDA VEZ AO POETA PEDINDOLHE HUMA

GALA, E ELLE FAMOSAMENTE SE DESEMPULHA DESTE MODO.

PICADA BETICA, DE QUE O POETA LHE NÃO DESSE A GALA, LHE APPARECEO EM

CERTA OCCASIÃO COM HUMA SAYA DE SEDA AMARELLA, MAS O POETA SE

DESPICA COM ESTAS DÉCIMAS.

CERTO COMISSARIO DA PRAYA SEU AMAZIO, SABENDO, QUE ANTES DE ELLA IR À

SUA CASA, COSTUMAVA PRIMEYRO TRATAR CO MANUEL RAMOS PARENTE, LHE

PREPAROU UMA LAVAGEM DE PIMENTAS, DE QUE FICOU EM MISERAVEL ESTADO.

AS DIFFERENÇAS QUE TINHÃO SEOS QUATRO AMANTES, SOBRE QUEM À HAVIA

DE LEVAR.

A MESMA APPARECENDO NO DIA DAS VIRGENS VESTIDA DE LUTO.

16 – BETICA

Vista do Poeta em certa manhã à sua janella.

Manuel Pereira Rabelo, licenciado

Uma confusão das bocas

uma batalha de veias,

um reboliço de ancas,

quem diz outra coisa, é besta

FOY ESTA DAMA VISTA DO POETA EM CERTA MANHÃ A SUA JANELLA, E ELLE

LHE DÀ OS BONS DIAS COM ESTE GRACIOSSISSIMO ROMANCE.

Ontem ao romper da Aurora,

começando o amanhecer,

vi desta parte do ocaso

dois sóis, a quem quero bem.

Que fazendo oposições

com brilhantes rosicler,

ao sol, que de envergonhado

se começava a esconder.

Eclipsados vi seus raios,

mas quem suas luzes vê,

nas admirações se pasma,

nas invejas perde o pé.

Que a beleza singular,

que ostentam seus olhos, sei,

que o sol não quer competi-la,

porque a saiba engrandecer.

Cegam os seus resplandores,

e de tal sorte me tem,

que não como ao sol me escondo,

porém morro por te ver.

Como cega barboleta

ao fogo da minha fé

se queima a desconfiança

de nunca te merecer.

Valha-te Deus por Betica,

não sei dizer-te, meu bem,

como vivo enamorado,

como estou, não sei dizer.

Porque entre o doce de amar-te,

e o amargo de te não ver,

hei de viver da esperança

ou da saudade morrer.

Tua rara formosura,

eu a não sei comprender,

porque um não és tens de humana,

e um quase divina és.

E já que nesta cegueira

tua beleza me tem,

ou me corresponde amante,

ou me acaba de uma vez.

Porque tão confuso vivo,

tão triste me chego a ver,

tão temeroso me atrevo,

que é um abismo cruel.

Tal abismo o peito sente:

ora permite, meu bem,

diminuir os incêndios,

acabe-se o padecer.

Toma o astuto Piloto

o sol, só para saber,

se se acha na boa altura,

mas sem carta nada fez.

E pois no mar de meus olhos

perigos receia a fé,

manda-me, por não perder-te,

uma carta desta vez.

Dá-me velas à esperança,

com elas marearei,

já que o fogo da vontade

sempre está firme a teus pés.

PASSOU O POETA PELA PORTA DESTA DAMA, ARRIBANDO DE FORA POR CAUSA

DA CHUVA, COM HUM CASACÃO, E HUA CARAPUÇA. E ELLA LHE DICE, QUE SE

FORA POETA, COMO ELLE, O HAVIA DE SATYRIZAR PELO DESCOCO: AO QUE

ELLE FEZ ESTAS DÉCIMAS.

1 Que não vos enganais, digo,

Betica, e antes cuidai,

que uma sátira a meu Pai

farei, se bulir comigo:

fá-la-ei ao mor amigo,

quando aleivoso me toe,

e porque melhor vos soe,

se vos pus em tanta calma,

sendo meu ídolo d'alma,

a quem quereis, que perdoe?

2 E se mal vos pareceu,

que eu fosse por esse posto

tão despido, e descomposto,

sem ter respeito a esse céu,

bem sabeis vós, que choveu,

e eu vinha de me embarcar:

porém entoldou-se o ar,

e para casa arribei,

com que se desagradei,

quero-me satirizar.

3 Betica, eu sou um magano,

um patife, um mariola,

um sátiro, um salvajola,

e mais doudo que um galhano:

de pois de ser vosso mano,

em tempo, que eu era honrado,

fui muito desaforado

em ir pela vossa rua

com barrete de falua,

e o pá de gato pingado.

4 Sou um sujo, e um patola,

de mau ser, má propensão,

porque se gasto o tostão,

é só com negras de Angola:

um sátiro salvajola,

a quem a universidade

não melhorou qualidade,

nem juízo melhorou,

e se acaso lá estudou,

foi loucura, e asnidade.

5 Sou um tonto, e um cabaça,

pois fui qual bruto indigesto,

onde os mais compõem o gesto

por cair na vossa graça:

e se então fugi da praça,

onde estão homens de porte,

bem é, que a praça me corte,

pois atento à vossa fé

devia de entender, que

onde vós estais, é corte.

6 Se da sátira entenderes,

que pouco pesada vai,

vós, Betica, a acrescentai,

chamando-me, o que quiseres:

quantos nomes me puseres,

todos me viram frisando,

e se enfim acrescentando

não vos parecer bastante,

mudai-os de instante a instante,

pondo-me uns, e outros tirando.

INDO O POETA, E GONÇALLO RAVASCO A CASA DE BETICA E QUERENDO

TRATAR COM ELLA LHE PEDIO HUA GALA DE ANTEMÃO.

Fui, Betica, à vossa casa

uma noite de luar

entrei com Senhor Gonçalo,

e saí com Barrabás.

Propus-vos minha doença,

comuniquei-vos meu mal,

receitastes-me um veneno

com matar-vos ofertar.

Logo entendi o remoque,

e que fiz, vos lembrará,

cara, como de quem prova

cousa, que lhe sabe mal.

Contudo tive paciência,

que, a quem saúde não há,

morre às vezes do remédio,

mais que do seu próprio mal.

Assentei de obedecer-vos,

e pus-me a considerar,

onde uma gala acharia

em tempo, que ovos não há.

Fiei-me no mercador,

que por fiar fiará

as sedas, que heis de vestir,

no roca de Portugal.

Mas tornando ao vosso conto

creio, que se há de notar,

que por pedires diante

vós quereis dar por detrás.

Que diante a luz caminhe,

diz o antigo rifão: mas

como a posso levar eu,

se o que quero, é tropeçar.

O que eu quisera, Betica,

é, convosco me encontrar,

que assim no escuro caíra,

quem com luz não cairá.

Eu quero convosco amores,

rinhas não, e claro está,

que dar, e tomar são rinhas,

de que Deus me há de livrar.

Dizem, que sois trigueirinha,

juro, o que posso jurar,

que mente, quem tal afirma,

porque vós bem clara estais.

Contudo torno a dizer-vos

que tenho de vos mandar

tão grande luz adiante,

que cegueis, e me caiais.

Entretanto só vos peço,

não queirais acrescentar

barrete de quatro cornos

com trezentos cornos mais.

Porque vos quero já tanto,

que a vida me há de custar,

ver chupar outras abelhas

flor, que sempre em flor está.

TEVE O POETA NOTICIA, QUE SEBASTIÃO DA ROCHA PITTA SENDO RAPAZ, SE

ESTRAGAVA COM BRITES.

Brás pastor inda donzelo,

querendo descabaçar-se,

viu Betica a recrear-se

vinda ao prado de amarelo:

e tendo duro o pinguelo,

foi lho metendo já nu,

fossando como Tatu:

gritou Brites, inda bem,

que tudo sofre, quem tem

rachadura junto ao cu.

OFFENDIDO SEBASTIÃO DA ROCHA PITTA POR CAUSA DE HUNS CIUMES À QUIZ

CASTIGAR: AO QUE ACODIO A MAY E LHE FEZ AS DESCOMPOSTURAS

SEGUINTES.

1 Um Sansão de caramelo

quis a Dalila ofender,

ela pelo enfraquecer

lançou-lhe mão do cabelo:

ele vendo-se sem pêlo

franqueou a retirada;

de um pulo tomou a escada,

e por ser Sansão às tortas,

em vez de levar as portas

levou muita bofetada.

2 O Filisteu, que lhas deu,

(segundo ele significa)

a Mãe era de Betica

mulher como um filisteu:

a bofetões o cozeu,

e o pôs como um sal moído;

mas ele está agradecido

sair com olhos na cara,

que ela diz, lhos não tirara,

por já lhos haver comido.

3 Posto o meu Sansão na rua,

por firmar-se na estacada

tomou de um burro a queixada,

outros dizem, que era sua:

com ela o inimigo acua,

mas não fez dano, nem mal,

porque afirma cada qual

entre alvoroço, e sussurro,

quem livrou dos pés do burro,

mal morrerá do queixal.

4 Enfim foi preso o Sansão

pelas mãos da filistéia,

não nos bofes da cadeia,

nas tripas de um torreão:

ali o cabelo lhe dão,

que perdeu na suja guerra;

jura Sansão, brama, e berra,

que se torna a ver Betica,

e as colunas se lhe aplica,

que há de lançá-la por terra.

POR UM ESCRAVO MANDOU O POETA À BETICA HUM FORMOSO CARÁ COM

ESTE.

MOTE

Dize a Betica que quando

buscava, que lhe mandar,

um só cará pude achar,

que por ser cará lho mando.

1 Bernardo, há quase dous anos,

que andais a ir, e a vir

sem podermos conseguir

de Betica, mais que enganos:

se hás de dar fim a meus danos

em vencê-la porfiando

vai trazendo, e vai levando,

e pois já chega a dizer

que hei de lograr, e vencer,

dize a Betica que quando?

2 Pede-lhe o dia, e a hora,

em que a hei de ver louçã

porque é mui longe amanhã

para uma alma, que a adora:

e porquanto essa Senhora

dá agora em desconfiar,

dos que a não sabem comprar,

dize-lhe, que isso entibia,

a quem já por cortesia

buscava, que lhe mandar.

3 Que há de ter em grande apreço

os desejos da vontade,

que valem na realidade

mais que a dita do sucesso:

e que se o dar não tem preço,

também se deve estimar,

quem tem desejos de dar,

como eu, que com tanto afinco

desejando achar um brinco,

só um cará pude achar.

4 Pois se a sorte mais não quis

conceder-me, e deparar-me,

inda assim posso gabar-me,

que lhe dei bem de raiz:

que o que pude, agora fiz,

ao depois de quando em quando

lhe irei aos poucos mandando,

sendo, que tão fora está

de ser pouco esse cará,

que por ser cará lho mando.

VINDO ESTA DAMA HUMA VEZ A CASA DO POETA LHE PEDIO CEM MIL REIS PARA

HUM DESEMPENHO.

Betica: a bom mato vens

com teu dá cá, com teu toma,

o diabo te enganou,

não pode ser outra cousa.

Viste-me acaso com jeito,

de comissário da frota,

que faz roupa de francês

dos borcados de Lisboa?

Sou eu acaso o Mazulo,

que, do que tem de outras contas,

dá sem conta cada um ano

cem mil cruzados à Rola?

Sou Mataxim por ventura,

que vim onte ontem d'Angola,

e dos escravos alheios

faço mercancia própria?

Menina, eu bato moeda?

eu sou um pobre idiota,

que para um tostão ganhar

estudo uma noite toda.

Cem mil-réis me vens pedir?

a mim, cem mil-réis, demônia?

se eu algum dia os vi juntos,

Deus mos dê, e mos comei.

Se eu nascera Genovês,

ou fora visrei de Goa,

vinte quatro de Sevilha,

ou quarenta e oito de Roma:

Dera-te, minha Betica,

pela graça, com que tomas,

mais ouro, que vinte minas,

mais sedas, que trinta frotas.

Mas um pobre estudantão,

que vive à pura tramóia,

e sendo leigo, se finge

cleriguíssimo corona:

Que pode, Betica, dar-te,

se não qués versos, nem prosa?

eu não dou senão conselhos,

se mos paga, quem mos toma.

Se me há de custar tão caro

erguer-te uma vez as roupas,

com outra antes de barrete,

do que castigo de gorra.

Para que sendo tão rica

pedes como pobretona,

se esses teus dentes de prata

estorvem o dar-te esmolas!

Que mais cabedal desejas,

se és tão rica de parolas,

que com vários chistes pedes

todo um dia a mesma cousa?

Tu pedindo, e eu negando,

que cousa mais preciosa,

que val mais, do que desejas,

e a ti nada te consola.

Cem mil-réis de uma só vez?

pois, pobreta, à outra porta;

Deus te favoreça Irmã,

não há trocado; perdoa.

Não há real em palácio,

ando baldo, perdi a bolsa;

que são os modos, com que

se despede uma pidona.

TORNA ESTA DAMA A INVESTIR SEGUNDA VEZ AO POETA PEDINDOLHE HUMA

GALA, E ELLE FAMOSAMENTE SE DESEMPULHA DESTE MODO.

Culpa fora, Brites bela,

não vos dar aquela gala,

em que o vosso amor me fala

tantas vezes com cautela:

mas que gala será? Tela?

Tela não, minha menina,

porque como sois tão fina,

e tão lindo serafim,

para luzirdes assim

vossa gala é serafina.

PICADA BETICA, DE QUE O POETA LHE NÃO DESSE A GALA, LHE APPARECEO

EM CERTA OCCASIÃO COM HUMA SAYA DE SEDA AMARELLA, MAS O POETA SE

DESPICA COM ESTAS DÉCIMAS.

1 Toda a noite me desvelo

por saber, com que conselho

para meter de vermelho,

vos vestistes de amarelo:

não sabe o vosso Donzelo,

qual amante, ou quais amores

vos deu a gala de flores:

porque assim como chamais

para a cama oficiais,

para a gala coadjutores.

2 Como se fora o deitá-la

render um forte iminente,

andais ajuntando gente,

para deitar uma gala:

noutra cousa se não fala,

mais que a gente, que fazeis,

porque quando os convoqueis,

e eles vos forem galando,

mil galas vos irão dando,

com que mil galas tereis.

3 De tanto amante sem conto

a gala haveis recebido,

que nos pontos do cosido,

cabe a cada amante um ponto:

não vos sinto outro desconto,

sendo a vossa obrigação

tanta quantos pontos são:

senão, que um e outro se afoite,

irem pagar-se de noite

nos pontos, que se lhes dão.

4 Não tendes, que vos queixar

destas minhas travessuras,

porque eu vos bato as costuras,

para o vestido assentar:

se todos hão de pagar

em chegando a vos dormir,

deixai também repartir

por mim esta obrigação,

que os mais de vestir vos dão,

e eu vos corto de vestir.

CERTO COMISSARIO DA PRAYA SEU AMAZIO, SABENDO, QUE ANTES DE ELLA

IR À SUA CASA, COSTUMAVA PRIMEYRO TRATAR CO MANUEL RAMOS PARENTE,

LHE PREPAROU UMA LAVAGEM DE PIMENTAS, DE QUE FICOU EM MISERAVEL

ESTADO.

1 Dá-me, Betica, cuidado,

o desastre, que tivestes,

quando gulosa comestes

o paio salpimentado:

não era inda divulgado

vosso mal, vosso desmaio,

quando eu soube como um raio

de u'as agulhas ferrugentas,

que comestes as pimentas,

mas não gostastes do paio.

2 Em vinganças tão cruentas

tenho por justas seqüelas,

que, a quem dais dor de canelas,

vos dê dores de pimentas:

mais vezes do que duzentas

vos mandou pôr atalaia

o vosso amigo da praia,

e vendo, que o outro malho

vos punha de vinha-d'alho

quis pôr-vos de jiquitaia.

3 Fez bem vosso barregão,

pois que via com seu olho,

que vínheis com tanto molho,

de botar-lhe o pimentão:

vós vínheis de outra ocasião

que ele viu, e coligiu,

e como tanto o sentiu

(sendo vós sua manceba)

que muito, que vos receba

com puta que te pariu.

4 Ele vos pôs justamente

Betica, em tanto perigo,

porque se tendes amigo,

não tenhais outro parente:

nem se sofre à boa mente

(inda que sejam subornos

a beleza, e os adornos)

que uma Moça de reclamos

se deite à sombra dos Ramos,

se os Ramos produzem cornos.

5 E pois vos vejo estalar

tomara agora saber,

em que vaso heis de cozer,

o que haveis de manducar?

eu não hei de lá chegar,

bem que a estrela violenta

me inclina, arrasta, e atenta,

pois tendes vaso tão mau,

que sobre ser bacalhau

tem muchíssima pimenta.

6 Mas deixada esta matéria,

a saber de vós me alhano,

que é feito daquele abano,

com que à noite da miséria

a vossa negra Quitéria

(sendo na gema do inverno)

vos abanava o interno

do vaso, que em viva chama

vos ardia mais na cama,

que o Avarento no Inferno.

AS DIFFERENÇAS QUE TINHÃO SEOS QUATRO AMANTES, SOBRE QUEM À HAVIA

DE LEVAR.

1 Betica: a vossa charola

levam-na quatro galantes

discretos, ricos, brilhantes

peanhas da vossa sola:

qualquer deles acrisola

o vosso trono eminente;

mas tem reparado a gente,

que é muito para sentir,

que um para o Norte quer ir,

e que outro para o Poente.

2 Um por não perder o abrigo,

vos quer levar para fora,

outro por vos ver cad'hora,

vos quer ter aqui consigo:

este diz, "há de ir comigo":

aquele: "aqui se há de estar":

e é muito para chorar,

que um andor tão buliçoso

sempre o tenham duvidoso

entre partir, e ficar.

3 A mim me tem parecido,

por fugir pesares artos,

que um algoz vos faça em quartos,

que o tendes bem merecido:

e que cada qual Cupido,

o que leva, e o que atraca,

da vossa carne velhaca

leve um quarto por partilha,

e dos quartos a quadrilha

como irmãmente da vaca.

4 Para repartir-vos bem

entre os quatro quadrilheiros,

tirem-se os quartos inteiros

soã, coxão, alcatra, acém:

e se entre eles houver quem

vos dê mais prazer, e gosto,

esse leve o entrecosto,

a alcatra, quem bem vos quer,

o acém, o que mais vos der,

e o coxão a todo o posto.

A MESMA APPARECENDO NO DIA DAS VIRGENS VESTIDA DE LUTO.

Betica: que dó é esse,

de que por Virgens te vestes?

acaso é, que dó tivestes,

de que tal bem se perdesse?

compre-te, quem te conhece,

que eu vendo-te assim vestida

com dó, te vejo saída,

e creio, que já és tal,

que cores te fazem mal,

e honesto só te dá vida.

Núcleo de Pesquisas em Informática, Literatura e Lingüística

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