Crônica do Viver Baiano Seiscentista - A Cidade e Seus Pícaros - Opúsculo de Pedro Alz. da Neyva por Gregório de Matos - Versão HTML

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LITERATURA BRASILEIRA

Textos literários em meio eletrônico

Gregório de Matos

Texto-fonte: Obra Poética, de Gregório de Matos,

3ª edição, Editora Record,Rio de Janeiro, 1992.

Crônica do Viver Baiano Seiscentista

Índice

OPÚSCULO DE PEDRO ALZ. DA NEYVA

SENTOU ESTE PRAÇA PARA SUBIR A CAPITÃO, NO TEMPO, EM QUE ERAM

TRIENAIS: E SENDO NOMEADO PARA HUMA EXPEDIÇÃO MARITIMA, PROMETTEO

DE ALVIÇARAS HUM CHAPEO, E OITO PATACAS, A QUEM O LIVRASSE.

LOUCURAS QUE FAZIA ÊSTE SUGEYTO COM HUM CAVALLO RUÇO, QUE LHE

COMPROU O THIO: E MORTE DO MESMO CAVALLO.

ANNA MARIA ERA UMA DONZELLA NOBRE, E RICA, QUE VEIO DA INDIA SENDO

SOLICITADA DOS MELHORES DA TERRA PARA DESPOSORIOS, EMPRENDEO FR.

THOMAZ CASALLA COM O DITO, E O CONSEGUIO.

AO MESMO ASSUNTO.

CASADO, E RICO SE EMBARCOU PARA PORTUGAL A COMPRAR NOBREZA; E O

POETA LHE FAZ AS DESPEDIDAS PROFETIZANDO, O QUE REALMENTE

SUCCEDEO.

AO MESMO QUE CHEGANDO À BAHIA COM HÁBITO, E FORO FALSO ENTRA

DESVANECIDAMENTE CONFIADO A TRATAR OS HOMENS NOBRES POR TERCEIRA

PESSOA.

DEDICA HUM ESTUDANTE HUMAS CONCLUZÕES AO DITO COM O BRAZÃO DOS

NEYVAS NA FAXADA: E IMPACIENTE O POETA DO DESAFORO ROMPE NESTAS

QUEIXAS.

AO MESMO RETIRANDO-SE HOMIZIADO PARA O CARMO, POR TER NOTICIA DE

HUM DECRETO, QUE VEYO DE SUA MAJESTADE AO DEZ.OR. ANTONIO

RODRIGUES BANHA, PARA PRENDER, OS QUE HAVIÃO NA CIDADE COM HABITOS,

E FOROS FALSOS.

AO MERGULHÃO CUNHADO DESTE SUGEYTO, QUE ENGANOU AO POETA COM

HUMA PROPINA DE COBRE INDO TOMAR O GRAO DE LECENCIADO.

A HUMA DAMA QUE MANDOU PEDIR AO POETA O TESTAMENTO, QUE ELLE TINHA

FEYTO AO CAVALLO DE PEDRALVES.

14 – OPÚSCULO DE PEDRO ALZ. DA NEYVA

Casado e rico se embarcou para

Portugal a comprar nobreza.

Manuel Pereira Rabelo, licenciado

E se o fumo da Bahia

a Pedro fidalgo fez,

fidalgo é da cheminez

dos Padres da companhia

SENTOU ESTE PRAÇA PARA SUBIR A CAPITÃO, NO TEMPO, EM QUE ERAM

TRIENAIS: E SENDO NOMEADO PARA HUMA EXPEDIÇÃO MARITIMA, PROMETTEO

DE ALVIÇARAS HUM CHAPEO, E OITO PATACAS, A QUEM O LIVRASSE.

1 Deixais, Pedro, o ser chatim,

por quererdes ser soldado,

e quando sois nomeado

dizeis, que não, e que sim:

não fora melhor, rocim,

conservar-vos charelete?

quem a soldado vos mete?

ide, não sejais magano,

a despir d'El-Rei o pano,

e metei-vos gurumete.

2 De alvíssaras um chapéu

com oito patacas dais

não vedes, que se ficais,

heis de ser da mofa o réu?

não conheceis isto, incréu?

mas que pode conhecer

um presumido sem ter

mais honras, que a cabeleira,

onde se estriba a poeira

de seu vaníssimo ser.

LOUCURAS QUE FAZIA ÊSTE SUGEYTO COM HUM CAVALLO RUÇO, QUE LHE

COMPROU O THIO: E MORTE DO MESMO CAVALLO.

1 Pedralves não há alcançá-lo,

porque se não cabe dele,

se um cavalo tem a ele,

ou se ele tem um cavalo:

mandou o tio comprá-lo,

por ver o seu Benjamim

na charola do Rolim;

mas tendo o rocim comprado,

então ficou cavalgado

o tio mais o rocim.

2 E porque era o tal sendeiro

um pouco acavaleirado,

se lhe pôs casa de estado,

dous pajens, e um escudeiro:

item papel, e tinteiro,

confessor, e capelão,

donde veio ocasião,

de todo o povo malvado

dizer, que o ruço rodado

morrera mui bom cristão.

3 Pedralves tão grande asnia

jura, e firma, que não disse,

porém se era parvoíce,

diria, mais que diria:

que outros lhe ouviu a Bahia

tão gordas, tão bem dispostas,

que já à guitarra andam postas,

donde chegam a julgá-lo

mais besta, que o seu cavalo,

por trazê-lo sempre às costas.

4 Por não tomar algum vício

ia ele, mais o rocim

ao campo roer capim,

fingindo, que ao exercício:

por vê-lo em tão alto ofício

ia com grande alvoroço

a marotagem num troço,

dizendo a puro intervalo,

será homem de cavalo,

quem foi de cavalo moço.

5 Uma tarde, em que corria,

ei-lo pelas ancas vai;

que muito, se também cai

qualquer Santo no seu dia:

foi tão grande a correria

do rocim pelo escampado,

que de um monte alcantilado

rodou, por jogar de lombo,

com que o ruço que era pombo,

de então foi ruço rodado.

6 Acudiu Pedro à burrada,

e chegando ao arruído,

vendo o cavalo caído,

ficou solta desmaiada:

mas a gente ali chegada

lhe disse: ó Senhor Baulio,

trunfe com valor, e brio,

que se este perdido está,

outro cavalo achará

na baralha do seu tio.

7 Ele então descendo a vala,

e dando avante dous passos

tomou o cavalo em braços,

e fez-lhe esta branda fala:

meu ruço, minha cavala,

meu carinho, e meu amor

pois fico em tão grande dor

órfão tão desamparado,

e morreis de mal curado,

ordenai-me um curador.

8 Testai consigo perene,

que um testamento cerrado

por vós, e por mim ditado

por força há de ser solene:

não queirais, que vos condene

algum Platônico astuto,

de que ao pagar do tributo

(podendo com todo alinho

falecer como um anjinho)

acabastes como um bruto.

9 O rocim, que era entendido

pouco menos, que seu amo,

em ouvindo este reclamo

surgiu, dando um ai sentido:

deu um, deu outro gemido,

e depois de escoucinhar

disse, inda estou de vagar,

por mais que a morte não queira,

que é acabar a carreira,

não de carreira acabar.

10 Isto disse o rocinante,

e logo para o curar

tratam de o desencovar

um, e outro circunstante:

com cordas, e cabrestante,

e enxadas para cavá-lo;

não podendo dar-lhe abalo,

todo o trabalho se perde,

porque era cavalo verde,

sendo ruço o tal cavalo.

11 Mas um Coadjutor bisonho

disse, tal dono, tal gado,

que o cavalo é tão pesado,

como o dono é enfadonho:

Pedralves como um medronho

ficou, e já de afrontado

desconfiou como honrado

do Coadjutor malhadeiro,

vendo estar o seu sendeiro

de cura desconfiado.

12 Eis que com força, e arte

a empuxões de cabrestante

foi sacado o rocinante

da barroca a outra parte:

Pedralves num baluarte

se pôs, e a gente deteve,

dizendo em prática breve,

vem-me alguém puxar a mim?

pois é, que este meu rocim

nem Deus quero, que mo leve.

13 Aqui o ruço há de jazer

conforme o seu natural,

que é filósofo moral,

e no campo há de morrer:

quem teve, que escarnecer!;

e quem teve, que zombar!

todos enfim a puxar

deram todo aquele dia

co ruço na estribaria,

e trataram de curar.

14 Houve junta de alveitares,

ou Médicos de jumentos

carregados de instrumentos

balestilhas, e azeares:

item seringas a pares,

ungüentos, mechas, e talos,

e simples para formá-los

tudo remédios inanes,

porque só pós de Joanes

é remédio de cavalos.

15 Curou-se enfim o Frisão

pelos mais exprimentados

homens bem intencionados

pela primeira intenção:

mas sobrevindo um febrão

de implicadas qualidades,

em tantas calamidades

quis Deus, que não lhe aproveite

nem das Brotas o azeite,

nem o vinagre dos Frades.

16 Pedralves num acidente

fiado em seu privilégio

mandou pedir ao Colégio

um osso do Sol do Oriente:

mas sendo ao Reitor presente

a casta do agonizante,

dizei (disse) a esse bargante,

que o Santo a curar não presta

o mal, que ele tem de besta,

nem o do seu rocinante.

17 Com que o ruço a piorar,

as Relíquias a não vir,

Pedralves a se afligir,

e seu tio a se enfadar:

o dinheiro a se gastar,

e a casa a se aborrecer,

tanto veio a suceder,

que com pesar não pequeno

em chegando ao quatrozeno

o ruço veio a morrer.

18 Assistir-lhe na agonia

vieram, sem que uma manque,

todas as bestas do tanque

dos Padres da Companhia:

e uma, que cantar sabia,

uma lição lhe cantou,

e quando ao verso chegou,

onde diz: "andante me"

estirou o ruço um pé,

e dando um zurro acabou.

19 Ao tratar do enterramento

houve alguma dilação,

porque Pedralves então

chorava como um jumento:

mas aberto o testamento

perante um, e outro ouvinte,

se achou, que morrera aos vinte,

e testara aos vinte e três

de tal ano, e de tal mês,

e que dizia o seguinte.

20 Meu corpo vá amortalhado

no hábito de cacoetes,

que tem meu amo entre asnetes

de falar agongorado:

não o coma adro sagrado,

que um monturo bastará,

sendo que tão magro está

de Hipócrates, e Avicenas,

que vou receando apenas

para um bocado haverá.

21 Item ao Senhor Marquês,

a quem o céu há juntado

as ferezas de soldado

os carinhos de cortês:

pela mercê, que me fez,

de com tão justa razão

suspender de Capitão

meu Amo, que fica em calma,

lhe peço, pela sua alma,

que o suspenda de asneirão.

22 Meu Amo instituo enfim

por meu herdeiro forçado,

e lhe deixo de contado

a manjedoura, e capim:

item lhe deixo o selim,

que me pôs de sarna gafo,

e pois já morro, e abafo,

o mou bocado lhe deixo,

porque veja queixo a queixo,

o que vai de bafo a bafo.

ANNA MARIA ERA UMA DONZELLA NOBRE, E RICA, QUE VEIO DA INDIA SENDO

SOLICITADA DOS MELHORES DA TERRA PARA DESPOSORIOS, EMPRENDEO FR.

THOMAZ CASALLA COM O DITO, E O CONSEGUIO.

Sete anos a Nobreza da Bahia

Serviu a uma Pastora Indiana, e bela,

Porém serviu a Índia, e não a ela,

Que à India só por prêmio pertendia.

Mil dias na esperança de um só dia

Passava contentando-se com vê-la:

Mas Fr. Tomás usando de cautela,

Deu-lhe o vilão, quitou-lhe a fidalguia.

Vendo o Brasil, que por tão sujos modos

Se lhe usurpara a sue Dona Elvira,

Quase a golpes de um maço, e de uma goiva:

Logo se arrependeram de amar todos,

E qualquer mais amara, se não fora

Para tão limpo amor tão suja Noiva.

AO MESMO ASSUNTO.

MOTE

Lá vem Maria, mais Ana,

e Pedro no meio delas;

ó Pedro, quem te roubara

a rica Noiva, que levas!

1 Apareceu na Bahia

Pedro, que tudo enfeitiça,

Moço da cavalariça

enxertado em fidalguia:

teve fortuna, e valia

tão alta, e tão soberana,

que o tio Milão se alhana,

e por serem tão manaças

lhe cantarão pelas praças

Lá vem Maria, mais Ana

2 Cantou-se-lhe em profecia,

porque correndo alguns anos

veio casar por enganos

com Madama Ana Maria:

por força de cantoria

se meteu Perico entre elas,

ou foi força das estrelas,

pois hoje ao mesmo compás

garganteia Fr. Tomás

"E Pedro no meio delas".

3 Um casamento ao revés

Fr. Tomás somente o faz,

e eu raivo de Fr. Tomás,

que tal casamento fez:

quando considero os três

Noivo besta, e Noiva rara,

e o Frade, que os maniatara,

metido entre os foliões,

canto invejando os dobrões,

Ó Pedro, quem te roubara!

4 Porém depondo arrogância

da paixão, e do interesse,

só Pedro a Noiva merece,

que a más Moros mas ganância:

não tenhas, Pedro, jactância,

nem tal dote à sorte devas,

pois tanto no bafo entrevas,

que se dá em to prefumar,

em pobre há de vir a dar

A rica Noiva, que levas.

CASADO, E RICO SE EMBARCOU PARA PORTUGAL A COMPRAR NOBREZA; E O

POETA LHE FAZ AS DESPEDIDAS PROFETIZANDO, O QUE REALMENTE

SUCCEDEO.

Adeus, Amigo Pedralves,

que vos partistes daqui

para geral desconsolo

deste Estado do Brasil.

Partistes-vos, e oxalá,

que então vos vira partir,

que sempre um quarto tomara

a libra por dous ceitis,

Pusera o quarto em salmoura,

e no fumeiro o pernil,

o pé não: porque me dizem,

que vos fede o escarpim.

Guardara o quarto de sorte,

que se vos pudera unir

na surreição dos ausentes,

quando tornásseis aqui.

Mas vós não fostes partido,

mente, quem tal cousa diz,

antes fostes muito inteiro,

e sem se vos dar de mim!

Saüdades não levastes,

deixaste-las isso sim,

porque de todo este povo

éreis o folgar, e o rir.

Desenfado dos rapazes

das Moças o perrexil,

o burro da vossa casa,

e da cidade o rocim.

Lá ides por esses mares,

que são vidraças de anil,

semeando de asnidades

toda a margem de Zafir.

O Piloto, e à companha,

apostarei, que já diz,

que vai muito arrependido

de irdes no seu camarim.

O homem se vê, e deseja,

e desesperado enfim,

aceita, que a Nau se perca

por vos ver fora de si.

Deseja ver-vos lutando

sobre o elemento sutil,

onde um tubarão vos parta,

vos morda um Darimdarim.

Deseja, que os peixes todos

tomem acordo entre si

de vos fazer nos seus buchos

sepultura portatil.

Sente, que em amanhecendo

a fina força há de ouvir

os bons dias de uma boca,

cujo bafo é tão ruim.

Sente, que não empregando

nem um só maravedi

em queijos frescos, e a eles

vos tresanda o chambaril.

Mas vos heis de ir a Lisboa

apesar do vilão ruim.

El-Rei vos há de fazer

com mil mercês honras mil.

Os cavalheiros da Corte

trazendo-vos junto a si,

vos hão de dar como uns doudos

piparotes no nariz.

E como vós sois doente

de fidalgos frenesis,

por ficar enfidalgado

toda a mofa heis de rustir.

O que trareis de vestidos!

uns assim, outros assim:

sereis o molde das modas,

e o modelo dos Turins.

À conta disto me lembra,

quando em Marapé vos vi

vestido de pimentão

com fundos de flor de Lis.

Em verdade vos afirmo,

que então vos supus, e cri

surrada tapeçaria,

tisnado guadamecim.

O que direis de mentiras,

quando tornares aqui!

amizades de um Visconde,

favores de um Conde vis,

Valido de um tal Ministro,

Cabido de um tal Juiz,

e até do mesmo Cabido

leiguíssimo Mandarim.

El-Rei me fez mil favores:

mil favores? mais de mil;

bem fez, com que lá ficasse,

mas não o pude servir.

Quem casou, como eu casei

com Mulher tão senhoril,

é cativo de um Terreiro,

não me posso dividir.

D'EI-Rei é minha cabeça,

porém o corpo gentil

todo é de minha Mulher,

não tem remédio, hei de me ir.

Achou-me razão El-Rei

e na hora de partir,

pondo-me a mão na cabeça

me disse, Perico, há de ir.

Ide-vos, Perico, embora,

ide-vos para o Brasil,

que, quem vos tirou da Corte,

não vos tirará daqui.

E pondo em seu peito a mão,

eu, que a firmeza entendi,

chorei por agradecê-la

lágrimas de mil em mil.

Botei pelo Paço fora

meti-me no bergantim,

cheguei a bordo, embarquei-me,

levamos ferro, e parti.

Os cavalheiros da Corte

choraram tanto por mim,

como por uma comenda

Santiago ou de Avis.

Ontem avistamos terra,

e quando na barra vi

coqueiros, e bananeiras,

disse comigo: Brasil.

AO MESMO QUE CHEGANDO À BAHIA COM HÁBITO, E FORO FALSO ENTRA

DESVANECIDAMENTE CONFIADO A TRATAR OS HOMENS NOBRES POR

TERCEIRA PESSOA.

1 Sejais, Pedralves, bem-vindo,

e crede-me, meu amigo,

que tudo, o que aqui vos digo,

ora é zombando, ora rindo:

aqui me andam perseguindo,

que faça à vossa chegada

alguma sátira honrada,

que este Povo é tão sisudo,

que quer, que eu vos diga tudo,

mas eu não vos digo nada.

2 Se El-Rei vos enfidalgou

(como me deram por novas)

acabaram-se-me as trovas,

e tudo enfim se acabou:

mas não falta, quem notou,

que indo-vos fidalgo honrado,

vir com foro era escusado;

porém logo se deu fé,

que éreis fidalgo de pé,

e agora estais assentado.

3 Qualquer Bispo da Turquia

sem igreja é Bispo fiel,

vós sois fidalgo de anel,

fidalgo sem fidalguia:

os fidalgos da Bahia

são fidalgos de parolas,

vós a puras carambolas

por vós, por vossa Mulher,

porque o quis El-Rei fazer,

sois fidalgo de três solas.

4 Ser fidalgo na Bahia

é suma felicidade,

porque há de arder a cidade

numa, e noutra cortesia:

heis de mamar Senhoria,

quer vos dê, quer não pesar:

porque se um triste alveitar

a mama, sendo ancião,

vós tão novo, e simplalhão

como a não heis de mamar?

5 Está toda a meninice

desta terra a esperar,

que saiais a passear,

e digais muita parvoíce:

já a mim um homem me disse,

que vos ouvira umas poucas,

mas vós a palavras loucas

(se quereis lograr sossegos)

heis de trazer olhos cegos,

tanto como orelhas moucas.

6 Chegais de Lisboa enfim,

e não quero de vós mais,

senão só que me digais,

como vindes de escarpim:

que este povo é tão ruim,

tão jocoso, e tão burlesco,

que por vos pôr ao tudesco,

tendo vós cara de nata,

levantam, que a vossa pata

tem dedo de queijo fresco.

7 Triste da vossa parceira,

que se vos muda talvez

a cabeça para os pés,

e os pés para a cabeceira,

sempre o presunto lhe cheira,

sempre o bafo cheira mal,

e contra artifício tal,

como lhe não dais proveito

fedendo a torto, e a direito,

vos admite ao natural.

8 Ela levada do amor

diz (porque enfim vos quer bem)

bom sangue o Fidalgo tem,

mas tem mui velhaco humor:

vós obrigado ao primor,

de quem tão firme vos ama,

que em tal caçoula se inflama,

ficais por sentença dada

vós apertando a privada,

ela apartada da cama.

9 Tratais a este e a aquele

por ele de puro honrado,

que o Senhor bem inclinado

em lugar de um vós dá um ele:

mas que o chantre se desvele

em visitar-vos cada hora,

e lhe digais, venha embora

Chantre, folga de o ver bom,

isso é ser sem tom, nem som

asneirão de foz em fora.

10 Que dissestes me constou,

a um Capitão de alto som,

folgo muito de o ver bom,

e ele os olhos vos fincou:

de boa então escapou,

Pedro, o vosso cabeção,

porque se vos lança a mão,

creio eu, é para crer,

vos havia de dizer,

folgo de o ver asneirão.

11 Diz ele, que em caso tal

outra tal vos respondera,

e mãos, e pés vos pusera

a não vir o General:

vós, Pedro, não fazeis mal,

porque sois enfim fidalgo,

mas sejais algo, o no algo,

têm todos por certo agouro,

que se vos foram ao couro,

heis de correr como um galgo.

12 Temo, vos há de matar

este mal de fidalguia,

por falta de uma sangria,

que ninguém vos manda dar:

importa logo sangrar,

e carregar sobre tudo,

porque o sangue linhajudo

fora da imaginação

fará que fiqueis vilão,

mas heis de ficar sisudo.

DEDICA HUM ESTUDANTE HUMAS CONCLUZÕES AO DITO COM O BRAZÃO DOS

NEYVAS NA FAXADA: E IMPACIENTE O POETA DO DESAFORO ROMPE NESTAS

QUEIXAS.

1 Digam, os que argumentaram,

qual mais desaforo indica,

quem as conclusões dedica,

ou a quem se dedicaram:

se as torres, que lhe gravaram

com tanta magnificência

não são da sua ascendência,

posto que dos Neivas são,

concedo-lhe a conclusão,

mas nego-lhe a conseqüência.

2 Concedo, que aquele escudo

com gravados torreões

seja dos Neivas brasões,

mas não de um Neiva orelhudo:

que homem pode haver sisudo,

que vendo aquele jumento

não conclua o argumento,

de que os seus timbres, e duelos

não são torres, são castelos,

porém castelos de vento.

3 A um cavalheiro vilão

estas armas lhe hão de dar,

sobre escudo verde-mar

uma aguilhada, e um podão:

item porque lá em Milão

morando na casa alheia

foi Lacaio de libréia,

passa-aqui de rocinante,

lhe dão em campo brilhante

uma almofaça, e uma peia.

4 Pelo torreão guerreiro

dão-lhe em jurídica forma,

na praia uma plaraforma,

onde seja aguardenteiro:

e porque vai a escudeiro

por casar co'a Indiana

com dote de porcelana,

e enxoval de canequim,

lhe dão por armas enfim

um chuço, uma partasana.

5 Desaforo tão insano

sofrerão outras nações,

que dedique as conclusões

um magano a outro magano?

que sendo costume lhano

oferecer, e dedicar

ao Prelado, ao Titular,

ao Príncipe, ao Monarca,

se veja uma suja alparca

em tão subido espaldar?

6 Mas enfim, que lhe importou

ver-se assim entronizado,

se tão vil é o dedicado,

como quem lhe dedicou?

tudo o diabo levou,

a honra, a dedicatória

a honra tornou-se escória,

a dedicatória em mijo:

o Brasil se ri de riso,

aqui paz, e depois glória.

AO MESMO RETIRANDO-SE HOMIZIADO PARA O CARMO, POR TER NOTICIA DE

HUM DECRETO, QUE VEYO DE SUA MAJESTADE AO DEZ.OR. ANTONIO

RODRIGUES BANHA, PARA PRENDER, OS QUE HAVIÃO NA CIDADE COM

HABITOS, E FOROS FALSOS.

1 Treme a Pedro a passarinha,

e tanto teme a prisão,

que o cu lhe cheira a murrão,

e a boca fede a caquinha:

soube, que o decreto vinha,

e antes que o fossem prender,

fugiu logo a bom correr,

pois quando o iam buscar,

tocando o Banha a marchar,

tocou ele a recolher.

2 Pedralves com falso foro

se vê na realidade,

o foro com falsidade,

com verdade o desaforo:

que agora reze no coro,

é justo, e bem permitido,

e porque tem merecido

por serviços ao selim

não ser do campo rocim,

agora está recolhido.

3 Que se despache um caixeiro

criado na mercancia

com foro de fidalguia

sem nobreza de Escudeiro!

e que a poder de dinheiro,

e papéis falsificados

se vejam entronizados

tanto mecânico vil,

que na ordem mercantil

são criados dos criados!

4 O Fidalgo esclarecido

traz de longe a descendência:

mas Fidalgo de influência

sem ter solar conhecido,

é Fidalgo introduzido

enfronhado em fidalguia

e se o fumo da Bahia

a Pedro Fidalgo fez,

fidalgo é da cheminez

dos Padres da companhia.

5 Ser perfilhado em Milão,

e fidalgo em Portugal,

ter Mulher Oriental,

e cunhado Mergulhão,

haver sido Capitão,

trazer uma cruz ao lado,

haver comido um morgado,

e a fidalgo haver subido,

se contudo está caído,

é já fidalgo estirado.

6 Quem quer ser bem despachado

a seu Rei serviços faz,

a vida entre as bolas traz

como valente soldado:

mas por serviço comprado,

com as premissas a pares,

e mentiras como os mares

faz ser caso lastimoso,

que, o que deu honra a um Barroso,

o merecesse um Cazares.

7 Quando hábito se traz

co dinheiro poderoso,

torne outra vez Barroso,

e venha o Doutor Gilvaz:

também nesta conta jaz

Fuão Maciel Teixeira,

Manuel Dias Filgueira,

o Marruás do sertão,

e o Lobato patifão

marido da confeiteira.

8 Também vai a Escudeiro

Marinículas da praia,

porque para isso se ensaia

a fiúza do dinheiro:

por direito um canastreiro

é homenzarrão de chapa,

mas a cruz, que anda em tal capa,

o faz com maior desonra

sambenitado da honra

porque não é cruz, é aspa.

9 Que maganos desta laia

patifes de toda a sorte

subam ser homens de porte,

tanto que o pé põem na praia:

ver eu isto me desmaia,

e me faz cair por terra,

que quatro vilões da serra

tenham tão propícia estrela,

que sendo vis em Cabrela

são fidalgos nesta terra.

10 Esta mãe universal,

esta célebre Bahia,

que a seus peitos toma, e cria,

os que enjeita Portugal:

que ao que nasceu natural

seu Filhote em tenra idade

o mate à necessidade,

porque lhe tem ódio interno!

Oh praza a Deus, que no inferno

se subverta esta cidade.

AO MERGULHÃO CUNHADO DESTE SUGEYTO, QUE ENGANOU AO POETA COM

HUMA PROPINA DE COBRE INDO TOMAR O GRAO DE LECENCIADO.

1 Entre os demais Doutorandos,

que vieram à função,

veio o grande Mergulhão

da casa dos Mergulhandos:

fidalgos tão miserandos

de tronco, e solar tão pobre,

que, porque a pena lhes dobre,

digo, por mais que os acatem,

que são fidalgos, que batem

moeda, porém de cobre.

2 Achava-me eu na função,

e a puro calar, e ver,

não livrei de ali fazer

terreiro de patacão:

porque vindo o Mergulhão

com a propina, que deu,

m'arremessou no chapéu,

e eu do peso me queimei,

fui logo vê-la, e achei,

que o dinheiro era guinéu.

3 Enlutado um patacão

de uma resina maldita

mais negra, que a minha dita,

e mais vil, que o Mergulhão:

que causa, ou que ocasião

teria para enlutar-se,

não pode conjeturar-se,

se não é, porque morreu

o pejo, de quem a deu,

a quem deve venerar-se.

4 Quem se gradua em Sofia,

e dá propina de pobre,

merece um anel de cobre

com pedra de cantaria:

por capelo merecia

um vexame, ou reprensão,

que o cure de patifão,

e em cabeça tão patifa

uns cadilhos de alcatifa

por borla do chapeirão.

5 Há caso de mais abalo,

que um patife, um mariola

desse em público uma esmola,

a quem podia comprá-lo?

e vendo, que sofro, e calo,

lhe dê tão pouco desvelo,

que não venha agradecê-lo,

a quem comprá-lo podia

não só, mas inda em Sofia

podia também vendê-lo?

6 Vós, meu Doutor judiciário,

a quem dedico este pleito,

não façais caso do feito,

tanto que o façais sumário:

ele pecou de falsário,

mas sendo falsário, e mau,

e por casta vaganau,

se hão de dar-lhe em relação,

carocha de papelão,

eu cá lha darei de pau.

A HUMA DAMA QUE MANDOU PEDIR AO POETA O TESTAMENTO, QUE ELLE TINHA

FEYTO AO CAVALLO DE PEDRALVES.

Minha Reina estou absorto,

de que com tão grande abalo

busqueis um morto cavalo,

fugindo de um perro morto:

e assim daqui vos exorto,

que da idéia se vos borre

ler versos, em que discorre

um Poeta inveterado,

pois um cavalo enterrado

é cousa, que já não corre.

Núcleo de Pesquisas em Informática, Literatura e Lingüística

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