Crônica do Viver Baiano Seiscentista - Os Homens Bons - Espada e Espadilha por Gregório de Matos - Versão HTML

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LITERATURA BRASILEIRA

Textos literários em meio eletrônico

Gregório de Matos

Texto-fonte: Obra Poética, de Gregório de Matos, 3ª edição, Editora Record, Rio de Janeiro, 1992.

Crônica do Viver Baiano Seiscentista

Índice

ESPADA E ESPADILHA

AO CAPITÃO FRANCISCO MONIZ DE SOUZA CORRENDO NA FESTA DAS VIRGENS

COM GARBOZA FORTALEZA.

AO MESMO CAPITÃO CHEGANDO A MADRE DE DEOS, ONDE O POETA ASSISTIA, A HUMA FESTIVIDADE COM SUAS TRÊS IRMAÃS SENDO DONA ANGELA HUMA DEISS

E PORTENTO MAYOR DA FORMOSURA POR QUEM SE DESVELLOU O POETA COMO VEREMOS NO QUARTO TOMO.

AO MESMO CAPITÃO PEDE O POETA LICENÇA PARA O IR VISITAR NA SUA FAZENDO DO CAIPPE, ONDE ASSISTIA. EM COMPANHIA DE SEUS PAYS, E IRMÃOS.

AO CAPITÃO JOÃO ROIZ DOS REIS HOMEM GENEROSO, E ALENTADO GRANDE

AMIGO DO POETA, LHE LOUVA A SUA GENEROSIDADE COM TODOS.

AO CAPITÃO BENTO PEREYRA HOMEM SIMPLES E COM PRESUNÇÕES DE BOM.

AO CAPITÃO JOZE PEREYRA POR ALCUNHA O SETTE CARREYRAS LOUCO COM

CAPRICHOS DE POETA SENDO ELLE IGNORANTISSIMO.

AO MESMO CAPITÃO SEVANDIJA DO PARNASO.

AO CAPITÃO DOMINGOS CARDOZO POR ALCUNHA O MANGARÁ, QUERELLANDO, E PRENDENDO DUAS MULATAS, MAY, E FILHA PELO FURTO DE HUM PAPAGAYO, SENDO HUMA DELLAS SUA AMAZIA.

AO CAPITÃO JOÃO TEYXEIRA DE MENDONÇA QUERENDO FUGIR COM A FAZENDA DOS DEFUNTOS, E AUSENTES, DE QUE ERA THESOUREIRO E FOY PREZO.

AO MESMO CAPITÃO PELO MESMO CASO, E NA MESMA OCCASIÃO.

ESTRIBILHO

AO CAPITÃO MANUEL DIAS FILGUEYRA PREZO, E RETRAIDO NA MOXINGA POR

HAVER QUEBRADO UM CAMAREYRO NA PORTA DE CERTA PERSONAGEM.

AO CAPITÃO ADÃO DE TAL QUE ESTANDO PREZO SAHIO COM FINGIDA NECESSIDADE A VER HUMAS COMEDIAS, QUE SE FIZERAM NA PALMA ONDE COM

SUA AMAZIA SE DEIXOU FICAR ALGUNS DIAS; E DEPOIS A ROGOS DO

CARCEREYRO VEIO COM HUM PÉ ENTRAPADO, DANDO A ENTENDER, QUE O

DESMENTIRA.

AO CAPITÃO BENTO RABELLO MORADOR NA VILLA DE S. FRANCISCO AMIGO DO

POETA, QUE POR ESTAR TOTALMENTE DIVERTIDO COM O JOGO O NÃO FOI VISITAR; ELLE O ADMOESTA, A QUE LARGUE O JOGO, E VÁ PARA A CAJAIBA.

AO MESMO CAPITÃO SENDO ACHADO COM UMA GROCISSIMA NEGRA.

AO CAPITÃO JOÃO FRANCO POR ALCUNHA O BICANCRO PELA SUA BICUDA FIZIOGNOMIA, O QUAL CALLOTEOU HUMA POBRE MULHER COM UMA CAIXA DE

AÇUCAR.

AO CAPITÃO DOMINGOS GLz. FERREYRA APPELLIDADO O RAPADURA, A QUEM

HUMA DAMA PURGOU COM HUNS ARAÇÁS, DE QUE TEVE UMA DIARRHEA.

ESTRIBILHO

AO MESMO CAPITÃO FRETANDOLHE A AMASIA CERTO HOMEM CHAMADO O

SURUCUCU.

A OUTRO CAPITÃO QUE TINHA SIDO DE COURAÇAS EM PORTUGAL QUE SE

CASOU COM HUMA FILHA DE CERTO LETRADO FULANO COELHO, DE QUEM JÁ

FALLAMOS A FL.360 QUE SE CASARA COM HUMA MULHER, QUE DEO HUNS

PONTOS NO VAZO; E DESTA TAMBEM SE DIZIA SER JA CORRUPTA, E CHRISTÃA NOVA.

A CERTO TENENTE CHAMADO O SURDO INSIGNE VENDELHÃO, E ATRAVESSADOR

VENDENDO HUNS PAYOS POR COUSA MUY SELECTA QUANDO OS MAIS DELLES

ESTAVAM PODRES.

A HUM ALFERES QUE INDO PREZO PERANTE O SEU AUDITOR, SALTOU DAS SUAS

JANELLAS, DE QUE QUEBROU OS QUADRIS E SE FOY HOMIZIAR EM S.

FRANCISCO.

5 - ESPADA E ESPADILHA

Quando andáveis lá nas tropas

de tanta campanha armada,

jogáveis jogo de espada

ou da espadilha?

Basta, Senhor Capitão.

AO CAPITÃO FRANCISCO MONIZ DE SOUZA CORRENDO NA FESTA DAS VIRGENS

COM GARBOZA FORTALEZA.

Amigo capitão forte, e guerreiro,

Sempre vos observei no pensamento

Por homem de grandíssimo talento,

Mas dunca por tão grande cavaleiro.

Quando vos vi na festa do Terreiro

Torreão cavalgado sobre o vento,

Onde irá parar (disse) este portento,

Senão na admiração do povo inteiro,

Dito, e feito; porque vos aplaudiram

De tal modo os Mirões daquela praça,

Que de vos dar um gabo me excluíram.

Mas se os Céus vos formaram de tal traça,

Que de prendas tão nobres vos urdiram,

Eu me dou por contente em vossa graça.

AO MESMO CAPITÃO CHEGANDO A MADRE DE DEOS, ONDE O POETA ASSISTIA, A HUMA FESTIVIDADE COM SUAS TRÊS IRMAÃS SENDO DONA ANGELA HUMA DEISS E PORTENTO MAYOR DA FORMOSURA POR QUEM SE DESVELLOU O

POETA COMO VEREMOS NO QUARTO TOMO.

Faltava para alegria

desta festa a vossa vinda,

que só fica sendo linda

assistindo vós ao dia:

confesso, que não sabia

de tão ditosa ocasião,

mas agora em conclusão

protesto com viva fé

ir-me pôr ao vosso pé,

para beijar-vos a mão.

AO MESMO CAPITÃO PEDE O POETA LICENÇA PARA O IR VISITAR NA SUA FAZENDO DO CAIPPE, ONDE ASSISTIA. EM COMPANHIA DE SEUS PAYS, E

IRMÃOS.

Meu capitão, meu amigo,

mui entendido e bizarro,

aceio sem artifício,

galanice sem cuidado:

Benquisto por graça própria,

não por estudo, ou trabalho,

sem presunção valeroso,

sem afetação fidalgo:

Imitador dos brasões

de Avoengos tão preclaros,

que a não seres vós nascido,

não foram nunca imitados.

Deixou-nos a vossa ausência

tão tristes, tão solitários,

que todos nos persuadimos,

que em um deserto habitamos.

Faltou-nos vossa alegria,

riso, prazer, desenfado,

e porque o digo de um golpe,

de vós mesmo estamos faltos.

Subindo por este oiteiro

ver a Deus no templo sacro,

nem pé de pessoa vemos,

nem com viva alma encontramos.

O Ilustríssimo Isidoro,

e o valeroso Carvalho

parecem padres de ermo,

ou ermitães do Busaco.

Porque apartado um do outro

andam por estes mentrastos

como dentes de caveira

dous somente, e afastados.

Lourenço, que foi convosco,

veio aqui como um pasmado,

tudo, o que diz, são caipes

em assuntos mui contrários.

O Padre anda como um doudo,

e jura aos dedos sagrados,

que as festas, que embora vêm,

hão de durar de ano a ano.

Para prender-vos consigo

fará ele piores caos,

diz, que sois o seu feitiço,

e eu tenho zelos, que raivo.

E pois a Cururupeba

desde então se tem trocado

uma Tebaida, um deserto,

uma Arrábida, um Busaco.

Eu sou alegre de brio,

quanto risonho de cascos,

e não sofro vida, em que

da solidão me acompanho.

Haveis de me dar licença,

para que vá visitar-vos,

ou mandai-me uma mortalha,

hissope, e gatos pingados.

Mandai-me com que me enterrem,

porque de vós apartado

deveis (pois morro por vós)

fazer-me do enterro os gastos.

Não venha cá vosso Tio,

porque em se pondo de um lado

a lançar-me a água benta,

estou com ele de um salto.

Demais que se há de encontrar

aqui co Padre Gonçalo,

e hei medo, que se renove

o sucesso do seu barco.

E hão de ferver os muquetes,

porque estão desconfiados,

um, porque a vela vá acima,

e outro, porque venha abaixo.

Eu sou defunto de prendas,

e quando este mundo largo,

brigas não quero em lugar

de um parce mihi cantado.

AO CAPITÃO JOÃO ROIZ DOS REIS HOMEM GENEROSO, E ALENTADO GRANDE

AMIGO DO POETA, LHE LOUVA A SUA GENEROSIDADE COM TODOS.

Meu Capitão dos Infantes,

que por vossas boas artes

sois homem de muitas partes

nascendo só em Abrantes:

por vossos ditos galantes,

discretos, e cortesãos,

e por largueza de mãos

a todos nos pareceis

não somente João dos Reis,

senão o Rei dos Joãos.

O Príncipe, que de juro

senhoreia os corações

(como lá disse Camões)

que sois vós, o conjeturo:

tanto nisto me asseguro,

que em ver como procedeis,

presumo, que descendeis

dalgum Príncipe da França

donde tendes por herança

esse apelido dos Reis.

A boa arte de reinar

em um coração rendido,

e não seres vós nascido,

não se pudera imitar:

vós nos podeis ensinar

com paridades, e apodos

os bons meios, e os bons modos,

com que todo o mundo embaça,

porque sempre estais de graça,

por fazeres graça a todos.

O generoso da mão,

o coração varonil,

onde vos cabe o Brasil,

vos sobeja o coração:

com pobres a compaixão,

cos ricos o liberal,

na amizade tão leal,

na palavra tão muciço

para mim tudo é feitiço,

sendo cousa natural.

AO CAPITÃO BENTO PEREYRA HOMEM SIMPLES E COM PRESUNÇÕES DE BOM.

Amigo Bento Pereira,

que em todo o nosso Brasil

sois homens de muitas prendas,

tendo tão pouco quatrim.

Assim agradara eu

a quatro vilões ruins,

a quem nesta terra enfado,

como me agradais a mim.

Vós sois um homem honrado

de generosa raiz,

nobre com ventosidade,

honrado com retentiz.

Sois galã com artifício,

asseado com ardil,

só vós sois homem honrado,

os demais homens gentis.

Todo o mundo vos quer bem,

porque tendes, e é assim,

cara de ter mil amigos:

mil amigos? mais de mil.

Sois muito leal com todos,

cousa, que não se usa aqui,

por isso sois mal servido,

de quantos sabem servir.

Empeceu-vos a fortuna,

que a fortuna é vilão ruim,

para os seus sempre a chegar-se,

e de vós sempre a fugir.

Agradais-me dentro dalma,

que como eu também saí,

e os semelhantes se amam,

por semelhante vos quis.

Tende-me em conta de amigo,

e tereis sempre de mim

excessos de par em par

finezas de mil em mil.

AO CAPITÃO JOZE PEREYRA POR ALCUNHA O SETTE CARREYRAS LOUCO COM

CAPRICHOS DE POETA SENDO ELLE IGNORANTISSIMO.

Amigo Senhor José,

não me fareis uma obra;

porque se a graça vos sobra,

me fazeis graça, e mercê:

fazei-me uma obra, em que

honra me deis aos almudes,

e se em vossos alaúdes,

que Apolo vos temperou,

não cabe o pouco, que eu sou,

caberão vossas virtudes.

Fazei-me uma obra, enquanto

a Musa se me melhora,

que eu prometo desde agora

pagar-vos tanto por tanto:

que como Deus é bom Santo,

e não há ovo sem gema,

sereis do meu plectro o tema,

porque, a quem me faz um verso,

não serei eu tão perverso,

que lhe não faça um poema.

Saiam esses resplandores

essas luzes rutilantes,

rubis, pérolas, diamantes,

cravos, açucenas, flores:

saiam da Musa os primores,

que há hortelão da poesia,

que gasta em menos de um dia

de flores um milenário,

e há Poeta Lapidário

gastador da pedraria.

Eu quatro versos fazendo

não me meto em gasto tal,

nem posso chamar cristal,

a mão, que humana estou vendo:

aos olhos, que ao que eu entendo,

são de sangue dous pedaços,

não chamo diamantes baços,

porque os não tenho por tais,

que há Poetas Liberais,

e os meus são versos escassos.

Vós sois o Deus da poesia,

que sobre o vosso Pegaso

andais mudando o Parnaso

neste monte da Bahia:

nos ensina aos praticantes

tão graciosos consoantes,

que vos juro a Jesu Cristo,

que em quantos versos hei visto,

não vi versos semelhantes.

Sois Poeta natural,

e tendes sempre a mão cheia

não só na Aganipe a veia,

mas na veia um mineral:

correm por um manancial

da vossa boca Aretusas,

e as nove Musas obtusas

de ver o vosso partolo,

em vez de Musas de Apolo,

querem ser as vossas Musas.

AO MESMO CAPITÃO SEVANDIJA DO PARNASO.

Meu Senhor Sete Carreiras

você não é bom Poeta,

quando o juízo inquieta

em fazer tantas asneiras:

oxalá que em caganeiras

lhe dera a sua poesia,

porque então a não faria,

ou a fazê-la de noite

eu lhe dera tanto açoite,

que lhe apurara a Talia.

AO CAPITÃO DOMINGOS CARDOZO POR ALCUNHA O MANGARÁ, QUERELLANDO, E PRENDENDO DUAS MULATAS, MAY, E FILHA PELO FURTO DE HUM PAPAGAYO, SENDO HUMA DELLAS SUA AMAZIA.

A quem não causa desmaio

esta querela recente,

as Mulatas na corrente

em falta do Papagaio?

eu de verdade não caio

nesta justiça em rigor:

ora este tal prendedor

quem seria, ou quem será?

Mangará.

Diz, que em tudo tinha graça

a Jandaia abrindo a boca,

dizendo já toca toca,

meu Papagaio, quem passa?

Mangará, que vai à caça:

porém na presente perda

passará a beber da merda,

que não faltará, quem vá,

Mangará.

As Mulatas no seu mal

vão disfarçando a paixão,

pois lhes deu uma prisão

o Papagaio Real:

diz, que para Portugal

lindamente dava o pé,

mas uma articula, que

o contrário provará

Mangará.

Provará, que ele gostara,

e que não satisfizera,

e muitas cousas dissera,

se o Papagaio falara:

que o Capitão intentara

pagar-lhe em bens de raiz,

pois sendo Mangará quis

transfigurar-se em cará

Mangará

Pondo-se o pleito em julgado

dar testemunhas procura

com o Primo Rapadura,

e um compadre seu melado:

mas há de ficar borrado

como o tal Primo ficou,

quando a Mulata o purgou

naquele triste aracá

Mangará.

Na gaiola apassarada,

onde as duas pobres vejo,

a primeira entrou sem pejo,

mas a segunda pejada:

arrebentou de embuchada

um presozinho pequeno,

que criado com veneno

prisões não estranhará,

Mangará.

Todo o povo, que isto vê,

pergunta em seu desabono,

não ao Papagaio, ao dono,

que casta de pássaro é;

eu por me fazer mercê,

dou o sentido cabal,

e um contrafeito asnaval

empenado em Pirajá

Mangará.

AO CAPITÃO JOÃO TEYXEIRA DE MENDONÇA QUERENDO FUGIR COM A FAZENDA DOS DEFUNTOS, E AUSENTES, DE QUE ERA THESOUREIRO E FOY

PREZO.

O Senhor João Teixeira

Mendonça de quando em quando

na cadeia está purgando

humores de ladroeira:

a Putaina, que era herdeira

universal dos defuntos,

perdeu já redoma, e untos,

e está já desenganada,

que o ladrão mata a porcada,

e o Fisco come os presuntos.

Tinha o Fidalgo tostado

(como ladrão tão astuto)

os bens em lugar enxuto,

mas mal acondicionado:

estava o barco ancorado,

e nisto esteve a ruína,

porque a carga era rapina,

e deu-nos espanto, e mágoa,

de que pela veia d'água

se desse naquela mina.

As Almas do Purgatório,

como os fardos eram seus,

estavam pedindo a Deus

cada qual seu envoltório:

ouviu Deus o peditório,

e com ter tão forte mão

em qualquer execução,

vendo-as perder por instantes,

se ajudou de uns Ajudantes

para fazer a prisão.

Foram eles à setia,

e dizem, que se prendera,

porque tão sôfrego era,

que furtava, e não partia:

o Tesoureiro esse dia

fazia conta de se ir,

e a tardança o fez cair

e então se lhe ouviu dizer,

furtava para esconder,

porém não para partir.

Ladrão como mentecapto

no profundo do porão,

passado como ladrão,

e fino como mulato:

deram-lhe muito mau trato

em o trazer amarrado,

sendo que andou como honrado

em seguir aquela via,

que eu não vi na fidalguia

Mendonça sem ter Furtado.

A parentela se ria,

que é gente, que aqui negreja,

porque lhe causava inveja

ver, que lhe dava honraria:

alvoroçou-se a Bahia

entre admiração, e gozo,

porque era caso espantoso,

que tomasse sem ser Saulo

o caminho de São Paulo

um ladrão facinoroso.

Ficou no porto a setia,

e o Tesoureiro selvagem

chegou, sem fazer viagem

a salvamento a enxovia:

diz o povo, que fugia

por de todo estar quebrado;

mas o povo está enganado,

porque eu vi o Tesoureiro

na cadeia mui inteiro,

e mui desavergonhado.

Já dizem as profecias

dos homens exp'rimentados,

que a quatro dias andados,

ou daqui a quatro dias,

todas as tesourarias

adrede lhas hão de dar,

por ser homem singular,

que guarda a rigor da lei

tanto a fazenda d'EI-Rei,

que El-Rei a não pode achar.

E se a justiça lhe deu

no rasto por tantas calmas,

já disse, que foram almas,

que choraram pelo seu:

aos Santos (sempre ouvi eu)

era seguro o furtar,

porque não podem falar;

mas d'almas não há fiar-se,

que se não podem queixar-se,

contudo podem rezar.

Toda a cidade notou,

que este Tesoureiro alvar

é tão destro no embolsar,

que a si mesmo se embolsou:

na cadeia se encaixou,

que é bolsa dos maus ladrões,

e se os doutos cabeções

fazem crime de ausentar-se,

hei medo, que há de chegar-se

do verdugo aos calções.

AO MESMO CAPITÃO PELO MESMO CASO, E NA MESMA OCCASIÃO.

Isto faz-se à gente honrada?

Quem viu outro tal desprezo?

Senhor Jam, por que vem preso?

Eu, meus amigos, por nada.

É dos nossos, camarada,

venha para a nossa gente

coma, e beba alegremente,

crie bojo de animal,

porque não pode deixar

de ser defunto, e ausente.

Meu Pai para meu desdouro

dizem alguns, que era sastre,

eu por cobrir tal desastre

troquei tesoura em tesouro:

luzi logo como o ouro,

em grande fui transformado,

e por mais enfidalgado

usei desta geringonça,

porque como sou Mendonça

quis lograr o meu Furtado.

Outro, que anda por aqui

esquecido, do que foi,

lo que va de ayer a oy

aprender pode de mi:

e vê-lo também assi

espero-lhe a ocasião,

abatida a inchação

só pelo crime de ausente,

e por ser tanto parente

e na ligeireza Irmão.

Vós, Ajudantes Saltões,

abençoados sejais,

que pareceis um Chegais

em vossas execuções:

andais rompendo calções,

e disso vos não dá nada,

ires a qualquer jornada:

porém é presunção minha,

sois soldados à meirinha,

não Meirinhos à soldada.

ESTRIBILHO

Tu esperavas na paixão

quando no furto te animas

de salvar-te como Dimas,

mas não fostes bom ladrão.

AO CAPITÃO MANUEL DIAS FILGUEYRA PREZO, E RETRAIDO NA MOXINGA POR

HAVER QUEBRADO UM CAMAREYRO NA PORTA DE CERTA PERSONAGEM.

Preso está no Limoeiro

repicando uma corrente

certo Capitão valente,

por matar um camareiro:

e se o caso é verdadeiro,

e foi ele o matador,

pois o maior ao menor

usurpa, arrasta, e convence,

quem um camareiro vence,

será camareiro mor.

Rompeu a testa a um cortiço,

que estava em certa calçada,

cuida ele, que não fez nada,

e à rua fez mau serviço;

porque tendo aviso disso

pelo favônio, que entrava,

a gente, que ali morava,

enfadada do vapor,

que exalava o servidor,

por mal servida se dava.

Como os miolos saltaram

da cabeça, que ofenderam,

assim as novas correram,

té que à cadeia chegaram:

logo então se despacharam

os Morenos da corrente,

e o caso era tão recente,

que sem mais informação

prenderam ao Capitão,

porque cheirava a valente.

Entre tanta cachaporra

veio à prisão, que o maltrata,

porque quem com ferro mata,

quer Deus, que com ferro morra:

e porque nada o socorra,

na moxinga o entupiram,

onde os mais dos presos viram,

que por serviço do Céu,

pois que o vidrado ofendeu,

vidrados o perseguiram.

Lastimou-se o mundo disso,

pois quantos serviços fez

como homado Português.

perdeu por um mau serviço:

hoje que livre o toutiço

já penteia o pêlo louro,

ganhou (fora vá de agouro)

por indústria, e por santaca

uma Noiva de tambaca

com dote de prata, e ouro.

Mas ficou em tão ruim fé

este sucesso infeliz,

que nenhum homem já diz,

servidor de Vossarcê:

item qualquer homem, que

publicar, que é servidor

do Fidalgo, e do Senhor,

há de vir, com maus feitiços

o Capitão dos serviços

a quebrar-lhe o servidor.

AO CAPITÃO ADÃO DE TAL QUE ESTANDO PREZO SAHIO COM FINGIDA NECESSIDADE A VER HUMAS COMEDIAS, QUE SE FIZERAM NA PALMA ONDE

COM SUA AMAZIA SE DEIXOU FICAR ALGUNS DIAS; E DEPOIS A ROGOS DO

CARCEREYRO VEIO COM HUM PÉ ENTRAPADO, DANDO A ENTENDER, QUE O DESMENTIRA.

Dizem, Senhor Capitão,

que quando à Palma marchastes,

a vossa Eva levastes

como Adão, e bom Adão:

dizem-me também, que então

a esse terreno sagrado

da Palma íeis convidado

para ver uma comédia,

que para vós foi tragédia,

pois saístes aleijado.

A Puta com seus extremos

vos quis da via torcer,

que nós por uma mulher

a cabeça, e pés torcemos:

todos o mesmo fazemos,

e o temos todos à asnice,

senão eu, que logo disse,

quando o pé se vos entreva,

que se Adão se achou com Eva,

era força, que caísse.

Vós manquejastes de um pé,

e segundo sois Gascão

podíeis cantar então

"nanja do pernil bofe":

tão malato estáveis, que

faltastes ao carcereiro

quase quase um mês inteiro,

até que de importunado

fostes a um pau arrimado

com figura de embusteiro.

O carcereiro entendia,

que estáveis pior, que mal,

porque a figura era tal,

que o mesmo bordão vos cria:

Peralvilho parecia,

senhor, o vosso modilho,

porém se eu nesse corrilho

fora, e cum pau vos cascara,

creio, que o pé vos voara,

como voou Peralvilho.

De ver-se o pé desmentido

tomou tão grande pesar,

que por de vós se vingar

andou três dias sentido:

envergonhado, e corrido

de ver, que o desacatais,

foi causa de vossos ais,

que eu por justos avalio,

porque um pé de tanto brio

outra vez não desmintais.

Vós sois muito boa preia,

e todos sabemos, que

desse pé tomastes pé,

para não vir à cadeia:

mas a parte, que receia,

e tem grandíssimo medo,

que lhe façais um enredo

fez, que fôsseis recolhido,

porque para um pé torcido

o remédio é estar quedo.

AO CAPITÃO BENTO RABELLO MORADOR NA VILLA DE S. FRANCISCO AMIGO DO

POETA, QUE POR ESTAR TOTALMENTE DIVERTIDO COM O JOGO O NÃO FOI VISITAR; ELLE O ADMOESTA, A QUE LARGUE O JOGO, E VÁ PARA A CAJAIBA.

Pois me deixais pelo jogo,

licença me haveis de dar

para vos satirizar

como amigo.

Fará isso um inimigo,

deixares-me miserando,

por estar sempre beijando

o ás de copas.

Quando andáveis lá nas tropas

de tanta campanha armada,

jogáveis jogo de espada

ou da espadilha?

Quem vos meteu a potrilha,

para estares noite, e dia

na triste tafularia

de um cruzado?

Não é melhor desenfado

passares à Cajaíba,

onde o jogo vos derriba

e escangalha?

É mau ver esta canalha

Clara, Bina, e Lourencinha,

a quem dizeis a gracinha

de soslaio?

É mau encaixar-lhe o paio

encostado aqui na torre,

e ela dizer-vos, que morre

de olho em alvo?

É mau meteres o calvo

entre tanta pentelheira,

e sair co'a cabeleira

encrespadinha?

Que mau é Mariquitinha,

quando está com seus lundus

fazer-vos com quatro cus

o rebolado?

Quem vos chamar home honrado,

não tem honra, nem razão,

que vós sois um toleirão,

e um Pasguate.

Mas se deixais por remate

esse jogo, esse monturo

sois Príncipe, que de juro

senhoreia.

Sois o Mecenas da veia

deste Poeta nefando,

que aqui vos está esperando

com jantar, merenda, e ceia.

AO MESMO CAPITÃO SENDO ACHADO COM UMA GROCISSIMA NEGRA.

Ontem, senhor Capitão,

vos vimos deitar a prancha,

embarcar-vos numa lancha

de gentil navegação:

a lancha era um galeão,

que joga trinta por banda,

grande proa, alta varanda,

tão grande popa, que dar

podia o cu a beijar

a maior urca de Holanda.

Era tão azevichada,

tão luzente, e tão flamante,

que eu cri, que naquele instante,

saiu do porto breada:

estava tão estancada

que se escusava outra frágua

e assim teve grande mágoa

da lancha por ver, que quando

a estáveis calafetando

então fazia mais água.

Vós logo destes à bomba

com tal pressa, e tal afinco,

que a pusestes como um brinco

mais lisa, que uma pitomba:

como a lancha era mazomba,

jogava tanto de quilha,

que tive por maravilha,

não comê-la o mar salgado,

mas vós tínheis, o cuidado,

de lhe ir metendo a cavilha

Desde então toda esta terra

vos fez por aclamação

Capitão de guarnição

não só, mas de mar, e guerra:

eu sei, que o Povo não erra,

nem nisso vos faz mercê,

porque sois soldado, que

podeis capitanear

as charruas d'além-mar,

se são urcas de Guiné.

AO CAPITÃO JOÃO FRANCO POR ALCUNHA O BICANCRO PELA SUA BICUDA FIZIOGNOMIA, O QUAL CALLOTEOU HUMA POBRE MULHER COM UMA CAIXA DE

AÇUCAR.

Meu Joanico, uma Dama

mui galharda, e mui luzida

está mui arrependida

do cu lhe pores na cama;

porque diz, que a boa fama,

que a gente de vós lhe dava,

a movia, e enganava:

mas eu nunca louvarei

Capitão, que diz, cuidei

nem Dama, que diz, cuidava.

Diz, que João Tacanho andastes

naquela caixa de branco,

e que, se fôreis João Franco,

lha déreis, pois lha ofertastes:

que vilmente a enganastes,

porque de graça a comestes,

e se vos lha prometestes,

acho eu cá no meu direito,

que arto caixa lhe haveis feito

na caixa, que lhe fizestes.

Item na negra boçal,

que tendes de porta adentro,

diz, que estais no vosso centro,

porque sois branco asnaval:

pesa-me, que o vosso mal

vos venha por essa banda,

porque diz, que vos tresanda,

(quando lá pondes o cu)

o sovaco a putiú,

e que a catinga a palanda.

Que primor vos não faltara

em qualquer ocasião,

se fôreis largo de mão,

como sois largo da cara:

bom fora, que se trocara,

(por não lhe dares desgosto)

co'a mão o largo do rosto;

mas ter de cegonha o bico,

e a garra de Maçarico,

é ser Bicancro por gosto.

Se porque não vitupere

poupardes o cabedal

dizeis, que todo o animal

o faz no campo a gaudere:

nem por isso é bem, que espere

a Moça, o xesmeninez,

que dais de talho, e revés,

que os privilégios poupantes

são só dos quadrupedantes,

vós sois besta de dous pés.

Tudo a Moça suportou,

tudo sofreu a tal Moça,

porque a caixa tudo adoça,

e a ela tudo amargou:

nesciamente se enganou

sem desculpa, e sem razão,

pois na força da sezão,

devia ver, que a encaixa

quem lhe promete uma caixa,

para correr-lhe o caixão.

A los Moros por dinero

a los christianos debalde

ha mandado nuestro Alcaide

discretamente severo:

em vós eu o considero

doutro modo, e doutra traça,

e porque lei se vos faça,

manda El-Rei por este Oiteiro,

que aos toleirões por dinheiro,

aos entendidos de graça.

Fica a terra aproveitada,

se a Moça acaso emprenhar,

e de Bicancros botar

uma rencova, ou ninhada:

ver-se-á a Ilha assolada,

e a Deus fazendo mil votos

virão os Capuchos rotos,

descalços em procissão

e Bicancros benzerão,

como benzem gafanhotos.

AO CAPITÃO DOMINGOS GLz. FERREYRA APPELLIDADO O RAPADURA, A QUEM

HUMA DAMA PURGOU COM HUNS ARAÇÁS, DE QUE TEVE UMA DIARRHEA.

Minha gente, você vê

as loucuras tão borrachas

deste Capitão das Taxas,

que agora direi, quem é:

veio pedir de mercê,

que lhe celebrasse a cura

de uma purgação madura,

que a amiga lhe tinha dado,

porque, sem comer melado

o fez cagar rapadura.

Eu cuido, e é de cuidar,

que esta Puta sem agrado,

como o tinha já sangrado,

o quereria purgar:

não há nela, que estranhar,

nem que reprovar-lhe a ação,

antes muita compaixão,

porque quis piedosamente,

que se era de amor doente,

ficasse co'a praga são.

Se livrais do palalá,

alerta meu Capitão,

que há Puta, que dá pinhão

com rebuço de araçá:

vosso Primo Mangará,

que nesta matéria bole,

diz, que quem tal purga engole,

e no cagar tanto atura,

já não será rapadura,

porque foi jalapa mole.

Temos por cá averiguado

com este vosso entremez,

que o fruto, que tal mal fez,

devia de ser vedado:

vós ficastes enganado

por aquela Eva atroz;

se outra vez vos quiser dar,

e não puderdes cagar,

eu irei cagar por vós.

ESTRIBILHO

Saiba-se em qualquer lugar,

que esta rapadura inteira,

foi da casa de caldeira

para a casa de purgar.

AO MESMO CAPITÃO FRETANDOLHE A AMASIA CERTO HOMEM CHAMADO O

SURUCUCU.

Passou o surucucu,

e como andava no cio,

com um e outro assobio,

pediu a LuÍsa o cu:

Jesu nome de Jesu,

disse a Mulata assustada,

se você é cobra mandada

que me quer ferir da escolta

dê uma volta, e na volta

poderá dar-me a dentada.

Apenas isto escutou,

quando a boa cobra solta

deu a volta, mas a volta

não foi, a que a namorou:

porque o bom Adão achou

no Paraíso, ao entrar,

sem poder a Eva falar,

jurando o seu nome em vão,

pecou no segundo então,

por no sexto não pecar.

O seu Santo nome disse

em vão: mas o capitão

perguntou a Luísa então

a causa da parvoíce:

ela; porque ele ouvisse,

toda de risinhos morta,

este mandu (disse absorta)

não repara, que se implica

marchar eu com outra pica,

tendo o Capitão à porta?

Saiba, Senhor Capitão,

que se Luísa, se fornica,

antes com homem de pica,

que com homem de bastão:

porém se este toleirão,

quiser vomitar peçonha,

livrar-me-ei dessa erronha,

pois na sua cara vejo,

que terá muito de pejo,

mas tem mui pouca vergonha.

Prometeu vir do passeio

veio como um corrupio,

eu não vi homem tão frio,

que tão depressa se veio:

sobre ser frio é mui feio;

sobre ser feio é mui tolo:

porém se o meu porta-colo

não erra, tem o magano

nos culhões muito tutano,

na testa pouco miolo.

A OUTRO CAPITÃO QUE TINHA SIDO DE COURAÇAS EM PORTUGAL QUE SE

CASOU COM HUMA FILHA DE CERTO LETRADO FULANO COELHO, DE QUEM JÁ

FALLAMOS A FL.360 QUE SE CASARA COM HUMA MULHER, QUE DEO HUNS

PONTOS NO VAZO; E DESTA TAMBEM SE DIZIA SER JA CORRUPTA, E CHRISTÃA NOVA.

Basta, Senhor Capitão,

que se recebeu Você?

estimo muito: porque

deu à terra um alegrão:

a este himeneu lhe dão

os parabéns, os que o vêem,

e eu lhos darei também:

porque é razão natural,

que como sinto o seu mal

folgue também com seu bem.

A Noiva, que você goza,

partes tem para querida,

é nobre, é bem entendida,

é rica, e muito formosa:

não tem finalmente cousa,

das que a malícia reprova:

não é velha, é muito nova,

dizem, que honrada seria,

o que você provaria,

quando lhe tirou a prova.

Bem mostra, que com quatro olhos

buscou tão bela consorte,

porque mulher de tal porte

não se enxerga sem antolhos:

livre está você de abrolhos,

meu Capitão de Couraças,

de que pode a Deus dar graças;

mas repare nos retornos,

não se convertam em cornos

essas luzentes vidraças.

Que a mulher, que se requesta,

ou seja dama, ou casada,

de quem se vê mais amada,

põe logo o dado na testa:

e veja você, que desta

ter muitos zelos convinha,

que, quem foi levianazinha,

não é grande maravilha,

siga os passos, como filha

da mãe, que vai pela vinha.

Você no ardente aparelho

além de ser grão soldado,

me parece sutil galgo

no alcançar deste Coelho:

mui honrado fica o velho

da sua filha lhe dar

para com você casar:

porque sabe sem descontos

dessa fidalguia os pontos

e entende do seu Solar.

Só duas mães feiticeiras

tal casamento fariam,

que já de putas viviam,

e hoje só de alcoviteiras:

estas duas medianeiras

com redomas, e ungüentos,

Circes nos encantamentos

fizeram com seus assaltos

vossos pensamentos altos

sujos, e vis pensamentos.

Fizeram estas traidoras

com seus feitiços sutis

semelhantes os ardis

das Circes encantadoras:

as quais com traças sonoras

(muitos nas fábulas leram)

que alguns homens converteram

em porcos: mas estas duas

com feitiçarias suas

mais do que porco o fizeram.

A CERTO TENENTE CHAMADO O SURDO INSIGNE VENDELHÃO, E

ATRAVESSADOR VENDENDO HUNS PAYOS POR COUSA MUY SELECTA QUANDO

OS MAIS DELLES ESTAVAM PODRES.

Porque a fama vos celebre,

meu Tenente mercador,

dizem em vosso louvor,

que vendeis gato por lebre:

temo, que o trato vos quebre,

e temo, que vos quebreis,

quando as bocas não tapeis,

que dizem, por onde andais,

o modo, com que comprais,

e o modo, com que vendeis.

Se vós a boca vazia

tapásseis do nosso Alferes,

não disseram más mulheres

mal da vossa mercancia:

que o Alferes a porfia

anda estrugindo os quartéis

com dous mil aqui-d?El-Reis,

porque sois tão mau cristão,

que o que vos custa um tostão,

vendeis por duzentos réis.

Se os paios, que vós vendeis,

são do castelo de vide,

guardai-lhe embora a pevide,

mas co não a semeeis:

porque se esta terra encheis

de tão pobre sementeira,

sobre perder a queijeira,

em que ganhais quatro réis,

virão os Almotacéis

meter-vos na Leoneira.

Se os paios tão podres são,

quando vo-los pede alguém,

quando os vendeis muito bem,

como é cada qual tão são?

o certo é, meu Irmão,

que nos trazeis enganados,

pois sois na verdade tal,

que gabando-os sem sal

no-los vendeis bem salgados.

Meu Tenente, e meu Senhor,

vós mereceis justamente

comer praça de Tenente,

porque sois bom tenedor:

por força, nem por amor,

por jeito, nem por violência

pôde nunca a diligência

do Alferes vosso parceiro

tirar do vosso fumeiro

um fole de pestilência.

Por esta terra se conta,

que por preços tão diversos

destes os paios preversos,

que nem vós lhe dais na conta:

um contador vos desconta

pobres mais de nove, ou dez,

dados de graça nem três:

mas isto é dito de graça,

pois vem revendido em praça,

quanto dais sem interes.

Sobre a partida dos queijos,

que vós intentais comprar,

me dizem, que heis de ganhar

mais de quatro percevejos:

creio, que destes sobejos

tirareis ganância boa,

com que honreis casa, e pessoa;

mas tenho o meu pesarzinho

de ser mercador ratinho,

quem é filho de Lisboa.

Quanto ao outro negocinho

da frasqueira rosa soles,

que intentais vender aos goles

a frasquinho por frasquinho:

tirareis tal coscorinho

deles, como de um crisol,

que no sagrado arrebol

do convento heis de meter

uma filha, que há de ser

Madre Soror Rosa Sol.

Enquanto aos demais contratos,

para que o dito não quebre,

ou vendeis gato por lebre,

ou vendeis lebres por gatos:

guardai-vos de mentecaptos,

que dirão já boto o dente

com mofina escarnecente

depois de sorver aos goles

paios, queijos, rosa soles

má cousa, Senhor Tenente.

A HUM ALFERES QUE INDO PREZO PERANTE O SEU AUDITOR, SALTOU DAS

SUAS JANELLAS, DE QUE QUEBROU OS QUADRIS E SE FOY HOMIZIAR EM S.

FRANCISCO.

Se vós fôreis tão ousado

nos militares assaltos,

como sois destro nos saltos,

fôreis um grande soldado:

mas eu tenho averiguado,

quão distinto vem a ser

saltar para escafeder,

de assaltar para triunfar,

vós saltais por escapar,

não assaltais por vencer.

Lançastes-vos brutamente,

e ao cairdes na razão,

como caístes no chão,

fôreis discreto, e prudente:

ficou espantada a gente,

vendo, que apenas caístes,

quando às carreiras fugistes,

e é, que os que se confundiram,

por entonces não caíram,

no aperto, em que vos vistes.

Cair sem susto, ou pavor,

levantar, correr, fugir,

é ser corrente em cair,

como qualquer pecador:

porém fora-vos melhor

não cair na falta, em que

caístes, faltando à fé,

e verdade tão devida,

a quem por essa caída

subir vos pode à polé.

Dizem, que estais retraído

curando-vos de quebrado

com que hoje sois mal soldado

porque ontem fostes rompido:

tenho por melhor partido,

que em casa do Provedor

assente praça um Tambor,

que vós, quando escafedeis,

a de soldado assenteis

na calçada do Ouvidor.

Bom será, que vos cureis

nesse convento Sagrado,

donde saindo soldado,

força é, que o posto deixeis:

quando o venablo encosteis,

que eu vo-lo aprovo, e concedo,

vos advirto em tal enredo,

se sois homem de bom gosto,

que vos reformeis de posto

não tanto, como de medo.

O Alcaide acelerado

vos teve quase colhido,

mas ficou muito corrido,

e vós pouco envergonhado:

Se vos não causa cuidado

estar entre ardentes brasas

calafetando linhaças

para tanto osso quebrado

é, que a um raso soldado

lhe bastam cadeiras rasas.

Núcleo de Pesquisas em Informática, Literatura e Lingüística

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