Cuia d'Água por Katiuscia de Sá - Versão HTML

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Cuia  Dágua

Katiuscia de Sá

2005

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Para meus avós, In Memoriam,

Benedito Benício de Sá e Raimunda Ferreira de Sá

 

 

CAPÍTULO UM: Das Pessoas.

 

NEGRA BALBINA era vendedora de ervas. Mantinha uma banca na movimentada feira do Ver-O-Peso. Esta senhora era bastante requisitada para curar problemas relacionados a paixões de toda sorte, maus olhados e toques do malefício... mulher vivida, bastante experiente. Possuía muitos anos de acurados estudos e aprendizagens dos cânticos e feituras de banhos de ervas, defumarias outras e misturas cotidianas; estudos esses transmitidos oralmente pela sua bisavó – filha legitima da mãe África. “Nhêga” Balbina, como era carinhosa (e respeitosamente) conhecida em toda região da vendaria do Ver-O-Peso, dizia que ainda muito menina fora escolhida por sua bisavó para as aprendizagens, “porque veio pré-destinada pelos orixás e guias deste povo”, como mencionava sua bisavó Ambrósia do Chaco.

Até os vinte anos de idade Balbina não conseguia assegurar-se em sono noturno. Era perseguida pelas “sombras”. Copiosas e densas aparições queriam impedir que se perpetuasse a tradição mística deste povo negro em terras distantes de sua origem. Mas nhêga Balbina resistiu a essas tentações escarlates de escaravelhos, pois seu destino seria passar a vida levando Luz a todos que dela buscassem.

Certa vez sua bisavó dissera-lhe que não importava como era o candeeiro seguro pelo passante, importava somente se a Luz que carregava, brilhava o suficiente para ajudar na difícil travessia, a noite profunda das incertezas humanas. “Quase todas as pessoas são como pequenos barcos jogados à correnteza, eles necessitam de um farol para guiá-los até um porto seguro: os seus próprios corações...” – dizia a velha acorcundada Ambrósia, à sua netinha.

Os pesadelos da jovem Balbina cessaram de uma vez por todas quando em uma madrugada frienta de um sonho, apareceu-lhe um negrão Banto. Sua pele lustrosa de um celestial negrume continha uma luz fenomenal que enchia todos os aposentos da casa. Ele era musculosamente bem dotado, muito atraente. Transmitia segurança e serenidade em seu olhar. Carregava nas faces delicadas uma altivez guerreira, uma Paz e Força dignas de um rei. Seus grandes olhos eram caprichosamente pintados de brancura sem igual, deixavam-se enegrecer nos centros pelas íris – densas pérolas brilhantes e envolventes. Era um típico africano legítimo e sábio. Seria um rei encantado dos Bantos? Balbina não saberia dizer... mas o conhecia.

O magnífico homem estava-lhe velando os sonhos, e a jovem nele confiava. O negro contou à moça sonâmbula, que ele era feito da chama do fogo sagrado que Balbina carregava no coração. O guardião de todos os ensinamentos que a velha Ambrósia do Chaco guardava para desabrochar à sua escolhida. E o Banto também estava sempre por perto devido outro motivo, que anos depois Balbina viria saber. O guerreiro a protegia de ANÔNIMO...

“Quem é Anônimo?” – perguntava ela inocentemente ao Banto. “É o demônio que habita em todos nós. Anônimo nos espreita a todos. Ele reside nos descuidos dos detalhes, aguardando sempre uma aresta para nos arremessar ao erro das escolhas”, contava o homem sobrenatural à moça que dormitava amedrontada.

A partir dessa noite, Balbina nunca mais irrompeu madrugada adentro fugindo ao sonhos alucinantes, embora não se lembrasse do sonho com o negro, sabia que havia algo que a protegia desde então.

 

(...)

BENTINHO era o mulatinho mais bem quisto em toda feira do Ver-O-Peso. Começou a trabalhar ali ainda molecote. Vendia sacolas aos transeuntes desprovidos; depois passou a vender limões galegos fresquinhos. Quando rapazola, mantinha uma banca de tabaco. Ganhava bem porque a caboclada não passava um dia sequer sem que tragasse a fumaça daquele vicio dos pulmões.

Em sua banca podiam-se encontrar cigarros de todas as marcas, cigarretes para as “madamas”, charutos para os comerciantes bem-sucedidos das cercanias, e ervas soltas para que o próprio freguês montasse à vontade o seu cigarrinho de palha. Vendia também a retalho e pendurava contas no seu livrinho de notas. Talvez por isso que todos gostavam de Bentinho.

Morava longe dali, tinha um modesto casebre, caprichosamente decorado e arrumado por sua mãe, orgulhosa do filho sustentar a casa por força de seu próprio trabalho, suor digno adquirido no esforço diário na maior feira a céu aberto da America Latina.

Bentinho era moço alto; esguio; de olhos vivos, amêndoas atentas e joviais. Bastante sério, quase não arreganhava os dentes para calcular sorrisos. Falava pouco, somente o necessário que seu trabalho como vendedor exigia. Não gesticulava muito, sempre econômico e eficaz no comunicar. Aprendera com sua mãe a arte de escutar e observar contrapondo-se à tagarelice, fazendo disso seu forte escudo contra intrigas e fofocas...

Não era vaidoso, porém, cuidava de sua aparência com estimo, zelo e asseio. Vivia metido numas calças de linho, religiosamente passadas e engomadas por sua mãe. As camisas em botão sempre para dentro das calças, combinando com as finas meias enfiadas nuns sapatos mimosamente envernizados.

Gostava dos cabelos bem aparados, ensopados de vaselina. Mantinha um bigodinho ralo no rosto oval, o que deixava as moçoilas irrequietas. Devido aos pelos do buço, Bentinho carregava uma face algo misto de menino e homem feito, que as fascinava. Entretanto, o rapaz nunca se agradara de nenhuma das adolescentes do bairro onde morava, e nem de lugar nenhum!

Não lhe atraiam as moças de porcelana, com rostos congelados em cachos loiros; nem gostava de mulatinhas ou negrinhas de sensual balanço nas ancas, de olhares provocantes nas faces com sorrisos molhados e carnudos; muito menos as moças que trabalhavam na feira do Ver-O-Peso. Parecia que o coração do bonito rapaz estava imune aos cânticos do amor.

Certa vez uma moça de dezoito anos deslumbrara-se do jovem feirante, indo declarar-se a ele, e Bentinho, meio sem jeito, não sabia o quê dizer. Pediu desculpas à senhorita, pois não poderia namorar-lhe, nada sentia a não ser admiração e respeito pelo ato corajoso da declaração amorosa. E diante disso não é que a moça apelou para feitiçaria! Encomendou um trabalho para “amarrar” o jovem junto a ela. Não deu em nada. Após o dinheiro gasto, a mandinga apresentou-se tortuosa, pois Bentinho era pré-destinado à outra. Mas a rapariga cega de capricho, não queria saber das mãos silenciosas do destino fiando o tecido tênue aos olhos mortais...

O feitiço não deu certo para ela, e o “espírito” executor veio-lhe cobrar o favor. Dizem que essa senhorita ficou casada com o dito “espírito” que a tinha ajudado nessa empreitada. Ficou velha e solteirona até o dia de sua morte, aos setenta e oito anos de idade, em meados de 1990. A solteirice funesta e solitária fora o seu castigo por querer interferir no destino de outras pessoas.

(...)

CESÁRIO era descuidista. Ziguezaveava por entre a feira, sempre em busca de fregueses distraídos com o troco da compra – momento quando a mão-leve do homem entrava em ação. Sua (má) fama já era conhecida pelos feirantes que sempre o olhavam com raivosa desaprovação. Não era bem-vindo nas cercanias das bancas e barracas, porque sua cara branquela e mal apessoada afastava os fregueses de posses e mais atentos, que vinham fazer suas compras na tradicional feira do Ver-O-Peso.

Cesário era larápio por natureza, contam que desde pequeno já tinha essa má índole de enganar e cobiçar o alheio. Seu primeiro furto foi aos oito anos de idade quando da visita de uma tia. Cesário deparou-se com o camafeu que sua parenta usava no colarinho. O garoto a um canto da sala, retorcia suas mãos, estalando vagarosamente seus compridos e ágeis dedos, meditando como executaria o furto. Sua maior qualidade psíquica era observar...

Desde muito criança cultivava uma atenção a tudo, nada lhe escapava aos olhos profundos e nervosamente discretos. Na ocasião, quando sua mãe Olívia servia café à tia do menino, derramou-lhe sem querer o líquido na blusa da visita. Cesário – contemplando a cena – sorriu malignamente... Aguardou a ida das duas ao toalete, momento em que abandonaram o camafeu à mercê. Em cima da mesinha da sala, jazia a jóia que nunca mais fora vista pela família. Apenas Cesário sabia onde “empenhar” o fruto do roubo. Peça de ouro 18, era valioso pelas delicadas ornamentações.

O menino havia vendido o artefato para comprar bilhetes a fim de brincar no arraial de Nazaré, à época das festividades. Numa noite nazarena divertiu-se tanto... além da mesada entregue por sua mãe, havia também o dinheiro da venda do furto. O moleque comeu tantos doces, maçãs do amor, balas e algodão doce; participou das brincadeiras de pescaria, arremessos, e outros mimos do parque. Torrou toda grana sem o menor remorso.

Seu corpo adulto tinha a maleabilidade de uma serpente. Magro e esguio, sustentado por fortes e longas pernas. Sua cabeça e ombros pendiam um pouco para o lado esquerdo para observar as coisas, tratava-se mais de um cacoete antigo.

Enterrados no rosto magro, seus grandes olhos acompanhavam toda movimentação da feira, não perdia uma chance sequer para roubar. Era rápido nas corridas. Conhecia buracos e esconderijos em toda região do comércio. E seus convivas eram da mais alta malandragem jamais vista.

Possuidor de uma anatomia que muito o ajudava na sua qualidade de punguista. As mãos de Cesário nasciam de dedos longos, fortes, finos, e leves, coreograficamente precisos na ação de roubar! Um sucesso inigualável na natureza, as suas mãos! Entretanto, o que assustava mesmo os transeuntes, era seu sorriso... além de sua boca abrigar dentes disformes e amarelados por conta do vício do fumo, o riso de Cesário era de fatal pisica!

 

(...)

 

NATIVIDADE era rendeira do Ceará. Diziam que viera com os pais para Belém, ainda mocinha. Que era de família pobre e nordestina, e que aprendeu o oficio na infância, a arte da rendaria e bordado.

A velha ganhava a vida com a venda das delicadas fazendas que tecia pacientemente. Ela mantinha uma banquinha bem no centro da feira do Ver-O-Peso. Todas as tradicionais damas da sociedade paraense da década de 30, do século passado, mantinham em suas casas as famosas rendinhas de dona Natividade. Eram realmente lindas toalhinhas de estantes; belas rendas para as meninas em primeira comunhão; anáguas; véus de noiva; além de outras delicadezas.

A artesã já estava próxima dos arredondados setenta anos de idade. Era solitária. Morava em companhia de Rogério – seu gato de estimação. Ela preferiu a reclusão após a morte de seus pais, porque sabia que ninguém poderia dividir a vida a dois com ela... muito religiosa, era devota de São Benedito da Praia. Natividade juntamente com dona “Beloca”, (como era mais conhecida dona Isabel), encarregavam-se da organização da festa em homenagem ao santo negro. Abraçaram esta causa no inicio dos anos 20.

Tudo começou porque tia “Beloca” resolvera fazer uma promessa ao santo. Seu filho recém nascido fora desenganado pelos médicos, entretanto, por intermédio milagroso de São Benedito, o menino cresceu forte e sadio. Natividade conheceu tia “Beloca” logo que chegara a Belém, tornaram-se comadres e irmãs em devoção pelo santo praieiro.

A velha rendeira, era simpática com os feirantes, fregueses e transeuntes em geral, e esses a tratavam como uma avó bondosa e acolhedora. Natividade sempre dava conselhos e conversava com os mais jovens que a procuravam em sua casa ou mesmo na feira. Nunca se intrometera na vida alheia, a menos que pedissem... E no meio dessa rotina, as pessoas comuns nunca perceberam que Natividade sustentava um olhar longe, melancólico e misterioso. A verdade era que esta senhora carregava consigo um enorme segredo, e arrastava seus dias tentando escondê-lo, às vezes, de si própria...

(...)

STÉLIO era de boa alma, mas sofria de idiotice crônica. A família muito dolorosamente contrariada, após inúmeras tentativas de segurá-lo em casa, o abandonara de vez, porque Stélio no auge de seus ataques enfrentava ferozmente seus parentes, objetivando morar ao léu. Vivia como andarilho pelas ruas de Belém. A força de sua loucura o obrigava andar rigorosamente a pé dias e dias sem eira nem beira, numa interminável procissão solitária. A natureza do moço, porém, não era violenta.

Stélio descendia de uma abastada família, tradicional estirpe belenense. Entretanto, nenhum dinheiro foi capaz de curar sua moléstia. Quando menino, queixava-se cotidianamente à mãe sobre umas dores de cabeça. O médico da família receitava-lhe leves analgésicos. O rapaz já vinha agindo estranho, desde então... Até que um dia – um extremo colapso! Stélio acordara completamente transtornado. Não reconhecia onde estava, não reconhecia sua família e irmãos... correu pela casa, “tenho que ir”, gritava ao atravessar a porta da rua.

Na ocasião tentaram de tudo. Internaram Stélio na Santa Casa de Misericórdia, cercaram-no de todo conforto e remédios revolucionários da época. E nada...

O pai do rapaz, o dr. Francisco Ferreira da Costa Prado não queria transferir o menino para a Capela do Hospício, também conhecido como Hospital Juliano Moreira. O capelão de lá, nos anos de 1930, era o padre Leandro Pinheiro; o religioso sabia deste caso na família Costa Prado, já tinha ofertado leito a Stélio, porém a família não queria admitir um “Costa Prado” num hospital para loucos da cidade. Seria demais vergonhoso... Então, dr. Francisco decidiu transferir o garoto da Santa Casa para a capital do País. Lá haveria médico que salvasse o primogênito da linhagem Costa Prado.

No dia da mudança, Stélio aproveitou-se de uma aresta, breve instante de descuido. Escapou! Passos frenéticos, braços abertos ao ar, sorriso no peito. Ganhou a rua tão rapidamente que ninguém conseguiu alcançá-lo. Ficando apenas nas paredes da Santa Casa a figura de d. Regina, a chorar e lamentar-se pelo destino do filho.

Rostos estranhos foram testemunhas da difícil decisão que o patriarca Costa Prado tomara. Em meio ao desespero perante a fuga de Stélio, o pai dele ainda pôde ver seus olhos sorrindo, como nunca vira antes. Dr. Francisco compreendeu que seu primogênito seria mais feliz caso seguisse a liberdade de sua insanidade, do que enclausurado numa suposta cura que ninguém sabia se um dia alcançaria a alma do amado filho do dr. Francisco e dona Regina.

Então, o jovem Stélio vagaria a vida inteira por todas as ruas e vielas da cidade de Belém do Grão Pará. Seu lugar favorito era a feira do Ver-O-Peso. Stélio era seduzido pelas cores, pelos cheiros e balburdia que ali se via todos os dias. Os feirantes já o conheciam e o tratavam com amabilidade.

Stélio dependia da bondade deles para alimentar-se e conversar diariamente. O “rapaz doidinho”, como o chamavam, era prestativo levando recados e pequenas coisas de troca entre os trabalhadores da feira e comerciantes do local. Todos tinham uma convivência pacifica e fraterna com o jovem.

Dizem que até os últimos dias de sua vidas, os pais de Stélio iam escondidos ao Ver-O-Peso entregar dinheiro e agasalhos para a velha Natividade, que era responsável por repassá-los a Stélio. Natividade fazia esse favor com o maior zelo e sigilo possível.

 

(...)

 

POTIGUAR era mestre em capoeira e também pai de santo. Mantinha o mais respeitado terreiro de Candomblé que havia em Belém, na década de 30. Potiguar era conhecido por fazer (somente) o bem sobre o solo sagrado de seu terreiro. Sua fama de pai de santo conseguiu atravessar o gueto dessa religião afro-brasileira. As noites de cânticos e danças seduziam muita “gente de outra cor”, que vez por outra estacionava nos domínios de mestre Potiguar em busca de “reza”. Como explicar esse chamado musical dentro dos brancos? Seria o som do batuque requebrado ou os pés ululantes em rodopios dos negros e mestiços que enfeitiçavam de beleza e encanto àqueles olhos azuis-ingleses ou verdes-patrícios?

Ou seria o animo místico e indecifrável que há certas horas baixava nos corpos buliçosos e suados dos filhos de santo, materializando-se em quadris frenéticos e sensuais bailados enlouquecidamente felizes, terreiro adentro?

Tal espetáculo fabuloso dos espíritos guerreiros dos Bantos, dos batuques de Mina, das tradições Afro, assombravam de prazer testemunhal os olhos dos arianos, que empalideciam as faces frente ao maravilhoso milagre corpóreo.

Ninguém sabe ao certo dizer o motivo de tal fascínio. O que importa é saber que muitos brancos católicos freqüentavam àqueles batuques buliçosos promovidos no terreiro de mestre Potiguar, e todos buscavam benza, desfeitos para quebrantos, febres de mal-querenças, maus olhados, proteção espiritual, conselhos dos Pretos velhos, enfim... pois como dizia velha Ambrosina à sua neta Balbina, “não importa o candeeiro, e sim sua Luz a iluminar as Noites profundas da Alma...”

E por esse motivo mestre Potiguar recebia com igual atenção todos que ali acompanhassem as rodas de batuques, incorporações e defumações acharutadas.

Potiguar freqüentava constantemente a Feira do Ver-O-Peso para comprar ervas, matos verdes, cipós odorantes da floresta Amazônica, matos diversos, catinga-de-mulata, patichouli, cobras secas, azougues, paninhos e outros ingredientes para fazer banhos, oferendas e encantarias nos rituais que presidia. Recorria sempre à banca de Nhêga Balbina, para fazer a feira diária de suas necessidades. E também ali todos o conheciam.

O mestre em capoeira mantinha uma agregada na família – a formosa indígena Jandiara, que lhe veio como presente das regiões do Baixo Amazonas, caindo-lhe nas mãos sobre a promessa de educá-la aos costumes dos brancos e depois enviá-la de volta à sua tribo.

 

(...)

 

JANDIARA descendia da tribo Kaiapó. A família dela há muito deixara a região de Altamira, e resolvera rumar para alguma cidade, tudo para atender ao pedido da pequena. A jovem índia queria alfabetizar-se aos costumes dos brancos, para depois retornar à sua tribo consciente e poderosa de argumentar com àqueles que lá iam a fim de roubar-lhes os territórios.

A família de Jandiara escolhera a cidade de Abaetetuba para fincar morada provisória. A mocinha Kaiapó era a caçula de seis irmãos. Muito delicada e de bons gestos. Fora prometida à custódia de mestre Potiguar indo para a capital.

A indiazinha aprendia as letras da civilização branca e também tinha aulas de economia doméstica com professora particular mantida pelo próprio Potiguar. Além dessa atividade, Jandiara aprendia a coser roupar e cozinhar. Nos altos de seus quinze anos ainda mantinha posturas infantis como ter ao colo bonecas e tomar banhos de chuva. Adorava brincar com um papagaio que mestre Potiguar tinha em casa. De alma doce e virgem, natural a todo gentio que ainda não se corrompera com as ilusões sociais dos homens brancos.

 

TENÓRIO DA CUNHA, comerciante com descendência patrícia. Carregava uma cara branca e macilenta, alegremente enfeitada e envolvida por uns fios gritando para o grisalho, pareciam compor uma pequena vassoura a escovar-lhe as faces. Seus grandes olhos felizes adoravam afogar-se no vinho após o almoço, costume frequentemente reprimido pela sua vigilante (e zelosa) esposa, a mexicana Maria Gonzalez.

Após o ano de seu casamento, em 1925, Deus os presenteara com o nascimento de duas meninas: Maria Lúcia e Maria Inês. Tenório da Cunha mantinha o bem afamado botequim Águia de Ouro, que era fortemente frequentado pelo povo do Ver-O-Peso: pracinhas; marinheiros; feirantes; passantes de toda ordem social; fregueses diversos; pescadores; caboclos; e por quem mais ali estivesse em busca de molhar a garganta com a ardente água arquivada nos alambiques da vida.

Vinte anos mais tarde lembro-me que seu Tenório vendera o Águia de Ouro ao senhor Manoel Sarmanho, devoto fervoroso de São Benedito da Praia, existe até um “causo” sobre como o seu Manuel conseguiu a estátua do santo. Dizia-se à boca pequena que Sarmanho nascera em Salinópolis (município da região do salgado, no estado do Pará), e que era de família muito religiosa. Pôs ele um altar dentro do bar, suspirando a imagem do “santo preto”.

Seu Manoel conseguira a estátua por intermédio de um de seus fregueses, na mais verdade – um atravessador! Soube-se depois que a escultura de madeira fora encontrada por um mestiço, e depois entregue ao atravessador. Este sujeito tinha uma dívida antiga no “pendura” do bar, então ofereceu a imagem ao seu Manoel, como pagamento.

Dizem que o santo fora achado por acaso mesmo! O tal caboclo viajava despreocupado, cortava a região do Marajó, quando avistou algo boiando, achou que fosse uma pessoa, e mergulhou. Ao chegar próximo viu uma mala, carregou-a a bordo e dentro havia um embrulho. Era o santo! As pinturas muito gastas por causa da água salgada eternizavam mais ainda o sofrimento golpeado no rosto negro a carregar um menino-Jesus...

Após a entrada do santo no bar, ninguém mais se atrevia a proferir palavrões ou discussões de baixo calão. Respeitavam a presença sacra. Durante anos, o Águia de Outro era ponto de reza durante as festividades de São Benedito, até que pela força do tempo, o costume da procissão foi se apagando na memória do povo belenense.

 

(...)

 

Voltando ao seu Tenório da Cunha, o proprietário do Águia de Ouro, na década de 30. Ele também conhecia muitas histórias extraordinárias. Em seus anos desengordurando o balcão, viu e ouviu muita coisa: bêbadas lamentações; brigas; episódios de amores não correspondidos; histórias de bravura de pracinhas e marinheiros; estórias de visagens, contadas pelas bocas ressacadas de álcool a vagarem pelos paralelepípedos das estreitinhas ruas da Cidade Velha; causos madrugueiros saídos da fantástica imaginação dos feirantes... Muitas alegrias e tristezas coloriram a fábula de vida daquela gente ouriçada, que pela convivência periódica, já eram todos praticamente uma grande família.

Uma dessas narrativas será contada aqui. É uma história de amor... um amor tão forte que superou até mesmo as barreiras de todas as crenças e credos em todos os santos. Quase uma lenda esquecida envolta pela poeira dos anos, tendo seu desfecho ainda vagando na memória coletiva de um povo moreno. Uma história que ninguém poderia imaginar... nem mesmo o protagonista, que hoje jaz em Paz na serenidade alcançada por todos aqueles que enfrentam seus destinos pavorosos... e que mesmo assim, seguiram a Canção das Águas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CAPÍTULO DOIS: Dos Acontecimentos.

 

Diariamente embalados pelo vento da madrugada, espalhavam-se eles como um desabrochar de Tamba-Tajá. Vinham de diversos cantos da cidade. Era bonito de se ver, pareciam promesseiros transbordando oferendas para algum santo. Caminhavam lentamente, ainda sob o efeito de bolhas de sono, embebes por um transe sereno e gentil. Executavam uma coreografia de comum acordo de todos que surgiam das penumbras. Montavam suas barracas de feira.

Epidemias coloridas, o alaranjado e enrugado ouro desfolhando-se novamente – um sol parido da manhã. Seus raios preguiçosos vazavam calor e movimento ao caminhar crescente junto aos paralelepípedos da Castilhos França e arredores da feira do Ver-O-Peso. Todo tipo de homens e mulheres traziam seus pregões, na esperança do ganha-pão de cada dia.

Eram os feirantes. Os pescadores. Ferreiros. Sapateiros. Carroceiros. Frutas. Legumes. Jarros e garrafas. Pimenta de cheiro. Pimenta do reino. Farinha d’água. Cachos parrudos de açaí. Paneiros. Cerâmica marajoara. Caixotes arregalados de limões. Anéis de latão, cordões, brincos de vidros coloridos que alegravam o coração das mocinhas em idade vaidosa. Tantas e tantas mercadorias outras que se possa imaginar.

Até leitões vivos dialogavam aos berros, de igual para igual com todos que ali estivessem! E sem essa balburdia de falatório embriagado de sons, cheiros, cores, gritos, sorrisos e malandragens, não existiria o corpo taludo da feira, e sem esse corpo não haveria também a alma irrequieta do Ver-O-Peso na pessoa de seus freqüentadores.

E ao calor do sol desamarrotado, tudo ganhava graça e movimento numa saturação de matizes e gestos. À medida que a quentura roçava àquele lugar, aumentava também o som da orquestra: vozes e estrondos de caixotes jogados no chão; tilintar de facões decepando corpos de peixes; ressonar de carroças passando; chinelos arrastando-se em pegadas fumegantes. Tudo tinha ali para todos.

Acordes crescentes de um Altino Pimenta, a música da feira era regida por uma batuta cabocla e invisível... Minúsculos carimbós amorenados nas ancas carnudas das moças paraenses torciam os pescoços masculinos que por ali passassem – uma vertigens de jambú... Era assim a invasão da melodia vespertina, todos os dias na maior feira da América Latina.

Tudo começava a ganhar jeito por volta das quatro da matina. Aos olhos de quem estivesse fora daquela rotina dramaticamente espetacular, o que se via era uma pintura caprichosa, dinâmica, dolorosa e desordenada, embriagada de odores definitivos e exclusivamente nortistas, cores explosivas e sotaque paraura ainda escutado nos dias atuais.

A vida movimentava-se num ritmo único e circular. Um Lundum, um Siriá ou talvez um carimbó. Gestos misteriosos cortejados por uma neblina úmida de rio, com o sabor e suor marimbondo. Vidas entrecortadas – um clima místico e envolvente, um sagrado-profano ao parto majestoso e doloroso daquele lugar mágico e úmido, a feira parindo-se todos os dias através das mãos dos feirantes.

Os primeiros a desaneblinarem-se do transe preguiçoso da noite, eram os pescadores. Muitos dormitavam no próprio barco ancorado aos cais. Os caboclos saiam de suas naus carregando um silêncio religioso, como se realizassem uma prece de gestos. Mal se falavam, comunicavam-se através do olhar e das intenções. Tratava-se de uma compreensão diferente, como o influxo e refluxo das pequenas ondas enamoradas do cais.

Alguns cabras passavam a tarde e metade da noite pescando motivados a venderem o resultado das redes, na manhã seguinte. Os náuticos homens manobravam os caixotes pitiús, jogando os peixes macerados na pedra e os banhavam para estarem sempre fresquinhos ao julgamento e olhos atentos do freguês.

Seguidos dos peixeiros, chegavam os pequenos donos de barracas. Alguns mais caprichosos, forravam o tabuleiro com jornal “A Província do Pará” ou com “A Folha do Norte”, antes de deitarem as frutas.

Sim! O zelo dos feirantes é para o agradamento do freguês. A exigência deste era tanta, que os legumes vinham organizados por cores, tipos e tamanhos. Aos olhos do consumidor, as mercadorias gabavam-se como bandeirolas coloridas e sorridentes.

Na parte mística da feira – estavam as famosas “garrafadas”; as ervas milagrosas; olho-de-boto; defumações para todos os gêneros e gostos (e problemas...); amuletos benzidos, compotas, etc. – neste beco de feira também havia uma maneira de se apresentar as mercadorias. A ordem dos produtos vinha do menor para o maior em termos de importância. O freguês muito necessitado do poder místico, perdia-se por entre as barracas de ervas, que por vezes lembravam um pequeno território da selva Amazônica (cheiros, cores, bichos, mistérios...). Tudo ali era feito discretamente, à surdina da investigação de boca em boca. O sigilo continua sendo a alma dos negócios...