Dalton Jobim, o mediador de duas culturas: por uma pedagogia do jornalismo por Marcia Furtado Avanza - Versão HTML

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MARCIA FURTADO AVANZA

Danton Jobim, o mediador de duas culturas:

por uma pedagogia do jornalismo

São Paulo

2007

Danton Jobim, o mediador de duas culturas

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MARCIA FURTADO AVANZA

Danton Jobim, o mediador de duas culturas:

por uma pedagogia do jornalismo

Tese de doutorado apresentada ao

Programa de Pós-Graduação em Ciências

da Comunicação da Escola de

Comunicações e Artes da Universidade de

São Paulo, Área de Concentração: Estudo

dos Meios da Produção Mediática, como

exigência parcial para obtenção do título

de Doutor na área de Comunicação, sob a

orientação do Prof. Dr. José Marques de

Melo.

São Paulo

2007

Danton Jobim, o mediador de duas culturas

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FOLHA DE APROVAÇÃO

Marcia Furtado Avanza

Danton Jobim, o mediador de duas culturas:

por uma pedagogia do jornalismo

Tese apresentada à Escola de

Comunicações e Artes da Universidade

de São Paulo para obtenção do título de

Doutor.

Área de Concentração: Estudo dos Meios

da Produção Mediática

Aprovado em: ____________

Banca Examinadora

Prof. Dr. ___________________________________________

Instituição: _______________ Assinatura _________________

Prof. Dr.____________________________________________

Instituição: _______________ Assinatura _________________

Prof. Dr.____________________________________________

Instituição: _______________ Assinatura _________________

Prof. Dr.____________________________________________

Instituição: _______________ Assinatura _________________

Prof. Dr.____________________________________________

Instituição: _______________ Assinatura _________________

Danton Jobim, o mediador de duas culturas

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“Mestre é aquele que não só ensina, mas

que de repente aprende...”

Guimarães Rosa

Danton Jobim, o mediador de duas culturas

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Para Gustavo, Felipe, Rafael,

José Augusto Jr. e Paulo

Roberto, os cinco homens que

iluminaram minha vida.

Para Caliope, a única mulher,

por sua inspiração e por me

ensinar o verdadeiro significado

do amor.

Danton Jobim, o mediador de duas culturas

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Agradecimentos

Antes de tudo, obrigada ao Prof. Dr. José Marques de

Melo, um orientador sempre presente, capaz de dar “puxões de

orelha” nos momentos mais necessários.

Aos colegas do Gabinete do Reitor: Miriam Imada,

Adriana Cruz, Ernani Coimbra, Thaís Venosa, Laura Fuzaro,

Marcelo Cuzziol, José Roberto Sanches e Wildner Vilaça

Antonio. A todos eles, devo muito do meu trabalho. Aos demais

colegas da reitoria da USP, que direta ou indiretamente

contribuíram para que eu conseguisse terminar esta pesquisa,

agradeço através de Márcia Bispo e de Clélia Affonso Monteiro.

Sem ajuda delas, nada teria conseguido.

Aos professores da Fiam, com quem pude trocar

experiências fundamentais para a construção do trabalho,

especialmente ao professor Rodrigo Manzano, pela leitura

atenta e observações pertinentes.

À Associação Brasileira de Imprensa – ABI, agradeço por

meio de seu presidente Maurício Azedo e da bibliotecária chefe

Vilma Santos Oliveira, pela inestimável colaboração.

Ao Prof. Dr. Carlos Humes, ouvinte atento das minhas

dúvidas e brilhante conselheiro acadêmico.

À Profa. Dra. Ana Maria Sousa, exemplo de verdadeira

professora e minha eterna reitora, pelas discussões essenciais

sobre pedagogia.

Danton Jobim, o mediador de duas culturas

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Resumo

Analisar a contribuição do jornalista Danton Jobim, primeiro professor a ocupar a cadeira de Técnicas de Redação Jornalística no Curso de Jornalismo da Universidade do Brasil constitui o objetivo central desta pesquisa, cuja meta é contribuir para o desenvolvimento de uma

pedagogia do jornalismo. A partir de seu curso de Metodologia de Ensino do Jornalismo no CIESPAL, em Quito, Equador, buscou-se compreender suas propostas para o ensino do jornalismo, partindo da análise textual dos volumes preparados para embasar a formação de professores de toda a América do Sul. Resgatou-se também sua trajetória na imprensa

brasileira, principalmente no Diário Carioca, onde promoveu a maior reforma no jornalismo do país na década de 1950, treinando estudantes de diferentes áreas para atuar no jornalismo. Suas idéias foram reconstituídas através de entrevistas com companheiros da imprensa e da ABI. A

pesquisa evidencia que Jobim foi o responsável pela mediação entre os modelos norte-americano e europeu de ensino do jornalismo. Ele propõe a formação de um jornalista dotado de conhecimentos técnicos e

humanísticos adequados ao seu tempo, sendo capaz de se reciclar para exercer, por meio do jornalismo, uma importante função social,

informando, analisando e criticando os acontecimentos cotidianos e contribuindo para a formação do homem contemporâneo.

PALAVRAS-CHAVE:

Jornalismo. Pedagogia do Jornalismo, História do Jornalismo, Danton Jobim. América Latina.

Danton Jobim, o mediador de duas culturas

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Abstract

To analyze the contribution of journalist Danton Jobim, first professor to occupy the chair of Techniques of Editorial Writing for Newspapers, at the Universidade of Brasil, is the central objective of this research, whose goal is to contribute towards the development of pedagogy in journalism.

Starting from his Methodology Course for teaching Journalism at CIESPAL, in Quito, Ecuador, a search was undertaken to understand his proposals for teaching journalism, beginning from the textual analysis of volumes prepared to sustain the development of teachers for all South America. His trajectory in the Brazilian press was also redeemed, especially in the Diário Carioca, where he promoted the largest reform in journalism of the country during the decade of 1950, training students of different areas to work in journalism. His ideas were reconstructed through interviews with colleagues in the press and ABI (Brazilian Press Association). The research points out that Jobim was responsible for mediation between North American and European models to teach journalism. He proposes a journalist with technical and humanistic knowledge of his time, who would be able to recycle through journalism, an important social function, informing, analyzing and criticizing the daily news and contributing towards the formation of contemporary man.

KEY-WORDS:

Journalism. Pedagogy of Journalism, History of Jornalism, Danton Jobim, Latin America.

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Danton Jobim, o mediador de duas culturas:

por uma pedagogia do Jornalismo

Sumário

INTRODUÇÃO __________________________________________________11

1 O ENSINO DO JORNALISMO NO BRASIL: DAS INICIATIVAS

PIONEIRAS AO CURSO NA UNIVERSIDADE DO BRASIL ___________35

1.1 Experiências pioneiras _____________________________________________ 39

1.2 O Jornalismo na Universidade: a Escola de Jornalismo Cásper Líbero _____ 43

1.3 O curso na Universidade do Brasil ___________________________________ 48

1.4 Os primeiros currículos do Curso de Jornalismo _______________________ 54

2 BIOGRAFIA – UMA VIDA DEDICADA À IMPRENSA ______________61

3 O PENSAMENTO JORNALÍSTICO DE DANTON JOBIM ___________75

3.1 Jornalismo e opinião pública ________________________________________ 76

3.2 Jornalismo e técnica _______________________________________________ 78

3.3 Imprensa norte-americana versus imprensa latino-americana ____________ 82

3.4 Ética na imprensa _________________________________________________ 84

3.5 Jornalismo e literatura _____________________________________________ 85

3.6 Jornalismo e História ______________________________________________ 87

4 A ESCOLA DE JORNALISMO NO DIÁRIO CARIOCA______________89

5 A PEDAGOGIA DO JORNALISMO, SEGUNDO DANTON JOBIM___106

5.1 O objeto do ensino do jornalismo ___________________________________ 106

5.1.1 Formação e Informação _____________________________________________110

5.1.2 Formação profissional ______________________________________________116

5.2 O aluno de jornalismo ____________________________________________ 118

5.3 O professor de jornalismo _________________________________________ 126

5.4 O currículo _____________________________________________________ 131

5.4.1 O que se ensina na escola de jornalismo ______________________________134

5.4.2 As humanidades no curso de Jornalismo ______________________________136

5.4.3 O ensino da Geografia e da História na Escola de Jornalismo ____________141

5.4.4 O ensino da Língua e da Literatura na Escola de Jornalismo _____________150

5.4.5 Ensino das disciplinas profissionais ___________________________________154

5.5 O método de ensino_______________________________________________ 161

6 O ENSINO ATUAL NAS ESCOLAS PIONEIRAS __________________186

Danton Jobim, o mediador de duas culturas

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7 CONSIDERAÇÕES FINAIS _____________________________________202

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS_______________________________205

ANEXOS _______________________________________________________216

Danton Jobim, o mediador de duas culturas

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Introdução

Foi de Otto Groth a tentativa inicial de obter o reconhecimento do jornalismo como ciência. Ele, que iniciava sua carreira jornalística em 1906, na Alemanha, em 1948 passou a dedicar-se à docência e à

pesquisa, assumindo a cátedra de “Ciência de Jornalismo” no Instituto de Jornalismo Ilustrado de Munique. Embora existisse a intenção de

classificar a ciência jornalística dentro de outras categorias, como a Psicologia Social, a História e a “Publicística”, Groth analisou a imprensa em aspectos que não se resumiam à preparação e difusão das notícias, mas de sua relação com a vida e com a cultura. Além disso, analisou sua relação com as demais ciências, chegando à conclusão de que não se poderia colocar o Jornalismo dentro de outros ramos da Ciência Social, já que seus problemas e soluções não se encaixavam dentro da realidade das outras disciplinas (BUENO, 1972).

No mesmo ano de 1948, um brasileiro também assumia uma

cátedra de jornalismo dentro de outra universidade; desta vez, na Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil, situada na então Capital Federal, o Rio Janeiro. Danton Jobim tinha mais coisas em comum com Otto Groth. Nasceu no mesmo ano em que este último iniciou sua carreira, 1906, e também se dedicou por muitos anos à atividade jornalística. Mas sua grande contribuição foi disseminar a perspectiva brasileira de análise do jornalismo em países da Europa e da América do Norte (MARQUES DE MELO, 2003a).

Danton Jobim, o mediador de duas culturas

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Como Groth, Jobim também analisou o jornalismo a partir do

impresso, mesmo numa época em que o rádio, a TV e o cinema já tinham um significativo papel na circulação das informações. Porém, Marques de Melo (1983, p. 11) entende que Jobim manteve-se fiel “ao ‘espírito do jornalismo’ entendendo-o como ‘necessidade social’ que assume o caráter de ‘informação’ cujos ‘atributos essenciais’ são aqueles apontados por Jacques Kaiser: ‘universalidade e instantaneidade’”. Desta forma, a essência do jornalismo estaria presente no fluxo de informações atuais dos jornais e também nos espaços das outras mídias contemporâneas, não comprometendo o resultado de suas pesquisas e reflexões.

Jobim entendia o jornalismo como mais do que uma simples

atividade profissional. Suas reflexões acerca do tema mostram que para ele o jornalismo era, sobretudo, “um exercício superior da inteligência e da cultura” (AZEVEDO FILHO, 1981, p.15). Da mesma forma, a pesquisa de Groth é descrita como uma investigação no “campo entero de la vida y la cultura. Y ello porque los periódicos y revistas son universales – segun su contenido y en razón de su modo de ser, obligando por tanto a una contemplación universal” (BELAU apud BUENO, 1972, p.5). Como explica Santos (2003, p.68), Groth entendia cada edição de jornal como parte de um todo,

de uma idéia, que se apresenta periodicamente (periodicidade),

abrangendo assuntos que dizem respeito à realidade objetiva e

ao imaginário e a desejos humanos (universalidade), ligados ao

presente, ao agora, e não ao seu passado (atualidade), e que

são disseminados em termos geográficos sociais (difusão).

Danton Jobim, o mediador de duas culturas

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Jobim também entendia que a compreensão do jornalismo ia muito

além da técnica. Para ele, jornalismo tem sua própria “verdade”, que não pode ser a de um sociólogo ou de um historiador, porque é uma hipótese impossível de ser verificada através de processos de que eles se servem.

Como explica, é “uma verdade por assim dizer provisória e contingente”

(2003, p.28). Ele separava o jornalismo das demais ciências,

reconhecendo, contudo, sua interação. No entanto, entendia que o jornalismo no Brasil não dispunha de informações ou de dados confiáveis que pudessem promover um entendimento maior do fenômeno.

Um de seus projetos, tornado público em 1958, era o de criar um

centro de pesquisa em jornalismo, o que ele chamou de Instituto de Estudos e Pesquisas sobre a Informação (IEPI), que envolveria seus alunos da Universidade do Brasil e contaria com o apoio de outras entidades, como a Fundação Getúlio Vargas. Para ele, só era possível estudar o fenômeno jornalístico a partir de um “instrumental adequado ao emprego dos modernos métodos de investigação sobre a informação em geral e em particular”. Incluíam-se aí os estudos sobre os meios de comunicação da época, como a imprensa, o rádio e a televisão. Embora reforçasse a necessidade imperativa da criação dessa instituição, tal organismo jamais saiu do plano das idéias, por falta de apoio ou disponibilidade, já que Jobim atuava ao mesmo tempo na carreira docente e na atividade jornalística, assumindo inclusive a responsabilidade de direção de jornais.

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O primeiro centro de estudos de jornalismo só foi criado anos mais tarde pelo professor Luiz Beltrão, depois de seu trabalho no Ciespal –

Centro Internacional de Estudos Superiores de Comunicação para a América Latina, onde conheceu tendências internacionais de pesquisa no campo do jornalismo e da comunicação social. O Instituto de Ciências da Informação (ICINFORM) foi instalado em 13 de dezembro de 1963, na Universidade Católica de Pernambuco, com a finalidade de oferecer um suporte ao curso de jornalismo que dirigia, estabelecer uma estratégia de aproximação com os órgãos da grande imprensa local que resistiam à formação universitária de jornalista e analisar o jornalismo a partir do fenômeno da comunicação de massa, com perspectivas interdisciplinares.

Mas quando se analisa o cenário dos projetos de Groth e Jobim, as comparações param por aqui. Primeiro porque Groth desenvolvia suas pesquisas em um país – a Alemanha – com tradição de estudos na área de imprensa, ou da “Periodistika”. Ali foi defendida, na Universidade de Leipzig, ainda no século XVII, a primeira tese sobre o jornalismo, por Tobias Peuce. Além disso, também foi lá, em Leipzig, que circulou o primeiro jornal diário da história da imprensa (DIAS, 2000, p.199). O país também foi pioneiro, logo depois dos Estados Unidos, na iniciativa de criar um instituto de jornalismo, em 1917.

O contexto brasileiro enfrentado por Jobim era bem diferente. Ele iniciava sua docência num país praticamente sem nenhuma pesquisa na área, convivendo com uma imprensa de padrões e formatos já superados, e que havia chegado com muito atraso (1808), mesmo se comparada com Danton Jobim, o mediador de duas culturas

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seus vizinhos da América Latina, que tiveram tipografias desde o século XVI. Além disso, a maior parte dessa mesma imprensa rejeitava a

possibilidade de um curso superior que pudesse formar profissionais qualificados.

O curso de Jornalismo

Entende-se aí a preocupação de Jobim com o ensino, em razão dos

conflitos enfrentados muito antes do surgimento do curso – e que, ironicamente, persistem ainda hoje. Desde 1918, quando a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) discutiu no Primeiro Congresso de Jornalistas a criação de uma escola de jornalismo, criou-se um conflito entre os profissionais que atuavam na área. Muitos acreditavam que o “jornalista já nasce pronto”, outros eram defensores de um ensino que pudesse

qualificar e aumentar o nível de conhecimento do profissional antes que ele ingressasse no mercado.

Embora o processo de industrialização já estivesse em andamento

nas empresas jornalísticas no início do século XX, a função de jornalista ainda era exercida como um “bico”, geralmente por intelectuais que queriam tornar público seus trabalhos ou por jornalistas sem formação específica que se dividiam em mais de um emprego, principalmente entre o jornal e o funcionalismo público.

Danton Jobim, o mediador de duas culturas

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Mas muitos lutavam pela valorização do profissional como forma de melhorar a qualidade da imprensa. Por isso, outras iniciativas surgiram.

Uma das mais significativas foi a da criação do curso de Jornalismo da Universidade do Distrito Federal, idealizada por Anísio Teixeira, no Rio de Janeiro, e criada por Decreto do prefeito Pedro Ernesto. A Cátedra, entregue ao jornalista Costa Rego, secretário de redação do jornal Correio da Manhã, “um dos principais formadores de opinião pública no país”

(MARQUES DE MELO, 2003a, p.295), diferia da proposta da ABI, já que não pretendia formar profissionais de nível superior, mas intelectuais que pudessem “refletir sobre o fenômeno ascendente da cultura de massa, correlacionando duas atividades então imbricadas profissionalmente: o jornalismo e a publicidade”.

A iniciativa de Anísio Teixeira foi desativada em 1939 pelo governo autoritário de Getúlio Vargas. A elite hegemônica encarava aquela Universidade como sendo um “núcleo de perigosos esquerdistas, a esse título recebendo a hostilidade simultânea dos meios católicos e

integralistas (que, a essa altura, diga-se de passagem, mal se distinguiam um do outro)” (MARTINS apud MARQUES DE MELO, 2003a, p.302).

Enquanto isso, na primeira metade do século passado, mesmo com

rejeição a mudanças, a imprensa entrava na fase que Bahia (1990) e Sodré (1999) chamavam de industrial, idéia contestada por Lins da Silva (1991), porque faltavam condições na economia local para sustentar essa vontade de fazer do jornal um negócio. Mas a fase era de

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desenvolvimento, com o surgimento de novos jornais e o fortalecimento de alguns que permanecem até hoje, chamada “grande imprensa”.

Contudo uma reforma maior ainda estava por vir. Durante a

Segunda Guerra Mundial, os jornais puderam conhecer um novo formato na maneira de escrever, assimilada dos jornalistas estrangeiros, principalmente norte-americanos, graças às agências de notícias

internacionais que enviavam seus telegramas numa linguagem que diferia do então jornalismo praticado no Brasil. Até então, os textos eram

“caudalosos e plenos de literatices”, com matérias adjetivadas que demoram a introduzir o fato e abertas com enormes “narizes de cera”

(GENTILLI, 2002). “Os homens de letras buscavam encontrar no jornal o que não encontravam no livro: notoriedade, em primeiro lugar; um pouco de dinheiro, se possível” (SODRÉ, 1999, p.292). Embora o tema político fosse destaque nos jornais, ainda assim ele não conseguia neutralizar a influência literária na linguagem.

Pois é exatamente no período da guerra que os jornalistas

brasileiros vivenciam experiências no exterior, principalmente nos Estados Unidos, e conhecem o lead, a pirâmide invertida e outras técnicas que davam ao jornalismo um estilo próprio. Lins da Silva (1991, p.72) lembra que alguns que visitaram a emergente potência no final do século XIX

“com certeza se deixaram influenciar não apenas pelas idéias políticas correntes naquele país, como também pela sua imprensa”, caso de Rui Barbosa, Quintino Bacaiúva e José do Patrocínio.

Danton Jobim, o mediador de duas culturas

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Mas a influência norte-americana na imprensa brasileira só veio

com Pompeu de Souza e Danton Jobim, então secretário e diretor de redação do Diário Carioca, respectivamente, que provocaram uma

“limpeza” na redação do jornal . Trazendo novos talentos oriundos de cursos universitários, eles formaram uma nova geração de jornalistas, aplicando as técnicas que aprenderam durante suas experiências nos Estados Unidos. Elas iriam se refletir no ensino, já que, ao mesmo tempo, começavam a surgir as primeiras escolas de nível superior.

Poucos anos antes, Vitorino Prata Castelo Branco havia promovido uma série de palestras e conferências na sede da Associação dos

Profissionais de Imprensa de São Paulo, que culminaram no primeiro Curso Livre de Jornalismo no Brasil (DIAS, 2004). Achincalhado por jornalistas e criticado até mesmo pelo Sindicato da categoria, Castelo Branco abandonou o projeto e o jornalismo, voltando a atuar como advogado.

Na mesma conjuntura Cásper Líbero explicitou seu sonho de criar

uma escola de jornalismo. Ele deixou, em testamento, seu desejo de criar uma escola que formasse profissionais mais capacitados, o que se tornou realidade em 1947, com o surgimento da Escola Cásper Líbero, vinculada à Faculdade de Filosofia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

- PUC-SP. A sua criação só foi possível graças à autorização para o funcionamento do curso que seria ministrado pela Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil, com a cooperação da Associação Danton Jobim, o mediador de duas culturas

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Brasileira de Imprensa e dos sindicatos representativos das categorias de empregados e de empregadores das empresas jornalísticas.

O curso da Universidade do Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro, só começou a funcionar em 1948, tendo Danton Jobim como responsável pela cadeira de Jornalismo. Daí sua preocupação com o ensino e com o profissional que a escolas iria formar. A intenção de que o curso fosse elaborado com o apoio do Sindicato e das empresas

jornalísticas foi por água abaixo. Ainda continuava sendo forte a rejeição a esse tipo de iniciativa, principalmente por parte dos profissionais mais antigos.

A discussão sobre o currículo

A rejeição do mercado trazia à tona discussões acerca do currículo e do foco do ensino, provocando divergências sobre a questão técnica e a formação humanística que deveria ser dada ao estudante.

Embora reconhecendo a necessidade e as deficiências existentes

na parte técnica do curso da Universidade do Brasil, Jobim apontava a falta de compreensão dos próprios alunos, que acreditavam ser esta a parte essencial do curso, queixando-se do excesso da parte acadêmica.

Retrucava que, embora não se tivesse encontrado ainda o modelo

ideal – o currículo sofria alteração a cada ano –, o curso não poderia ser Danton Jobim, o mediador de duas culturas

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considerado meramente uma formação de práticos em jornalismo, mas deveria, sim, dar os conhecimentos necessários para que o profissional pudesse exercer sua profissão com uma cultura universitária. Justificava sua preocupação citando o problema do ensino secundário, onde matérias básicas para o desempenho jornalístico – como português, história, geografia e literatura – eram deficientemente ensinadas.

Posição diferente da de Jobim tinha Carlos Rizzini, também

professor da Universidade do Brasil, antes de dirigir a Escola Cásper Líbero. Para ele, o ensino do jornalismo deveria ser pautado pelo modelo norte-americano da Escola de Jornalismo de Missouri, onde os alunos não apenas aprendiam a fazer jornalismo, como o faziam de fato, por meio da publicação diária do University Missourian, jornal que eles redigiam. O

ensino prático deveria ser prioridade.

Embora reconhecendo a impossibilidade de se criar um curso

dentro do mesmo modelo, principalmente em razão das questões

financeiras que impediam as escolas do país de sustentar tal projeto, Rizzini acreditava que o modelo brasileiro, principalmente o estabelecido na Universidade do Brasil, tinha graves defeitos. O maior deles era o de

“serem culturais e não profissionais os grupos eletivos de especialização”.

Depois dos dois anos básicos, Rizzini (1953, p.51) propunha o terceiro ano apenas de especialização profissional. Sugeria, por exemplo, que a cadeira Técnica de Jornal, oferecida nos dois primeiros anos básicos, fosse mudada para cadeira de Redação e Reportagem, onde se dividiria entre Redação e Secretaria no primeiro ano e Reportagem e Entrevista no Danton Jobim, o mediador de duas culturas

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segundo ano, “estudadas separadamente como se fossem disciplinas autônomas”.

Para ele, no estudo teórico e prático de redação entrariam:

editoriais, comentários, tópicos, cabeças, notas, crônicas e

resumos, cuja variedade é infinita, indo desde o artigo de fundo e a colaboração assinada até a crônica de cinema, esportiva ou

mundana, e ainda traduções e utilização da correspondência e

do serviço telegráfico. (RIZZINI, 1953, p. 51-52)

Na parte de secretaria entrariam todas as tarefas pertinentes ao secretário de redação, como seleção de textos, distribuição de tarefas, espelho de paginação, entre outras. A reportagem seria destinada à

“coleta normal de notas”, de dados e à cobertura de acontecimentos esperados, incluindo também a busca de históricos e a narrativa de situações. A entrevista, considerada por ele como uma das mais difíceis formas de jornalismo, deveria ser ensinada como a arte de “saber perguntar e ouvir, e de saber transmitir opiniões e depoimentos”. Rizzini ainda acreditava que ninguém aprenderia a fazer reportagens ou

entrevistas se não as fizessem na prática e não as publicassem depois.

Outras propostas de Rizzini eram: restringir a cadeira de Língua Portuguesa e Literatura de Língua Portuguesa1 somente à parte de literatura no primeiro ano e substituí-la, no segundo, por História da Literatura Brasileira, especialmente no campo do jornalismo. Além disso, propunha restringir o ensino de História do Brasil e História

Contemporânea aos últimos sessenta anos e incluir na disciplina de Danton Jobim, o mediador de duas culturas

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Administração o ensino de Fotografia, Gravura e Artes Gráficas, enquanto não fossem criadas essas disciplinas específicas.

É certo que o ensino do jornalismo não pode ser feito sem o

entendimento dos problemas da atualidade. De forma nenhuma ele pode ser apartado da realidade e, por isso, é imprescindível que o estudante conheça e vivencie os problemas sociais contemporâneos. Como explicou Beltrão, em palestra no IV Seminário Internacional do Ciespal, realizado no Rio de Janeiro:

Su estúdio, como su prática, exige uma participación social y

directa del individio, no solamente em trabajos didácticos sino

también em los sentimientos y actividades de su época

(momento histórico) y de su gente (comunidad). Hay que

emplear métodos actualizados, mediante los cuales el

estudiante vaya paulatinamente estructurando sus ideales,

actitudes e intereses mentalmente, por emoción y por

participación, em uma especie de totalitarismo educacional.

(BELTRÃO In: CIESPAL, 1965, p.350)

No entanto, o ensino do jornalismo não pode ser visto apenas a

partir de uma visão contemporânea de mundo, mas a partir do

entendimento da formação da sociedade e da cultura, numa visão muito mais universal.

Sob o ponto de vista do ensino na atualidade, essas propostas de Rizzini parecem insuficientes. Mas é preciso entender que naquele momento a grande crítica que ele fazia ao curso de jornalismo da 1 O interessante nesta proposta é que atualmente grande número de alunos das escolas de jornalismo particulares, onde o exame vestibular exige menos, queixam-se da ausência da língua portuguesa no currículo, já que o ensino médio se mostra deficiente no ensino dessa disciplina.

Danton Jobim, o mediador de duas culturas

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Faculdade de Filosofia da Universidade do Brasil se dava em razão da falta de treino profissional, preocupação compartilhada também por Jobim.

O próprio diretor da Associação Brasileira de Imprensa à época,

Fernando Segismundo (In: CIESPAL, 1965, p.126), também em seminário do Ciespal, explicava que as escolas brasileiras não correspondiam às necessidades dos meios de comunicação. Aos seus formandos eram

dadas tarefas secundárias nas redações, anteriormente concedidas aos colaboradores literários, para as quais eram considerados os

conhecimentos e a cultura adquiridos em um curso superior. Nas tarefas de jornalismo, propriamente ditas, esses egressos das universidades eram colocados em um plano subalterno aos jornalistas que não tinham

formação acadêmica, já que nesse caso considerava-se que era

importante e decisiva “a capacidade de fazer e não a mera informação de como fazer”.

Porém Rizzini ia além, afirmando ser um absurdo “pretender-se um ensino jornalístico que não seja, acima de tudo, um ensino profissional”, posição diferente da de Jobim, que, assim como Groth, entendia o fenômeno do jornalismo como uma questão cultural muito mais ampla, que deveria ser mais bem estudada. Nesse sentido, Jobim não via o ensino de jornalismo apenas como uma questão de técnica, mas dentro de uma conjuntura muito maior, propiciada pela universidade e amparada em um tripé moral, cultural e técnico, que não deveria ser esquecido nem mesmo dentro das chamadas disciplinas especializadas. Além disso, ainda havia a preocupação com o perfil do estudante. Como citado anteriormente, ele Danton Jobim, o mediador de duas culturas

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teria as falhas que poderiam existir na formação desse aluno antes do ingresso na universidade, advindas do ensino secundário.

E embora o agora chamado ensino médio tenha piorado – e muito –

na maior parte das escolas, principalmente as públicas, da década de 50

para cá, as mesmas discussões se apresentam hoje sobre o currículo do curso de Jornalismo, que, desde o final da década de 60, se tornou uma habilitação do curso de Comunicação Social.

Geralmente, uma das soluções apontadas para resolver o impasse

de um curso deficiente é a mudança na grade curricular. Sem dúvida, o conteúdo curricular tem muita importância. Mas, pesquisadores como Marques de Melo (1979, p.39) acreditam que a mudança de currículo, sempre apontada como uma solução eficiente, é ineficaz, pois “os currículos constituem apenas uma variável secundária da questão

principal, que é a própria estrutura do ensino brasileiro e seus fundamentos sociais e ideológicos”. Dessa forma, o problema do ensino do jornalismo não é isolado, mas faz parte de uma “inadequação do sistema de ensino superior vigente no país”. Para ele, não basta mudar os currículos sem uma reforma nas estruturas universitárias criadas para atender às elites do passado e que não atendem mais nem mesmo ao setor progressivo da burguesia. Mesmo porque essas reformas

curriculares normalmente ocorrem de forma autoritária, ignorando as necessidades do mercado e dos alunos e priorizando os interesses dos professores de maior titulação dentro das escolas.

Danton Jobim, o mediador de duas culturas

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Marques de Melo (1979, p. 39) propõe uma reformulação completa

do sistema educacional brasileiro, que não depende de grupos isolados, como os de docentes ou de alunos, mas de uma união em torno de

propostas que possam adaptar o ensino “às necessidades de um

desenvolvimento sócio-econômico autônomo e democratizante, de um desenvolvimento cultural fiel aos valores populares da nação”.

A prática acadêmica

Independente dessa grande reforma proposta, muitos são os

problemas que se apresentam quando se pretende analisar o que

acontece nas escolas de jornalismo do país. Um deles é a própria prática acadêmica. Ao professor cabe a aplicação e a reforma dos métodos pedagógicos, estimulando a participação do aluno em sala de aula, em bibliotecas e em laboratórios. Se no início do curso faltavam livros e instalações necessários ao ensino do jornalismo, hoje esses recursos estão disponíveis nas universidades, mesmo que em menor grau nas escolas criadas do dia para a noite nos centros urbanos brasileiros.

Incentivar a pesquisa deve ser um atributo presente em cada docente, estimulando o estudante para a busca de novos conhecimentos. Este seria um ponto inicial no processo de romper as barreiras entre o ensino teórico e o tecnicista, envolvendo o aluno em pesquisas aplicadas e teóricas, que proporcionariam uma formação mais rica, crítica e ética.

Danton Jobim, o mediador de duas culturas

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Como explica Santos (2003, p.69):

É talvez na aplicação do currículo que pode estar o “pulo do

gato”. De nada adianta termos disciplinas de formação geral e

específica, além da técnica, mesmo que distribuídas

equilibradamente ao longo do curso. A dificuldade do aluno

continua. A sensação que fica, para os professores, é que ele

entendeu os conceitos da sua disciplina, mas isso não o ajuda

na reflexão sobre a técnica, que fica apartada, e vice-versa.

Aliás, muitas vezes ele nem sabe o porquê de estar assistindo

determinada disciplina.

Como visto, o ensino de jornalismo não é apenas uma questão de

currículo, mas principalmente uma análise de sua aplicação, de como estimular o aluno à reflexão e de como coordenar a participação de todos os envolvidos: instituição, aluno e professor.

Jobim, como professor de jornalismo, desde o final da década de 40

já levantava essas questões que ainda hoje discutimos. Seu curso de pedagogia do jornalismo no Ciespal discutia tanto os perfis dos

professores quanto dos alunos, além de métodos de ensino.

Este trabalho pretende abordar a pedagogia do jornalismo proposta por Danton Jobim durante o período de docência na Universidade do Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro, e também como responsável pela cátedra de Metodologia de Ensino de Jornalismo no Centro de Estudos Superiores de Jornalismo da América Latina - Ciespal, como professor visitante na Universidade do Texas, onde ministrou seminários sobre Jornalismo Mundial Comparado, e como convidado na Universidade de Paris, onde proferiu conferências sobre o tema Introdução ao Jornalismo Contemporâneo.

Danton Jobim, o mediador de duas culturas

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Além disso, abordaremos a experiência vivenciada por Jobim

quando, a partir do final da década de 40, como já nos referimos anteriormente, foi um dos responsáveis pela escola de jornalismo que funcionou dentro da redação do jornal Diário Carioca, onde atuou por 33

anos. Inicialmente como redator político e depois como secretário e diretor de redação, Jobim, junto com Pompeu de Souza e Luís Paulistano, formou uma geração inteira de profissionais com uma visão diferente do

jornalismo até então praticado. Seu grupo foi o responsável pela revolução no jornalismo brasileiro, introduzindo as técnicas de jornalismo procedentes dos Estados Unidos.

O pensamento jornalístico de Danton Jobim pode ser traduzido em

uma palavra: simplicidade. Sua luta era por uma linguagem jornalística que pudesse ser bem compreendida por todos. Por isso, e por toda sua contribuição ao jornalismo ⎯ seja como repórter ou como articulista, seja como professor ou como político ⎯, é que Jobim tem um lugar de

destaque dentro da história do jornalismo brasileiro.

Nesse sentido é que este trabalho teve como objetivo analisar a

contribuição de Danton Jobim para o desenvolvimento de uma pedagogia do jornalismo no Brasil. Para isso, pretendeu-se identificar e contextualizar as modificações nos processos jornalísticos efetuadas por Danton Jobim e sua equipe na redação do Diário Carioca, sob a influência do modelo norte-americano − que resultaram numa reforma total da imprensa brasileira no pós-guerra. Da mesma forma, buscou-se identificar as estratégias e fontes de referência de Danton Jobim, através da análise de Danton Jobim, o mediador de duas culturas

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sua proposta de pedagogia para o jornalismo, verificando de que forma essa proposta se relacionava e dialogava com os modelos humanista europeu e pragmático norte-americano vigentes à época e como a

articulação desses dois modelos foi adaptada à realidade brasileira naquele período.

O resgate da memória de Danton Jobim passa, necessariamente,

pela avaliação de sua importância no desenvolvimento de uma pedagogia do jornalismo no Brasil. Nesse sentido, é fundamental a tentativa de identificar aspectos relevantes tanto de sua prática jornalística quanto de suas proposta e prática pedagógicas, a fim de confrontá-las com os modelos vigentes à época, numa busca por evidências de rupturas e/ou continuidades. Para tanto, serão realizadas análises de textos e entrevistas não estruturadas.

Num primeiro momento, pretendeu-se realizar uma análise nos

textos de Danton Jobim, tendo como principal referência os seus dois livros de maior relevância sobre o tema − Espírito do Jornalismo e Pedagogia Del Periodismo −, buscando reunir elementos para identificar as propostas elaboradas e as modificações introduzidas.

Neste trabalho, partimos do pressuposto de que pedagogia é um

conjunto de princípios que dão suporte à definição de teorias, métodos e metodologias do processo educacional, que podem ser considerados mais eficientes para se alcançar o ideal da educação, que é a aprendizagem.

Aceitamos como base teórica de comparação o instrumentalismo

pragmático deweyano, cujo foco está centrado no conceito de

Danton Jobim, o mediador de duas culturas

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continuidade e democracia dentro do ensino − e para quem a educação é uma função social ligada aos objetivos da sociedade. Dewey defendia que

“toda experiência implica pensamento; não se trata apenas de verificação social, mas de percepção consciente das relações e de reciprocidade entre indivíduo e entorno” (BELTRÁN, 2003, p.50). Dessa forma, suas orientações educativas estavam centradas na continuidade entre natureza e experiência humana, e no desenvolvimento dessa aprendizagem através da interação social que ocorre por meio da comunicação. Utilizamos essa base de comparação em razão de Jobim, da mesma forma, afirmar que sua prática pedagógica no jornalismo estava centrada na observação empírica e voltada para o “ensinar a aprender”, percebendo que era preciso preparar o aluno para a continuidade do aprendizado além dos muros da escola, a partir de sua experiência nas redações e na sociedade.

A necessidade de inserir a análise em um contexto nacional leva à conveniência de uma comparação adicional com um paradigma brasileiro, que escolhemos ser Anísio Teixeira, pois ele adaptou o modelo deweyano à nossa realidade, na década de 1920, chegando a ter seu trabalho rotulado como americanista (CARVALHO, 2000). Além disso, construiu uma interpretação da Filosofia e da Filosofia da Educação do pensador norte-americano e difundiu-a no Brasil. O autor brasileiro parte do conceito de experiência de Dewey nas correntes da filosofia que fundamentaram as teorias educacionais, assim como de sua vinculação à educação e à organização da escola com o meio social, para formular uma “nova”

Filosofia e Teoria da Educação. Para ele, experiência poderia ser Danton Jobim, o mediador de duas culturas

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conceituada a partir das relações entre os variados tipos de elementos existentes no universo, que os obrigariam a uma constante transformação, fazendo com que a ação e a reação entre os corpos ou organismos (já que não seria um atributo puramente humano) promovessem uma modificação em ambos.

Procurando contextualizar o ensino e sua relação com a prática do processo jornalístico daquela época, também realizou-se uma investigação histórica do jornalismo brasileiro de então, baseada nas obras de Nelson Werneck Sodré, Juarez Bahia, Alzira Alves de Abreu, José Marques de Melo e Victor Gentilli, entre outros pesquisadores da história do jornalismo no Brasil.

No entanto, existem poucos registros sobre Danton Jobim e sua

importante passagem pela universidade e pelo jornalismo brasileiros.

Sobre isso, Barbosa Lima Sobrinho (1978) escreveu:

Modesto, despreocupado, indiferente, Danton Jobim nunca

falava nesses altos títulos que conquistara. Parece mesmo que

lhes não dava importância. Muitas e muitas vezes lhe sugeri que

escrevesse as suas memórias. Poderia ter um título que já me

parecia adequado: Memórias dos Bastidores. Porque conhecia

os acontecimentos políticos por dentro, por detrás das ribaltas, participando de muitos deles com a sua inteligência e a sua

capacidade de expressão. Mas era difícil vencer a sua

convicção de que tudo era efêmero e inútil e que lhe bastava a

convicção de haver atravessado a vida com o sentimento de

profunda dignidade, que emana de seus exemplos e de sua

tranqüila doutrinação.

Num esforço para superar essa lacuna, trabalhamos com

entrevistas não-estruturadas e depoimentos de jornalistas, amigos e Danton Jobim, o mediador de duas culturas

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alunos de Danton Jobim, que acompanharam sua trajetória na imprensa e na universidade, seguindo o modelo proposto pela pesquisadora inglesa Sue Stone (1984, p. 17-19), que sugere que esse tipo de entrevista

"apresenta melhores resultados em contextos onde o pesquisador se aprofunda na vida e cultura de um determinado grupo de pessoas, de modo a entender suas necessidades e comportamento". Dessa forma, é possível permitir ao "entrevistado apresentar seus próprios pontos de vista, sem ser dominado pelo padrão de referências do pesquisador". Nessa forma de entrevista não-estruturada podem surgir pontos, não previstos antecipadamente pelo entrevistador, de alta relevância para o estudo, além de, através do diálogo, ser possível expandir a compreensão sobre o modo de pensar do entrevistado.