De Bagdá a Istambul por Karl May - Versão HTML

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KARL MAY

DE BAGDÁ A

ISTAMBUL

VOL. VI

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KARL MAY

DE BAGDÁ A

ISTAMBUL

VOL. VI

Tradução de

Armando Gomes Ferreira

Ilustrações de

José Riera Sicart

Digitação

Arlindo_San

Revisão

Lorna

EDITORA GLOBO

RIO DE JANEIRO — PORTO ALEGRE — SÃO PAULO

3

4

Título do original alemão:

VON BAGDAD NACH STAMBUL

ESTA OBRA FOI REEDITADA

MEDIANTE FINANCIAMENTO CONCEDIDO

PELO

BANCO LAR BRASILEIRO S. A.

1966

DIREITOS EXCLUSIVOS DE TRADUÇÃO, EM LÍNGUA PORTUGUESA, DA

EDITORA GLOBO S. A. - PORTO ALEGRE - RIO GRANDE DO SUL

ESTADOS UNIDOS DO BRASIL

5

ÍNDICE

CAPITULO I — A ARÁBIA E O MAOMETISMO ............................. 07

A cisão do Islamismo................................................................. 09

A peste d'Alepo ......................................................................... 10

Hospitalidade que traz complicações ..................................... 13

O início do perigo .................................................................. 21

Desvenda-se a misteriosa atitude do khan ............................... 27

O primeiro encontro com os bebbehs .................................. 34

Procurando um entendimento .................................................. 37

Uma criatura original .............................................................. 42

Um cavalo para o guia ............................................................... 49

Um encontro suspeito .............................................................. 53

CAPÍTULO II — UM ASSALTO ....................................................... 57

Libertando os prisioneiros ......................................................... 64

Aprisionamento do suposto dechiaf ....................................... 69

A reconciliação com o bebbeh ................................................... 75

A prisão de Gasahl Gaboya ....................................................... 76

Um tiroteio com os bebbehs ..................................................... 84

Gasahl Gaboya como refém .................................................. 86

Uma divergência com os haddedins .......................................... 86

Um gesto precipitado de Maomé Emin .................................. 93

Uma "pescaria" estratégica que falha .................................... 96

CAPÍTULO III — HOSPEDAGEM CATIVANTE .............................. 100

A morte do haddedin .......................................................... 103

Um encontro providencial ........................................................ 104

As cerimônias fúnebres .......................................................... 112

Em busca da vingança ............................................................... 115

O novo roteiro ........................................................................... 117

A odisséia de um aristocrata persa ......................................... 122

Concertando definitivamente o roteiro ..................................... 124

Traição de um servo ................................................................. 126

Novos indícios da traição de Saduk ..................................... 128

Em reconhecimento ................................................................. 130

Avistando os perseguidores .................................................... 131

Despistando os perseguidores .................................................. 139

A fuga de Saduk ....................................................................... 142

As condições em que se deu a fuga ................................... 143

CAPÍTULO IV — EM BAGDÁ ......................................................... 147

Um encargo de confiança ......................................................... 147

Gradihm .................................................................................... 149

Um encontro que degenera em pugilato .................................... 150

Acolhida pouca hospitaleira ...................................................... 152

Invertem-se os papéis................................................................... 154

6

De volta ao acampamento do Mirza ......................................... 157

Um tesouro fabuloso ................................................................. 159

Um comprador para os cabedais do Mirza ................................ 161

Um passeio a Bagdad ............................................................... 163

Alugando uma casa ................................................................. 166

A nova residência ...................................................................... 171

A "caravana fúnebre" ............................................................ 172

Atitudes suspeitas....................................................................... 175

CAPÍTULO V — BAGDÁ DE OUTRORA E BAGDÁ DE HOJE ...... 179

Mendigo original .................................................................... . 181

Em Hila......................................................................................... 183

Na cidade e junto à "Torre de Babel" ........................................ 186

Separando-me do Mirza ............................................................. 190

Hedionda emboscada ................................................................ 193

Os progressos da peste ............................................................. 197

A melhor "arma" contra os salteadores .................................... 199

O sepultamento dos mortos ........................................................ 200

Halef acometido da peste ........................................................... 201

Pela segunda vez, a peste faz retroceder os salteadores ............ 203

CAPÍTULO VI — EM DAMASCO ....................................................... 207

O "amuleto" do Ruh ................................................................ 209

De volta aos campos forrageiros dos haddedins .................... 210

Em Damasco ............................................................................. 212

Carinhosa acolhida ................................................................... 216

"Horas de arte" .......................................................................... 219

Artistas tirolesas em Damasco ............................................... 222

Dawuhd Arafim ........................................................................ 224

Mais uma façanha de Dawuhd Arafim ....................................... 228

O ladrão abandona o roubo ....................................................... 243

Num labirinto subterrâneo............................................................. 247

O fugitivo desaparece com as jóias ............................................ 253

CAPÍTULO VII — EM STAMBUL ....................................................... 261

Encontro inesperado .................................................................. 266

O bailado dos Dervixes .......................................................... 270

A casa sinistra ......................................................................... 280

A morte de Abrahim Mamur .................................................... 304

A caravana da vingança ............................................................ 307

CAPÍTULO VIII — EM ADRIANÓPOLIS ........................................... 314

A prisão do outro criminoso ...................................................... 317

O desaparecimento de Halef .................................................. 329

A fuga de Barud El Amasat......................................................... 331

Uma cilada ................................................................................. 335

O preso aprisiona o guarda ...................................................... 345

A morte de Ali Manach.............................................................. 356

7

CAPÍTULO I

A Arábia e o Maometismo

Ao sul do extenso e árido deserto sírio e mesopotâmico, cercada pelo mar

Vermelho, fica situada a península Arábica, que se distende pelo mar Índico-

Arábico adentro.

Em três de suas faces, esse território é cercado de uma orla de costa

estreitíssima, mas extraordinariamente exuberante que, ao longo, se eleva num

planalto. Este, em toda a sua extensão, apresenta um conjunto panorâmico

monótono, meio grotesco, desfraldando às vistas do viajor uma extensa cadeia de

montanhas, entre as quais se destaca a de Chammar de acesso dificílimo.

Esta área territorial, cuja extensão exata em metros quadrados ninguém ainda

calculou, era na antigüidade dividida em três partes distintas denominadas Arábia

Petrae, Arábia Deserta e Arábia Felix, o que em português significa: Arábia

Pedregosa, Arábia Deserta e Arábia Feliz. Muitos geógrafos pensam originar-se a

palavra Petrae da expressão greco-latina (Nétpx = Petra) que significa pedra, rocha

etc, e por isso dão àquela região o nome de Arábia Pedregosa. Errônea, porém, é

essa concepção. Aquele nome encontra antes a sua origem na velha cidade Petra

que outrora fora a capital dessa província do nordeste daquele país. O árabe chama

a sua pátria de Dschesirat ei Arab (1), ao passo que os turcos e os persas dão-lhe o

nome de Arabistão. Atualmente várias designações são dadas àquela península; as

populações nômades da região não se preocupam com a denominação do país, visto

que para elas, consideradas isoladamente, prevalece a designação de suas

respectivas tribos clãs.

Sobre aquela península, o céu é límpido, eternamente límpido, como jamais se

viu noutras zonas da terra, e à noite as estrelas brilham com uma claridade e

limpidez jamais registradas em zona alguma do mundo. Pelos desfiladeiros das

montanhas e pelos agrestes planaltos cruza o filho semi-selvagem das estepes,

montado em fogosos corcéis ou em infatigáveis camelos. Seus olhares pousam em

toda parte, porque ele vive em rixas com todo o mundo, excetuados apenas os

componentes de sua tribo. De uma fronteira à outra ora o suave e límpido rumorejar

da brisa ora o ciciar de odes exóticas e selvagens vem embalar a alma do viandante.

Vem daí o ter-se lá conhecido, através dos séculos, centenas e centenas de poetas,

cujas estrofes vivem nos lábios do povo e foram também registradas para uso das

gerações vindouras.

Como tronco do legítimo árabe prevalece Joktan, filho de Huts, descendente

de Sem em quinta geração. Os descendentes de Yoktan povoavam a Arábia Feliz

até aos golfos dos mares persas. Outros árabes, porém, orgulham-se em afirmar

serem descendentes de Ismael, filho de Agar.

Aquele Ismael, segundo rezam as lendas, teria seguido com o seu pai Abraão

para Meca e lá edificado a santa Caaba. A verdade, porém, é que a Kaaba foi

instituída, ou pelo menos terminada a sua construção, pela tribo dos koreichites.

______________

(1) Ilha Arábica.

8

Entre os santuários de que se achava dotada Meca, conta-se a fonte santa de

Zem-Zem e a pedra negra, que, segundo dizem, caiu do céu.

Para lá peregrinavam as diferentes tribos de árabes, a fim de armar os ídolos

de suas tribos e por certo também os ídolos de suas próprias casas para depois

adorá-los. Por isso Meca era para os árabes o que Delfos fora para os gregos e

Jerusalém para os judeus. Constituía o ponto de concentração dos nômades

dispersos por toda parte e que se não fora isso ter-se-iam perdido, por aí além.

Como pertencesse Meca aos koreichites, constituíam estes, naquele tempo, a

mais poderosa e conceituada de todas as tribos árabes e em conseqüência também a

mais rica. Os peregrinos provindos de todos os pontos nunca chegavam sem trazer

presentes ou mercadorias de valor para negociar.

Um membro dessa tribo de nome Abd Allah (2) faleceu no ano 570 depois de

Cristo. Alguns meses mais tarde, em 570, sua mulher, a viúva Amina, deu à luz um

menino que mais tarde passou a chamar-se Mao-mé. (3) É muito provável que o

menino tenha tido anteriormente outro nome e que só adotasse este último depois

que sua atividade religiosa o tornou celebrada personalidade. Este nome é grafado

também Mohamed, Muhamed e Mehamed.

Com a morte do pai, herdara o menino apenas dois camelos, cinco ovelhas e

uma escrava abissínia. Foi, por isso, obrigado a recorrer à proteção e agasalho do

seu avô Abd-al Mokalib e, com a morte deste, foi sucessivamente acolhido pelos

seus tios Zuheir e Abu Taleb. Como, porém, a situação de pobreza desses homens

não lhes permitia fazer muito pelo menino, este foi obrigado a angariar o pão de

cada dia pastoreando ovelhas. Depois tornou-se guia de caravanas e mais tarde

carregador de arcos e aljavas. Aí foi que, por certo, adquiriu o espírito belicoso de

que era dotado.

Aos vinte e cinco anos de idade entrou para o serviço de Cahditscha, viúva de

um comerciante. Administrava ele com tanto zelo e espírito de sacrifício os bens

da viúva riquíssima, que esta dele se enamorou, tomando-o por esposo. Mais tarde,

porém, perdeu a grande fortuna adquirida pelo casamento. Até a idade de quarenta

anos dedicou-se ao comércio. Em suas longas viagens de negócios entrara ele em

contato com judeus e cristãos, com brâmanes e adoradores do fogo e esforçou-se

por lhes estudar as religiões. Sofria Maomé de epilepsia e essa depressão nervosa

predispunha-o para alucinações. Entregou-se por fim à oração, meditação e ao

misticismo. Recolheu-se a uma caverna situada no monte Hara, arredores de Meca.

Lá teve as suas primeiras visões.

O círculo de crentes que aderiram logo à sua religião era assaz limitado e

compunha-se de sua mulher Cahditscha, do seu escravo Zaid, dos dois mequenses

Othman e Abu Bekr e de seu jovem primo Ali, que mais tarde adotou o nome de

honra Areth Allah (4), e que foi um dos mais infelizes heróis do islamismo.

Ali, cujo nome significa o grande, o sublime, nascera no ano de 602 e gozava

em tão alto grau da estima de Maomé que recebeu a filha deste por esposa. Quando

(2) Servo do Altíssimo.

(3) Muito louvado.

(4) Leão de Deus.

9

pela primeira vez no círculo de sua família leu o profeta as proposições de sua

religião e perguntou aos circunstantes: "Quem de vós quer se tornar adepto de

minha seita?" todos silenciaram. Exceto, porém, o menino Ali, que entusiasmado

pela poesia de que as proposições se achavam impregnadas, bradou decididamente:

"Eu, e jamais dela me separarei!"

Essa sua atitude jamais foi esquecida pelo profeta.

A CISÃO DO ISLAMISMO

Ali foi um valente, um audaz guerreiro e a ele deve-se em grande parte haver-

se depois, tão celeremente divulgado o islamismo. Contudo, ao falecer Maomé,

sem uma disposição de sua última vontade, foi preterido, elegendo-se Abu Bekr,

sogro do profeta, para califa (5). Este foi sucedido no ano 634 por um segundo

sogro de Maomé, de nome Omar, sucedido mais tarde por Othman, um genro do

profeta. Este foi assassinado no ano 656 por seu próprio filho Abu Bekrs. Atribuiu-

se então a Ali o mando de tal assassínio e quando ele foi eleito, muitos chefes de

Estado recusaram-se prestar-lhe juramento de fidelidade. Durante quatro anos

combateu Ali pela sua sustentação no Califado e foi apunhalado no ano 660 por

Abd-er-Rahman. Foi enterrado em Kufa, onde ainda hoje existe um monumento

erigido em sua memória.

Data daí a cisão dos maometanos em dois exércitos contendores, em que se

dividiram os sumitas e os chiitas. A cisão em apreço era motivada menos por

princípios islamíticos que pela questão pessoal da sucessão ao Califado. Os

partidários da Chia afirmavam que não a Abu Bekr, Omar e Othman, mas a Ali

cabia em primeiro lugar suceder a Maomé, como seu substituto imediato que o era

de direito e de fato.

Ali deixou dois filhos, Hassan e Hossein. O primeiro foi pelos chiitas eleito

califa, ao passo que os partidários de Sunna Muavijá I, o fundador dinastia dos

ommajjaden, elevaram este ao referido cargo. Este último transferiu a sua

residência para Damasco, tendo sido um dos seus primeiros atos dar o caráter de

hereditariedade à sucessão ao Califado. Ainda em vida fêz sagrar califa ao seu filho

Dschesid, o qual mais tarde revelou-se um califa tão furibundo que a sua memória,

mesmo pelos sumitas, é lembrada com impropérios. Hassan não pôde vencer

Muavijá para manter-se no califado e morreu envenenado em Medina, lá pelo ano

670.

O seu irmão Hossein contrapôs-se ao reconhecimento de Dschesid e tornou-se

o herói do mais trágico episódio da história do islamismo.

A mão do califa Muavijá pousava, sinistra, sobre as províncias e os seus

governadores o apoiavam com todas as forças e poder de que dispunham. Assim,

por exemplo, o governador de Basra ordenou, sob pena de morte, que depois do pôr

do sol ninguém saísse às ruas. À noite, logo após a decretação desta lei, cerca de

duzentas pessoas foram encontradas fora de suas casas e impiedosamente

decapitadas. Na noite seguinte diminuiu o número de decapitações e assim

sucessivamente até que a lei foi cumprida com todo o seu rigor. O mais cruel e

(5) Substituto, Lugar-tenente.

10

hediondo dos ommajjaden era Hadjadch, governador de Kufa, cujas tiranias

custaram a vida a 120.000 pessoas.

Mais tirano ainda que Muavijá, tornou-se seu filho, o califa Dschesid. Ao

tempo de suas atrocidades, achava-se Hossein em Meca, onde recebeu um chamado

para ir a Kufa, a fim de ser investido nas funções de califa. Hossein atendeu ao

chamado para desgraça sua.

Acompanhado de cem dos seus partidários quando chegou ele em Kerbelá,

diante de Kufa, já encontrou a cidade sitiada pelos seus inimigos. Em vão, tentou

toda sorte de negociações tendentes a um acordo. Esgotaram-se-lhes as provisões

em vitualhas, a água secara à ação da causticante canícula; os animais, exaustos,

tombaram e Hossein com seus companheiros de olhos encovados e febris viam o

espectro da morte deles se aproximar a passos rápidos. Em vão clamava ele a Alá

por salvação. O ocaso de sua vida "se achava escrito nos livros". Nisso, Obeid

Allah, um dos condutores do exército de Dschesid invadiu o seu acampamento,

massacrou os companheiros de Hossein e a este mandou depois decapitar. Todos já

se achavam próximos da morte, mas nem essa circunstância comoveu ao tirano

opressor. Contudo, os massacrados portaram-se com raro heroísmo, resistindo tanto

quanto suas forças já combalidas ainda permitiam resistir. A cabeça de Hossein foi

espetada na ponta de uma lança e carregada em triunfo.

Isto sucedeu no dia 10 de Moharrem; este dia ainda hoje é de luto para os

chiitas. No Indostão costumam conduzir um quadro com a cabeça de Hossein

espetada na lança, tal qual sucedeu depois de sua morte; com uma ferradura

trabalhada em custoso metal, simbolizam-se os seus perseguidores. Todos os anos,

no dia 10 de Moharrem, de Bornéos a Celebes, através das índias e da Pérsia até o

mogreb (6) da Ásia, onde os chiitas possuem adeptos dispersos ressoa um brado de

dor e angústia, e em Kerbela realiza-se uma representação dramática impregnada de

inimagináveis cenas de desesperação. Ai do sumita, ai do giaur que neste dia estiver

em Kerbela, entre os chiitas vermelhos de agitação e sedentos de vingança. Será

cortado aos pedaços!

Esse intróito histórico, é para melhor compreensão dos fatos que passarei a

narrar.

A PESTE D’ALEPO

Quando ainda no Zab, tomamos a deliberação de costeá-lo e nos dirigirmos

até o Chirbani, para, depois, cavalgarmos com destino aos domínios dos curdos do

Zibar. Até Chirbani, achavamo-nos munidos de recomendações do bei de Gumri e

do melek de Lizan, e dali por diante esperávamos obter outras proteções. Os

chirbanis nos acolheram com hostilidade, mas pelos zibaris fomos recebidos

bastante hostilmente; contudo, consegui depois conquistar-lhes a amizade. Sem

incidentes de maior monta, atingíramos o rio Akra, onde nos chocamos com a

malquerença nata das populações montanhesas e, após várias experiências graves

no terreno prático, resolvemos dirigir-nos para o sul. Atravessamos então o Zab ao

_____________

(6) Oeste

11

oeste do Shara Surgh, deixando a aldeia Pir Hasan à nossa esquerda e fomos

obrigados, dada à circunstância de nós não podermos fiar nos curdos ali moradores,

a dirigirmo-nos para o sudoeste. Seguindo este rumo, era intento nosso dobrar à

direita para de qualquer forma alcançar o Tigre, entre Dyaleh e o Pequeno-Zab.

Contaríamos com uma acolhida cordial da parte do árabes-zcherboas, se eles nos

pusessem à disposição um guia de confiança. Mas infelizmente tivemos de

constatar, em lá chegando, que aqueles se haviam aliado com os obeides e Beni-

Lams para fazer sentir às tribos, residentes entre o Tigre e o Thatar, a ponta de suas

lanças. É verdade que os chammares mantinham relações de amizade com um dos

ferkahs dos obeides, cujo xeque era Eslah el Mahem, mas este homem podia

também ter mudado de idéias, esquecendo-se daquela amizade. E quanto aos

demais ferkahs sabia Maomé Emin serem todos eles inimigos dos haddedins. Nessa

conjuntura, o mais aconselhável seria desviar a nossa rota para Sulimania e lá

resolver a melhor forma de prosseguir a jornada. Conseguíramos libertar Amad el

Ghandur e trazê-lo até aqui assim era preferível fazer uma grande volta no caminho

em vez de nos atirarmos em novos perigos.

Depois de algum tempo, chegamos à montanha-norte do Zagros..

Era noite e acampamos na orla de um bosque de tschimar (7). Sobre nós

brilhava um firmamento tão límpido e claro como só se observa naquelas regiões.

Achavamo-nos nas fronteiras persas e a Pérsia é celebrada pela doçura de sua

atmosfera. A luz das estrelas sobre a terra era tão clara que, não obstante não se

achar àquela época a lua nem no calendário, nem no céu, eu podia ver as horas no

mostrador do meu relógio a três passos de distância. Uma leitura, mesmo nos

menores caracteres gráficos, ser-me-ia possível naquela noite tão fartamente

estrelada. Os raios de Júpiter eram tão intensos, que mesmo com as lentes de um

telescópio aumentadas em seu mais elevado grau, não se lhe distinguiriam os

satélites, salvo se se procurasse com a margem do instrumento encobrir o corpo do

planeta. Até as estrelas telescópicas eram visíveis naquela região de céu tão lindo e

maravilhoso. A sétima estrela da constelação das Plêiades podia-se distinguir no

céu sem maior esforço de visão. A intensa claridade de um tal firmamento causa

profunda impressão ao nosso ser e agora eu compreendia a razão de ser a Pérsia

cognominada a pátria da astrologia.

O local era ótimo para um acampamento. Acendemos um fogo para assar o

cordeiro que compráramos a um pastor.

Os nossos cavalos pastavam nas imediações. Nesses últimos dias a nossa

expedição lhes exigira o máximo das forças. Mereciam bem alguns dias de

descanso, o que infelizmente não nos era possível conceder-lhes, de momento.

Todos nós passávamos bem, com exceção de sir Lindsay que andava muito irritado.

Havia dias fora ele acometido de uma febre que persistiu durante vinte e

quatro horas apenas. Depois cessou-lhe a febre mas com o seu desaparecimento lhe

sobreveio um daqueles horríveis presentes orientais, que o latim classifica de

Febris Aleppensis e que o francês denomina de Mal d’Aleppo ou Bouton d’Alep.

Essa "peste d’Alepo" que acomete não só as pessoas como também determinados

animais, como cães e gatos, em geral é precedida de uma curta febre, à qual

___________________

(7) Plátanos orientais.

12

sobrevem então um grande tumor no rosto, nos braços, no peito, nas pernas, ou no

nariz. Esse tumor durante um ano inteiro produz secreções contínuas e ao

desaparecer deixa na região uma cicatriz para toda a vida. O nome dessa peste não

é lá muito adequado, visto que ela não grassa apenas em Alepo mas também nas

regiões de Antióquia, Mussul, Diarbekr, Bagdad e nalgumas zonas persas.

Eu já me acostumara a ver constantemente pessoas com tumores d’Alepo mas

não em tamanho tão descomunal como o que acometera o nosso bom Mister

Lindsay. O pior, porém, não era a enormidade do tumor, mas a circunstância de

haver este escolhido justamente o nariz para nele se alojar, aquele pobre nariz que

já arcava com o peso de sua natural deformidade. E o nosso inglês não suportava o

mal com displicência, conforme lhe cabia na qualidade de legítimo representante da

very great and excellent nation, mas explodia numa cólera e impaciência, que

chegavam a causar dó aos companheiros de caravana.

Agora se achava ele sentado à fogueira do acampamento e limpava a pústula

do nariz.

— Mister, disse-me ele. — Olhe aqui!

— Aí onde?

— Hum! Tola pergunta! Para minha cara, naturalmente! Yes! Tornou a crescer

esta coisa?

— Crescer o que, homem?

‘sdeath! O tumor do nariz! Cresceu muito?

— Muitíssimo. Adquiriu até o formato de um pepino.

— All devils! Horrível! Medonho! Yes!

— É provável que seu nariz com o tempo se transforme num Fowling-bull,

sir!

— Quer levar um sopapo de mim, mister? Estou ao seu inteiro dispor para

isso! Eu quisera que o senhor também tivesse um desses miseráveis swellings (8)

no nariz!

— Sente dor?

— Não.

— Dê-se por satisfeito então!

— Satisfeito? Zounds! Como posso estar satisfeito, se toda gente julga que

meu nariz nasceu acompanhado de snuff-box! (9) Que tempo acha que o tumor

levará para curar?

— Um ano mais ou menos, sir!

O homem lançou-me um olhar tão raivoso, que estive prestes a recuar de

susto. Abriu a boca de modo que o nariz com o seu snuff-box nela poderia ter

entrado a dar um passeiozinho, se a isso estivesse disposta

— Um ano?! Um ano inteiro? Doze meses em cheio?!

— Mais ou menos.

Oh! Ah! Horrible! Pavoroso! Tremendo! Não há meio para evitar isso?

Emplastro? Pomada? Compressas? Estirpação do tumor?

— Nada, nada disso!

___________________

(8) Intumescimento.

(9) Caixinha de rape.

13

— Mas para todos os males há remédios!

— Exceto para esse, sir. O intumescimento do seu nariz não é em si perigoso,

mas se nele fizer incisões, massagens etc, pode facilmente agravar-se e acarretar-

lhe sérias complicações.

— Hum! E depois de sarar, que sucederá?

— Conforme. Quanto maior o tumor tanto maior a cicatriz, ou orifício que ele

deixará no nariz.

My-sky! Uma cicatriz, um orifício?

— Infelizmente, sim.

— Que desastre! Horrível esta terra! Zona miserabilíssima! Vou tratar de

voltar a Old England!

— Espere ainda um pouco, sir!

— Por quê?

— Que diriam lá na velha Inglaterra de Sir David Lindsay, quando vissem

haver ele permitido ao nariz abrir uma filial?

— Hum! Tem razão, mister! Até os garotos me incomodariam. Continuarei,

pois, aqui até...

HOSPITALIDADE QUE TRAZ COMPLICAÇÕES

Sídi, — interrompeu-o Halef — não olhe para trás!

Eu me achava sentado de costas voltadas para o bosque e logo percebi que o

meu criado notara alguma coisa de suspeito por trás de mim.

— Que estás a ver? — perguntei-lhe.

— Dois olhos a te fitarem. Bem por trás de ti estão dois plátanos e por entre

eles ergue-se um tufo de pêras silvestres. Nesse tufo esconde-se o homem que nos

está a observar.

— Vês ainda os olhos dele?

— Espera um momento.

O homenzinho, portando-se com a maior naturalidade possível a fim de não

provocar as suspeitas do espião examinou novamente o esconderijo deste, ao

mesmo tempo que eu instruía aos demais a se postarem, como se nada houvessem

percebido.

— Está lá ainda o homem! — declarou Halef.

Levantei-me, dando aparências de quem ia juntar galhos secos para o fogo.

Com isso, me afastei do acampamento a uma tal distância que não podia mais ser

visto. Depois entranhei-me no macegal do bosque e, de esgueira primeiro, e de

gatinhas depois voltei para o ponto primitivo. Cinco minutos após me achava por

trás dos dois plátanos e tive então oportunidade de mais uma vez constatar a

excelente acuidade visual de Halef. Entre as árvores e a moita acocorava-se

realmente um homem a observar o nosso acampamento.

Por que nos estaria espionando? Achavamo-nos acampados numa região onde

num perímetro de milhas e milhas não se achava estabelecida nenhuma aldeia. É

verdade que nas vizinhanças havia várias tribos menores de curdos que se

degladiavam e também podia ser que alguma clã nômade de persas houvesse

atravessado as fronteiras com o fito de perpetrar algum saque ou roubo.

14

Confirmado este último caso, muitos restos de tribos desbaratadaas e dizimadas

havia por lá que de boamente se juntariam a qualquer clã que lhes aparecesse.

Não podia pois descuidar-me. Aproximei-me do espião e rapidamente o

peguei pela garganta. O homem de tal modo se assustou que ficou hirto e nem

reagiu quando o ergui do solo; transportei-o então para junto da fogueira.

Lá o depus no solo e saquei do punhal.

— Não te mexas, porque do contrário te apunhalarei! — ameacei-º

Nem por isso me animavam propósitos maus, ao fazer-lhe aquela ameaça, mas

o batedor levou-a a sério. Ajoelhou e de mãos postas suplicou:

— Senhor, perdão!

— De boamente! Mas se mentires serás um homem morto! Quem és tu?

— Sou um turcomano e pertenço à tribo dos bejates.

Um turcomano nestas alturas? Pelo seu modo de trajar-se, podia ser que

realmente estivesse dizendo a verdade. Também sabia eu que outrora turcomanos se

haviam estabelecido entre o Tigre e as fronteiras persas e era igualmente certo que

estes pertenciam exatamente a tribo dos bejates. O deserto de Lura e as planícies de

Tapespi haviam sido o teatro de suas tropelias. Quando, porem, o xá Nadir atacou o

Ejalet de Bagad, arrastou a tribo dos bejates para Khorassan. O xá designava esta

última província de “espada da Pérsia”, devido à sua admirável situação estratégica

e esforçava-se por povoa-la de atilados guerreiros.

— Um bejate? — perguntei-lhe. — Mentes!

— Digo-te a verdade, Senhor.

— Os bejates não moram nesta zona, mas na longínqua Khorassan.

— Tens razão neste ponto; mas quando outrora abandonaram esta zona, aqui

deixaram alguns dos seus guerreiros, cujos descendentes hoje se contam em mais

de mil guerreiros. Os nossos territórios ficam situados nas proximidades das ruínas

de Kizzel-Karaba e nas margens do Kuru-Tschai.

Lembrei-me de já haver realmente ouvido dizer isso.

— E atualmente vos achais nas proximidades deste bosque?

— Sim, Senhor!

— De quantas cabanas se compõe o vosso acampamento?

— Não temos cabanas.

Aquilo levantou-me suspeitas. Quando uma tribo nômade deixa o seu

acampamento sem levar as cabanas, é sinal certo de que sai em prática dalgum

roubo ou assalto, ou então anda em expedição de guerra, a tomar alguma desforra.

— De quantos homens compõe-se o teu atual acampamento?

— De duzentos.

— Inclusive mulheres?

— Elas não se acham em nossa companhia.

— Onde estais acampados?

— Perto daqui. Ao dobrares lá aquela curva do mato, avistarás o nosso

acampamento.

— Notastes então a nossa fogueira?

— Notamos sim, e o Khan destacou-me para observar que gente era a que

aqui acampava.

— Para onde vos dirigis na presente expedição?

15

— Rumo ao sul.

— Qual é a localidade do vosso objetivo?

— Pretendemos atingir as cercanias de Sinna.

— Mas Sinna é território persa!

— Realmente. Os nossos amigos que lá moram vão realizar uma grande festa

e nós nos achamos em caminho para nelas tomarmos parte, a convite deles.

Outra afirmativa que provocava suspeitas. Aqueles bejates possuíam a sede de

sua residência nas margens do Kuru-Tschai e nas proximidades das ruínas de

Kizzel-Karaba, portanto nas cercanias de Kifri. Esta cidade, porém, ficava muito

distante ao sudoeste do nosso atual acampamento, ao passo que Sinna ficava muito

mais perto, na região do sudeste. Por que então não se dirigiam os bejates

diretamente de Kifri a Sini? Por que estavam fazendo aquela enorme volta? Com o

fito de esclarecer essa estranha circunstância, perguntei-lhe:

— E que estais fazendo aqui? Com que fim alongais ao dobro o vosso

caminho?

— Porque pelo caminho mais próximo teríamos de atravessar o território do

Paxá de Sulimania que é nosso inimigo.

— Mas da mesma maneira vos encontrais atualmente também em território do

mesmo Paxá!

— Mas ele jamais pensa em nos encontrar cá em cima. Ele sabe que caímos

em expedição e julga havermos tomado o sul.

Aquela asserção, sim, soava de um modo mais verossímil; contudo eu não me

fiava ainda lá muito no homem. Ademais, considerei que a presença daqueles

bejates só nos poderia ser vantajosa. Sob a proteção deles poderíamos, sem sermos

molestados, alcançar Sinna e de lá em diante não precisávamos recear mais perigo

algum. O turcomano me veio ao encontro daquela aspiração, perguntando-me:

— Senhor, não me soltarás? Eu nada te fiz!

— Tu procedeste segundo ordens recebidas; estás em liberdade!

O homem respirou aliviado.

— Muito obrigado, Senhor! Para onde pretendeis seguir, se me permites a

pergunta?

— Para o sul.

— E vindes do setentrião?

— Exatamente. Procedemos das montanhas dos Tijaris, da terra dos berwaris

e dos caldeus.

— Então sois homens muito valentes e corajosos. A que tribo pertenceis?

— Este homem e eu somos emires de Frankistão e os demais amigos nossos.

— De Frankistão? Senhor, quereis viajar conosco?

— Seremos acolhidos na expedição pelo vosso khan?

— Sereis, sim. Todos sabemos que os frankes são grandes guerreiros. Queres

que eu vá avisá-lo de vossa presença aqui?

— Vai e pergunta-lhe se ele está disposto a nos acolher!

O batedor levantou-se e saiu. Os companheiros concordaram todos com a

minha resolução, principalmente Maomé Emin com ela muito se alegrou.

— Efêndi, — declarou este — já ouvi falar muito nos bejates. Eles vivem em

eternas contendas com os dcherboas, obeides e beni-lames e por isso nos serão

16

úteis. Contudo não lhes dirás ainda que meu filho e eu somos haddedins. É melhor

ignorarem tal particularidade.

— Desde já precisamos tomar todas as cautelas, visto ignorarmos ainda se

seremos bem acolhidos pelo khan. Ide buscar os vossos cavalos e armai-vos para

estardes preparados para qualquer emergência.

Ao que parecia, os bejates realizaram uma grande conferência a nosso

respeito, pois antes de darem sinal de si, já havíamos assado e saboreado o

cordeiro. Finalmente, percebemos ruídos de passos nas folhas secas do bosque. Daí

a pouco surgiu-nos o turcomano que havia pouco estivera conosco. Vinha na

companhia de três camaradas.

— Senhor, — declarou ele de chegada — venho agora oficialmente da parte

do khan. Temos ordens de vos conduzir ao nosso acampamento, onde sereis bem-

vindos.

— Neste caso, caminha à frente e nos guia!

Montamos e o seguimos mas, por via das dúvidas, de espingardas nas mãos.

Ao dobrarmos a curvatura do mato, há pouco referida pelo bejate, nada notamos em

nossa frente que desse a idéia dum acampamento. Depois de atravessarmos uns

densos tufos, porém, chegamos a uma clareira do bosque, na qual ardia uma

enorme fogueira. Fora excelente a escolha daquele local para acampamento, visto

que do lado de fora não era notada

Haviam acendido o fogo não para aquecer os expedicionários, mas a fim de

assar-lhes as provisões. Duzentos vultos escuros se achavam deitados no solo nas

vizinhanças da fogueira e junto a esta estava sentado o khan, que à nossa

aproximação ergueu-se com lentidão. Cavalgamos diretamente a ele e lá chegando

apeamos.

— A paz seja contigo! — saudei-o.

Mi newahet kjerdem! Aceita minha saudação! — respondeu-me ele,

inclinando-se respeitosamente.

O gesto era caracteristicamente persa. Talvez que com isto me queria ele

provar ser realmente um bejate, cuja tribo-tronco se achava estabelecida em

Khorassan. O persa é o verdadeiro francês oriental. Seu idioma é flexível e sonoro,

razão por que se tornou a língua das cortes de diversos regentes e príncipes

orientais. Mas as suas maneiras corteses, lisongeiras e às vezes servis até, jamais

produziram-me boa impressão. O tratamento ríspido, a rude franqueza do árabe

agrada-me muito mais.

Todos os membros da expedição levantaram-se e solicitamente estendiam as

mãos para pegar das rédeas dos nossos cavalos, para os acomodar. Não lhes

entregamos, porém, os animais porque não podíamos saber se se tratava de um

gesto de hospitalidade ou de um ardil para nos roubarem os animais.

— Confiai-lhes os cavalos, que eles os acomodarão! — pediu o khan.

Resolvi pôr tudo às claras primeiro, razão por que lhe perguntei em idioma

persa:

Hestiirchad engiz? Garantes pela nossa segurança pessoal e dos nossos

têres?

17

O khan inclinou a cabeça em sinal de afirmação e, levantando os braços,

exclamou: — Mi saukend chordem! — Juro-o! Sentai-vos ao meu lado e

palestremos!

Os bejates levaram os cavalos, exceção feita do meu Rih, que Halef ainda

segurava. O meu criado compreendia admiravelmente bem minhas preferências.

Nós outros tomamos lugar com o khan em torno da fogueira, Era um homem de

meia idade de aparência marcial. Os traços fisionômicos eram-lhe francos e

despertavam logo a confiança de que dele se acercasse; pela distância respeitosa em

que os seus súditos tomaram lugar no acampamento inferia-se quanto o acatavam e

estimavam.

— Já me conheces através do nome? — informou-se ele iniciando a palestra.

— Ainda não — respondi-lhe.

— Sou o Heider Mirlam (10), sobrinho do celebrado Bey Hassan Kerkusch. E

neste já ouviste falar?

— Neste sim. Residia nas proximidades da aldeia de Dchenijah, situada na

estrada real que liga Bagdad a Tauk. Foi um valente guerreiro, o que lhe não

impedia de amar a paz; todo o desamparado encontrava nele acolhida e proteção.

Ele declinara-me o seu nome e a cortesia mandava que eu lhe declinasse

também o meu. Por isso prossegui.

— O teu batedor já te deve ter dito que sou um franke. Quanto ao meu nome

costumam chamar-me Kara Ben Nemsi e estou sempre ao teu....

Não obstante o domínio de si próprio a que está sujeito todo guerreiro

oriental, o homem não pôde conter um brado de entusiasmo:

Ajah... oh! Kara Ben Nemsi! Então este teu companheiro de vermelho é

um emir do Inglistão que anda a desenterrar pedras e documentos?

— Já ouviste falar nele?

— Claro senhor! Tu me citaste apenas o teu nome, mas eu já conhecia tanto a

ti como a ele através de notícias que recebi. Aquele homenzinho que segura a tua

montaria é o pequeno Hadji Halef Ornar, tão temido por muitos grandes e

poderosos?

— Adivinhaste.

— E quem são os outros dois?

— São amigos meus, que depuseram os seus nomes no Kuran (11). Quem te

deu notícias nossas?

— Conheces o Ibn Zedar Ben Huli, o xeque dos Abu Hammed?

— Conheço. É amigo teu?

— Não é nem amigo e nem inimigo. Fica descansado. Não me compete a

mim tomar de ti vinganças no seu lugar.

— Nem tenho receio disso!

— Crei-o. Encontrei-o de uma feita em Eski Kifri e então ele me disse seres

tu o culpado de estar ele pagando tributos. Acautela-te senhor! O xeque te matará

no dia em que lhe caires nas mãos.

— Pois já estive nas suas mãos, sem que elas me tivessem morto! Fui seu

prisioneiro mas ele não conseguiu deter-me por muito tempo.

__________________

(10) Leão Míriam.

(11) Significa: — "Oculta o nome por motivos que precisam ficar ignorados."

18

— Soube de tudo. Mataste sozinho o leão e no escuro; depois envolvendo-te

na sua pele te retiraste a cavalo. E achas que também eu não te conseguiria deter no

caso de seres meu prisioneiro?

Aquela pergunta provocou-me logo graves suspeitas do homem. Contudo

respondi-lhe calmamente:

— Não me deterias, não! Aliás, não sei de que modo te seria possível levar a

efeito o meu aprisionamento!

— Senhor, atenta para a circunstância de sermos duzentos, ao passo que vós

sois apenas cinco! ..

— Khan, não te esqueças de que entre esses cinco há dois emires do

Frankistão, que valem tanto quanto duzentos bejates!

— Falas com excessiva soberba!

— E tu me fazes perguntas não condizentes com o espírito de hospitalidade!

Devo pôr em dúvida a sinceridade das palavras com que nos acolheste, Heider

Mirlam?

— Sois meus hóspedes, não obstante não conhecer eu os nomes desses outros

dois homens. E na minha companhia sereis servidos de pão e carne.

Um sorriso respeitoso aflorou-lhe aos lábios e o olhar que dirigiu aos dois

haddedins dizia-me o bastante. Maomé Emin em virtude de sua lindas barbas,

longas e brancas como neve seria reconhecido entre mil.

A um sinal do khan foram trazidos vários pedaços quadriculares de couro, nos

quais nos foram servidos pão, carne e tâmaras. Após havermos comido alguma

coisa daquela refeição, foi-nos fornecido fumo para os cachimbos que o khan em

pessoa nô-los acendeu.

Após tal cerimônia, sim, podíamos estar certos de que éramos hóspedes seus

na verdadeira acepção do termo, razão por que fiz sinal a Halef para acomodar o

Rih juntamente com os demais cavalos. Ele o fêz e depois sentou-se em nossa

companhia.

— Qual o termo de vossa jornada? — informou-se o khan.

— Dirigimo-nos a Bagdad — respondi-lhe cautelosamente.

— E nós a Sinna — volveu ele. — Quereis fazer-nos companhia?

— Permitir-nos-ás?

— Terei imenso prazer em vos ter na minha expedição. Aperte-me a mão,

Kara Ben Nemsi! Que meus irmãos sejam teus irmãos e que meus inimigos sejam

teus inimigos!

Depois apertou a mão de todos os demais, pronunciando as mesmas frases; os

companheiros estavam satisfeitíssimos por haverem, inesperadamente, encontrado

um amigo e protetor. E no entanto, por havermos aceito aquela amizade e aquela

proteção mais tarde haveríamos de nos arrepender amargamente. O chefe dos

bejates não era, aliás, mal intencionado conosco; mas viu logo que nos acolhendo,

fazia uma excelente aquisição que mais tarde lhe haveria de trazer extraordinárias

vantagens.

— Quais são as tribos que se encontram no caminho, daqui para Sinna? —

informei-me dele.

— Esta região é livre e nela ora uma ora outra tribo apascenta os seus

rebanhos. Aquela que fôr a mais forte é a que fica dona da situação!

19

— Que tribo vos convidou para as festas?

— A dos dchiafes.

— A tua tribo deve estar orgulhosa desta amizade, pois os dchiafes são as

mais poderosas de todas as tribos do país! Os xeques Ismael, Zengeneh,

Kelogawani, Kelhore e até o Chenki e o Hollali a temem.

— Emir, já estiveste aqui de alguma feita?

— Nunca.

— Mas conheces todas as tribos da zona.

— Não te esqueças de que sou um franke!

— Sim, os frankes sabem de tudo, mesmo de coisas que nunca viram, Já

ouviste também falar a respeito da tribo dos bebbehs?

— Já. É a tribo mais rica: possui uma enorme extensão do país e tem as suas

aldeias nos arredores de Sulimania.

— Estás bem informado. Tens amigos ou inimigos entre eles?

— Nem uma cousa nem outra. Nunca me encontrei com um bebbeh,

— É possível que todos vós venhais a conhecê-los.

— Pretendeis encontrá-los na presente expedição?

— Não pretendemos, até as evitamos o mais que é possível. Mas mesmo

assim pode suceder que eles se nos atravessem no caminho.

— Conheces bem a estrada daqui a Sinna?

— Muito bem.

— A que distância fica daqui?

— Bem montado, pode-se alcançá-la em três dias de viagem.

— E daqui a Sulimania?

— Podes alcançá-la em dois dias.

— A que horas levantareis acampamento amanhã?

— Assim que sair o sol. Quereis deitar-vos a dormir?

— Como achares melhor.

— A vontade do hóspede constitui lei em nossos acampamentos e vós deveis

estar cansados, pois tu até já depuseste o cachimbo. Também o Amasdar, (12) está

com os olhos pequeninos. Deixo-vos ao descanso!

Bejeted chirinkar! Que nobres costumes os dois bejates! Permite então que

estendamos os nossos cobertores!

— Estendei-os! Allah aramed chumara! Deus que vos conceda um bom sono!

A uma ordem sua, foi-lhe trazido um tapete para servir-lhe de leito.. Os meus

companheiros se puseram bem à vontade; eu, porém, emendei o laço às rédeas do

Rih e amarrei uma das extremidades no braço. Daquela maneira, o esplêndido

garanhão poderia pastar a seu bel prazer e eu o tinha em segurança. Além disso,

como me resolvera deitar, a uma distância do acampamento, Dojan se acomodou ao

meu lado, reforçando-se deste modo a vigilância ao animal.

Assim passou-se um tempo. Não havia eu ainda cerrado os olhos, quando vi

que alguém se aproximava de mim. Era o inglês que estendeu, seus dois cobertores

ao meu lado e se deitou.

— Bela camaradagem esta! — murmurou ele. — Estou lá sentado feito dois

__________________

(12) O homem do tumor: Lindsay.

20

de pau, sem perceber nada do que falam! Pensei merecer eu ao menos a atenção de

me ser traduzida a palestra! Mas nisso, o tal que se diz meu amigo, deu às de Vila

Diogo do acampamento, sem sequer me distinguir com um olhar! Hum! Muito

obrigado, sir!

— Perdoe-me, sir! Realmente me havia esquecido do senhor!

— Havia se esquecido de mim! Estás cego ou não sou suficientemente

grande?

— Ora essa, na vista o seu vulto cai logo, principalmente depois que se supriu

de um farol sobre a face. Mas afinal que quer saber?

— Tudo! Ademais, deixemos de uma vez por todas, dessa coisa de farol sobre

a face! Que esteve a falar com aquele xeque, khan ou coisa. que o valha?

Transmiti-lhe toda a palestra.

Well! É promissor para nós esse encontro! Não é?

— Claro. Três dias de viagem em segurança já é alguma coisa,

— O senhor declarou que seguiria para Bagdad? Falou seriamente, sir?

— Realmente seria para nós a rota preferível, mas infelizmente não. há

possibilidade de tomá-la.

— Por que não?

— Porque primeiramente temos que voltar aos campos forrageiros dos

haddedins, onde o senhor deixou o seu criado, além disso muito sentiria se me visse

obrigado a separar-me de Halef, em meio da jornada. Não o deixarei antes de o

saber são e salvo, junto de sua jovem esposa.

— Faz muito bem! Yes! Um portento aquele homenzinho! Vale dez mil libras

esterlinas! Well! Além disso, eu gostaria muito de voltar para lá.

— Por quê?

— Por causa dos fowlings-bulls.

— Oh! antiqualhas há também nas proximidades de Bagdad, por exemplo

entre as ruínas de Hila. Lá há campos de ruínas que se estendem a milhas e milhas

geográficas, não obstante não haver sido Babilônia tão grande como Nínive.

— Oh! Ah! Vamos até lá! Yes! Rumo de Hila! Não é assim?

— Por enquanto não nos entusiasmemos ainda com isso. O principal para nós

de momento é atingirmos incólumes as margens do Tigre. O resto depois se

resolverá com mais calma.

— Bem! Mas para Hila haveremos de seguir um dia! Yes! Well! Good night!

— Boa noite!

Mal pensava o bom do inglês que chegaríamos àquela região antes e em

circunstâncias bem diversas das que supúnhamos. Enrolou-se no seu cobertor e daí

a instantes roncava dormindo o sono do justo. Adormeci também em seguida,

constatando, porém, antes que quatro dos bejates haviam montado a cavalo e

abandonado o acampamento.

Quando me acordei já raiava o dia e os turcomanos estavam ocupados no

tratamento de seus cavalos. Halef que já se achava também de pé notara igualmente

a partida durante a noite dos quatro bejates e me comunicou o fato.

Sídi, por que expedem emissários, se realmente estão bem intencionados

conosco?

21

— Não creio que os quatro cavaleiros foram expedidos por nossa causa. De

mais a mais, já estaríamos completamente no poder do khan se este alimentasse

propósitos hostis a nosso respeito. Fica, pois, descansado, Halef!

Calculei logo que os quatro batedores haviam sido expedidos unicamente para

fazer um reconhecimento do caminho, devido aos perigos de que estavam minados.

A um pedido de informações que fiz ao khan, verifiquei depois que fora acertada a

minha suposição.

Depois de uma frugalíssima merenda, composta apenas de algumas tâmaras,

levantamos acampamento e prosseguimos viagem. O khan dividira a tropa em

grupos, que cavalgavam a distância de quinze minutos uns dos outros. Via-se daí

ser ele um homem previdente que cuidava carinhosamente da segurança de seus

súditos.

Cavalgamos ininterruptamente até ao meio dia. Quando o sol já havia atingido

o zênite, fizemos uma parada para descansar os animais. Durante toda a nossa

cavalgada, não encontráramos pessoa alguma e nas moitas e árvores da orla da

estrada encontrávamos sinais ali deixados pelos quatro batedores, sinais que nos

indicavam o rumo a tomar.

Esse rumo afigurava-se-me enigmático. Do nosso acampamento da noite,

ficava Sinna ao sudoeste, mas ao invés de seguirmos aquele rumo, haviamo-nos

desviado diretamente para o sul.

— A tua expedição não tem por objetivo visitar os dchiafes?

— Conforme já te disse, sim.

— Aquela tribo nômade, não se acha atualmente nas redondezas de Sinna?

— Exatamente.

— Mas se continuarmos a cavalgar por este rumo, jamais chegaremos a

Sinna, mas a Banna ou a Nweizgieh!

— Não preferes viajar a cavaleiro de quaisquer perigos, Senhor?

— Naturalmente!

— E nós também. E por isso é que fazemos uma grande volta, a fim de

evitarmos algum contato com tribos inimigas. Até hoje à noite viajaremos numa

cavalgada bastante forçada, mas depois poderemos descansar. Esperamos que o

caminho para oeste esteja amanhã isento de perigos.

Depois de duas horas de descanso, reencetamos a cavalgada. Penosa era

aquela nossa viagem e por muitas vezes fomos obrigados a cavalgar por extensos

ziguezagues; havia, pois, muitos pontos, dos quais os batedores julgaram

previdente nos afastar.

O INICIO DO PERIGO

À noitinha tivemos que transpor um trecho de caminho que se assemelhava

um tanto com um desfiladeiro. Eu me conservava ao lado do khan, que dirigia o

grupo da vanguarda. Já havíamos quase vencido o caminho, espécie de desfiladeiro,

quando nos encontramos com um cavaleiro: este, ao avistar-nos, ficou perplexo,

prova de que não esperava encontrar gente estranha pelas redondezas. Afastou-se

para o lado, baixou a lança e nos saudou:

— Sallam!

22

Sallam! — correspondeu o khan. — Para onde pretendes ir?

— Ao mato, caçar um bergschaj (13).

— A que tribo pertences?

— Sou um bebbeh.

— Tens residência fixa ou és nômade?

— Durante o inverno estabelecemos residência; no verão porém, saímos a

apascentar os nossos rebanhos.

— E onde costumais residir no inverno?

— Em Nweizgieh, ao sudoeste daqui. Dentro de uma hora poderás alcançar a

nossa aldeia. Os meus companheiros de tribo vos receberão cordialmente.

— De quantos homens compõe-se o grupo de que fazes parte?

— De quarenta. Noutros rebanhos há maior número de companheiros meus.

— Entrega-me tua lança!

— Por quê? — perguntou o homem admirado.

— E a tua espingarda!

— Por quê?

— E a tua faca! Considera-te meu prisioneiro!

Machallah!

Essa fora uma exclamação de susto, mas no mesmo instante fêz o cavalo se

erguer para depois recuar e sair a galope.

— Pegai-me, se quiserdes! — ouviu-se apenas o homem dizer em tom

decisivo.

O khan tomou então da espingarda e assestou-a contra o fugitivo. Mal tive

tempo de desviar o cano e a bala deflagrou. Naturalmente que o tiro em vista da

minha interferência errou o alvo. O khan cerrou os punhos e ergueu-se contra mim.

Prontamente, porém, resolveu mudar de resolução.

Khyangar (14)! Que fazes tu? — exclamou encolerizado.

— Não sou traidor, não — exclamei calmamente. — Viso apenas evitar que

incorras nalguma vingança de sangue.

— Mas ele terá que morrer. Se escapar, estaremos perdidos.

— Deixá-lo-ás com vida se eu o trouxer à tua presença?

— Claro. Mas não o pegarás!

— Espera!

Galopei em perseguição do fugitivo. Não se o avistava mais; dai a minutos,

porém, quando cheguei ao fim do desfiladeiro, dei com os olhos nele, que galopava

a uma boa distância de mim. Diante de mim descortinava-se uma planície coberta

por cravos silvestres e do outro lado desta um denso matagal. Se eu deixasse o

bebbeh alcançar o matagal, então, sim, jamais o capturaria.

— Rih! — bradei colocando a mão entre as orelhas do garanhão. O valente

animal já há dias que vinha sendo forçado a longas cavalgadas; mas àquele sinal,

voou pela planície como se já há semanas estivesse a descansar. Em dois minutos

me achava apenas à distância de vinte cavalos do bebbeh.

— Pára! — bradei-lhe.

____________

(13) Veado.

(14) Traidor.

23

index-24_1.jpg

Aquele homem era bastante animoso. Ao invés de fugir ou então parar,

conforme eu intimara, fêz o cavalo rodar pelas patas traseiras e depois galopou

contra mim. No próximo instante colidiriam as nossas montadas. Vi-o brandir a

lança e tomei da espingarda mais leve. Neste meio tempo, desviou ele um pouco

para o lado o cavalo e como um raio nos entrecruzamos. A ponteira de sua lança

estava dirigida a mim, mas a aparei com felicidade. Continuando na mesma

carreira, tomara nova direção, procurando a fuga. Por que não fizera ele uso de sua

espingarda?

Também o seu cavalo não era dos comuns para que sem dó eu o alvejasse, a fim de

melhor capturar o prisioneiro.

...ressou um grito e o bebeeh jazia...

Desapresilhei o laço do serigote e armei-lhe a laçada. O fugitivo virou-se e

viu que eu me aproximava dele. Nunca ouvira ele por certo falar em laço e portanto

ignorava os meios de se desviar dessa arma tão terrível, quando bem manejada.

Parecia não confiar mais na sua lança, visto que pegava da espingarda, cuja bala

não me era possível aparar. Calculei, a olho, à distância que nos separava e

24

precisamente no instante em que ele assestou a arma para a pontaria joguei-lhe o

laço. Mal havia eu desviado para o lado o cavalo, senti um arranco no serigote;

ressoou um grito e o bebbeh jazia subjugado no solo. Um momento depois me

achava junto dele.

— Fôste ferido?

Essa minha pergunta, na conjuntura presente, devia ter soado a chocarrice,

pois o homem procurou libertar-se da corda que o prendia e exclamou entre dentes:

— Bandoleiros!

— Enganas-te! Eu não sou nenhum bandoleiro. Desejo que me acompanhes!

— Para onde?

— Para junto do khan dos bejates, de quem acabas de fugir.

— Dos bejates? — Oh! são bejates aqueles homens! Como se chama o khan?

— Heider Mirlam.

— Agora, sei de tudo! Que Alá vos arraste para a ruína, pois não passais de

pífios ladrões e canalhas da pior ralé!

— Não invectives! Prometo-te, por Alá, que nada te irá suceder!

— Encontro-me em teu poder e nada mais me resta do que seguir-te.

Tirei-lhe a faca da cinta e juntei do chão a lança e espingarda, caídas ao solo

por ocasião da queda, à ação do laço. Depois afrouxei-lhe a corda e montei logo a

cavalo a fim de estar preparado para o que desse e viesse. O homem parecia não

estar animado de propósitos de fuga. Chamou o seu cavalo e nele montou.

— Eu me fio nas tuas palavras — disse-me. — Vamos!

Galopamos ao lado um do outro, a fim de nos juntarmos aos bejates. Quando

Heider Mirlan avistou o fugitivo, desanuviou-se-lhe a fisionomia.

— Senhor, realmente me trazes o prisioneiro! — exclamou o khan.

— Conforme te havia prometido! Dei-lhe, porém, minha palavra de que nada

lhe sucederia. Aqui tens as suas armas!

— Tudo ser-lhe-á devolvido mais tarde. Por enquanto, porém, será algemado,

para que não nos escape das mãos!

Aquela sua ordem foi logo executada e enquanto isso fomos alcançados pela

segunda secção dos bejates. A esta foi confiado o prisioneiro, com as instruções de

tratá-lo bem, mas vigiá-lo com todo o rigor. Feito o que, a nossa secção prosseguiu

na viagem interrompida.

— Como caiu ele em tuas mãos? — perguntou-me o khan.

— Eu o prendi, simplesmente! — respondi-lhe com laconismo, visto que me

achava magoado com a sua atitude anterior.

— Senhor, estás zangado — ponderou o chefe bejate. — Mas concluirás ainda

que eu não poderia ter procedido de forma diferente.

— Deus queira!

— Aquele homem não deve tagarelar por aí que os bejates se acham nas

proximidades.

— E quando pretendes soltá-lo?

— Assim que o possa fazer sem que sua liberdade nos acarrete algum perigo.

— Reflete bem: aquele homem pertence-me, pois o prendi. E assim, espero

que não sejas tu o primeiro a desrespeitar-me a palavra que lhe empenhei!

25

— E se eu não me preocupasse muito com tua palavra empenhada, que farias

então?

— Eu te...

— Matarias? — acudiu o khan atalhando-me.

— Não. Sou um franke, isto é, sou um cristão; só mato a um semelhante

quando a minha defesa própria assim o exige. Eu não te mataria, mas aleijaria para

o resto da vida o teu braço que contribuiu para a quebra de minha palavra! E então

o emir dos bejates seria qual um menino que não está em condições de manejar

nem com uma faca, ou então qual uma mulher velha a cuja palavra ninguém dá

atenção.

— Senhor, fora outra pessoa que me estivesse a dizer isso, eu me riria em sua

própria cara. De ti, porém, não duvido de que tenhas a coragem de agredir-me

mesmo em meio dos meus guerreiros.

— E te agrediríamos mesmo, disto podes estar certo! Não há um só entre nós

que tema os bejates!

— Nem o Maomé Emin? — perguntou o homem com um sorriso irônico.

— Nem este!

— E tampouco Amad el Ghandur?

— Já ouviste dizer algum dia ser ele um covarde?

— Nunca! Senhor, se vós não fósseis os homens que sois, jamais vos teria eu

convidado para nossos companheiros de viagem, visto que vamos trilhando

caminhos muito perigosos. Contudo, tenha fé em Alá, que os haveremos de vencer

sem novidade.

Anoiteceu e exatamente no instante em que escureceu de tal maneira que se

tornou necessário procurarmos um local para acampamento, atingimos um arroio

que de um labirinto de penedos, corria para o descampado. Neste haviam feito alto

à nossa espera, os quatro batedores expedidos à frente. O khan apeou-se e foi ter

com eles demorando-se por algum tempo a palestrar em voz baixa.

Por que procedia ele com tanta discrição? Estaria urdindo algum plano que

dele só o khan e os batedores poderiam, por enquanto, ter conhecimento? Um dos

quatro saiu à nossa frente e nos conduziu para o interior do labirinto de penedos.

Seguimo-lo, levando os animais pelas rédeas e depois de algum tempo chegamos a

um lugar cercado por enormes rochas. Aquele local era o mais seguro esconderijo

que jamais se poderia achar por aquela zona, embora demasiadamente acanhado

para acomodar duzentas pessoas.

— Ficaremos aqui? — perguntei.

— Ficaremos, sim — respondeu Heider Mirlam.

— Mas não todos nós!

— Sim, aqui pernoitaremos apenas quarenta e os demais se acomodarão mais

além.

Aquele esclarecimento bastaria para me dissipar qualquer dúvida, mas me

admirava ainda que, embora houvéssemos acampado num local muito seguro, não

fora aceso um fogo. Também aos companheiros, este fato provocou suspeitas.

— Lindo lugarzinho! — disse Lindsay. — Uma bela arena, não é?

— Realmente.

— Mas úmido e frio, aqui à beira do arroio. Por que não se acende um fogo?

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— Não sei. Talvez haja curdos inimigos pelas adjacências.

— Que tem isso? Não nos poderiam ver, apesar do fogo. Hum! Não me está

agradando muito isto aqui.

Dito isso, o inglês dirigiu um olhar cheio de dúvidas ao khan, que falava à sua

gente com visível empenho de não ser por nós ouvido. Sentei-me ao lado de

Maomé Emin, o qual parecia esperar por essa oportunidade, visto que logo me foi

perguntando:

— Emir, quanto tempo ficaremos ainda na companhia desses bejates?

— O tempo que melhor te aprouver.

— Se estiveres de acordo, já amanhã nos separaremos deles.

— Por quê?

— O homem que oculta a verdade a outrem, deste não é amigo!

— Tomas o khan por um mentiroso?

— Isto, propriamente, não. Mas não diz tudo o que pensa dos seus

companheiros.

— Ele te reconheceu.

— Sei disso; notei-o pelos seus olhares.

— E não só a ti, mas também a Amad el Ghandur.

— Isto é assaz explicável, dada à semelhança dele com o pai.

— E o fato dele te haver reconhecido não te traz apreensões?

— Não. Somos hóspedes dos bejates e estes não nos trairão. Mas por que

cargas d’água o khan aprisionou aquele bebbeh?

— Para que ele não vá denunciar a nossa presença aos seus.

— Mas por que não pode ser denunciada, emir? Que terão duzentos cavaleiros

bem armados e montados a temer, se não conduzem bagagens, mulheres, crianças e

anciãos e menos ainda tendas e rebanhos? Em que região nos encontramos, efêndi?