Débora Duarte: Filha da Televisão por Laura Malin - Versão HTML

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Pablo Neruda

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Introdução

A primeira vez que conheci Débora foi anos

atrás, rapidamente, durante as gravações da

minissérie global Hilda Furacão, onde ela fazia

a Sãozinha. Lembro que foi divertido, ela pare-

ceu ser uma pessoa amável e nós rimos muito

na piscina do hotel. Rir com uma pessoa é um

bom sinal, não é?

A segunda vez que conheci Débora foi dez

anos mais tarde, quando recebi a incumbência

de biografá-la. De cara, ao telefone, foi muito

simpática e me revelou o que nem desconfiava:

é a atriz brasileira viva que mais novelas fez... e

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olha que tinha apenas 58 anos!!!

Os encontros foram, no começo, justos de infor-

mação. Eu, como jornalista, não estava enten-

dendo ainda quem era Débora Duarte. Quem

era aquela mulher tão bela, de tanto sucesso,

tantos trabalhos, família tão grande em atores,

ex-amores do meio artístico... e tudo de uma

maneira tão natural e tranquila.

Uma das primeiras coisas que Débora me disse é

que nunca conheceu o anonimato. Praticamente

nasceu na TV (e com a TV, em 1950). Mas, apesar

disso, não tinha nem um pingo da alma de cele-

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bridade que é tão comum hoje em dia. Tinha, sim,

a alma de artista que, como um saltimbancos, vai

atrás do trabalho. Tinha, sim, a naturalidade de ser

filha de dois grandes atores (Marisa Sanchez e Lima

Duarte) e mãe de duas promissoras atrizes (Daniela

Gracindo e Paloma Duarte). Tinha, sim, uma vida

tão vivida, tão aproveitada, tão intensa que mal

cabe em sua memória. O que dirá num livro?

Exatamente por isso, fomos à casa de uma de

suas filhas, Paloma, abrir o baú de sua vida. O

baú era real – mas também altamente simbóli-

co. Recheado de fotos, reportagens, capas de

revistas, programas de peças de teatro, não era

apenas um compêndio de sua carreira. Estava,

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sobretudo, inundado de lembranças, daquelas

que vão se apagando à medida que o tempo

passa, para que a gente possa viver o presente.

Foi no baú que achamos a memória de Débora;

junto com imagens de seu passado, poesias e

críticas exaltando seu talento.

Durante a tarde que passamos na frente do

baú, percebi na Débora expressões que (acredi-

to) poucos têm possibilidade de registrar. Vi-a

abrindo sua intimidade, e posso dizer que, daí

em diante, fui espectadora de sua vida.

Débora sempre foi linda, e suas fotos de ju-

ventude guardavam uma história que eu nem

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imaginava: ela teve sua trajetória toda docu-

mentada pela imprensa. Foi, o tempo todo,

notícia. Foi uma celebridade sem se importar

com a fama. E nunca teve nada de instantânea:

veio para ser perene.

Sua vida é um espetáculo. Sem intermissão.

Desde seu nascimento, Débora Duarte trabalha

sem parar diante das câmeras e nos palcos, para

o deleite do público. Compreendi que ela não o

faz por nada além do simples motivo deste ser

o sentido de sua vida.

Quando eu perguntava a ela como tinha sido,

por exemplo, fazer duas peças, duas novelas e ter

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uma filha num determinado ano, ela respondia,

içando as sobranchelhas: foi natural, aconteceu.

Então, a Débora que encontrei dentro e através

daquele baú, a Débora que me conquistou, é

uma mulher extremamente forte, determinada,

dedicada ao trabalho e à família. Mas diria que

sua maior qualidade é sua originalidade. Ela é

o que tem que ser, é o que sente, e sente com

muita delicadeza o que é.

A terceira vez que conheci Débora foi durante

uma série de entrevistas realizadas para o Insti-

tuto de Teatro Montenegro e Raman, onde ela

foi entrevistada pelo ator Thiago Mendonça na

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frente de uma plateia embasbacada. Aliás, é

preciso dizer que parte deste livro deve-se a esta

brilhante entrevista onde Débora desnudou-se

com uma força que poucos talvez possam enten-

der, mas todos, sem dúvida, irão compartilhar

ao longo do livro. Foi então que, realmente, eu

conheci a Débora. No palco. Como um peixe que

não se pode compreender fora da água, Débora

não é Débora longe da cena.

Explico o porquê. A Débora que vi no palco não

era a mesma do sofá de sua casa, nem sequer era

aquela que abriu o baú para reviver e comparti-

lhar tantas memórias. A verdadeira Débora não

apenas atrai toda a luz, atenção e suspiros da

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plateia em sua direção – mais, bem mais do que

isso. Ela própria emana luz, cores, sons, brilhos

no olhar, uma explosão de mulher, de atriz, de

ser humano que supera todas as outras Débora

– e que é, acima de tudo, a verdadeira Débora.

Foi neste palco, portanto, que eu compreendi

quem ela é. Sua alma. Sua potência. Sua essên-

cia. A Débora que não sofre no trabalho, mas

dilacera-se na vida. Uma criatura divina que

está nesta jornada, como ela mesma definiu,

para servir! Servir de canal para as emoções,

de ponte para os sentimentos, de instrumento

(primoroso) para a arte. E como um cego, que

tateia do objeto mais próximo até o seguinte,

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Débora vai buscando o seu caminho por entre

suas obras, seus trabalhos, muletas que, no

entanto, são suas próprias pernas (que sempre

souberam caminhar sozinhas).

Débora, obrigada, antes de mais nada, por

toda honestidade. Mas também pelo exemplo:

irrequieta na alma, tela branca no corpo. Uma

arte viva, uma carne trêmula, instinto puro,

espontânea, pronta para aprender a viver...

sem desconfiar que vive o máximo, da melhor

maneira, que é a sua! Bravo!