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Decamerão por Giovanni Boccaccio - Versão HTML

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OS IMORTAIS

DA LITERATURA

UNIVERSAL

5

Giovanni Boccaccio

DECAMERÃO

1971

2.a Edição

Tradução de

Torrieri Guimarães

PROEMIO

É próprio do homem ter compaixão dos aflitos. Tal

sentimento fica bem a qualquer um; contudo, exige-se que

dele dêem mais provas as criaturas que já precisaram de

socorro, e o tenham recebido da parte de alguém. Eu estou

entre estas criaturas, se é que alguém já precisou de

compaixão — se tal sentimento já foi caro a alguma pessoa

—, se dele algum ser já auferiu prazer. E isto pela razão de

que, desde a minha primeira mocidade, até hoje, sempre me

senti arder por um amor muito elevado e nobre. Ao narrá-

lo, posso despertar a impressão de que ele foi mais ardente

do que o devera, tendo em vista a minha humilde posição na

sociedade. Entretanto, eu fui elogiado por pessoas que eram

discretas, e que tomaram conhecimento do fato.

Embora tivesse adquirido fama por causa desse amor,

mesmo assim sofri demais por tê-lo alimentado. É verdade

que não sofri em razão de crueldade da mulher amada.

Padeci por via do muito amor concebido em espírito, em

razão de uma angústia desproporcionada. Esta angústia não

me permitia ficar dentro dos limites convenientes; e, por

causa disto, trazia-me, com freqüência, mais desgostos do

que o razoável. Para tais desgostos, muita paz e elogiável

consolo me deram os raciocínios de algum amigo; tanto isto

é verdade, que estou firmemente convicto de que foi em

virtude desses raciocínios que eu não sucumbi.

Àquele que determinou, por lei irrevogável, infinito que é,

que tenham fim todas as coisas terrenais, aprouve, contudo,

que o meu amor, mais ardente do que outro qualquer, por si

mesmo reduzisse a própria intensidade, com o simples

passar do tempo. Era amor que nenhuma força de

argumentação, nem de conselho, nem de vergonha, nem

sequer de perigo, tinha podido vencer, e muito menos

dissipar.

De si este amor apenas me deixou, no espírito, o prazer que

a paixão costuma ofertar à pessoa que, velejando, não imerge

demais nos pélagos sombrios. Tendo-se tornado penoso, e já

que se dissipou, aquele amor apenas deixou em mim uma

sensação de prazer.

Mesmo assim, terminado embora o sofrer, nem por essa

razão se esfumou a lembrança dos benefícios recebidos

daqueles aos quais, pela benevolência que por mim

demonstraram, minhas inquietudes fizeram, injustamente,

sofrer. Nem essa lembrança se apagará em tempo algum, ao

que suponho, senão com a morte.

Pelo que eu entendo, a gratidão deve ser incluída entre as

virtudes; e lamentada a ingratidão. Para não ser ingrato, a

mim mesmo propus, agora que posso considerar-me livre, o

trabalho de ofertar algum consolo, na medida de minhas

possibilidades, em troca do que eu recebi. Se não o presto

aos que me auxiliaram e que, por sorte deles, ou por seu

bom senso, ou sua boa fortuna, não necessitam dele, pelo

menos presto-o àqueles aos quais possa ter valor. Não

obstante seja muito ínfimo o alívio, ou o conforto, ou seja, lá

o que for, aos que necessitam disso, mesmo assim me parece

que ele deve ser ofertado àqueles cuja necessidade é maior,

ou porque mais bem lhes fará, ou porque, desse modo, mais

carinhosamente será entendido.

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E haverá quem negue, por importante que seja, que é

conveniente ofertar este alívio, este conforto, mais às

mulheres belas do que aos homens? Mantêm elas

escondidas, em seu delicado seio, as chamas do amor.

Receiam envergonhar-se; retraem-se. As chamas ocultas

possuem mais força do que as que se ostentam; e disto

sabem aqueles que já as experimentaram. Tanto mais que

elas, as mulheres, constrangidas pelos desejos, pelos

caprichos e pelas ordens paternas, maternas, fraternas e dos

maridos, conservam-se a maior parte do tempo encerradas

em seus aposentos; mantêm-se ali, sem nada fazer, sentadas,

querendo e não querendo; numa hora só, nutrem

pensamentos vários, e não é possível que sejam sempre

alegres esses pensamentos. Se, em razão desses pensares,

certa melancolia nascida de anseios ardorosos advém ao

espírito delas, convém se trate, com muito cuidado, de seu

espírito, se a melancolia não o deixa por novos raciocínios.

Sem isto, são as mulheres muito menos fortes do que os

homens, e necessitam de amparo.

Tais coisas não sucedem aos homens que se enamoram,

como francamente podemos constatar. Os homens,

sentindo-se acuados pela melancolia ou pelo desânimo,

acham inúmeras maneiras de aliviar-se, ou de entreter-se. Se

o quiserem, não lhes faltam ocupações, como a de deslocar-

se de um lugar para outro, a de escutar, a de ver coisas, a de

armar armadilhas aos pássaros, a de caçar, a de pescar, a de

cavalgar, a de jogar, a de fazer trocas. Em tais atividades,

cada um tem a força de prender, no todo ou parcialmente, o

pensamento, afastando-o da preocupação mais penosa,

mesmo que não seja senão por curto espaço de tempo.

Depois deste interregno, de um modo ou de outro, ou chega

o consolo, ou se torna menor o sofrer.

Assim sendo, para que se corrija, para mim, o pecado da

Sorte, pretendo narrar cem novelas, ou fábulas, ou parábolas,

ou estórias, sejam lá o que forem. A Sorte mostrou-se menos

propícia, como vemos, para as frágeis mulheres, e mais avara

lhes foi de amparo. Em socorro e refúgio das que amam, é

que escrevo (pois, para as demais, são suficientes a agulha, o

fuso e a roca). O que escrevo são as coisas contadas, durante

dez dias, por um honrado grupo de sete mulheres e três

moços, na época em que a peste causava mortandade.

Ajuntam-se algumas cantigas das mulheres já mencionadas,

cantadas à sua vontade. Nas ditas novelas surgirão casos de

amor. Uns agradáveis, outros escabrosos, Serão registrados

outros eventos felizes, passados tanto nos tempos atuais,

como nos antigos.

As já referidas mulheres, que estas novelas lerem, poderão

obter prazer e útil conselho das coisas reconfortantes que as

narrativas mostram. Saberão aquilo de que é conveniente

fugir e, do mesmo modo, aquilo que deve ser seguido. Não

acredito que prazer, conselho e exemplo sejam obtidos sem

sofrer-se aborrecimentos. Se forem obtidos sem

aborrecimentos (e apraza a Deus que assim ocorra), aquelas

mulheres rendam graças ao Amor, que, por me libertar dos

próprios laços, permitiu que eu atendesse aos prazeres delas.

PAMPTNÉIA

Primeira Jornada

Principia a primeira jornada do Decamerão. Nela há,

em primeiro lugar, a demonstração que o autor faz da

razão pela qual as pessoas indicadas adiante estiveram

reunidas e juntas passaram a palestrar sob o reinado

de PAMPINÉIA. Em seguida, vem a palestra sobre o

que mais deleita a cada uma.

Inúmeras vezes, minhas adoráveis mulheres, pensando eu

com os meus botões, considero o quanto vocês são piedosas

por natureza. Conheço muitas mulheres para as quais, no

seu entender, esta obra terá um início triste e maçante.

Triste e aborrecida é a penosa lembrança da mortandade que

a peste causou há pouco tempo. A cada um, e a todos que a

viram, ou souberam dela, ela prejudicou. E é esta lembrança

que esta obra inscreve em seu proêmio. Não quero, porém,

que isto as assuste e induza-as a desistir de ler até mais para

frente, quase que entre suspiros e lágrimas, este proêmio.

Que este horrível começo não seja, para vocês, senão igual a

uma montanha inóspita e íngreme, para os viandantes; ao pé

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da montanha, suponha-se uma bela e encantadora planície;

esta será, aos seus olhos, tanto mais agradável quanto maior

tiver sido a aspereza da ascensão e da descida pelas encostas.

Como a dor se localiza no extremo oposto àquele em que se

acha a alegria, fica evidenciado que os sofrimentos terminam

quando se inicia a satisfação superveniente. A este breve

desgosto — digo breve porque pode ficar restrito a poucas

palavras — se seguem, com toda solicitude, a doçura e o

prazer. Isto é o que há pouco lhes prometi. Se não o tivesse

afirmado, tal prazer não seria quiçá aguardado, por via do

mencionado começo.

À bem da verdade, se eu, honestamente, pudesse levar

vocês ao que eu desejo, por uma via diferente, que não fosse

trabalhosa, como esta o é, tê-lo-ia feito. Contudo, qualquer

que seja a causa pela qual sucederam as coisas que se lerão

mais adiante, tal causa jamais poderá ser demonstrada sem

rememoração. Por esta razão é que me vejo quase forçado

pela necessidade a escrever a respeito dela.

Afirmo, portanto, que tínhamos atingido já o ano bem farto

da Encarnação do Filho de Deus, de 1348, quando, na mui

excelsa cidade de Florença, cuja beleza supera a de qualquer

outra da Itália, sobreveio a mortífera pestilência. Por

iniciativa dos corpos superiores, ou em razão de nossas

iniquidades, a peste, atirada sobre os homens por justa cólera

divina e para nossa exemplificação, tivera início nas regiões

orientais, há alguns anos. Tal praga ceifara, naquelas plagas,

ima enorme quantidade de pessoas vivas. Incansável, fora de

um lugar para outro; e estendera-se, de forma miserável,

para o Ocidente.

Na cidade de Florença, nenhuma prevenção foi válida, nem

valeu a pena qualquer providência dos homens. A praga, a

despeito de tudo, começou a mostrar, quase ao principiar a

primavera do ano referido, de modo horripilante e de

maneira milagrosa, os seus efeitos. A cidade ticou purificada

de muita sujeira, graças a funcionários que foram admitidos

para esse trabalho. A entrada nela de qualquer enfermo foi

proibida. Muitos conselhos foram divulgados para a

manutenção do bom estado sanitário. Pouco adiantaram as

súplicas humildes, feitas em número muito elevado, às vezes

por pessoas devotas isoladas, às vezes por procissões de

pessoas, alinhadas, e às vezes por outros modos dirigidas a

Deus.

A peste, em Florença, não teve o mesmo comportamento

que no Oriente. Neste, quando o sangue saía pelo nariz,

fosse de quem fosse, era sinal evidente de morte inevitável.

Em Florença, apareciam no começo, tanto em homens

como nas mulheres, ou na virilha ou na axila, algumas

inchações. Algumas destas cresciam como maçãs; outras,

como um ôvo; cresciam umas mais, outras menos; chamava-

as o populacho de bubões. Dessas duas referidas partes do

corpo logo o tal tumor mortal passava a repontar e a surgir

por toda parte. Em seguida, o aspecto da doença começou a

alterar-se; começou a colocar manchas de côr negra ou

lívidas nos enfermos. Tais manchas estavam nos braços, nas

coxas e em outros lugares do corpo. Em algumas pessoas, as

manchas apareciam grandes e esparsas; em outras, eram

pequenas e abundantes. E do mesmo modo como, a

princípio, o bubão fora e ainda era indício inevitável de

morte futura, também as manchas passaram a ser mortais,

depois, para os que as tinham instaladas.

Nem conselho de médico, nem virtude de mezinha alguma

parecia trazer cura ou proveito para o tratamento de tais

doenças. Ao contrário. Fosse porque a natureza da

enfermidade não aceitava nada disso, fosse que a ignorância

dos curandeiros não lhes indicasse de que ponto partir e, por

isso mesmo, não se dava o remédio adequado. Tornara-se

enorme a quantidade de curandeiros, assim como de

cientistas. Contavam-se entre eles homens e mulheres que

nunca haviam recebido uma lição de medicina. Assim como

era certo que poucos se curavam, também é certo que, ao

contrário desses, quase todos, após o terceiro dia do

surgimento dos sinais referidos acima, faleciam. Sucumbiam

uns mais cedo, outros mais tarde; a maioria ia-se para o

túmulo sem qualquer febre, nem outra complicação.

Esta peste foi de extrema violência; pois ela atirava-se contra

os sãos, a partir dos doentes, sempre que doentes e sãos

estivessem juntos. Ela agia assim de modo igual àquele pelo

qual procede o fogo: passa às coisas secas, ou untadas,

estando elas muito próximas dele. A enfermidade ainda fêz

mais. Não apenas o conversar e o cuidar de enfermos

contagiavam os sãos com esta doença, por causa da morte

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comum, porém mesmo o ato de mexer nas roupas, ou em

qualquer outra coisa que tivesse sido tocada, ou utilizada por

aqueles enfermos, parecia transferir, ao que bulisse, a doença

referida.

É de causar espanto o ouvir aquilo que preciso dizer. Não

fosse visto pelos olhos de muitos, assim como pelos meus,

aquilo que se passou, dificilmente me atreveria a acreditar

no que sucedera, e ainda menos a escrever, por mais

merecedora de fé a pessoa pela qual eu o ouvisse contar.

Garanto que foi de tal poder a peste mencionada, no

capricho de transferir-se de um a outro mortal, que não

passava apenas de homem para homem; muitas vezes

chegou a fazer, de modo visível, o que se diz mais à frente, e

que é muito mais: a coisa do homem doente, ou que

morrera de tal doença, quando tocada nor outro ser, animal,

fora da espécie do homem, não apenas o contaminava como

também o matava dentro de muito pouco tempo. Deste fato

tiveram os meus olhos (como há pouco se afirmou), certo

dia, entre outras vezes, a seguinte experiência: as vestes

rotas de um pobre sujeito, morto por essa doença, foram

jogadas à rua. Dois porcos, de início, segundo costumam

fazer, sacudiram-nas com o focinho, depois as seguraram

com os dentes, cada um deles esfregando-as na própria cara.

Apenas uma hora depois, após umas convulsões, como se

tivessem ingerido veneno, os dois porcos caíram mortos por

terra, sobre os trapos em tão má hora jogados à rua.

De tais circunstâncias e muitas outras idênticas a estas, ou

mesmo piores, nasciam muitos terrores e muitos lances de

imaginação, naqueles que ainda estavam vivos. E quase tudo

era dirigido para um fim bastante cruel: o de se ficar enojado

dos enfermos e de se fugir das suas coisas, e deles. Agindo

assim, cada um supunha estar garantindo a saúde para si

mesmo.

Pessoas havia que julgavam que o viver com moderação e o

evitar qualquer superfluidade muito ajudavam para se resistir

ao mal. Formando o seu grupo exclusivista, tais pessoas

viviam longe das demais. Recolhiam-se e trancavam-se em

casas onde nenhum doente estivera. Não procuravam viver

melhor. Moderadamente faziam uso de alimentos simples,

assim como de vinhos muito bons. Fugiam a qualquer ato de

luxúria. Não ficavam a palestrar com ninguém, nem queriam

ouvir falar de nenhum caso de morte, ou de doença,

daqueles que estavam do lado de fora da casa que habitavam.

Passavam as horas entretidos com a música e com os

prazeres que pudessem ter.

Outras pessoas, levadas a uma opinião diversa desta,

declaravam, que, para tão imenso mal, eram remédios

eficazes o beber abundantemente, o gozar com intensidade,

o ir cantando de uma parte a outra, o divertir-se de todas as

maneiras, o satisfazer o apetite fosse de que coisa fosse, e o

rir e troçar do que acontecesse, ou pudesse suceder. Como

diziam, assim procediam, do modo como lhes fosse possível,

dia e noite. Iam ora a uma tasca, ora a outra; bebiam

imoderadamente e sem modos. E com mais desbragamento

agiam na casa alheia, obrigando os donos a escutar o que

lhes desse na telha de dizer. E podiam agir assim sem

grandes preocupações, porque cada um — quase como se

não houvesse mais viver — já deixara ao léu as suas coisas,

assim como deixara ao deus-dará a própria pessoa. Por isso, a

maior parte das casas ficou sendo de moradia comum;

utilizava-se delas o estranho, que as adentrasse, como delas

teria feito uso o próprio dono. E, com este proceder

inteiramente bestial, as pessoas punham-se sempre longe

dos doentes, tanto quanto possível.

Entre tanta aflição e tanta miséria de nossa cidade, a

reverenda autoridade das leis, quer divinas, quer humanas,

desmoronara e dissolvera-se. Ministros e executores das leis,

tanto quanto os outros homens, todos estavam mortos, ou

doentes, ou haviam perdido os seus familiares, e assim não

podiam exercer nenhuma função. Em conseqüência de tal

situação, permitia-se a todos fazer aquilo que melhor lhes

aprouvesse.

Inúmeras pessoas preferiam o caminho do meio, entre os

dois acima assinalados. Não evitavam os bons acepipes,

como os primeiros, nem, igual aos segundos, entregavam-se

à bebida e a outras formas de dissolução. Ao contrário.

Usavam todas as coisas, com suficiência e moderadamente,

de acordo com o apetite. Não viviam fechados. Vagavam de

um lugar a outro, levando, uns, flores nas mãos, ervas

odoríferas outros, e outros, ainda, diferentes tipos de

especiarias; levavam as ervas ao nariz, considerando

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excelente coisa o confortar o cérebro com o seu rerfume.

Era como se todo o ar estivesse tomado e infectado pelo

odor nauseabundo dos corpos mortos, das doenças e dos

remédios.

Alguns faziam alarde de sentimento mais cruel (como se,

porventura, tal sentimento fosse o mais seguro), e diziam

que não havia remédio melhor, nem tão eficaz, contra as

pestilencias, do que abandonar o lugar onde se

encontravam, antes que essas pestilencias ali surgissem.

Induzidos por essa forma de pensar, não se importando fosse

com o que fosse, a não ser com eles mesmos, inúmeros

homens e mulheres deixaram a própria cidade, as próprias

moradias, os seus lugares, seus parentes e suas coisas, e

foram em busca daquilo que a outrem pertencia, ou, pelo

menos, que era de seu condado. Para eles, era como se a

cólera de Deus estivesse destinada não a castigar a iniqüidade

dos homens com aquela peste, onde eles estivessem, e sim a

oprimir, comovido, somente os que teimassem em ficar

dentro dos muros de sua cidade. Ou como se essa cólera

fosse apenas um aviso para que ninguém permanecesse em

determinada cidade, por ter chegado a hora derradeira dessa

mesma cidade. Como, de tais opinadores, nem todos

morriam, e que, assim sendo, nem todos continuavam a

viver, muitos sujeitos, de cada cidade, e em toda parte,

caíam enfermos e, quase abandonados à própria sorte,

definhavam inteiramente. Eles mesmos, quando estavam

sãos, deram exemplo aos que continuavam sadios, para que

fugissem daqueles que tombavam sob as garras do mal.

Vamos pôr de lado a circunstância de um cidadão ter

repugnância de outro; de quase nenhum vizinho socorrer o

outro; de os parentes, juntos, pouquíssimas vezes ou jamais

se visitarem, e, quando faziam visita um ao outro, ainda

assim só o fazerem de longe. Tal inquietação entrara, com

tanto estardalhaço, no peito dos homens e das mulheres,

que um irmão deixava o outro; o tio deixava o sobrinho; a

irmã, a irmã; e, freqüentemente, a esposa abandonava o

marido. Pais e mães sentiam-se enojados em visitar e prestar

ajuda aos filhos, como se o não foram (e esta é a coisa pior,

difícil de se crer).

Em decorrência de tais condições, àqueles para os quais a

multidão era inestimável, aos homens e mulheres que

ficavam doentes, não restava outro recurso senão a caridade

dos amigos (e destes poucos restavam), ou da avareza dos

empregados domésticos. A estes eram pagos fabulosos

salários, e tinham tratamento superior ao devido, ainda que,

apesar disto, muitos patrões não enfermassem. Grande parte

dos patrões era formada por homens e mulheres de elevado

talento, e a maioria desses serviços não era usada. Os

empregados quase não serviam para outra coisa senão

apresentar ?.lgo que fosse pedido pelos doentes, ou para os

fitar, quando eles faleciam. Quando prestavam esses

serviços, freqüentemente eles mesmos se perdiam, junto

com o ganho alcançado.

Pelo fato de serem os enfermos abandonados pelos vizinhos,

pelos parentes e amigos, tanto quanto pela circunstância de

escassearem os criados, apareceu um hábito talvez nunca

praticado antes. O hábito foi que nenhuma mulher, por mais

pudica, bela ou nobre que fosse, se sentia incomodada por

ter a seu serviço, caso adoecesse, um homem, ainda que

desconhecido; não importava que tipo fosse de homem,

jovem ou não. A ele, sem nenhum pudor, ela mostrava

qualquer parte do próprio corpo, do mesmo modo que o

exporia a outra mulher, quando a necessidade de sua

enfermidade o exigisse. Para as mulheres que escaparam

com vida, isto foi, quiçá, motivo de deslizes e de desonesti-

dades, no período que se seguiu à peste.

Além disto, sobreveio a morte de inúmeras pessoas, que,

certamente, se tivessem merecido ajuda, teriam sobrevivido.

Em decorrência da escassez de serviços no momento azado,

que os doentes precisavam mas não alcançavam, e também

em vista da violência da peste, era tão grande o número dos

que faleciam, de dia e de noite, na cidade, que provocava

estupefação escutar, e ainda mais ver, o que ocorria. Porque

por força das circunstâncias, muitas coisas, que contrariavam

os costumes básicos de qualquer cidadão, começaram a

existir entre os que permaneciam vivos.

Costumava-se (como ainda hoje o vemos) reunirem-se as

mulheres, parentes e vizinhas na residência do que morria.

Ali, em companhia das mulheres mais aparentadas ao

defunto, elas choravam. De outro lado, diante da casa do

morto, vizinhos e inúmeros cidadãos reuniam-se com os

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seus achegados; de acordo com a categoria do morto,

apresentava-se o padre. Desse modo, o falecido era

conduzido à igreja que escolhera momentos antes de

morrer. Os seus pares levavam-no aos ombros, com pompa

fúnebre, de velas e de cantos. Tais cerimônias quase se

extinguiram, no todo ou parcialmente, quando principiou a

crescer o furor da peste. E muitas novidades vieram

substituí-las. Não apenas faleciam as pessoas sem que

houvesse grande número de mulheres à volta, como

também eram incontáveis as que partiam desta vida sem

nenhuma testemunha. Eram em número reduzidíssimo

aqueles aos quais eram concedidos os prantos piedosos e as

lágrimas sentidas de seus próprios parentes. Em vez de

prantos e de lágrimas, passaram a usar-se, para a maior parte,

os risos, as pilhérias, e as festas em boa parceria. Tal costume

foi, gostosamente, aceito pelas mulheres, na sua maioria,

após terem elas postergado a piedade feminina; e afirmavam

que o faziam para salvação da alma dos que haviam partido.

Fazia-se raro o caso daqueles cujos corpos tinham, indo para

a igreja, o cortejo de dez ou doze de seus vizinhos. O féretro

destes era carregado não por honrados e prestimosos

cidadãos, porém por uma espécie de padioleiros, que se

originaram da gente mais humilde, que recebiam o título de

coveiros, e que apenas usavam seus préstimos por um preço

combinado com antecedência. Tais padioleiros carregavam

os caixões, a passos apressados, não à igreja que os defuntos

haviam escolhido antes do passamento, porém, com

freqüência, ao templo mais próximo. Os padioleiros

caminhavam atrás de quatro ou de cinco clérigos, com raras

velas; as mais das vezes iam mesmo sem nenhum clérigo.

Estes, quando os havia, não perdiam muito fôlego em seus

ofícios solenes; ajudados pelos tais coveiros, depositavam os

caixões, de preferência, na primeira cova vazia que

encontravam.

O tratamento dado às pessoas mais pobres, e à maioria da

gente da classe média, era ainda de maior miséria. Em sua

maioria, tal gente era retida nas próprias casas, ou por

esperança, ou por pobreza. Ficando, deste modo, nas

proximidades dos doentes e dos mortos, os que sobreviviam

ficavam doentes aos milhares por dia; como não eram

medicados, nem recebiam ajuda de espécie alguma, morriam

todos quase sem redenção. Muitos eram os que findavam

seus dias na rua, de dia ou de noite. Inúmeros outros,

mesmo morrendo em suas residências, levavam os seus

vizinhos a não se manifestarem, mais por causa do mau

cheiro dos próprios corpos em decomposição, do que por

outro motivo. De pessoas assim e de outras, que faleciam em

toda parte, as casas estavam cheias.

Um modo único de proceder, o mesmo sempre, era

praticado pela maioria dos vizinhos. Procediam estes levados

não menos pelo terror de que fossem afetados pela

corrupção dos corpos, do que pela caridade que

alimentavam quanto aos falecidos. Sós, ou auxiliados por

alguns portadores, quando logravam achá-los, retiravam das

residências os cadáveres; colocavam os corpos à frente da

porta da casa, onde, sobretudo na parte da manhã, eram

vistos em quantidade inumerável pelos que perambulavam

pela cidade e que, vendo-os, adotavam medidas para o

preparo e remessa dos caixões.

Tão grande era o número de mortos que, escasseando os

caixões, os cadáveres eram postos em cima de simples

tábuas. Não foi um só o caixão a receber dois ou três mortos

simultaneamente. Também não sucedeu uma vez apenas

que esposa e marido, ou dois e três irmãos, ou pai e filho,

foram encerrados no mesmo féretro. Muitíssimos destes

fatos poderiam ter sido narrados. E infinitas vezes se viu

que, indo dois clérigos, com uma cruz, por alguém, atrás do

primeiro se colocarem três ou quatro caixões, carregados por

seus respectivos portadores; assim sendo, onde supunham os

padres ter um morto para enterrar, havia sete ou oito; com

freqüência, até mais. Tais mortos excedentes eram, por esta

razão, homenageados com alguma lágrima, às vezes, ou

alguma vela, ou alguma companhia.

A tal estado chegou a coisa, que não mais se tratava, quanto

aos homens que morriam, com mais carinho do que se trata

agora das cabras. Porque, com clara evidência pareceu ter de

se passar, pacientemente, pelo que o curso natural dos

eventos não conseguira mostrar, aos mais cultos, com

prejuízos pequenos e esquisitos. Geralmente, a grandeza de

um mal costuma transmudar os simples, ao que parece, em

peritos e negligentes.

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Para dar sepultura à grande quantidade de corpos que se

encaminhava a qualquer igreja, todos os dias, quase a toda

hora, não era suficiente a terra já sagrada; e menos ainda

seria suficiente se se desejasse dar a cada corpo um lugar

próprio, conforme o antigo costume. Por isso, passaram-se a

edificar igrejas nos cemitérios, pois todos os lugares estavam

repletos, ainda que alguns fossem muito grandes; punham-se

nessas igrejas, às centenas, os cadáveres que iam chegando; e

eles eram empilhados como as mercadorias nos navios; cada

caixão era coberto, no fundo da sepultura, com pouca terra;

sobre ele, outro era posto, o qual, por sua vez, era recoberto,

até que se atingisse a boca da cova, ao rés do chão. E, para

que não se remexa em cada minúcia de nossas antigas

misérias, acontecidas no interior da cidade, afirmo que,

mesmo tendo um período adverso passado por ela, nem por

isso deixou a peste de poupar algo ao condado.

No condado — vamos pôr de parte os castelos, que, em sua

pequenez, eram parecidos às cidades —, os operários,

míseros e pobres, faleciam. Tombavam sem vida, pelas vilas

isoladas e pelos campos, com suas famílias, sem nenhuma

ajuda de médico, nem auxílio de servidor; faleciam não

como homens, e sim como animais, nas ruas, nas planta-

ções, nas casas, dia e noite, ao deus-dará. Em decorrência

disto, os trabalhadores do campo, conturbados em seus

hábitos e parecendo transformados em moradores lascivos

da cidade, não se importavam com nada, nem desejavam

fazer coisa alguma. Como se aguardassem o dia em que

seriam levados pela morte, todos se esforçavam, diligente-

mente, ao máximo, não em auxiliar a produção dos frutos

futuros dos animais e das terras, assim como das antigas

canseiras, mas sim em dar cabo dos frutos que estavam à

mão. Sucedeu, pois, que os bois, os muares, as ovelhas, as

cabras, os porcos, as galinhas, e mesmo os cachorros, tão

fiéis sempre aos homens, passaram a perambular pelos

campos, indiferentemente, por se verem expulsos da

moradia de seus donos. As forragens, deixadas ao abandono

nos campos, não apenas não tinham sido apanhadas, como

nem sequer foram cortadas. Muitos animais, parecidos a

seres pensantes, engordavam, pois pastavam bem no

decorrer do dia, passavam a noite em suas casas, e não

sofriam restrições da parte de nenhum pastor.

O que se poderá dizer ainda — pondo-se de parte o

condado, para se tornar a tratar da cidade —, a não ser que a

crueza do céu foi de tal monta e tanta, e quiçá também o

tenha sido, em parte, a crueldade dos homens, que, no

período que vai de março a julho, mais de 100.000 pessoas é

certo que foram arrebatadas da vida, no circuito dos muros

da cidade de Florença? Nesse número estão incluídos tanto

aqueles que foram levados pela força da pestífera doença,

como aqueles que, doentes, foram mal atendidos, ou

abandonados às contingências, em razão do medo que os

sãos alimentavam.

Antes que sobreviesse este mortal evento, ninguém suporia

existir tanta gente dentro da cidade. Quantos vastos palácios,

quantas casas magníficas, quantas residências nobres, antes

cheias de famílias, de senhores e de senhoras, ficaram vagos,

perdendo até o derradeiro serviçal! Quantas linhagens

memoráveis, quantas heranças importantes, quantas riquezas

famosas foram despojadas de sucessor legítimo! Quantos

valorosos homens, quantas mulheres belíssimas, quantos

galantes moços — que Galeno teria considerado mais do que

sadios, assim como Hipócrates, Esculápio e outros —

tomaram o seu almoço de manhã com os seus parentes,

colegas, amigos, e, em seguida, na tarde desse mesmo dia,

jantaram no outro mundo, em companhia de seus

antepassados!

A mim mesmo desgosta-me o ato de tanto me revolver em

miséria tanta. Querendo, contudo, neste instante, deixar de

lado a parte dessas misérias, que, com decoro, posso

abandonar, afirmo que, nestes termos, a nossa cidade estava

quase vazia de moradores. E sucedeu (como ouvi depois, de

pessoa merecedora de fé) que, na venerável Igreja de Santa

Maria Novela, em dia de terça-feira, na parte da manhã,

acharam-se sete jovens mulheres. Quase ninguém mais

estava no templo. Tinham elas terminado de ouvir, vestidas

com roupas lúgubres, como era indicado para aqueles

tempos, os ofícios religiosos. Estavam todas ligadas umas às

outras, seja por amizade, seja por vizinhança ou por

parentesco. Nenhuma delas passara o vigésimo oitavo ano de

idade, nem era menor de dezoito. Eram todas bem

comportadas e de sangue nobre; bonitas de formas,

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costumes prendados, e de comportamento honesto.

Eu daria a conhecer, na forma devida, os seus nomes, se um

motivo justo não me obstasse de o fazer. O motivo é este:

não desejo que, pelas coisas que se vão seguir, e que por elas

foram narradas, ou ouvidas, alguma delas deva, no futuro,

envergonhar-se. Hoje, são limitadas as leis sobre o prazer;

naquele tempo, pelos motivos antes apontados, tais leis eram

extremamente liberais, seja para a idade delas, seja para

idades muito mais maduras; não quero, igualmente, dar

motivo para que os invejosos, prestes a difamar toda

existência digna de elogios, diminuam, em qualquer aspecto,

com maledicência, a honestidade das dignas mulheres.

Assim sendo, para poder-se compreender, sem confusão, o

que cada uma disse, quero nomeá-las, mais adiante, com

nomes fictícios, contudo apropriados, no todo ou

parcialmente, às qualidades de cada uma.

À primeira delas, a mais idosa, denominaremos

PAMPINÉIA; à segunda, FIAMMETTA; FILOMENA, à

terceira; à quarta, EMÍLIA; designaremos depois por

LAURINHA a quinta; a sexta, por NEfFILE; e à última, com

razão, chamaremos ELISA.

Agrupadas ali, não por prévia combinação, mas por acaso,

em uma das dependências da igreja, sentaram-se formando

quase um círculo. Após inúmeros suspiros, e finda a

recitação dos padres-nossos, entabularam conversa entre si,

a respeito das condições do tempo e outras coisas. Depois de

certo intervalo, vendo calarem-se as demais, Pampinéia

principiou a falar assim:

— Minhas caras mulheres, podem vocês ter ouvido afirmar,

como eu, que a pessoa que usa honestamente o seu direito

não causa prejuízo a ninguém. Direito natural de todo ser

nascido é o de auxiliar a sua própria existência; de mantê-la e

de defendê-la tanto quanto possível. Isto se reconhece.

Tanto é certo que, por vezes, já sucedeu que, para conservar

a existência, muitos homens se mataram sem nenhuma

culpa. As leis reconhecem isto, e na sua observância está o

viver honrado de qualquer mortal. Com justiça maior, e sem

ofender a quem quer que seja, cabe-nos, a nós, assim como a

quaisquer outras pessoas honestas, o direito de adotarmos as

providências que estiverem ao nosso alcance para a

preservação de nossa existência. Sempre que reflito bem a

respeito de nossos modos desta manhã, assim como sobre os

de outras manhãs já decorridas — sempre que medito em

quantas é quais são as nossas trocas de idéias —, percebo,

tanto quanto vocês poderão perceber, que cada uma de nós

tem dúvidas a respeito de si mesma. Não me causa isto

admiração. Contudo, fico admirada, e muito — certa que

estou de que cada uma de nós possui sentimentos femininos

—, de que não recebamos para nós nenhuma recompensa

pelo que cada uma de nós receia, e com razão.

Permanecemos aqui — segundo parece — como se

desejássemos, ou quiséssemos, testemunhar o número de

corpos sem vida que são levados à cova, ou que os frades

daqui de dentro (cujo número decresceu a quase nada)

entoem o seu ofício nas horas apropriadas. Ou, então, como

se desejássemos mostrar, pelas nossas vestes, a quem quer

que nos surja à frente, as condições e a quantidade de nossas

misérias. Se deixarmos este recinto, em toda parte veremos

corpos mortos, ou doentes, no ato de serem levados; ou,

então, estaremos diante daqueles que, pelos seus desmandos,

já foram condenados ao exílio pela autoridade das leis

públicas; essas pessoas, parecendo ridicularizar as leis,

porque sabem que aqueles que as executavam estão mortos,

ou enfermos, perambulam pela nossa região, praticando os

seus impulsos mais desagradáveis; ou, mesmo, toparemos

com a ralé de nossa cidade; os elementos que a compõem,

transtornados pelo nosso sangue, a si mesmos chamam-se

coveiros; cavalgam e correm por todo lado, para nossa

aflição; e fazem censura às nossas dores com suas canções

desonestas. Não escutamos outra notícia senão que "Fulanos

e fulanos faleceram" e "Sicranos e sicranos estão à porta da morte". Ouviríamos prantos em toda parte, se existissem

pessoas que chorassem. Se retorno à minha casa, fico

apavorada de não achar, nela, nenhuma outra pessoa de

minha numerosa família, a não ser a minha aia. (Ignoro se

ocorre com vocês o mesmo que se passa comigo.) Mesmo

agora, sinto que quase todos os meus cabelos se arrepiam.

Para qualquer lado que eu vá, ou me demore, em casa, é

como se vivesse a sombra dos que se foram; elas dão-me

susto, não com as faces que eu conheci, porém com outros

rostos, horríveis, que ignoro de onde venham. Por essas

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razões, parece-me incômodo permanecer por aqui, fora,

daqui, ou mesmo em casa. E parece-me tanto mais

incômodo, quanto mais se me afigura que nenhuma pessoa,

dentre aquelas que tenham alguma coragem e para onde se

dirigir, como nós temos, tenha ficado por aqui além de nós

mesmas. Ouvi contar e fiquei sabendo, mais de uma vez,

que essas pessoas (considerando-se que existam algumas),

sem fazer qualquer distinção entre os atos honestos e os que

não o sejam, visto que apenas se orientam pelas exigências

do próprio apetite, fazem, seja quando estão sozinhas, seja

acompanhadas, de dia e de noite, somente as coisas que mais

prazeres lhes dão. Não apenas as pessoas livres, assim como

as que estão encerradas em conventos, deixam entender que

isso lhes é conveniente, e apenas causa desdouro às demais.

Assim sendo, pecam contra as leis da obediência e

entregam-se a prazeres carnais. Agindo desta maneira, elas

admitem que adquirem condições para a sobrevivência.

Fazem-se lascivas e dissolutas. Sendo assim (e que assim é

está-se vendo claramente), que estamos fazendo aqui? O que

esperamos? O que estamos sonhando? Por que razão somos

mais indolentes e morosas do que todos os demais cidadãos

que restam, ao defender a nossa saúde? Será que nos

julgamos menos queridas do que todas as demais? Ou será

que consideramos que nossa existência está presa ao nosso

corpo com prisões mais fortes do que a dos outros nos

corpos deles e que, sendo assim, não temos que nos

preocupar com nada, mesmo que algo tenha força para a

destruir? Estamos erradas. Nós nos enganamos. Que

estupidez a nossa, se cremos que é assim! Sempre que

quisermos lembrar quantos e quais foram as moças e os

rapazes que caíram com esta cruel peste, acharemos ótimos

argumentos a nosso favor. Por isto, e a fim de que nós, por

nojo ou negligência, não venhamos a cair naquilo de que

poderemos escapar, de uma maneira ou de outra, se o

quisermos, acho excelente a idéia de deixarmos esta terra,

assim mesmo como nos achamos, e do mesmo modo como

muitas outras o fizeram, antes de nós, ou estão fazendo.

Ignoro se a vocês parece o que se afigura a mim. Escapando

aos exemplos desonestos dos demais, como se foge da

morte, vamos honestamente instalar-nos em nossos lugares,

nas cercanias da cidade, onde, para cada uma, existe em

abundância tudo que possa ser indispensável. Teremos ali

aquele divertimento, aquela alegria, aquela satisfação que

pudermos obter, sem ir além, em nenhum ato, dos limites

da razão. Ouvem-se ali os passarinhos cantando; vê-se

espalhar o verde pelas colinas e planícies; contemplam-se os

campos, plantados de cereais, que ondulam da mesma

maneira que o mar o faz; ali há árvores de mil formas; vê-se

o céu mais abertamente; mesmo enfurecido ainda, o céu

nem por isso nos nega as suas belezas eternas; tais belezas

são muito mais merecedoras de contemplação do que os

muros despidos de nossa urbe. Além disso, ali o ar é muito

mais agradável; existe lá maior quantidade das coisas

necessárias à existência, nestes tempos: e o número de

aborrecimentos é muito menor. Pois que, ainda que lá

também faleçam os trabalhadores do campo, como morrem

aqui os moradores da cidade, tanto menor é o desprazer ali,

quanto mais raro são, do que na cidade, as casas e seus

moradores. Por outro lado, não estaremos abandonando, ao

que vejo, nenhuma pessoa por aqui. Pelo contrário.

Podemos afirmar, com verdade, que nós é que fomos

abandonadas. Pois os nossos, ou por terem morrido, ou por

terem escapado à morte, nos deixaram sozinhas, e em tão

grande aflição, como se deles não fôssemos. Não pode haver

nenhuma censura ao ato de se seguir o meu conselho. Não o

seguindo, poderão sobrevir-nos dor, aborrecimento e, quiçá,

a morte. Assim sendo, quando melhor parecer a vocês,

tomará cada uma a sua aia; faremos com que nos sigam as

coisas mais indispensáveis. Hoje, iremos a este sítio;

amanhã, àquele; desfrutaremos a alegria e a festa que êsíe

tempo puder propiciar-nos; julgo que será prudente ter o

que fazer. Ficaremos em tal estado o tempo suficiente para

constatarmos (se não formos antes atingidas pela morte) que

fim o céu reservará a estas circunstâncias. Lembro-lhes que

o ato de nos afastarmos honestamente desta cidade não nos

traz nenhum desdouro mais do que à maioria das demais

mulheres o de aqui ficarem desonestamente.

As demais mulheres da companhia, após escutarem

Pampinéia, não apenas teceram elogios ao conselho que lhes

dava, como também informaram que, ansiosas por segui-lo,

já tinham começado a tratar entre elas, com mais

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pormenores, do modo de o fazer; era como se, elevando-se

da posição de sentadas, uma a uma, todas tivessem de pôr-se

imediatamente a caminho. Filomena, contudo, que era por

demais discreta, exclamou:

— Moças, ainda que tenha sido dito, de modo ótimo, o que

Pampinéia pensa, nem assim é caso de a gente pôr-se a

correr, como parece ser o desejo de vocês. Recordo-lhes

que somos todas mulheres. Nenhuma mulher há tão tola,

que não saiba bem como as mulheres, quando se juntam, são

pouco providas de juízo, e mal sabem governar-se sem o

auxílio de algum homem. Somos volúveis, briguentas,

desconfiadas, covardes e cheias de medo; por esta razão, se

não contarmos com outra orientação, mais do que a nossa,

duvido muito que nosso grupo deixe de dissolver-se logo,

com menos honra para nós do que fora justo. Em

decorrência disto, é de boa prudência providenciar, antes de

principiar seja lá o que for.

Elisa, então, disse:

— Realmente, são os homens a cabeça das mulheres; sem a

ordem deles, raramente chega alguma obra nossa a um fim

digno de elogio. De que modo, entretanto, poderemos ter

esses homens? Sabe, cada uma de nós, que a maior parte dos

seus está morta. Os demais, que ainda vivem, alguns aqui,

outros ali, em vários grupos, vão fugindo, sem que saibamos

para onde, da mesma coisa de que também procuramos

fugir. Além disso, não seria recomendável suplicarmos a

estranhos. Sendo assim, portanto, se desejarmos correr à

procura de nossa salvação, será conveniente que achemos a

maneira de nos preparar de forma tal que não sobrevenha o

tédio, nem apareça escândalo, no lugar para onde nos

dirigirmos, por falta de outro, e mesmo para o nosso

descanso.

Desenrolando-se ainda estas palestras entre as mulheres, eis

que entraram três moços na igreja. Não eram assim tão

jovens a ponto de que o mais jovem deles tivesse menos de

25 anos. Neles, os estragos do tempo, a perda dos amigos, a

morte dos parentes, o temor de si mesmos, não tinham

podido, não digo já apagar, mas sequer esfriar, os impulsos

do amor. Dos moços, chamava-se um PÂNFILO;

FILÓSTRATO era o segundo; e DIONÉIO, o último. Era,

cada um deles, agradável e bem educado; os três

procuravam, para seu derradeiro refrigério, em meio a tal

transtorno de todas as coisas, as suas respectivas amadas; por

acaso, estavam as três entre as sete já indicadas. Como eram

algumas pertencentes à mesma família de outras, essas eram

parentes de um ou de outro dos rapazes. Foram eles vistos

pelas mulheres, antes que os olhos deles recaíssem sobre

elas. Por este motivo, Pampinéia começou então a falar,

entre sorrisos:

— Vocês bem vêem que a boa sorte é propícia aos nossos

desígnios. Tanto isto é certo que ela pôs, à nossa frente,

moços discretos e cheios de valor, que serão, de boa

vontade, nossos guias e servidores nossos, se não acharmos

inconveniente em que os tomemos para essa finalidade.

Neífile, então, o rosto inteiramente ruborizado de pudor,

pois que era uma das amadas por um dos moços recém-

chegados, preveniu:

— Pampinéia, por Deus! Preste atenção naquilo que está

dizendo! Não conheço nenhuma coisa que não seja boa e

que se não possa expressar francamente, a respeito de

qualquer um destes moços. Considero-os capazes de proezas

ainda mais altas do que esta. Igualmente, esclareço que eles

farão boa e honesta companhia, não apenas a nós, porém da

mesma forma a mulheres mais lindas e mais queridas do que

o somos. Contudo, como é fato notório e evidente que eles

estão apaixonados por algumas das que se acham aqui, temo

que, levando-os conosco, advenham infâmia e censura, sem

culpa nossa, nem deles. Então, Filomena expendeu seu

argumento:

— Isto não vem ao caso. Em qualquer parte em que eu

esteja vivendo com honestidade, sem que nada me pese na

consciência, fale quem quiser o contrário. Deus e a verdade

terçarão armas por mim. Oxalá eles estivessem já dispostos a

marchar conosco! Se assim fosse, aí sim poderíamos afirmar

que, realmente, a Sorte é favorável à nossa viagem.

Ouvindo as outras que Filomena assim argumentava, não

somente se calaram como também, por unânime consenso,

concordaram em que deviam os moços ser chamados para a

sua companhia; em que se deveria revelar-lhes a intenção

delas; e em que se deveriam rogar-lhes que fizessem o favor

de consentir em servir-lhes de companhia na tal fuga para

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fora da cidade.

Por isso, sem mais delongas, Pampinéia ergueu-se; era

aparentada com algum deles, por consangüinidade; e foi em

direção dos moços, os quais estavam parados, já agora

olhando para todas, de longe. Após saudá-los, com

fisionomia alegre, Pampinéia contou-lhes as intenções que

tinham, ela e as suas companheiras. Rogou-lhes, falando em

nome de todas, que se dispusessem a acompanhá-las, com

espírito de fraternidade.

A princípio, julgaram os rapazes que elas estavam fazendo

troça deles; porém, quando notaram que a mulher falava

seriamente, retrucaram, com prazer, que estavam prontos

para o que elas queriam. Sem delongas, e a fim de que elas

de imediato se afastassem dali, eles ordenaram tudo quanto

era necessário para a partida. Todas as coisas de que se tinha

mister foram preparadas, com método, e remetidas, com

antecedência, ao local para onde todos tencionavam ir.

Na manhã seguinte, isto é, na quarta-feira, assim que raiou o

dia, as mulheres, seguidas por algumas de suas criadas, e os

três homens, com outros três de seus fâmulos, deixaram a

cidade, pondo-se a caminho. Apenas se tinham afastado 2

curtas milhas e logo se encontraram no local previamente

avisado de sua ida. O tal lugar ficava numa pouco alta

montanha, bem afastada, por todos os lados, das estradas.

Vários tipos de árvores e de arbustos enfeitavam a região,

com suas frondes verdes, muito agradáveis à vista. No alto da

montanha, existia um palácio, com um pátio amplo e belo

no centro. O palácio era dotado de balcões, salas e quartos;

cada dependência, por si mesma, era muito linda, decorada

com pinturas valiosas. Em volta do palácio, pequenos

prados, enormes jardins de maravilhosa vista, e poços de

água muito fresca. No palácio, vinhos preciosos eram

guardados em adegas de arcadas. Isto era mais indicado a

bebedores curiosos do que a mulheres sóbrias e recatadas.

Tudo, ali, fora varrido. Nos quartos, as camas estavam

arrumadas. Nos vasos, havia as flores que, naquela quadra do

ano, se puderam conseguir; e as flores foram sustentadas

com juncos. Tudo isto foi achado pronto pelos visitantes.

Quando todos estavam já sentados na primeira sala, Dionéio,

moço muito agradável e mais espirituoso do que se poderia

supor, disse:

— Mulheres, o bom senso de vocês, mais do que nossa

cautela, foi o que guiou nossos passos até aqui. Ignoro o que

vocês desejam fazer, a respeito de suas preocupações. No

que diz respeito às que eu tinha, abandonei-as à porta da

cidade, há pouco, quando saí de lá na companhia de vocês.

Por esta razão, ou vocês se dispõem a aliviar o espírito, a rir

e a cantar, comigo (certamente, na medida que se coadune

com a sua dignidade), ou me permitirão regressar às

preocupações, continuando a viver na cidade atribulada.

Como se também tivesse afastado do seu espírito qualquer

preocupação pessoal, Pampinéia retrucou a isto, com

evidente satisfação:

— Dionéio, você falou com muita propriedade. É

necessário, aqui, viver festivamente. Não foi outra a razão

que nos levou a abandonar as tristezas. Contudo, é evidente

que as iniciativas sem fim determinado não podem ser

duradouras. Eu, que iniciei as conversações das quais

resultou este grupo tão agradável, penso no prosseguimento

do nosso prazer. Acho necessário convir que haja um chefe.

Um chefe que honraremos, ao qual prestaremos obediência,

como nosso guia. Todas as preocupações ficarão para ele,

quanto ao preparar tudo para que possamos viver com

prazer. É necessário que cada um por sua vez experimente o

peso das exigências e o carinho do agrado da maioria.

Aquele que não os experimentar, e não for levado, por essas

preocupações, de um lado para outro, não poderá mostrar-se

ressentido. Desse modo, fiquem as responsabilidades e as

honras a cada um de nós, cada um por sua vez, durante um

dia. O primeiro chefe sairá da escolha que todos nós

fizermos. Para os que vierem depois, o processo de escolha

será o seguinte: quando se vier aproximando a hora do

surgimento de Vênus, no céu, à tarde, o chefe será, à vez de

cada um, escolhido por aquele, ou aquela, que estiver

comandando durante o dia. O escolhido dirá, à sua vontade,

o tempo que a sua chefia durará; igualmente, indicará o lugar

e o modo como deveremos viver, dando, a esse respeito, as

suas ordens, e tomando as suas providências.

Tais palavras causaram excelente impressão; e, de modo

unânime, o grupo escolheu Pampinéia como o chefe do

primeiro dia. Filomena correu a um loureiro. Ouvira com

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freqüência dizer da honra que se emprestava às folhas

daquela planta, e como tais folhas honravam o ser que fosse

por elas, com merecimento, coroado. Apanhou alguns

ramos da árvore; com eles, elaborou uma grinalda, simbólica

e de grande efeito. Tal grinalda, colocada à cabeça, foi então,

pelo tempo que durou o grupo, sinal evidente, para um e

para todos, da real senhoria, assim • como da escolha da

maioria.

Eleita rainha, Pampinéia chamou à sua presença os criados

dos três homens, assim como as criadas das mulheres, que

eram quatro. Mandou que os homens ficassem calados. E,

assim que obteve o silêncio de todos, disse:

— Primeiramente, quero dar o exemplo a vocês todos. Por

esse exemplo, e agindo de modo cada vez melhor, o nosso

grupo poderá viver, ordeiramente, sem precisar

envergonhar-se de si mesmo, durante quanto tempo desejar.

Sendo assim, eu, inicialmente, constituo PARMENO, criado

de Dionéio, o meu mordomo. Dou-lhe o cuidado e a

responsabilidade por toda esta nossa família. Em relação ao

serviço da sala, desejo que SIR1SCO, criado de Pânfilo, seja

pagador e tesoureiro, obedecendo às ordens de Parmeno.

TÍNDARO, que está a serviço de Filóstrato e dos outros dois,

dará assistência nos quartos deles, sempre que os outros

criados, por acaso impedidos de desempenhar as suas

funções, não o puderem fazer. MISIA, minha criada, e

LICISCA, que o é de Filomena, ficarão com os encargos da

cozinha; executarão, com diligência, os pratos que Parmeno

lhes mandar. Quero que QUIMERA, criada de Laurinha, e

STRATILIA, criada de Fiammetta, fiquem com a governança

dos quartos das mulheres, assim como com o asseio dos

locais onde estivermos. Ordeno, a cada qual e a todos em

geral, pelo que possam desejar honrar a nossa graça, que

tomem cuidado para que, dos lugares para onde forem e de

onde regressarem, assim como daquilo que escutarem ou

virem, não nos tragam nenhuma nova que não seja

agradável.

Dadas todas estas ordens, resumidamente, as quais foram do

agrado de todos, Pampinéia, contente, ergueu-se e disse:

— Aqui há jardim; aqui existem prados; aqui se vêem outros

lugares, muito agradáveis todos; distraindo-se do modo que

melhor lhe agrade, cada um pode passear por eles. Quando

soe a hora terceira, todos voltem para a refeição ao ar livre.

O grupo obteve, da nova rainha, ordem de se dispersar. A

passos lentos, os rapazes, em palestra com as moças, a

respeito de coisas agradáveis, penetraram num jardim.

Teceram lindas grinaldas de ramos de árvores diferentes.

Entoaram canções de amor. Após gastarem nisto todo o

tempo que lhes fora permitido pela rainha, retornaram à

casa. E ali notaram que Parmeno dera, com muito zelo,

início ao exercício de suas funções. Efetivamente,

penetrando numa sala térrea, acharam ali as mesas postas,

com limpíssimas toalhas e copos que pareciam de prata. Por

toda parte, flores de giesta. Lavadas as mãos com água, como

ordenou a rainha, conforme a orientação de Parmeno,

sentaram-se todos às mesas. Preparados finalmente, os

pratos foram servidos; vinhos de excelente qualidade foram

distribuídos. Os três criados, em silêncio, serviram os

comensais. Tais coisas, belas e ordenadas que eram,

proporcionaram alegria a todos; e comeram, em meio a

frases espirituosas e a ar festivo.

Ao deixarem as mesas, mandou a rainha que viessem os

instrumentos musicais. (Foi como se as mulheres todas

soubessem dançar, e também os homens o soubessem, além

de alguns, dentre eles, saberem tocar e cantar

primorosamente.) Obedecendo às ordens da rainha, Dionéio

tomou de um alaúde; Fiammetta, de um violão; e ambos

principiaram, com suavidade, a desenvolver o tema de uma

dança.

Pampinéia ordenou que os criados fossem comer. Depois,

com as demais mulheres e os dois moços, ela começou um

bailado, a passo lento. Terminado o bailado, começaram

todos a cantar canções dolentes e suaves.

Deste modo ficaram tanto tempo entretidos que, finalmente,

pareceu à rainha ser hora de se ir para a cama. Assim que

todos tiveram permissão para isso, os três homens

encaminharam-se para seus respectivos quartos, afastados

dos aposentos das mulheres. Acharam-nos tão repletos de

flores como a sala; assim também ocorreu com as mulheres,

quanto aos seus aposentos. Desembaraçando-se das roupas,

todos foram repousar.

A hora nona acabara de soar. E a rainha, então, erguendo-se,

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mandou que todas as demais mulheres deixassem os leitos; o

mesmo ordenou em relação aos homens; e declarou que era

prejudicial à saúde o ato de dormir demais durante o dia.

Deste modo, o grupo encamínhou-se para um prado, de alta

e verde grama, e onde o sol não batia. Desfrutando ali a

delícia de uma brisa amena, sentaram-se todos, formando

círculo, sobre a relva fofa, conforme o desejo expresso da

rainha. Assim ela falou aos membros do grupo:

— Como estão vendo vocês, o sol está a pino e o calor é

intenso; apenas se escuta o cantar das cigarras trepadas nas

oliveiras. Seria, assim, uma tolice, certamente, que a gente

fosse agora a alguma parte. É delicioso ficar aqui, à sombra.

Aí estão, como vocês podem ver, tabuleiros de xadrez; cada

um pode alegrar-se conforme o que mais prazer lhe causa ao

espírito. Entretanto, se nisto se quisesse acompanhar o meu

pensamento, passaríamos esta parte quente do dia tecendo

narrativas. O jogo estaria vedado, pois, no jogo, o espírito de

um parceiro é forçado a perturbar-se, sem grande alegria

para o outro nem para quem está assistindo. Seriam narrados

episódios (o que pode trazer prazer a todo o grupo que ouve

enquanto um narra). Antes que cada um de nós termine a

própria narrativa, o sol já se terá escondido e o calor

amainado. E então poderemos ir buscar diversão onde

acharmos melhor. Por isto, se é do agrado de vocês, façamos

o que digo (mas, de qualquer modo, estou pronta a seguir a

preferência que vocês indicarem); e, não lhes agradando,

cada um faça o que mais lhe agrade, até que a noite caia.

Mulheres e homens elogiaram a idéia de tecerem narrativas,

oralmente.

— Então — disse a rainha —, se é do agrado de todos, quero

que, neste primeiro dia, cada um tenha a liberdade de contar

o que for de sua preferência.

Voltando-se em direção de Pânfilo, sentado à sua direita,

pediu-lhe com amabilidade que, com uma de suas novelas,

desse início às demais. Obedecendo à ordem, com

solicitude, e sendo escutado por todos, Pânfilo principiou

assim:

PRIMEIRA NOVELA

O Senhor Ciappelletto engana a um santo frade

fazendo-lhe uma falsa confissão; e morre. Em vida

tendo sido um homem muito mau, é considerado

santo após a morte, passando a ser chamado São

Ciappelletto.

Convém, caríssimas mulheres, que em tudo quanto o

homem realiza se principie com o admirável e santo nome

daquele que foi o criador de tudo. Como eu devo principiar

a nossa série de narrativas, quero, como o primeiro que fala,

principiar narrando uma de suas maravilhas. Assim, ouvida a

novela, nele se fixará a nossa esperança, como firmada em

algo intransferível. E o seu nome será sempre louvado, com

carinho, pelo nosso grupo.

É evidente que, sendo as coisas temporais todas passageiras e

mortais, elas também estão repletas de tédio, de sofrimento

e de cansaço; além disso, estão sujeitas a perigos.

Certamente, nós não poderíamos suportar tudo isto, nós,

que vivemos entre elas, e até participamos delas, se uma

especial graça divina não nos desse força e descortino. Não

devemos acreditar que esta graça caia sobre nós por algum

merecimento que tenhamos. Ela vem da própria bondade

sua, assim como dos rogos a êle enviados por aqueles que,

como nós agora somos, foram igualmente mortais. Durante a

vida, seguiram as imposições do prazer; agora, na companhia

dele, tornaram-se eternos e beatos. A eles, como

intercessores bem cônscios, por experiência, de nossa

fragilidade, nos entregamos, para o comércio daquilo que

consideramos oportuno. (Pode ser que não tenhamos

audácia bastante para levar nossas súplicas à presença de tão

supremo juiz, que é Deus.) E mais ainda a êle, tão pleno de

piedosa liberalidade a nosso respeito, nós nos entregamos. A

nercuciência da vista mortal não pode penetrar, de modo

algum, no segredo da mente de Deus. E sucede, às vezes,

por esta razão, que, iludidos por opiniões passageiras,

elevamos à categoria de nossos intercessores, no céu, diante

da Sua Majestade, pessoa que, por via de exílio eterno, foi

expulsa da vista dessa majestade. Contudo, êle, para quem

nada se oculta, atende àqueles que lhe enviam preces; pois

êle considera mais a pureza do que pede do que a sua

estultícia, ou o exílio do suplicado. Isto poderá ficar muito

http://www.visionvox.com.br/biblioteca/d/Decamerao-Giovanni-Boccaccio.txt[15-04-2012 19:34:26]

patente na novela que desejo contar. Muito patente, quero

dizer, de acordo não com o juízo de Deus, mas seguindo o

dos homens.

Conta-se, portanto, que Musciatto Franzesi, afamado e

muito rico comerciante da França, armara-se cavaleiro.

Precisou dirigir-se a Toscana, junto com. o Senhor Carlos

Senterra, irmão do rei da França, a quem o Papa Bonifácio

chamara e que resolvera atender de pronto ao chamado.

Contudo, notou que os seus negócios, como é costume

acontecer com os assuntos dos comerciantes, estavam muito

embrulhados, num ponto e em outro; não havia

possibilidade de resolvê-los rapidamente, e muito menos de

improviso. Cogitou, pois, de entregá-los a diferentes pessoas.

E para todos os assuntos teve saída e solução. Apenas lhe

restou a resolver o caso da pessoa a quem deixaria

procuração bastante para reaver os empréstimos por ele

feitos a muitos borgonheses. O motivo da dúvida estava em

que ele sabia que os de Borgonha eram homens briguentos,

de má vida, e, sobretudo desleais. Não lhe restara na

memória homem nenhum que fosse tão mau (e em quem

pudesse depositar certa confiança) que valesse a pena opor à

malvadez dos borgonheses.

Após refletir maduramente sobre isto, ocorreu-lhe à

lembrança a existência de um Senhor Ciappelletto, de Prato,

que freqüentemente costumava abrigar-se em sua casa, em

Paris. O Senhor Ciappelletto era baixo de estatura, porém

muito bem proporcionado e de bom parecer. Ignorando o

significado de ciapperello e julgando que quisesse dizer

chapéu, quer dizer, guirlanda, conforme a linguagem

popular deles, os franceses começaram a chamá-lo, não

Ciappello, e sim, Ciappelletto. E como Ciappelletto tornou-

se famoso em todo canto, enquanto pouquíssimos o

identificavam como Senhor Ciapperello.

Ciappelletto era materialista. Como notário que era, ficava

supremamente envergonhado quando um dos seus

documentos era tido como outra coisa que não falso (como

se fossem poucos os que assim fazia). Desses documentos

falsos, sentia-se capaz de produzir quantos pedissem; e mais

prazerosamente ainda fazia aqueles que dava de graça do que

os que era pago para fazer, ainda quando regiamente

recompensado. Em juízo, prestava falsos testemunhos, com

prazer enorme, quando era e mesmo quando não era

requisitado.

Na França daquele tempo prestava-se fé indiscutível aos

juramentos. E, visto que ele pouco ligava por jurar falso,

ganhava, por esperteza, tantas demandas quantas as que o

chamavam para dizer a verdade, sobre a sua fé de notário.

Gozava extraordinário prazer em provocar, entre amigos e

parentes, e entre quaisquer pessoas, discórdias,

malquerenças, escândalos. E a isto se dedicava com real

afinco. Quanto mais graves eram os males que provinham

dos atos, maior era a sua alegria. Convidado a tomar parte

em um homicídio, ou em outra forma qualquer de

delinqüência, jamais deixava de concordar; até mesmo

participava de muito boa vontade. Incontáveis vezes achou-

se, prazerosamente, ferindo e matando homens com as

próprias mãos.

Tornara-se incorrigível blasfemador de Deus e dos santos.

Por coisa de somenos, mostrava-se tão feroz quanto os que

mais o fossem. Não tinha o hábito de freqüentar a igreja.

Zombava de todos os seus sacramentos, proferindo termos

abomináveis, como se fossem coisas vilíssimas. Ao

contrário, com muito bom ânimo, visitava e freqüentava

tabernas e outros locais de má fama. Apreciava as mulheres

como os cães as bengalas. Mais do que outro qualquer

viciado, do contrário é que obtinha prazer. Era capaz de

enganar e roubar com a consciência tão sossegada como a de

um santo homem. Guloso, beberrão, às vezes chegava a

irritar-se com tal procedimento de si mesmo, tantos e tais

eram os desmandos a que se deixava ir. Jogava aos dados,

mas todos sabiam que lançava à mesa dados viciados. Por

que motivo, porém, me alongo tanto a este respeito? Êle era

o pior homem que viera à luz, em qualquer época. A sua

perversidade é que, por bastante tempo, garantiu o poder e

os bens do Senhor Musciatto. Por isso, em várias ocasiões,

foi recompensado, tanto por pessoas às quais com freqüência

prejudicara, como pela corte, à qual ainda causava prejuízos.

Estando, portanto, este Senhor Ciapperello nas graças do

Senhor Musciatto, que conhecia em minúcias sua vida, este

pensou: "Deve ser o que mais convém à malvadez dos