Demian por Hermann Hesse - Versão HTML

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DEMIAN

Desde seus primeiros livros Hesse conquistou um lugar certo ao lado dos maiores autores alemães

de seu tempo e, com a tradução de suas obras para idiomas estrangeiros, tornou-se um nome consagrado em

todo o mundo. Um fato a destacar foi o verdadeiro fascínio que o idealista escritor exerceu sobre as

gerações posteriores à I Guerra Mundial, inquietas e perdidas em contradições.

Em Demian o autor narra, com grande sentido humanitário, o crescimento para a maturidade de

Emil Sinclair, que sucumbe à influência de Max Demian, uma figura estranhamente possessiva. À medida

que Sinclair progredia, através de uma educação ortodoxa e um misticismo filosófico que o encaminhavam

em direção ao estado de autocompreensão, ele tinha sempre diante de si a imagem de Demian... até

chegarem ao clímax de uma confrontação com o destino num sangrento campo de batalha.

Consideram muitos críticos internacionais que, pelo poder que teve de influenciar tantas gerações

de leitores, Demian é das obras mais importantes de toda a bibliografia do excepcional escritor.

OBRAS DO AUTOR

A ARTE DO OCIOSOS

CAMINHADA

CORRESPONDÊNCIA ENTRE AMIGOS (Com Thomas Mann) DEBAIXO DAS RODAS

DEMIAN

ESTE LADO DA VIDA

GERTRUD

HISTÓRIAS MEDIEVAIS

O JOGO DAS CONTAS DE VIDRO

KNULP

O LIVRO DAS FÁBULAS

O LOBO DA ESTEPE

MENINO PRODÍGIO

MINHA FÉ

NARCISO E GOLDMUND

NARRATIVAS

OBSTINAÇÃO

PARA LER E GUARDAR

PARA LER E PENSAR

PEQUENAS ALEGRIAS

PEQUENO MUNDO

ROSSHALDE

SIDARTA

SOBRE A GUERRA E A PAZ

SONHO DE UMA FLAUTA E OUTROS CONTOS

TRANSFORMAÇÕES

O ÚLTIMO VERÃO DE KLINGSOR

VIAGEM AO ORIENTE

VIVÊNCIAS

DEMIAN

Este romance de Hermann Hesse, que tão decisiva influência exerceu

sobre toda uma geração há várias décadas, como todas as obras-primas tem

uma mensagem de perene interesse. No consenso da crítica literária

internacional, o mais espetacular sucesso de Hesse e um dos maiores livros

deste século.

SUMARIO

Nota do tradutor 4

Introdução 9

I Dois mundos 11

II O sinal de Caim 28

III O mau ladrão 46

IV Beatrice 64

V A ave sai do ovo 83

VI A luta de Jacó 98

VII Eva 117

VIII O princípio do fim 138

Nota do tradutor

Demian, escrito em 1919, é o primeiro grande livro de Hermann Hesse no caminho

que o conduz a Der Steppenwolf (O Lobo da Estepe) — sua indiscutível obra-prima de

1927 — e do qual Sidarta, que aparece em 1922, constitui a etapa intermediária. Pode-se

dizer que o Harry Haller, de O Lobo da Estepe, é o Emil Sinclair, de Demian, na

maturidade.

O arranque representado por Demian é, entretanto, mais significativo se se tem em

conta seu valor de quebra-diques na própria contenção formal e emotiva da obra de

Hesse. Até então, a despeito dos gritos convencionais de revolta contra a educação

coercitiva do novecentismo germânico, representados por Peter Kamenzind (1904) e

Unterm Rad (Debaixo das Rodas — 1906), seus escritos estratificam o burilar correto e

neo-romântico de um mestre-escola provinciano, pontilhado de descrições de um gosto

artífice, mas onde o olhar se coloca numa posição alpina, de contemplação para baixo,

paisagística. É exatamente com Demian que o enfoque se modifica: a contemplação se

volta para si mesma e vai buscar no interior do próprio personagem a visão

multilatitudinal do mundo; a perspectiva se intromete na própria vivência autobiográfica

e o autor ousa ser ele e proclamar sua mensagem. Esse novo elemento até então ausente

da obra literária de Hesse transforma por completo sua essência: de estilista requintado,

mas restrito, se torna um dos valores mais originais e profundamente humanos da

literatura alemã da primeira metade do século.

"Quem quiser nascer tem que destruir um mundo" — eis a mensagem — destruir no

sentido de romper com o passado e as tradições já mortas, de desvincular-se do meio

excessivamente cômodo e seguro da infância para a conseqüente dolorosa busca da

própria razão de existir: ser é ousar ser — o que Gide levaria às últimas conseqüências

em sua obra, marcadamente em Os Subterrâneos do Vaticano. O conflito entre a

dualidade "mundo luminoso" (ideal) e "mundo sombrio" (real) por que tem de passar

Sinclair para o encontro ou a edificação de sua personalidade é o tema central do livro;

tema que se teria prestado, como inúmeras obras românticas da época, a um estado

sentimental de rebeldia, infrutífero e estanque, no qual essa dualidade de impulsos não

conduz a qualquer síntese ou solução, mas que em Hesse, entretanto, se equaciona "na

aceitação e na afirmação da própria personalidade em toda a sua humana plenitude de

tendências antitéticas e inconciliáveis, inevitavelmente coexistentes num trágico

dinamismo psíquico". E ainda mais que uma história ou romance de educação é o relato

de um processo de deseducação, ou preferindo-se, de reeducação de laborioso apagar

das pegadas que o puritanismo educacional deixa impressas na alma adolescente: a

timidez, a humildade, o alheamento armas obsoletas com a hostilidade do mundo real

e que conduzem, mais tarde, inapelavelmente à solidão e à inadaptabilidade, à surda

revolta e ao amargo constrangimento.

O livro reflete, obviamente, a tendência do introduzir na literatura a doutrina de

Freud, que estava na ordem do dia, e da qual Hesse era um apaixonado estudioso, tendo-

se posto inclusive aos cuidados do Dr. J. B. Lang, psicanalista de Lucerna, quando vítima

de crise de neurastenia que lhe sobreveio após a Primeira Guerra Mundial. Daí a presença

constante do onirismo na obra, de um certo entrevelado complexo de Édipo (aqui exposto

através de um sutil mecanismo de transferência), de permeio com reminiscência de

estudos de ciências antigas e herméticas, auridos na intimidade da biblioteca do avô

materno.

No caso de Hesse, mais do que na maioria dos autores, um conhecimento biográfico

se faz necessário à boa compreensão dos elementos surpreendentes de sua natureza.

Descendente de família suábia, criado no mais rígido rigorismo religioso — o pai, erudito

famoso de história religiosa; a mãe, filha de missionário, nascida e educada na índia; o

avô, Hermann Gundert, indianista de renome — Hermann Hesse nasce em 2 de julho de

1877, em Calw, pequena cidade do Wurtemberg, na Floresta Negra. Desde logo

destinado à carreira eclesiástica, passa pela levedura espiritual e a constrição educativa de

quatro seminários, donde egressa para tornar-se aprendiz de relojoeiro e, mais tarde,

auxiliar de livraria, em Basiléia e Tübingen.

Essa reação à vida religiosa -e firme obstinação de se tornar poeta (aos treze anos

tinha por divisa: "serei poeta ou nada") é explicada por seu biógrafo, Hugo Bali, como

uma fixação pela poderosa personalidade de sua mãe, contista de sensibilidade, cuja

figura ("bela voz clara e sonora") imprime-se na alma do jovem de maneira tão marcante

quanto a imagem da "mulher ideal". O contato com o mundo livreiro proporciona-lhe a

oportunidade de publicar, em 1899, seus Romantische Lieder, (Cantos Românticos) e,

cinco anos mais tarde, sua primeira novela, Peter Kamenzind, que logo alcançou

numerosas edições, permitindo ao poeta libertar-se da ocupação burguesa para entregar-

se exclusivamente à literatura. Nesse mesmo ano (1904), transfere-se com a primeira

esposa para Gaenhofen, às margens do lago Constança, na fronteira germano - suíça.

Data dessa época sua colaboração na revista März, de Munique, cujo diretor Theodor

Heuus, combate o poder pessoal de Guilherme II; os artigos de Hesse, entretanto,

correspondem mais a uma atitude democrática e liberal, do que a um compromisso

partidário, o que nunca teve.

Em 1911, "por necessidade interior", empreende uma viagem à índia, berço de sua

mãe, e que exerce sobre ele a atração de uma pátria espiritual e misteriosa; a viagem,

entretanto, não lhe proporciona o esperado deleite. Em 1914, transfere-se para Berna,

onde vai surpreendê-lo a declaração de guerra, em relação à qual Hesse assume, desde o

inicio, uma atitude intelectual de absoluta neutralidade. O entusiasmo guerreiro de seus

compatriotas poetas leva-o a escrever o artigo "Ò amigos, abstende-vos desse tom", que

lhe. acarreta uma onda de incompreensão e repulsa semelhante à que avassalou Romain

Rolland.

Data dessa época sua crise nervosa, decorrente não só da conturbada situação

mundial, mas ainda do agravamento da enfermidade psíquica da esposa. A separação do

casal é inevitável. Hesse fixa-se ao sul dos Alpes e descobre em 1919 a Colina D. Oro, a

sudoeste de Lugano. Nessa fase, excursiona pela pintura, fazendo aquarelas, e o trato com

as cores vai impressionar vivamente sua obra, transparecendo inclusive nas páginas deste

livro. Data dessa época também o encontro de sua segunda esposa, Ruth, vínculo que

teve, aliás, breve duração. Em 1923, adota a cidadania suíça e encontra finalmente

tranqüilidade, junto à terceira esposa, para empreender a obra principal de sua vida,

coroada com o aparecimento, em 1943, de Das Glasperlenspiel (O Jogo das Contas de

Vidro), onde expressa um apurado conhecimento musical.

Durante os anos da Segunda Grande Guerra, acolhe refugiados do regime nazista e

encontra as portas literárias da Alemanha novamente fechadas para a sua obra. Em 1946,

obtém o prêmio Nobel de Literatura, principalmente em razão de sua obra poética, mas a

saúde débil não lhe permite ir a Estocolmo recebê-lo pessoalmente. Falece em 1962, aos

85 anos de idade.

De posse desses elementos, fácil nos é perceber quanto as figuras de Sinclair, Demian

e Pistórius encerram do próprio Hesse, não passando de sínteses ou projeções de suas

vivências. Sinclair, mais do que todos, é o êmulo real do autor: a mesma infância, o

mesmo ambiente parental, a mesma inadaptabilidade ao mundo cotidiano. Demian será

talvez o Hesse ideal, o que gostaria de ter sido, decisivo, homem do destino, marcado

pelo sinal de Caim. Também Pistórius é um heterônimo de Hesse, organista na vida real,

filho de teólogo, guia de outrem mas incapaz de encontrar o próprio caminho. Tudo

indica, ainda, ter servido para o vigoroso retrato de Eva a significativa figura da própria

mãe do poeta.

Cabe uma palavra final sobre a atitude de Hesse em relação à guerra e à comunidade.

Pode parecer hoje um tanto superado o desprezo pela coletividade demonstrado por

Sinclair, passível de confundir-se com um sucedâneo da torre de marfim. Mas o que

Hesse realmente ataca é a aceitação do rebanho, permeável a influências externas, capaz

de ser levado à guerra na ilusão de estar praticando um ato heróico. A atitude não está

certamente isenta de alguma aristocracia intelectual, mas formulada antes no sentido do

culto do individualismo enquanto útil, capaz de encontrar o destino, do que no isolamento

gratuito e inaplicável. Hesse rebela-se contra a uniformização; não é a massa que o

impressiona, mas os processos de submissão, de estandardização a que ela se submete.

Ergue um canto de glorificação ao indivíduo consciente de si mesmo e de seu próprio

caminho e execra o morticínio capaz de destruir com uma simples bala esse experimento

único e insubstituível da natureza: o homem.

Ivo Barroso

DEMIAN

Queria apenas tentar viver aquilo que brotava espontaneamente de mim. Porque isso me era

tão difícil?

Introdução

PARA relatar a história de minha vida, devo recuar alguns anos. Se me fosse possível,

deveria retroceder ainda mais, à primeira infância, ou mais ainda, aos primórdios de

minha ascendência.

Os poetas, quando escrevem novelas, costumam proceder como se fossem Deus e

pudessem abranger com o olhar toda a história de uma vida humana, compreendendo-a e

expondo-a como se o próprio Deus a relatasse, sem nenhum véu, revelando a cada

instante sua essência mais íntima. Não posso agir assim, e os próprios poetas não o

conseguem. Minha história é, no entanto, para mim, mais importante do que a de

qualquer outro autor, pois é a minha própria história, e a história de um homem — não a

de um personagem inventado, possível ou inexistente em qualquer outra forma, mas a de

um homem real, único e vivo. Hoje sabe-se cada vez menos o que isso significa, o que

seja um homem realmente vivo, e se entregam à morte sob o fogo da metralha a milhares

de homens, cada um dos quais constitui um ensaio único e precioso da Natureza. Se não

passássemos de indivíduos isolados, se cada um de nós pudesse realmente ser varrido por

uma bala de fuzil, não haveria sentido algum em relatar histórias. Mas cada homem não é

apenas ele mesmo; é também um ponto único, singularíssimo, sempre importante e

peculiar, no qual os fenômenos do mundo se cruzam daquela forma uma só vez e nunca

mais. Assim, a história de cada homem é essencial, eterna e divina, e cada homem, ao

viver em alguma parte e cumprir os ditames da Natureza, é algo maravilhoso e digno de

toda a atenção. Em cada um dos seres humanos o espírito adquiriu forma, em cada um

deles a criatura padece, em cada qual é crucificado um Redentor.

Poucos são hoje os que sabem o que seja um homem. Muitos o sentem e, por senti-lo,

morrem mais aliviados, como eu próprio, se conseguir terminar este relato.

Não creio ser um homem que saiba. Tenho sido sempre um homem que busca, mas já

agora não busco mais nas estrelas e nos livros: começo a ouvir os ensinamentos que meu

sangue murmura em mim. Não é agradável a minha história, não é suave e harmoniosa

como as histórias inventadas; sabe a insensatez e a confusão, a loucura e a sonho, como a

vida de todos os homens que já não querem mais mentir a si mesmos.

A vida de todo ser humano é um caminho em direção a si mesmo, a tentativa de um

caminho, o seguir de um simples rastro. Homem algum chegou a ser completamente ele

mesmo; mas todos aspiram a sê-lo, obscuramente alguns, outros mais claramente, cada

qual como pode. Todos levam consigo, até o fim, viscosidades e cascas de ovo de um

mundo primitivo. Há os que não chegam jamais a ser homens, e continuam sendo rãs,

esquilos ou formigas. Outros que são homens da cintura para cima e peixes da cintura

para baixo. Mas, cada um deles é um impulso em direção ao ser. Todos temos origens

comuns: as mães; todos proviemos do mesmo abismo, mas cada um — resultado de uma

tentativa ou de um impulso inicial — tende a seu próprio fim. Assim é que podemos

entender-nos uns aos outros, mas somente a si mesmo pode cada um interpretar-se.

CAPÍTULO PRIMEIRO

Dois mundos

COMEÇO a minha história por um fato acontecido quando tinha dez anos e

freqüentava a escola particular de minha pequena cidade natal. Muitas coisas daquele

tempo ainda exalam para mim certo perfume e irradiam em mim uma suave melancolia

associada a gratos temores: ruas sombrias ou iluminadas, casas e torres, o soar dos

relógios e faces humanas, aposentos repletos de comodidade e de cálido bem-estar,

aposentos cheios de mistério e de um profundo medo de fantasmas. Odor de cálida

intimidade, de coelhos e criadas, de remédios caseiros e de frutas frescas. Dois mundos

diversos ali se confundiam; o dia e a noite pareciam provir de pólos distintos.

Desses dois mundos, um se reduzia à casa paterna, e nem mesmo a abarcava toda; na

verdade, compreendia apenas as pessoas de meus pais. Esse mundo era-me perfeitamente

conhecido em sua maior parte; suas principais palavras eram papai e mamãe, amor e

severidade, exemplo e educação. Seus atributos eram a luz, a claridade, a limpeza. As

palavras carinhosas, as mãos lavadas, as roupas limpas e os bons costumes nele tinham

centro. Nele se cantavam os coros matutinos e se festejava o Natal. Nesse mundo havia

linhas retas e caminhos que conduziam diretamente ao porvir; havia o dever e a culpa, o

remorso e a confissão, o perdão e as boas intenções, o amor e a veneração, os versículos

da Bíblia e a sabedoria. Nesse mundo devia-se permanecer para que a vida fosse clara e

limpa, bela e ordenada.

O outro mundo começava — curioso — em meio à nossa própria casa, mas era

completamente diferente: tinha outro odor, falava de maneira diversa, prometia e exigia

outras coisas. Nesse segundo universo havia criadas e aprendizes, histórias de fantasmas

e rumores de escândalo; havia uma onda multiforme de coisas monstruosas, atraentes,

terríveis e enigmáticas, coisas como o matadouro e a prisão, homens embriagados e

mulheres escandalosas, vacas que pariam e cavalos que tombavam ao solo; histórias de

roubos, assassinatos e suicídios. À nossa volta havia todas essas coisas belas e

espantosas, selvagens e cruéis; na rua ao lado, no interior da casa vizinha, policiais

perseguiam ladrões; homens embriagados batiam em suas esposas; grupos de moças

saíam das fábricas ao anoitecer; havia velhas que enfeitiçavam as pessoas ou lhes

causavam desditas; no bosque se ocultava um bando de salteadores; os guardas florestais

perseguiam ladrões e incendiários... enfim, por todo lado brotava e fluía esse outro mun-

do impetuoso, em todo lado, menos em nossos aposentos, ali onde estavam meu pai e

minha mãe. E isso era magnífico. Era maravilhoso que ali em casa houvesse paz, ordem,

repouso, deveres cumpridos e consciência tranqüila, perdão e amor...; mas era também

admirável que existisse aquilo tudo mais: o estrepitoso e o agudo, o sombrio e o violento,

de que se podia escapar imediatamente, refugiando-se quase de um salto no regaço

maternal. O mais curioso é que ambos os universos se confinavam em estreita intimidade.

Por exemplo, quando Lina, a empregada, corria à sala de estar na hora das rezas

vespertinas e ficava sentada junto à porta, as mãos muito bem lavadas descansando sobre

o avental engomado, a entoar com voz clara os hinos religiosos, pertencia inteiramente ao

mundo de meus pais, ao nosso, ao mundo luminoso e reto. Todavia, minutos depois, na

cozinha ou no desvão da escada, quando me contava a história do anão sem cabeça, ou

quando discutia com as vizinhas no açougue, já era outra; pertencia ao outro mundo,

aparecia rodeada de mistério. Assim sucedia com tudo e com todos, e mais do que a

ninguém, comigo mesmo. Eu, como filho dos donos da casa, pertencia, de imediato, ao

mundo luminoso e reto; mas para onde quer que dirigisse a vista ou apurasse os ouvidos,

ia dar sempre com o outro mundo e, portanto, nele também vivia, embora quase sempre

me parecesse isso estranho e inquietante e acabasse por infundir-me pânico, turbando-me

a consciência. Chegou a haver temporadas inteiras em que eu preferia viver naquele

mundo proibido, e o retorno à claridade, ainda que necessário e conveniente, chegava a

ser para mim quase que um retorno a algo menos belo, mais vazio e aborrecido. Às vezes,

me dava conta de que meu objetivo na vida era o de chegar a ser como meus pais, tão

claro e puro, tão reflexivo e ordenado. Mas o caminho que conduzia àquela meta era

demasiadamente comprido; para chegar a ele, era necessário passar por muitas aulas,

havia que sofrer e estudar para muitas provas e muitos exames; além disso, o caminho

seguia sempre bordejando aquele outro mundo mais escuro e às vezes nele penetrava, não

sendo de todo impossível que nele alguém permanecesse e sumisse em suas sombras

proibidas. Havia histórias assim, de filhos transviados, que eu lia com verdadeira paixão.

O que nelas mais louvava, o que redimia toda a culpa, era o retorno ao lar paterno, ao

bem, e me certificava de que essa era a única atitude legítima, boa e desejável; não

obstante, atraía-me muito mais a parte da história que se desenrolava entre as gentes

perversas e a conduta dos perdidos, e, se isso fosse possível, ter-me-ia confessado que às

vezes era uma verdadeira lástima que o filho pródigo se arrependesse e voltasse para

casa. Mas isso não se podia dizer, nem mesmo em pensamento. Não era em mim mais do

que um vago sentimento, oculto no mais íntimo de meu ser, algo assim como uma

suspeita ou uma obscura possibilidade. Quando pensava no Diabo, podia imaginá-lo a

andar pelas ruas, mascarado ou com a face descoberta, no mercado ou nas tabernas, mas

nunca em nossa casa.

Minhas irmãs pertenciam igualmente ao mundo luminoso. Sua contextura espiritual

me parecia ainda mais próxima do que a minha da de nossos pais. Era melhores, mais

judiciosas e perfeitas do que eu. Tinham seus pequenos defeitos, suas manhas; mas, a

meu ver, tudo aquilo não passava de algo superficial, nelas não se aprofundava tanto

quanto em mim. Eu me considerava muito mais próximo do mundo obscuro, e o contato

com o mal se fazia sentir em mim muitas vezes por uma dolorosa angústia.

Para com as irmãs dever-se-ia ter os mesmos respeitos e atenções que se dedicava aos

pais, e quando se brigava com elas, a gente sentia, pouco depois, na própria consciência,

ter sido o culpado, o promotor da discórdia, e que devia pedir-lhes perdão, pois

ofendendo as irmãs se ofendia aos pais, ofendia-se ao bem e à autoridade espiritual.

Havia segredos que eu podia compartilhar com os moleques mais despudorados da rua,

mas não com minhas irmãs. Nos bons tempos, quando tudo era lúcido e a consciência

repousava tranqüila e limpa, era delicioso brincar em sua companhia, ser bom e judicioso

com elas e sentir-se envolto em um nobre e plácido esplendor. Assim deviam sentir-se os

anjos, nos quais víamos a perfeição suprema, imaginando a doce maravilha de ser anjos,

rodeados de músicas e odores suaves, como os que emanam do Natal e da felicidade. Mas

aqueles dias, aquelas horas, eram mui pouco freqüentes. Nos brinquedos com minhas

irmãs, naquelas brincadeiras boas, inocentes e permitidas, eu mostrava não raro um

arrebatamento impetuoso que aborrecia as minhas companheiras e nos levava à discórdia

e à desgraça, e, quando então a cólera se apoderava de mim, fazia e dizia coisas terríveis,

cuja maldade sentia à medida que as ia fazendo ou dizendo. Logo seguiam-se horas

difíceis e sombrias de arrependimento e contrição e o instante doloroso de pedir

desculpas. Por fim, o raio de luz voltava-me, uma alegria aprazível, patente e sem

discórdias, que durava algumas vezes longas horas e outras só breves minutos.

Eu freqüentava àquela época a escola particular. O filho do prefeito e do chefe da

guarda florestal — garotos impetuosos e travessos, mas pertencentes ao mundo bom e

permitido — eram meus colegas de classe e vez por outra vinham à minha casa. Embora

não olhássemos com simpatia os alunos da escola pública, eu me dava com alguns

meninos das vizinhanças que a freqüentavam. É com um desses garotos que irei começar

a minha narração propriamente dita:

Uma tarde em que não houve aula — eu devia contar pouco mais de dez anos —

estava passeando com dois garotos meus vizinhos, quando se nos aproximou um outro,

mais velho do que nós, um rapazinho dos seus treze anos, corpulento e grosseiro, filho de

um alfaiate e aluno da escola pública. O pai era um beberrão contumaz e toda a família

não desfrutava de boa reputação. Eu sabia muito bem que espécie de gente era aquele

Franz Kromer: tinha-lhe certo medo e não me agradou nada vê-lo aproximar-se de nós.

Afetava uns ares de homem feito e imitava o andar e a linguagem dos aprendizes das

fábricas. Guiados por ele, descemos até a margem do rio, junto à ponte, e nos ocultamos

dos olhares do mundo entrando embaixo da primeira arcada. A pequena faixa de terra

entre o arranque do arco e o preguiçoso fluir da corrente era utilizada como depósito de

lixo e se mostrava coberta de escombros, trastes velhos, rolos de arame oxidado e outros

desperdícios. Às vezes, entre aqueles detritos, encontravam-se coisas aproveitáveis.

Kromer instruiu-nos para que revistássemos o lixo, e assim procedemos, mostrando-lhe

tudo que íamos encontrando; ele guardava nos bolsos o quanto lhe interessava e o resto

atirava n'água. Interessava-lhe especialmente o que fosse de chumbo, cobre ou zinco, e

guardou também um velho pente de chifre, que um de nós encontrara. Eu me sentia

bastante constrangido em sua companhia, não porque soubesse que meus pais haveriam

de proibir-me terminantemente quaisquer relações com ele, tão logo tivessem

conhecimento daquele primeiro encontro, mas principalmente porque a pessoa de Franz

me inspirava receio. Até então, mostrava-me alegre por não fazer comigo diferença al-

guma, tratando-me como aos outros dois meninos. Mandava e nós o obedecíamos, como

se isso fosse um hábito antigo ou alguma obrigação, embora fosse aquela, de minha parte,

a primeira vez que o acompanhava.

Por fim, sentamo-nos no chão. Franz Kromer começou a cuspir em direção à água

com ares de superioridade; cuspia por entre os dentes e podia lançar a saliva onde

quisesse. Logo nos pusemos a conversar, e os outros dois garotos começaram a van-

gloriar-se de toda a sorte de travessuras e maldades; ambos se haviam afastado de mim

desde o primeiro instante e rendiam homenagens a Kromer. Eu me sentia isolado e

percebia que minhas roupas e maneiras os predispunham contra mim. Filho de família

burguesa e aluno de colégio particular, não podia esperar que Franz Kromer me olhasse

com simpatia, e estava certo que os outros dois me renegariam se lhes apresentasse a

ocasião, deixando-me abandonado no perigo.

Impulsionado pelo medo, comecei eu também a contar vantagens. Inventei uma

fantástica história de estrepolias, na qual me reservei o papel de protagonista: com o

auxílio de outro moleque, havia roubado, certa noite, num pomar próximo do moinho de

baixo, um saco de maçãs cheio até as bordas; mas não eram maçãs comuns, mas das

melhores, de fina qualidade. Fugindo dos perigos do momento, buscava refúgio em

minha fantasia, pois não me faltava certa facilidade para inventar e dizer; além disso, o

desejo de prolongar ao máximo o meu relato para não encontrar-me novamente na temida

situação anterior, ou noutra ainda pior, me levou a recorrer a toda a minha aptidão. Um

de nós — continuei, havia permanecido à espreita, enquanto eu subira à árvore e atirara

as maçãs para baixo, de modo que o saco, cheio até a boca, ficou tão pesado que tivemos

de tornar a abri-lo e deixar no chão metade das maçãs... Mas voltamos para buscá-las

meia hora depois.

Ao terminar o relato, esperava ouvir ou ver qualquer sinal de aprovação. Acabara por

entusiasmar-me com minha própria mentira, deixando-me arrastar pela imaginação. Mas

os dois pequenos permaneceram imóveis e calados, aguardando a manifestação de

Kromer, que se pôs a olhar-me de maneira inquiridora e me perguntou afinal com um tom

de ameaça:

— Isso tudo é verdade?

— Claro que é! — respondi-lhe.

— Verdade mesmo?

— A pura verdade! — insisti obstinado, embora estivesse quase morto de medo.

— Você jura?

Aquilo me angustiou ainda mais. Porém respondi imediatamente que sim.

— Então, diga: juro por Deus e pela salvação da minha alma.

— ...por Deus e pela salvação da minha alma... — repeti.

— Muito bem — disse ele, e se voltou para outro lado. Com isso, imaginei conjurado

todo o perigo. Respirei, pois, de alívio. Kromer levantou-se e propôs voltássemos.

Quando chegamos ao alto da ponte, procurei despedir-me timidamente deles, pretextando

ter de regressar a casa.

— Não precisa ter tanta pressa — riu Franz — Vamos todos pelo mesmo caminho.

Não me atrevi a separar-me deles. Kromer continuou a andar devagar, e, pelo visto,

em direção à minha casa. Quando cheguei à porta e vi a grossa aldrava de cobre, o sol

refletindo nas vidraças e as cortinas do quarto de meus pais, respirei profundamente. O

retorno! O bendito regresso a casa, à claridade e ao sossego!

Abri rapidamente a porta, disposto a fechá-la em seguida atrás de mim; mas Franz

Kromer me impediu e entrou comigo. No fresco e umbroso portal, que só recebia luz do

pátio, aproximou-se de mim, tomou-me do braço e me disse em voz baixa:

— Você está com muita pressa...

Olhei para ele assustado. Sua mão era uma argola de ferro em torno de meu braço.

Imaginei o que desejaria de mim, que talvez quisesse maltratar-me. Pensei que se gritasse

com todas as minhas forças, possivelmente alguém lá em cima me ouviria, vindo salvar-

me do perigo. Mas não me atrevi a fazê-lo.

— Que é isso? — perguntei. — Que está fazendo?

— Nada, não. Só quero lhe fazer uma pergunta, sozinho. Os outros não precisam

ouvir.

— Então, diz logo o que é... Estão me esperando lá em cima...

— Você sabe — continuou Kromer — quem é o dono do pomar que fica perto do

moinho lá de baixo?

— Não, não sei... Acho que é do Müller.

Franz havia passado o braço por cima do meu e me apertava contra si, obrigando-me

a fitá-lo bem de perto. Em seus olhos havia um brilho perverso; sorriu com malignidade e

a face irradiava crueldade e domínio.

— Eu sei muito bem de quem é. E sei que você roubou as maçãs de lá e que o dono

prometeu dar dois marcos a quem disser o nome do ladrão.

— Meu Deus! — exclamei — Mas você não vai dizer que fui eu?

Senti que seria inútil apelar para o seu cavalheirismo. Pertencia a outro mundo; para

ele a traição não era um crime. A gente do "outro" não pensava como nós a respeito

dessas coisas.

— Não vou contar? —. riu Kromer — Você acha que posso fabricar quantas moedas

de dois marcos eu quiser? Não, amiguinho; sou pobre, não tenho pai rico como você, e

quando posso ganhar dois marcos tenho que aproveitar a ocasião. Talvez ganhe até mais.

Soltou-me bruscamente. O portal de minha casa havia perdido aquela fragrância de

paz e tranqüilidade anterior. O mundo veio abaixo para mim. Kromer ia denunciar-me; eu

era um delinqüente; contariam a meus pais e talvez viesse até mesmo a polícia. Todos os

horrores de um verdadeiro caos me ameaçavam; tudo o que havia de feio e inquietante se

levantava contra mim. O fato de não haver roubado realmente não me poderia salvar. E

além de tudo havia jurado... Santo Deus!...

Meus olhos encheram-se de lágrimas. Compreendi que tinha de pagar o meu resgate e

tateei desesperadamente os bolsos. Nem uma maçã, nem um apontador... não tinha nada!

Súbito, lembrei-me de meu relógio, um relógio velho, de prata, que fora de meu avô. Não

trabalhava mais, e eu o usava pelo simples prazer de ter e carregar um relógio.

Imediatamente tirei-o do bolso e disse:

— Escute aqui, você não pode denunciar-me, isso seria horrível. Olhe só, eu lhe dou

este relógio. Sinto não ter outra coisa. Tome, é de prata e a máquina está boa... Está

faltando uma peça, mas você pode mandar consertar...

Ele sorriu e tomou o relógio na mão enorme. Fitei aquela mão e senti o quão

profundamente me era hostil e como se dispunha a cair sobre a minha tranqüilidade e

sobre toda a minha existência,

— É de prata... — insisti com timidez.

— Que me importa — exclamou com grande desprezo. — Pode guardá-lo e mandar

consertar por sua conta.

— Mas, Franz... — disse, trêmulo, com receio de que ele se fosse desgostoso. —

Espera um pouco. Fica com o relógio. Olhe que é de prata, de prata legítima! Não tenho

nada a não ser isto.

Voltou-me a lançar outro olhar de frio desprezo e continuou:

— Então... já sabe onde vou... Ou posso também contar à polícia. Conheço o

sargento.

Deu meia volta para ir-se, mas o retive pela manga. Não podia ser. Preferia morrer a

ter de suportar tudo o que recairia sobre mim se Franz Kromer se fosse daquela maneira.

— Não faça uma loucura dessas — supliquei rouco de emoção. — Não passa de uma

brincadeira sua, não é?

— É, mas uma brincadeira que pode sair bem cara.

— Diga-me então o que tenho que fazer. Estou disposto a tudo!

Olhou-me, revirando os olhos, e soltou outra risada.

— Não seja tolo! — exclamou, com falsa amabilidade — Você sabe tão bem quanto

eu... Posso ganhar dois marcos, já disse, e não vou bancar o idiota de perder a

oportunidade: seria o mesmo que atirá-los pela janela. Já você, é rico, tem até um relógio.

Se me der os dois marcos, ficaremos em paz...

Sua lógica era clara. Mas dois marcos eram para mim uma soma tão elevada... Era o

mesmo que me pedisse, dez ou cem ou mil: quantidades igualmente inacessíveis. Eu não

tinha nenhum dinheiro. No quarto de minha mãe havia um cofre com algumas moedas de

cinco e dez pfennig, produto arrecadado nas visitas dos tios e em outras oportunidades

semelhantes. E nada mais. Naquela época ainda não recebia de meus pais dinheiro algum

para meus gastos.

— Não tenho dinheiro nenhum — repliquei muito triste. — Mas lhe darei todas as

minhas coisas. Tenho um livro de aventuras, uma caixa de soldadinhos de chumbo e uma

bússola. Vou lá em cima buscar...

Kromer contraiu' a boca, atrevida e maligna, e cuspiu no chão.

— Deixa de bobagens — ordenou. — Podes guardar essa porcaria toda. Uma

bússola!... Não me aborreça mais e trate de passar o meu dinheiro. Está ouvindo?

— Mas, se não tenho nem um pfennig. Em casa nunca me dão nada. Que quer que eu

faça?

— Bem, amanhã eu quero os dois marcos. E pronto. Vou esperar você lá embaixo

junto ao mercado, depois da aula. Se não trouxer o dinheiro, vai ver o que é bom!

— Mas, onde vou arranjar o dinheiro, se não tenho?...

— Em sua casa há dinheiro de sobra. Você sabe bem como arranjar... Amanhã, depois

da aula, já sabe onde me encontrar! E se não me trouxer os dois marcos...

Lançou-me, um olhar terrível, cuspiu outra vez mais e logo desapareceu como uma

sombra.

Era-me impossível subir a escada. Minha vida fora destruída. Pensei em fugir de casa

para nunca mais voltar ou atirar-me ao rio e acabar com tudo de uma vez. Tudo isso

pensei imprecisamente. Às escuras, encolhido no último degrau da escada, entreguei-me

ao desespero. Lina, ao descer com um cesto para apanhar lenha, encontrou-me ali

chorando.

Pedi à empregada que nada dissesse e subi por fim. De um cabide que estava junto à

porta de cristais pendiam o chapéu de meu pai e a sombrinha de minha mãe. Aqueles

objetos exalavam para mim o doce aroma do lar. Meu coração saudou-os humilde e

agradecido, como o filho pródigo saúda o aspecto e o perfume dos velhos aposentos da

casa paterna. Mas tudo aquilo deixara de pertencer-me, fazia parte do claro mundo

familiar e eu havia naufragado de maneira culpável nas águas do mundo sombrio.

Acorrentado a pecaminosas aventuras, ameaçava-me o inimigo e os riscos me

aguardavam, a vergonha e o terror. O chapéu e a sombrinha, o chão de ladrilhos, o quadro

grande do vestíbulo e a voz de minha irmã mais velha ressoando lá dentro na sala de estar

— todas aquelas coisas mearam mais caras, mais gratas, mais preciosas do que nunca; já

não me traziam consolo, já não constituíam um bem seguro, mas eram apenas símbolos

de severa censura. Tudo aquilo deixara de ser meu; já não me era possível participar de

sua paz serena. Meus pés estavam manchados de uma lama que não se podia limpar no

capacho da porta; trazia comigo trevas inteiramente desconhecidas do claro mundo de

meu lar. Todos os meus segredos e minhas angústias de ontem não passavam agora de

mero brinquedo, comparados com a carga que agora trazia para casa. Um negro destino

perseguia-me; mãos hostis avançavam para agarrar-me; minha mãe não poderia proteger-

me, não poderia saber de nada! Tanto fazia que eu fosse culpado de um delito de furto ou

de um pecado de mentira! Por acaso não jurara em falso por Deus e pela salvação de

minha alma? Não se tratava de um pecadinho à-toa; meu pecado era ter dado a mão ao

Diabo. Por que fora com aquele indivíduo? Por que havia obedecido a Kromer com mais

diligência e submissão — com muito mais — do que quando obedecia a uma ordem de

meu próprio pai? Por que inventara a história do roubo? Por que me vangloriara de um

furto como se tratasse de um ato heróico? Agora o demônio me havia agarrado pela mão

e o inimigo me perseguia.

Por um instante deixei de sentir medo da manhã seguinte, mas tinha acima de tudo, a