Desce Mais Uma! - Primeira Rodada por Rafael Castellar das Neves - Versão HTML

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DESCE MAIS UMA!

PRIMEIRA RODADA

Todos os direitos autorais sobre este conteúdo estão

registrados na Fundação Biblioteca Nacional do Brasil:

Nº: 461.529 Livro: 868 Folha: 234

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RAFAEL CASTELLAR DAS NEVES

DESCE MAIS UMA!

PRIMEIRA RODADA

EDIÇÃO PRÓPRIA DO AUTOR – 2013

Literatura Brasileira – Poesias

Saiba mais sobre esta e outras obras em: Desce Mais Uma!

Esta obra foi licenciada sob uma Licença Creative Commons: Atribuição - Não Comercial

- Sem Derivados 2.5 Brasil.

Você pode copiar, distribuir e exibir, desde que seja dado crédito ao autor original.

“Não é a altura: é o declive que aterroriza!”

Friedrich Nietzsche

Sumário

Prefácio..................................................................................................1

A Espera.................................................................................................4

Um dia desses........................................................................................6

O Elevador.............................................................................................8

Bom-dia................................................................................................10

Trilhos..................................................................................................12

Homem boneco...................................................................................14

Moleque de Rua...................................................................................16

Era uma vez uma Novidade.................................................................18

À Deriva...............................................................................................21

Jardineiro Vazio....................................................................................23

Menina da Vida....................................................................................25

Cadê você?...........................................................................................27

Ajude-me, por favor!...........................................................................29

Entardecer...........................................................................................31

Saudades de Lá de Casa.......................................................................33

Confuso? Eu?.......................................................................................35

Voo Noturno........................................................................................37

Vergonhas............................................................................................39

Soneto de Conformação......................................................................41

Chova-me, Chuva!................................................................................42

Palhaço................................................................................................44

Meus caminhos: minha vida................................................................46

Improvavelmente.................................................................................49

Naquela Mesa de Bar...........................................................................50

À Minha Espreita..................................................................................52

Dedos Podres.......................................................................................54

Sonsatez...............................................................................................56

Carta de Despedida..............................................................................58

Na Praça...............................................................................................62

A Pena que Lhe Cabe...........................................................................64

Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

Prefácio

Foi no fim de 2004 que eu comecei com esse “negócio de

escrever”. Eu estava tomando cervejas com um amigo num domingo

e estávamos tendo nossas tradicionais conversas de mesa de bar. Eu

contei para ele que havia algum tempo que eu sentia uma angústia,

uma sensação esquisita dentro de mim que pedia para sair. Queria

me expressar de alguma forma, mas não sabia ao certo qual. Tinha

uma tendência que fosse a escrita, pois, além de já ter brincado com

partituras e pincéis, ao pensar na escrita eu sentia que havia sentido.

Naquele mesmo ano comecei meus primeiros rascunhos.

Tentei pensar em alguma história, inventar algum causo, ter alguma

ideia para um romance. Durante aquele ano e o seguinte, tentei,

escrevi, apagando, ajustando, recomeçando... Foram quatro

tentativas até eu encontrar algo que me satisfez. Nascia, então,

“Patos”, meu primeiro romance concluído. Mas apenas nascia, pois

levei cerca de três anos para terminá-lo. Às vezes me faltava a inspiração, outras o tempo e outras eram os baixos da vida que

renderam quase um ano de estagnação.

Em 2010 “Patos” saiu do forno. Depois de tantas dificuldades

com as editoras e gráficas de elite, o disponibilizei gratuitamente em

formato eletrônico.

1

Rafael Castel ar das Neves

Voltando: quando eu aceitei este “negócio de escrever”, aquela

angústia foi se transformando em ideias e pensamentos que borbulhavam na minha cabeça. Iam e vinham e eu não conseguia as

encaixar naquelas tentativas de romances. Então, em 2008 escrevi,

em quinze minutos, durante uma reunião chata no trabalho, o primeiro texto que não quis jogar fora após reler. Foi o primeiro que

eu olhei e pensei: “Hum, até que ficou bom!”.

Havia encontrado um escape para aquelas ideias e

pensamentos borgulhantes: poesias, crônicas, contos,... Mas o que

fazer com elas? Deixar no fundo da gaveta estava fora de cogitação.

Fucei daqui, perguntei dali e resolvi que um blog seria uma boa solução. Em julho de 2008 publiquei minha primeira postagem no

meu “Desce Mais Uma!” e desde então não parei.

Muita coisa aconteceu, muitas pessoas conheci, muitas

amizades eu fiz e muitas interações com os leitores têm mantido

tudo isso.

Quando o blog completou seu primeiro ano, meu grande

amigo Chacon me disse: “Por que você não pega estes primeiros

textos e faz um livro?”. Eu hesitei, meu objetivo era um romance.

Ele insistiu que isso poderia abrir algum caminho para quanto o

romance estivesse pronto. No fim eu concordei e comprei a publicação do meu primeiro livro: “Desce Mais Uma! - Primeira

Rodada”, que era uma compilação dos meus primeiros textos. Isso

foi em 2010, todos meus amigos e familiares me ajudaram, fizemos

lançamentos em bares em São Paulo e em Santa Gertrudes, foi tudo

muito bom. Mas como eu disse, comprei a publicação e é muito

difícil divulgar e disseminar um trabalho deste tipo sozinho.

Então, seguindo minha decisão sobre “Patos” e comemorando

cinco anos de blog, resolvi recompilar os textos e preparar esta nova 2

Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

edição do “Desce Mais Uma! - Primeira Rodada” para também

disponibilizá-la gratuita e democraticamente. E tenho que comentar:

é fantástico me reencontrar estes trabalhos e notar as diferenças entre

eles e os de hoje, relembrar aqueles momentos da minha vida e ver

todas as transformações.

Bom, assim farei também com a Segunda e a Terceira

Rodadas, que já estão sendo preparadas. Acompanhe o “Desce Mais

Uma!” para saber das novidades.

Espero que você tenha uma ótima leitura!

Rafael Castel ar das Neves

Santa Gertrudes, 20 de julho de 2013.

3

Rafael Castel ar das Neves

A Espera

O relógio marca 11h23.

Na mesa ainda há migalhas do café da manhã

A xícara tem uma película grossa de café frio.

Na minha boca a saliva está grossa

O gosto é de uma noite maldormida com resquício de um café

amargo que se acabou.

Minha visão está embaçada,

Meus olhos estão sujos, remelas transbordam pelos cantos

Maquiados pelas minhas insônias intermitentes

Que me roubam o merecido descanso, ou não.

O ponteiro preguiçoso não avança,

A campainha histérica não grita,

O telefone não geme,

A porta não apanha,

Sua voz não me chama.

Meus cabelos sujos, compridos não mantêm a compostura,

Desfeitos como touceiras de colonião após o vento.

Meu rosto cinza e perigoso pela barba por fazer,

Crescida pela preguiça e pelo desgosto.

Minhas unhas sujas aumentam meus dedos

Que ainda seguram a xícara e raspam as migalhas.

Minhas veias agora mapeiam minha vida,

Roxo azuladas abaixo da minha pele amarela.

4

Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

Ainda estou aqui,

Sua voz não me chama,

Ninguém chega,

São 11h23.

São Paulo, 24 de junho de 2008.

5

Rafael Castel ar das Neves

Um dia desses

...É o galo que canta

O sol que levanta

E a noite se espanta

O relógio desperta

A vida se esperta

A preguiça aperta

É o café que se passa

O pão que já assa

E a roupa se amassa

O carro funciona

A economia inflaciona

O coração já pressiona

O escritório lotado

O trabalho pesado

E o corpo estressado

O almoço já tarda

A fome aguarda

O tempo retarda

A noite já chega

O trabalho não chega

6

Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

A vida está pega

O lar afastado

E o trânsito pesado

O corpo cansado

Apetite não existe

A patroa insiste

E a paz não resiste

O corpo se banha

No lençol se emaranha

E no sono se entranha

É o galo que canta...

São Paulo, 26 de junho de 2008.

7

Rafael Castel ar das Neves

O Elevador

“Boa-noite” disse ao porteiro ao adentrar cansado o edifício,

Enquanto me voltava a fechar o portão.

Adentrei ao saguão onde clamei ao botão a presença de um elevador

Que ali deveria – obediente – estar em sentido à minha espera.

“Boa-noite” disse o morador ao porteiro ao fechar o portão.

Meu estômago fora arrancado.

As portas internas do elevador que chegara ainda se abriam

Enquanto, eu, alucinado, tentava invadi-lo em fuga.

Tempo tinha, coragem não.

Seus olhos me suplicaram a carona,

E a educação imposta me obrigou a conter as pernas e a porta.

Sem me olhar nos olhos murmurou algo tão estranho quanto o

meu.

Apertou o nove.

Com o indicador girando, como quem sabe mas não encontra,

Aguardava minha resposta que foi meu dedo no oito.

Descemos.

Minhas pernas me abandonaram, recostei em ódio.

O carona, atleta suado, entrou seguindo o mesmo protocolo.

Apertou o doze.

Subimos, serei o primeiro! Deus, não nos pare no térreo.

8

Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

Deveria ser o décimo quando passamos pelo sexto.

De olhares fixos no nada, conversamos o silêncio

Como garotos nus em um exame médico coletivo.

Medi os invasores,

Enjoei-me com o suor que ensebava os cabelos sujos do atleta,

Irritei-me com o outro que ainda levava a falsa expressão de simpatia

em sua cara covarde.

Voltei-me ao nada.

Retorci os dedos uns nos outros a distrair-me,

Reli os dizeres da sacola da padaria que já tanto conhecia,

Cantei com a banda em minha cabeça.

O tranco revelou: oitavo, ufa! Cheguei e vivo!

Que saiam da minha frente e não se atrevam a abrir minha porta,

Passo feito boi estourado e múrmuro algo tão estranho quanto os

deles.

Imbecis.

São Paulo, 30 de junho de 2008.

9

Rafael Castel ar das Neves

Bom-dia

Maldito seja, pesadelo doente

Que em meu merecido descanso irrompe,

Espancando-me ao peito, alucinando-me os músculos

Matando tudo dentro de mim.

Me derrama ondas de dores e desesperos,

Que me apavoram e me esgotam.

Meu corpo sucumbe.

Minhas pálpebras covardes garantem a incerteza da escuridão

Meu corpo moribundo tenta perceber a realidade

Gélido diante da ameaça da realidade ser o irreal

Descubro-me, pois, emaranhado em seu corpo macio e quente,

Nariz enterrado em suas mexas cheirosas,

Boca em um beijo eterno em seu pescoço umedecido.

Meus braços envolvidos com os seus em um abraço memorável

Nossas pernas entrelaçadas – alianças da nossa presença.

Suas costas esguias aconchegadas em meu peito

Compassam meu coração com sua respiração tranquila.

Trago-te mais a mim,

Minha angústia alivia,

Meu corpo se entrega,

Minha mente desliga.

10

Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

Choro meus medos

Esqueço a fatalidade

Brindo à realidade.

Você se aconchega,

Aperta meus braços,

Pede meu beijo.

Beijo-te, anjo do meu coração,

Com todo ímpeto de quem foi salvo

Direto das trevas para seus lábios açucarados.

Sinto seu cheiro, sua pele macia,

Seu amor flamejante, seu corpo inquieto:

“Bom-dia!”.

São Paulo, 10 de julho de 2008.

11

Rafael Castel ar das Neves

Trilhos

Ó Maria sumida,

Por onde andaste que desde minha infância inocente me

abandonaste

Sem rancor e despedida?

Ó Maria calada,

Por que não mais a vi por entre os campos, em minhas cavalgadas,

Rasgando-os em gritos histéricos?

Ó Maria tímida,

Por que da plataforma não mais a vejo exuberante rajando fumaças

Ao anunciar sua chegada?

Ó Maria moleca,

Por que não vens pueril com o vapor de seus cilindros

Assustando os abandonados cães famintos que rodeiam a

plataforma?

Ó Maria tristonha,

Por que não mais tens aquela batida frenética e descompassada

Que me arrepiava o corpo e me alegrava coração?

Ó Maria maldita,

Por que depois de toda essa ausência vens para levar

Aquele que me afaga o coração e acalma meu ímpeto?

Ó Maria mercenária,

12

Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

Tomas aqui o bilhete salgado que a contragosto comprei

Com peito estourado e a face melada.

Ó Maria querida,

Guias com cuidado e doçura aquele que por toda a vida

Nos guiou com sapiência e alegria pelos trilhos da vida.

Ó Maria amiga,

Guardas o caminho que fizeres,

Pois é por estes trilhos que terás que me guiar quando a minha vez

então chegar.

São Paulo, 13 de julho de 2008.

13

Rafael Castel ar das Neves

Homem boneco

Sou boneco de massa,

Modelado pela criação,

Em forma de Davi,

Para exibição.

Sou boneco de pano,

Confeccionado com estilo

Pela arrogância

Para ser fonte da inveja.

Sou boneco de vidro,

Moldado pela avareza

Para ser objeto de decoração

Em uma redoma de cristal.

Sou boneco de ferro,

Forjado pela prepotência

Para um plano de vida

Que nunca vi.

Sou boneco de pedra,

Lapidado pela mediocridade,

Impermeável, impenetrável, exemplar.

14

Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

Mas sou boneco de gesso,

Quebro, trinco e,

Quando choro, esfarelo – me jogam fora.

São Paulo, 27 de julho de 2008.

15

Rafael Castel ar das Neves

Moleque de Rua

Lá vai ele: menino moleque!

Vai feito barata às janelas dos carros

Que se fecham em desespero à sua presença.

Menino fedido, que de nariz escorrendo à boca

Lambuza as portas dos carros com suas mãos imundas.

Embaça os vidros dos carros com seu hálito malicioso.

Arrasta os pés encardidos, com dedos rachados e unhas gastas

Que tentam se esconder no que resta do chinelo de tira estourada.

Sua mão é ligeira aos olhos cuidadosos.

Sua língua é afiada aos ouvidos misericordiosos.

Sua face é tirana aos corações piedosos.

Leva essas moedas que não são suas.

Míseros centavos que nunca justificam sua existência

E ao menos compram seu veneno.

Deita moleque menino,

Estira ao relento esse corpo usado,

Talvez amanhã alguém lhe note,

Se o caminho atrapalhar.

Não se preocupe, menino sem nome,

Os jornais nada dirão,

Os números não mudarão,

16

Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

Você nunca foi estatística.

Descansa menino imprestável,

Como você, outros virão,

Sua falta nunca será sentida,

Mas talvez de seus centavos.

Voa anjo pagão!

Seus pecados já foram pagos

Por todas suas vidas.

São Paulo, 05 de agosto de 2008.

17

Rafael Castel ar das Neves

Era uma vez uma Novidade

Ah, como é delicioso o sabor de uma novidade! Aquela

novidade de algo surpreendente introduzido em nossas vidas e que

nos rouba toda a atenção. Que nos faz dedicarmo-nos de maneiras

improváveis e questionáveis. Que derruba valores, conceitos e definições. Que nos faz agir como inconsequentes, passando por

cima de tudo, de todos e até de nós mesmos, apenas para estarmos

próximos. Que nos tira a concentração de todo um dia. Que não sai

dos pensamentos, ou melhor, que é nossos pensamentos, e exige

nossas presenças, ações e olhares. Como é bom viver a novidade,

carregá-la no bolso do paletó, para cima e para baixo, exibindo-a a

todos, com orgulho e arrogância. Aquela novidade que nos faz rever

todos nossos conceitos, nossas atitudes, nossos sentimentos, nossos

objetivos, nós mesmos.

Novidades assim nos fazem mudar, construir, destruir e,

inclusive, nos enganar, simplesmente para tê-las plenamente em nossas entranhas. Dão-nos razão para um despertar alegre, para um

dia entusiasmado, para um adormecer pueril. Fazem com que nossos

corações batam empolgados, com que tenhamos o corpo inquieto

por sentimentos intensos, com que as rédeas da razão sejam soltas

para que possamos sentir o vento tocando nossos rostos enquanto

somos tomados por uma sensação de paz em um galope sem destino, em uma praia qualquer, de braços abertos e peitos cheios.

Ah, melhor ainda é ser novidade! Ser desejado, ser

perseguido, ser cobrado pela ausência, ser quisto no amanhecer,

durante o dia, no tarde da noite. Ser pensamento de quem busca

inutilmente o sono. Ser mantido no coração, ser fonte se sonhos de

18

Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

uma vida, ser motivo de felicidade buscada, ser alvo de destino

manipulado, ser tido como o escolhido que nunca foi achado.

Como é bom ser especial, ser buscado, ser cuidado, ser porto seguro,

ser afago, receber sorrisos de bom-dia.

É, mas a vida tem um senso de humor doente. Brinca

conosco de forma cruel: sem que ao menos percebamos, transforma

a novidade em algo comum. Aquela novidade se transforma em algo

corriqueiro que não merece mais tanta atenção, dedicação e, nem ao

menos, desperta aquela inquietude que tanto nos motivara.

Desvaloriza-se e perde a prioridade em nossas vidas. Sai do bolso e

vai para a estante, onde será vista vez ou outra quando passarmos

sem pressa e, talvez, vez ou outra, trará aos nossos pensamentos

algumas lembranças ternas do tempo em que ainda era novidade,

mas sem aquela intensidade com que foi concebida. Na estante, faz

parte da nossa paisagem, estará sempre lá e acreditamos que isso é

suficiente. Que nada necessita ser feito, pois, se preciso for, basta

apenas esticar os braços para ter a antiga novidade – novo algo

comum.

Dizem que é assim que caminham as vidas. Que assim são

as coisas. Mas não posso admitir isso, não posso admitir a estante.

Não posso admitir que tenhamos o direito de tornar comum algo

que nos faz incomum. Deixar de lado, sem mais nem menos apenas

acreditando que está intrínseco e dispensa afagos. Uma planta que

não é regada cuidadosamente todos os dias não nos mostra suas

flores; ela seca!

Quero descobrir como se faz para passar por entre os

acontecimentos rotineiros, os problemas, as prioridades, as

dificuldades e sair do outro lado ainda como uma novidade. Mesmo

não sendo uma novidade nova, mas que ainda seja novidade, eterna.

19

Rafael Castel ar das Neves

Quero aprender como regar minhas plantas todos os dias para que,

ao invés de secarem, continuem a florir minha vida.

Não quero ser paisagem, me nego a terminar em uma

estante, empoeirado.

São Paulo, 15 de agosto de 2008.

20

Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

À Deriva

Atenta-te, nobre capitão!

Não vês que por águas traiçoeiras

Tripulas sozinho tua nave?

Acalmas o coração,

Aceitas a tua sina.

Não há como guiar-se,

Não estás numa canoa.

Teus homens já não estão,

Tuas velas em frangalhos,

Teus mapas borrados [queima-os e te aqueças].

As estrelas dançam uma valsa sarcástica

Sobre a densa névoa da madrugada.

Entrega-te à deriva.

Não adianta acenares o lampião,

O farol é intermitente e voluntário

E nesta noite não quer te responder.

Conforta-te, fizeras tudo que podia!

Beba teu rum, reze tua unção, salte da prancha,

Mas não espere pelo farol.

21

Rafael Castel ar das Neves

Nas rochas baterás antes do amanhecer.

Ninguém virá a seu socorro,

Talvez piratas ao que restar.

Náufrago nunca serás,

Pois já és cadáver, nobre capitão.

São Paulo, 04 de setembro de 2008.

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Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

Jardineiro Vazio

Pica terra pilada!

Sinta meu enxadão

Que brutalmente te viola.

Umedeça-te ao meu suor

Digno do dinheiro do patrão.

Enriqueça teus torrões estéreis

Com o esterco fresco que te presenteio.

Deleita-te com a água que te banho,

Sede não mais sentirás.

Abra-te para minhas sementes e mudas.

Receba-as como filhas.

Aconchega-as em teu ventre

E as faça crescer fortes e viçosas.

Venham pequenos brotos,

Sejam bem-vindos a este mundo cinza.

Despontem-se, brinquem ao sol, pequeninos.

Abram tuas folhas ao vento.

Definhem entorpecidos com o fumo

Pulgões malditos.

Apodreçam ervas daninhas,

Sufoquem-se no veneno letal.

Às pestes que ousam invadir o jardim:

23

Rafael Castel ar das Neves

Eu as excomungo desse mundo!

Desabrochem frágeis botões.

Banhem-se ao sol morno.

Sacudam tuas gotículas de orvalho

Que cheias de vida refletem um mundo todo.

Abram-se, tímidas pétalas aveludadas.

Transformem-se em coloridas flores delicadas

Embelezem nossa vista, façam a paisagem,

Como pequenas virgens saboreando o vento.

Pairem tuas fragrâncias sedutoras

Para que transbordemos nossos corações

Dos mais deliciosos e nostálgicos sentimentos.

[Suspira o jardineiro, contemplando o jardim com o peito amargo]

Mas de que me adiantam as flores

Se as raízes não possuo?

São Paulo, 21 de setembro de 2008.

24

Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

Menina da Vida

São os primeiros raios de sol

Que revelam seu corpo estirado,

Sob pedaços de jornais e papéis surrados,

Por entre galhos do jardim da praça.

Corpo que já foi de menina,

Hoje é nem de mulher.

Usado, espancado e lambuzado

Por demônios que lhe violam na noite.

Corpo fedido, objeto podre,

Latrina de vagabundos

Que nele despejam

As mais repugnantes pestes.

Corpo doente, revestido de feridas

Incrustadas, vazantes de pus

Que ressecam na sujeira

Encarnada em seu couro.

Corpo peneirado pelas picadas,

Pútrido pelas pedras que derrete,

Atrofiado pela cola que inala,

Calejado pela violência que lhe cerca.

A inocência nunca lhe visitou,

A infância lhe foi roubada,

25

Rafael Castel ar das Neves

De boneca nunca brincou,

Brincaram.

A face nunca maquiará,

Produzida nunca estará,

Desejada nunca será,

E esposa nunca terminará.

Está condenada por toda vida [se é vida]

Pelo crime de ter nascido.

Agora me enoja deitada e manchada

Pelo seu feminino vermelho mensal.

São Paulo, 26 de setembro de 2008.

26

Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

Cadê você?

Há duas quadras para casa e meu corpo desacelera,

Diminui o ritmo frenético da sexta-feira caótica.

A mente liberta volta-se a mim

E me traz as delícias da última noite.

Mais uma daquelas maravilhosas noites

Com você em meus braços,

Seu corpo aconchegado no meu,

Seus braços envoltos em mim, carinho.

Sua boca molhada me levando ao delírio,

Perdido em você, no calor do seu corpo,

Louco, entorpecido, descontrolado.

Pouco dormir, muito amar.

Abrir os olhos, encontrar você ao meu lado

E comprovar com os nossos corpos o amanhecer comum,

O iniciar memorável de um dia qualquer.

Ter você flutuando pela casa,

Se arrumando, se enfeitando, me encantando.

Mas abri a porta, às minhas costas a cidade em alvoroço

Todos eufóricos querendo chegar em casa,

Outros se preparando para a diversão.

À minha frente, a casa vazia.

27

Rafael Castel ar das Neves

Tudo quieto, escuro, sem movimentos.

Silêncio terrível!

As cobertas ainda jogadas como deixamos,

Pela casa, paira nosso amor.

Tenho seus rastros,

Sinto seu cheiro,

Procuro você,

Mas você não está.

Onde está você?

Onde está seu carinho que tanto me acalma?

Onde está seu sorriso que tanto me alegra?

Onde está seu olhar que tanto me encanta?

Onde está seu corpo que tanto me chama?

Não há o que ser feito,

Não há ânimo,

Não há razão,

Não há nós!

Venha travesseiro,

Dê-me colo, dê-me consolo,

Enxugue minhas lágrimas.

Acalme meu coração

E me prometa que um dia ela voltará para não mais ir.

Promete?

São Paulo, 26 de setembro de 2008.

28

Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

Ajude-me, por favor!

Olá!

Obrigado por ter vindo,

Quem é você?

Olá?

Acenda a luz,

Está escuro aqui.

Ei!

Sei que está aí,

Te ouvi!

Qual é seu nome?

Pode me ajudar?

Abra a porta,

Está muito frio.

Que bom que está aqui.

Ei, você está aqui, não é?

Por que não fala comigo?

Não me ignore, por favor!

Onde você está?

Me dê sua mão.

Ouço sua respiração,

Não consigo te ver.

29

Rafael Castel ar das Neves

Você está lendo, não está?

Então fale comigo!

Não fique aí parado, por favor!

Por que está fazendo isso?

Droga, está doendo!

Alguém aí, fale comigo.

Você ainda está aí?

Não? Alô?

Sei que está,

Sinto sua presença.

Quero sair, é ruim aqui!

Está se divertindo, não está?

Eu não.

Por que vocês sempre fazem isso?

Vêm, me ignoram aí sentados e calados

E depois se vão...

Ei?!

Se foi!

Fiquei.

Olá?

São Paulo, 18 de outubro de 2008.

30

Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

Entardecer

Com um festival de cores intensas

Pinceladas por todo horizonte,

Ludibria-me o sol ofuscante

Enquanto desce quente e ligeiro.

Abandona-me, covarde,

Em seu calor sufocante,

Que atordoa minha cabeça

E enfraquece meu corpo.

Faminta vem a boca da noite,

Engolindo o céu limpo e colorido.

Ele já se foi,

Estrelas salpicam-se.

Corre a última gota de suor.

Meu corpo se acalma,

O coração acelera apertado,

A vista descansa.

Luzes se acendem,

Ruas se desenham,

Vidas se revelam

Por janelas entreabertas.

O céu negro perdeu,

Agora é alaranjado.

31

Rafael Castel ar das Neves

As estrelas fugiram.

A cidade ainda está viva.

Aqui ainda está escuro,

Ainda está vazio,

Ainda está incerto.

A noite será longa e quente,

A cama desconfortável

E o barulho insuportável.

Talvez venha um sono leve,

Talvez a exaustão,

Ou quem sabe, a definição.

Tomara que venha o clarão!

São Paulo, 26 de outubro de 2008.

32

Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

Saudades de Lá de Casa

Ah, tempos áureos, memoráveis!

Preocupava-me menos e melhor.

Divertia-me em trotes ligeiros

Sobre lombo confortável,

Respiração ofegante,

Movimentos ousados.

Suava o corpo quente,

Sob a última fria neblina

De um sábado qualquer,

Por entre o capim tombado

Ao lamber das foices sedentas.

Balançávamos pendurados perigosamente

Aos bruscos trancos e solavancos

Da carroça descuidadamente carregada,

Por forcadas desengonçadas,

Feita um morro pontiagudo, sem recosto.

Refrescava-me à beira da lagoa.

Sol baixo, água à cintura,

Traíras enlouquecidas

Pelos restos ébrios de lambaris

Em uma dança insana na taboa.

33

Rafael Castel ar das Neves

Agora, nos sítios, paira o silêncio,

Daqueles que se foram ou desistiram.

Não há quem coma o capim,

A carroça está empoeirada,

As traíras esquecidas.

A vida evoluiu, se sofisticou.

Entre concretos e fumaças,

Apenas minhas lembranças

De uma vida que já foi plena.

São Paulo, 29 de outubro de 2008.

34

Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

Confuso? Eu?

Amarelo ou azul?

Agrada-me o azul,

Um pouco esverdeado,

Dourado, mediterrâneo.

Quente ou frio?

Frio, com certeza!

Morno também é agradável,

E uma tarde de sol vai bem.

Esquerda ou direita?

Direita, mais seguro.

Apesar de que sou canhoto,

Em mim tudo nasce de lá.

Certo ou errado?

Certo, mas que pergunta!

O errado tem seus sabores – confesso!

Delícias divinamente proibidas.

Noite ou dia?

Dia, sem sombra de dúvidas.

Se bem que os mistérios estão na noite,

E é nela que minha sanidade se perde.

Bom mesmo é um quente amanhecer

De céu azul-claro, em um dia incerto.

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Rafael Castel ar das Neves

Ou, quem sabe, uma noite fria e nublada

Refletindo, alaranjada, a cidade inquieta

Sob corpos deliciosamente enrolados por todos os lados.

São Paulo, 07 de novembro de 2008.

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Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

Voo Noturno

À janela de casa

Entre tragos e baforadas

Garras pegajosas e afiadas

Tomam-me delicadamente pelos ombros.

Suspenso em um voo calmo

Sobre a cidade com luzes a cintilar

Traçando um corpo instável e colorido

Emaranhado por veias entupidas pela euforia.

As formas se misturam, as luzes se sobrepõem,

E o meu demônio me revela o que os olhos evitam:

Uma prostituta que volta satisfeita,

Outra que rasteja roubada e violada.

Uma velha vasculha o lixo

Sentada à sarjeta, pútrida.

Outra, com pilhas de lixos e entulhos,

Divide o quarto em um cortiço escuro.

Num apartamento sujo de luz fraca,

Em uma orgia violenta e insaciável,

Garotos ricos se lambuzam com um travesti,

Antes de voltar aos seus lençóis limpos e cheirosos.

Entre becos, taças, esquinas, caviar,

Pariam o ébrio, torpor, sujeira, doenças,

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Rafael Castel ar das Neves

Indiferença, mentira, violência, intransigência;

E vagam zumbis condenados à existência infernal!

Em uma janela, atenta-me o demônio,

Há mais um, não apenas um,

Sujo como todos, mais podre que vários,

Entre tragos e baforadas, defumado!

São Paulo, 16 de novembro de 2008.

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Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

Vergonhas

Tenho vergonha das pessoas.

Tenho vergonha da cidade.

Tenho vergonha do que veem,

Do que pensam, do que falam.

Tenho vergonha do que visto.

Tenho vergonha do meu cabelo.

Tenho vergonha do meu andar,

Do meu falar, daquilo que vejo no espelho.

Tenho vergonha do seu olhar.

Tenho vergonha de lhe responder.

Tenho vergonha de apertar sua mão,

De lhe conhecer e de você a mim.

Tenho vergonha do que penso.

Tenho vergonha do que sinto.

Tenho vergonha dos meus atos,

Do meu jeito, dos meus métodos.

Tenho vergonha de sorrir.

Tenho vergonha de chorar.

Tenho vergonha de lutar,

E perder, e falhar.

Tenho vergonha de sonhar.

Tenho vergonha de desejar.

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Rafael Castel ar das Neves

Tenho vergonha de cair,

De voltar à realidade que não quis.

Tenho vergonha do que perdi.

Tenho vergonha do que não consegui.

Tenho vergonha do que conquistei,

Do que ganhei, do que joguei.

Tenho vergonha de não lutar.

Tenho vergonha de me esquecer.

Tenho vergonha de me perder,

Não me achar, não mais ser.

Tenho vergonha de não conseguir.

Tenho vergonha da desilusão.

Tenho vergonha de me conformar

Com minhas fraquezas e me aceitar.

Tenho vergonha do que sou.

Tenho vergonha do que fui.

Tenho vergonha das minhas vergonhas,

De mim, para mim, assim.

São Paulo, 24 de novembro de 2008.

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Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

Soneto de Conformação

Só após percorrer todas as estradas,

Enveredar por todas as picadas,

Amargurar-me com todo o meu pranto,

Encontrei aquilo que buscava tanto:

A parte separada no banquete,

À minha forma toda esculpida,

Agora vem nessa viagem só de ida

Comigo. Tome o árduo e pago bilhete.

Amor que me faz completo, feliz!

Que mesmo em dia chuvoso faz-me rir,

Que a um simples sorriso seu, me bambeio.

Sonho idealizado, agora real

De tão perfeito, vivido não pode.

Feito areia, voa de mim no vendaval.

São Paulo, 29 de dezembro de 2008.

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Rafael Castel ar das Neves

Chova-me, Chuva!

Tudo misturado, confuso.

Centenas de pensamentos,

Milhares de sentimentos,

Nenhuma certeza.

O calor frita meu cérebro,

Enseba minha pele,

Molha minha camisa,

Incha meus pés.

Lá fora, nuvens escuras,

Irrompem em ódio e terror,

E anunciam meu alívio.

O céu rasgam a trovoadas,

Misturam-se em devaneio,

Metamórficas.

A poeira já cheira molhada,

O rosto já respira úmido,

O corpo já se fresca ao vento,

Não mais me sinto.

Véus d’água despencam livres,

Em uma dança sensual

Ao sabor do vento.

O corpo se espalha pelo chão.

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Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

Lava o ar,

Lava o telhado,

Lava o chão,

Lava-me as entranhas!

Pronto, estou pronto.

Devolva-me a vida,

Renovada, pura, limpa.

Leva-me pela enxurrada!

Estou pronto para tudo,

Como nunca quis estar.

São Paulo, 01 de dezembro de 2008.

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Rafael Castel ar das Neves

Palhaço

Cansado palhaço?

Com essa maquiagem não se pode saber.

Nunca se sabe como você está,

Cada dia é uma:

Lágrimas escorrendo de olhos tristes

Por cima de um sorriso invertido;

Ou olhos esbugalhados com pestanas altas

E uma gargalhada sem limites, rasgada.

Mas isso não importa,

Servem apenas para lhe esconder.

Esconder o que sente, o que é.

Os risos não vêm de suas acrobacias

Muito menos de suas habilidades,

Mas de seus tombos, dos tapas que toma,

Das decepções que encontra, da sua desgraça.

A corda bamba não pode atravessar,

Tem que cair.

Da cartola não pode tirar um coelho,

Tem que explodir.

Dos trapézios não pode rodopiar,

Tem que se misturar à serragem.

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Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

À desgraça está condenado, pois é palhaço!

Agora, sem maquiagem, personificado:

Saia deste espelho, assim ninguém lhe quer.

Nem eu!

São Paulo, 05 de janeiro de 2009.

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Rafael Castel ar das Neves

Meus caminhos: minha vida

São diversos os caminhos que compõem minha vida.

Caminhos dos mais diferentes e inusitados tipos, como aos de muitos,

Mas meus caminhos são os meus caminhos, feitos para mim.

Caminhos que definem o meu eu,

Não por semelhança e nem por forma,

Mas pelo como foram percorridos,

Pelas maneiras que foram vividos.

Caminhos formados, prontos, dados,

Dos quais nem retas pude escolher,

Nem curvas pude angular,

Apenas decidir se ir.

Caminhos pelos quais me vou, me fui, estou.

Caminhos que me entregam a diversas encruzilhadas,

Que me arrepiam o corpo, que me gelam a alma,

Onde eu tenho que escolher o para onde seguir.

Encruzilhadas deviam ter placas: bom e ruim;

Mas apenas são encruzilhadas [é onde mora o sentido da vida].

E diante destas encruzilhadas revejo minha vida,

Revejo os outros caminhos que escolhi,

Passo por outros caminhos de outros.

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Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

E é o próprio caminho que me leva de volta às outras escolhas.

Aquelas.

Mas não a elas, mas próximos delas.

Longe o suficiente para não me permitir perceber a corretude da

minha decisão.

Olho para trás, nada existe, nem minhas pegadas;

Apenas um infinito abismo repleto das minhas lembranças:

Lembranças daqueles que fui, daqueles que me transformei,

daqueles que já não mais sou;

Transbordando minhas dores, meus sorrisos, minhas lástimas e meus deleites.

À minha frente, decisões, curvas perigosas, pontes velhas e quebradas.

Às vezes tenho vontade de me sentar, chorar e, talvez, esperar que

uma reta plana se forme.

O medo me toma conta, a insegurança me consome, minhas pernas

falseiam.

Mas é a esperança de caminhos melhores e de uma chegada completa

Que me faz persistir, produzir forças e continuar o meu caminho.

A simples possibilidade da plena felicidade idealizada em meus sonhos acordados

Faz com que eu prefira eternamente pagar o preço de me aventurar

por e para ela,

Ao invés de me sentar e passar uma vida e meia imaginando se

valeria à pena.

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Rafael Castel ar das Neves

São meus caminhos, que formam a minha estrada.

Apenas uma de muitas, mas minha: única!

Nela nasci e nela serei finito, e assim, será sabido seu fim.

São Paulo, 08 de janeiro de 2009.

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Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

Improvavelmente...

E foi numa noite desta que o improvável deixou de sê-lo para tornar-se impossível.

E por improvável, história não pode ser, pois nunca existiu.

Existiu em mim e em mim foi verdade, foi futuro: improvável,

impossível.

E em mim será lembrança, terna e eterna, sem permissão de ser

minha própria história.

Talvez, vez ou outra, possa ser provável em meus sonhos. Sonho!

E quando tudo sucumbiu, entre poeiras e ruínas, pude ver a mim

mesmo, novamente.

São Paulo, 15 de janeiro de 2009.

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Rafael Castel ar das Neves

Naquela Mesa de Bar

Sentado desacreditado à mesa do bar,

Estrategicamente escolhida para impedir que as minhas tristezas

Das vontades e desejos fracassados não se espalhem pelo ambiente,

Disfarço minha carranca melancólica buscando a diversidade com os

olhos ébrios.

Encontro distração e afago nas outras mesas: sorrisos, gargalhadas

rasgadas, flertes,

Segredos abertos, sentimentos declarados, corações transbordantes,

toques delicados por debaixo das mesas, perdões concedidos e condenações aplicadas a réus que nem ao menos sabiam de suas

acusações.

À minha frente meu copo e meu cinzeiro enchem-se e esvaziam-se

em frenético descontrole.

Ao redor, os céus em forma de nuvens enegrecidas, horripilantes,

como que enviadas para o castigo anunciado.

Ventos gélidos começam cessar e o silêncio parece pairar.

Dentro, um vazio corrosivo, ardente, inquieto que perpetua sob a

anestesia etílica.

Como se tudo se calasse e passasse a movimentar-se e acontecer de

forma lenta,

Fica apenas o eu, e são meus olhos que não veem o resto e meus

ouvidos que ignoram o todo.

Meus sentidos se afloram e sinto um leve calor me tocar na nuca,

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Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

Meu copo, meu cinzeiro e eu estendemos nossas formas em translúcidas sombras à mesa.

Tenho forma, tenho contorno e tenho meio.

Às minhas costas, o sol, moleque ligeiro, mostra-se em seu pôr com

cores maravilhosamente indescritíveis.

É como se anunciasse a renovação, o renascer, a esperança perdida.

Meu peito enche-se tão rápido quanto as nuvens que corrigem o

pequeno desleixo e me retornam à escuridão de mim mesmo.

Não era o fim, mas o meio, um fôlego!

É hora de ir, não me encaixo nesta paisagem.

São Paulo, 15 de janeiro de 2009.

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Rafael Castel ar das Neves

À Minha Espreita

Sei que está aí, me seguindo soturna como cobra furiosa, transbordando veneno.

Há tempos tem rondado meu caminho, escondendo-se nas minhas

sombras, não é?

Lhe vejo nas curvas da estrada, do outro lado da rua, no carro que

vem, no homem que se vai.

No meu retrovisor, sentada no banco de trás, sorrindo para mim.

Irônica!

Seu olhar me arrepia, seu sorriso me petrifica, minhas mãos gelam,

ao simples lhe notar.

Meu coração dispara e o sossego me some,

Minha testa se derrete em um suor frio e incontrolável. Sádica!

Está se divertindo, não está?

Não é capaz de se satisfazer nem mesmo com este genocídio purificador?

Se aquiete, descanse, tem feito muito ultimamente. Tire umas férias.

Haverá outros sem oportunidades com quem poderá se ocupar.

Não ouve os pedidos? As preces? As súplicas? Ora, deleite-se!

Agora vamos, saia de trás dessa porta e volta!

Diga a ele que agora não. Quem sabe depois, mas não agora.

Não é a hora, não quero, não lhe permito: há muito que ser feito, e

o será!

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Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

Não adianta, lhe ignoro, lhe excomungo, rio de você. Criança!

Apenas espere por mim. Longe de mim.

Prometo que quando decidir, lhe chamo. Mas não agora!

São Paulo, 25 de janeiro de 2009.

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Rafael Castel ar das Neves

Dedos Podres

Sou o vinagre que impregna sua água,

Sou o óleo que mancha seus rios,

Sou a praga que avassala sua plantação,

Sou o vento que tomba seu lar.

Sou a fome que leva suas crianças,

Sou a guerra que limpa o mundo,

Sou o ódio que seleciona os puros,

Sou a excelência que condena os culpados daquilo que não fizeram.

Sou a sujeira debaixo de suas unhas,

Sou a violação da rua de trás,

Sou a intolerância que arrebenta a carne,

Sou o dedo podre que cutuca sua ferida pútrida.

Sou a arrogância que lhe rebaixa aos porcos,

Sou a ostentação que lhe remete ao nada,

Sou a ordem que atropela seus desejos,

Sou a lei que lhe rouba a felicidade.

Sou a noite que chega eterna,

Sou o frio que lhe tranca em si,

Sou a angústia que lhe corrói,

Sou os pesadelos vivos que lhe perpetuam a insônia,

Sou a peste que envereda por suas veias,

Sou o câncer que lhe come viva,

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Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

Sou o demônio que lhe acompanha à esquerda,

Sou o pecado que calam os santos.

Sou o êxtase que lhe contorce o corpo enlouquecido,

Sou a felicidade que lhe faz tudo ter sentido, sendo.

Sou o amor que se enerva em suas vísceras,

São meus braços que lhe envolvem na noite fria, junto ao meu peito

– onde pode descansar.

Durma!

São Paulo, 09 de fevereiro de 2009.

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Rafael Castel ar das Neves

Sonsatez

Hoje entendo essa minha estranha capacidade de perceber as coisas

que acontecem ao meu redor.

Percebo-as por mais miúdas que sejam, por mais rapidamente que

desapareçam, por menor que sejam suas intensidades, mesmo nas

mais escuras sombras em que tentam escondê-las.

Em algum momento, acreditei quer era um daqueles presentes divinos, um dom, um poder.

Excomungo!

Não tem nada de presente, nem é um dom, é uma

maldição...maldita!

Quem me dera ser eternamente pleno daquela inocência pueril que

apenas me permitia sentir a bondade das pessoas e tecer as mais

prazerosas e profundas relações.

Quem me dera ser tapado o suficiente para não entender as armadilhas que meus queridos me preparam; apenas as dos pássaros.

Quem me dera não ter tido esta curiosidade pela vida que desde

meus primórdios me faz descobrir, às duras custas, verdades que

pensava não existir em meu mundo.

Quem me dera ser bicho do mato, selvagem, para não ter aceitado o

cabresto e ter podido correr para longe do entendimento, de volta

para minha toca.

Queria não entender as mensagens ocultas reveladas pelos olhos

infiéis – contraposições às palavras e atos.

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Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

Queria ser analfabeto de instinto a ponto de não ler nas linhas,

quiçá entre elas.

Queria ser tão gélido quanto necessário para manter-me petrificado,

impassível fronte aos mais desejados e temidos sentimentos.

Irredutível, inabalável.

Precisaria de uma pitada de sonsatez na minha para que ela pudesse

ser mais leve e vivível, prezível.

Pensando bem, preciso é de um porre disso!

São Paulo, 26 de fevereiro de 2009.

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Rafael Castel ar das Neves

Carta de Despedida

Entendo que neste momento há muito o quê se perguntar,

mas digo que não há muito a se dizer. Antes de qualquer coisa, não

pretendo, aqui, justificar os fins, mas quem sabe explicar um pouco

dos meios.Sei que nunca fui, e nem quis ser, exemplo de coisa alguma

– talvez possa ter sido daquilo a não ser ou se fazer. Mas as coisas

tomaram proporções terríveis para mim. Não tenho conseguido suportar. Meus dias se tornaram cinzentos, iluminados apenas por

uma penumbra que, para falar a verdade, nunca entendi de onde

vinha. Tornei-me amargo. Meus machucados devem ter se

transformado em calos, pois fiquei duro, cascudo, arredio. Passei a

me esquivar das cosias que poderiam, mesmo remotamente, incitar

meus sentimentos. Não tinha mais controle sobre eles, então tentei

mantê-los quietinhos, lá dentro, lá no fundo. E a ausência destes

sentimentos me deixou seco e, confesso, até mal educado. Tornei-

me algo insuportável, negativo, sempre se lamentando entre meus

amigos. Aliás, afastei quase todos de mim, os que restaram foram

aqueles que tinham uma incrível capacidade de me suportar, alimentando uma quase eterna paciência, e lhes agradeço por isso.

Enfim, passei a ser a maçã podre do cesto e tive que sair.

Não seria justo que os meus problemas tão bem nutridos por minha

insatisfação, que meu pessimismo tão bem disseminado, que minha

aspereza que tanto fiz questão de esfregar na cara de quem me

estendeu as mãos, afetem as vidas daqueles que tanto me querem

bem.

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Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

Cansei de lutar e não chegar a lugar algum. Cansei de

tentar e pagar preços por aquilo que nunca consegui ter e quando

tive não fui capaz de manter, lamentável. Como disse Camus: Somos responsáveis por aquilo que fazemos, o que não fazemos e o

que impedimos de fazer. E diante desta máxima, entendo que, na

verdade, tive apenas um único problema: eu! E como meu

responsável, usei meus poderes para resolver minha situação. Apesar

de egoísta foi o modo mais eficiente que encontrei.

Aos meus amigos: meus profundos agradecimentos por

fazerem parte da minha vida, por sempre me apoiarem, por sempre

me emprestarem os ombros e por me proporcionarem os melhores

momentos da minha vida.

Aos meus colegas: meus sinceros votos de sucesso, que

vocês se tornem cada vez mais especiais e brilhantes em seus caminhos.Aos meus amores: minhas saudades, meus carinhos, meus

desejos, meus mais profundos e verdadeiros sentimentos, minhas

desculpas por não ter sido aquilo que lhes prometi, não ter seguido

nossos planos e ter partido sem mais nem menos, sem nunca olhar

para trás Ao meu amor: o maior amor que senti em toda a minha

vida, os meus melhores momentos, meus melhores carinhos, meus

mais profundos desejos, minha vida. Saiba que lhe amei como nunca amei ninguém, lhe desejei como nunca desejei alguém, nunca

tive com ninguém o que tive com você. Você foi a melhor coisa que

aconteceu em toda minha vida! Nunca esquecerei seu cheiro! Me

desculpe por não ter aguentado lhe esperar.

Aos meus irmãos: minhas mais dolorosas desculpas, por

partir, por ser intolerante e causar tantas brigas, tantos arranhões,

tantas injustiças. Sei que haverá sempre um vazio entre vocês, mas

59

Rafael Castel ar das Neves

talvez seja melhor que um preenchimento amargo. Meus discos,

meus livros, tudo, fiquem à vontade. São para vocês, sem brigas,

hein?!

Aos meus pais: obrigado pela oportunidade e por tudo

aquilo que o amor de vocês me proporcionou. Mas me desculpem,

não fui sábio o suficiente para mantê-la, fui fraco e covarde. Perdão

pelas decepções, pelas notas baixas, pelas brigas com meus irmãos,

pelas travessuras, pela ausência e agora, por partir. Ah, mãe: na

verdade, fui eu quem colocou aquele sapo na sua gaveta de calcinhas

e não minha irmã, como eu havia dito.

A todos: todo o meu amor (sim, é verdadeiro e enorme,

mas minha dor é maior), todos os meus mais sinceros sentimentos e

minhas eternas desculpas, mas não dá mais! Quando se lembrarem

de mim, imaginem que fui viajar para um lugar distante, não em

busca da minha felicidade, já que sempre justifiquei todos meus atos

com essa infinita busca frustrada, mas em busca do meu lugar, do

meu sossego, da minha paz.

Levo comigo meus sonhos, minhas idealizações, meus

objetivos de vida, minhas supostas razões para ser feliz. Não os

compartilho, porque foram os meus maiores erros: sonhei demais e

meus sonhos se tornaram suficientemente enormes dentro de mim

que transbordaram e inundaram minha realidade, afogando todos os

meus sentimentos, afinal eram sonhos e sonhos que não consegui

realizar, nem chegar perto, por minha tão grande culpa!

Seja lá para onde eu esteja indo, levarei um pouco de cada

um de vocês comigo, senão tudo. Sei que desculpas não são suficientes, mas é o que me restou: desculpem-me! Saibam que

estarei melhor assim!

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Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

Adeus!

P.S.: espero que a toalha molhada no pescoço tenha

ajudado, não queria estragar também o funeral.

São Paulo, 22 de março de 2009.

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Rafael Castel ar das Neves

Na Praça

Lá vai mais uma vez o movimento de fim de tarde pela praça.

Um alvoroço de pessoas cruzando-a rumo ao ponto de ônibus e

metrô,

Excitadas rumo ao lar, à família, aos amigos, aos amores.

Fracos raios alaranjados do sol cruzam as densas copas das árvores

Amornando as já gélidas brisas de outono.

Uma mistura que preenche meu coração e desperta sensações adormecidas em meu corpo.

Sensações de um tempo em que tudo era possível, tudo era seguro e

tudo era vida.

Aos poucos as cabeças diminuem, a escuridão se aproxima

O alaranjado evade os céus e toma lugar nos postes, agora,

Folhas desprendem-se ao vento frio,

Os barulhos são diferentes, são aqueles dos que bebem nas esquinas,

esquivando-se do retorno.

As horas passam, os bares se calam, apenas uma ou outra lamentação

ébria.

Complexas arquiteturas dos antigos edifícios dão lugar a formas

assombrosas,

Prostitutas e travestis tomam postos sob os postes, como enfeites sob

um abajur.

Sombras abrigam agulhas e restos amassados de jornais cobrem corpos trêmulos.

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Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

Fregueses vêm, consumidores se vão,

A fina névoa traz o frio da madrugada, dividindo lugar o denso

silêncio

Rompido pela coruja faminta e tosses tuberculosas.

Ninguém nas ruas, nada se move, tudo é um nada – uma pintura.

Hora de ir, já vem o sol delator

Expondo corpos caídos, frios, entorpecidos, contaminados.

Vidas agonizam em películas plásticas.

O leve calor matinal saúda com o ardente odor de urina

Aqueles que retornam a mais um dia infernal.

São Paulo, 30 de março de 2009.

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Rafael Castel ar das Neves

A Pena que Lhe Cabe

Ei, carcereiro! Traga-me um pedaço de pano velho.

Permita-me pelo menos uma noite aquecida,

Estas pedras são úmidas e frias.

Que tal um pedaço de pão duro?

Meu estômago dói, aquela sopa e mim já não para

E o limbo das pedras já não mais tempera minha língua calejada.

Ei, carcereiro camarada! Uma caneca de água da sua torneira seria

providencial.

Há tempos não sei o que é uma água amarelada,

Esse grosso lodo que me serve se arrasta pela minha garganta.

Não, não jogue esta ponta de cigarro!

Chute-a para mim, deixe-me sentir novamente a fumaça entranhar-

se pelo meu corpo,

Acariciando meus nervos esfarrapados.

Deixe-me sentir algo!

Ei, velho carcereiro! Conte-me uma de suas histórias,

Deixe-me conhecer um pouco de você, minha mente viajaria por

caminhos diferentes.

Conte-me uma piada sem graça!

Bem que você poderia afrouxar estas algibeiras,

Não tenho para onde ir, nem como ou porque fugir!

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Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

A grade é demasiada grossa, cada pedra desta parede pesa mais que

dois de mim.

Ei, amigo carcereiro! Estamos juntos há tanto tempo, não me negue

um favor,

Só me resta a eternidade da minha vida para toda a minha pena

pagar.

Conceda-me um gosto, um gozo, apenas desta vez!

Não ria! Não dê de ombros! Não me dê suas costas, volte aqui!

Não, por favor, não apague a vela! Não!

Carcereiro? Carcereiro?

Foi-se, maldito carrasco!

São Paulo, 02 de abril de 2009.

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