Desce Mais Uma! - Segunda Rodada por Rafael Castellar das Neves - Versão HTML

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DESCE MAIS UMA!

SEGUNDA RODADA

Todos os direitos autorais sobre este conteúdo estão

registrados na Fundação Biblioteca Nacional do Brasil:

Nº: 533.123 Livro: 1013 Folha: 232

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RAFAEL CASTELLAR DAS NEVES

DESCE MAIS UMA!

SEGUNDA RODADA

EDIÇÃO PRÓPRIA DO AUTOR – 2013

Literatura Brasileira – Poesias

Saiba mais sobre esta e outras obras em: Desce Mais Uma!

Esta obra foi licenciada sob uma Licença Creative Commons: Atribuição - Não Comercial

- Sem Derivados 2.5 Brasil.

Você pode copiar, distribuir e exibir, desde que seja dado crédito ao autor original.

“Pegue sozinho o que puder, mas não entregue-se sozinho em

outras mãos; pertencer a si mesmo – aí está todo o truque da vida!”

Ivan Turguêniev

Sumário

Prefácio..................................................................................................1

Mais um Dia de Verão Paulistano..........................................................2

Eterna Companheira..............................................................................4

Sem Sentidos.........................................................................................6

Aqueles Nossos Rostos..........................................................................8

Paraíso Meu.........................................................................................10

E Se...?..................................................................................................12

A Devida Proteção................................................................................15

Transição..............................................................................................18

A Sagrada Refeição..............................................................................20

Adorável Proibida................................................................................22

Insônia.................................................................................................24

De Volta Ao Fim do Mundo..................................................................26

Vida Falada...........................................................................................28

Diferentes Nomes................................................................................30

Visionário.............................................................................................32

Inútil Busca Eterna...............................................................................34

Inconsistências.....................................................................................36

Mansa Morada.....................................................................................38

Desenformado.....................................................................................41

Encantadoramente Passageira.............................................................43

Carta Ao Inimigo..................................................................................45

Sonho Vivido........................................................................................48

Da Festa À Realidade...........................................................................50

Precipício Meu.....................................................................................52

A Cabana..............................................................................................54

Grandioso Galho Qualquer..................................................................55

Ondas, e Adeus....................................................................................57

Plenitude Própria.................................................................................59

Meu Ranchinho Paulistano..................................................................60

O Último Amigo...................................................................................63

O Alívio do Fim.....................................................................................65

Renascimento......................................................................................67

Uma Esmolinha, Pelo Amor de Deus!..................................................68

Uma Esmolinha, Pelo Amor de Deus?..................................................70

Vivo Hoje..............................................................................................72

Chão Surrado.......................................................................................73

Das Próprias Profundezas....................................................................74

Terra Firme..........................................................................................75

Uma Maçã: R$ 1,28..............................................................................77

Quando Me Dei Conta.........................................................................80

Condenado a Viver...............................................................................82

Ponto de Ônibus..................................................................................83

Num Cigarro.........................................................................................85

Carta Ao Meu Eu-Passado....................................................................87

Carta Ao Meu Eu-Futuro......................................................................89

Deliciosamente Enfeitiçado.................................................................91

Água Dura............................................................................................93

Querência de Você...............................................................................94

A Arte de Viver.....................................................................................95

Enfim, Só..............................................................................................98

Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

Prefácio

Diante de tantas dificuldades com as editoras e gráficas de

elite para produzir e publicar um livro, resolvi disponibilizar meus

livros gratuitamente em formato eletrônico.

Ainda comemorando os cinco anos do meu blog “Desce Mais

Uma!” , apresento a você o “Desce Mais Uma! - Segunda Rodada”: a antologia das minhas poesias, crônicas, contos e ensaios escritas e

publicadas entre 2009 e 2010.

Tenha uma ótima leitura e conheça mais trabalhos meus em

“Desce Mais Uma!” .

Rafael Castel ar das Neves

Santa Gertrudes, 27 de julho de 2013.

1

Rafael Castel ar das Neves

Mais um Dia de Verão Paulistano

Passa das seis da manhã e o Heródoto continua insistente

no rádio relógio atrapalhando a extensão da minha noite mal

dormida por causa calor. Arrasto-me da cama para o banheiro e

percebo o sol intenso e branco que invade pela janela do

apartamento abafado. Com muito esforço, lutando contra a

sonolência, compreendo que estou no começo de mais um dia

daqueles.Já mais acordado e trocando de roupas, abro a janela do

quarto para ver o tempo lá fora e sou recebido por uma pancada de

ar quente e seco que irrompe sem pedir licença e me entorta a boca

em decepção. O céu está limpo e de um azul esbranquiçado. O sol

está forte e claro, já alto e castigando o mundo. A lua ainda paira

alta e ousada. E por mais incrível que seja pronto para partir e de

mochila nas costas, pego meu guarda-chuvas e vou para a luta!

E lá se vão as quatro quadras até o metrô, com direito a

uma ladeira irritante e calçadas irregulares, cheias de buracos, hoje

adornadas por galhos e lixos da noite anterior. Mesmo procurando

por sombras, chego ao metrô completamente molhado de suor. E

este calor, este suor, esta sensação de desconforto me persegue

durante todo o dia, como se a correria do trabalho não fosse

suficientes. E não são!

O dia se passará com todas as reclamações possíveis e logo

mais, os céus anunciarão mais um despejo insatisfeito de águas e

ventos por toda a cidade. Raios completarão o espetáculo que será

concretizado pelo caos. Ruas estarão inundadas, veículos

danificados, transporte impossibilitado, casas invadidas pela água

2

Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

que destruirá aquilo que se levou uma vida para conquistar, pessoas

estarão ilhadas sem poder ao menos voltar para casa, crianças presas

nas escolas, trânsito, rios enfermos – ditos como curados –,

imundice e doenças pelas ruas e calçadas, famílias desamparadas,

mortes e revoltas!

E assim será mais um dia de verão na cidade de São Paulo.

Um verão mais intenso que os outros, é verdade, mas com os

mesmos problemas de sempre, já tão conhecidos pelos concidadãos,

aos quais só restam a criatividade e a coragem; pois, a ajuda não virá!

Os tributos inconcebíveis e excessivos (em quantidades e

valores), não são suficientes? Que tal aplicá-los devidamente

conforme as propostas que os justificaram? Novas regras para o

IPTU são sancionadas, mais um aumento das tarifas de ônibus e

metrôs é imposto. Mas as casas e ruas continuam sendo inundadas e

destruídas, os ônibus mal conseguem circular – nem vou considerar

níveis de conforto – e agora nem o metrô funciona!

Minha ignorância não me permite entender por que

serviços e tributos com extrema importância, segundo sua essência,

são passíveis de aumentos, ainda mais quando mais necessários.

Oportunidade pela oferta versus demanda? Ou algum tipo de

penalização governamental ao cidadão pela destruição da natureza?

Não! É castigo mesmo!

Façamos nossa parte (pagar) e eles fazem a deles (cobrar), e

nos preparemos para aventura do dia!

Abraços a boa-sorte a todos nós!

São Paulo, 04 de fevereiro de 2010.

3

Rafael Castel ar das Neves

Eterna Companheira

Olá! Há tempos não lhe vejo!

Hoje vem do jeito que mais me agrada:

Plena, definida, radiando glamorosa.

Por onde tem andado?

Há tanto para lhe contar,

Tanto para lhe esconder.

Tanto para entender.

Tem vindo sempre?

Por que não me acordou? Senti falta do seu toque.

As coisas andaram um pouco complicadas por aqui.

Havia nuvens nos separando, estava escuro

E acabei me esquecendo de lhe procurar.

Bom acordar com sua luz invadindo meu corpo,

Aquecendo meu coração neste frio da madrugada.

Senti sua falta.

Lembra-se de quando iluminava minhas noites amorosas?

De quando eu apagava os faróis para ter a visão da estrada que só

você podia me dar?

Quando chorei escondido, quando sentia o amor transbordando em

meu peito,

Quando cambaleei triste para casa?

Tantas coisas juntos.

4

Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

Bom lhe ver de novo,

Iluminando os meus cantos – aqueles que eu mesmo não mais

conheço.

Bom saber que estou sozinho.

Esta noite poderei dormir, e será sob seu zelo.

São Paulo, 28 de abril de 2009.

5

Rafael Castel ar das Neves

Sem Sentidos

Em meus infindáveis pensamentos me pergunto como enganar esse

maldito retorno.

Já é um tanto óbvia a minha incapacidade frente ao meu obscuro eu.

Desculpas mil, efetivos apenas o tempo e as feridas.

Só me resta deixar de alimentar o que existe lá dentro.

Aquilo que me dita as regras, os atos, os sentimentos. Sufocá-lo de

si.

Um arame fino e maleável seria suficiente para furar

permanentemente meus tímpanos. Assim não seria mais preciso

ouvir votos falsificados, promessas abortadas desde a concepção,

palavras incapazes de serem sustentadas em pleno presente, que

apenas me arrastam encantado para o tão próximo nada inatingível.

Com uma faca de pão conseguiria destroçar toda minha cartilagem

nasal e ainda danar todo interior dessa fossa. Assim não mais sentiria

o perfume lascivo que me vira a cabeça e me condena o corpo, o

aroma dos pecados tão desejados que me saciam a alma, a podridão

das mentiras inconsequentes tão desconsideravelmente escarradas

em meu rosto.

Uma linha reforçada, conduzida por uma fina e pontiaguda agulha,

costuraria definitivamente meus lábios um ao outro. Assim não mais

propagaria meus malditos sentimentos, não semearia meus doentios

pensamentos, nem disseminaria meus tão questionáveis e

6

Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

indesejados desejos – que têm como única função serem armas

contra mim mesmo –, e, ainda, não mais saborearia um só pedaço

daquilo que só me é oferecido para que possa ser mais

prazerosamente negado.

Poderia ainda cravar uma colher abaixo das minhas pálpebras e

arrancar das órbitas, com um só firme golpe, meus já tão cansados e

insatisfeitos olhos. Assim não mais seria preciso ver aquilo que me

tenta, aquilo que me escondem, aquilo que me negam e nem aquilo

que causo.

Um machado de cunha bem afiada seria ideal para o fim. Erguendo-

o de todo o comprimento de nossos braços, em um único

movimento, poderia separar de mim a mão inimiga, para que não

mais sentisse a maciez apaziguante, os movimentos tranquilizantes, a

textura proibida e desejada, e nem mais quebrasse tudo aquilo que

toco na ânsia de trazer para dentro de mim.

Então, só me restaria ao amigo suplicar o último e mais importante

dos favores: que suspendesse o cabo pela ponta o mais alto que

pudesse e trouxesse o fio abaixo com toda sua força passando

despercebidamente pelo pulso derradeiro, livrando-me da mão

traidora – a única que poderia me negar toda esta libertação.

São Paulo, 04 de maio de 2009.

7

Rafael Castel ar das Neves

Aqueles Nossos Rostos

Eis que não a última, nem a primeira composição para bruscamente

em frente ao rebanho a se recolher, apartado em amontoados

tentando a qualquer custo se alinhar às bruscas porteiras que se

abrem e fecham aos solavancos.

Condicionados, ao abrir, estouram seringa adentro se esbarrando em

busca do lugar menos desconfortável, ou talvez mais cômodo,

agitados pela irritante campainha que lhes cutuca os tímpanos.

Corpos cansados escorados uns aos outros, amassados, sujos e

surrados das mais diversas lidas, das mais distantes pastagens –

difíceis até de imaginar.

Rostos! Ah, rostos!

Das mais variadas raças, formas e idades, com as mais diversas

expressões e olhares.

Desconhecidos, e talvez nunca revistos, que revelam histórias

inimagináveis, questionáveis, condenáveis, lamentáveis, irrepetíveis,

incontáveis.

Tem-se de tudo, de todos, para todos: tristeza, perda, traição,

fracasso, dúvida, insatisfação, solidão, decepção, abandono,

desistência, vontade, saudade, desejo, angústia, desilusão, revolta,

indignação, desconsideração, humilhação, desprezo, ignorância,

8

Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

arrogância, asco, irritação e tantos outros que só acontecem àqueles,

naqueles.

Ou será tudo apenas cansaço? Quem sabe ânsia do chegar?

Não sei, não se sabe, não se deve, nem se é! Quem é? Muito prazer!

E entre tantos, aos balanços, um me foi revelado, do outro lado,

olhando para mim, para dentro de mim, fixo e espantado, como eu.

Da mesma espécie, de outra raça, ou de todas, ou nenhuma, mas

não estranho.

É aquele que me acompanha, aquele que não conheço, que não

compreendo, que não me atentei, que perdi e que agora se alimenta

daquilo que de nós e a nós se revela desse nosso tudo.

Prazer em rever-nos! Seja bem-vindo!

São Paulo, 19 de maio de 2009.

9

Rafael Castel ar das Neves

Paraíso Meu

Quero todas as pedras no meu chão; nem pense em tirar uma

sequer.

Quero a mata densa e selvagem; não me venham com ou veredas

paradisíacas que terminam em suas planícies verdejantes.

Quero corredeiras turvas e violentas por entre quedas rebojantes;

nada de seus córregos mansos e cristalinos.

Quero dunas nômades e escaldantes, famintas de mim; não me

venham com estradinhas de chão batido por entre pastagens baixas.

Quero montanhas escorregadias, cobertas de rochas soltas, paredões;

não quero um caminho sinuoso com corrimões do século passado.

Quero tropeçar em minhas pedras, quem sabe desviar de algumas

outras.

Quero abrir minhas picadas mata adentro; por a mata a chão,

construir minha planície.

Quero atravessar as corredeiras, aprender por onde nadar, onde

escorar. Desviá-la e criar o meu riacho.

Quero vagar pelo meu deserto, duna a duna, até conhecê-las todas,

por nome, e atenderem ao meu chamado.

Quero subir todas minhas montanhas, fazer rolar todas as rochas

soltas, conhecer cada trinca do paredão, colocar minhas próprias

estacas para a próxima subida.

E quando tiver medo, quando cair, quando me arrebentar,

10

Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

Vou tomar um fôlego do tamanho do mundo, vou firmar minhas

pernas, uma a uma, e vou me levantar, limpar meus joelhos ralados

e continuar.

Não negarei as mãos que me estenderem, mas as ferramentas.

E quando o abismo vier, vou correr com toda minha força em sua

direção,

Às gargalhadas, com olhar fixo, peito aberto, alma leve, sem olhar

para trás

E vou saltá-lo em um voo memorável, despejando sobre ele minhas

derrotas e minhas dúvidas,

Deixando um rastro do meu mais puro sarcasmo!

E quando, entre meus tombos, me for negado o direito de

continuar, poderei parar de respirar tomado pela incrível leveza de

poder amar com toda a minha intensidade tudo o que conquistei em

mim.

Não me lembrarei dos meus tombos, nem das minhas pedras, nem

das minhas lágrimas – quiçá seus motivos.

Mas me lembrarei de como foi maravilhoso me levantar naquela

manhã.

São Paulo, 23 de maio de 2009.

11

Rafael Castel ar das Neves

E Se...?

Quando você se pergunta:

“E se o momento não for o certo, ou se as coisas correm mais que o

calendário – ou o relógio?!

E se a poeira ainda não baixou, ou se as feridas ainda não fecharam,

ou se palavras ainda doerem e as lembranças ainda rondarem?

E se não for a pessoa certa, ou se for o começo de mais um fim, ou

se for pior dos infernos que volta a se formar?

E se as coisas saírem do controle, ou se ainda estão sob controle, ou

se é loucura?

E se for a coisa certa a se fazer, ou se for tudo o que foi procurado

agora batendo à porta, ou metade?

E se for um começo diferente, uma coisa diferente, estranha, ou

quem sabe algo predestinado?

Mas se não for isso? E se for o que sempre foi? E se estiver errado?

Está errado? Tudo?”

É quando eu lhe pergunto:

“E se o que está por vir for a pior das coisas? O pior dos fins - e não

o último?

E se não houver controle? E não houver como e porque controlar?

Mas e se for o fim? O maldito fim que tanto fugiu? Que tanto foi

procurado e buscado?

12

Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

E se for um começo único e último?

E se for tudo o que foi negado? E se for o motivo de tantos calos?

E se amanhã os ‘eu’ não mais o serem? E se amanhã a encontrarmos

esperando atrás da porta?

E se amanhã Deus se revelar um tirano sarcástico e der seu basta em

uma fúria incontrolável?

E se amanhã eu não puder lhe desejar ao menos bom-dia? E se estas

forem as últimas palavras?

E se esse amanhã for hoje? Daqui um pouco? Agora? Nem tchau?

E se amanhã não for nada disso e isso tudo se tornar apenas um

nada? Ido, passado, quem sabe lembrado ou até desejado, mas ido!

E se, seja lá o que for amanhã, se perguntar ‘e se?’ e a resposta for

‘não sei, quem sabe’?

Ninguém sabe e nem se importará, pois já foi!”

Larga suas pedras! Solta as correntes e liberta seus pensamentos, suas

perguntas, suas angústias e deixa-os voar para longe e lhe trazerem

sonhos para serem vividos: nesta vida ainda!

E quando assim escolher, olha em volta e me verá, pronto!

Caminhe em minha direção, faça-o a passos largos, de braços

abertos, sem sentir as pernas, mas o vento em seu rosto, e sorria ao

balanço único deste caminhar. Caminhe com seu todo, seu tudo!

13

Rafael Castel ar das Neves

E seus olhos brilharão aos meus, seu sorriso será gargalhada às

minhas, e flutuará a mim!

E quando a mim chegar, enxugarei suas lágrimas com meu rosto,

limparei seu sangue com meu corpo, fecharei suas feridas com meu

toque.

Perca-se em meus braços como me perco nos seus.

E será com o meu mais verdadeiro e mal-intencionado beijo que lhe

mostrarei que não estou nem atrás nem a sua frente, mas ao seu

lado, sem “e se”; apenas sendo!

São Paulo, 22 de junho de 2009.

14

Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

A Devida Proteção

Há alguns dias, voltando para casa, eu parei o meu carro

sob a luz vermelha de um cruzamento próximo de casa, em uma

praça emaranhada por pequenas ruas disformes. Era começo de

noite, já escuro, temperatura amena, bem aconchegante. Aproveitei

a parada para me espreguiçar como podia dentro do carro – mudar

um pouco a posição que era a mesma da última parada na estrada.

Passei os olhos pela vista e à minha direita, iniciando a travessia da

ruela adjacente, já sob a faixa de pedestres, vinha uma senhora de

idade bastante avançada e com sérias dificuldades para se locomover.

Vinha a passos frouxos e incertos, quase que tateando o asfalto antes

de firmar-se sobre cada pé. Abaixo de um pequeno e delicado gorro

pendiam cabelos grisalhos e cansados, não muito longos e indecisos

quanto à forma a ser tomada. Usava óculos de armação preta e

antiga. Vestia uma blusa de lã grossa, uma longa saia que mantinha

certa elegância, grossas meias e sapatinhos pretos – daqueles das

vovós e que há muito não via. Escorava-se em uma espécie de

bengala que prolongava seu corpo e terminava em quatro pequenos

pés, o que lhe dava mais precisão e confiança ao apoio, mas também

denunciava uma maior fragilidade em manter-se em pé do que se

podia perceber. A dificuldade em atravessar a rua era grande e de

cortar o coração. Arrastando-se e esforçando-se, ela escalou a calçada

e terminou a travessia alguns segundos depois do semáforo disparar

as buzinas atrás de mim.

É triste ver uma pessoa após uma longa vida ter que viver

sob situações deste tipo, que transformam um simples e corriqueiro

atravessar de rua em uma complexa e dispendiosa tarefa. Contudo,

15

Rafael Castel ar das Neves

definitivamente, não foi a dificuldade daquela senhora que me

chamou a atenção e me fez buscar o desfecho pelo retrovisor do

carro; mas aquilo que permitia que ela fizesse todo o percurso

apenas preocupando-se em manter-se em pé e adiante. Em

momento algum ela olhou para os lados ou levantou a cabeça, ou se

preocupou com a mudança do semáforo ou, ainda, se algum outro

carro vinha disputar a passagem. Durante toda a travessia, durante

todo o tempo, ela estava cercada por uma das mais bonitas,

confiáveis e mais respeitáveis proteções que já vi: a de seu esposo!

Era um senhor muito bem apresentado. Tinha uma

respeitável postura de movimentos ágeis. Não era luxuoso, mas

elegante. De calça e camisa sociais cuidadosamente dispostas,

sapatos engraxados e reluzentes e um paletó escuro que completava a

firmeza de sua figura. Durante todo o percurso da esposa, ele estava

em pé ao seu redor, acompanhando sua travessia a passos firmes e

gentis. Ia de um lado para o outro, girando sobre o próprio eixo,

mas de forma planejada e articulada, conforme a evolução da

situação demandava. Tinha olhares e gestos de atenção e orientação

aos que aguardavam o semáforo e, apesar da agilidade, em momento

algum teve movimentos abruptos ou questionáveis. Estava certo de

si e do que fazia. Marcou-me quando olhou em minha direção – que

pareceu olhar diretamente dentro dos meus olhos – e gentilmente

espalmou a mão esquerda em sua altura normal com o braço

próximo, mas não junto, ao corpo. Assim, pedia a atenção e o

cuidado dos demais, estabelecendo o perímetro que lhes era

necessário. E já próximo ao fim da travessia e também da mudança

do semáforo, posicionou-se ao lado da esposa, mas de costas para ela

e frente para o que viesse. Colocava seu corpo diante de qualquer

perigo que pudesse, ainda desavisado, aproximar-se dela. Foi quando

16

Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

as buzinas me fizeram continuar meu caminho e os faróis ofuscaram

os detalhes no meu retrovisor.

Fiquei realmente encantado com a serenidade e a firmeza

daquele senhor, elegantemente misturadas à sua gentileza e calma,

dando toda a proteção necessária para sua senhora “atravessar a rua”.

E o grande ponto de tudo isso não é a proteção em si, mas o como

ela era dada. Todos nós protegemos quem gostamos – e mesmo que

apenas nos convém –, mas existem diversas formas de proteger. A

proteção pode sufocar o protegido e até o protetor. Pode tornar-se

uma arma contra os envolvidos. E neste caso a proteção era

providencialmente aplicada – e posso dizer, sem nenhum remorso,

invejável.Apesar de poder, em momento algum ele a tocou, ela a

guiou ou ele a equilibrou. Não! Ele apenas deu as condições que ela

precisava para fazer o que tinha que ser feito. Não é uma proteção

que guia, que faz, que domina, ou que aprisiona; mas uma proteção

que permite que as coisas aconteçam por si só, da melhor maneira

que o protegido possa fazer. E, por isso, ela podia, literalmente,

caminhar com as próprias pernas, concentrando-se e dedicando-se

ao que precisava fazer, mas sabendo o tempo todo que ele estava ali,

para ela e por ela.

É pelo respeito ao protegido que digo que esta proteção é

respeitável. E insisto: completamente invejável e desejável. Quando

crescer, quero ser como ele! (Melhor correr, já estou atrasado!)

São Paulo, 06 de julho de 2009.

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Rafael Castel ar das Neves

Transição

Às vezes, outro despertar escuro com o amargor à boca

Do sangue velho transbordante das feridas latejantes que só fazem

lembrar.

À volta, fantasmas entrelaçam-se sorrateiramente em vultos

indefiníveis e sabidos.

Corpo estremecido e gelado, arrastando-se negado ao adiante.

Cabeça torturada por turbilhões de pensamentos e maldições,

incompreensíveis, inseparáveis, dilacerantes.

Pedras às mãos, braços rijos emaranhados ao peito desprotegido que

se apavora em tornar a ser morada.

Sorrisos expulsos pela frieza que toma lugar em todos os cantos,

esparramando-se pelas juntas e entranhas.

Petrificado por conveniência, arredio por necessidade!

E a lembrança do tudo retorna o que já não era.

Mas o tudo já ficou! Só restaram os espinhos encarnados que

lembram o tudo passado ao ferir o futuro impensado, numa ânsia

incontrolável de proteger o que foi cinicamente espedaçado pela

indiferença.

18

Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

Ainda que liberto de, após sobreviver heroicamente à assombrosa

guerra, estagna-se amedrontado frente ao inconsiderado libertar-se

para.

E assim, o que ficou ronda; e o que viria equilibra-se ébrio entre a

delícia do incerto e a certeza do nunca.

São Paulo, 14 de julho de 2009.

19

Rafael Castel ar das Neves

A Sagrada Refeição

O sol já passava do meio do mundo quando ele retomou os

ingredientes, disposto a cumprir a tão espedaçada promessa de uma

decente refeição dominical.

Os ânimos enrijeciam os nervos e a faca descia lenta, as mãos se

arrastavam desajeitadas e a atenção não existia, mas a receita seguia.

Arrastou o tempo o quanto pôde e, entre desligares de fogo e

pequenos afazeres inventados no último momento, conseguiu

preparar seu prato, com o acompanhamento já frio.

A mesa estava posta e decorada com migalhas das últimas duas

semanas.

Sentado à ponta, com um garfo torto escorado à mão, viu-se um rei

sem reinado.

Ouvia as gargalhadas das crianças brincando no pátio gelado sob o

pálido sol de inverno que custava a adentrar pelas vidraças

embaçadas e cortinas encardidas.

O ar era velho e denso de angústia e vapores oleosos das panelas

cansadas e condenadas ao gotejar da pia transbordante.

Olhou em volta: tudo era o que sempre fora, como sempre estivera,

no mesmo lugar, do mesmo jeito que deixara.

E o coração se espremeu quando, relutante, conformou-se que

somente compartilharia o tão digno momento da refeição com o

chiado rouco do velho rádio a pilhas na cozinha.

20

Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

Derrotado, fraquejou a mão e tombou o garfo.

Abandonou o prato gelado na despensa e o corpo cansado aos trapos

sujos no canto da cozinha, com apenas um pedaço de pão velho que

lhe arranhava a garganta seca ao descer contorcido.

E a distante possibilidade de uma fagulha, sequer, de dignidade,

desaparecera ao chegar das primeiras lágrimas já tão companheiras.

São Paulo, 03 de agosto de 2009.

21

Rafael Castel ar das Neves

Adorável Proibida

Entre tantas quedas, negações, alegrias, decepções, conquistas e

derrotas,

Você sempre esteve ali, graciosamente presente.

Não longe; perto, mas proibida – de tão completa, quase tocável.

Sorrindo de um jeito seu ao meu, através dessa parede de vidro.

Hora um passo atrás, hora um à frente, mas ali, no seu mundo.

Encantando-me com seu ser, com seus contos, me aguçando os

sentidos,

Afogando minhas dores, meus lamentos e meus temores.

Ternos e inesquecíveis foram os curtos momentos em que nossos

mundos se encontraram,

Entre desejos e quereres enrustidos e destratados.

Quisera eu, enfurecido e inconformado, por abaixo essa parede

E a você chegar com toda minha vontade – bicho-homem – e lhe

tomar em meus braços, antes da mínima reação.

Trazer seu corpo ao meu, com força e jeito, sentindo seus contornos

se moldando a mim.

Sentir seu corpo, trêmulo, perder o controle, enquanto lhe beijo

com todo meu ímpeto e toda vontade aprisionada, transformando

dois em um, fundindo nossas almas libertas!

Tomaria seu corpo e dele beberia sedento em um ninho qualquer,

22

Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

Onde despejaríamos nossa incurável insanidade e se tornaria um

leito invejável.

Seria mulher em mim, indomada, desejada, tomada, amada!

Mas ao quebrar essa parede, também levaria os meus cacos e meus

espinhos.

E mesmo que lhe alcançasse, o seu mundo é que seria posto abaixo.

Ao invés da sua ausência, que perpetuem os desejos e os quereres.

Ao invés de suas lágrimas, que brotem seus sorrisos verdadeiros e

encantadores.

Ao invés do sangue corrente em seu rosto, que paire, interminável,

seu cheiro pelo meu ar.

São Paulo, 18 de agosto de 2009.

23

Rafael Castel ar das Neves

Insônia

Numa noite dessas, em que tudo o que foi tão carinhosamente

preparado para o desfrute e vivência das promessas que se

concretizavam a cada dia,

Personifica-se a negação a pôr abaixo tudo aquilo que poderia ser

futuro. Um futuro.

Após o atropelo, impotente, o corpo se entrega cansado e os olhos se

fecham – por obrigação – e a mente não cessa.

Castiga o todo com um turbilhão de pensamentos, angústias e

dúvidas que arrebatam o que restava de talvez.

A cama torna-se um enorme tablado farpado.

O travesseiro se enrola a sufocar a vida.

O relógio faz greve e o cobertor trai.

O silêncio da madrugada irrompe por todos os cantos e frestas

Trazendo consigo os mais impensáveis e insuportáveis ruídos e

sensações.

Ouve-se à distância o bater descontrolado do coração inconformado,

Enoja-se às histéricas reivindicações abdominais,

Enfurece-se ao ranger arrepiante dos dentes massacrados pela

mandíbula nervosa,

Assusta-se aos jatos de sangue subindo zumbindo assustadoramente

pela garganta,

24

Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

Embaça-se a cega visão às lágrimas amargas que salgam os olhos

inquietos,

Contorce-se o corpo dolorido aos músculos enrijecidos e incrédulos.

O tempo que tanto tudo cura, não passa – nem vem.

A mente que tanto guia, não volta, mas se diverte.

A escuridão só enegrece e apavora aos vultos e fantasmas que gritam

e riem satisfeitos aos ouvidos.

E o pânico e a decepção entram em cena aos primeiros raios de sol

que anunciam a realidade de um pesadelo a ser vivido

Por entre noites e dias, segundos e horas, lembranças e amarguras,

sorrisos e lágrimas, esperanças e derrotas.

São Paulo, 24 de agosto de 2009.

25

Rafael Castel ar das Neves

De Volta Ao Fim do Mundo

Está acontecendo de novo, já vi esse filme e não quero ver de novo.

Quero voltar, para tudo, vou descer!

Não, não adianta me dizer que não; está tudo errado.

Chega desta mesma velha história, tão cansada, tão batida – não

pode ao menos inventar algo novo?

Aqui estou eu novamente: quilômetros, quilômetros e quilômetros

longe de casa,

À beira do fim do mundo, no escuro, bem onde fomos parar.

Pode ir, não precisa olhar para trás, sei muito bem como fazer, sei

como funciona.

Apenas vou tomar um fôlego, enxugar meu rosto e pegar meu rumo

de volta – de volta não sei para onde.

Casa já se tornou um abstrato e se ainda houver algo de concreto,

são escombros dispensáveis.

Para que tanto me pedir para não lhe deixar, para não lhe esquecer,

para não lhe faltar, para sempre lhe desejar se no fim é você, de

lábios ainda molhados, corpo suado e alvo definido, quem vira as

costas no primeiro obstáculo e de alma leve me faz engolir tudo a

seco?

Chega desse jogo ridículo.

26

Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

Sempre a mesma coisa: acordar num dia escuro e chuvoso, sozinho

no meio do nada e de tudo, com o corpo enjoado, a cabeça doendo

e ver suas promessas, seus carinhos, seus sorrisos deslizando pueris

no céu às gargalhadas sob desculpas esfarrapadas que espedaçam

nossos sonhos e não merecem o mais medíocre questionamento

vazio.

Voem, voem para longe, voem para o nunca mais!

E levem consigo suas piedades e suas boas resoluções e as escondam

debaixo da mais alta e assustadora montanha, pois nem os infernos

as merecem.

Eu gostaria de poder parar, gostaria de ter para onde voltar e nunca

mais acreditar.

São muitos anos, muitas vezes, muitas mentiras, muitos lugares,

muitas dores, tudo em vão!

Daqui continuamos eu e minha sombra!

Apenas seguirei o meu caminho, não importa para onde.

Habitarei em mim e serei meu mundo até a hora que eu me quebrar

e não mais me levantar.

Até lá, quanto mais mal resolvido, mais eu!

São Paulo, 08 de setembro de 2009.

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Rafael Castel ar das Neves

Vida Falada

Já me disseram que o Papai Noel não existe,

Que o coelhinho da páscoa também não.

Já me disseram que ser criança era melhor que ser adulto,

E que quando fosse adulto iria querer ser criança.

Sempre me disseram que eu era novo demais para aquilo que queria

fazer

E que tudo que queria fazer era perigoso.

Já me disseram que o mundo antes de mim era muito melhor,

E que no meu tempo tudo estava mudado, perdido.

Já me disseram que Deus me puniria diabolicamente se eu não fosse

bom,

Que o Brasil não teria mais jeito e que o mundo iria acabar.

Também me disseram que a vida é bela,

Que tudo nela está reservado pelo destino.

Que a vida é fácil e nós a complicamos

E que a felicidade está sempre aí e nós lhe damos as costas.

Já me disseram tantas outras autoajudas.

Alguns me disseram que o amor é uma pedra rara, real, eterno e

indefinível;

Outros disseram que o amor é entrega plena, cruel e perpétua ao

amado;

28

Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

Outros, ainda, que eu nunca soube o que é amar.

Já me disseram que me amavam, que eu era algo bom e único –

horas antes de partirem ou me pedirem para sumir.

Já me disseram que as pessoas são boas,

Que o bem sempre prevalece sobre o mal.

Já me disseram também que tudo passa, que tudo vai melhorar. [Por

si só?]

Já me disseram tantas mentiras, tantas hipocrisias e tantas outras

porcarias pré-fabricadas que em nada mais acredito.

Não me importam: canto a minha vida e rio para o resto!

Quer saber? Vou para o bar...

São Paulo, 21 de setembro de 2009.

29

Rafael Castel ar das Neves

Diferentes Nomes

Chamem-me de ignorante se não consigo entender os limites que

me são impostos,

Os sinais que estão ao redor ou simplesmente por fechar os olhos

para o que não me convém.

Chamem-me de teimoso se insisto em rondar as mesmas armadilhas,

Me embrenhar pelos mesmos caminhos e querer as mesmas coisas

que me são negadas.

Chamem-me de errante se no fim, arrebentado e calejando, volto ao

mesmo ponto de partida,

Trêmulo e fraquejado, levantando com dificuldades para um novo

tudo de novo.

Chamem-me de egoísta se me calei, se decidi manter o eu em mim e

dele apenas eu cuidar,

Por não poder ou não querer compartilhar aquilo que importa para

mim e que, no fim, é conto, piada.

Chamem-me de moleque se me perco em meus sonhos, meus ideais

e minhas sensações que transbordam de mim.

Meu coração ainda dança, canta e ri a minha vida!

Chamem-me de fraco se me entristeço, se sofro minhas dores ao

invés de ignorá-las – despreocupem-se, já são somente minhas.

30

Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

Chamem-me de imbecil se depois de tudo ainda escrevo e me firmo

nesse meu caminho,

Mas jamais, jamais, me chamem de covarde – jamais!

O que não me falta é coragem para continuar minha caminhada em

busca de tudo aquilo que realmente me importar, que me

completar, que me fizer.

Invejem-me ao me verem, em meio a tudo, ainda arrebentado,

caminhando a passos largos, peito enorme às gargalhadas e coração

em paz, rumo a mim mesmo.

Assoviemos!

São Paulo, 28 de setembro de 2009.

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Rafael Castel ar das Neves

Visionário

É bonito aqui na praia, não é?

Estava calor hoje, muito; mas agora está bom.

O sol está se baixando e o vento é fresco.

As águas estão calmas, olha, olha os barcos voltando!

Olha o céu! Não é mais azul, está alaranjado.

Não, róseo. Não, é quase roxo. Ah, são muitas cores.

E esse vento? Que sensação, me leva o cansaço e me refrescam as

gotículas.

Tantas lembranças boas! Sinto-as!

Veja as aves aos bandos. Estão brincando, não estão?

Acho que estão fartas, veja! Não, ouça! Ouça como cantam, como

gritam!

Estão voando em círculos, não estão? Que nada, estão se divertindo!

Aposto que você não esperava por isso, não é?

Eu não! Era para ser apenas mais um dia longo e cansativo.

Veja como tudo mudou e tornou-se agradável,

Até sorrio, está vendo?

Mas o que estava eu falando, mesmo?

Ah sim, lembrei! É que...

Ué!

Cadê você? Onde se meteu?

32

Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

Mas...

[Olhando para trás, vê apenas as suas pegadas, por todo o caminho.

Senta-se e contempla incrédulo o velho estofamento amarelado das

paredes.]

São Paulo, 05 de outubro de 2009.

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Rafael Castel ar das Neves

Inútil Busca Eterna

Foi em busca das minhas planícies verdejantes,

Dos meus vales intocados,

Dos meus aconchegos prometidos,

Dos meus desejos insaciáveis,

Das minhas metades separadas no banquete,

Das minhas vontades insanas,

Que cruzei desertos escaldantes,

Desbravei florestas amaldiçoadas,

Movi montanhas, abri mares,

Atropelei pessoas – eu mesmo –,

Lancei bombas, derrubei exércitos,

Levei a fome, alimentei,

Machuquei os que curei – e curei –,

Aqueci os friorentos e então soprei e cuspi,

Invadi os infernos,

Revirei os céus,

Trapaceei os demônios,

Negociei com os arcanjos,

Revirei túmulos,

Chorei às igrejas,

Ri, causei e senti as maldições,

Vinguei-me de mim mesmo as minhas desgraças!

34

Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

Mas foi ao me arrebentar, atirado montanha abaixo,

Estirado sobre a pedra, de bucho rasgado,

Que encontrei, escondido nas minhas entranhas verdes e latejantes,

Desajeitadas em minhas mãos mortificadas, o que tanto procurei:

Eu!

São Paulo, 13 de outubro de 2009.

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Rafael Castel ar das Neves

Inconsistências

Há muito barulho, muita falação, conversa fiada.

Palavras escarradas à cara sob o pretexto de serem ditas pelo coração.

Promessas deliciosamente declamadas, sedutoras, que encantam e

inspiram,

Que fundamentam planos de vida, que orientam a vida;

Mas que já nascem mortas, mortas na língua.

Sorrisos apresentados como espontâneos, rasgados, que completam a

paisagem e reforçam a cumplicidade.

Afagam o coração e regam o chão duro da caminhada;

Mas que riem os movimentos seguintes, os frutos a serem tomados,

lambuzados, ignorando a crueldade do golpe.

Abraços aconchegantes oferecidos com toda dedicação e

companheirismo, aos quais são derramadas dores, mágoas e temores,

expondo a mais deplorável fragilidade;

Mas que só garantem o ludíbrio da caça, mantendo-a próxima ao

matreiro caçador que a ceva e a prepara para ser facilmente abatida e

ridicularizada.

A indiferença vaga ardilosa pelos becos escuros da falsa cumplicidade

premeditadamente proposta,

Que abre o caminho às mais vulneráveis feridas latentes, por onde

invade e se entranha, tornando-se parte inseparável, câncer.

36

Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

E é quando os sonhos se tornam reais, quando a realidade se torna

deleite, que ela mostra sua cara e tudo aniquila de dentro para fora.

Corrói, destrói, desgraça, estraçalha e parte sem ressentimentos,

exalando a consciência tranquila fundamentada em uma

verossimilidade profana fruto de um justo apresentar-se por

completo, como realmente o é, mas como nunca o foi.

Então parte às gargalhadas, completa, enriquecida; deixando para

traz os cacos de uma vida estilhaçada, espalhados por onde um dia

bailou.

Chega, cansei! Estou voltando para casa!

São Paulo, 19 de outubro de 2009.

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Rafael Castel ar das Neves

Mansa Morada

Foi depois de muito trotar, de em encruzilhadas nos assustar, de

valetas desviarmos, de riachos nos saciarmos e de novos caminhos

arriscarmos, que avistamos a casinha.

Já não era mais mata do Caju, nem a do Bourbon e muito menos o

Morro Alto.

Apressei-me nas rédeas e ela no galope ligeiro e macio, erguendo

poeira na subidão batido.

Parou sozinha à entrada e, ainda sem fôlego, pôs-se a lamber o

colonião maduro, como se eu lhe tivesse sussurrado onde eu

pretendia apear.

Apeei!

Eram meados de julho e já ventava como agosto,

O sol era esbranquiçado e morno, a sombra gelada como só lá.

O vento era seco e incessante, me arranhava gentilmente o rosto,

ardia as narinas e ressecava a garganta,

Resfriava o suor do peito meu e do lombo dela – como tanto gostei

e há muito não podia.

A casa já não tinha pintura, mas rachaduras.

As telhas se escoravam sacolejando umas as outras,

As janelas estavam podres e não mais preenchiam como antes.

Tijolos quebrados e desarrumados, cobertos por um grosso e gelado

tapete de musgo velho, a circundavam revelando o que já fora um

tímido calçamento.

38

Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

O silêncio era atropelado apenas pelo colonião alto e denso que

dançava e cantava ressecado ao balanço do vento, rodeando a grande

paineira e preenchendo o vazio entre as paredes e os mourões

frouxos que um dia recostaram cercas.

A sala era pequena e suja, mas aconchegante.

Restos de cortinas ainda pairavam sobre as janelas.

Uma estante larga e empenada, rejeitada pelos cupins, dividia o

espaço com a velha cadeira de repouso de pano comido pelo tempo,

sobre o soalho histérico.

Na cozinha, o velho fogão à lenha e a pequena pia de pedra estavam

cobertos por poeira e ciscos de cana queimada.

Um pequeno banheiro à moda antiga fazia companhia ao único

quarto,

Onde jazia uma velha cama de colchão de palha mofada e

deformada.

Foram meses e meses de trabalho pesado, calos novos, feridas velhas

e o mesmo eu:

As telhas foram recolocadas, o calçamento aprumado e o musgo

raspado.

O colonião virou trato e estofado, a cerca remendada, e uma baia

levantada.

As poeiras renovadas, os ciscos assoprados – ao menos até a próxima

safra.

As tábuas repregadas, as janelas rematadas

E os restos das cortinas remendaram a velha cadeira, onde agora

descanso.

Descanso em paz na entrada, sob a sombra da paineira,

39

Rafael Castel ar das Neves

Com minha xícara de café e o cigarro apagado,

Perdido no gélido entardecer alaranjado,

Sentindo no rosto outro vento julino – ou talvez agostino – que me

presenteia com todo o meu passado temperado pelo saboroso cheiro

da cana jovem.

A cama já está confortavelmente pronta, os lampiões cintilando

abastecidos,

E a chaminé denuncia calmamente o fogão acordado que ainda

mantém quente o feijão encorpado

Para, quem sabe, alguém que resolva se achegar, ao menos para o

jantar!

São Paulo, 19 de outubro de 2009.

40

Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

Desenformado

Foram tantas as fôrmas que me são cinicamente presenteadas,

Sob os mais diversos disfarces e nomes,

Preparadas pelos alheios desejos, vontades e sonhos frustrados de

vidas suspensas pelo comodismo justificado por um divinizado

conformismo,

E que são ridiculamente impostas por acuações emocionais.

Fôrmas às quais deveria me submeter para que as minhas formas

atendam os movimentos, os resultados, os passos e os

comportamentos formulados por expectativas que guiam planos de

vida traçados e postos em execução sem minhas concessões,

Que desconsideram, inclusive, as minhas vontades, minhas loucuras,

minhas manhas, minhas frescuras.

Formas assumi das fôrmas que entrei, porque quis; também as

rejeitei e a elas retornei, porque sim!

Não me trato de uma metamorfose, ou de uma rebeldia desvairada

contra vida; ao contrário, apenas de uma apaixonada loucura pela

vida, como eu quiser.

A cada passo faço meu caminho, guiado apenas pelas minhas

vontades, que desalinham planetas, embaralham cartas, desorientam

anjos e multiplicam números.

Sou a mancha que encarde a melhor das camisas,

Sou a rasura que incomoda no canto da página,

41

Rafael Castel ar das Neves

Sou a pequena nuvem grossa no céu azul de uma quente tarde de

domingo,

Sou errante, inesperado, inconveniente; livre para mim e feliz de

mim.

Àquelas fôrmas, deixo minha arrogância;

Aos seus proponentes, o meu sarcasmo;

Aos enformados, os meus pêsames.

São Paulo, 05 de novembro de 2009.

42

Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

Encantadoramente Passageira

Foi mais cedo, a última vez – o mundo ainda se aquecia quando

cheguei à plataforma.

Em minha espera, no mesmo instante em que imaginava como seria

incrível e impossível encontrá-la mais uma vez,

Senti-a flutuando às minhas costas, quase despercebida, em seu

encantador bailar.

E pela terceira vez naquela semana, as folhas do livro, novamente

ignorado em minhas mãos, viravam-se descontroladas ao vendaval

do trem que urrava túnel a fora.

Seus cachos dourados apenas balançavam, gentilmente, como que

acariciados,

Úmidos e únicos moviam toda a paisagem.

Seus olhos claros, amendoados pelo amanhecer arrastado e

reluzentes como em uma manhã de verão à beira da praia,

Lançavam um olhar penetrante e sedutor, indiferente ao que se

passava, a mim;

Mas que me incendiava por dentro, fervia o sangue e descontrolava

os nervos.

Sua boca parecia pintura de ligeiras pinceladas geniais,

Com lábios suculentos, deliciosamente prolongados até róseas maçãs

delineadas,

Um conjunto especial resguardando um afilado nariz atrevido.

43

Rafael Castel ar das Neves

Seus dedos finos e delicados compunham mãos cuidadosamente

desenhadas,

Frágeis, de menina, capazes de afagar com pureza;

Firmes, de mulher, que me rasgariam insanamente as costas.

Seu corpo esguio, de medidas ponderadas, completava a leveza e

derramava a intensa sensualidade das formas dionisiacamente

moldadas, e sensualmente reveladas por leves e comportadas vestes

despropositadas.

E novamente, em meio a tudo, me encontro empurrado vagão

adentro,

Violentamente trazido a mim pela massa.

Plataformas, pessoas, vidas e planos se passavam, e ela ali sentada,

aproveitando os últimos instantes de calmaria.

Eu, convenientemente posicionado a contemplá-la, a me insinuar, a

imaginá-la e a desejá-la.

E me toma o desespero à chegada de sua estação, anunciada pelo

desventurado condutor.

E como em um pesadelo adolescente, permaneço petrificado,

Apenas a contemplá-la, indo, por mais alguns passos a sumir na

multidão.

[Suspiro] Bem, voltemos...

Página 136? Não, não... Ah, 138... Isso!

Droga, não fui ao banco!

São Paulo, 30 de novembro de 2009.

44

Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

Carta Ao Inimigo

Querido Inimigo,

Há muito não conversamos e nem mesmo seus passos

tenho mais seguido. Prometo me redimir e tomar as rédeas da nossa

situação que precisa de uma definição.

Para seu deleite, as coisas não têm andado muito bem por

aqui. As últimas circunstâncias exaltam verdades que merecem ser

ditas a você, ao menos por justiça. Não sei ao certo se é pela nossa

posição ou pela sua má índole – mesmo nos conhecendo como

conhecemos, não consigo, ainda, entender de onde vem tudo isso –,

mas vejo que entre nós se firma uma das mais claras e verdadeiras

relações que já se viu ou se ouviu, algo realmente invejável. Sim,

invejável e por muitos, acredite só. Claro que isso é assim agora, pois

sabemos muito bem como era antes. Mas deixemos de lado essa

conversa de lado, o que está feito está feito.

Mas é engraçado ser dessa forma apenas com você. Estou

falando desta transparência que temos um para com o outro. Sem

dúvida alguma, nos odiamos, nos detestamos e queremos o mal um

do outro, simples assim. E este é o ponto: não há dúvidas! É claro a

forma como vemos um ao outro e tratamos a situação de hoje. Não

é um ódio disfarçado, não é algo ofuscado, turvo. Não é um rancor

com pitadas de carinho ou piedade que podem se alternar a

qualquer momento. É o velho e destrutivo ódio! Puro em sua

essência!

45

Rafael Castel ar das Neves

Ao contrário disso, as pessoas por aqui precisam ser

temidas. Não porque não nutram sentimentos benévolos, mas

justamente por os nutrirem por serem, digamos, necessários. Isso é

um perigo, o pior dos disfarces, peço que saiba! Não há como saber

o que está por vir destas pessoas. Não há como entender o que é

pleno nelas por nós. Não há como se permitir a isso. É uma

alternância de estados que me dá repugnância só em pensar. Não se

trata de uma alternância constante, mesmo porque é impossível

alguém se submeter a ela; é extrema entre os extremos e avassala

quando se revela e é quando nos pomos a correr, caso ainda nos

reste algum chão. O mesmo sorriso que cativa é o que se apresenta

sarcástico durante a queda; a mesma mão que acalenta é a mesma

que espanca e apunhala pelas costas; os mesmos lábios que beijam e

anunciam o grande encontro, as grandes promessas, são os que nos

humilham e rebaixam ao mais lamentável nível da incompreensão e

delatam nossas mais temidas fraquezas depositadas em confiança no

coração tão amável e bondoso, como outrora apresentado, que

agora, empolgado, retumba uma quase marcha fúnebre para nos

encomendar.

Acredito que as coisas caminhem da mesma forma para

você. Pessoas que são caridosas, de bom coração e publicamente

admiradas, mas que já na superfície do âmago se revelam traiçoeiras

egocêntricas e sem escrúpulo algum. Abra os olhos! Esse é um jogo

complicado e perigoso, pois não dá para se saber quem são os

inimigos; ainda mais quando se apresentam como amigos, pessoas

queridas, sonhadas. Não dá para fugir da própria sombra, mas dá

para mantê-la a certa distância. Por isso digo que nossa relação é

uma das melhoras, uma das mais verdadeiras que se firmou e agora,

pensando bem, acredito que seja pela situação.

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Desce Mais Uma! – Segunda Rodada