Desce Mais Uma! - Segunda Rodada por Rafael Castellar das Neves - Versão HTML

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Isto tudo é apenas uma constatação que achei justo

compartilhar com você, uma vez que faça parte integral; contudo,

não se trata de nenhum tipo de reaproximação – espero que isto

também esteja bem entendido.

Ademais, fico por aqui desejando que tudo vá bem consigo

e que tome estas palavras como um aviso para que se mantenha

bem, pois pretendo ser o único e completo responsável por todo

castigo que você merece – acredite!

Sinceramente seu, Remissor.

São Paulo, 08 de dezembro de 2009.

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Rafael Castel ar das Neves

Sonho Vivido

Uma vez tive um sonho!

Não como um sonho matinal que vem com o anúncio de um novo

dia ensolarado,

Mas um sonho formado aos poucos, pelos detalhes, pelas faltas e

pelas vontades, fundamentado em mim.

Um sonho idealizado, tratado como bobagem por aqueles a quem

um dia, estupidamente, o confidenciei.

Um sonho de menino, um sonho de sonhos, um sonho de livro, um

sonho sonhado para ser vivido.

Sonhei com um lugar onde havia ouvidos que me ouviam

atentamente;

Onde havia uma boca que me falava das coisas novas e das coisas de

ontem;

Onde havia mãos para eu tocar, segurar quando trêmulas, e repousar

em meu peito nas frescas noites de verão;

Onde havia um corpo ao qual eu me condenava, cuja simples

existência me permitia existir, por completo, por mim mesmo, eu

mesmo, comigo mesmo.

Sonhei com um lugar onde eu podia ser o meu eu mais profundo

que nem mesmo eu conhecera.

Não apenas sendo, mas sendo da mais pura forma, espontâneo, sem

pudores, totalmente acelerado, totalmente alucinado, a toda

intensidade e totalmente desprotegido, me compondo.

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Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

Um lugar onde o mundo parava e nenhuma importância existia para

o resto – não havia resto.

Um lugar que eu podia visitar sem avisar, por simplesmente ser

bem-vindo, bem-quisto.

E num dia desses, um dia comum, mais um, um dia, eu saboreei

esse sonho!

E o fiz de boca cheia, da forma mais intensa, entregue e completa

que pude.

E mesmo durando apenas um instante, foi suficiente para talhar em

mim cada segundo, cada momento, cada cheiro, cada gesto, cada

sensação, cada respiração, cada olhar, cada tudo.

Mas sou insatisfeito por natureza

Não me contento com pouco – talvez um pouco com o todo!

Quero mais! Muito mais! Mais!

Quero me lambuzar desregradamente, me empanturrar, me

entorpecer, me perder, transbordar, pecar!

Mas enquanto a hora não chega – se chega – vou criando novos

sonhos,

Vivendo-os, um atrás do outro, feito um louco, deixando pelo

caminho uma trilha de sonhos inventados e vividos.

Sonhos inventados e sonhados pelas minhas vontades, pelos meus

desejos e pelas minhas ambições;

E os vivo não por covardia ou mediocridade na concepção, mas

porque quero!

São Paulo, 15 de dezembro de 2009.

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Rafael Castel ar das Neves

Da Festa À Realidade

O coração aumenta à empolgação que cresce ainda mais ao rasgar de

cada curva, ao passar de cada quilômetro, ao derrame de uma aflição

juvenil diante do erro do caminho ao local combinado.

Vento no rosto, música alta, sorriso no rosto!

Uma mistura de sensações radiantes, que incendeiam o corpo e a

mente,

E deslizam estimulantes com o sangue pelo corpo.

Sensações de querer chegar, chegar logo;

Nascidas ao amanhecer, crescidas durante o dia e maturadas ao

preparar-se.

E tudo se transborda ao chegar,

Ao juntar-se aos rostos queridos – há muito não vistos, e muito

esperados, até desejados.

Mesas fartas, casa lotada, copos enchidos e esvaziados freneticamente

a saciar bocas sedentas que ecoam, descontroladas, os lapsos das

vidas desencontradas.

Os nervos relaxam, a tensão abaixa, as emoções assumem o

descontrole, o coração se rende e tudo passa a ter sentido – ou nada.

Complementação, composição, continuação, confirmação!

E desapercebidamente esvaziam-se pela última vez os copos,

Desaparecem as personagens, cala-se a algazarra,

Arrumam-se as mesas, recolhem-se os restos.

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Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

Lamenta-se o fim e compadecem-se do lamento.

O corpo ainda quente se arrasta pelo caminho de volta, insatisfeito,

desconsolado.

Os olhos buscam algo que se mova, mas já não há motivos, há

vazios.

A liberdade herdada traz consigo vazios que se manifestam

recheados de assombrações sarcásticas.

A derrota é confirmada pelo suspiro enfraquecido, expulso do corpo

arrebentado e amontoado à cama, de mente distante e olhos

perdidos.

Santa Gertrudes, 11 de janeiro de 2010.

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Rafael Castel ar das Neves

Precipício Meu

Há um lugar dentro de mim, difícil de chegar, mas bom de estar.

Um lugar escuro onde me sento e consigo encontrar o silêncio que

me acalma, que me alivia;

E, com sorte, revejo algumas das coisas que se passaram, que ainda

pairam, que ainda cercam.

É desse lugar, no meio desse silêncio, que raras vezes caio – doutras

me jogo.

Caio mim abaixo, sem paradas, sem paredes, sem fôlego;

Surdo à escuridão que se enegrece mais a cada lembrança.

Lembranças intensamente esfregadas à cara,

Plenamente revividas como quando eram apenas momentos de uma

vida,

Com os mesmos cheiros, mesmas sensações, mesmos sentimentos.

Lembranças até então extintas, mas que tornam à vida feitas

assombrações, pondo-se a me perseguir, a me iludir, a me rasgar!

E quando me inclino, mergulhando de cabeça, entregue à busca de

um rápido fim,

Tudo que parecia já ter passado volta em um turbilhão assustador,

Apresentando-se com absurda agressividade, misturando-se e

divertindo-se em um todo que gira em múltiplas formas à minha

frente.

Vozes, rostos, toques, mágoas, sorrisos, saudades, ódios põem-se a

me torturar impiedosamente.

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Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

Caçoo-me!

E quando tudo o que parecia morto, perfeito, é tirado debaixo do

tapete e sacudido ao ar para punição,

É que as feridas latentes – mesmo as sabidas – são sentidas,

É que as cicatrizes são expostas, trazendo consigo as dores das feridas

que já foram.

Com as dores vêm os motivos, os porquês, os momentos que já não

são mais – talvez nunca foram –, e um vazio agonizante toma conta

de tudo ressaltando as fraquezas, as falhas, os medos e as decepções.

Mas é quando, sem forças e razão, me rendo e a insuportável dor da

impotência torna-se presente, soberana às demais,

Dilacerando tudo que um dia foi acreditado, verdadeiramente

entregue, plenamente vivido e vilmente tirado,

Que tudo se ilumina, tudo se torna claro e a paz volta a reinar – do

seu jeito –, pondo abaixo o que um dia foi verdade.

Então posso retomar o meu lugar em mim, arisco, com pedras às

mãos e corpo calejado, cada vez mais!

Piedade, 19 de janeiro de 2010.

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Rafael Castel ar das Neves

A Cabana

Pra lá daqueles morros há um rio.

Naquele rio, antes da larga curva, há uma praia de cascalhos.

Naquela praia, há uma grande figueira.

Na sombra da figueira, ergui uma cabana para o meu bem.

Naquela cabana vivemos, eu e meu bem, a melhor das vidas.

Naquela cabana eu vivi.

Naquela curva o rio se vai,

Naquela curva ela se foi

E naquela praia eu sentei.

O rio nunca mais voltou,

E por tanto em vão esperar, eu também.

Pra lá daqueles morros havia um rio.

Naquele rio, antes da larga curva, havia uma praia de cascalhos.

Naquela praia, havia uma grande figueira.

Na sombra da figueira, havia uma cabana que erguera para o meu

bem.

Pra lá daqueles morros não há nada.

Piedade, 21 de janeiro de 2010.

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Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

Grandioso Galho Qualquer

Eita, galho majestoso, com que prazer baila ao vento sedutor que o

acaricia em plena altura da copa!

Com razão e direito ostenta seu verdor juvenil das incontáveis folhas

que lhe revestem e lhe dão forma.

Canta orgulhoso e radiante pela honra de simplesmente sê-lo:

escolhido.

Entre outros de outras é o grandioso e o invejado, um dos maiores,

único em si – em si!

Mas, atente-se!

Você compõe a paisagem, não a é.

É apenas mais um entre os tantos: grandes e fracos, frondosos e

minguados; mais um!

Ingênuo, somente no vendaval entenderá que sempre esteve

sozinho.

E lhe digo: segure-se como puder, porque sua beleza não será

suficiente.

Sua magnitude lhe trairá, envergará até o limite das suas fibras.

Suas belas folhas pesarão o suficiente para amaldiçoá-las e repugná-

las em meio a tanta dor.

E, se bravamente resistindo e suportando todas as dores que lhe

forem impostas, envergar a sua própria árvore, encontrará a pior

delas: ela se livrará de si!

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Rafael Castel ar das Neves

Impotente, será partido no nó e rejeitado por seu defeito, que ora

fora sua maior virtude e encantamento – quando de nada precisava.

Agora, fraquejado, agoniza seus últimos momentos.

Jogado à parte, descartado, sozinho: seca!

Os que precisam não são dignos de completar uma paisagem.

Se tiver sorte, virá o fogo ou o machado para aliviar suas dores e lhe

sepultar longe daqui, galhada seca!

Piedade, 21 de janeiro de 2010.

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Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

Ondas, e Adeus

Ah, meu amigo, espero ter aproveitado ao menos o suficiente, pois

já é tarde, tarde demais!

Vim longe demais – bem que me disseram.

Só agora, com a maré a molhar meus pés e a tudo inundando, é que

percebo.

Tarde!

Afastei-me demais!

Mas ainda era seco e o tempo estava bom.

Distraí-me com tamanho encantamento e agora já não há como

voltar.

Lá vêm elas, colossais, zombando da minha ingenuidade.

Por todos os lados, de mãos dadas, feito muralha, deslizando com

elegância e prazer diabólico em minha direção.

Apenas ondas, e tudo se acaba.

Cercado, não há mais o medo, mas a impotente angústia petrificante

firmada diante da onipotência, inevitável.

E num divertimento assustador, desabam com todas suas forças e

deleites, por todos os lados, sobre mim.

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Rafael Castel ar das Neves

No último momento de insano desespero, tentei, com toda minha

voz e desejos, gritar por ajuda; mas, sufocado e inundado, engasguei!

Com braço estendido e mão espalmada, afundei surdo, com os

pulmões cheios dos últimos e ternos momentos, à espera de outra

redentora.

Quisera poder voar, invés de apenas lembrar.

São Paulo, 28 de janeiro de 2010.

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Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

Plenitude Própria

Nos momentos em que a ausência de si, em si, mesmo que

insuportável, torna-se necessária como pagamento por aquilo que a

si foi docemente oferecido, por si eternamente saboreado, e de si

irresponsavelmente tomado com irreverente sarcasmo, é que a

plenitude própria é a si apresentada em sua forma mais pura.

Levante e cante!

São Paulo, 19 de fevereiro de 2010.

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Rafael Castel ar das Neves

Meu Ranchinho Paulistano

Ontem foi segunda-feira e, como uma boa segunda-feira, o

dia começou lento, pesado e desmotivador. O trânsito estava

carregado, os motoristas com dificuldades em manter-se nas

respectivas faixas, em seguir a sinalização e respeitar os concidadãos.

O sol já fazia bem o seu trabalho – e muito bem feito – elevando a

temperatura rapidamente desde bem cedo. Bom, é São Paulo e é

verão, e é óbvio que já sabemos como termina esta história:

temporal garantido!

Só que ontem não foi um simples temporal, foi um

temporal de segunda-feira, carregado de mau-humor e azedo da

ressaca. E ele veio por volta das duas horas da tarde. O dia virou

noite, aquele sol machão da manhã desapareceu num relâmpago

(que trocadilho mais sem graça, hein?). Mas sim, relâmpagos foi o

que não faltou, teve para tudo quanto é gosto: barulhento,

demorado, assustador, tímido... E o mundo caiu, é lógico, caiu de

uma só vez com toda força e em enorme quantidade. Foi um pouco

mais de uma hora no mesmo ritmo, sem diminuir, chuva da grossa,

ventania, raios, trovões, pessoal assustado no escritório, boatos

brotando mais rápido que o refluxo dos bueiros, e eu assistindo a

inundação na rua da frente, que nunca tinha visto daquele jeito.

Enfim, não vou entrar em detalhes porque os telejornais

vespertinos fazem isso como ninguém. Mas o que aconteceu foi que

o caos se instaurou e não restava opção que não fosse prolongar o

horário de trabalho e esperar. E esperei! Então, a chuva passou, até

saiu um solzinho entre as nuvens, o chão começou a secar e as

buzinas a diminuir. Achei que aquela era minha hora e fui embora.

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Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

Ainda havia um chuvisco aqui, outro ali, mas nada de alarmante. As

ruas que eu passaria haviam sido inundadas por córregos

transbordantes, mas quando passei havia apenas um barro fétido nas

laterais, restos de lixos e outras tralhas. Aproveitei para passar no

mercado comprar umas coisas para casa, inclusive meu jantar, e fui

para casa. Conforme me aproximava de casa, aumentava a

quantidade de semáforos apagados, alguns com agentes da CET

(Companhia de Engenharia de Tráfego) tentando orientar os

motoristas, outros abandonados à sorte. Cabe aqui um parêntese: os

semáforos de São Paulo não estão aguentando chuva alguma, de

qualquer tipo, eles estão entrando em pane até com espirros!

Mas continuemos! E conforme eu me aproximava ainda

mais de casa, comecei a notar que uma escuridão tomava lugar por

entre as ruas, prédios, casas, bares... Tudo estava um breu só,

iluminado apenas pelas luzes dos carros. É claro que não achava que

eu seria afetado, mas fui! Cheguei tarde a minha casa, cansado e com

minha mochila e a bagagem do mercado que tive que levar no

lombo até o oitavo andar, descontando o mezanino, à luz do meu

celular que estava com a bateria praticamente zerada. Com o calor

que fiquei da subida, o banho gelado foi como um prêmio. Jantei à

luz de velas e lamparina, ouvindo as notícias no meu radinho a

pilhas – presente do meu irmão, obrigado, e agora kit indispensável

para se viver em São Paulo! – e depois me joguei no sofá enquanto o

tempo se arrastava a passar. Mas eu não moro longe, não tenho que

pegar diversas conduções apertadas para rodar vários quilômetros e

fazer uma verdadeira viagem para casa; imaginemos as pessoas que

não têm como escapar disso!

Não vou negar que foi gostoso ter uma noite tranquila e

prematura como as de um rancho no interior (rio até tinha lá fora),

mas a energia elétrica acabou por volta das duas horas da tarde,

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Rafael Castel ar das Neves

voltando mais de dez horas depois (isso no meu bairro, há bairros

que ainda estão sem energia), sem nenhuma resposta da companhia

elétrica aos usuários solicitantes. Estamos falando de São Paulo, uma

das mais importantes cidades do mundo e que sucumbe, submerge

diante de qualquer chuvisqueiro e agora, além das tradicionais

enchentes, tem estas novidades certas: semáforos fragilizados e

energia elétrica rebelada. Aí começa toda a discussão: é o

fornecimento que foi afetado; não há semáforo que aguente; a chuva

foi muito forte! E eu pergunto aos senhores governantes deste

povoado: quanto tempo faz que as chuvas de verão não são tão

fortes por aqui? Qual é a novidade? Chuvas torrenciais no verão de

São Paulo há tempos são tradicionais.

São vários os fatores que contribuem para isso, mas o

descaso dos nossos governantes não pode ser encoberto com a

simples passagem de responsabilidades para o povo e para a “mãe

natureza”. O incrível de tudo isso é que, a cada dia mais, São Paulo,

a capital do estado mais rico desta nação, uma das mais importantes

cidades do mundo, não é menos precária que um ranchinho

aconchegante à beira do rio.

São Paulo, 22 de fevereiro de 2011.

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Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

O Último Amigo

Todos já se foram, senhor coveiro?

Não eram muitos, não é?

Será que não deu tempo de avisar todo mundo? É, acho que foi isso!

Mas se foram rápido...

O senhor já vai começar? Não quer conversar um pouco?

Está bem, mas há como não colocar muita terra?

É que eu gostaria de sentir um pouco do calor do sol amanhã e já

está ficando frio aqui.

E também não queria que ficasse muito escuro.

Entenda, é a minha primeira noite!

O senhor estará por aqui? Não? Que pena!

É um pouco estranho ficar aqui. Não tem mais ninguém?

Calma, devagar!

Tem muitas flores aí? Deixaram recordações?

O senhor viu se choraram?

Não, não jogue tanta terra, está escuro demais agora!

Na cabeça não, por favor! Não!

Deixe um lampião aceso ao lado da lápide, ao menos essa noite – as

velas se apagam.

Não há? Como assim? E meu nome?

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Rafael Castel ar das Neves

Como vai a família? Vamos conversar um pouco antes de partir?

Senhor coveiro? Senhor coveiro?

Está escuro aqui! Que silêncio é esse? Já é noite?

Senhor coveiro? Por favor, fale comigo! Senhor coveiro?

Fique um pouco mais! Acho que estou com um pouco de medo!

Senhor coveiro? Por que esse silêncio todo?

Está frio e nem dá para tremer.

O senhor jogou muita terra!

Senhor coveiro? Senhor coveiro?

Volte aqui seu maldito!

Não me deixe aqui, desgraçado!

Senhor coveiro? Olá?

São Paulo, 08 de março de 2010.

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Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

O Alívio do Fim

Era um calmo fim de tarde de outono

De céu alaranjado e brisa gélida a entrar pela janela.

Ela tinha as têmporas banhadas pelo suor nervoso,

Mas só percebeu ao acomodar o cano.

Com toda a força do polegar deslizante, arrastou o cão raivoso até a

posição de ataque.

O tambor girou como em um sorteio e ela assustou com o estrondo

do encaixe.

Assentou cuidadosamente o indicador trêmulo e desajeitado,

Despejando toda delicadeza que pôde para retardar o tempo.

De lábios mordidos e olhos apertados,

Encheu os pulmões de vida e a segurou para si.

Usou tudo de si contra o corpo rígido e instigou o cão sedento.

O tempo freou e garantiu que toda sua vida, aos detalhes, fosse a

penúltima trajetória a lhe passar pela cabeça.

E ao confrontar-se com suas alegrias, seus amores, seus sonhos, suas

angústias, suas dores, seus medos e seus desesperos,

Com lágrimas a rolar, riu timidamente um riso liberto e aprovador.

Quando o cão, enfim, alcançara sua presa, tudo já estava pronto e

nada mais havia a ser feito.

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Rafael Castel ar das Neves

Apenas desmoronou-se, aliviada, em um punhado de história

desorganizado que ainda cheirava a tristeza, e tinha um sorriso de

canto.

São Paulo, 16 de março de 2010.

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Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

Renascimento

Foi ao devastador estrondo do fraterno grilhão violado encontrando-

se com o chão,

Que ele acordou de seu longo e profundo pesadelo vivido.

De uma só vez, tomou afoito e engasgado um profundo trago do

novo mundo,

Vigorando todo seu conjunto enfermo, como um dia havia feito.

As finas e trêmulas pálpebras renderem-se à ofuscante e injuriante

claridade esquecida,

Que lhe invadiu devastando cada canto escuro de suas entranhas

fragilizadas.

Ao sentir a vida correr-lhe novamente, firmou o corpo livre e

atordoado,

E sem hesitar, com joelhos sujos e mãos encardidas, pôs-se

novamente a caminhar, flutuando, com novo sorriso e vento ao

rosto.

Em paz, seguiu o caminho, a passos firmes e peito cheio,

Levando consigo apenas as cicatrizes de outrora e um delicioso

brilho no olhar,

Rumando ao seu horizonte, sem olhar para trás,

Onde nada ficara enterrado, apenas guardado em quartos escuros de

portas entreabertas.

São Paulo, 20 de abril de 2010.

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Rafael Castel ar das Neves

Uma Esmolinha, Pelo Amor de

Deus!

Bendito seja senhor doutor,

Que já perto vem sorrindo aprumado.

Homem moço, moço doutor, doutor salvador!

Vê-se logo o homem bom que é, o coração enorme que tem.

Vem para acabar com o jejum desta velha desafortunada,

Que aqui sobrevive sob sujeiras e doenças que cobrem tudo o que já

foi um dia.

Cá está minha mão, belo senhor doutor, nela nem tocar precisa!

Perdeu o sorriso, senhor doutor?

Perdeu o compasso e o prumo?

O que foi que viu? Onde?

Venha mais perto, senhor doutor,

As feridas impedem meu levantar.

Ah! Não tenha medo, senhor doutor!

Desculpe-me pela vestimenta, são os panos que me restam.

Desculpe-me o cheiro, nem que pudesse, não tenho como me

banhar.

Desculpe-me a doença, tapo minha boca!

Não, senhor doutor, não se vá!

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Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

Apenas uma esmolinha, pelo amor de Deus!

Qualquer trocado ajuda, qualquer coisa já me serve,

Não dê as costas a esta velha condenada.

Ah, o senhor doutor tem pressa!

E agora se vai feito um rato assustado,

Rastejando desengonçado pela imundice do meio-fio.

Não há de ser nada.

Quem sabe na volta, quem sabe amanhã, ou quem sabe em outra

vida,

Maldito senhor doutor!

São Paulo, 17 de maio de 2010.

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Rafael Castel ar das Neves

Uma Esmolinha, Pelo Amor de

Deus?

Maldita sujeira rastejante,

Já tão cedo esparramada pelo passeio

Lançando-me essa mão imunda e atrofiada!

Por que não lhe avistei antes?

Já não há como desviar,

Já não há como voltar!

Uma esmolinha, pelo amor de Deus?

Não vê que tenho pressa?

Não vê que tenho preocupações?

Não vê que nada tenho a ver com sua desgraça?

Quem me dera também viver da ajuda alheia!

Nauseia-me o seu odor,

Repugna-me as suas partes,

Lá se vai o meu apetite!

Não toque em mim!

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Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

Ah, ar limpo!

Ficou, me fui – livre!

Amanhã desvio antes,

Ou nem passo!

Acho que vai chover.

São Paulo, 24 de maio de 2010.

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Rafael Castel ar das Neves

Vivo Hoje

Vivo hoje plenamente a vida,

Em mim, para mim e por mim.

Não porque quero, nem porque me disseram,

Mas porque aprendi [da forma que me coube].

Vivo a insatisfeita felicidade

Que me firma no caminho

Em busca de tudo o que posso até o fim do dia.

Vivo as dores e as lembranças que permito,

Mas jamais aquelas disfarçadamente oferecidas.

Lembrando-me do ontem, planejo o amanhã e vivo o hoje

Não como se fosse o último; mas único.

E se neste caminho couber o cúmplice amor a me acompanhar, serei

completo; senão,

Simplesmente feliz, em mim, para mim e por mim!

Já não mais me importam as ondas, mas a maresia.

Nem mais me importam as flores, mas seus perfumes.

São Paulo, 31 de maio de 2010.

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Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

Chão Surrado

Cansado de assistir impotente as suas plantações serem

sarcasticamente devastadas, o capiau resolveu acabar com tudo e não

ter mais o que perder. O solo não mais arou, nem nada mais

plantou. Desviou seu riacho e com pesadas pedras murou seu

terreno.

Fez um pacto e a todas as chuvas espantou. O chão secou e então

rachou.

Livre, sentou-se em sua história e consigo assistiu todos os

momentos de sua vida, degustando intensamente cada detalhe dos

seus dias.

Numa manhã, porém, pôs-se para fora e parou pasmo diante de

uma delicada e perfumada flor a desabrochar no chão batido e

trincado do seu terreno. Sem pensar no como ou no porque, caiu

sobre os próprios joelhos e, de coração a galope e lágrimas a correr

pelo rosto deliciosamente incrédulo, implorou aos céus por chuva.

São Paulo, 09 de junho de 2010.

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Rafael Castel ar das Neves

Das Próprias Profundezas

Mesmo depois de ter se desenterrado do meio de um nada, com

vermes a lhe comer a carne, e ser agraciado com asas angelicais, e ter

voado por terras desconhecidas, rasando sobre mares, planícies e

vales, sentindo todos os perfumes, apreciando todas as cores,

saboreando todas as sensações e se envolvendo com todos os deuses,

ele se viu insatisfeito e angustiado à beira do paredão de onde saltou

com a rocha ao peito.

Mas foi sozinho e atordoado, arrastado para a mais escura e gélida

profundeza, que ele realmente compreendeu e encontrou o que

tanto procurara; e com os pensamentos turvos diante da intensa luz

remissora que se apresentara, sorriu seu último pulso, entregando-se

com o rosto e coração aquecidos.

São Paulo, 22 de junho de 2010.

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Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

Terra Firme

Há tempos me cansei daquela infindável busca por tudo o que

sempre entendi e defini como meu complemento, como minha

razão de existência.

Há tempos desisti de me aventurar por montanhas, desfiladeiros,

desertos, florestas, abrindo caminho, abrindo feridas, me rasgando,

me mutilando e me diminuindo nessa busca insana.

Há tempos reneguei a tudo, não por me julgar incapaz; mas por ter

entendido que eu mudava a paisagem e me corrompia na busca de

algo utópico, absurdamente idealizado.

Há tempos parei e sentei para chorar meu último e mais impotente

choro, escondido em uma caverna apertada, onde espantei todos os

meus fantasmas e curei todas as minhas feridas.

Há tempos me levantei forte e me dei à luz, de peito aberto, passos

firmes e coração limpo.

Há tempos me lancei sorridente ao mar em minha canoa, não em

busca, mas avulso à maré e aos ventos, apenas sendo deliciosamente

levado e saboreando sedento cada batalha – com os mais diversos

monstros marinhos – da mesma forma que a cada por do sol que me

era oferecido.

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Rafael Castel ar das Neves

Hoje acordei náufrago em uma terra desconhecida e, ainda

desorientado e assustado, entendi que atingira minha tal utopia,

absurdamente em minha própria realidade!

São Paulo, 02 de julho de 2010.

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Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

Uma Maçã: R$ 1,28

Ontem, ao sair do metrô, no caminho de volta do trabalho

para casa, fui ao mercadinho de bairro para comprar pó de café –

desses mercadinhos que lembram os antigos armazéns, as “vendas” e

que são rapidamente engolidos pelos grandes supermercados de

rede. Justamente pela falta de opções, peguei um pacote de pó de

café menor do que costumo comprar, já que era de um tipo que até

me agrada, mas não era o meu preferido.

Apenas com o pacote de pó de café à mão, fui ao caixa

pagar minha conta e ir logo para casa. A hora era avançada e já

estava esfriando. Ao me aproximar, mapeei os demais clientes e me

posicionei onde pensei ser o fim de uma das filas, bem ao lado de

um cliente indeciso que estava plantado entre os dois caixas sem

saber o que fazer, apenas esperando que o dissessem. Seria minha

vez, mas, enquanto aguardava o cliente que empacotava suas

compras já pagas, a “moça do caixa” pediu que outro cliente,

também indeciso, passasse à diante dos demais. A forma delicada e

gentil que a “moça do caixa” fez o pedido denunciou que se tratava

de um atendimento preferencial. Abri espaço e aguardei. Não tão

logo, passou por mim uma senhora de idade muito avançada,

andando com dificuldades e deixando um cheiro forte e nauseante,

semelhante àqueles que se sente debaixo dos viadutos, mas em uma

intensidade menor.

A senhora era baixa, não apenas por ser tão arqueada, mas

por sua natureza. Suas roupas eram farrapos encardidos e fedidos,

amarrados e enroscados uns aos outros. Suas pernas tinham as juntas

rijas e estavam cobertas por grosseiras meias velhas, terminando em

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Rafael Castel ar das Neves

sapatinhos pretos e furados, daqueles típicos das vovozinhas. Na

cabeça, usava um lenço que provavelmente um dia teve cores e

formas definidas e que cobria longos cabelos aglomerados e

completamente brancos pela natureza e amarelados pela situação. As

unhas eram enormes e causavam um aspecto assustador. Aos braços

e pescoço, sacolas e trapos estavam dependurados carregando tudo

aquilo que, provavelmente, ela definiria como seu patrimônio. A

imagem dela me lembrou muito daquelas senhoras russas que,

depois da queda, passavam os dias em longas filas frias para ganhar

um prato de sopa, e me lembrou também que já a tinha visto pelas

redondezas, principalmente jantando, a altas horas da noite, na

padaria na saída do metrô, onde costumo parar para um último

lambisco após longas noites de diversão.

À “moça do caixa” a senhora entregou, com o braço

atrofiado, um saquinho com uma única maçã vermelha, a qual foi

pesada e precificada a R$ 1,28. O anúncio do valor deve ter

retumbado nos ouvidos da senhora que se pôs a vasculhar

freneticamente cada farrapo, cada vão, e a esvaziar cada sacola em

busca dos R$ 1,28, enquanto praguejava – sem ofensas ou aspereza

– contra a situação que se encontrava. Vendo que a situação se

prolongaria, a “moça do caixa” fez um sinal com a cabeça e pediu

que eu passasse à frente. Entreguei meu pacote de pó de café e ela

me informou o valor. Paguei-o junto com a maçã e tentei me

agilizar, mas foi inevitável presenciar o anúncio feito pausadamente

pela “moça do caixa” à senhora: “O moço está pagando a maçã da

senhora”. Peguei meu saquinho com o pacote de pó de café e tentei

me virar e sair o mais rápido possível, mas a senhora já se dirigia a

mim rogando em voz alta pela minha saúde e fortuna, agradecendo

aos santos pela minha ajuda e coisas do tipo. Virei-me para ela a fim

78

Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

de receber e permitir seu agradecimento, mas não sei bem o que

resmunguei engasgado e saí a caminho de casa.

É fato que esse não é um caso isolado nem único, mas fico

aqui, hoje, com meu café do tipo que até me agrada, mas não é o

meu preferido, pensando em tudo isso: passar por uma vida inteira,

com tantas coisas, tantos acontecimentos, tantos infortúnios, tantas

alegrias, tantos momentos – cujos adjetivos não vêm ao caso – e ter

que sobreviver sozinha em um mundo em que apenas lutar não é

suficiente, nem mesmo permitido, e ter que se esgueirar por tantos

eventos, por tantas dificultadas, por tantas variáveis e

improbabilidades para simplesmente conseguir um jantar sem

nenhum sabor de dignidade, mas que, ao menos, permita que o dia

seguinte aconteça: uma maçã a R$ 1,28.

São Paulo, 06 de julho de 2010.

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Rafael Castel ar das Neves

Quando Me Dei Conta

Não me lembro se foi ontem ou no mês passado – talvez na semana

passada – que me dei conta que se dar conta era perda de vida.

Mas naquele dia, quando me dei conta, já não havia o que ser

perdido, tudo já havia se ido e nem havia me dado conta.

Além de mim, restavam apenas as paredes amareladas, os móveis

escorados e as cortinas esfarrapadas, e nem havia me dado conta.

O corpo já não era o mesmo, tinha outra forma e estava pesado –

difícil de controlar e ordenar.

A mente estava desatinada em pensamentos e memórias

imemoráveis que pesavam o ar gorduroso que há tanto havia

enclausurado.

As mãos rijas e encardidas, repousavam arqueadas sobre um jornal

velho com dizeres ofuscados, e não prestavam nem para arrumar os

longos cabelos oleosos que pendiam à testa riscada.

Já era tarde e o sol se punha quando me dei conta que tudo havia se

ido sem nada ter sido feito, que tudo se havia passado em um

simples se dar conta, mas sem se dar.

Ao me dar conta daquele vazio, me levantei assustado e abri a janela

pondo-me ao frescor e ao colorido pincelado que precedem o ocaso

de outono.

À minha frente, a sanhaçuíra se aconchegava em seu ninho, sem

comigo se importar;

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Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

No pátio, crianças corriam às gargalhadas das mães furiosas que as

perseguiam para o banho.

Então, tomado por uma estranha sensação que me formigava todo o

meu corpo, me dei conta que sorria novamente.

São Paulo, 26 de julho de 2010.

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Rafael Castel ar das Neves

Condenado a Viver

Na noite em que ele, pela primeira vez, falhou

Os céus se abriram e ele foi excomungado, sob fraternos açoites

desaprovadores, clementes orações dilacerantes e traidoras maldições

irreversíveis.

Condenado a vagar sem descanso e sem morada,

Pavorosamente deformado e reprovado,

De pele escamada e enrugada, cauda e asas asquerosas,

Unhas longas e amareladas como os repugnantes cornos ostentados,

Caiu, somente consigo próprio, repudiado de sigo próprio.

Errante, pôde sorrir, aprendeu a viver e fez seu caminho.

E quando, às gargalhadas, cirandava pueril por entre as crianças da

aldeia,

Aqueles de outrora o espiavam invejosos detrás das árvores do

bosque escuro.

São Paulo, 09 de agosto de 2010.

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Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

Ponto de Ônibus

Tantas são as luzes e os dizeres que vêm,

Mas demorados os tão desejados e implorados,

Os que realmente vêm e salvam.

E por entre o tão longo precioso tempo desperdiçado [ouro da vida],

Suportam-se cambaleantes e clementes os corpos

Estressados,

Escorados,

Resfriados,

Desajeitados,

Abandonados.

E ao sabor do ócio temperado pela impotencialidade da submissão

laboriosa,

Rebelam-se dementes e imprudentes as mentes

Irritadas,

Aniquiladas,

Desgastadas,

Inutilizadas,

Depravadas, até.

E sob a ânsia desesperada de um reles sossego e morno afago da

morada,

Amarguram-se palpitantes e deprimentes os corações

Entristecidos,

Esquecidos,

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Rafael Castel ar das Neves

Desmerecidos,

Vencidos,

Mas nada adormecidos.

E quando, providencial e tardiamente, é chegada a salvação,

Estes, unidos e agarrados, sucumbem à inesquecível e irrefutável

certeza da mesma penitência, que é breve em se iniciar.

São Paulo, 17 de agosto de 2010.

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Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

Num Cigarro

No complexo momento em que as ideias nada mais são que um

amontoado de pensamentos desconexos e ininteligíveis,

Em pleno passeio, ao muro recostado, incendeia a chama impiedosa

o tabaco pilado,

Que, em brasa, faz pairar a tranquilidade e restitui a consciência.

Bem à frente, entupida e transbordante, jaz a infartada larga

avenida,

Cortada em duas contradições pelo estreito canteiro de pouco

gramado e muito rosado das flores que neste tempo já terminam.

Do lado de cá, por entre buzinas e pneus estressados que gritam aos

céus por clemência,

Acham-se heroicos e verdadeiros sorrisos e olhares trocados nas

cabinas e por entre as janelas,

Paradoxais à cena, mas relutantes ao nervoso fluxo geral.

No de lá, disso nada se pode pela distância ver,

Senão a irritação manifestada por insultos despejados a todos os

lados, aos bruscos movimentos dos veículos que contrariados abrem

egoístas e miseráveis alas à suplicante sirene, que em histeria anuncia

a caminho a possível salvação que já tarda.

E com a nitidez retomada pela ausência da névoa acinzentada,

Recobra-se a consciência do retorno à realidade própria,

Repõem-se os pensamentos aos deveres suspensos,

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Rafael Castel ar das Neves

E tudo simplesmente fica para trás, abandonado, como se nunca

tivesse sido.

São Paulo, 23 de agosto de 2010.

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Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

Carta Ao Meu Eu-Passado

Caro Eu-Passado,

Não é por falta de interesse e nem por descaso que não

pergunto como lhe vão as coisas, mas por muito bem já as saber. Sei

também que, por se encontrar em profunda perdição de si,

incrédulo de tudo e todos que passam a lhe rondar, inclusive de si

mesmo, muito lhe custa a esta carta ler, mas é por ela que lhe trago

boas-novas!

Digo-lhe que por aqui as coisas muito têm melhorado, que

muitas das nossas dúvidas e dificuldades têm, desde então, se

resolvido e novos rumos tomado, diferentes dos que aí está a pensar.

Por incrível que possa lhe parecer, e sei que muito lhe parecerá,

nossa vida tornou-se novamente iluminada e, de uma forma nova e

curiosa, saborosa. Os amanheceres não são mais torturantes e

temidos, mas confortáveis e amenos, alguns até muito prazerosos.

Os dias têm passado com fluidez e tranquilidade – desprezemos,

contudo, aqueles inevitáveis aborrecimentos da vivência coletiva. As

noites continuam a serem impacientemente aguardadas, mas não

mais pelo refúgio concedido e sim pelo divertimento ou pelo

simples relaxamento do lar, nelas sempre contidos. E são as

madrugadas que mais me prazem, pois agora, ou nelas chegamos ou

por elas passamos descuidados num profundo desmaio regenerador,

que sei que há muito não tem.

Confesso que os fantasmas ainda assombram, mas não com

a tempestuosidade e vivacidade que você tão bem conhece, mas cá

estão e isso não posso e nem devo lhe negar. Mas também confesso

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Rafael Castel ar das Neves

que não é de todo mal que, vez ou outra, ainda apareçam. É preciso

que algo nos lembre do que fomos e pelo que passamos – e isso eles

fazem muito bem, bem até demais, lhe confidencio –, pois o

esquecimento é fácil e a ansiedade e a espontaneidade de reviver

cegam e ensurdecem. Devemos nos lembrar, eu e você, ao menos

assim podemos nos postar matreiros diante do que está por vir, mas

sem perder a doçura de viver. E estas são as lembranças que me

fizeram perceber que eu, justamente eu, também havia me esquecido

de você. Enfim, lhe escrevo para contar que por aqui os dias estão

mais claros, as cores mais vivas e paira a vontade de viver; por isso,

aguente firme, ele dependerá de nós. E lembre-se: você não está

sozinho, quando as coisas apertarem, olhe para dentro de si e me

verá!

São Paulo, 13 de setembro de 2010.

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Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

Carta Ao Meu Eu-Futuro

Caro Eu-Futuro,

É quase que incontrolável o desejo de saber como lhe vão

as coisas, mas sei que não as me dirá, sei também que é por zelo que

não o fará, jamais por desconsideração ou rancor, pois isso, ao

menos nós para conosco, não devemos.

Mas antes que comigo se irrite ou me maldiga, peço que se

atente com um pouco de esforço, pois é apenas sobre coisas da nossa

vida, que talvez já saiba, e que julgo importantes de serem mantidas

na mente, ou ao menos relembradas, que lhe escrevo. Talvez lhe

pareça que são de justificações daquilo que lhe causarei que lhe falo,

mas não entenda assim, pois, em muitos dos casos, não todos, nem

ainda o sei.

Talvez não seja todo o possível para melhorar as coisas que

eu tenha feito, mas é o todo que, neste momento, consigo entender

como necessário. Quis eu ser seu herói salvador, estar daqui fazendo

para você como para o filho faz o dedicado pai cuidadoso. Mas é

justamente quando olho para o que fomos que entendo que não é

bem assim que as coisas se desenrolam. Algumas coisas melhoram,

outras pioram e estagnam-se outras. Há erros que aprendemos a

evitar, outros que insistimos em cometer – com diferentes

intensidades, é bem verdade – e outros novos que a nós teimam a

surgir e a aterrorizar. Já não sei se é com conformação ou simples

aceitação que os recebo, mas sei que nada disso foi o que para nós

previ e busquei. Confesso que melhor já é do que tivemos, sem

querer por baixo nivelar ou a mim justificar – já o fazendo.

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Rafael Castel ar das Neves

Assim sendo, é com todo remorso do fracasso e o aperto

angustiante da esperança de boas-novas, que lhe despejo minhas

falhas, lhe condeno com meus erros, lhe amaldiçoo com meus

fantasmas, lhe coroo com a responsabilidade da nossa continuidade

e, acima de tudo, lhe tanjo com minhas alegrias, das quais, imploro,

nunca venha a se esquecer.

Não se esqueça, também, do que somos e do que fomos.

Ponha-se sempre a olhar para trás, para o meu hoje, para que possa

adiante sempre caminhar, como hoje o faço eu, por nós!

São Paulo, 22 de setembro de 2010.

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Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

Deliciosamente Enfeitiçado

Foi num quase de repente pleno de sem querer

Que, de uma quase memória, você renasceu, como nunca antes,

diante de mim,

Contrariando meus injustamente fundamentados preceitos,

Sem um nada a pedir ou a oferecer; apenas num aberto e

desprendido ser.

E quando eu, curioso e descuidado, cometi meu primeiro vacilo

moleque,

Você, ousada, invadiu meu oculto mundo há muito proibido,

particular de um só dono,

A tudo envenenando e impregnando com seu cheiro e seu tocar,

Pondo abaixo, com seu olhar e seu sorrir, todas as muralhas e

defesas,

Tomando parte de todo este meu todo, que nem por direito nem

por oferenda lhe pertencia.

Agora, feiticeira invasora, faço justiça!

Por seus atos e possessão, lhe condeno:

À minha onipresença em seus momentos e pensamentos;

Ao meu repugnante e pueril envelhecer;

Às minhas dores e prantos;

À minha insaciável querência de seu inebriante cheiro e

entorpecente toque;

À minha insuprível abstinência de você;

Ao meu eterno buscar dos seus olhares e sorrisos;

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Rafael Castel ar das Neves

Às minhas estridentes e alucinadas gargalhadas por seu haver;

Aos meus opressores e descontrolados cuidados dedicados,

incondicionalmente, ao seu estar;

Às minhas rabugentas enfermidades;

Às estúpidas deformidades riscadas da minha bula;

Aos meus involuntários sorrisos aflorados ao lhe notar em meu

amanhecer;

Aos meus desmedidos esforços em ao seu lado estar, a saborear o seu

todo – que seja a mínima açucarada gota.

E que lhe caia dos céus esta insuficiente penitência,

Vitalícia pelos restos dos dias em que insistir em me manter sob este

seu feitiço de você,

Sem alforria concedida ou descanso merecido.

Que assim seja!

São Paulo, 27 de setembro de 2010.

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Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

Água Dura

Foi pela paciente insistência no tanto bater, e só por esse motivo,

que venceu a água a pedra, fazendo-a ceder contra a própria vontade

e natureza, impotente de fuga.

E no extasiante momento da vitória, as forças, que teimavam em

existir sem origem sabida, sucumbiram em trêmulo deleite à

recompensa do delicioso entranhar-se de dois desconhecidos novos

mundos, sem tornarem-se apenas um, mas inseparavelmente

úmidos, eternamente marcados por um majestoso instante de

conquista.

São Paulo, 07 de outubro de 2010.

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Rafael Castel ar das Neves

Querência de Você

Por entre risos e deleites brotados, a mundos de distância,

Pelo delicioso saborear ondulante da vivência plena de tão sonhados

sonhos pueris,

Apresentou-se, palpitando no peito meu, entre descoordenadas

linhadas e antigas rimas sertanejas, a inevitável e já sabida querência,

Mas em, até então, desconhecidos teores, cores e intensidades.

Querência esta que, num sem se perceber, ainda que percebido, mas

sob o inútil disfarce de distrações colhidas e forjadas,

Nutrindo-se do teimoso tempo, que pelos cantos lento escorria,

Tomou sua mais primitiva e inquietante forma,

Irrompendo peito a fora, tingindo com sua supremacia todo o meu

todo.

E como esta saudade, que nunca deixou de ser, em sua mais bela e

pesarosa essência,

Fundamenta, nas mais entranhadas e profundas vísceras,

Os mais verdadeiros e intensos sentimentos de bem-querer

Que, mesmo depois de alucinadamente rasgados intermináveis e

revoltantes quilômetros, não se entregam e nem vacilam ao tão

buscado encontrar-lhe,

Apenas transbordam intensa e prazerosamente ao indescritível e

insaciável abraço seu, enquanto entorpecem meu corpo cansado

com os mais suculentos e apaixonados beijos seus.

Rosana, 01 de novembro de 2010.

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Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

A Arte de Viver

Há algum tempo, não muito, num sábado, minha mãe

veio a São Paulo com amigas de trabalho, professoras, em uma

excursão à região da Rua 25 de março, para as tradicionais compras

populares. Aproveitamos a oportunidade para nos vermos e

marcamos um encontro, após as compras é claro, no Mercado

Municipal, para um saboroso e gordo lanche de mortadela.

Considerando o trânsito, peguei meu carro e me pus a

caminho de lá bem antes da hora. Isso mesmo! Para quem não sabe,

fica aqui a dica, São Paulo, aos sábados, entre as dez e quatorze

horas, tem trânsito muito complicado, principalmente na região

central e suas principais vias de acesso. Trânsito este talvez não tão

divulgado pela falta de compromissos laboriosos que realmente, e

infelizmente, são os que valem alguma coisa hoje em dia em nossas

vidas. Mas lá estava eu, em meio a tantos outros, me arrastando pela

Avenida do Estado, cada vez mais lento conforme me aproximava da

Avenida Senador Queirós, conversão para o Mercado Municipal, a

partir da qual, diga-se de passagem, seguindo adiante, nada havia

senão o ondulado e falho tapete de asfalto.

Mas como dizia, lá estava eu, no vai e para, passando sob o

viaduto da linha vermelha do metrô, a olhar para os lados, para os

cantos, para as pessoas – mania minha – e, entre imundices e

subumanidades, me deparei, bem ao meu lado, com uma barraca.

Não um barraco, mas uma barraca, feita por um emaranhado

improvisado de arames, cordões, canos de ferros descartados e tortos

cobertos por uma mal remendada lona amarela, no tradicional estilo

canadense. Era uma barraca bem comprida, o que também me

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Rafael Castel ar das Neves

chamou a atenção, e estava rodeada por bugigangas, lixo e artefatos

de uso inexplicável, mas prováveis sentimentos e valores

compreensíveis. A extensa vida útil da lona lhe permitia uma

transparência sutil e desfocada, mas suficiente para permitir

identificar os contornos das pilhas de objetos – e quantas –,

aparentemente mantidas como mobílias de uso e decoração. Em

uma das extremidades, talvez a que pudesse ser chamada de fundos,

havia uma pequena fogueira sob algo que parecia uma panela

fumegante, pendurada a uma rústica armação de ferro. Mas

ninguém havia. Talvez estivessem dentro de um dos cômodos da

barraca a conversar, ou estirados a dormir – o que não se podia

confirmar nem mesmo pela transparência –, ou simplesmente

tivessem saído, mas não se via uma alma vívida.

Entretanto, era na outra extremidade, na que seria a

entrada, que estava o que mais me chamara a atenção e muito me

surpreendeu em toda esta cena, a ponto de me fazer perder a atenção

para o que fazia, conduzir meu carro ao encontro da minha mãe: na

ponta da barraca, cuidadosamente dependurado de forma a decorar

a fachada, havia um quadro! Um quadro pequeno, gasto pelo tempo

e pela descuidada exposição ao clima. Quase não dava para

reconhecer a pintura em si, mas via-se que era uma cena rural, o

retrato de uma casa campestre ao lado de um pequeno lago. Enfim,

era um quadro, um quadro dependurado na entrada de uma barraca

improvisada à margem do Rio Tamanduateí, ao lado da Avenida do

Estado, salpicada por detalhes e gostos que pudessem lhe atribuir a

mínima sensação e aparência de lar, extrapolando sua essência de

abrigo. Tudo foi muito rápido. Tão logo as buzinas me alertaram

da distância aumentada entre meu carro e o da frente, tive que

continuar. Apesar de parecer bem instalada, não estava mais lá na

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Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

segunda-feira seguinte e nunca mais a encontrei, nem o quadro.

Ainda os procuro quando por lá passo, mas ficou apenas na

lembrança. A encantadora e deliciosa lembrança de encontrar a

magia da arte naquelas vidas, que só fez representar e enaltecer outra

obra ainda maior: a arte deles em viver, que leva ternura onde

predomina a dor e o descaso!

Ah, o lanche com minha mãe foi muito bom!

São Paulo, 07 de novembro de 2010.

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Rafael Castel ar das Neves

Enfim, Só...

Há tempos vivendo desiludida em uma fétida mediocridade, de casa

para o trabalho, do trabalho para casa, da semana para a cama, da

cama para a sala, da sala para o mesmo, do fim para a lida;

Sem nem mesmo uma sombra a lhe acompanhar, longe do que um

dia foi ninho rodeado do que nunca foi família, com nem meia

dúzia de seres menos ausentes, raramente presentes, que a

carregavam por caridade, em meio a tantos outros milhões, que

como todos os outros tantos nem a notavam;

Humilhada por tanto sem jeito um recosto mendigar, um único

toque alheio que lhe pudesse acalentar – quiçá repugnar, ao menos

seria algo – por míseros instantes que fossem, e nada encontrar por

tudo a negarem e de tudo negar-se;

Cansada de tanto caminhar e a lugar nenhum chegar, nem de lugar

algum sair, sendo só consigo mesma, na própria vida, entre tantos –

mas nunca digna de ser só em ser só;

Ela, enfim, deu-se por derrotada e rendeu-se ao inevitável já

anunciado:

Soltou as mãos, lançou para trás os braços e entregou-se ao vento

frio da madrugada que lhe lambeu reconfortantemente todo o corpo

que descia majestosamente desprendido pelo alívio de toda uma

vida.

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Desce Mais Uma! – Segunda Rodada

Poucas foram as lágrimas que se precipitaram por sua partida; e

repente foi o tempo que pairou por sobre o mundo a sua memória.

São Paulo, 17 de novembro de 2010.

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