Desejo que Alucina! por Anne Hampson - Versão HTML

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Desejo que

Alucina!

Anne Hampson

(A man to be feared)

Bianca nº 79

Os olhos dele a olhavam febrilmente, a paixão desprezada consumindo seu

orgulho. Tirou o robe de chambre e chutou-o para o lado com violência. Juliet

tentou fugir, mas foi envolvida pelos braços fortes daquele homem que

reivindicava seu poder de marido... E, antes que ela percebesse o que estava

acontecendo, o corpo másculo, que lembrava o de um deus pagão, dominava o

seu corpo frágil, nunca antes tocado por um homem. Nesse delírio, Juliet não

imaginava que esse louco amor se transformaria em ódio, um ódio tão

profundo que poderia levá-los à destruição.

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Título original: “A MAN TO BE FEARED”

Publicado originalmente em 1976 pela Mills & Boon Ltd., Londres, Inglaterra

Tradução: RILDA MACHADO LORCH

Copyright para a língua portuguesa: 1981

Digitalização: Zaira

Revisão: Cris Veiga

Este Livro faz parte do Projeto—

Romances,

sem fins lucrativos e de fãs para fãs.

A comercialização deste produto é

estritamente proibida

CAPÍTULO I

Dizer que a chegada de Dorian Coralis à pequena

localidade de West Havington, no condado de Dorset, no

sul da Inglaterra, tinha provocado emoção, era

realmente muito pouco. Num lugar onde nunca

aconteciam coisas novas, aparecer logo um grego! E um

homem tão impressionantemente belo, lembrando um

deus pagão, só poderia mesmo tirar do marasmo um

lugar onde o nascimento dos trigêmeos da sra. Formby

tinha sido o assunto mais excitante dos últimos cinco

anos.

— Ele tem um metro e noventa de altura, nem um

centímetro menos — afirmou a jovem Nancy, funcionária

do serviço postal, depois de ter vendido a ele um álbum

de selos, vendo-o afastar-se com passos vigorosos e

desenvoltos. — E é o homem mais bonito que já

apareceu por aqui!

— É verdade — concordou o velho Godfrey, dono da

fazenda Green Acres, que ficava no vale próximo. —

Aposto que as meninas do Solar Grange já estão

brigando por causa dele.

— Não vai haver nenhuma briga — afirmou a Sra.

Youdall, uma solteirona que morava num velho moinho

depois da ponte, em companhia da irmã. — Tanya vai

deixá-lo completamente apaixonado, como já aconteceu

com outros. Quem olharia para Juliet, tendo Tanya por

perto?

Nancy não gostou do comentário e seus pequeninos

olhos cinzentos mostraram descontentamento.

— Mas Juliet é a melhor das duas. Ela é uma menina

muito meiga, e eu, às vezes, fico imaginando por que

estará morando com os tios até hoje.

— Ela os deixará quando for mais velha — profetizou

Godfrey. — Desde que seu pai e sua mãe morreram

naquele acidente, e que ela foi recolhida pelos Lowthers,

não tem sido para eles mais do que uma escrava! Tinha

seis anos na época, e desde então eles puseram nas

mãos dela uma vassoura e um espanador!

Naturalmente aquilo era um exagero de Godfrey.

Entretanto, era comentário geral na vila que Juliet não

passava de uma criada no Solar Grange, a enorme

mansão que do alto de um monte dominava a paisagem

e os campos do lugar.

Os tios haviam surpreendido a todos, quando

decidiram tomar a pequena órfã sob seus cuidados. Ela

seria uma companhia para a prima, explicaram na

ocasião, mas a verdade é que, desde o começo, tanto os

tios como a filha a trataram como uma serviçal. E agora,

já com quase dezessete anos, Juliet tinha todo o serviço

da casa sob sua responsabilidade.

— Ouvi dizer que Tanya e o grego foram jantar e

dançar no Restaurante White Swan — comentou a Sra.

Goldsmith, muito misteriosa. E, depois de guardar na

bolsa os selos que acabara de comprar, encostou-se no

balcão e cochichou com Nancy: — Dizem que os

Lowthers o convidaram apenas para quê ele e Tanya se

aproximassem. Os Lowthers estão muito bem de vida,

mas não são milionários. Dorian Coralis, com este nome

grego tão esquisito, é filho de um construtor de navios

muito rico. Não admira que eles estejam querendo que

Tanya o agarre.

— É preciso admitir que eles formam um lindo par —

acrescentou Ellen, a empregada do padre, que não

simpatizava muito com Juliet. — Bem que gostaria de vê-

los casados...

Godfrey fungou ruidosamente, revelando seu

descontentamento.

— Eu por mim, bem que torço para que Juliet o

conquiste, pois isto provaria a Tanya e a seus pais que

Juliet não é inferior a eles.

— Juliet! — exclamou a Sra. Swale, com desdém. —

Ela é muito feia!

— Feia não! — discordou Godfrey. — Não é bonita,

concordo, mas tem olhos lindos, cabelos dourados, e

uma pele suave e clara...

— Mas Juliet não tem a graça da prima —

interrompeu a Sra. Swale — e é muito tímida e

envergonhada... Isto não é comum nas moças de hoje.

Às vezes até penso que é um pouco fingida.

— Fingida! — exclamou Godfrey, revoltado. — A

garota ainda não tem dezessete anos! E Tanya tem vinte

e um!

— E não se esqueçam — acrescentou a Sra.

Goldsmith — que Juliet nunca saiu daqui. Eles não a

levaram nem quando foram passar o último verão na

Grécia!

— Foi quando conheceram o rapaz, não foi?

— Sim. Ele e Tanya se conheceram e ela o

apresentou aos pais. Parece que se corresponderam por

algum tempo, e agora o convidaram para uma

temporada em sua casa!

— Sabem de uma coisa? — comentou Nancy. — Ele

não combina com os Lowthers. Tive essa impressão logo

que ele chegou, há uma semana...

— O que está querendo dizer? — perguntou Godfrey,

enquanto enchia o cachimbo, encostado no balcão.

— Ele é orgulhoso e distante. Parece ser intratável,

entendem?

— Está querendo, dizer que é convencido?

— Sim... E também nunca sorri, por mais que a gente

procure ser amável. Talvez considere os Lowthers

inferiores a ele.

— Ah, mas não se esqueçam de que ele está

interessado em sua linda filha.

Naquele exato momento, a “linda filha” estava

olhando furiosa para a prima Juliet, enquanto segurava

um vestido de noite de veludo negro.

— Já mandei que fizesse esta barra desde a semana

passada! — E dizendo isso, atirou no rosto da outra o

elegante vestido.

— Você não disse nada, Tanya — protestou Juliet em

prantos. — Apenas mandou que eu o passasse a ferro e

eu obedeci. Depois o pendurei no guarda-roupa.

— Eu disse que a bainha estava desmanchando!

Conserte-a imediatamente, pois quero vesti-lo ainda

hoje!

— Está bem... — disse Juliet, apanhando a roupa, que

tinha caído no chão. — Vou consertar agora mesmo.

— E tome cuidado para que os pontos não apareçam

do lado direito, porque, se acontecer isto, vai ter que

refazer tudo!— Tanya tinha uma beleza exótica, com

seus cabelos negros e pele muito clara, que os homens

achavam irresistível. Olhando com desdém para a prima,

muito magra e sem graça, recomendou, impiedosa: — E

pare de ficar olhando para Dorian. Ele fica muito

constrangido.

— Mas eu não estou olhando para ninguém! Nem

tenho jeito para isso!

— Você é insignificante, sabe muito bem disso. E

Dorian acha que é feia, entendeu? Muito feia, entendeu?

Muito feia. Por isso deixe de persegui-lo pela casa,

tentando fazer com que ele se interesse por você.

— Mas eu não...

— Por que você tingiu os cabelos? — perguntou

Tanya, rindo com escárnio, o que ela fazia

constantemente e que mortificava Juliet.

— Não tingi. É só uma rinsagem.

Tanya soltou uma gargalhada, que ecoou pelo

elegante quarto de dormir que ela ocupava sozinha,

enquanto sua prima dormia no sótão.

— Quando eu voltei das férias, mostrei a você um

retrato de Dorian, lembra-se?

— É claro! — O rosto de Juliet estava branco, as

mãos geladas.

— Acontece que eu lhe disse que ele gostava mais

das morenas do que das loiras...

— E daí? — Juliet alisou o veludo macio e por um

longo momento desejou poder usar aquela roupa

luxuosa... E ir jantar e dançar com Dorian Coralis.

— Mais tarde eu lhe contei que ele viria para a

Inglaterra, a negócios, e que minha mãe o convidara

para passar alguns dias conosco. Mais uma vez

mencionei o fato de ele gostar tanto de cabelos negros,

e o que foi que você fez, minha tola Emily.

— Meu nome não é Emily! É um dos meus nomes,

mas eu vivo pedindo que me chamem de Juliet. Todas as

pessoas deste lugar já se acostumaram a me chamar de

Juliet!

— Pois aqui em casa seu nome é Emily! Foi assim

desde o dia em que você chegou e...

— Minha mãe e meu pai só me chamavam de Juliet!

— Só que nós não gostamos de chamá-la de Juliet...

E como eu ia dizendo, minha Emily querida — a falou,

com ironia, — o que foi fazer com seu cabelo? Diga,

vamos... Pensa que ficou menos feia? — Tanya

aproximou o rosto do da prima, os olhos negros

brilhando, maliciosos. — Sua boba! Saiu e comprou uma

tintura de cabelos...

— Uma rinsagem! — protestou Juliet, envergonhada,

antes que Tanya acabasse de falar.

— E qual é a diferença? — caçoou Tanya. — Sei que

você se apaixonou pelo retrato dele... Sua órfã raquítica

e nariguda! Como Dorian ia rir, se soubesse que você

pintou os cabelos por causa dele! — E chegando ainda

mais perto, perguntou: — Acha que adiantou alguma

coisa? Ele nem ao menos sabe que você existe!

Nesse instante, uma voz estridente se fez ouvir:

— Emily! — Imediatamente Juliet abriu a porta do

quarto.

— Sim, tia Maud?

— O cachorro vomitou na cozinha. Vá limpar agora

mesmo. E depois não se esqueça de encher os

reservatórios de carvão para esta noite.

— Sim, tia Maud.

Tanya olhou para a prima com desprezo.

— Você é uma covarde não é, Emily? — disse ela,

notando os lábios trêmulos e o rosto pálido. — Tem

medo até de responder...

— Algum dia, Tanya — falou Juliet tensa e em voz

baixa, — serei capaz de enfrentar tudo!

Depois saiu do quarto, levando o lindo vestido da

prima.

No dia seguinte, ela foi até o correio comprar selos

para Tanya.

— Alô, Emily, Oh! Desculpe-me! Juliet. — E Nancy

olhou amigavelmente para a jovem. — É um pouco difícil

lembrar que você prefere ser chamada de Juliet. Nós a

chamamos de Emily há tanto tempo.

Juliet concordou, com um movimento de cabeça, e

embora já tivesse explicado a Nancy e a outros do lugar,

recomeçou a explicação:

— A senhora sabe que eu só tinha seis anos quando

tia Maud e tio Alfred me trouxeram para cá. E, como eu

já disse, meu nome completo é Juliet Emily Hardy.

— Sim, meu bem, eu sei — Nancy interrompeu,

amável. — Não há necessidade de repetir.

Juliet engoliu em seco e hesitou, antes de prosseguir:

— Meus pais sempre me chamaram de Juliet, mas tia

Maud disse que não gosta do nome...

— Pois eu acho um lindo nome, meu bem — disse a

mulher, decidida. — Não entendo porque a sua tia

prefere Emily.

— Pois prefere. Obrigou-me a abandonar Juliet e só

me chama de Emily... — E lembrou-se então daquele dia

tão distante em que sua tia dissera que, daquele

momento em diante, ela seria Emily, apesar de seus

protestos lamuriosos, dizendo que estava acostumada a

ser chamada de Juliet!

— Vai fazer o que nós mandamos! — ordenara a tia

malvada. — Obediência será sua primeira lição nesta

casa. A segunda será gratidão! — E para garantir que a

sobrinha não se esqueceria, a tia obrigara-a a escrever

cem vezes estas duas palavras, enquanto Tanya

aparecia de vez em quando para caçoar dela.

Seus pensamentos foram interrompidos pela

chegada de Godfrey ao correio.

— Sim — Nancy murmurou. — Lembro-me de que

sua tia veio até aqui contando que ela e o marido haviam

adotado você e que seu nome passaria a ser Emily

Lowther.

— Mas era Juliet Hardy! — Juliet franziu ligeiramente

a testa. — Algum dia eu serei conhecida pelo meu

verdadeiro nome, Nancy, e não pelo que minha tia

resolveu me chamar.

— E também vai voltar seus cabelos à cor natural —

insistiu Godfrey, enquanto olhava, desgostoso, para os

cabelos de Juliet, pintados de preto. — Uns cabelos tão

lindos, dourados com reflexos vermelhos! Uma coisa

rara!

— Reflexos ruivos, Sr. Godfrey — disse Juliet,

desanimada. — E bem mais claros do que eu gostaria.

Preferia ter cabelos escuros, como os de Tanya.

— Por alguma razão especial? — perguntou ele, sem

entender. Ela ficou em silêncio por um momento,

relembrando a sua emoção quando Tanya lhe mostrara o

retrato de Dorian Coralis. Alguma coisa estranha e

poderosa tomara conta de Juliet, enquanto observava

aquele belo rosto de homem, com feições firmes e

másculas e que fora o par de Tanya durante sua estada

na Grécia. Tanya lhe contou que ele tinha ficado

aborrecido quando ela voltara e havia insistido para que

ela lhe escrevesse.

— Ele se apaixonou por você? — perguntara Juliet,

ainda olhando fascinada para a fotografia à sua frente.

— É lógico que sim! Não sabe que todos os homens

se apaixonam por mim, Emily?

Depois, quando disseram a Juliet que Dorian Coralis

seria hóspede do Solar Grange, sentira a mesma

estranha sensação e uma enorme vontade de chamar a

atenção dele, de fazê-lo interessar-se por ela. E por isto

tinha comprado aquela rinsagem, que o farmacêutico lhe

afirmara, desapareceria depois de algumas lavadas. E

tinha ainda acrescentado:

— Naturalmente, se não lavar a cabeça, a tintura só

desaparecerá quando o cabelo crescer.

Um pigarro de Godfrey a trouxe novamente à

realidade, lembrando-a de que ele ainda estava

esperando por sua resposta.

— Não... Nenhuma razão especial — mentiu ela. —

Eu só queria ficar morena.

— Bem — disse Godfrey, — acho que você deveria

ficar satisfeita com os lindos cabelos que tem.

Satisfeita com a cor de seus cabelos... Juliet estava

pensando nisto, enquanto Godfrey conversava com

Nancy.

A natureza deu-me muito pouco, pensou Juliet,

lembrando-se do lindo rosto de sua prima. Não havia

nada que ela pudesse fazer, e realmente havia sido

muito ridícula, tendo esperanças de que um homem

como Dorian Coralis a notasse... Ele já estava no Solar

Grange há mais de uma semana e mal tinha falado com

ela. Juliet desconfiava que ele nem sabia qual era o tom

de sua voz!

Entretanto, Juliet conhecia cada traço do rosto dele,

cada músculo, que indicava alegria ou impaciência.

Sabia o formato de suas mãos longas, o ritmo de seu

corpo atlético quando andava. Os olhos escuros e

expressivos de Dorian a acompanhavam até seu

quartinho, quando finalmente se deitava, exausta, e o

eco da voz dele permanecia em seus ouvidos até o sono

chegar. Então, ele continuava em seus sonhos,

deliciando suas noites tristes e vazias!

Godfrey estava rindo por causa de alguma coisa que

Nancy dissera, e, em seguida, perguntou a Juliet:

— Até quando o Sr. Coralis ficará hospedado no

Grange?

— Não sei — respondeu Juliet. — Parece que ele tem

que resolver alguns negócios em Londres, antes de

voltar para a Grécia.

— Mas, ouvi dizer que ele já esteve em Londres,

antes de vir para cá...

— Ouviu dizer... — Juliet sorriu, apesar do peso

dentro de seu peito. Nancy sabia tudo o que acontecia

naquelas redondezas. — É verdade. Dorian esteve em

Londres a negócios, antes de vir para cá. Mas ontem

chegou uma carta, avisando que ele precisaria resolver

mais algumas coisas, antes de voltar para a Grécia. E por

isso talvez ele parta em breve.

Uma pequena pausa, e mais uma pergunta.

— Ele trabalha com o pai, não é?

— Sim — respondeu Juliet. — Mas Tanya me disse

que o pai não está bem de saúde e que é Dorian quem

praticamente dirige tudo.

— Ele será um homem riquíssimo, algum dia.

— Acho que sim.

— Vocês vão sentir saudades dele — comentou

Godfrey. — Deve ser uma ótima companhia para todos.

Os enormes olhos castanhos de Juliet ficaram tristes.

— Eu não converso muito com ele, Godfrey —

respondeu ela, enquanto pagava os selos que comprara.

— Ele é amigo de Tanya...

O Sr. Godfrey pareceu desapontado, e Nancy veio

em seu socorro.

— Ele mora na ilha de Rhodes, não é?

— Estava morando lá quando Tanya o conheceu.

Tem uma enorme mansão.

— Uma mansão? Pensei que eles chamassem as

casas deles de vilas.

— E chamam, mas a casa de Dorian é quase tão

grande quanto um castelo.

— Ele mora com o pai?

— Parece que sim, mas ouvi ele dizer à tia Maud que

pretende morar na ilha de Thassos, onde comprou uma

casa. Acho que deve ser uma ilha maravilhosa, pelo que

ele diz... — Os olhos de Juliet tornaram-se sonhadores. —

As vilas são todas brancas, com trepadeiras subindo

pelas paredes e flores pelos jardins. E o mar é lindo, azul

o tempo todo!

Godfrey olhava preocupado para Juliet.

— Eles deveriam ter levado você também — disse

impulsivamente, mas logo percebeu que tinha sido falta

de tato de sua parte.

— Não posso esperar que meus tios gastem dinheiro

comigo em coisas assim — respondeu ela, tão resignada

que a preocupação do bom homem aumentou.

— Que eu saiba, você nunca teve férias — comentou

ele.

— Algum dia eu terei, Sr. Godfrey.

— Sim filha eu sei que terá — respondeu ele,

olhando de soslaio para Nancy, que sacudia a cabeça,

penalizada. — E que lugar escolheria para passá-las?

— Ora, a Grécia, naturalmente! — respondeu Juliet.

Embora seus olhos continuassem tristes, havia animação

em sua voz. — Gostaria de conhecer o lugar onde Dorian

mora.

Dez minutos mais tarde, ela se dirigia

apressadamente para casa. Tinha conversado demais no

correio e já estava esperando pelo carão que recebeu da

prima.

— Você é muito preguiçosa! — exclamou Tanya,

irritada. — Precisa passar um pano nos meus sapatos. Vá

agora mesmo tratar disto.

— Eu sempre limpo seus sapatos.

— Pare de me responder o tempo todo! E não se

esqueça, de que você mora aqui de favor.

Tanya estava muito mal-humorada, Juliet logo

percebeu, enquanto levava os sapatos para o canto da

cozinha, onde os de seus tios também já estavam, para

que ela os limpasse também. Começou o trabalho, mas

desta vez não sentia a resignação de sempre. Se eu

pudesse fugir daqui seria ótimo, pensou. Mas para onde?

Seus benfeitores nunca lhe davam dinheiro... Só o

bastante para comprar um xampu ou uma pasta de

dentes. Suas roupas eram sobras de Tanya, que, além de

ser mais alta que Juliet, era já uma moça feita, com

quadris mais largos e busto desenvolvido. Juliet dentro

dos vestidos da prima parecia ainda menor e magricéla.

Não havia ainda acabado de limpar os sapatos, e a

tia entrou com uma porção de roupas para que ela

colocasse na máquina de lavar.

Depois saiu da cozinha e encontrou-se com Tanya no

corredor. Juliet ainda as ouviu conversando, enquanto se

afastavam:

— Não precisa responder assim, Tanya. Eu e seu pai

não temos culpa se ele ainda não a pediu em

casamento, mas eu acho que... — Juliet não ouviu mais

nada, mas sabia que as duas dirigiam-se para o

espaçoso salão de estar, onde ficariam conversando

enquanto ela precisava trabalhar na cozinha.

Sentiu uma pontada no coração. Casamento! Então

Tanya estava esperando um pedido de casamento de

Dorian! Tanya e Dorian casados... Tanya, partindo de

West Havington, como esposa de Dorian, para ir viver na

maravilhosa ilha de Thassos, na costa da Trácia... Uma

ilha cheia de flores, de sol e de praias calmas, em

enseadas formadas pelas rochas, contrastando com o

azul brilhante do mar!

Tanya de noiva... Tanya se casando com Dorian...

Mas ele ainda não a pediu em casamento, pensou

Juliet, com um fio de esperança aliviando o coração

dolorido. “Não a peça, Dorian! Espere por mim!”

Mas a verdade é que ele mal notava Juliet. Ela era

inexpressiva, imatura, desengonçada. Tão diferente da

prima, cuja beleza sempre encantara os homens que a

conheciam. Tanya andava com elegância, e, aos

dezessete anos, freqüentara uma escola para modelos,

aperfeiçoando seu charme natural. Conversava com

graça e desenvoltura e seria a esposa ideal de qualquer

homem. Linda, educada, segura de si e rica! Quem a

desprezaria para escolher uma garota pobre, feia e

insegura?

Dorian também havia sido muito bem dotado pela

natureza. Sua aparência nobre, seu físico privilegiado

suplantavam completamente qualquer homem que Juliet

conhecera... ou havia de conhecer. Juliet tinha certeza

disto desde o dia em que sua prima o apresentara e que

ele estendera para ela sua mão firme.

— Como vai? — dissera ela, muito tímida, antes de

voltar para a cozinha, de onde tinha sido chamada pela

tia, que antes explicara a Dorian que ela era uma

querida sobrinha, que eles criavam com todo o carinho,

desde os seis anos de idade, quando seus pais morreram

num desastre.

— Nós a recebemos sem hesitação — explicara a tia

— e procuramos dar a ela o amor que perdeu de maneira

tão trágica.

Lembrou-se então da primeira vez em que vira

pessoalmente o rosto de Dorian Coralis. A foto que Tanya

lhe mostrara já a tinha deixado abalada, mas o encontro

com o seu ídolo tivera sobre ela um efeito devastador.

Tentava convencer-se de que era impossível alguém se

apaixonar daquela maneira; que o que sentia era apenas

uma excitação por receber uma yisita de tão longe, de

um país que tanto a fascinava e sobre o qual tinha lido

tanto. Era uma terra misteriosa e Dorian era uma pessoa

estranha, com um rosto que poderia ter sido esculpido

em pedra, com feições regulares é marcantes.

Mas logo Juliet teve que aceitar a realidade... Ela

estava perdidamente apaixonada pelo grego de pele

queimada pelo sol e tão belo. Era o seu primeiro amor,

pois ela nunca havia saído antes com um rapaz... Bem

diferente de Tanya, que desde os quinze anos já tinha

vários namorados. Mas Tanya sempre parecera mais

velha do que era, e mais desinibida. Tinha aprendido a

se maquilar num instituto da cidade e sabia exatamente

como valorizar os olhos negros e os lindos cílios.

Juliet sempre se sentira inferior, não apenas

fisicamente. Desde criança, sua posição naquela casa

era sempre atirada em seu rosto, e ela crescera com a

aguda consciência de que necessitava dos tios para

comer, morar e vestir, pois seus pais tinham morrido

ainda muito moços, deixando-a só e pobre no mundo.

Seus tios não perdiam a ocasião de lembrar-lhe o quanto

eles haviam feito por ela, e as ironias da prima,

ridicularizando sua aparência e insegurança, só serviam

para torná-la ainda mais introvertida e infeliz. Este

tratamento, sendo constante, chegava a ser uma

perseguição e Juliet pensava, ansiosa, se um dia ia

conseguir escapar de seus algozes. Escapar!... Poderia

acontecer algum dia, ou nunca! Ela não tinha planos

para o futuro. E pensava, apavorada, que poderia viver

assim indefinida-mente, até tornar-se uma solteirona

triste, escapando de sua escravidão somente com a

morte dos tios.

Entretanto, no fundo de seu coração tinha um fio de

esperança, e sonhava que um dia o seu “príncipe

encantado” poderia aparecer, para levá-la dali. Um

homem que a amasse, protegesse, e a defendesse do

sofrimento até o fim de seus dias.

Mas depois se olhava no espelho e sentia aquela

esperança sumir, pois, quem se apaixonaria por uma

moça tão sem graça como Juliet Hardy, que a maioria do

lugar chamava de Emily Lowther?

Ela havia conseguido que algumas pessoas a

chamassem de Juliet, mas não tinha ousado pedir isto

aos tios, e, assim, foi apresentada a Dorian como Emily

Lowther.

— Emily! — falou Tanya, autoritária. — Ainda não

limpou os meus sapatos? — A linda moça estava na

porta da cozinha, olhando para a outra que, ajoelhada,

cuidava agora dos sapatos do tio.

— Sim, já estão prontos — disse ela, mostrando-os

com um movimento de cabeça.

Mas a prima arrogante reagiu.

— Pois entregue-os em minhas mãos!

Juliet sentiu subitamente que os lábios estavam

secos e que seu coração apertava-se no peito. Se eu

pudesse me casar e escapar!, Pensou ela, sonhadora.

Com Dorian Coralis.

— Se puder, por favor, inclinar-se e pegar os

sapatos, eu lhe garanto que não vai ser tão cansativo —

respondeu Juliet, em voz baixa, ciente de que, se Tanya

perdesse a paciência, ela sofreria com isto.

— Entregue-me os sapatos!

Com um ligeiro encolher dos ombros, Juliet levantou-

se, deu dois passos e, inclinando-se, segurou os sapatos,

que entregou à prima. Tanya recebeu-os e os observou

cuidadosamente. Juliet estava muito abalada com aquela

determinação da prima em humilhá-la, mas subitamente

falou alegremente:

— Vou pedir a tia Maud para fazer um curso de

secretariado. — Tanya olhou espantada para ela.

— Você já pediu antes...

— Pois vou pedir outra vez... — Juliet parou de falar,

com sua natural prudência voltando, ao ver a tia parada

na soleira da porta aberta.

— Que história é esta, Emily? — a tia perguntou

visivelmente irritada, os olhos maldosos fixos no rosto

pálido da sobrinha.

— Eu gostaria de uma coisa, tia Maud. O curso de

secretariado de que eu já falei uma ou duas vezes. Se eu

pudesse...

— Já discutimos isto. Não pode esperar que seu tio

pague um curso, depois de tudo que já fez por você.

Você é uma pessoa muito ingrata, sugerindo que ele

tenha um gasto tão grande!

— Eu pagarei tudo, algum dia...

— Papai não é nenhum milionário — interrompeu

Tanya. — Você tem sido um peso para ele, durante toda

a sua vida.

Mais pálida do que nunca, Juliet não se deu por

vencida e explicou que não havia mal em pensar no seu

futuro e procurar tornar-se independente do tio.

— Gostaria de ter minha casa, tia Maud —

acrescentou ela, com voz suplicante. — Um pequeno

apartamento que eu pudesse arrumar a meu gosto...

— Então esta casa não lhe agrada? — disse Tanya,

zangada. — Você é mesmo uma ingrata, Emily! Parece

ter se esquecido de que estaria em um orfanato, se o

meu pai não tivesse bom coração!

— Parece que estou entendendo — disse a Sra.

Lowther. — A “baronesa” deseja que o tio lhe pague um

curso de secretariado para depois arranjar um emprego

e sair de casa... Levando o que ganhar com ela. Em toda

a minha vida, nunca vi uma pessoa mais egoísta.

Nesse instante, o tio de Juliet chegara à cozinha, e

juntou seu olhar acusador ao da esposa e ao da filha.

Juliet gostaria de sair correndo dali e nunca mais voltar.

Mas ainda tentou olhando firme para a tia:

— Então vou ser obrigada a ficar aqui... Por toda a

minha vida como empregada de vocês, e ainda por cima

sem receber nada. — Muito pálida, recebeu um bofetão

de seu tio no rosto, que mandou depois, com severidade:

— Suba para o seu quarto, Emily, e fique lá até se

arrepender de suas palavras. Só saia quando estiver

disposta a pedir desculpas a todos nós.

CAPÍTULO II

Dorian passeava pelo jardim. Os olhos de Juliet o

seguiram quando ele atravessou o gramado e, passando

entre as árvores, dirigiu-se para o pavilhão do meio do

parque, onde Tanya o esperava. Dorian tinha saído para

dar uma volta. Juliet tinha ouvido quando ele convidara

Tanya para ir junto. Mas, ela recusara, explicando que

tinha algumas coisas para fazer. Logo que ele saíra,

Tanya tinha ido para o quarto, onde passara os três

quartos de hora seguinte se maquilando, escovando os

cabelos e vestindo uma roupa, que, na opinião de Juliet,

era muito provocante. O modelo “tomara-que-caia”,

muito justo, com aberturas dos lados, deixava a prima

ainda mais linda e atraente, mas não agradava Juliet,

que o considerava levemente vulgar. Tinha visto quando

Tanya se dirigira ao pavilhão, onde sabia que Dorian iria

encontrá-la,

O casal apareceu uma hora depois do encontro e

Juliet os viu da janela da sala de jantar. Dorian estava

arrogante e frio, como de costume; Tanya, ao contrário,

parecia alegre, o rosto corado. Juliet viu que seus olhos

brilhavam, sonhadores.

Isso deve ser amor, pensou ela ingenuamente,

incapaz de perceber o tipo de relacionamento que

realmente existia entre eles. Tudo o que sabia é que

sentia um ciúme feroz da prima, e que desejava

desesperadamente que Dorian a beijasse e abraçasse,

que seus braços fortes a estreitassem.

Por que ela haveria de desistir? Está certo, era uma

moça sem graça, mas conhecia várias moças na aldeia

que tinham encontrado a felicidade, apesar de serem

feias.

Tanya subiu e Dorian entrou na sala, onde encontrou

Juliet. Comentou então o passeio que fizera até o lago

próximo, elogiando o lugar. Fascinada por aquela

migalha de atenção, Juliet não conseguiu mais do que

sorrir para ele, sem que as palavras chegassem a seus

lábios. Depois de um silêncio desagradável, ele tentou

conversar com ela.

— O que fez hoje, Emily? — perguntou ele, com

aquela voz grave que ela tanto amava. — Não vi você

desde cedo.

Ela poderia ter dito que ele nunca a via, mas

naturalmente não foi o que fez. Em vez disto, sorriu,

abriu e fechou os olhos num gesto que tentava ser

glamouroso, e respondeu, fingindo uma alegria que não

existia:

— Estive cuidando das flores no jardim. — Nem bem

acabara de falar já se arrependera, pois ele

imediatamente olhou para suas mãos, ásperas e

grosseiras por causa do trabalho pesado. Teve a

impressão de que ele franziu ligeiramente a testa, como

se detestasse ver mãos tão descuidadas. Ela então

escondeu-as nas costas e mudou de assunto. — E você?

O que fez?

— Escrevi algumas cartas e fui até a cidade.

— Gosta de nossa aldeia?

— Gosto muito. — Dorian disfarçou um bocejo e

olhou para a porta.

— Tanya não vai demorar — disse ela, com o

propósito de ver qual a reação de Dorian. Mas os olhos

dele permaneceram impassíveis.

— Se conheço Tanya, ela vai levar mais meia hora

refazendo a maquilagem. — Sentou-se e Juliet sentou-se

a seu lado.

— Você e Tanya se dão muito bem — falou ela,

tímida, sem saber o que dizer. Ele era tão superior, tão

maravilhoso, ali sentado no sofá, com as pernas

cruzadas. Seu rosto era realmente belo e forte, o maxilar

duro acrescentando mais firmeza e virilidade à sua

aparência. E a boca sensual e bem-feita, que ela tanto

sonhava um dia beijar, agora estava séria.

Não havia dúvida, ele era uma espécie de deus

pagão, poderoso e inatingível.

Inatingível...

Mas se Tanya havia se aproximado dele... Por que

ela não conseguiria? Em sua inexperiência, sonhava

acordada.

— Naturalmente, nós nos damos muito bem —

respondeu ele depois, de algum tempo, os olhos escuros

brilhando divertidos. A boca se abriu num leve sorriso e a

ironia que ela revelava não agradou Juliet. Teve a

impressão de que ele a olhava com cinismo, e aquilo a

abalou. Não entendia por que uma pergunta tão simples

pudesse provocar tal reação.

— Dorian — ela disse subitamente, — vamos dar

uma volta no jardim?

Ele olhou para ela, espantado.

— Se você quiser... — ele disse, e o coração de Juliet

batia loucamente. Uma quentura espalhou-se por seu

corpo e um sorriso doce apareceu em seus lábios.

— Obrigada — disse ela, levantando-se, e viu que o

rosto bonito de Dorian demonstrava surpresa.

— Para que lado, Emily? — O tom da voz era suave e

assustou-a um pouco. — Quer ficar pelo jardim?

— É melhor passear entre as árvores, quando o

tempo está ensolarado como hoje.

“O que você está fazendo?”, pensou ela, assustada.

Naquela hora, desejou como nunca ter mais experiência

com homens!

— Quer então passear no bosque? — Ela teve a

impressão de que ele estava aborrecido agora... Ou seria

imaginação sua? — Por onde poderemos chegar até lá?

— Você não esteve lá com Tanya? — Esperou

ansiosa pela resposta, e quando ele afirmou que não,

sorriu aliviada: — Ah, estou contente. Então quer dizer

que será uma recordação só nossa... Coisa secreta, não

é?

Dorian olhou muito sério pára ela.

— Você é uma menina estranha, Emily — ele disse, e

seus passos ficaram mais largos, fazendo com que Juliet

precisasse correr para continuar ao lado dele.

— Estranha por que, Dorian? — perguntou ela, com

falsa naturalidade que o deixou irritado.

— Nunca imaginaria que você fosse gostar de

passear no bosque com um homem. Em meu país, você

seria chicoteada por seu pai.

Juliet parou e levantou para ele um rosto vermelho.

— Oh! — exclamou assustada. — Não gostei que

você me dissesse uma coisa dessas!

— Não imaginei que gostasse! Vamos, se temos que

dar nosso passeio!

— Está zangado comigo? — perguntou ela, depois de

algum tempo.

— O que está pretendendo fazer? — perguntou ele,

olhando-a de lado.

Ela não podia responder, simplesmente porque não

havia resposta. Não tinha idéia do que queria fazer.

— Há um atalho ali adiante — disse ela, mudando de

assunto. — Leva até um riacho e uma cascata.

Dorian estava agora calado e parecia preocupado.

Tomaram o atalho e Juliet segurou a mão dele... Ele

baixou os olhos para ela, que, atrapalhada, afastou-se.

Mas, algum tempo depois, enfiou sua mão na dele outra

vez.

— Você se importa? — perguntou, com voz trêmula,

pois se sentia insegura e emocionada, com o coração aos

pulos... Estava com medo, com muito medo, quando

levantou os olhos para ele. Gostaria que ele a tomasse

nos braços e a beijasse... Apaixonadamente. Queria que

ele a desejasse desesperadamente...

— E se eu me importar? — Havia divertimento e

irritação em sua voz.

— Eu nunca havia segurado na mão de um homem

antes — ela disse, ainda correndo para manter o passo

com ele. — É... Gostoso.

— Nunca? — respondeu ele, cético. — Espera que eu

acredite nisso... Depois de ter me convidado para

passear neste bosque?

— É verdade. — Ela deveria ter se mostrado ofendida

e indignada, mas tinha medo de que ele ficasse muito

zangado e desistisse do passeio.

Dorian continuou a andar depressa, enquanto ela

esforçava-se para acompanhar seu passo. Agora os dois

caminhavam sem dizer nada e Juliet sentia-se tão

humilhada que tinha vontade de morrer!

— Quero saber uma coisa — disse Dorian afinal,

quando chegaram perto de um enorme carvalho, e ele a

fez encostar-se no tronco.

— O que espera de mim?

— Quero que... Beije-me.

Juliet fechou os olhos, inclinou a cabeça e esperou.

Depois de um momento de agonia, Dorian levantou o