Desenterrando o Passado por Agatha Christie - Versão HTML

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ASSENTANDO NUMA COLINA

(Com minhas desculpas a Lewis Carroll)

Tudo o que puder, vou lhes contar

Desde que me ouçam com atenção:

Encontrei um jovem erudito a estudar,

Assentado numa colina.

“Quem sois, senhor?”, perguntei

“E o que procurais?”

Sua resposta fixou-se em meu pensamento,

Como manchas de sangue nas páginas de um livro.

Disse: “Procuro velhos jarros

De dias pré-históricos.

Classifico-os em grupos,

E grupos de tipos diferentes.

Depois (como você), começo a escrever.

Minhas palavras têm o dobro

Do tamanho das suas, são mais sérias,

E mostram que os meus colegas estão enganados!”

Mas eu estava pensando num plano

Para dar cabo de um milionário

Despachar seu corpo de aeroplano,

Ou escondê-lo em algum aviário.

Assim, sem resposta a dar,

E me sentindo meio encabulada,

Gritei: “Vamos, diga-me como você vive!

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E onde, e quando, e por que?”

Sua resposta, gentil, veio cheia de humor:

“Quando penso no assunto, para valer,

Chego à conclusão de que é

Há cinco mil anos atrás que eu queria viver.

E quando você pegar o gosto,

E aprender a desprezar estes anos D.C.,

Então poderá vir comigo escavar,

Sem nem pensar em voltar”.

Mas eu estava pensando num jeito

De botar arsênico no chá.

E não consegui, tão de repente,

Voltar tantos anos atrás.

Olhei para ele, dei um suspiro,

Seu rosto era bem agradável...

“Vamos, diga-me como você vive”, pedi,

“E o que é que você faz...”

Ele disse: “procuro objetos

Feitos pelos homens, em suas andanças.

Eu fotografo, e classifico,

E empacoto e mando-os para casa.

Estas coisas a gente não vende por ouro

(Nem por dinheiro algum, na verdade!)

Mas põe nas prateleiras dos museus,

Para serem vistas por toda a cidade”.

“Às vezes desenterro amuletos,

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E figurinhas arrebentadas,

Pois naqueles tempos pré-históricos

Não havia pessoas muito civilizadas!

E assim a gente vai se divertindo;

Não é bem o caminho da fortuna.

Mas os arqueólogos vivem rindo,

E têm uma saúde de ferro!”

Prestei atenção, pois naquele momento,

Eu tinha acabado um projeto

De manter um corpo bem conservado

Fervendo-o em algum preparado.

Agradeci-lhe por ter me contado

Tudo com tamanha dedicação,

E disse que iria com ele,

Na sua próxima Expedição...

E agora, se por acaso eu mergulho,

Sem querer, os dedos num ácido,

Ou se quebro alguma louça, com muito barulho,

Por não ser lá muito calma;

Ou se vejo um rio transbordando,

E ouço um grito de cortar a alma,

Suspiro, pois isso me faz lembrar

Daquele jovem que conheci tão bem...

Cujo olhar era sereno, a fala calma,

Cujos pensamentos estavam tão longe,

Cujos bolsos tiniam de cacos antigos,

Que ensinava baixinho, com tanto saber,

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Que usava longas palavras que nunca ouvi,

Cujos olhos passeavam, com fervor, pelo chão,

Procurando tantas coisas, com a maior atenção,

Que quis me mostrar de qualquer jeito,

Que não conhecer certas coisas, era um defeito,

E que eu devia ir-me embora com ele,

E desenterrar o passado em longínquas colinas!

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PREFÁCIO

Este livro é uma resposta. É a resposta a uma pergunta que me fazem

freqüentemente.

“Então você faz escavações na Síria, não é? Conte-me tudo a

respeito. Como você vive? Numa tenda?” etc, etc.

A maioria das pessoas, provavelmente, não está interessada em

saber. São só as miudezas da conversa. Mas, volta e meia, há uma ou duas

pessoas que estão realmente interessadas.

É a mesma pergunta, também, que a Arqueologia pergunta ao

Passado — Vamos, conte-me; como você viveu?

E nós descobrimos a resposta com picaretas, pás e cestos.

“Estas eram as nossas panelas.” “Neste grande armazém

guardávamos o nosso trigo.” “Com estas agulhas de osso costurávamos as

nossas roupas.” “Estas eram as nossas casas, este o nosso banheiro, aqui

o nosso sistema sanitário!” “Aqui, neste jarro, estão os brincos de ouro do

dote da minha filha.” “Aqui, neste potinho, está a minha maquilagem.”

“Todas estas panelas são de um tipo muito comum. Você vai encontrá-las

às centenas. Nós as compramos no oleiro da esquina. Você disse

Woolworth’s?1 É assim que vocês chamam ele no seu tempo?”

As vezes há um Palácio Real, de vez em quando um Templo, mais

raramente um enterro Real. Essas coisas são espetaculares. Aparecem nas

manchetes dos jornais, fazem conferências a respeito, mostram nas telas,

todo mundo sabe a seu respeito! No entanto, eu penso que para alguém

envolvido com escavações o verdadeiro interesse está na vida cotidiana —

a vida do oleiro, do fazendeiro, do fabricante de ferramentas, do entalhador

especializado em estatuetas de animais e amuletos — na realidade, o

açougueiro, o padeiro, o fabricante de velas.

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Um aviso final, para que não haja desapontamento. Este não é um

livro profundo — não vai lhes dar nenhum ponto de vista interessante sobre

a arqueologia, não haverá belas descrições de cenários, nenhuma

abordagem de problemas econômicos, nenhuma reflexão racial, nada de

história.

É, na verdade, uma ninharia — um livro muito pequeno, cheio de

quefazeres e acontecimentos cotidianos.

1 Woolworth’s — grande loja de departamentos dos EE.UU.

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CAPÍTULO UM - “PARTANT POUR LA SYRIE”2

Dentro de poucas semanas estaremos partindo para a Síria!

Fazer compras para um clima quente no outono ou no inverno

apresenta certas dificuldades. As roupas do verão passado, que,

otimisticamente, a gente pensou que iam “dar”, agora que a hora chegou,

“não dão”. Por um lado parecem estar (como as deprimentes relações de

móveis em mudanças) “Machucadas, Arranhadas e Marcadas”. (E também

Encolhidas, Desbotadas, e Estranhas!) Por outro lado — que lástima

alguém ter que dizer isso! — estão apertadas por todos os lados.

Assim — para as compras e lojas, e:

“É claro, Madame, que no momento, ninguém está querendo este

tipo de coisas! Nós temos alguns conjuntos lindos aqui — 46/48 em cores

escuras.”

Ah, detestável 46/48! Que humilhante ser 46/48! E que humilhação

maior ainda ser reconhecida imediatamente como 46/48!

(Se bem que haja dias melhores, quando, enrolada num longo

manteau preto com gola de peles, uma vendedora diz animadoramente:

“Mas é claro que a Madame está grávida?”)

Olho para os conjuntinhos lindos com suas aplicações inesperadas de

pele e suas saias forradas. Explico desanimada que o que eu quero é alguma

coisa de seda ou algodão bem lavável.

“A Madame pode tentar o Nosso Departamento de Cruzeiros

Marítimos”.

Madame experimenta o Nosso Departamento de Cruzeiros — mas

sem nenhuma esperança exagerada. Cruzeiros ainda estão envolvidos na

aura da fantasia romântica, têm um certo toque mitológico. São garotas que

2 Em francês no original. São as palavras iniciais; primeiras palavras de uma romança francesa muito popular no séc. XIX. (N.T.)

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fazem cruzeiros — garotas que são magras e jovens, e usam calças de linho

que não amarrotam, larguíssimas nos pés e estreitíssimas nos quadris. São

garotas que ficam maravilhosamente em roupas esporte. São garotas para

quem existem estoques com dezoito variedades diferentes de shorts!

A maravilhosa criatura do Nosso Departamento de Cruzeiros não é lá

muito solidária.

— Oh, não, Madame, nós não temos tamanhos grandes. (Que horror!

Tamanhos Grandes e Cruzeiros? Onde está o romance nessa história?)

Ela acrescenta:

— Dificilmente cairia bem, não é?

Eu concordo tristemente que não cairia bem.

Mas ainda há uma esperança. Há o Nosso Departamento Tropical.

O Nosso Departamento Tropical consiste principalmente de

sombreros — sombreros marrons, sombreros brancos, sombreros de couro

especial. Um pouco de lado, como se fossem ligeiramente frívolos,

sombreros duplos, florescendo em rosas, e azuis e amarelos como cachos

de estranhas flores tropicais. Há também um cavalo de madeira imenso e

um sortimento de roupas de montaria.

Mas — sim — há outras coisas também. Aqui há vestimentas

convenientes para as esposas de Construtores-do-Império. Saias e blusas de

Shantung! Shantung cortado de uma maneira sóbria — nada de fantasias de

garotas por aqui — o volume é tão bem acomodado quanto a magreza. Eu

vou para um cubículo com vários estilos e tamanhos. E alguns minutos

depois estou transformada numa Memsahib! Eu tenho certos preconceitos

— mas abafo-os. Afinal, é fresco e prático, e eu posso vestir.

Volto minha atenção para a escolha do tipo certo de chapéu. O tipo

certo de chapéu não existindo por estes dias, eu vou ter que mandar fazê-lo

de encomenda. Mas isto não é tão fácil como parece.

O que eu quero, — e pretendo ter, e o que certamente eu não terei, é

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um chapéu de feltro de proporções razoáveis que entre na minha cabeça. É

o tipo de chapéu que era usado há uns vinte anos atrás para levar o cachorro

para dar uma voltinha ou jogar uma partida de golfe. Agora, infelizmente,

existem apenas as coisas que a gente ajeita na cabeça — em cima de um

olho, uma orelha, ou na base do pescoço — como dita a moda — ou os

sombreros, medindo, pelo menos, um metro de lado a lado.

Explico que quero um chapéu que entre na cabeça como um

sombrero, com um quarto do seu diâmetro.

— Mas eles são feitos com essa largura para proteger bem do sol,

Madame.

— É, mas para onde eu vou quase sempre venta terrivelmente, e um

chapéu com esse tipo de abas não ficaria na cabeça da gente um minuto.

— Nós podemos colocar um elástico para a Madame.

— Eu quero um chapéu com abas do tamanho das deste que eu estou

usando.

— Ah, claro, Madame, um chapéu bem achatado, ficaria muito bem.

— Não é um chapéu achatado que eu quero! O chapéu tem que Ficar

Na Cabeça!

Vitória! Nós escolhemos a cor — um destes novos tons com nomes

bonitos: Poeira, Ferrugem, Lama, Terra, Sujo, etc...

Algumas compras menores — compras que, instintivamente, sei que,

ou vão ser inúteis, ou vão me dar um bocado de trabalho. Uma maleta de

viagem fechada com um zíper, por exemplo. A vida, hoje em dia, é

dominada e complicada pelo cruel zíper. Blusas fecham com zíperes, saias

abrem com zíperes, roupas de esqui abrem e fecham com zíperes por todos

os lados. “Vestidinhos de bater” têm pedaços de zíper completamente

desnecessários, pregados só para distrair.

Por quê? Há alguma coisa mais terrível do que um Zíper que resolve

implicar conosco? Ele nos envolve num tormento muito maior do que

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qualquer botão comum, fecho, colchete ou pressão.

Nos primórdios da era do Zíper, minha mãe, deliciada com a

novidade, mandou fazer um par de cintas que fechavam com zíper. Os

resultados foram infelizes ao extremo. Não só fechar era uma agonia, mas

as cintas, depois, se recusavam obstinadamente a abrir! A sua remoção era,

praticamente, uma operação cirúrgica! E devido à encantadora modéstia

vitoriana de minha mãe, pareceu possível, durante uns tempos, que ela

fosse viver com estas cintas o resto de sua vida — uma espécie moderna de

Mulher da Cinta de Ferro!

Portanto, eu sempre encarei os zíperes de uma maneira meio

desconfiada. Mas parece que todas as maletas têm zíperes!

— O fecho antigo está bastante superado, Madame — diz o

vendedor, olhando-me com um ar penalizado. — Isso, a senhora vê, é tão

simples — ele diz, demonstrando.

Não há dúvidas a respeito da simplicidade — mas acontece, penso cá

comigo, que a mala está vazia.

— Bem, — digo suspirando — a gente tem que andar com os

tempos.

Com alguma apreensão, acabo comprando a maleta.

Agora, sou a feliz possuidora de uma maleta de viagem de zíper, um

casaco e uma saia de Esposa de Construtor-do-Império e um chapéu quase

satisfatório.

Ainda há muita coisa a ser feita.

Passo no Departamento de Papelaria. Compro várias canetas — já

tendo descoberto que, se bem que uma caneta-tinteiro se porte de maneira

exemplar na Inglaterra, no momento em que se acha em redondezas

desérticas descobre que está em liberdade para fazer greve, e se porta de

acordo, ou derramando tinta indiscriminadamente em mim, nas minhas

roupas, meu caderno ou qualquer coisa à mão, ou se recusando,

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terminantemente, a fazer outra coisa qualquer além de rabiscar de maneira

invisível no papel. Comprei também dois modestos lápis. Lápis, felizmente,

não são temperamentais, e, apesar de dados a desaparecer sem dizer água

vai, eu sempre tenho uma porção à mão. Afinal, qual é a utilidade de um

arquiteto, senão emprestar lápis?

Quatro relógios de pulso são a próxima compra. O deserto não faz

bem aos relógios. Depois de algumas semanas por lá, o relógio da gente

desiste do trabalho contínuo de todos os dias. Tempo, diz, é só uma

maneira de pensar. Então, trata de escolher entre parar oito ou nove vezes

durante o dia por períodos de vinte minutos, ou disparar

indiscriminadamente. Às vezes, alterna com timidez as duas coisas.

Finalmente, pára de todo. Então a gente passa para o relógio n° 2, e assim

por diante. Há também a compra de inúmeros outros relógios

sobressalentes para o momento quando o meu marido dirá: “Me empresta

um relógio para dar ao chefe da turma, sim?”.

Nossos capatazes árabes, por melhores que sejam, têm o que se

poderia descrever como uma mão pesada com qualquer tipo de relógio.

Dizer as horas, de qualquer maneira, exige uma boa dose de esforço mental

da parte deles. Eles podem ser vistos segurando um enorme e redondo

relógio de cabeça para baixo, com a maior boa-fé, olhando para ele com

uma concentração realmente dolorosa enquanto dão a resposta errada! Sua

maneira de dar corda a estes tesouros é enérgica, e tão completa que poucos

mecanismos conseguem suportar a tensão!

Assim, acontece que pelo fim da estação, os relógios do staff da

expedição foram sacrificados um por um. Os meus inúmeros relógios são

uma maneira de adiar o malfadado dia.

Fazer as malas!

Existem diversas escolas de pensamento quanto a fazer as malas. Há

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pessoas que começam a empacotar em qualquer tempo entre uma semana e

um dia antes. Há as que amontoam algumas coisas meia hora antes da

partida. Há os empacotadores cuidadosos, insaciáveis de papel de seda! Há

os que desprezam o papel de seda, juntam tudo, e esperam pelo melhor. Há

os empacotadores que acabam deixando praticamente tudo o que eles

querem para trás! E há os que levam imensas quantidades de coisas de que

jamais irão precisar!

Uma coisa pode-se dizer com segurança a respeito das malas de um

arqueólogo: elas consistem principalmente de livros. Que livros levar, que

livros podem ser levados, para quantos livros há espaço, que livros podem

(com que agonia!) ser deixados para trás. Estou firmemente convencida de

que todos os arqueólogos empacotam da seguinte maneira: eles decidem

qual o maior número de malas que uma traquejada companhia ferroviária

os deixará carregar. Depois, enchem estas malas até o topo com livros. No

fim, com relutância, retiram alguns livros e enchem o espaço obtido com

camisas, pijamas, meias, etc.

Olhando para o quarto de Max, tenho a impressão de que todo o

espaço cúbico está cheio de livros. Através de uma fresta entre os livros,

consigo vislumbrar o seu rosto preocupado.

— Você acha que eu vou conseguir espaço para todos estes? —

pergunta ele.

A resposta é tão obviamente negativa que parece pura crueldade

dizê-la.

Às quatro e meia ele aparece no meu quarto e pergunta esperançoso:

— Há algum espaço nas suas malas?

A longa experiência deveria ter me ensinado a responder “não”

firmemente, mas eu hesito, e imediatamente estou condenada.

— Se você pudesse guardar uma ou duas coisas...

— Não serão livros?

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Max parece vagamente surpreso e diz: “Claro que são livros... o que

mais poderia ser?”

Avançando, ele empilha dois volumes enormes sobre a roupa de

Esposa de Construtor-do-Império elegantemente deitada numa das malas.

Tento protestar, mas é muito tarde.

— Bobagem, — diz Max — montes de espaço! E força a tampa, que

se recusa terminantemente a fechar.

— Na verdade, nem agora está completamente cheio, — diz Max

otimista.

Felizmente, nesse momento a sua atenção é atraída para um vestido

de linho estampado que está em outra mala. “O que é isso?”

Eu respondo que é um vestido.

— Interessante — diz Max. — Tem motivos de fertilidade em toda a

frente.

Uma das coisas mais desconfortáveis em se ser casada com um

arqueólogo é o seu conhecimento especializado da origem dos estampados

mais inofensivos.

Às cinco e meia, Max observa, negligentemente, que ele deveria sair

e comprar algumas camisas e meias e coisas. Volta quinze minutos depois,

indignado porque todas as lojas fecharam às seis. Quando eu digo que elas

sempre fecham a essa hora, responde que nunca tinha reparado antes.

Agora, ele diz, a única coisa que tem a fazer é “arrumar seus papéis”.

Às onze da noite vou dormir, deixando Max na sua escrivaninha (que

jamais deve ser limpa ou espanada, sob as mais severas penalidades)

enterrado até os cotovelos em cartas, contas, panfletos, desenhos de potes,

inumeráveis cacos, e diversas caixas de fósforos, nenhuma delas com

fósforos, mas cheias de estranhas miçangas antiqüíssimas.

Às quatro e meia, ele entra excitado no quarto, xícara de chá na mão,

para anunciar que finalmente encontrou aquele artigo tão interessante sobre

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as descobertas anatólicas que ele perdera em julho passado. Acrescenta que

espera não ter me acordado.

Eu digo que é claro que ele não me acordou, e que será melhor que

ele me traga também uma xícara de chá.

Voltando com o chá, Max diz que também encontrou muitas contas

que pensava já ter pago. Eu também já passei por esta experiência.

Concordamos que é deprimente.

Às nove da manhã, sou convocada como peso-pesado para sentar nas

abarrotadas malas de Max.

— Se você não conseguir que elas fechem, — diz ele nada galante —

ninguém consegue!

O feito sobre-humano é realizado, finalmente, com a ajuda de

simples avoirdupois, e eu volto para lidar com a minha própria dificuldade,

que é, como a visão profética me havia dito, a mala com zíper. Vazia na

loja de Mr. Gooch, parecia simples, atraente, economizadora de trabalho.

Como o zíper corria alegremente para cá e para lá, então! Agora, cheia até

as bordas, fechá-la é um milagre de ajustamento sobre-humano. As duas

pontas têm que ser unidas com uma precisão matemática, e então,

exatamente quando o zíper está andando vagarosamente, aparecem as

complicações, graças à ponta de um saco com artigos de higiene pessoal.

Quando fecha finalmente, eu juro não abri-la até chegarmos na Síria.

Refletindo melhor, porém, isso é quase impossível. Que fazer com o

saco já mencionado? Será que eu vou viajar durante cinco dias sem me

lavar? Mas no momento, mesmo isso me parece melhor do que abrir a

mala!

Sim, chegou o momento, e nós estamos realmente partindo.

Quantidades de coisas importantes foram deixadas por fazer: a lavandaria,

como sempre, falhou; os tintureiros, para tristeza de Max, não cumpriram

as suas promessas... mas o que importa? Nós estamos indo!

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Por um momento ou dois parecia que não iríamos: as malas de Max,

de aparência traiçoeira, estão além das forças do chofer, que não conseguiu

levantá-las. Ele e Max lutaram com elas, e, finalmente, com a ajuda de um

transeunte, eis-nos dentro do táxi.

Vamos para Victoria.

Querida Victoria — portão para o mundo para lá da Inglaterra —

como eu gosto da sua plataforma continental! E como eu gosto de trens, de

qualquer maneira! Sorvendo em êxtase o cheiro sulfuroso — tão diferente

daquele, leve, amorfo e distantemente oleoso de um navio, que sempre me

deprime com a sua profecia de nauseosos dias por vir. Mas um trem —

grande, barulhento, apressado e amistoso, com sua enorme locomotiva

fumacenta soltando nuvens de fumaça, que parece dizer, impacientemente:

“Eu tenho que ir, eu tenho que ir, eu tenho que ir!” — é um amigo! Está no

mesmo estado de espírito que você, já que você também está dizendo: “Eu

estou indo, estou indo, estou indo...”

Na porta do nosso Pullman, amigos estão esperando para se despedir

com as mesmas idióticas conversas de sempre. Ultimas palavras famosas

brotam dos meus lábios — instruções sobre cachorros, sobre crianças,

sobre cartas que devem ser enviadas, sobre livros que devem ser expedidos,

sobre coisas esquecidas, “e acho que você vai encontrá-lo no piano, mas

pode ser que esteja na prateleira do banheiro”. Todas estas coisas já foram

ditas antes, e, de maneira alguma, precisam ser ditas de novo.

Max está rodeado dos seus parentes, eu, dos meus.

Minha irmã diz, chorosa, que está com o pressentimento de que

nunca mais vai me ver de novo. Eu não fico muito impressionada, porque

ela costuma ter este mesmo pressentimento todas as vezes que eu viajo para

o Oriente. E o que, ela pergunta, vai fazer se Rosalind tiver apendicite? Não

parece haver razão alguma pela qual minha filha de quatorze anos possa ter

apendicite, e tudo o que eu consigo me lembrar de responder é: “Sobretudo,

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não se lembre de operá-la você mesma!” Pois a minha irmã tem uma

grande reputação por sua habilidade em manejar tesouras, atacando

imparcialmente furúnculos, cortes de cabelo, costuras — geralmente, eu

tenho que admitir, com grande sucesso.

Max e eu trocamos de parentes, e minha querida sogra insiste em que

eu me cuide muito bem, dando a entender que estou altruisticamente

correndo um grande risco de vida.

Apitos soam, e troco algumas últimas e apressadas palavras com a

minha amiga e secretária. Será que ela vai fazer todas as coisas que eu

deixei de fazer, e repreender devidamente a lavanderia e os tintureiros, e

dar uma boa referência à cozinheira, e mandar todos os livros que eu não

pude empacotar, e recuperar o meu guarda-chuva na Scotland Yard, e

escrever corretamente ao pastor que descobriu quarenta e três erros

gramaticais no meu último livro, e dar uma olhada na lista de sementes para

o jardineiro, e riscar fora abóboras e cenouras? Sim, ela vai fazer tudo isso,

e se ocorrer alguma crise no Lar ou no Mundo Literário ela vai me

telegrafar. Não tem problema, eu digo. Ela pode fazer o que quiser, tem

todos os poderes necessários. Ela parece um pouco assustada e diz que vai

tomar o maior cuidado. Outro apito! Digo adeus à minha irmã, e digo

desesperadamente que eu, também, estou com um pressentimento de que

nunca mais vou vê-la, e que talvez Rosalind venha a ter mesmo apendicite.

Que bobagem, diz minha irmã; por que ela teria? Nós subimos no Pullman,

o trem ruge e começa a andar — partimos.

Por cerca de quarenta e cinco segundos eu me sinto muito mal, mas

quando a Estação Victoria é deixada para trás, a alegria reaparece

novamente. Começamos a viagem encantadora e excitante para a Síria.

Há algo de grandioso e arrogante num Pullman, apesar de ele não ser

nem tão confortável quanto um canto de um vagão comum de primeira

classe. Sempre vamos de Pullman por causa das malas de Max, que um

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vagão comum não aceitaria. Tendo perdido uma vez malas que viajaram

separado, Max não se arrisca com seus preciosos livros.

Chegamos a Dover, para encontrar o mar relativamente calmo.

Mesmo assim, me retiro para o Salon des Dames, e deito e medito com o

pessimismo que sempre me desperta o movimento das ondas. Mas logo

chegamos a Calais, e o comissário francês arranja um imenso homem de

camisa azul para tomar conta da minha bagagem. “Madame o encontrará

na Douane”, ele diz.

— Qual é o número dele? — pergunto. O comissário assume um ar

reprovador.

Madame! Mais c’est le Charpentier du bateau!

Fico devidamente constrangida — para chegar à conclusão alguns

minutos depois de que aquela não fora realmente uma resposta. Ora, pelo

fato de ele ser o Charpentier du bateau, não será mais fácil identificá-lo

entre centenas de outros homens de camisa azul, todos gritando “Quatre-

vingt-treize?”, etc. O seu mero silêncio não vai me bastar para identificá-lo.

Além disso, será que o fato de ser Charpentier du bateau vai lhe permitir

identificar, com toda a certeza, uma senhora inglesa de meia-idade numa

verdadeira multidão de senhoras inglesas de meia-idade?

Nesta altura das minhas reflexões Max reúne-se a mim, e diz que tem

um carregador para as minhas malas. Eu explico que o Charpentier du

bateau já levou a minha bagagem, e Max me pergunta por que eu deixei.

Toda a bagagem deveria ir junta. Eu concordo, mas justifico dizendo que o

meu intelecto sempre fica enfraquecido por viagens marítimas. Max diz:

“Deixa para lá; nós vamos juntá-la toda na Douane”. E nós penetramos

naquele inferno de carregadores aos berros, partindo para o inevitável

encontro com o único tipo de francesa realmente desagradável — a

Mulher-da-Alfândega, um ser despido de charme, de chic, de qualquer

graça feminina. Ela olha, mexe, remexe, diz “Pas de cigarettes?” com um

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ar de dúvida, e, finalmente, resmungando com relutância, rabisca com giz

os místicos hieróglifos na nossa bagagem, e nós atravessamos a fronteira,

vamos para a plataforma, para o Simplon Orient Express e para a viagem

através da Europa.

Há muitos, muitos anos atrás, quando eu ia para a Riviera ou para

Paris, costumava ficar fascinada pela visão do Orient Express em Calais, e

desejava ardentemente viajar nele. Agora, ele já se tornou um amigo velho

e familiar, mas a emoção não morreu de todo. Eu vou nele! Eu estou nele!

Estou precisamente no carro azul, com uma simples legenda do lado de

fora: CALAIS-ISTAMBUL. É, sem dúvida, o meu trem favorito. Gosto do

seu tempo, que, começando allegro con furore, vibrando, e chocalhando e

movendo-se rapidamente de uma ponta a outra na sua louca pressa de

deixar Calais e o Ocidente, esmorece aos poucos num rallentando enquanto

se dirige para o Oriente, até tornar-se definitivamente legato.

Bem cedo de manhã no dia seguinte levanto a cortina e observo os

pálidos contornos das montanhas na Suíça, depois a descida às planícies

italianas, passando pela linda Stresa com seu lago azul. Depois, mais tarde,

entramos na pequena estação que é tudo que vemos de Veneza, saímos de

novo, percorrendo o litoral, para Trieste e para a Iugoslávia. A velocidade

diminui cada vez mais, as paradas são mais demoradas, os relógios das

estações mostram horários conflitantes. Os nomes das estações são escritos

em letras excitantes e incríveis. As locomotivas são gordas, de ar

confortável, e desprendem uma fumaça particularmente preta e sinistra. As

contas nos carros-restaurantes vêm marcadas em misteriosas moedas, e

garrafas de estranhas águas minerais começam a aparecer. Um pequeno

francês que está sentado à nossa frente na mesa estuda a sua conta em

silêncio por alguns minutos, depois ergue a cabeça e capta o olhar de Max.

Sua voz, carregada de emoção, levanta-se queixosa: “Le change des

Wagons Lits, c’est incroyable!” Do outro lado da cabina um homem

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escuro, de nariz adunco, pede que lhe digam o total da sua conta em (a)

francos, (b) liras, (c) dinares, (d) libras turcas, (e) dólares. Quando isso é feito finalmente pelo garçom torturado, o viajante calcula em silêncio, e,

sendo evidentemente um magnífico cérebro financeiro, produz a moeda

mais vantajosa para seu bolso. Por este método, ele nos explica,

economizou cinco pence em moeda inglesa!

Pela manhã, funcionários da Alfândega turca aparecem no trem. Eles

estão cômoda e profundamente interessados na nossa bagagem. Por que,

perguntam, eu tenho tantos pares de sapatos? É muita coisa para uma

pessoa só. Mas argumento que, como não tenho cigarros, porque não fumo,

posso muito bem ter alguns pares de sapatos a mais, não é? O funcionário

aceita a explicação. Parece-lhe bem razoável. E pergunta o que é este pó

branco dentro desta caixinha.

Digo que é pó para os insetos; mas vejo que não fui compreendida.

Ele sacode a cabeça, cheio de suspeitas. Evidentemente, está me tomando

por contrabandista de drogas. Em tom de censura, comenta que não é pó

nem para os dentes, nem para o rosto: para que é, então? Vivida pantomima

de minha parte! Coço-me realisticamente, pego a caixinha, espalho um

pouco de pó pela madeira. Ah, está tudo explicado! Ele joga a cabeça para

trás, e dá uma boa gargalhada, repetindo uma palavra turca. É para eles, o

pó! Repete a piada para um colega, e ambos seguem adiante, divertindo-se

muito. Aparece o condutor do Wagon Lit, para nos dar instruções. Virão

com os nossos passaportes e perguntarão quanto dinheiro nós temos,

“effectif, vous comprenez?” Eu adoro a palavra effectif — descreve tão

exatamente quanto a gente tem, de fato. “Vocês terão exatamente tanto

effectif”, diz o condutor, indicando uma certa quantia. Max diz que nós

temos muito mais. “Não importa. Confessar isto vai lhes causar

aborrecimentos. O senhor dirá que o resto está em vales, ou traveller’s

checks, e que de effectif tem tanto”. E acrescenta, explicando: “Na verdade,

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eles não se importam com quanto o senhor tem, compreende? O problema é

que a resposta tem que estar en règle”.

Oportunamente, aparece o cavalheiro encarregado das perguntas

financeiras. Anota a nossa resposta antes mesmo que a gente a diga. Tudo

está en règle. E agora estamos chegando a Istambul, serpenteando através

de estranhas casas de madeira, captando de relance pesados bastiões de

pedra e detalhes do mar, à nossa direita. Uma cidade enlouquecedora,

Istambul — já que quando você se encontra nela, não a vê! Só quando você

deixa o lado europeu e está atravessando o Bósforo para a costa asiática é

que você realmente vê Istambul. É muito bonita nesta manhã — uma clara,

pálida e brilhante manhã, sem névoa, e as mesquitas com seus minaretes

erguendo-se contra o céu.

“La Sainte Sophie é muito interessante”, diz um cavalheiro francês.

Todo mundo concorda, com a lamentável exceção de mim mesma.

Eu, alas, nunca admirei Santa Sofia! Uma infeliz falta de gosto; mas aí

está. Sempre me pareceu decididamente de tamanho errado. Envergonhada

de minhas idéias pervertidas, fico em silêncio.

Agora, o trem que espera em Haidar Pacha, e, quando, finalmente ele

parte, café da manhã — um café da manhã que se deseja, a esta altura,

vorazmente. Depois, uma encantadora viagem de um dia pela volteante

costa do mar de Mármara, com ilhotas esparramadas que parecem opacas e

maravilhosas. Penso pela centésima vez que gostaria de ter uma destas

ilhas. É estranho se desejar uma ilha para si só! A maioria das pessoas sente

este desejo mais cedo ou mais tarde. Simboliza, na nossa mente, liberdade,

solidão, nenhuma preocupação. No entanto, na realidade, eu acho que não

significaria liberdade, mas prisão. Sem dúvida todo o trabalho e os

cuidados com a casa dependeriam inteiramente do continente. A gente

passaria todo o tempo escrevendo intermináveis listas de compras para as

lojas, pensando na carne e no pão, fazendo tudo, já que poucos empregados

23

gostariam de morar numa ilha longe de cinemas e amigos, sem ao menos

uma linha de ônibus que os levasse de encontro dos seus semelhantes. Uma

ilha dos mares do sul, sim, é que eu imagino que seria diferente. Lá a gente

se sentaria preguiçosamente comendo as melhores frutas, dispensando

pratos, facas, garfos, limpeza e problemas de gordura na pia! Mas na

verdade, os únicos habitantes de ilhas dos mares do sul que eu jamais vi

fazerem uma refeição estavam comendo pratos de carne quente, nadando

em gordura, colocados numa toalha de mesa imunda.

Não; uma ilha é, e deve ser, uma ilha de sonho! Nesta ilha não é

preciso varrer, nem espanar, nem fazer as camas, nem lavar a roupa, nem

limpar, não há gordura, problemas de comidas, listas para a mercearia, não

é preciso trocar as lâmpadas, descascar as batatas, não há sujeira. Na ilha de

sonho há areia branca e mar azul — e uma casa de contos de fadas, talvez,

construída entre o crepúsculo e a madrugada; a macieira, o cantar, e o

ouro...

Neste ponto das minhas reflexões Max me pergunta em que estou

pensando. Digo, simplesmente, “Paraíso!”

Max diz: — Ah, espere até ver Jaghjagha!

Eu pergunto se é muito bonito; e Max diz que não faz a mínima

idéia, mas é uma parte notável do mundo e ninguém a conhece bastante!

O trem embarafusta por uma ravina, e deixamos o mar para trás.

Na manhã seguinte chegamos aos Portões Cilícios, e contemplamos

uma das vistas mais bonitas que conheço. É como estar na beira do mundo

e olhar lá de cima a Terra Prometida, e a gente se sente mais ou menos

como Moisés deve ter se sentido. Pois aqui, também, não há entrada... A

brumosa e macia maravilha azul-escuro é uma terra que jamais

atingiremos; as verdadeiras cidades e povoados, quando chegarmos lá,

serão apenas o mundo comum de todos os dias — e não essa beleza

encantada que nos envolve completamente...

24

O trem apita. Voltamos aos nossos compartimentos.

Para Alepo. E de Alepo a Beirute, onde o nosso arquiteto deve nos

encontrar e onde as coisas vão começar a tomar corpo, para a nossa

primeira inspeção do Habur e da região de Jaghjagha, que nos levará à

escolha de um terreno propício à escavação.

Pois isso, como diz Mrs. Beeton, é o começo de tudo. Primeiro,

agarre sua lebre, diz aquela estimável senhora.

Portanto, no nosso caso, primeiro encontre seu terreno. E é isso que

estamos decididos a fazer.

25

CAPÍTULO DOIS - UMA VIAGEM DE INSPEÇÃO

Beirute! Mar azul, uma baía curvilínea, um longo litoral de difusas

montanhas azuis. Essa é a vista do terraço do Grande Hotel. Do meu

quarto, que tem vista para a terra, vejo um jardim de flores vermelhas. O

quarto é alto, caiado, parecendo-se um pouco com uma prisão. Uma pia

moderna, com todas as torneiras e ralos, dá uma nota chocantemente

moderna3. Sobre a pia, um grande tanque quadrado com uma tampa.

Dentro, está cheio de uma água velha, parada, ligada apenas à torneira de

água fria!

A chegada dos encanamentos ao Oriente é cheia de armadilhas.

Quantas vezes a torneira de água fria produz água quente, e a de água

quente, água fria! E como eu me lembro bem de um banho num recém-

equipado banheiro “ocidental” onde um intimidador sistema de água quente

produzia uma água escaldante em terríveis quantidades, não se obtinha

água fria, a torneira da água quente não queria fechar e a porta do banheiro

não se abria!

Enquanto eu contemplo as flores vermelhas com prazer e as

facilidades de banho com desgosto, ouço uma batida na porta. Um

pequeno, atarracado armênio aparece, sorrindo de uma maneira estranha.

Abre a boca, aponta a sua garganta com um dedo, e exclama,

encorajadoramente: “Manger!”

Por este simples expediente, mostra claramente à menor das

inteligências que o almoço está servido no refeitório.

Lá encontro Max à minha espera, e nosso novo arquiteto, Mac, que

eu ainda mal conheço. Dentro de alguns dias, vamos partir para uma

excursão de três meses para examinar o país procurando terrenos

convenientes. Conosco, como guia, filósofo, e amigo, deve ir Hamoudi, por

26

muitos anos capataz em Ur, um velho amigo de meu marido, e que deve

ficar com a gente entre as estações, nesses meses de outono.

Mac levanta e me saúda polidamente, e sentamos para uma refeição

muito boa, se bem que meio gordurosa. Eu faço alguns comentários

supostamente amigáveis a Mac, que os bloqueia terminantemente

respondendo: “Ah, sim?” “É mesmo?” “Realmente?”

Fico algo desanimada. Assalta-me a desagradável convicção de que o

nosso jovem arquiteto vai se revelar uma dessas pessoas que, de tempos em

tempos, conseguem me tornar completamente imbecil de tanta timidez.

Graças a Deus já deixei para trás há muito tempo os dias em que era tímida

com todo mundo. Com a meia-idade, consegui atingir certo grau de

equilíbrio e de savoir-faire. Volta e meia me congratulo que toda aquela

bobagem já acabou. “Consegui superar tudo aquilo”, digo, satisfeita, de

mim para mim. E basta que eu pense nisso para que logo apareça algum

indivíduo inesperado que me reduz, novamente, à idiotice nervosa.

Não adianta que eu me diga que o jovem Mac é, provavelmente,

extremamente tímido ele mesmo, e que é a sua própria timidez que produz

a sua armadura defensiva. Persiste o fato de que, ante a sua maneira fria e

superior, suas sobrancelhas gentilmente arqueadas e seu ar de polida

atenção a palavras que eu sei que não podem, positivamente, merecer

atenção nenhuma, eu esmoreço, e me surpreendo dizendo coisas que

compreendo perfeitamente que são pura besteira. Por volta do fim da

refeição, Mac me contradiz.

— Certamente — ele diz gentilmente em resposta a uma desesperada

afirmativa que fiz a respeito do Corne Inglês. — Isso não é bem assim, não

é?

Ele está, é claro, perfeitamente certo. Não é bem assim.

Depois do almoço, Max me pergunta o que eu achei de Mac. Eu

3 Escrito algum tempo antes da inauguração do moderno hotel St. George. (N.A.)

27

respondo prudentemente que ele parece não falar muito. Isso, diz Max, é

uma grande coisa. Eu não faço idéia, ele diz, o que é ficar preso no deserto

com alguém que não pára de falar!

— Eu escolhi ele porque me pareceu um tipo de sujeito meio

fechado.

Admito que possa haver alguma razão nisso. Max continua, dizendo

que ele é provavelmente tímido, mas que irá se abrir logo.

— Ele está provavelmente apavorado com você. — acrescenta

gentilmente.

Pondero esta observação alentadora, mas sem me sentir convencida.

Tento, de qualquer maneira, me submeter a um pequeno tratamento

mental.

Primeiro, digo a mim mesma: você é suficientemente velha para ser a

mãe de Mac. Você é também uma escritora — uma escritora bem

conhecida. Ora, um de seus personagens foi até parte de um jogo de

palavras cruzadas do Time! (O supra-sumo da fama!) E além de tudo, você

é a mulher do Chefe da Expedição! Convenhamos, se há alguém que deve

assustar o outro, é você quem deve assustar o rapaz, e não ele a você.

Mais tarde, decidimos ir tomar chá, e eu vou ao quarto de Mac para

convidá-lo a nos fazer companhia. Decido ser amistosa e natural.

O quarto está inacreditavelmente limpo, e Mac está sentado sobre um

tapete dobrado escrevendo o seu diário. Ele me olha inquisitivamente.

— Você vem lanchar com a gente?

Mac se levanta.

— Muito obrigado!

— Depois, acho que você gostaria de conhecer a cidade, — sugiro.

— É sempre divertido explorar novos lugares.

Mac levanta as sobrancelhas gentilmente e diz, frio: — É mesmo?

Algo murcha, mostro o caminho até a sala onde Max nos espera.

28

Mac consome uma grande xícara de chá num alegre silêncio. Max toma o

seu chá no presente, mas o seu pensamento anda mais ou menos por volta

de 4.000 a.C.

Com um sobressalto, desperta de suas divagações assim que come o

último bolo, e sugere irmos ver como vai indo o nosso caminhão.

Assim, pois, vamos ver o nosso caminhão — um chassis Ford, sobre

o qual está sendo construída uma nova carroceria. Tivemos que optar por

isso, já que não foi possível encontrar nenhum de segunda-mão em boas

condições.

A carroceria parece ser das melhores, do tipo “Inshallah”, e o

conjunto todo tem uma aparência sólida e digna, que desconfio ser boa

demais para ser verdade. Max está um pouco preocupado com o não-

comparecimento de Hamoudi, que deveria ter vindo nos encontrar em

Beirute por estes dias.

Mac desdenha a idéia de olhar a cidade e volta para o seu quarto,

para sentar no seu tapete e escrever no seu diário. Interessada especulação

de minha parte sobre o que ele escreve no dito cujo.

Acordamos cedo. Às cinco da manhã, abre-se a porta do nosso

quarto e uma voz anuncia em árabe: “Seus capatazes chegaram!”

Hamoudi e seus dois filhos entram com o ansioso charme que os

distingue, segurando nossas mãos e apertando-as de encontro às suas

cabeças. “Shlon kefek?” (Como vão?) “Kullish zen.” (Muito bem) “El

hamdu lillah! Elhamdu lillah!” (Todos louvamos a Deus!)

Livramo-nos dos resquícios de sono encomendando chá, e Hamoudi

e seus filhos sentam-se à vontade no chão, trocando novas com Max. Eu,

que usei todo o árabe que sei, e que estou morta de sono, chego a desejar

que a família Hamoudi adiasse os seus cumprimentos para uma hora mais

condigna. Apesar de tudo, reconheço que, para eles, aparecer assim é a

coisa mais natural do mundo.

29

O chá afasta o sono, e Hamoudi me dirige algumas palavras que Max

traduz, assim como minhas respostas. Os três transbordam de felicidade, e

eu reconheço, mais uma vez, que pessoas encantadoras eles são.

Os preparativos estão, agora, a todo vapor — compra de

mantimentos; contratação de um chofer e de um cozinheiro; visitas ao

Service des Antiquités; um almoço agradabilíssimo com M. Seyrig, o

Diretor, e sua encantadora esposa. Ninguém poderia ser mais atencioso

com a gente do que eles — e, por acaso, o almoço estava mesmo delicioso.

Contrariando o pensamento do funcionário da alfândega turca de que

eu teria muitos sapatos, trato de comprar mais sapatos. Comprar sapatos em

Beirute é uma maravilha. Se o seu número está em falta, em alguns dias

fazem um par de sapatos especiais, sob medida — perfeitos, num couro

bom e macio. Devo admitir que comprar sapatos é uma das minhas

fraquezas. Acho que não terei coragem de voltar para casa através da

Turquia!

Passeamos pelos bairros nativos, e compramos quantidades de coisas

interessantes — uma espécie de seda encorpada, bordada em ouro ou azul

escuro. Compramos montes de seda para mandar para a Inglaterra, como

presentes. Max está fascinado pelas diversas espécies de pão. Qualquer um

que tenha algum sangue francês adora um bom pão. Pão, para um francês,

significa mais do que qualquer outra espécie de alimento. Eu já ouvi um

oficial dos Services Speciaux dizer de um colega num longínquo posto de

fronteira — “Ce pauvre garçon! Il n’a même pas de pain là bas, seulement

la galette kurde!” com uma pena sincera e profunda.

Temos também negócios longos e enrolados com o banco. Fico

perplexa como sempre, no Oriente, com a relutância que os bancos têm em

fazer negócios. São gentis, atenciosos, mas preocupadíssimos em evitar

qualquer transação de fato. “Oui, oui!”, murmuram cortesmente. “Écrivez

une lettre!” E acomodam-se novamente, com um suspiro de alívio por

30

terem adiado qualquer ação.

Quando são forçados a tomar alguma atitude, vingam-se usando um

complicado sistema de timbres. Todo documento, todo cheque, toda

transação de qualquer espécie é atravancada e complicada por “les

timbres”. Pequenas quantias são continuamente desembolsadas. Quando

você pensa que tudo acabou, lá vem complicação, mais uma vez!

“Et deux francs cinquante centimes pour les timbres, s’il vous

plaît”.

Mesmo assim, finalmente todos os negócios são fechados, inúmeras

cartas são escritas, números incríveis de selos e estampilhas são colados.

Com um suspiro de alívio o funcionário do Banco vê a perspectiva de se

ver livre de nós. Ao deixarmos o Banco, nós o ouvimos dizer com firmeza

a algum outro cliente importuno: “Écrivez une lettre, s’il vous plaît.”

Resta ainda resolver a contratação do chofer e do cozinheiro.

O problema do chofer é resolvido primeiro. Hamoudi chega,

radiante, e nos informa que estamos com sorte: ele encontrou um ótimo

chofer.

E como, pergunta Max, Hamoudi encontrou esse tesouro?

Muito simplesmente, parece. Como já estava desempregado por

algum tempo, e já estava passando alguma necessidade, ele vai nos sair a

um bom preço. Assim, logo de saída, já fazemos uma boa economia!

Mas como vamos saber se ele é um bom chofer? Hamoudi afasta o

problema. Um padeiro é um homem que coloca pão no forno, e o assa. Um

chofer é um homem que pega um carro e o dirige!

Max, sem nenhum entusiasmo prematuro, concorda em contratar

Abdullah se não aparecer nada melhor, e Abdullah é convocado para uma

entrevista. Ele se parece extraordinariamente com um camelo, e Max diz,

com um suspiro, que pelo menos ele parece estúpido, o que já é alguma

coisa. Pergunto por que, e Max diz que é porque assim ele não terá cérebro

31

para ser desonesto.

Na nossa última tarde em Beirute, vamos até o Rio Cão, o Nahr el

Kelb. Aqui, numa ravina arborizada que vai para o interior, há um bar onde

se pode tomar café e passear agradavelmente numa estradinha sombreada.

Mas o verdadeiro fascínio do Nahr el Kelb está nas inscrições

gravadas na rocha, onde um caminho leva à passagem sobre o Líbano. Por

aqui, em incontáveis guerras, passaram exércitos, deixando os seus

registros. Aqui há hieróglifos egípcios — de Ramsés II — e jactanciosas

observações de exércitos assírios e babilônios. Há a efígie de Tiglathpileser

I. Senacherib deixou uma inscrição em 701 a.C. Alexandre passou e deixou

seu registro. Esarhaddon e Nebuchadrezzar comemoraram suas vitórias, e,

finalmente, ligando-se à antigüidade, as tropas de Allenby escreveram

nomes e iniciais em 1917. Eu nunca me canso de olhar para esta escavada

superfície de rocha. Aqui há História, feita manifesto...

Fico empolgada a ponto de dizer com entusiasmo a Mac que aquilo é

realmente emocionante, ele não acha?

Mac levanta suas corteses sobrancelhas e diz, numa voz

completamente desinteressada que é, claro, muito interessante...

A chegada e carregamento do nosso caminhão são o próximo

acontecimento. A carroceria parece definitivamente desequilibrada. Oscila

e se inclina, mas tem um tal aspecto de dignidade — majestade, mesmo! —

que é prontamente batizada de Queen Mary.

Além de Queen Mary, contratamos um táxi — um Citroen, dirigido

por um amável armênio chamado Aristides. Contratamos um cozinheiro de

ar um tanto melancólico (‘Isa), cujas credenciais são tão boas que chegam a

causar desconfiança. E finalmente chega o grande dia, e nós nos pomos em

marcha — Max, Hamoudi, eu, Mac, Abdullah, Aristides e ‘Isa —

companheiros, para o que der e vier, pelos próximos três meses.

Nossa primeira descoberta é que Abdullah é o pior chofer

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imaginável, a segunda é que o cozinheiro é um péssimo cozinheiro, a

terceira é que Aristides é um bom chofer, mas tem um péssimo táxi!

Saímos de Beirute pela estrada litorânea. Passamos o Nahr el Kelb, e

continuamos com o mar à nossa esquerda. Passamos pequenas aldeias de

casas brancas, e pequenas baías e enseadas entre rochedos. Tenho vontade

de parar e tomar um banho, mas começamos agora a parte séria da viagem.

Em breve, também, nos afastaremos do mar em direção ao interior, e

depois, durante muitos meses, não vamos mais ver o mar.

Aristides buzina constantemente, à maneira síria. Atrás de nós vem

Queen Mary, oscilando como um navio em alto-mar com a sua carroceria

desequilibrada.

Passamos Byblos, e agora as pequenas aldeias de casas brancas se

tornam cada vez mais espaçadas e menos numerosas. À nossa direita está

uma montanha rochosa. E finalmente nos viramos, e nos dirigimos para o

interior, na direção de Homs.

Há um bom hotel em Homs — um ótimo hotel, nos disse Hamoudi.

As qualidades do hotel mostram-se apenas no próprio edifício, que é

espaçoso, com largos corredores de pedra. Mas o seu encanamento,

infelizmente, não está funcionando muito bem! Seus vastos quartos deixam

muito a desejar em matéria de conforto. Contemplamos os nossos com todo

o respeito, e em seguida Max e eu vamos explorar a cidade. Descobrimos

que Mac está sentado no canto de sua cama, tapete dobrado ao lado,

escrevendo seriamente em seu diário (o que será que Mac escreve em seu

diário? Ele parece não ter o mínimo interesse em ver Homs.)

Talvez ele tenha razão, pois não há muita coisa para se ver.

Comemos uma duvidosa refeição pseudo-européia, e vamos dormir.

Ontem, estávamos viajando pelos confins da civilização. Hoje,

abruptamente, deixamos a civilização para trás. Em uma ou duas horas, não

33

há mais nada verde para se ver em lugar nenhum. Tudo é um vasto areal

marrom. Os caminhos parecem confusos. De vez em quando, com grandes

intervalos, cruzamos com algum caminhão inesperadamente surgido do

nada.

Faz muito calor. E com o calor, e a irregularidade da estrada e o

péssimo estado das molas do táxi, e a poeira que a gente engole e que deixa

o rosto duro e áspero, eu fico com uma dor de cabeça terrível.

Há algo assustador, e, no entanto, fascinante, neste vasto mundo

despido de vegetação. Não é plano como o deserto entre Damasco e Bagdá.

Pelo contrário, a gente sobe e desce. Há uma certa sensação de que, de

repente, a gente virou um grão de areia entre os castelos que a gente

constrói quando criança.

E então, depois de sete horas de calor e monotonia e um mundo

abandonado — Palmira!

Nisso é que está, eu acho, o encanto de Palmira — sua beleza esbelta

e cremosa erguendo-se fantasticamente em meio à areia escaldante. É linda

e fantástica e inacreditável, com toda a implausível teatralidade de um

sonho. Palácios e templos e colunas em ruínas...

Nunca consegui decidir o que eu realmente acho de Palmira. Sempre

tem, para mim, aquela aparência de sonho da primeira visão. Minha cabeça

dolorida e meus olhos ardentes fazem com que pareça, mais do que nunca,

um delírio febril. Não é — não poder ser — real!

Mas de repente estamos no meio do povo — uma multidão de

turistas franceses, rindo, e falando, e tirando fotografias. Paramos em frente

a um edifício atraente: o Hotel.

Max me avisa apressadamente:

— Você não deve se incomodar com o cheiro. Demora um pouco,

mas a gente acaba se acostumando.

Pois sim! O Hotel é bonito por dentro, decorado com graça e bom

34

gosto. Mas o cheiro de água parada no quarto é fortíssimo.

— Até que é um cheiro saudável — Max me garante.

E o velhinho encantador que é, presumo, o dono do Hotel, acrescenta

com grande ênfase:

Mauvaise odeur, oui! Malsain, non!

Pois então, isso está resolvido. E, de qualquer jeito, estou pouco me

importando. Tomo uma aspirina, bebo um chá e deito-me para descansar.

Digo que mais tarde olharei a cidade — agora, o que eu quero é escuridão e

descanso.

Intimamente, sinto-me um pouco desapontada. Será que não serei

uma boa viajante? Eu, que sempre gostei de andar de carro?

No entanto, uma hora mais tarde acordo sentindo-me perfeitamente

restabelecida e ansiosa para ver o que há para ser visto.

Até mesmo Mac, uma vez na vida, concorda em ser afastado do seu

diário.

Vamos passear, e passamos uma tarde maravilhosa.

No ponto mais distante do hotel, encontramos a turma de turistas

franceses. Estão muito aflitos. Uma das mulheres, que está usando (como

todas as outras) sapatos de saltos altos, quebrou um dos saltos, e está às

voltas com a impossibilidade de retornar ao hotel andando. Eles vieram até

aqui de táxi, ao que parece, e o táxi parou. Damos uma olhada nele: pelo

visto, só há uma espécie de táxi no país inteiro. Este veículo é exatamente

igual ao nosso — a mesma carroceria dilapidada, e o aspecto geral de ter

sido amarrado com barbante. O motorista, um sírio alto e magro, está

olhando desanimadamente por dentro do capô.

Ele sacode a cabeça, e a turma francesa explica tudo. Eles chegaram

aqui ontem, de avião, e devem ir embora amanhã, da mesma maneira.

Alugaram o táxi no hotel, por uma tarde, e agora o táxi quebrou. O que fará

a pobre madame? “Impossible de marcher, n’est-ce pas, avec un soulier

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seulement.”

Nós manifestamos os nossos sentimentos, e Max, galantemente,

oferece o nosso táxi. Ele irá até o hotel e o trará até aqui. Pode fazer duas

viagens, e levar todo mundo de volta.

A sugestão é aceita com aclamações e profusos agradecimentos, e

Max põe-se a caminho.

Converso com as senhoras francesas, enquanto Mac se retira por trás

de um impenetrável muro de timidez. Produz um ocasional oui ou non a

qualquer tentativa de conversa, e logo é piedosamente deixado de lado. As

francesas mostram um encantador interesse pela nossa viagem.

Ah, Madame, vous faites le camping?

Fico fascinada pela frase. Le camping! Classifica, definitivamente, a

nossa aventura como um esporte!

Como vai ser agradável, comenta outra senhora, fazer le camping!

Eu digo que sim, que vai ser muito agradável.

O tempo passa: conversamos e rimos. De repente, para grande

surpresa minha, Queen Mary aparece guinando para cá e para lá. Max, com

uma cara zangada, está na direção.

Pergunto por que ele não trouxe o táxi?

— Porque — responde Max furiosamente — o táxi está aqui.

E aponta dramaticamente para o carro enguiçado, que o sírio

magricela ainda tenta consertar.

Há um coro de exclamações de surpresa, e eu descubro porque o

carro me parecia tão familiar.

— Mas — exclama uma das francesas, — este é o carro que

alugamos no hotel!

Mesmo assim, Max explica, é o nosso táxi.

As explicações com Aristides são dolorosas. Nenhum dos lados

compreendeu o ponto de vista do outro.

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— Mas — diz Aristides, a própria inocência ofendida — o senhor

não me disse que não ia precisar do carro de tarde? Então é claro que eu

aproveitei a oportunidade para ganhar um dinheirinho extra. Combino com

um amigo, e ele leva esse pessoal para passear em Palmira. Qual é o mal

que isso lhe causa, já que o senhor não queria usar mesmo o táxi?

— Me causa mal — replica Max, — porque, em primeiro lugar, não

foi o que nós combinamos; e, em segundo lugar, o carro agora está

enguiçado, e vai precisar de consertos, e, com toda a probabilidade, não vai

poder partir amanhã cedo!

— Quanto a isso, o senhor pode ficar sossegado. Se for preciso, eu e

meu amigo ficamos acordados a noite toda.

Max replica, secamente, que é o melhor que eles podem fazer.

E, de fato, no dia seguinte pela manhã, o fiel táxi nos espera na porta

do hotel, com Aristides sorridente, não acreditando no seu pecado, sentado

na direção.

Hoje chegamos a Der-ez-Zor, no Eufrates. Está muito quente. A

cidade cheira mal, e não é nada atraente. Os Services Spéciaux gentilmente

colocam alguns quartos à nossa disposição, já que não há nenhum hotel

europeu. Há uma vista bonita além da correnteza marrom do rio. O oficial

francês pergunta cortesmente sobre a minha saúde, e diz que espera que eu

não tenha achado a viagem na poeira e no calor muito difícil.

Madame Jacquot, a esposa do nosso General, estava

complètement knock-out quando chegou.

Gosto da expressão. E espero que eu, por minha vez, não fique

complètement knock-out no fim da nossa expedição.

Compramos verduras e grandes quantidades de ovos, e com Queen

Mary cheio a ponto de quebrar as molas, partimos, desta vez para a

expedição propriamente dita.

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Busaira! Aqui há um posto policial. É um lugar que dava grandes

esperanças a Max, já que está na junção do Eufrates com o Habur. Na outra

margem, está o Circesium romano.

Busaira, no entanto, se mostra desanimadora. Não há sinais de

nenhuma outra aldeia antiga, exceto a romana, que é tratada com o devido

desprezo. “Min siman er Rum”, diz Hamoudi, sacudindo a cabeça com

desgosto, e eu concordo com ele plenamente.

No nosso ponto de vista, os romanos são inapelavelmente modernos

— crianças de ontem. Nosso interesse começa no segundo milênio a.C.,

com os diversos destinos dos hititas. Estamos particularmente interessados

na dinastia militar de Mitanni, aventureiros de outras terras sobre os quais

pouco se sabe, mas que viveram nesta parte do mundo, e cuja capital,

Washshukkanni, ainda tem de ser identificada. Uma casta dominadora de

guerreiros, que impuseram seu domínio ao país, e que se casaram com a

Casa Real egípcia, e que, ao que tudo indica, eram bons cavaleiros, já que

um tratado da criação e treinamento de cavalos é atribuído a um certo

Kikkouli, um homem de Mitanni.

E deste período para trás, é claro, até as brumosas eras da pré-história

— uma idade sem documentos escritos, da qual apenas panelas, e

delineamentos de casas e amuletos, e ornamentos e colares restam para dar

o seu mudo testemunho da vida que se vivia então.

Como não encontramos nada em Busaira, prosseguimos para

Meyadin, mais para o sul, se bem que Max não tenha grandes esperanças a

respeito. Depois disso, vamos em direção ao norte, subindo pelas margens

do Habur.

É em Busaira que tenho a minha primeira visão do Habur, que, até

então, havia sido apenas um nome para mim — se bem que um nome

bastante repetido por Max.

38

— O Habur! Este é o lugar. Centenas de colinas. — Ele continua. —

E se nós não encontrarmos nada no Habur, vamos para o Jaghjagha!

— E o que é o Jaghjagha? — pergunto a primeira vez que ouço o

nome, que me parece bastante fantástico.

Max diz gentilmente achar que eu nunca ouvi falar do Jaghjagha. E

concorda em que um bocado de gente ainda não ouviu.

Admito a acusação e acrescento que, até ele falar a respeito, eu, na

verdade, não tinha nem ouvido falar do Habur. O que o surpreende muito.

— Você não sabia que a colina Halaf está às margens do Habur? —

pergunta, espantado com a minha chocante ignorância.

Sua voz se abaixa em deferência enquanto fala daquele famoso local

de cerâmicas pré-históricas.

Sacudo a cabeça, e me abstenho de lhe fazer ver que, se por acaso,

não tivesse me casado com ele, eu provavelmente jamais teria ouvido falar

na colina Halaf!

Eu devo acrescentar que explicar os lugares onde escavamos às

pessoas é sempre uma tarefa das mais difíceis. Minha primeira resposta, em

geral, é uma palavra só — Síria.

— Ah! — diz o inquisidor médio, já meio abalado. Uma ruga se

traça na sua testa. — Sim, claro — Síria... — Memórias bíblicas começam

a aparecer. — Deixe-me ver, fica na Palestina, não é?

— É perto da Palestina — digo, encorajadoramente. — Você sabe,

um pouquinho mais para cima.

O que não adianta muito, já que a Palestina, estando geralmente

associada à História bíblica e às aulas de religião mais do que a uma

situação geográfica, tem conotações puramente literárias e religiosas.

— Não consigo localizá-la muito bem. — A ruga aprofunda-se. —

Mais ou menos aonde vocês escavam — quer dizer, perto de que cidade?

— Perto de cidade nenhuma. Perto da fronteira com a Turquia e o

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Iraque.

Uma expressão de desânimo total aparece, então, no rosto do amigo.

— Mas deve haver alguma cidade por perto!

— Alepo — digo — fica a umas duzentas milhas de distância.

Suspiram, e desistem. Então, novamente animados, perguntam o que

comemos.

— Só tâmaras, não é?

Quando eu digo que temos carneiro, galinhas, ovos, arroz, ervilhas,

pepinos, laranjas e bananas, eles me olham com um ar de censura, e dizem:

— Eu não chamo isso de vida muito dura!

Em Meyadin le camping começa.

Uma cadeira é armada para min, e eu me sento majestosamente no

meio de um grande pátio, ou khan; enquanto isso, Max, Mac, Aristides,

Hamoudi e Abdullah lutam para montar as barracas.

Não há dúvidas de que eu saio ganhando. É um espetáculo muito

divertido. Há um forte vento do deserto que não ajuda nada, e ninguém

ainda está acostumado com o trabalho. Apelos à compaixão e à piedade de

Deus partem de Abdullah, pedidos de assistência aos santos do armênio

Aristides, gritos e risadas de encorajamento são oferecidos por Hamoudi,

furiosas imprecações partem de Max. Só Mac trabalha em silêncio, muito

embora volta e meia até ele solte uma ou outra palavra com seus botões.

Finalmente está pronto. As barracas parecem um pouco bêbadas,

meio fora de foco, mas foram erguidas, de qualquer maneira. Juntos, todos,

nos reunimos para xingar o cozinheiro, que em vez de começar a preparar

alguma comida, estava apreciando o espetáculo. Mas temos algumas latas

muito úteis que são abertas, é preparado um chá, e quando o sol se põe e o

vento acalma, e começa a aparecer um súbito ar frio, vamos dormir. Esta é

a minha primeira experiência com um saco de dormir. Requer os meus

esforços e os de Max conjugados, mas, uma vez lá dentro, me sinto

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maravilhosamente à vontade. Sempre viajo com um travesseiro realmente

macio — para mim, ele faz toda a diferença entre o conforto e a miséria.

Digo alegremente a Max:

— Acho que gosto de dormir numa barraca!

Então, me vem um pensamento repentino.

— Você não acha que ratos, camundongos, ou coisas assim vão

passar por cima de mim de noite, não é?

— É claro que vão — diz Max sonolento e animador.

Estou digerindo este pensamento quando adormeço. E acordo para

descobrir que são cinco horas da manhã — alvorada, e tempo de levantar e

começar um novo dia.

As colinas mais próximas de Meyadin se mostram pouco atraentes.

— Romanos! — murmura Max desgostoso. É sua última palavra de

desânimo. Pondo de lado quaisquer resquícios que eu poderia ter quanto a

achar os romanos um povo interessante, jogo fora um caco da cerâmica

desprezada, dizendo “romanos...” “Min Ziman... er Rum”, diz Hamoudi.

Pela tarde vamos visitar as escavações americanas em Doura. É uma

visita agradável, e o pessoal é muito gentil conosco. No entanto, não estou

muito interessada nos achados, e uma imensa dificuldade em ouvir ou

participar da conversa começa a tomar conta de mim.

O relato das suas dificuldades em conseguir trabalhadores, porém,

não deixa de ser interessante.

Trabalhar por salário nesta parte do fim do mundo é uma idéia

inteiramente nova. A expedição se defrontou com terminantes recusas ou

uma total falta de compreensão. Desesperados, apelaram para as

autoridades francesas. Sua ação foi pronta e eficiente: os franceses

prenderam duzentos ou qualquer outro número necessário, e mandaram

trabalhar. Os prisioneiros foram amistosos, estavam no melhor bom humor

e pareciam estar gostando do trabalho. Foi-lhes dito que voltassem no dia

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seguinte, mas não apareceram. Novamente os franceses foram chamados

para ajudar, e novamente prenderam trabalhadores. Novamente os homens

trabalharam evidentemente satisfeitos. Mas novamente deixaram de

aparecer no dia seguinte. E assim por diante.

Até que, finalmente, o caso foi elucidado.

— Vocês gostam de trabalhar com a gente?

— Claro, por que não? Não temos nada para fazer em casa.

— Então por que é que vocês não vêm todo dia?

— Nós queríamos vir, mas naturalmente a gente tem que esperar que

os soldados nos apanhem. Vou lhe contar, ficamos bem aborrecidos no dia

em que eles não vieram! Afinal, é a obrigação deles!

— Mas nós queremos que vocês trabalhem para a gente sem que os

‘asker tenham que ir buscá-los!

— Que idéia gozada!

Ao final de uma semana foram pagos, e isso foi a última gota no seu

espanto.

Disseram que, realmente, jamais conseguiriam compreender o jeito

de ser dos estrangeiros!

— Os ‘asker franceses mandam aqui. Naturalmente, é pleno direito

deles nos pegar, ou botar na prisão, ou mandar escavar para vocês. Mas por