Desperta Ao Amanhecer - Os Sobrenaturais por C.C. Hunter - Versão HTML

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K ylie anseia por descobrir sua própria identidade sobrenatural e o que

seus poderes significam. Agora ela vai precisar deles mais do que nunca,

porque está sendo assombrada por outro espírito, que insiste em dizer que

alguém que ela ama morrerá antes do final do verão. Se ao menos Kylie

soubesse quem ela precisa salvar e como... Mas a maior causa de seus

problemas são os dilemas do coração. Kylie sabe que precisa decidir entre

Lucas, o lobisomem que conheceu quando ainda era garotinha, e Derek, um

fae muito atraente, para não correr os risco de perder os dois. Mas o romance

vai ter que esperar, porque alguém do lado sombrio do mundo natural se

esconde em Shadow Falls.

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Um

“Você tem que impedir isso, de qualquer maneira, Kylie. Do contrário,

acontecera com alguém que você ama.”

As palavras agourentas do espírito soaram às costas de Kylie,

confundindo-se com o crepitar da enorme fogueira que ardia a alguns

metros dela. A lufada de ar frio anunciava a presença do fantasma da

maneira mais clara possível, mas as palavras eram só para ela e não para os

outros trinta campistas de Shadow Falls que formavam o círculo cerimonial.

Miranda, ao lado de Kylie na corrente humana, completamente alheia

ao espírito, apertou-lhe a mão com mais força.

— Isso é tão legal! — murmurou, olhando para DeIla, do outro lado do

circulo.

Miranda e Della, além de amigas íntimas, eram também colegas de

alojamento de Kylie.

— Damos graças por esta oferenda. — Chris (ou Christopher, como

tinha se apresentado essa noite), ficou no meio do círculo e ergueu para o

céu escuro o cálice sagrado, enquanto abençoava seu conteúdo.

“Você tem que impedir isso”, sussurrou de novo o espírito por trás do

ombro de Kylie, desviando sua atenção do ritual.

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Cerrando os olhos, Kylie visualizou o espírito tal como ele vinha

aparecendo para ela ultimamente: em torno de 30 anos, longos cabelos

negros, saia branca — manchada de sangue.

A frustração fez com que as entranhas de Kylie se contraíssem ainda

mais. Quantas vezes tinha gritado para o espírito as perguntas quem, o quê,

quando, onde, por quê? Mas a mulher morta se limitava a repetir o mesmo

aviso.

Para encurtar a história, fantasmas recentes têm dificuldade para se

comunicar, a mesma que os sensitivos inexperientes encontram para

arrancar deles alguma coisa. Assim, a única opção de Kylie era esperar que a

mulher finalmente conseguisse explicar o aviso. Mas aquela não era a hora

ideal.

No momento, estou muito ocupada. Portanto, a menos que você me dê

detalhes, o melhor é conversarmos depois. Kylie manteve essas palavras na

mente, esperando que o fantasma pudesse ler seus pensamentos. Por fim, os

arrepios que corriam pela espinha de Kylie desapareceram e o calor da noite

voltou o calor do Texas, úmido, viscoso e intenso, mesmo sem a colaboração

da fogueira.

Obrigada. Kylie procurou se descontrair, mas a tensão em seus ombros

não lhe dava trégua. E por uma boa razão. A cerimônia daquela noite era

mais uma novidade em sua vida.

Uma vida que tinha sido bem mais simples antes de Kylie descobrir

que não era inteiramente humana. Sem dúvida, o melhor seria que pudesse

identificar seu lado não humano. Mas, infelizmente, a única pessoa que sabia

a resposta era Daniel Brighten, seu verdadeiro pai. Kylie ignorava sua

existência até ele lhe fazer uma visita há pouco mais de um mês. E Daniel

aparentemente desejava que ela resolvesse sozinha sua crise de identidade.

Ele raramente a visitava, reforçando a velha imagem do pai ausente. Na

verdade, Daniel estava mais que ausente: estava morto. Morrera antes de

Kylie nascer. Ela ignorava se havia cursos de aperfeiçoamento para pais no

além, mas sentia-se tentada a sugerir que ele procurasse um. Porque agora,

quando de fato aparecia, ficava só olhando para ela; e se Kylie abria a boca

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para fazer uma pergunta, sumia, deixando atrás de si apenas um ar gelado e a

pergunta não respondida.

— Vamos lá — disse Chris. — Soltem as mãos e deixem a mente vazia.

Mas, façam o que fizerem, não quebrem o círculo.

Todos seguiram as instruções. Mas, embora soltasse as mãos, Kylie não

conseguiu deixar a mente vazia. Uma rajada de vento agitou algumas mechas

do longo cabelo loiro de Kylie e as espalhou pelo seu rosto. Ela as recolocou

atrás da orelha.

Seu pai ausente tinha medo que ela lhe fizesse perguntas sobre sexo ou

coisa semelhante? Isso sempre fazia sua mãe sair correndo do quarto — e

sair à procura de algum manual de educação sexual para adolescentes. Não

que Kylie conversasse com ela sobre o assunto. A mãe seria a última pessoa

no mundo a quem ela recorreria para esse tipo de conselho. A simples

menção de que estava interessada em algum garoto já fazia a pobre mãe

entrar em pânico, com as letras S-E-X-O faiscando em seus olhos.

Felizmente, desde que Kylie tinha sido despachada para o acampamento

Shadow Falls, o suprimento de manuais de sexo tinha diminuído.

Mas quem poderia dizer o que a mãe estivera selecionando no último

mês? Talvez tivesse reunido uma pilha de folhetos sobre doenças

sexualmente transmissíveis que Kylie ainda não conhecia. Nesse caso os

estaria guardando para quando a filha fosse visitá-la depois de três semanas

de ausência. Kylie não estava pensando muito nessa visita, embora, com

certeza, a relação entre elas tivesse melhorado desde que soubera que Daniel

era seu verdadeiro pai. Mas os novos laços entre mãe e filha ainda eram

frágeis.

Kylie chegava a se perguntar se esses laços, por serem tão delicados,

justificariam um encontro de mais de duas horas. E se ela voltasse para casa

e descobrisse que por ali nada havia mudado? E se a mãe continuasse

indiferente? E como seriam agora as coisas com Tom Galen, o homem que

durante toda a sua vida Kylie acreditou ser seu pai biológico, o homem que

abandonou a mãe por uma garota pouco mais velha que a filha? Era uma

verdadeira tortura vê-lo aos beijos e abraços com aquela assistente tão

jovem. Mas ela ainda não tinha dito isso a ele.

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A brisa de fim de noite arremessou uma nuvem de fumaça da fogueira

no rosto de Kylie. Ela esfregou os olhos, mas não ousou sair do círculo. Como

Della tinha lhe explicado, fazer isso seria falta de respeito com a cultura dos

vampiros.

— Deixem a mente vazia — repetiu Chris, passando o cálice ao

campista que se achava a seu lado no círculo.

Cerrando as pálpebras, Kylie tentou de novo seguir as instruções de

Chris, mas ouviu então o som da cachoeira. Abriu bem os olhos e voltou-se

na direção do bosque. Será que a cachoeira estava assim tão próxima? Desde

que tinha ouvido falar da lenda sobre os anjos da morte que existiam ali,

Kylie sentia vontade de conhecer o local. Não que quisesse encontrar cara a

cara um anjo da morte. Já tinha fantasmas demais na vida dela. Mas, ainda

assim, a cachoeira a atraía.

— Está pronta? — Miranda inclinou-se na direção dela e sussurrou: —

Está chegando perto.

Pronta para o quê?, foi o primeiro pensamento de Kylie. E então se

lembrou.

Brincadeira de mau gosto de Miranda?

Kylie viu o cálice comunal sendo passado de mão em mão ao longo do

círculo. Quase parou de respirar ao perceber que só faltavam dez pessoas

para ele chegar até ela. Aspirando profundamente o ar saturado de fumaça,

tentou não mostrar repugnância.

Tentou. A ideia de beber num recipiente onde tanta gente tinha posto

a boca provocou-lhe na mente algo entre a náusea e a indignação. Mas, sem

dúvida, o que mais lhe causava nojo era o sangue.

Ver DeIla consumindo diariamente seu alimento preferido tinha ficado

mais fácil, no último mês, para Kylie, que chegara a doar um pouco de

sangue em favor da causa — sobrenaturais fazem coisas assim por seus

amigos vampiros. Contudo, degustar a substância que lhes dava vida era

outra coisa.

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— Sei que é nojento. Mas finja que está tomando suco de tomate —

sussurrou Miranda à amiga Helen, de pé ao seu lado. Mas quem disse que o

sussurro não seria ouvido em meio a tantos sobrenaturais com sentidos

aguçados?

Kylie observou o círculo de campistas sobrenaturais, com os rostos

banhados pelo fulgor intermitente das chamas da fogueira próxima. Viu

Della franzindo a testa na direção delas, os olhos projetando faíscas

amareladas. A audição aguçada era apenas um de seus muitos dons. Sem

dúvida cobraria de Miranda, mais tarde, aquele “nojento”. Ou seja, Kylie teria

de convencer Della e Miranda a não se matarem. Como duas pessoas podiam

ser amigas e ainda assim brigar tanto, isso estava além de sua compreensão.

Reconciliá-las tinha se tornado, para Kylie, uma tarefa de tempo integral.

Viu outra campista levar o cálice à boca. Sabendo quanto aquilo

significava para Della, Kylie se preparou mentalmente para sorver um gole

do sangue sem vomitar. O que, porém, não impediu seu estômago de se

rebelar.

Faça isto. Faça isto. Por Della.

Talvez até aprecie o sabor do sangue, tinha dito Della um pouco antes.

Não seria ótimo se você descobrisse que é uma vampira?

Não, pensou Kylie, mas sem ousar abrir a boca. Ser vampiro era tão

ruim quanto ser lobisomem ou metamorfo. Ela se lembrou de DeIla quase

chorando ao falar da repulsa do ex-namorado pela temperatura baixa do seu

corpo. Não, Kylie preferia manter sua própria temperatura. E o que dizer de

uma dieta essencialmente à base de sangue...? Ela nem comia carne

vermelha com frequência e, quando comia... era muito bem passada, por

favor?

Holiday, líder do acampamento e sua mentora, achava improvável que

Kylie começasse a exibir mudanças físicas muito acentuadas. Mas achava

também que tudo é possível. Na verdade, Holiday — uma fada da cabeça as

pés — não poderia prever o futuro de Kylie. Porque Kylie era uma anomalia.

E detestava ser uma anomalia.

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Ela nunca tinha se ajustado ao mundo humano, é verdade, e não estava

nem aí se não se ajustasse ao sobrenatural também. O que não significava

que os outros campistas não a aceitassem. Pelo contrário, ela se sentia mais

próxima deles do que dos adolescentes humanos. Bem, só tinha passado a

pensar assim depois de descobrir que ninguém ali estava louco para

transformá-la em jantar. Como Della e Miranda eram agora suas duas

melhores amigas — não havia nada que ela não compartilhasse com as duas.

Doar sangue era uma boa prova disso.

Só havia uma coisa que ela não podia dividir com suas duas melhores

amigas. Os fantasmas. A maioria dos sobrenaturais tinha o pé atrás com

fantasmas. Mas quem disse que a própria Kylie também não tinha? O que

não impedia, porém, que aqueles fantasmas irritantes vivessem aparecendo

lhe fazer uma visitinha.

De qualquer maneira, não importava o tipo de sobrenatural que ela

fosse, ser um ímã para fantasmas era o dom que ela tinha. Ou... um deles.

Holiday achava que se comunicar com fantasmas provavelmente era um dos

muitos dons de Kylie, e outros se manifestariam no devido tempo. Kylie só

esperava que qualquer dom futuro fosse mais fácil de lidar do que falar com

gente morta, o que lhe parecia ao mesmo tempo um enigma e um desafio.

— Está chegando! — avisou Miranda.

Kylie viu alguém passando o copo para Helen. Sua garganta se contraiu

um pouco mais e seu olhar se desviou para Derek, o meio fae de cabelos

castanhos que, no círculo, estava três campistas antes de Helen. Ela não o

vira bebendo o sangue. O que não a incomodava nem um pouco. Da próxima

vez que se beijassem ela não queria pensar nele com sangue nos lábios.

Derek sorriu com ternura para ela e Kylie se lembrou de que ele podia

sentir o tumulto emocional em que ela se encontrava. Por mais incrível que

fosse, a capacidade dele de ler suas emoções era o que a fazia se sentir tão

atraída e ao mesmo tempo o que a impedia de se aproximar ainda mais. Na

verdade, não era bem a capacidade dele de ler emoções que impedia o

relacionamento entre eles de se aprofundar, mas a capacidade que ele tinha

de controlar essas emoções. Por ser meio fae, Derek não só era capaz de

sentir as emoções das pessoas, mas também, com um simples toque, de

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influenciar essas emoções, transformando o medo em fascínio, a raiva em

serenidade. Não era à toa que ela encarava com um pouco de receio aquele

garoto atraente e sedutor.

Podiam chamá-la de paranoica se quisessem, mas, depois de ver seu

pai — quer dizer, padrasto — traindo sua mãe e depois Trey, seu ex-

namorado, trocando-a por outra porque ela estava hesitante em se entregar a

ele, confiar no sexo masculino era um verdadeiro desafio. Que dirá alguém

que tinha o poder de manipular suas emoções?

Isso, contudo, não a impedia de gostar de Derek nem de querer deixar

toda a precaução de lado. Mesmo agora — com o estômago revirado pela

perspectiva de beber sangue e rodeada pelo acampamento inteiro — ela

sentia o quanto ele a atraía. Queria poder se recostar em seu peito e chegar

perto o suficiente para ver as raias douradas em suas pupilas se mesclarem e

se fundirem com o verde brilhante dos seus olhos. Queria sentir seus lábios

pressionando os dela novamente. Sentir o sabor do seu beijo. Naquelas

últimas semanas, ela tinha descoberto o quanto gostava dos beijos dele.

O som de Miranda limpando a garganta trouxe Kylie de volta ao

momento. Quando ela viu o sorriso travesso de Derek, soube que ele tinha

lido as emoções dela e percebido a sua excitação. Ela sentiu as bochechas

arderem e desviou o olhar para Miranda.

Ai, droga. Miranda segurava o cálice, oferecendo-o a Kylie. Era a hora

do show.

Kylie pegou o cálice. Estava morno, como se tivessem acabado de

drenar o líquido em seu interior da sua fonte vital. Seu estômago se contraiu

e o mesmo aconteceu com a garganta. Ela não sabia se o sangue era animal

ou humano.

Não pense nisso.

Kylie respirou fundo e o odor metálico, de moeda velha, invadiu suas

narinas. Antes que o cálice chegasse à sua boca, sentiu vontade de vomitar.

Simplesmente beba. Mostre a Della que respeita a cultura dos vampiros.

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Ela engoliu em seco, aproximou o cálice da boca e esperou que Della

pelo menos soubesse reconhecer o seu esforço. Repetindo para si mesma que

não precisava degustar o sangue, só engoli-lo, esperou até sentir a umidade

na boca.

No segundo em que o líquido morno molhou seus lábios, ela sentiu o

impulso de afastar o cálice, mas o sangue vermelho e espesso de algum modo

escorreu por entre seus lábios apertados. Sua garganta se fechou, mas então

o sabor explodiu na ponta da sua língua. O gosto, semelhante ao de amoras,

mas ainda melhor, como o de morangos maduros, mas mais marcante, doce

e exótico, fez com que ela abrisse a boca e engolisse o líquido com avidez.

Quando o sangue deslizou pela sua garganta, o cheiro de moeda velha se

desvaneceu e foi substituído pelo gosto picante de fruta.

Ela já tinha entornado quase tudo quando se lembrou do que estava

bebendo. Afastou o cálice dos lábios, mas não pôde impedir a língua de

deslizar pelos cantos da boca, atrás de uma última gota que pudesse ter

escapado.

Imediatamente, a intensidade do olhar de todos fez com que ela

recuperasse a consciência e um senso mais profundo da realidade.

Murmúrios encheram seus ouvidos...

Pelo menos agora ela sabe o que ela é.

Como pode, se o corpo dela não está frio?

Parece que vamos ter que aumentar o estoque de sangue...

Em seguida, ela ouviu um gritinho de vitória de Della.

As mãos de Kylie começaram a tremer. A fumaça da fogueira penetrou

em suas narinas e em sua garganta, e ficou cada vez mais difícil respirar.

Merda! Merda! Merda! O que aquilo significava? Que ela era... uma

vampira?

Kylie passou os olhos pelos rostos de olhos arregalados para encontrar

Holiday e ver seu sorriso tranquilizador, mostrando que estava tudo bem,

que isso... isso não significava nada. Mas, quando ela localizou a líder do

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acampamento, a expressão dela refletia exatamente a mesma emoção dos

outros choque.

Kylie piscou, tentando reprimir as lágrimas, e entregou o cálice quase

vazio nas mãos da pessoa ao seu lado. Sem se incomodar mais em

demonstrar respeito, ela saiu do círculo e se afastou correndo.

Cinco minutos depois Kylie ainda estava correndo. Mais rápido do que

jamais imaginou que pudesse. Mas seria essa a velocidade de um vampiro? O

clima quente e pegajoso de verão encheu seus pulmões e saiu em golfadas.

Mesmo com a temperatura ultrapassando a marca dos trinta graus, um

calafrio percorreu sua espinha. Será que ela estaria agora mesmo se

transformando em vampira? Seu corpo estava ficando cada vez mais frio?

Della não tinha dito que sentira dor? Uma dor quase excruciante?

Mas ela estava sentindo dor? Emocionalmente, estava. Mas e

fisicamente? Ainda não.

Kylie continuou em movimento. O som dos seus passos golpeando o

chão de terra lhe enchia os ouvidos, e o dos galhos cheios de espinhos se

agarrando aos seus jeans e se soltando violentamente parecia alto demais.

Sua consciência pulsava no mesmo ritmo que as batidas do seu coração.

Tum. Tum. Tum.

Quantas vezes ela tinha repetido para Della que ela não era um

monstro? E, no entanto, a mera ideia de que pudesse ser vampira também

parecia... demais para ela.

O cheiro da fumaça da fogueira impregnava suas roupas e invadia suas

narinas. No entanto, o gosto doce do sangue ainda permanecia em sua

língua. Ela correu ainda mais. E mais rápido. A rapidez significava que ela era

vampira?

Kylie não queria pensar nisso.

Não queria aceitar essa ideia.

Seus pulmões finalmente pediram arrego, rejeitando o ar que ela

tentava respirar. Os músculos das pernas estavam tensos e os joelhos

tremiam. Ela parou; as pernas, se recusando a sustentar seu peso, desabaram

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em meio aos arbustos crivados de espinhos. Encostando as pernas no peito,

ela abraçou os calcanhares e descansou a cabeça nos joelhos.

Forçou o ar quente a entrar nos pulmões, que agora imploravam por

mais ar. Ela respirou uma, duas vezes. Fisicamente exausta, ficou ali em

silêncio, até que lhe ocorreu um pensamento. Se ela fosse mesmo vampira,

não deveria ter a resistência de Della? Talvez isso viesse junto com a

mudança na temperatura do corpo. A umidade em seu rosto revelou que ela

estava chorando.

O ar de repente se resfriou. Ficou muito frio.

Não frio como o corpo de um vampiro.

Frio como o corpo de alguém morto.

Ela não estava sozinha — outro espírito lhe fazia companhia. Mas

quem era dessa vez? Holiday tinha explicado que, com o tempo, suas

capacidades aumentariam e ela teria que lidar com mais de um fantasma ao

mesmo tempo. Mas, neste momento, só um fantasma ela queria ver. Só uma

coisa ela queria.

Ela queria respostas.

— Daniel? — chamou em voz alta o nome do pai. E então gritou; —

Daniel Brighten! O que eu sou?

Ao ver que ele não aparecia, ela repetiu aos gritos seu nome várias e

várias vezes. A garganta começou a doer, mas ela não parou.

Apareça agora! Você me dá respostas ou eu juro que nunca mais,

NUNCA MAIS, vou reconhecer sua presença outra vez. Vou me fechar pra

você, arrancá-lo da minha mente e me recusar a ver você, falar com você ou

pensar em você outra vez.

Enquanto o ameaçava, ela nem mesmo sabia se era capaz de fazer o

que prometia, mas algo dentro dela dizia que sim. Ela descansou novamente

a cabeça nos joelhos e se esforçou para respirar.

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De repente, o ar ficou mais rarefeito. Ela o sentiu envolvê-la.

Circundando-a como um abraço apertado. Não era um ar frio qualquer, era o

ar frio de Daniel.

Ela ergueu o rosto e viu o espírito do pai ajoelhado ao lado dela. Seus

olhos azuis, do mesmo tom dos dela, a fitavam. Seus olhos, e mais alguma

coisa em seus traços faciais, desde o rosto em formato oval até o nariz

levemente arrebitado, eram tão parecidos com os dela que chegava a ser

perturbador. Quando os braços dele a rodearam, o bolo em sua garganta

ficou ainda maior.

— Não chore. — Ele secou uma lágrima do rosto dela. — Não quero

que a minha garotinha chore. — O toque gelado não deveria ser

reconfortante, mas era.

— Eu bebi sangue e achei bom. — Ela falou depressa como se fizesse

uma confissão.

— E você achou isso errado? — ele perguntou.

— Me... me assustou.

— Eu sei — ele disse. — Eu me lembro de ter me sentido desse jeito.

— Você bebeu sangue? Nós somos... vampiros? — Mal conseguiu

pronunciar a palavra.

— Nunca provei sangue. — O semblante do pai demonstrava

compreensão. — Mas, Kylie, você não fez nada errado. — A voz dele era

suave; suas palavras, reconfortantes. O frio, o frio que vinha dele, amenizou

o medo que Kylie sentia do desconhecido e ela se sentiu... amada.

Nesse instante ela soube que o amor não tinha fronteiras, nem mesmo

a morte. O amor não tinha temperatura. Talvez ficar com frio não fosse tão

ruim assim. Ela chegou mais perto do pai e se confortou com sua

proximidade.

Passaram alguns minutos assim. Depois ela enxugou as lágrimas e se

levantou. Ele saiu da posição de joelhos e se levantou também. Secando o

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rosto, olhou para o pai que nunca tivera a chance de conhecer em vida.

Mesmo separados pela morte, ela sentia a ligação que existia entre eles.

— Me diga. Por favor, me diga o que eu sou.

O sorriso nos olhos dele esmoreceu.

— Eu queria muito poder te dar o que está me pedindo, mas eu não

tenho as respostas. Eu era mais velho do que você quando percebi que era

diferente das outras pessoas. Foi só quando fiz 18 anos e não estava mais na

faculdade que as coisas começaram a acontecer.

— Que tipo de coisas? — ela perguntou e logo percebeu que já sabia.

— Você via fantasmas?

Ele assentiu e depois gesticulou com as mãos.

— Pensei que tinha perdido o juízo. Então um dia encontrei um velho

pescador. Ele me disse que era fae.

— Disse o que você era?

— Não, só disse que eu não era humano e, claro, pensei que ele tinha

perdido o juízo. Precisei de meses pra começar a acreditar. Quando voltei

para falar com ele, tinha ido embora.

— Mas e quanto aos seus pais? — Kylie perguntou. — Eles não

disseram nada a você?

— Não. E quando a minha capacidade de reconhecer outros

sobrenaturais começou a fazer sentido pra mim, percebi que meus pai eram

humanos. Na época, eu não sabia que poderia não ser filho deles. Só depois

de morto, soube que era adotado o que não significa que eu não os considere

meus pais de verdade. Eles me amaram. E amariam você também.

— Eles nunca contaram que você era adotado? Como puderam mentir

desse jeito?

— Naquela época era melhor manter a adoção em segredo, mesmo do

próprio filho. Eu ainda não sei quem são os meus verdadeiros pais ou que

tipo de sobrenaturais eles são. Por isso, como você pode ver, as respostas que

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você procura são as mesmas que eu buscava antes de morrer. Talvez você

consiga descobri-las por nós dois.

— Mas... pensei que os espíritos fossem capazes de ver tudo. Pelo

menos nos filmes eles são. Ninguém, aí do outro lado, pode te dizer?

Ele sorriu.

— A gente acha que sim. Mas é um engano. Mesmo aqui eles querem

que encontremos as nossas próprias respostas.

— Mas que saco! — reclamou Kylie. — Morrer devia trazer algumas

vantagens.

Ele riu, O som pareceu familiar aos ouvidos de Kylie. Era outra coisa

que ela tinha puxado dele — o jeito de rir. Seus pensamentos se voltaram

para o seu padrasto, o homem que ela tinha amado tanto e, no fim, voltara

costas para ela e a mãe. Kylie ainda não sabia se conseguiria perdoá-lo. Ou se

queria perdoá-lo. E, então, um estranho pensamento lhe ocorreu: ela tinha

amado o pai errado.

Sua garganta se apertou de novo.

— Senti sua falta durante toda a minha vida — lamentou Kylie. — Eu

não sabia disso, mas agora sei. Você deveria estar aqui.

Ele pousou a mão no rosto dela.

— Eu estava aqui. Vi você dando os primeiros passos. No dia em que

caiu da bicicleta e quebrou o braço, tentei segurar você. Mas você passou

através dos meus braços. E lembra aqueIe dia em que foi mal na prova de

álgebra e ficou tão arrasada que cabulou aula e foi fumar um cigarro?

Ela amarrou a cara.

— Eu detesto álgebra. E detesto cigarro também.

— Eu também detesto — ele comentou, com uma risada. — Estou com

você, Kylie, mas não posso ficar muito tempo.

As palavras dele deram voltas na cabeça dela e atingiram o seu coração

num baque.

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— Mas não é justo! Acabei de conhecer você!

— Meu tempo neste plano é limitado. Usei muito dele acompanhando

o seu crescimento, até você se transformar na mulher que é.

— Então peça mais tempo. — Sentiu um nó na garganta. Ela já tinha

perdido um pai; não queria perder o outro. Não agora. Não antes de sequer

conhecê-lo direito.

— Vou tentar, mas pode não ser possível. Não me arrependo de ter

usado meu tempo para ficar com você. — Os cantos dos olhos dele se

enrugaram quando ele sorriu. — Vejo em você o melhor de sua mãe e o

melhor de mim. E embora eu saiba que você não quer ouvir isso agora, vejo o

melhor de Tom Galen também. Ele não é de todo mal, Kylie.

Ela queria dizer a Daniel que ele estava errado, insistir em dizer que ela

não era como Tom Galen, mas seus pensamentos foram interrompidos por

uma rajada de vento. Ela veio rapidamente, como se algo tivesse passado

correndo por perto, algo tão veloz que seus olhos humanos não tinham

detectado. Algo não humano.

O silêncio sombrio que se seguiu provou a Kylie que ela estava certa.

— Aposto que é Della. — Kylie olhou ao redor. — Procurando por

mim... — Mas nem mesmo tinha terminado a sentença quando sentiu

diminuir a temperatura fria que acompanhava a presença do pai.

— Não, por favor, não vá... embora. — A última palavra ecoou no

silêncio ainda sinistro e solitário.

Não adiantou. Ele se foi.

O peito de Kylie ficou apertado. Então ela se deu conta de que, embora

tivesse vindo em seu auxílio, ele não tinha as respostas que ela queria. Seu

plano infalível para solucionar sua crise de identidade tinha ido por água

abaixo.

Mordiscando o lábio, ela pôs de lado os pensamentos relacionados ao

pai e preparou-se para enfrentar Della. Será que conseguiria explicar à amiga,

sem magoá-la, sua resistência a se tornar vampira? Será que Della estava

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furiosa por Kylie ter quebrado o círculo e desrespeitado cultura vampira?

Conhecendo Della como ela conhecia, a resposta certamente era “pode

apostar que sim!”.

Della tinha muita raiva acumulada dentro dela e não era preciso muito

para enfurecê-la. Um pouco dessa revolta podia decorrer do fato de ser

vampira — os vampiros não eram conhecidos pelo seu temperamento gentil

e amoroso, mas a maioria dos seus problemas vinha da família.

Aparentemente, seu pai super rigoroso havia notado as mudanças na filha

desde a sua transformação e não tinha gostado nem um pouco. Sem coragem

de contar ao pai que era vampira, Della mantinha silêncio, o que levava o pai

a acusá-la de tudo, desde se envolver com drogas até ser simplesmente

preguiçosa. O mais triste era que Della amava tanto o pai que ficava arrasada

por decepcioná-lo.

Kylie esperou a aparecesse de repente. Mas isso aconteceu. Será que a

amiga, que morria de medo de fantasmas, tinha tido a presença de Daniel e

não se aproximara? A ausência de ruídos de repente adquiriu um ar

ameaçador.

— Della? — Kylie chamou.

Nenhuma resposta. A menos que ela considerasse o silêncio sepulcral

uma resposta. Kylie lembrou-se do primo de Della, Chan, e da visita

desagradável que ele tinha feito às duas, alguns dias depois da sua chegada a

acampamento. A presença dele também tinha provocado um silêncio

sepulcral.

A lembrança daquela noite dominou a mente de Kylie. Della tinha

garantido que o primo só estava brincando quando se referiu a Kylie como

um petisco, mas depois de conhecer a gangue de vampiros delinquentes

Confraria do Sangue, ocasião em que ela quase se transformou num petisco

de verdade, confiar num vampiro desconhecido passou a exigir dela um

pouco mais de esforço.

Quando a quietude da noite persistiu, Kylie se obrigou a falar:

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— Eu sei que tem alguém aqui. — Ela se levantou, esperando que sua

falsa postura de desafio parecesse real. Sentiu novamente uma brisa forte

passar por ela. — Se é você, Della, não tem graça.

Nenhuma resposta. Kylie ficou de pé ali, tentando adivinhar o que

aconteceria em seguida. Então ela ouviu. Um farfalhar muito suave, mas

nítido. entre os arbustos — havia alguém atrás dela. Prendendo a respiração,

voltou para enfrentar quem quer que fosse.

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Dois

A princípio Kylie não viu nada, depois seus olhos baixaram quase até o

nível do chão e se fixaram num par de olhos — olhos com um brilho

dourado que se destacava na escuridão da noite. Não eram olhos de

vampiros. Não, não tinham o tom dourado dos olhos de Della quando ela

estava com raiva. Esses olhos também não eram humanos.

Seriam de um cão?

Não.

De um lobo.

Ela quase tropeçou ao dar um passo para trás, enquanto seu coração

gritava “Corra! “. Mas uma palavra sussurrada em sua cabeça em seguida

impediu-a de tentar fugir. Lucas?

Seu peito ficou oprimido, mas agora não mais pelo medo. Algo mais

parecido com saudade aqueceu seu coração. Um sentimento doce e quente

que se sobrepôs ao sentimento de traição. O lobisomem de olhar ardente

tinha beijado Kylie com desvario, feito com que ela ansiasse por tê-lo, e

depois fugido com Fredericka.

O olhar de Kylie desviou-se rápido para a lua coberta de nuvens.

Apesar da bruma cinzenta, ela podia ver que não estava cheia. Só estaria na

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semana seguinte, quando os lobos do acampamento estariam organizando a

sua própria cerimônia ritual.

E isso significava que o olhar lupino não podia ser de Lucas. Significava

que era de um lobo de verdade, O tipo de lobo que era um animal selvagem.

Significava que ela devia dar o fora dali antes que ele decidisse atacar.

Kylie se voltou novamente para a fera e, embora sua mente estivesse

criando imagens da criatura de dentes arreganhados, pronta para dar o bote,

o que ela via não parecia nada assustador. Os olhos dourados estavam fixos

nos dela. As nuvens encobrindo o luar deviam ter sido levadas pelo mito,

pois Kylie conseguiu ver o lobo de tamanho médio em detalhes. Seu pelo

parecia grosso e áspero, e exibia uma mistura de tons que iam do cinza ao

vermelho. Ela não diria que era bonito, mas sem dúvida não parecia nem um

pouco ameaçador.

Rosnando baixo, ele avançou. Embora ainda não parecesse hostil, Kylie

recuou um pouco. Como se percebesse o medo dela, o lobo baixou o corpo

um pouco mais, assumindo uma posição submissa.

— Quem é você? O lobo de estimação de alguém?

Outro pensamento lhe ocorreu. Um lobo de verdade não teria

esperado no ar algo parecido com o rastro de um avião supersônico. Mas um

metamorfo de verdade, sim.

Ela colocou as mãos nos quadris e dirigiu ao animal um olhar frio e

reprovador.

— Droga! você, Perry?

Perry o poderoso metamorfo do acampamento, adorava fazer

gracinhas. Mas Kylie já estava farta dos seus truques. Ela iria dar um basta

naquilo.

— Pare com isso ou vou arrancar as suas orelhas!

Kylie esperou as fagulhas cintilantes se espalharem pelo ar ao redor do

lobo, enquanto ele se transformava em ser humano novamente.

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— Agora!

Nada de fagulhas.

A criatura, ainda de pé nas quatro patas, avançou mais um pouco.

— Nããão — Kylie insistiu, aceitando que se tratava de um lobo de

verdade. — Você fica aí. — Ela estendeu a mão e o animal pareceu ouvir. —

Nada pessoal, mas gosto mais de gatos.

Sua voz soou muito alta e ela se deu conta de que ainda não ouvia os

sons da noite.

Nada de grilos. Nem passarinhos. Nem o vento ousava soprar. Ela

olhou para o topo das árvores, tão imóveis que pareciam uma fotografia. Até

a vegetação do Texas parecia congelada de medo.

Lutou contra a sensação de perigo agitando seu peito e olhou

novamente o lobo, com mais certeza do que nunca de que o perigo não era

causado pela presença da criatura. Não, o que quer que houvesse ali era

muito mais maligno do que um animal selvagem. Calafrios percorreram sua

espinha, deixando os cabelos da sua nuca arrepiados.

O lobo se empertigou, farejou o ar e soltou um rosnado. Depois se

afastou um passo e voltou a avançar. Seus olhos dourados se encontraram

com os dela como se a alertasse do perigo.

Mas quem disse que ela precisava de mais alertas? Seu coração já batia

na boca. Outra rajada de vento frio passou por ela, só que desta vez mais

perto, e deixou no ar um odor carregado de morte. O rosnado do lobo ficou

mais intenso.

— Kylie? — Seu nome ecoou a distância, vindo da parte mais espessa

da floresta. Ela olhou em volta e um vento frio passou por ela novamente. Só

que desta vez teve a sensação de que ele continuou soprando. O que ou

quem quer que fosse a queria sozinha. Ela abraçou a si mesma e tentou não

estremecer com esse pensamento.

O lobo soltou um ganido baixinho e ela virou a cabeça, fazendo

contato visual com ele. Ele moveu a cabeça ligeiramente, como se estivesse

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se despedindo dela, depois deu meia-volta, provocando um leve farfalhar nas

folhas, e desapareceu.

— Kylie! — Ela ouviu seu nome mais uma vez, carregado pela brisa

suave. Desta vez reconheceu a voz de Derek.

— Estou aqui! — ela gritou e, sem querer ficar sozinha nem mais um

segundo, começou a correr.

Ela correu na direção da voz dele. O coração martelava no peito,

enquanto desviava das árvores e saltava arbustos espinhosos. Continuou

correndo. Como se pudesse fugir do medo que acabara de sentir, como se

pudesse fugir dos próprios problemas. Ah, sim, ela queria muito deixar os

problemas para trás. Cada vez que seus pés golpeavam a terra dura, ela

sentia o medo se dissipando, mas os problemas continuavam com ela. Eles

persistiam, mas o esforço físico exigido pela corrida lhe causava bem-estar.

Até ela bater de frente com alguma coisa ou... alguém.

Derek.

Com o impacto, seu corpo bem torneado expeliu com força o ar dos

pulmões e se chocou contra o chão com um baque surdo. Perdendo o

equilíbrio, Kylie desabou sobre ele. O aroma fresco e envolvente do corpo de

Derek invadiu suas narinas ao mesmo tempo que seus braços a envolveram

de modo protetor.

— Você sentiu o lobo? — ela murmurou, ainda sem fôlego, ao se

lembrar da capacidade dele de se comunicar com os animais.

— Que lobo? — Ele olhou ao redor. — Você está bem? — Com uma

das pernas ainda enroscada nas dela, ele rolou o corpo até deitá-la na grama,

e envolveu-a com o braço, encaixando a mão na curva da cintura. Calor e

conforto emanavam do seu toque. Com a outra mão, ele tirou o cabelo do

rosto de Kylie. Seu olhar, cheio de preocupação, encontrou o dela e ela lutou

contra o nó de emoção que se formou em sua garganta.

— Kylie, fale comigo! — Seu tom de voz deixava transparecer o mesmo

carinho que ela via em seus olhos, e aquela sensação de calor que ela sempre

sentia quando ele a tocava se espalhou pelo seu peito.

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— Me diga, está tudo bem?

Ela piscou e quis dizer que sim, mas a verdade transbordou dos seus

olhos.

— Não, não está tudo bem.

— O que aconteceu? — o braço dele estreitou mais sua cintura.

Todos os problemas pareciam estar caindo sobre ela como uma chuva

e um deles atingiu como um raio seu coração.

— Eu bebi sangue.

— Todo mundo bebeu. Fazia parte da cerimônia — ele disse, e ela teve

a impressão de que ele estava se esforçando para dizer a coisa certa.

—Mas eu gostei.

— Eu sei — ele admitiu. — As suas emoções se projetaram para todos

os lados quando você o bebeu, paixão, euforia, prazer.

Ela levantou um pouco a cabeça do chão.

—O que isso significa? Fale sério, o que significa?

— Talvez você só tenha gostado do sabor — ele respondeu num tom

de cautela.

— Ou talvez eu seja uma vampira? — ela rebateu e depois encostou

novamente a cabeça no chão, fechando os olhos.

Ele não disse nada por um minuto, depois falou:

— Você viu um lobo? Disse alguma coisa sobre um lobo?

— Vi. Ele estava agindo de maneira estranha, quase amigável.

— Não está mais aqui — afirmou Derek, como se o seu dom lhe

permitisse sentir os bosques ao redor e perceber a presença de animais. — É

provável que fosse só um cão sem dono.

— Parecia um lobo.

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—Então devia ser um híbrido.

— Talvez — ela admitiu, percebendo que podia estar exagerando.

Nenhum dos dois falou por alguns minutos. Cerrando os olhos, ela

saboreou a sensação do corpo de Derek tão próximo ao dela, e aos poucos

relaxou. Quando abriu os olhos, as estrelas cintilavam no céu com um

esplendor de contos de fada. A grama alta ao redor deles parecia dançar com

o vento. Derek estava fazendo aquilo de novo, fazendo o mundo parecer

utópico, perfeito demais. Até o ar ficou perfumado com o aroma inebriante

das folhas, misturado com o perfume suave das flores silvestres. Ela fechou

os olhos novamente, com receio de se entregar completamente ao mundo

que ele criara.

— Você acha que é uma vampira? — ele perguntou.

A pergunta a trouxe de volta à realidade. Ela olhou para ele.

— Não sei. Estou confusa demais.

Ele deslizou a mão pelo rosto dela.

— Será que importa mesmo o que você é, Kylie? Pode ter certeza de

que para mim não importa.

— Claro que importa! — Ela se levantou, apoiando-se num cotovelo.

— Você não entende porque sabe o que você é. Sempre soube. Tudo o

que eu sabia sobre mim mesma, sobre quem sou, sobre quem é meu pai, foi

por água abaixo. Tudo o que me resta é um monte de perguntas. Nada é

como eu pensava. — Os olhos dela se encheram de lágrimas. — E...

A boca de Derek cobriu a dela. Seus olhos se fecharam. A doçura do

beijo fez todo o caos emocional se dissipar na sua mente. Ela se entregou ao

prazer do momento. Deixou-se envolver pela sensação de apenas sentir e não

pensar. E, ai nossa.... como aquilo era bom...

Quando ele afastou os lábios, ela ainda não estava preparada para

deixá-lo se afastar. Abriu os olhos. Mas, não mais sob a influência das doces

sensações do beijo, não tinha mais certeza do que sentia por ser silenciada

por ele. Ela se sentou.

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— Por que fez isso?

—O quê?

— Me beijou quando eu estava tentando falar.

Um sorriso se formou nos olhos dele.

— Não gosta que eu use o meu dom para acalmar você, então pensei

em usar o meu charme.

— Se foi só o seu charme e não o seu dom, como faz tudo ficar

parecendo um mundo de fantasia?

Ele balançou a cabeça e uma mecha do seu cabelo castanho claro caiu

sobre a testa.

— Eu já disse, não estou fazendo nada.

Ela inclinou a cabeça para o lado e lhe lançou um olhar acusador.

— Se estou, não é de propósito. Juro. Ficar com você me deixa feliz e

talvez a felicidade aumente o meu charme.

O sorriso dele era contagiante e nenhuma emoção semelhante à raiva à

desconfiança encontrou espaço no peito de Kylie.

Ela deu um soco de leve no ombro dele.

— Você se acha muito charmoso, não é mesmo?

O sorriso dele ficou ainda mais largo.

— Eu acho que você gosta dos meus beijos.

O olhar de Derek desceu até a boca de Kylie, onde ela ainda podia

sentir a umidade do beijo.

— Verdade? — ela gracejou. — Confia tanto assim no seu taco?

— Só tenho certeza de que você não está mais chateada. E é isso o que

importa, não é? — Ele deslizou o dedo pelos lábios dela. — Porque eu

realmente detesto ver você chateada.

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Ela sentiu um aperto no peito e se perguntou se aquilo era uma

confissão de que ele de fato estava manipulando as emoções dela. Mas era

tão errado assim querer fazer alguém ficar feliz, dissipar seus medos? Ah,

droga, o que ela estava esperando? O que a impedia de se render a tudo o

que Derek queria? Concordar em namorar com ele. Sim... mais beijos e

aonde quer que os beijos a levassem. Ela se aconchegou a ele, querendo

sentir o gosto do seu beijo outra vez.

— Viu? — brincou ele, arqueando as sobrancelhas. — Admita. — Ele

se aproximou um pouco mais. Os lábios tão perto que ela quase podia senti-

los movendo enquanto ele falava.

— Admitir o quê? — ela perguntou, imprimindo um tom de

provocação na voz, esperando deixá-lo tão louco quanto ele a deixava.

— Admita que gosta dos meus beijos. E depois diga que vai namorar

comigo.

Ela lhe lançou um olhar malicioso e sorriu.

—Vou admitir que gosto dos seus beijos, mas e você? Gosta dos meus?

—Mais do que qualquer outra coisa. Ele diminuiu um pouquinho mais

a distância entre eles. — Namora comigo?... — E beijou-a novamente. Com

suavidade no início e depois mais profundamente. Ela sentiu sua língua

deslizar pelo interior da sua boca. Sentiu seu corpo pressionando-a

suavemente contra a grama. A mão dele acariciando-a sob a camiseta,

tocando a pele nua da sua cintura. Ele já tinha tocado seu corpo daquele

jeito, mas ela sabia que ele não seria mais ousado; não aumentaria a

intimidade entre eles antes de sentir que era isso o que ela queria.

E simplesmente saber disso fazia com que ela quisesse. Saber que a

escolha era dela e que ele respeitaria o que ela escolhesse significava muito.

Mas seria o suficiente para que ela desse aquele passo?

Ela estendeu o braço para pegar a mão dele, querendo fazê-la subir um

pouco mais, dando permissão a ele...

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— Vocês dois precisam voltar ao acampamento. — A voz grave invadiu

o devaneio sensual de Kylie.

Os dois se afastaram com um sobressalto. Burnett, o líder temporário

do acampamento e membro da Unidade de Pesquisa de Fallen, uma unidade

sobrenatural do FBI, estava de pé diante deles. O rosto de Kylie enrubesceu

de constrangimento por ter sido pega abraçada e aos beijos com Derek na

grama.

Derek não parecia incomodado. Ele ficou de pé e olhou ao redor.

— O que foi?

Kylie também se levantou. Só então reparou no tom sombrio de

Burnett e notou que seus olhos estavam em brasa. Um sinal de que o

vampiro estava na defensiva. Sem dúvida havia um perigo iminente.

—O que aconteceu? — Derek perguntou novamente.

— Alguém esteve aqui antes — Burnett respondeu.

— Quem? — Kylie conseguiu perguntar.