Desvarios... do Amor Negro por Ni Caldeira - Versão HTML

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Desvarios… do Amor Negro Ni Caldeira

Desvarios… do Amor Negro

(Sem Título)

Teu olhar distante, vazio, em permanente afogar de lágrimas, em loucura de desvario…

esse olhar calado, de estrelas da noite e luar… triste e sereno, que acalma o mais revolto dos mares… esse olhar que é só teu, leva-me ao tudo que anseio e fascino… terno e seguro… no teu olhar descanso e mergulho… mas não sossego.

2

Desvarios… do Amor Negro

Amor para Além da Morte Acorda-me, por favor,

Quando eu estiver já morta e gelada, Com o olhar ausente

E o corpo abandonado.

Não grites nem chores,

Beija-me somente...

O calor da tua boca

E o cheiro do teu corpo...

Trazer-me-ão de volta à Vida.

3

Desvarios… do Amor Negro

Tem dias…

Tem dias

Arrebento,

Em que pertenço

Em que enlouqueço

Me pertenço

E não existo,

Em que quero

No presente.

Sou e estou,

E não me ausento

Tem dias…

Tem dias…

Há dias

Em que te amo,

Em que acerto

E nesses dias,

Sei o incerto

Não sei quem és…

Não me tormento.

Nem sei quem sou.

Tem dias

Em que me dou

Estou contigo

Em que dou a mão

E o abraço,

Em que te quero.

E há os outros…

Os mais dias

Sou estranha,

4

Desvarios… do Amor Negro

A Heroína

Na noite sem luar

Procura sem desistir,

Fechada nas paredes

Nas sanguessugas da vida Rodeada de aranhas

Que esmaga ao arrastar

Centopeias e ratazanas,

O que lhe resta ainda

Fezes a apodrecer, algures sem saída, Do belo corpo que tinha, Onde a loba esconde

A chave dourada perdida

O resto da cria comida,

Que lhe abre o Paraíso.

Ouvindo o uivar do rouxinol.

Esgoto infinito

Estonteante do cheiro

Que brota de seu

Próprio corpo,

Alimentando-se do sangue

Que escorre dos lábios

Vazias já as veias

Outrora famintas de vida.

Fecha os olhos

De órbitas arrancadas,

Procura na lama

Por entre corpos decadentes,

Nos dejectos dos que correm,

Na comida apodrecida…

5

Desvarios… do Amor Negro

Dar-te-ia o mundo… se pudesse

Dei-te a alma

Dei-te o corpo

O beijo encantado do meu jardim.

Dei-te todo o ser,

Por si singelo, complicado.

Dei-te o tempo e o amor

Dei-te a paz do meu abraço.

Dei-te mais

Dei-te tanto…

E tudo o que sou

Soube-te a pouco.

Queria eu poder

Dar a lua… Dar o mar

O voo livre da gaivota

No amanhecer do sol.

Mas só te dei

O que me é meu…

E tudo isso…

O tudo de quem eu sou…

Soube-te a nada.

6

Desvarios… do Amor Negro

Procuro-te

Num deserto morto.

De peito rasgado.

… E acendi um cigarro

Mas já não fujo.

Saí para a rua

Procuro-te.

O silêncio incomodava

Nem um miar de um gato

Nem vestígio de lua…

Negro como breu.

Calado como um mudo…

Desatei a gritar

Que saísse toda esta dor A solidão de ser.

Nenhum som…

O grito rugiu cá dentro, E a dor agonizou

Como uma mão,

Abriu-me o peito…

Um buraco vazio,

Negro, como esta noite…

Calei o grito.

Apaguei o cigarro.

Desatei a fugir… e não parei.

… Caminho neste momento

7

Desvarios… do Amor Negro

Água que cai

Sonhos... Esvaídos numa praia vazia

Atormentada por um mar negro...

Poluído de pesadelos.

Risos... Silenciados por uma rima

Aprisionada na garganta... De um

cadáver nascido.

Amar... Escondido nos tempos

Do silêncio amargo... Cerrado entre os

dentes.

Lágrimas... Caídas por uma cara

Esburacada pela dor... De sonhos, de

risos, de amor idos...

Lágrimas... As lágrimas são minhas...

E não cessa... esta água que cai... De

meus olhos vendados.

8

Desvarios… do Amor Negro

Acordado… tempo perdido Sonhos…

Sempre a teu lado.

Ilusões fingidas

E sonho…

Num adormecer

E estou sempre sozinho.

Acordado

Que nos afastam da vida

E nos mantêm

Atordoados…

Sonhos…

Inúteis pensamentos

De um amor esquecido

De um qualquer

Outro lado…

E sonho…

Por ser tempo perdido

No amanhecer da noite

Em que estou acordado.

Sonhos…

De toda a minha vida,

9

Desvarios… do Amor Negro

Fantasmas…

Fantasma da Vida,

Fantasma da Morte,

Sou eu…

Sou eu…

Sonho que se foi, morreu…

De uma vida que se foi… esqueceu.

Desaparecido nas memórias

Esquecido no mar,

Nas ondas da História!

Sou fumo…

Fumo levado pelo vento,

Num dia de temporal…

O fogo apagado pela chuva,

Deixou-me frio,

Mesmo ao sol…

E que vida é esta

Que já não rima!

Que verso este que não esqueço!

Pelos escombros a vaguear…

Desejando um tempo

Perdido…

10

Desvarios… do Amor Negro

A Heroína

(Parte II)

Tomada pelo cansaço

Lá estava…

Do despertar contínuo

A esperança procurada.

Da fome que a rói

Pegou nela

Do cheiro à morte

Guardou-a no buraco

Continuou o caminho

No centro do coração.

Naquilo que era um esgoto E rastejava…

De pé, andava curvada

Entre dejectos dos mortos Pela coluna mordida

Entra a dor que fecava

Com a medula estendida

Em cada lágrima que brotava Sangrando constantemente…

Dos olhos inexistentes.

Pelo que rastejava

Puxando o corpo para norte Onde a porta se abriria

Versos Soltos

Para um mundo novo

Onde a noite não caía.

Por fim…

Tenho o que quis

Tinha a chave com ela.

Sempre…

Mordeu um morcego,

O ar que Respiro,

Comeu-lhe as asas,

Os sonhos que alimento…

Abriu-o com suas garras

E sou feliz…

E entre as tripas

Por não ter nada.

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Desvarios… do Amor Negro

Antagonismos

Não quero querendo

Aquilo que peço inconscientemente

A um Deus distante que não ouve

Mas que sente apaixonadamente.

E não peço nada nem pouco

Apenas o que mereço

Um qualquer isolado,

E um apaixonado, terno abraço.

Mas mereço sem merecer

Porque nunca salvei uma vida

Nunca amei um outro ser

Fui vivendo sempre sem rima.

Não quero, querendo

E não peço nada nem pouco.

Mas mereço sem merecer…

O teu amor…

Viver!

12

Desvarios… do Amor Negro

… E deparei com a morte

Falei à Lua

Que tudo vê

Não me soube dizer.

Perguntei ao Sol,

Senhor da Vida,

Não quis responder…

Virei à direita

Andei para norte

Talvez para sul

Sem fado nem sorte

Vi tudo sem nada ver.

Sofri, padeci…

Acho que não cheguei a viver…

Caminhei… caminhei…

Até que mais nada senti…

E deparei com a morte.

13

Desvarios… do Amor Negro

Figura no Espelho

Vivo

Até um dia

Pareço estar

Não serem mais.

Respiro

Nem eu.

Como um ser

Qualquer.

Sangro

Saudades de ser contigo Para acordar.

E choro…

Vi o Mar

Sem porquês.

Nem Olhei

Olho

Ou escutei

Todo o mundo

No Silêncio

Falo

Em Mim

Sem ninguém

Me Encontrava

Ouvir.

Num Fim

Vejo-me

Qualquer…

No espelho.

Chorava…

Eu

No Desespero

Não sou mais.

De ser

Velho…

[Conseguir ser]

Sou

Sem Ti.

O que ninguém

Deseja ser.

14

Desvarios… do Amor Negro

Muralhas

Horas idas

Horas vindas

Horas vindas

Horas idas…

Tantas… tantas…

Quantas…

Horas perdidas…

Pelas Muralhas…

Sem salvação…

Do coração.

Sem retorno…

Segundos,

Momentos,

Dias. Anos.

Esquecidos

Longe…

Tão longe…

Do perdão…

Tudo…

Tanto…

Não vivido…

E sorrio

Perante a tolice

De tudo…

Do quanto

Que foi perdido…

Pelas Muralhas…

15

Desvarios… do Amor Negro

Grito...Eu e o Mar

Escuto o mar

Deixo que ele me toque...

No silêncio da noite

E desapareço...

Não há nada

No mar

Nem ninguém

Apenas o Eu que chora

E o olhar que não consigo ver.

Procuro, já cansada,

O que se esconde...

Mas não consigo e desisto, Há uma muralha entre nós E já não insisto... mais.

Oiço o mar

E sem entender, compreendo.

Chora e grita,

Tristemente, chama alguém, Que não sou eu,

Infelizmente...

Grito com ele,

Choramos os dois,

16

Desvarios… do Amor Negro

Dissertação sobre a Vida A Vida é todo o mar de contradições Não me julgues...

Onde me afogo livremente, Não me chames louco...

Sem dor nem arrependimento.

Se a loucura é viver...

E cujos cheiros respiro intensamente, Cerrem-me na mais alta masmorra Sem medo de me asfixiar.

E joguem a chave no profundo do mar.

Nela desejo cair...

Calem-me a boca

Ainda que o abismo seja longo.

Prendam-me a imaginação.

O que vale é não desistir.

Para que mais ninguém saiba...

Sem espinhos não é bela, Por ela estou apaixonado...

Sem cores, pura monotonia, E sem ela... sem a Vida...morro.

Há que a devorar até ao tutano...

Na Vida vivo e Sou...

E se ela é pecado

Deixem-me por ela ser tentado E morrer na fogueira queimado.

É um vício que não quero perder...

É a minha paixão... a minha amante...

A minha bússola quando me sinto errante.

17

Desvarios… do Amor Negro

Querer Meu

Seu olhar profundo

No silêncio da noite,

Arrebata-me o ser

Num sonhar acordada,

Rasga-me a roupa,

Num deserto sem fim.

Deixa-me nua,

Faz-me entregar ao prazer.

Suas mãos

Percorrem-me o corpo,

Acariciam-me a pele,

Chegam a lugares escondidos Acordam o que era já morto.

Seus lábios desenhados,

Seus beijos molhados,

Saciam-me a sede

Acordam-me para a vida

Desnuda, entrego-me a esse viver.

Sou sua menina amante

Sem ele saber.

Com ele, sinto-me mulher.

Mas não posso forçar um querer Que existe apenas em mim, 18

Desvarios… do Amor Negro

A Heroína

(Parte III)

Dos vivos…

E no esgoto

No cheiro dos mortos…

Da vida

Rasteja…

Ela dá caminho

Até ao sonhado…

À sua prece…

Sacode o corpo…

Carregando

Afasta os répteis…

Ratazanas

Arranca a chave

E sanguessugas…

Do coração…

Que a agarram

Demora tempo…

Chupando-lhe a vida

Já com saudades…

Que resta…

Do único mundo

E tão linda

Que conhece…

Era a Heroína…

Os ratos uivam…

Uma sobra…

Morcegos mordem…

Da mulher que era…

A Loba… chora…

O olhar

Ela geme…

Pendurado…

Tremendo um ganir…

As mãos…

Que são garras…

E a porta abre…

A pele…

Para a vida…

Agora, de crocodilo.

E o sol quente…

E por entre fezes

19

Desvarios… do Amor Negro

O cheiro limpo…

O rir da criança…

O sonhar

Das flores…

Ela não vê

Porque não pode…

Nem sente…

Só a dor…

Da luz

Que penetra…

Que a queima…

O luar vem…

E desfaz o resto…

A pele pendurada…

Os olhos desorbitantes…

Até as garras…

A Loba chora…

Os ratos uivam…

Morcegos miam…

Pela morte da mãe…

Sua Heroína…

20

Desvarios… do Amor Negro

Liberdade (a Virgínia Wolf) Arrastada pela corrente

{Serás livre…

Do rio onde me afogo

Sem esta loucura

Recordo cada instante

Insana

Cada gesto e amor,

Que não sorri

Perdidos na palavra

E que perdura

Na escrita de uma louca

Matando o teu amor…}

Pela doença que consome…

Não há mais volta…

O ar já me falta

Sinto a água

A rocha presa no peito

Que me lava

Afunda-me na liberdade

Libertando o ser

Deixo-me ir…

Largando a loucura

Sem arrependimento

A doença…

Pela morte da dor

Até ao mar…

E da vida decadente…

Liberta…

Não há mais volta…

Morri…

E não há mais volta…

Tampouco, há mais dor…

21

Desvarios… do Amor Negro

Estranhos…

Mente estranha

Estranhos ao mundo

Doentia…

Corpo e mente

Sombria…

Derradeira loucura

Cheira a morto,

Perto da morte…

Nauseabunda,

Não me liberto do escuro Fermentada

Que me sufoca…

Pelo fel…

Enterrados

Esventrada da vida,

Corpo e mente…

Insana.

Estou morto!

Mente… Não és minha!

Estou morto!

Corpo louco

Desprendido

Não se olha

Nem sente

Esburacado…

Vísceras expostas,

Sujo…

Mordido…

Cheira a morto.

Corpo… Não me pertences!

22

Desvarios… do Amor Negro

Contas da Vida

Peguei nos mares

Um homem só…

Nos grãos de areia

Aqui sem ti…

Nos sorrisos dos amantes Não há mares

E somei…

Ou estrelas

Somei às luas do universo Nem lua e sorrisos

A cada estrela que flameja Sequer lágrima…

Aos sóis que iluminam

Sequer rios…

Os planetas desconhecidos.

Não há vida…

Ao todo juntei os pobres Um vazio no nada…

E cada lágrima dos rios, O resultado – zeros…

Somei à fome

Um buraco negro…

E abundância…

O nada…

Ao desperdício dos ricos.

… E multipliquei pelo infinito…

… E multipliquei pelo infinito…

23

Desvarios… do Amor Negro

Tempo

O Tempo corre…

Numa correria

Intemporal…

Numa pressa frenética

Que limita o tempo

De todos…

O Tempo passa…

Deixa-nos cegos

Sem tempo

Para nada…

Uns têm todo o tempo

Do Mundo

Muitos… todo o Mundo

Não têm tempo algum…

O tempo corre…

E eu…

Parado no tempo…

Deixo que tudo aconteça

Sem agarrar

Coisa alguma…

Nem o próprio Tempo

Que me abraça.

24

Desvarios… do Amor Negro

Castelos Levados

Junto ao mar

Sentada…

Na praia

Sem Vivalma…

Com Silêncio

Cortante…

Sem brisa…

Ao sabor

Da Alma.

Na areia

Construo

Castelos

Que o Mar

Leva…

Nada canta…

A mente geme…

Um nocturno

Que ninguém

Ouve.

Junto ao Mar… Sentada…

Abro as Mãos e abandono…

Deixo que o Tudo leve o meu Nada.

25

Desvarios… do Amor Negro

Sonhos Caducados

Os sonhos estão vencidos…

Nada tem sabor…

Só a Lua

Minha amante…

E o mar

Meu pensador…

Mas os sonhos…

Estão vencidos…

Fora de prazo…

Caducados

Como uma licença

Já sem uso…

Como eu…

Como os sonhos…

26

Desvarios… do Amor Negro

Morto Vivo

Não sou mais quem sou… Sou eu na figura que olho ao espelho, mas não sou mais eu…

As mãos são minhas e… não!... não posso ser eu este que sou. Esvaziei de mim próprio.

E restou um pasmado oco. Tem dias que nem nome tenho… os dias em que o tenho, raros esses, choro por aqueles em que nem sei que já não sou mais quem sou…

Demência que me deixa vazio na mente… alterado… insocial… apático. Um louco para quem amo… ou amava. Quem são eles afinal?!… Estou já morto porque não sou mais quem sou… e resta o enterro deste corpo que ainda faz de mim… Não! Este não sou eu…

27

Desvarios… do Amor Negro

Vagueio Mental

Vagueio sozinha na escada do tempo que se definha em meu corpo ao relento…

Alheada ao mundo que tanto arrancou de mim, durmo ao frio, à chuva, ao deus dará, num qualquer banco de jardim… Invento mão dadas com os perdidos de amor… águas idas, passadas… tanta mágoa e dissabor. Vagueio no infinito, eternamente, já cansada…

Vagueio sem destino… até à morte… até a ti… esse rosto desconhecido… Vagueio aqui… na estrada da mente… encruzilhada, presa no labirinto… Vou vagueando… em teu encontro.

28

Desvarios… do Amor Negro

Borbulhar…

Borbulhar da vida no sangue fervente da morte morrida do esqueleto fedorento que nasce no momento em que grita de desespero ao abrir o olhar para um mundo cego silenciado pelas amarras dos portos dos que abusam para fingir que são mais vivos que os mortos que habitam a terra queimada pelo sol negro que dá luz da chama da vida do Deus da poltrona que dita, desdita, brincando com o ser confuso e cansado de tudo o que não entende que é o que abraça o mar salgado denegrido pela ambição desmedida dos gritos das almas perdidas que rezam pela ressurreição para um outro lado imaginário, inexistente e esquecido… O borbulhar da vida da lava a sair do vulcão que renasce como a Fénix para voltar a sonhar o sonho da vida dos mortos apedrejados pela vida… É este o esqueleto fedorento… que grita ao nascer… quando esquece o paraíso perdido e no inferno volta a ser.

29

Desvarios… do Amor Negro

Olhar Abandonado

Sombra no Escuro, sem reflexo de luz… apenas na mente decadente do cadáver que não sou e habito… forçado pelo Tempo, pelo mito do qual o ser é defensor e representante.

Sombra no Escuro do Universo de um Deus triste e Velho… Sombra dos Sonhos passados, criados por uma criança esquecida e um adulto que não sonha mais. Sombra na Noite sem Lua… numa rua sem nome… numa terra sem lugar… num oceano que chove… num sentimento longe.

Sombra no Escuro… no túnel infinito da Morte, no labirinto da perda…

Sombra… o meu Olhar.

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Desvarios… do Amor Negro

Cobardias

No fim da vida, da corrida incessante, do frenesim diário, deste inferno solitário… fui cobarde… Não guardo nada, nem levo comigo… Afogo-me na dor como castigo…

arranco a pele à facada… O sangue que vejo mantém-me vivo…

Sigo-te de longe, entre a multidão apressada… E tu também… sempre ocupada, fingindo não estares triste… Não me vês… Foges para longe…

Sofrimento que te causei… pelas palavras insanas, mordem-me neste momento, chupam-me o sangue, comem as tripas… Peito aberto, roído… Pela felicidade roubada… Fui cobarde! Nunca te disse a verdade, das estrelas e sóis que te iluminam…

do tempo que não perdi, em cada instante, em cada segundo… junto a ti…

… Foram insultos do vazio, saídos do cancro que me esgana… Do verme em que transformei esta mente já devorada… pelos passados des-construídos… pelo futuro morrido… E ainda cobarde… Sem coragem… para dizer somente «serás sempre a minha amada»…

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Desvarios… do Amor Negro

Desvarios

Encontro-me num navio… velho, com o casco a desfazer-se a pouco e pouco…

observo, nas horas mais paradas, pedaços dessa casa que habito a cair com toda a força no mar… esse mar revolto que se encontra em redor… As nuvens são uma constante, baixas e negras, vêm acompanhadas de fortes relâmpagos, cujo trovão me faz encolher e refugiar no porão… Navego sozinha… e perdida entre as marés, sem rumo algum… não sei onde estou… já não tenho bússola ou mapa que me guiem… e as estrelas e a lua…

que saudades tenho delas… sempre escondidas, quer pelo nevoeiro quer pelas nuvens…

ou quando não há nem nuvens nem nevoeiro, elas simplesmente… não estão mais lá…

Mas mesmo assim vou navegando, guiando um leme partido para o qual já se me esgotam as forças… Navego mesmo quando não quero… o barco puxa-me, avança mesmo quando eu lanço a âncora… Há muito que deixei de o entender… precisamos um do outro, eu e o meu barco sem velas, sem mastro e sem leme… somos quase um, excepto que eu sou de carne e ele de madeira… contudo, ambos sangramos… e gememos… e quando eu grito no silêncio do alto mar, o meu barco parece acompanhar-me com uma qualquer melodia… Não há mais ninguém aqui… até as ratazanas nos abandonaram… Mas na verdade… continuamos presos no porto… nunca chegamos a partir… olho o mar… imagino-me no mar alto… eu e o meu barco… presos! Quais animais dentro de jaulas a sentir saudades da vastidão africana! Presos! Com umas correntes de meio metro de diâmetro… não posso afirmar… não posso olhar para trás…

não mais, não… nunca mais… não vale a pena manter os pesos mortos, vivos…

Tampouco posso sonhar… Olho o mar lá à frente mas… só olho… imagino como será para lá do horizonte, mas não, jamais me imaginarei lá… Eu também estou presa… Só não sei a quê.

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