Diálogos das Grandezas do Brasil por Izaak Walton - Versão HTML

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Diálogos das Grandezas do Brasil, de Ambrósio Fernandes Brandão

Fonte:

ABREU, Capistrano de. Diálogos das grandezas do Brasil. Salvador : Progresso, 1956.

Texto proveniente de:

A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro <http://www.bibvirt.futuro.usp.br> A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo

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DIÁLOGOS DAS GRANDEZAS DO BRASIL

Ambrósio Fernandes Brandão

INTRODUÇÃO

Os esforços até agora tentados para levantar o anonimato dos Diálogos das Grandezas do Brasil têm sido perdidos. Para que aventar novas hipóteses? Antes tomar do livro e penetrar em sua intimidade, se podermos.

Os diálogos são em número de seis. O autor nunca passou do cabo de Santo Agostinho para o Sul; devem, pois, ter sido escritos em uma das capitanias ao Norte do cabo. Destas apenas duas diz êle explicitamente ter visitado, e pelas abundantes informações mostra conhecer diretamente: Pernambuco e Paraíba, - Tamaracá ficava a meio caminho e devia ser-lhe familiar.

Há probabilidades a favor da Paraíba ser o lugar em que os Diálogos foram compostos.

Entre estas podem enumerar-se primeiramente as numerosas referências a ela feitas, o modo desenvolvido por que é tratada: pouco mais de três páginas tratam de Pernambuco; menos de quatro tratam da Bahia, ao passo que quase cinco cabem à Paraíba. À Paraíba atribui-se o terceiro lugar entre suas irmãs e aproveita-se qualquer pretexto para salientá-la: o administrador eclesiástico, prelado quase igual aos bispos nos poderes, é da Paraíba, esta, por conseguinte, a cabeça espiritual das capitanias do Norte, a começar de Pernambuco; na organização judiciária proposta para substituir a Relação da Bahia, um corregedor com amplos poderes deve residir na Paraíba, por ser cidade real, e a êle serem subordinadas tôdas as justiças desde Pernambuco até Maranhão e Pará. Essa preferência pela Paraíba não indica que à Paraíba o autor estava prêso por laços muito particulares? Uma frase escrita incidentemente legitima a resposta pela afirmativa. “Vos hei de contar, diz um dos interlocutores, uma graça ou história que sucedeu há poucos dias nêste Estado sôbre o achar o ambar.

Certo homem ia a pescar para a parte da Capitania do Rio Grande em uma enseada que aí faz a costa...” A menos que não se provasse que o autor escrevia no Ceará, o que está fora da questão, para a parte da Capitania do Rio Grande, só se podia escrever na outra Capitania contígua, isto é, na Paraíba.

Se a Capitania em que os Diálogos foram escritos tão vagamente se designa que apenas probabilidades se podem apurar a favor de uma, não é mais precisa a indicação do lugar em que a cêna passa. O primeiro diálogo põe certa tarde, ex-abrupto, dois indivíduos já conhecidos entre si em nossa presença: Alviano e Brandonio. Em frente à casa do último trava-se a conversa. Estiveram sentados? discorriam peripatéticamente? Nada se pode concluir. A conversa prolonga-se; sendo tarde, marcou-se o outro dia e lugar em que a prática terminou para a contígua. O mesmo se fêz das outras vêzes. Entre o terceiro e o quarto dia falhou Brandonio: a conversação reproduzida nos Diálogos das Grandezas do Brasil durou, portanto, sete dias, com um de descanso.

Quem eram Alviano e Brandonio? Por que foram escolhidos êstes nomes? Conterão algum anagrama? Nem uma resposta se pôde formular. Parecem antes personagens simbólicos: um representa o reinól vindo de pouco, impressionado apenas pela falta de comodidades da terra; o segundo é a povoador, que desde 1583, veio para o Brasil, e, com as interrupções de várias viagens além-mar, ainda aqui estava em 1618, data da composição do livro. Tão abstratos são os personagens, que às vêzes saem dos lábios de um palavras que melhor condiriam nos do outro.

A conversação irrompe sem preparo à vista de uma lanugem de monguba, passa aos motivos por que a terra é descurada, e após vários incidentes termina com a descrição sumária das diversas capitanias, desde o rio Amazonas até São Vicente; tal o objeto do primeiro diálogo. O segundo começa por uma discussão mais erudita que interessante sôbre a zona tórrida e sua inabitabilidade afirmada pelos antigos filósofos, desmentida pela experiência; explica por que apesar de negros e americanos morarem nas mesmas latitudes aqueles têm a pele negra e o cabelo carapinhado, ao contrário dêstes, cuja epiderme é baça e cuja cabeleira é lisa; explora a origem dos americanos, exalta as excelências do clima, enumera as poucas moléstias vigentes do Brasil. O

terceiro estuda as quatro fontes de riquezas do Brasil: lavoura de açúcar, mercância em geral, o trato do páu-brasil em particular, os algodões e madeiras. O quarto expõe a riqueza que se pode angariar com o comércio de mantimentos, fala do mel, do vinho, do azeite, da tinta contida nas árvores indígenas e descreve ligeiros quadros da vida vegetal. O quinto enumera os animais, subordinados aos três elementos em que vivem: ar, água e terra; do elemento mais alevantado, do fôgo não trata, diz Brandonio, “porque de todo o tenho por estéril, que a salamandra que se diz criar nêle entendo ser fabulosa, porque quando as houvera, nas fornalhas dos engenhos de fazer açúcares do Brasil, que sempre ardem em fôgo vivo, se deverão de achar”. O último diálogo refere no principio os costumes dos Portuguêses, porém a maior parte é consagrada à descrição dos índios, com que termina a obra.

Antes de ir para o Velho Mundo, de onde só voltou passados quase três séculos, teria o livro do senhor de engenho paraibano sido aproveitado dêste lado do Atlântico? Em outros termos: teria servido de fonte a alguns dos escritores que trataram dos mesmos assuntos? Frei Vicente do Salvador em sua História, terminada a 20 de Dezembro de 1627, umas vêzes parece refutá-lo, outra reproduzi-lo com mais ou menos liberdade; como, porém, ao livro do escritor franciscano faltam muitos capítulos, exatamente os que tratam de entradas ao sertão da Paraíba e Pernambuco, de que nosso autor fêz parte, a questão por ora não pode ser decidida.

***

No entender de Varnhagen, o autor dos Diálogos era brasileiro, e funda sua convicção em achar neste escrito mais de uma vez nosso Brasil. De fato assim é, e também se encontra nossa Espanha, nosso Portugal, o que deixa bem patente a pouca fôrça dêste argumento sutil, O autor era português; a leitura cuidadosa o atesta a cada passo e o próprio Brandonio o confirma explicitamente, Interrogado por que não secundou as experiências de plantação de trigo, responde: “Porque se me comunica também o mal da negligência dos naturais da terra”. Se fosse natural da terra, a resposta seria dada nestes termos?

Era português e do Sul de Portugal, ou pelo menos lá passara muito tempo, Só assim se explica a importância que atribui a “alguma restinga de terra que então (no tempo das navegações cartaginesas) continuava com uma ilhota situada na costa do Algarve, a que chamamos de Pecegueiro, na qual paragem por costumarem a continuar os atuns que por ali passam a desovar dentro no estreito, se tomam muitos hoje em dia”. Teria reparado em coisas tão somenos um simples viajante?

Era homem de instrução: conhecia o latim, a língua literária e científica da época e lêra os livros representativos da ciência coéva: Aristóteles, Dioscorides, Vatablo, Juntino; sabia a história, a geografia, a produção de Portugal e de suas colônias, e dispunha de inteligência extremamente clara, cuja fôrça se manifesta na precisão com que trata dos objetos, como por exemplo a pólvora, o açúcar, a farinha de mandioca, o papel; no modo por que subordina os fatos mais diversos a categorias simples, como quando reduz os moradores do Brasil a cinco condições de gente, dos modos de adquirir fortuna a seis; distribui a vida animal pelos elementos, desfia a inutilidade do comércio da Índia e dispõe as árvores silvestres em hortas e jardins (fim do Diálogo quarto).

Não era um espírito simplesmente contemplativo, ocupava-o o lado prático, a aplicação possível. A larga navegabilidade do Amazonas suscita a idéia de aproveitá-la para as comunicações com o Perú; a existência de aves rapineiras lembra a caça de altenaria; mesmo a secreção mefítica fia jaguatataca antolha-se aproveitável na ordem militar; fazia ou mandava fazer experiências por conta própria, preparou anil para mostrar que a terra podia dar do melhor, fêz examinar em Portugal uma espécie de madeira, que lhe pareceu própria ao preparo da tinta de escrever.

Como seus contemporâneos, tinha uma veia de credulidade, fala em palavras fortes de encantamento; avisa que os pajés dos índios não são legítimos feiticeiros; sôbre certos animais e mariscos, adianta afirmações bem singulares; mas era um espírito aberto aos fatos novos; nas últimas páginas ainda apresenta um fato a favor da origem vegetal do ambar, geralmente contestada naquele tempo: a credulidade para êle era o princípio da critica e da sabedoria.

Era, finalmente, um escritor colorido, enérgico, veemente, capaz de atingir à eloquência; a frase sai às vêzes retorcida para acompanhar o vibrante da sensação; a fôrça vegetativa do novo mundo sobretudo agitava-o vivamente. Um breve trecho do terceiro diálogo mostrará como êle sabia externar suas emoções:

“Certamente, diz Brandonio, que estimara muito não me meter em semelhante trabalho (tratar das madeiras) pelo muito que há que dizer desta matéria. Porque por tôda parte que ponho os olhos, vejo frondosas árvores, entrabastecidas matas e intrincadas selvas, amenos campos, composto tudo de uma doce e suave primavera; porquanto em todo o decurso do ano gozam as árvores de uma fresca verdura, e tão verdes se mostram no verão como no inverno, sem nunca se despirem de todo de suas folhas, como costumam de fazer em nossa Espanha; antes, tanto que lhe cái uma, lhe nasce imediatamente outra, campeando a vista com formosas paisagens, de modo que as alamedas de alemos e outras semelhantes plantas que em Madrid, Valhadolid e em outras vilas e lugares de Castela se plantam e grangeam com tanta indústria e curiosidade para formosura e recreação dos povos, lhe ficam muito atrás - quase sem comparação uma coisa de outra. Porque aqui as matas e bosques são naturais e não industriosos, acompanhados de tão crescidos arvoredos, que além de suas topadas, frescas folhas defendem aos raios do sol poder visitar o terreno de que gozam, não é bastante uma flecha despedida de um teso arco por galhardo braço a poder sobrepujar a sua alteza. E destas semelhantes plantas há tantas e diversas castas que se embaraçam os olhos na contemplação delas e sòmente se satisfazem com dar graças a Deus de as haver criado daquela sorte. Donde certamente cuido que, se neste Brasil houvera bons arbolários, se poderiam fazer de qualidade a natureza das plantas e árvores muitos volumes de livros maiores que os de Dioscorides, porque gozam e encerram em si grandissimas virtudes e excelências ocultas e enxergase o seu mérito em algumas poucas delas, de que nos aproveitamos”.

***

Procuremos agora enfeixar os dados dispersos através das Diálogos das Grandezas.

Em 1618 os estabelecimentos fundados por Portuguêses começavam no Pará sob o Equador, terminavam adiante de S. Vicente, além do trópico.

Entre uma e outra capitania havia grandes espaços devolutos de dezenas de léguas. Para as bandas do sertão na racha da floresta, apontava quase o mar a natureza intemerata. A população total cabia folgadamente em cinco algarismo.

Assegura Brandonio que as três capitanias da Norte poderiam pôr em campo mais de 10.000 homens armados, isto é, deviam contar pelo menos 40.000 almas. Palpável exagêro: em tôdas as capitanias juntas mal passaria desta soma a gente de procedência portuguêsa.

A camada intima da população era formada por escravos, filhos da terra e africanos. Aqueles aparecem em menor número, em consequência da população indígena ser pouco densa; os Jesuítas e depois as outras ordens, riais ou menos, a exemplo dêstes, pregaram pela liberdade dos índios tornando precária sua posse; finalmente, a experiência tem demonstrado a superioridade dos africanos para o trabalho. “Nêste Brasil, diz Brandonio, se há criado um novo Guiné com a grande multidão de escravos vindos de lá que nêle se acham, em tanto que em algumas capitanias há mais dêles que dos naturais da terra, e todos os homens que nêles vivem têm metida quase tôda a sua fortuna em semelhante mercadoria. Todos fazem sua grangearia com escravos de Guiné, que para êsse efeito compram por subido prêço... o de que vivem é somente do que grangeiam com tais escravos...”

Acima dêste rebanho, sem terra e sem liberdade, seguiam-se os Portuguêses de nascimento ou de origem, sem terras, porém livres, vaqueiros, feitores, mestres de açúcar, oficiais mecânicos, vivendo de seus salários ou do feitio de obras encomendadas.

Vinham depois, já donos de terrenos, os criadores de gado vacum. Seu número era exíguo, exigia a importância de sua classe, o território colonizado limitava-se quase à zona da mata, onde o gado não prospera fácilmente e cumpria defender os canaviais e outras plantações de seus ataques. Medidas defensivas tomaram-se mais tarde, ou já começavam a ser tomadas; mas o desenvolvimento dêste ramo, destinado a assumir tão vastas proporções ainda no decurso daquele século, deve-se sobretudo ao afastamento do gado para longe da ourela litorânea, evitando a mata, procurando os campos, mais tarde certas catingas menos ínvias, separando a lavoura do que com alguma lisonja se poderia chamar indústria criadora.

Os lavradores de menor cabedal, ou terras menos ferazes, cultivavam mantimentos: milho, arroz, mandioca.

Dos dois primeiros não faziam grande consumo as capitanias, - São Páulo era exceção quanto ao milho. No preparo da mandióca usavam de grande roda movida a mão para reduzí-la à massa, de prensa para enxuga-la e extrair a tapioca; a farinha cozia-se em alguidares ou tachos, - talvez no Rio de Janeiro, onde muito tempo preponderou esta produção e êste comércio, empregassem logo grandes fornos. Com tachos só se podia cozer pouca farinha de cada vez; por isso é natural que a safra não se colhesse tôda numa estação como agora, porém durasse o ano inteiro. No tempo de Pero Magalhães de Gandavo parece que se fazia farinha diàriamente, à maneira de pão hoje em dias nas cidades mais povoadas. O alqueire, duas vêzes e meia maior que o de Portugal, custava trezentos, duzentos e cinquenta reis, às vêzes menos no principio do século XVII.

É provável que fossem lavradores dêstes os que plantavam algodão, vendido a 2$000 a arrôba, depois de descaroçado no maquinismo rudimentar das máquinas, encontrado ainda agora no interior e descrito pelos viajantes europeus vindos depois da transmigração da família real; os que mandavam páu-brasil e depois de debastado vendiam-no aos contratadores ao prêço de 700 e 800 réis o quintal; os que do sertão traziam madeira e depois de transformada em caixões vendiam-nos aos fabricantes de açúcar à razão de 450 a 500 réis cada um, ou serrada em pranchões exportavam-na para o Reino. Um lavrador de mantimentos que reunisse todos êsses achêgos podia lucrar tanto como um senhor de engenho de primeira ordem.

Engenhos havia movidos por água e por bois; servidos por carros ou barcos; situados à beira-mar ou mais afastados, não muito, porque as dificuldades de comunicações só permitiam arcos de limitados raios; havia-os suficientes para produzir mais de dez mil arrôbas de açúcar e incapazes de dar um têrço desta soma.

Imaginemos um engenho esquemático para termo de comparação: do esquema os engenhos existentes divergiam mais ou menos, como é natural. Devia possuir grandes canaviais, lenha abundante e próxima, escravaria numerosa, boiada capaz, aparêlhos diversos, moendas, cobres, formas, casas de purgar, alambique; devia ter pessoal adestrado, pois a matéria prima passava por diversos processos antes de ser entregue ao consumo; daí certa divisão muito imperfeita de trabalho, sobretudo certa divisão de produção. O produto era diretamente remetido para além-mar; de além-mar vinha o pagamento em dinheiro ou em objetos dados em troca e não eram muitos: fazendas finas, bebidas, farinha de trigo, em suma, antes objetos de luxo. Por luxo podiam comprar os mantimentos aos lavradores menos abastados e isto era usual em Pernambuco, tanto que entre os agravos dos pernambucanos contra os holandêses capitulava-se o de por êstes terem sido obrigados a plantar certo número de cóvas de mandioca.

Tirando isto, o engenho representa uma economia autónoma; para os escravos tecia-se o pano alí mesmo; a roupa da família era feita no meio dela; a alimentação constava de peixe pescado em jangadas ou, por outro modo, de ostras e mariscos apanhados nas praias e nos mangais, de caça pegada no mato, de aves, cabras, porcos para as bandas do Sul, para as do Norte ovelhas principalmente, criadas em casa: daí a facilidade de agasalhar convivas inesperados, e daí a hospitalidade colonial, tão característica ainda hoje de lugares pouco frequentados. De vacas leiteiras havia currais, poucos, porque não fabricavam queijos nem manteiga; pouco se consumia carne de vaca, pela dificuldade de criar rezes em lugares impróprios à sua propagação, pelos inconvenientes para a lavoura resultantes de sua propagação, que reduziu êste gado ao estritamente necessário ao serviço agrícola. Um trecho de Frei Vicente do Salvador esclarecia melhor a situação geral: “Não notei eu isto tanto, escreve o historiador baiano, quanto o vi notar a um bispo de Tucuman, da ordem de São Domingos, que por algumas destas terras passou para a Côrte. Era grande canonista, homem de bom entendimento e muito rico; notava as coisas e via que mandava comprar um frangão, quatro ovos e um peixe e nada lhe traziam, porque não se achava na praça nem no açougue, e se mandava pedir as ditas coisas e outras muitas a casas particulares lhas mandavam. Então o bispo: “Veramente que nesta terra andam as coisas trocadas, porque tôda ela não é República, sendo-a cada casa”. E assim é que estando as casas dos ricos (ainda que seja à custa alheia, pois muitos devem o que têm) providas de todo o necessário, porque têm escravos pescadores e caçadores que lhes trazem a carne e o peixe, pipas de vinho e azeite que compram por junto, nas vilas muitas vêzes se não acha isto de venda”. - ( História do Brasil, ps. 16-17, ed. de 1918).

Alguns dos senhores de engenho tinham lojas, ou alguns dos mercadores tinham engenhos, - para o caso presente é a mesma coisa; o caractéristico na mercearia eram o comércio de consignação, que continuou ainda depois da independência, o tráfico de mascates que iam pelos lugares afastados, como ainda hoje, levar miudezas; e mais que tudo, as vendas a crédito, ou permutação de gêneros. A vida econômica tinha suas faces: nas transações internacionais ou antes inter-oceânicas era a moéda o tipo a que tudo se referia; nas transações internas dominavam o naturalismo económico, a permuta do gênero contra gênero, ou empréstimo de gêneros, e encontravam-se aqui todos os característicos ou quase que Hildebrand aturou para esta fase de humanidade.

“Quando os diversos haveres são permutados imediatamente à medida da superabundância e da necessidade, existe a circulação natural, e todo povo começa a sua carreira econômica pela carreira naturalista. Dela são particularidades características.

1.o - Circulação de haveres, lenta, geralmente localizada, extremamente irregular, por isso muito pouca divisão de trabalho;

2.° - Falta de capitais, porque falecem meios para poupar e assim falta o impulso para a formação de capitais; 3.° - Completa dependência da natureza, apatia quanto ao futuro, oscilação constante entre a superabundância e a penúria;

4.° - Falta a classe de capitalistas; mesmo depois de definidas as diferenças de classe, só ficam em frente uns dos outros como fatores únicos da produção os possuidores do solo e os trabalhadores; 5.° - Só a propriedade de terras dá poder e consideração; o trabalhador, que nada possui dela, depende inteiramente do trabalho e fica adstrito à gleba, pela qual tem de prestar serviços forçados e pagar impostas naturalísticos; o Estado remunera o serviço pela concessão de terrenos; forma-se o Estado feudal; 6.° - A coação do trabalhador, a improbabilidade de melhorar de condição dificulta todo progresso considerável; por isso vigora a maior estabilidade”.

A falta de capitais restringia muita as manifestações da vida coletiva: não havia fontes, nem pontes, nem estradas. As igrejas, as casas do Conselho, as cadeias eram feitas pelo Govêrno, ou com dinheiro vindo de além-mar, ou com impostos cobrados desapiedadamente. Para as casas e concertos de diversas obras não se podiam dispensar os subsídios do erário. Só as Casas de Misericórdia deviam-se exclusivamente ou quase à iniciativa particular, incitada talvez por motivos egoístas mais ainda que por altruísmo. As sédes de capitanias, mesmo as mais prósperas eram lugarejos insignificantes; a gente abastada possuía aí prédios, mas só os ocupava no tempo das festas; lojistas, oficiais, tinham de acumular ofícios para viver com certa folga.

Ajunte-se a isto a desafeição pela terra, fácil de compreender se nos transportarmos às condições dos primeiros colonos, abafados pela mata virgem, picados por insetos, envenenados por ofídios, expostos às feras, ameaçados pelos índios, indefesos contra os piratas, que começaram a acudir apenas souberam de alguma roupa a roubar. Mesmo se sobejassem meios, não havia disposição para meter mãos a obras destinadas aos vindouros; esfolava-se cruamente a terra; tratava-se de ganhar fortuna o mais depressa possível para ir desfruta-la além-mar, onde se encontravam comodidades, abundavam atrativos, a crosta de civilização não se empinava incontrastável e perene. Assegura Pedro de Magalhães que os velhos acostumados ao país daqui não queriam sair mais, é possível; dos moços, a quem não intimidavam a demora e os perigos das largas travessias, de organismos rijos para os caprichos e carrancas da zona temperada, testemunhas contestes afirmam o contrário. Como hoje o português que viveu nesta ao voltar para sua terra ganha o nome de brasileiro, talvez então o mazombo ido para a metrópole torna com os foros de lídimo português, ou reinol, como então se chamava, e isto era mais um incitamento à viagem.

Desafeição igual à sentida pela terra nutriam entre si os diversos componentes da população.

Examinando superficialmente o povo, discriminavam-se logo três raças irredutíveis, oriunda cada qual de continente diverso entre as quais nada favorecia a medra de sentimentos de benevolência. Tão pouco apropriados a essa floração delicada, antolhavam-se seus descendentes mestiços, mesclados em proporção instável quanto à receita da pele e à dosagem do sangue, medidas naquele tempo, quando o fenômeno estranho e novo em tôda a energia do estado nascente, tendia a observação ao requinte e atiçava os sentidos até exacerba-los, medidas e pesadas com uma precisão de que nem podemos formar idéia remota, botos como ficamos ante o fato consumado desde o berço, indiferentes às peles de qualquer aviação e às dinamisações do seu sangue em qualquer ordinal.

Ao lado dêstes fatores dispersivos de natureza etnográfica formavam outros mais de ordem psicológica. Tem sido notado que nas colônias geralmente se distinguem muito as pessoas de raça dominante nascidas na metrópole e as nascidas na dependência. Entre os nossos vizinhos da América latina os filhos de espanhois chamavamse criôlos, nome dado entre nós aos negros aqui nascidos, em Gôa os filhos de Portuguêses chamavam-se castiços; de nossa terra os nomes dos Portuguêses em diferentes pontos dariam matéria a um glossário; naquele tempo eram chamados reinóes, como os filhos de Portuguêses aqui nascidos chamavam-se mazombos. A simples existência do nome dá a entender uma espécie de capitis diminutio (pelo menos a princípio; mais tarde, o padre Antonio Vieira, nascido aliás, no além-mar, em uma carta diz-se mazombo). De ter isto realmente sucedido pode-se apresentar como prova o fato do inglês Knivet, que passou do século XVI ao XVII amargando no cativeiro de Salvador Corrêa de Sá, chamar ao filho dêste, Martim de Sá, de mulato; foi o têrmo de sua língua que mais próprio lhe pareceu para exprimir a fôrça de mazombo.

Parece que no Brasil a diferença entre o indígena e o alienígena da mesma raça ainda passou adiante: moleque foi talvez o nome dado pelos africanos a seus Parceiros nascidos no aquém-mar; caboclos eram primitivamente chamados os índios catequizados em aldeias pelos Jesuítas e seus rivais de catequese.

Êsse estado centrífugo começou a ceder desde a terceira e quarta decadas do século XVII. Reinóis, mazombos, moleques, caboclos, mulatos, mamalucos, tôdas as denominações se sentiam com tôdas as diferenças que os apartavam irredutivelmente, mais próximos uns dos outros que dos Holandêses, e daí a guerra que de 1624 a 1654 não se interrompeu enquanto o invasor calcou o solo da pátria. O mesmo sentimento de solidariedade foi-se avigorando a ponto de que ao primeiro e segundo decênios do século XVIII o português passou à categoria de inimigo, e rebentaram as guerras dos Mascates entre pernambucanos e dos emboabas entre os páulistas.

Antes disto já se efetuara a fundição de Brandonio quando a respeito da terra assim dizia a Alviano:

“Condenso minha pouca memória em vos dizer que isto se remediará quando a gente que houver no Brasil fôr por mais daquela que de presente se há mistér para o grangeamento dos engenhos de fazer açúcares, lavoura e mercearia, porque então os que ficarem sem ocupação de fôrça hão de buscar alguma de novo de que lançar mão, e por esta maneira se farão, uns pescadores, outros pastores, outros hortelões, e exercitarão os demais ofícios, dos que hoje não há nesta terra na quantidade que era necessário houvesse. E com isto assim suceder, logo não haveria falta de nada, e a terra abundaria de tudo o que lhe era necessário, enxergando-se ao vivo a sua grande fertilidade e abundância, com não ter necessidade de coisa nem uma das que se trazem de Portugal; e quando o houvesse fôra de poucas”.

***

Os esforços até hoje tentados Para levantar o anonimato dos Diálogos das Grandezas do Brasil têm sido perdidos. Para que aventar novas hipóteses? A quem quizer tentar a aventura podem ser indicados dois rastros novos:

a) - Diz Brandonio que em 1583 estava a seu cargo o recebimento dos dízimos de açúcar na capitania de Pernambuco e acrescenta, que era então novo na terra. Entre os contratadores de dízimos da terra conhecemos Bento Dias de Santiago entrou nas guerras de Duarte de Albuquerque Coelho, segundo donatário, feitas depois do embarque de Jorge de Alburqueque em 1565 (Frei Vicente do Salvador, História do Brasil, os. 198, ed. de 1918). Um alvará de 12 de Fevereiro de 1572 manda levar-lhe em conta certa quantia de dinheiro; outra de 23 de Dezembro de 1575 designa-o como contratador dos dízimas de Pernambuco e Itamaracá.

Documentos exitentes por cópia na biblioteca do Instituto Histórico mostram que Bento Dias Santiago arrematou os dízimos de Pernambuco em 1576, 1577, 1578, 1582, 1583, 1584 e 1585. Nos últimos anos arrematou igualmente os da Bahia. No de 1583 obteve uma moratoria de dez dias em seus pagamentos, equivalente aos dez dias suprimidos em Outubro do ano anterior, quando se pôs em vigor o calendário gregoriano.

Bento Dias de Santiago, morador em Pernambuco desde 1565 não podia dizer-se novo na terra e está fora de combate; mas um documento de 1582 permite-lhe nomear escrivães para assistir à saida dos açúcares, outro de 1583 fala em seus feitores. O autor dos Diálogos das Grandezas do Brasil pode ter sido seu feitor ou escrivão: pode ter sido seu parente. Um dos historiadores da guerra pernambucana Diogo Lopes de Santiago, embora caprichosamente Barbosa Machado o considere natural da cidade do Pôrto, o nome está indicando como pertencente à família. Por que dela seria a primeira pessoa amante de escrever?

b) - Passemos ao outro rastro.

Barcia afirma que o autor dos Diálogos se chamava Brandão, e era vizinho de Pernambuco. Provàvelmente conclui isto da leitura do livro. A conclusão nada tem de repugnante: podia apresentar-se com o nome ligeiramente alatinado, como sem alatinamento aparece Garcia da Orta em seus Colóquios, que o nosso autor conhecia.

Os documentos contemporâneos falam em diversas Brandões: o que tem mais probabilidades, ou antes o único a ter probabilidades a seu favor, chamava-se Ambrosio Femandes Brandão, e a respeito dêle encontra-se o seguinte na História de Frei Vicente do Salvador, e em uma sesmaria descoberta pelo meritório Irineu Joffily:

Morava em Pernambuco em 1583, e acompanhou Martim Leitão em uma de suas expedições contra os francêses e índios do Paraíba, no pôsto de capitão de mercadores.

Antes de 1613 estabeleceu-se na Paraíba, foi por muitas vêzes como capitão de infantaria à guerra contra os gentis Petiguares e Francêses.

Antes de 1613 possuia dois engenhos próximos à sede da Capitania chamados Inobi, por outro nome de Santos Cosme e Damião, e o do Meio ou São Gabriel.

Em 1613 pediu para fazer outro engenho na ribeira de Gurgaú, uma sesmaria, que de fato lhe foi concedida a 27 de Novembro de 1613.

Ignora-se quando faleceu; já não era dos vivos quando os Holandêses tomaram a Paraíba, Os herdeiros de Brandão emigraram; a Companhia das Índias Ocidentais confiscou os três engenhos, vendeu-os a um negociante de Amsterdam chamado Isac de Rasiére, que ao Inobi crismou Amistel, ao de São Gabriel crismou Middelburg, ao de baixo crismou La Rasière.

Depois da restauração contra os Holandêses os engenhos dos Brandões caíram nas mãos de João Fernandes Vieira.

É, pelo menos, o que assegura um parente de André Vidal de Negreiros, em cujas palavras Varnhagen se louva.

J. Capistrano de Abreu.