Dirceu – A Biografia por Otavio Cabral - Versão HTML

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OTÁVIO CABRAL

DIRCEU

1ª edição

2013

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO

SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ

Cabral, Otávio

C119d

Dirceu [recurso eletrônico]: a biografia: do movimento estudantil à

Cuba, da guerrilha à clandestinidade, do PT ao poder, do palácio ao

mensalão. / Otavio Cabral. - 1. ed. - Rio de Janeiro: Record, 2013.

recurso digital

Formato: ePub

Requisitos do sistema: Adobe Digital Editions

Modo de acesso: World Wide Web

Inclui bibliografia e índice

ISBN 978-85-01-40420-6 (recurso eletrônico)

1. Dirceu, José, 1946- 2. Políticos – Brasil - Biografia. 3. Livros

eletrônicos. I. Título.

CDD: 923.281

13-01091

CDU: 929:32(81)

Texto revisado segundo o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

Copyright © Otávio Cabral, 2013

Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução, armazenamento ou

transmissão de partes deste livro através de quaisquer meios, sem prévia

autorização por escrito. Proibida a venda desta edição em Portugal e resto da

Europa.

Direitos exclusivos de publicação em língua portuguesa para o Brasil adquiridos

pela

EDITORA RECORD LTDA.

Rua Argentina, 171 – 20921-380 Rio de Janeiro, RJ – Tel.: 2585-2000

Produzido no Brasil

ISBN 978-85-01-40420-6

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Para Vera, Lucas e Felipe.

Agradecimentos

“Singing words, words

Between the lines of age.”

Words, de Neil Young,

trilha sonora do livro

e da minha vida.

Este livro só foi possível graças à pesquisa incansável de Ana Luisa Mathias e

Érico Oyama. A checagem minuciosa de Andressa Tobita também foi essencial

para o sucesso do projeto.

Os comentários das primeiras leitoras, quando a obra ainda era um embrião,

ajudaram a melhorar a qualidade do texto e a me tirar de algumas enrascadas.

Agradeço muito por isso a Vera Magalhães e Thais Oyama.

A meu editor, Carlos Andreazza, obrigado pela aposta e pela contribuição com a

qualidade do livro.

O incentivo da família foi fundamental. Obrigado a meus irmãos Joaquim, Silvio e

Marcio, minhas cunhadas Dale, Mara e Andreia, meu cunhado Eduardo e a todos os

meus sobrinhos, com menção especial ao afilhado Renato e à colega Maria Clara.

Aos meus sogros Vera Maria e Windor, que sempre me apoiaram, e a minha

cunhada Roberta, com a preciosa assessoria jurídica, obrigado por tudo.

Mãe, você mereceria um livro inteiro só para que eu pudesse agradecer tudo o que

fez por mim. Te amo, Tetê. Pai, onde quer que você esteja, sei que está olhando

por mim e me mostrando os caminhos certos a seguir. Te amo, meu velho Carlão.

Queria que você estivesse aqui do meu lado para ler essa obra. Sua falta não dá

para preencher.

Eurípedes Alcântara, obrigado pela aposta, pela confiança de sempre e pelo tempo

concedido para eu me dedicar a essa obra.

Thais, seus conselhos, sua paciência e sua confiança me ajudaram muito a chegar

até aqui.

A André Petry e Policarpo Júnior agradeço pelos ensinamentos de jornalismo e pela

amizade. Só cheguei aonde cheguei na profissão pelo que aprendi com vocês.

Jamais esquecerei a ajuda de Lauro Jardim e Fábio Altman, jornalistas que são para

mim exemplo, e dos colegas Duda Teixeira, Leonardo Coutinho, Alexandre

Oltramari, Malu Gaspar, Daniel Pereira e Rodrigo Rangel. Suas informações, dicas e

conselhos foram fundamentais.

Agradeço imensamente ao fotógrafo Orlando Brito pela generosidade de ceder suas

fotos históricas para o livro, e a Gilda Castral pela ajuda para ilustrar esta

biografia.

José Luis de Oliveira Lima, Antonio Carlos de Almeida Castro e Luis Fernando Rila:

serei sempre grato pelas portas que vocês me abriram. E pelas tentativas de abrir

aquelas que permaneceram fechadas.

Agradeço a Angela Guidon por ter ajudado a colocar minha cabeça no lugar.

Sem amigos eu não iria a lugar nenhum. Marcos Nogueira, Renato Krausz, Renato

Stancato, Ivan Finotti, Denis Russo, Alberto de la Peña, Rodrigo Vergara, Paulo

Boccato, Pedro Dias Leite, Alan Gripp, Mirella D’Elia, Fábio Zanini, Fabricia Peixoto,

Letícia Sander, Silvio Navarro, Leila Suwwan, Alon Feuerwerker, Julia Duailibi, Tiago

Pariz, Chico Mendez, Igor Gielow, Leandro Colon e Natuza Nery, vocês fazem parte

da estrada que me trouxe até aqui.

Penha, obrigado por tudo, e por ter cuidado dos meus moleques nos momentos em

que eu estava cuidando do livro.

E, acima de tudo, obrigado às três pessoas que mais amo neste mundo: Vera,

Lucas e Felipe. Obrigado pela paciência nas minhas ausências, pelo apoio, pelos

momentos de prazer e de amor. Cada sorriso de vocês foi um incentivo a seguir

em frente. Cada interrogação foi um alerta para corrigir os rumos e tentar

melhorar minha obra.

Meus moleques, obrigado por tudo.

Vera, te amo. Sem você este livro não existiria. Nem a minha vida.

Sumário

Prólogo A história antes dos 80

1 Um golpe pela janela

2 “Você partiu e me deixou”

3 Ronnie Von das massas

4 A guerra dos estudantes

5 700 presos na lama

6 Trocado por um embaixador

7 A primeira metamorfose

8 Sobrevivente do massacre dos guerrilheiros

9 As aventuras de Pedro Caroço

10 O repatriado e o operário

11 Vitorioso nas derrotas

12 Pragmatismo acima das amizades

13 O partido operário vai ao paraíso

14 Um camaleão no Palácio do Planalto

15 De capitão do time a bedel de luxo

16 Um presente entre duas crises

17 A primeira queda

18 Instintos mais primitivos

19 O maior lobista do Brasil

20 O maior vilão do Brasil

21 O maior julgamento da história

Epílogo O homem que não chegou a lugar nenhum

Bibliografia

Índice onomástico

Prólogo

A história antes dos 80

“O que fiz só vou falar mesmo depois de 80 anos. O que fiz na guerrilha, na luta

armada, no mundo, isso só depois de 80 anos. Mas, como vou viver 90 anos, vou

falar depois dos 80. ”1

José Dirceu.

Quando comecei a pesquisar a fundo a vida de José Dirceu de Oliveira e Silva para

a produção desta biografia, a frase acima me chamou atenção e passou a me

servir de inspiração. Se ele tinha segredos que só poderia revelar depois dos 80

anos, eu precisava desvendá-los antes disso. Se não todos, pelo menos boa parte

deles. Precisava saber o que fez na infância, no movimento estudantil, na guerrilha,

na luta armada, em Cuba, no tempo em que viveu clandestino no Brasil, na

construção do PT, na transformação do partido em uma máquina eleitoral, no

comando da Casa Civil do governo Lula e durante o processo do mensalão.

Precisava saber detalhes de sua vida pessoal, suas convicções, suas dores e

amores, amizades e inimizades.

Já conhecia bem a história pública de José Dirceu da minha atividade de repórter

de política desde 2000, quando cheguei a Brasília pela Folha de S. Paulo.

Acompanhei o PT na oposição ao segundo governo de Fernando Henrique Cardoso e

a chegada do partido ao poder em 2002, com a vitória de Lula na eleição

presidencial. Cobri de perto os primeiros atos do governo petista e suas crises

iniciais, quando desagradou os grupos mais à esquerda do partido ao manter a

ortodoxia na economia e ao colocar Henrique Meirelles, um banqueiro internacional

filiado ao PSDB, na presidência do Banco Central. Em 2005, já trabalhando em Veja,

participei da reportagem de Policarpo Junior que mostrava um flagrante de propina

nos Correios, que deu origem ao escândalo do mensalão, a maior crise política do

Brasil desde o processo de impeachment de Fernando Collor.

Dirceu foi personagem central de todos esses episódios. Liderou o PT na

oposição, foi o mentor da transformação de um agrupamento de tendências de

esquerda em um partido pragmático para chegar ao poder, coordenou a campanha

vitoriosa de Lula, comandou o expurgo da esquerda petista e as alianças com

partidos conservadores e fisiológicos. Essas alianças levaram ao mensalão, que

provocou sua queda do comando da Casa Civil e o processo que levou à sua

condenação. Cobri de perto todo o caso do mensalão, das primeiras investigações

da CPI dos Correios ao maior julgamento da história do Supremo Tribunal Federal.

Toda essa informação, porém, era pouco para uma biografia. Tive de mergulhar

na história do personagem desde o dia de seu nascimento em Passa Quatro, cidade

de 11 mil habitantes no interior de Minas Gerais. Contei com a ajuda de dois

pesquisadores para vasculhar nove arquivos públicos e deles retirar mais de 15 mil

páginas de documentos, a maior parte inédita, com fatos novos sobre sua vida,

principalmente durante o regime militar brasileiro. Os órgãos públicos, com base

na Lei de Acesso à Informação, franquearam o contato com esse material. A única

exceção foi a Casa Civil da Presidência da República, que se recusou a liberar as

agendas e os documentos do período em que foi comandada por Dirceu, mesmo

após recursos a duas instâncias.

Vasculhei os acervos de nove jornais e oito revistas nacionais, além de quatro

publicações estrangeiras. Sites e blogs também foram essenciais para entender o

período após a chegada do PT ao poder. Li 43 livros e assisti a dois filmes que,

direta ou indiretamente, ajudaram a esclarecer a história de José Dirceu e dos

períodos políticos em que viveu.

Tão fundamental quanto as pesquisas foram as entrevistas com 63 pessoas que

conviveram diretamente com Dirceu desde sua infância em Minas Gerais até o

julgamento do mensalão. Com esses depoimentos, foi possível desvendar

passagens desconhecidas de sua vida, como o exílio em Cuba e a clandestinidade

no Brasil durante os anos 1970, além de bastidores inéditos de sua atuação no PT,

no governo e no mensalão. Boa parte dos entrevistados pediu para não ser

identificada, prática consagrada no jornalismo, as chamadas declarações em off.

José Dirceu foi procurado e informado do conteúdo do projeto. Seus advogados e

alguns de seus principais assessores colaboraram com o livro. Mas ele preferiu

ficar em silêncio.

Todas as frases utilizadas, que foram ditas anteriormente a jornais, revistas e

entrevistas em rádio e TV, estão identificadas ao longo do livro. As declarações

sem identificação de origem foram dadas a mim ou aos colaboradores da

publicação.

José Dirceu, que completou 67 anos em 16 de março de 2013, pouco antes da

conclusão desta biografia, segue dizendo que só vai revelar seus segredos depois

dos 80 anos. Procurei nestas páginas apresentar, treze anos antes, os fatos que

realmente importam.

Notas

1 Em entrevista a Caio Túlio Costa para o Projeto Memória do Movimento

Estudantil, em 17 de dezembro de 2005.

1

Um golpe pela janela

“Um dia seu filho será presidente da República.’’

José Dirceu, aos 8 anos, para a mãe, dona Olga.

A noite era de festa na casa dos Oliveira e Silva, na pequena cidade mineira de

Passa Quatro, na noite de 12 de outubro de 1968. A família se reuniu na sala para

a primeira transmissão da televisão que o patriarca, seu Castorino, havia recebido

de um consórcio poucas horas antes. Um televisor modesto, pequeno e em preto e

branco, mas um dos primeiros a chegar à cidade de 11 mil habitantes, encravada

na Serra da Mantiqueira, no Vale do Paraíba, divisa entre Minas Gerais, São Paulo e

Rio de Janeiro. O aparelho enchia de orgulho Castorino e, principalmente, sua

mulher, Olga. Os vizinhos invejavam a aquisição e se aboletavam à janela do

sobrado para compartilhar a novidade. O noticiário da noite, porém, teve início com

uma imagem que marcou para sempre a vida de dona Olga Guedes da Silva: seu

filho José Dirceu era empurrado por policiais para um camburão que sumia na

estrada de terra.

José Dirceu de Oliveira e Silva, o xodó de dona Olga, havia sido preso em um

congresso clandestino da União Nacional dos Estudantes, em Ibiúna, cidade próxima

a São Paulo, para onde migrara sete anos antes. O locutor descrevia o filho de

Olga e Castorino como um dos líderes dos oitocentos estudantes que se reuniram

em um sítio para conspirar contra o regime militar que governava o país havia

quatro anos e meio. E previa que ele passaria um bom tempo na prisão, para servir

de exemplo a outros jovens. Dona Olga deixou a família e as visitas na sala e foi

chorar no quarto. Desde pequeno, Dirceu, o terceiro de seus seis filhos, lhe dera

muito trabalho. A distância e a falta de comunicação do jovem, vivendo sozinho na

cidade grande, lhe tiravam o sono. Imaginava que muita coisa ruim pudesse lhe

acontecer. Mas cadeia foi além de seus piores pesadelos. Essa não era a primeira

confusão em que se metia o rapaz nascido a 16 de março de 1946, naquela mesma

casa. Era apenas a primeira transmitida em rede nacional de televisão.

Castorino era dono da gráfica Ordem e Progresso, a única da cidade, e militante

da União Democrática Nacional, a UDN, o partido da direita católica. Educava com

rigor seus sete filhos. Conheceu Olga na vizinha Cruzeiro, já no estado de São

Paulo, onde seus parentes ganhavam a vida como ferroviários e ele costumava

passar os finais de semana. Os filhos de Castorino precisavam ir à missa aos

domingos, rezar antes das refeições, pedir a bênção para sair de casa e trabalhar

desde cedo. Aos 8 anos, Dirceu já corria as ruas da cidade entregando pão; em

seguida, caminhava pela linha do trem até o Grupo Escolar Presidente Roosevelt,

onde cursou o primário. Foi nessa época que, em um surto de grandeza, disse à

mãe antes de dormir: “Um dia seu filho será presidente da República.” 2

Quando Dirceu tinha 10 anos, Castorino lhe conseguiu uma vaga no Ginásio São

Miguel, mantido por padres franceses da ordem de Bétharram. Era o melhor colégio

da região. E ainda por cima gratuito. Para tanto, Castorino teve de apelar a seus

contatos políticos. Fora candidato a vice-prefeito, era um dos provedores da Santa

Casa e em sua gráfica eram impressos os panfletos de todos os candidatos das

redondezas. Dirceu lembra com carinho da temporada no São Miguel: “Lá havia uns

vinte padres de umas dez nacionalidades, uma coisa fantástica! Convivi com

homens de dez nacionalidades diferentes e tive uma educação de altíssimo nível.” 3

Na escola, acuado pela disciplina severa dos religiosos, o garoto se continha,

embora suas pregações agnósticas a partir dos 12 anos tenham lhe rendido

algumas advertências e castigos. Cada vez que dizia que Deus não existia era um

terço a mais a ser rezado. Na reincidência, sua mão queimava com golpes de

palmatória. Longe dos padres, era outro. Amarrava barbante em rabo de cachorro,

colocava bombinhas presas no rabo dos gatos, pulava muros de casa para roubar

frutas, descia o rio em balsas feitas de folha de bananeira — que constantemente

naufragavam com outras crianças, levando as mães ao desespero.

Liderava um grupo de garotos que se identificavam por um assobio e que se

tornou o terror da cidade. Nem os castigos de Olga e Castorino o freavam. Passa

Quatro foi ficando pequena para ele e suas confusões e ambições. Só esperava o

fim dos estudos para ganhar o mundo. “Queria de todo jeito sair da minha cidade.

Quando eu sentava na praça, sozinho, pensava: ‘Quanto tempo falta para terminar,

pegar uma carona e ir embora para São Paulo?’” 4 Não demoraria muito. No início de 1961, ainda com 14 anos, pegou uma carona com um conhecido da família e foi

embora. As professoras e as mães dos amigos comemoraram: “Estamos livres do

Zé Dirceu, aquele menino filho do seu Castorino.” 5 O pai o apoiou. A mãe,

chorando, aceitou a decisão.

Naquela época, era costume das famílias escolher um filho para viver na cidade

grande, onde havia boas escolas e oportunidades de trabalho — em Passa Quatro,

sequer existia escola de ensino médio. Mas Dirceu se impôs, decidiu ir e

pavimentou seu caminho. Como a partida era inevitável, Castorino conversou com

um primo que já morava na capital paulista e conseguiu um emprego para o filho,

como office boy, na imobiliária do deputado estadual Nicola Avallone Júnior, ex-

prefeito de Bauru. Conservador, Nicola cumpria seu segundo mandato, pelo Partido

Democrata Cristão. Anticomunista ferrenho, era dono do Diário de Bauru e

respondia a um processo por ter dado, ainda prefeito, uma Romi-Isetta amarela a

Pelé em 1958, quando o Brasil ganhou seu primeiro mundial de futebol. Apesar do

conservadorismo, tinha uma relação afetuosa com o novo funcionário.

A São Paulo que Dirceu encontrou, em 1961, já tinha 4 milhões de habitantes,

trezentas vezes maior do que sua Passa Quatro natal. À noite, quando deixava a

imobiliária, cursava o colegial no Colégio Paulistano, na rua Avanhandava, próximo à

praça da Sé. Ainda antes de completar 15 anos, em plena São Paulo do início da

década de 1960, uma nova vida se descortinou para o garoto do interior. E a

principal responsável por isso foi Maria Aparecida Sá de Castelo Branco, a

secretária da imobiliária do deputado, que preferia ser chamada de Cíntia. “Era uma

mulher linda, simplesmente maravilhosa, que me ensinou tudo: fui chefe do

almoxarifado, trabalhei como arquivista, trabalhei na tesouraria, como relações

públicas, no atendimento, na coordenação do escritório. Durante três anos e meio,

fiz de tudo ali” — relembra José Dirceu. 6 Cíntia lhe ensinou quase tudo.

Com dinheiro contado, ele foi morar em uma república no Edifício São Vito, ao

lado do Mercado Municipal, o mais famoso treme-treme de São Paulo. Dividia os

pouco mais de vinte metros quadrados com sete marmanjos: eram dois beliches e

um sofá, no qual dormia com um colega de Passa Quatro, Wilson Siqueira. Certa

noite, ao voltar para casa, encontrou no elevador uma mulher de 35 anos.

Começaram a conversar e, dias depois, ainda em seu primeiro mês na cidade

grande, o garoto de 14 anos perdia a virgindade com uma mulher 21 anos mais

velha. “Ela também estava muito a fim e me proporcionou um ótimo começo” —

este, o único comentário que já fez a respeito. 7

O mais jovem atormentou tanto os mais velhos que acabou expulso da quitinete

após oito meses. Era indisciplinado, recusava-se a dividir as tarefas da casa, como

lavar louça e limpar o banheiro, e atrasava o pagamento das contas. Usava roupas

alheias sem avisar e pegava comida dos outros na geladeira. No terceiro aviso,

portanto, teve de deixar o apartamento para ir morar em um quarto de pensão na

rua Taquara, na Liberdade, por onde hoje passa a avenida 23 de Maio. O dinheiro

era tão curto que a principal diversão do jovem caipira — zombado pelos colegas

por ser mineiro e pelo sotaque — consistia em andar pelas ruas de São Paulo

vendo vitrines.

Também gostava de acompanhar pelo rádio os jogos do Corinthians, time que

adotou ao chegar à cidade, renegando a paixão de infância pelo Flamengo. “Eu não

tinha dinheiro para nada. Eu não tinha roupa praticamente. Vestia a mesma roupa

por quinze dias. Vivi uma época em São Paulo quase como um trombadinha.” 8 Nos

momentos de maior dificuldade, apelava para Cíntia, que o abrigava, dava comida e

comprava roupas.

Dirceu concluiu o ensino médio em 1963 e, no início do ano seguinte, matriculou-

se no cursinho pré-vestibular Di Túlio, na rua Conde de Sarzedas, na Liberdade.

Mudou-se para uma república próxima, onde dividiu um quarto com Celso de Mello,

então estudante de Direito na Universidade de São Paulo e futuro ministro do

Supremo Tribunal Federal. Sua situação financeira começou a melhorar nessa

época. Conheceu o novelista Vicente Sesso, com quem foi trabalhar na TV Tupi,

ajudando a redigir roteiros e fazendo figuração em alguns programas. Sesso era, ao

lado de Cassiano Gabus Mendes, o principal autor da televisão brasileira. Quando

Dirceu o conheceu, na festa de aniversário de um colega de imobiliária, ele acabara

de escrever Minha doce namorada, que deu à atriz Regina Duarte o apelido de “a

namoradinha do Brasil”. Sesso viu talento no jovem eloquente e criativo. Assim que

apareceu uma vaga em sua equipe na televisão, resolveu apostar no recém-

conhecido.

Envolveu-se tanto com o trabalho que foi praticamente adotado por Sesso, que o

levou para morar em sua casa, no mesmo quarto de seu filho adotivo, o ator

Marcos Paulo, morto em 2012. Alojado na casa do novelista, trabalhando no

escritório de Avallone e na TV Tupi, afinal sobrava dinheiro para se aventurar pela

noite paulistana. Em uma boate, conheceu uma dançarina chinesa, teve um ardente

caso de amor e deixou de lado as tarefas passadas por Sesso. Na terceira vez que

o deixou na mão, foi demitido e despejado. Sem dinheiro e sem casa, perdeu

também a namorada.

No cursinho, José Dirceu se aproximou de um grupo de professores e alunos que

estudava Marx e debatia as reformas do governo de João Goulart, o Jango,

presidente que assumira dois anos antes, com a renúncia de Jânio Quadros, e

desde o primeiro dia no cargo sofria forte oposição dos militares e dos partidos de

direita — principalmente a UDN de seu Castorino. Mais para se opor ao pai do que

por ideologia, Dirceu apoiava o governo Jango, o que provocava longas discussões

nas raras ligações telefônicas para Passa Quatro.

Um conterrâneo de Minas que também gostava de Jango ofereceu a José Dirceu

um emprego na Distribuidora Nacional de Materiais Básicos, uma empresa de

estruturas metálicas. A função e o salário eram semelhantes aos do escritório de

Avallone. No novo trabalho, porém, seria registrado, algo que o antigo patrão jamais

aceitara fazer. E também deixaria para trás as discussões políticas acaloradas

com Avallone, opositor de primeira hora de Jango.

Em seguida, veio o golpe militar de 1º de abril, que depôs Jango e instalou em

seu lugar o marechal Humberto de Alencar Castello Branco. De cara, José Dirceu

se posicionou contra os militares. No dia posterior ao golpe, foi fazer um serviço

externo no Banco Real da Praça da República, em um prédio ao lado da Floricultura

Rinaldi. Estava no terceiro andar e viu pela janela a passeata dos alunos da

Universidade Mackenzie. Comemoravam a derrubada de Jango.

A imagem definiu a posição que Dirceu teria dali em diante. “Eu já sabia de que

lado estava, não tinha dúvida de que se tratava de um problema de classe. Eu era

um office boy, que tinha trabalhado e estudado, e não tinha dúvida nenhuma de que

a elite de São Paulo estava apoiando o golpe militar. ”9

Notas

2 Em entrevista publicada pela revista Playboy, em agosto de 2007.

3 Em entrevista a Caio Túlio Costa para o Projeto Memória do Movimento

Estudantil, em 17 de dezembro de 2005.

4 Idem.

5 Dirceu, José e Palmeira, Vladimir; Abaixo a ditadura. Garamont, 1998.

6 Em entrevista a Caio Túlio Costa para o Projeto Memória do Movimento

Estudantil, em 17 de dezembro de 2005.

7 Em entrevista à edição de janeiro de 1992 da revista Playboy.

8 Em entrevista a Caio Túlio Costa para o Projeto Memória do Movimento

Estudantil, em 17 de dezembro de 2005.

9 Idem.

2

“Você partiu e me deixou”

“Cabeludo e desempregado aos 17 anos, apenas dois jogos de roupa, quase roubara.

Mas arranjava quem cuidasse de si e das contas, chamego de mulheres.”

Iara Iavelberg, primeiro amor de José Dirceu.

— Nome?

— José Dirceu de Oliveira e Silva.

— Data de nascimento?

— 16 de março de 1946.

— Local de nascimento?

— Passa Quatro, Minas Gerais.

— Estado civil?

— Solteiro.

— Filiação?

— Castorino de Oliveira e Silva e Olga Guedes da Silva.

— Religião?

— Não interessa.

— Como?

— Não interessa! Isso não existe no Brasil. O estado é separado da Igreja. Você

não pode me perguntar isso. A PUC não precisa saber da minha religião para fazer

minha matrícula.

— Então o senhor não será matriculado.

— Vou à Justiça, vou entrar com um mandado de segurança e vou fazer a

matrícula.10

Esse foi o primeiro diálogo de Dirceu na Faculdade de Direito da Pontifícia

Universidade Católica, na rua Monte Alegre, em Perdizes, zona oeste de São Paulo.

Naquela manhã de janeiro de 1965, chegava à faculdade mostrando-se um homem

de convicções fortes, que não seria apenas mais um aluno a passar despercebido.

A funcionária da secretaria deixou o posto e foi consultar seus superiores sobre

o que fazer com aquele jovem lindo, um metro e oitenta de altura, de cabelos

longos e olhar desafiador, que se recusava a informar sua religião. Meia hora

depois, voltou. O diretor da faculdade aceitara que a matrícula fosse feita com o

campo religião em branco.

De todo modo, era apenas um blefe. O rapaz de estilo rebelde queria marcar

posição, mas não iria tirar de seus pais o maior motivo de orgulho da família. Era

o primeiro dos Oliveira e Silva a entrar em uma faculdade. Assim que viu a lista

dos aprovados, telefonou para Passa Quatro e deu a notícia. Dona Olga, que andava

ressabiada com o filho, gritava e chorava de alegria, repetindo sem parar que

aquela era a melhor notícia de sua vida. Dirceu tinha outra coisa a contar, também

inédita na família, mas preferiu deixar para outra ocasião, preocupado em não

frustrar a alegria dos pais. Desde o ano anterior, era um militante clandestino do

Partido Comunista Brasileiro. Em uma família católica e de direita, e em meio a

um regime militar, era melhor manter o assunto em segredo.

Matrícula feita, embarcou para Passa Quatro, onde passaria o carnaval. Havia,

contudo, pouco tempo para a folia. A boa notícia, a entrada na faculdade, trazia

junto um problema: como pagar as mensalidades? O salário de office-boy era

insuficiente. A gráfica de Castorino rendia apenas o necessário para manter a

família, sem grandes luxos. A solução encontrada foi apelar aos padres do Ginásio

São Miguel, para que o ajudassem a conseguir uma bolsa de estudos na PUC.

Enquanto a decisão não saía, Castorino entregou ao filho economias suficientes

para pagar as três primeiras mensalidades.

Resolvido o problema mais premente, outra questão se colocara entre pai e

filho. Castorino não gostava do discurso esquerdista de Dirceu. Muito menos de

seus cabelos longos, das roupas repetidas e da falta de banho. As discussões eram

duras. Castorino também discordava do golpe militar, chegou mesmo a romper

com a UDN, mas a defesa que o filho fazia de Havana e de Moscou o exasperava.

Dirceu, em um surto de independência, devolveria o dinheiro das mensalidades —

que Olga, entretanto, não deixou o marido aceitar. Na manhã da quarta-feira de

cinzas, o jovem universitário embarcou em um ônibus de volta a São Paulo.

Logo no primeiro dia de aula, Dirceu compreendeu que teria dificuldades de

adaptação. Os professores eram conservadores e reacionários — havia um

monarquista e outro que era dirigente da Tradição, Família e Propriedade, a TFP,

organização católica de extrema direita. Com exceção de Franco Montoro, todos

apoiavam o governo militar. Os alunos tinham que se levantar quando o professor

entrava na sala e precisavam pedir autorização para lhe dirigir a palavra. As

mulheres sentavam-se longe dos homens. Antes da primeira semana, já se

rebelara contra aquela situação. Substituiu o terno exigido pela instituição por calça

jeans, camiseta e sapato sem meia. Recusou-se a cortar o cabelo e deixou de se

levantar à entrada do professor. Seu estilo contestador atraiu outros alunos, que

formaram a “turma dos canalhas”. Entre eles, o estudante de jornalismo Rui

Falcão. Esse grupo começou a pressionar a direção da faculdade pela reabertura do

centro acadêmico, da associação atlética e do cineclube, fechados após o golpe.

“Não foi a política que me levou à luta estudantil na PUC: foi a revolta contra o

autoritarismo e a mediocridade. ”11

A “turma dos canalhas” reabriu a associação atlética, que rapidamente se

tornaria uma espécie de sindicato dos estudantes. As dívidas daqueles que não

conseguiam pagar as mensalidades passaram a ser negociadas coletivamente. O

aumento da anuidade foi questionado na Justiça. Apostilas eram impressas para os

que não tinham dinheiro para comprar livros. Campeonatos de futebol e de

basquete serviam para integrar os estudantes. Na falta de um cineclube, filmes

passaram a ser exibidos na sede da associação.

Daí para a luta política foi um passo natural. Os dirigentes da associação

atlética começaram a redigir panfletos que questionavam a falta de democracia e

a defasagem do currículo. Com essas ações na PUC, Dirceu se tornava

progressivamente conhecido na política estudantil. Passaria, então, a frequentar a

rua Maria Antônia, na região central de São Paulo, onde ficavam as faculdades de

Filosofia, Letras, Arquitetura e Sociologia da USP, além do campus do Mackenzie.

Conheceu Luis Travassos, o principal líder do movimento estudantil. E foi convidado

a organizar, na PUC, uma passeata contra a Lei Suplicy de Lacerda — a primeira

manifestação dos estudantes paulistas contra a ditadura. Essa lei colocava na

ilegalidade a União Nacional dos Estudantes e todas as suas representações

regionais, e determinava que o Ministério da Educação teria a palavra final sobre a

indicação de reitores para as universidades públicas e privadas.

Dirceu consolidou sua liderança na PUC e se aproximou da cúpula clandestina do

PCB, principalmente de Joaquim Câmara Ferreira, o Toledo. Apoiado pelos

comunistas e pela União Estadual dos Estudantes, comandada por Travassos,

chegaria à presidência do Centro Acadêmico 22 de Agosto no início de 1966, ainda

em seu segundo ano de universidade. Foi o comandante mais novo da instituição.

Sua primeira vitória política coincidiu com o acirramento da repressão ao

movimento estudantil, graças à Lei Suplicy de Lacerda, que os protestos não

conseguiram derrubar. “Fizemos a eleição na rua, já que fora proibido fazer dentro

da faculdade. Teve cavalaria, bombas de gás lacrimogêneo, cassetete. Mesmo

assim, 80% dos estudantes votaram sob pancadaria. Ganhei a eleição disparado. O

Centro Acadêmico 22 de Agosto se reinstalou na PUC e começamos a luta contra o

aumento da anuidade e pela reforma universitária. ”12

Dirceu não gostava dos estudos. Brigava com professores, faltava às aulas

daqueles que não tolerava — como o que era dirigente da ultracatólica TFP e fazia

da defesa da ditadura uma bandeira. Tirava as notas suficientes para passar de

ano, sem nenhum brilho. Já na presidência do CA, a dedicação era total. Encontrara

na atividade política um prazer e vislumbrava nela uma chance de ascensão

profissional e pessoal. Para tornar o movimento estudantil atraente à maioria dos

estudantes, que ignorava a política, comprou mesas de pingue-pongue e de sinuca,

montou um curso paralelo de recuperação e promoveu bailes no Beco, que era a

boate mais chique de São Paulo.

Nessas ocasiões, o cabeludo desleixado se transformava. Vestia seu único terno,

arrumava o cabelo, lustrava o sapato de bico fino e caía na dança, seduzindo as

alunas e causando brigas por ciúmes. Dizia que fazia isso só para irritar os

adversários de direita, que pregavam que sua turma destruiria o centro acadêmico,

pois desprovida de experiência para lidar com dinheiro. Mas o que o movia também

era a vaidade. “Era para eles verem que comunista, gente de esquerda, tem bom

gosto também. Vocês me veem sujo e de capa, mas eu sempre me vesti bem. ”13

Dirceu considerava que o movimento estudantil deveria priorizar os problemas

dos alunos, deixando a oposição à ditadura em segundo plano. Esse pragmatismo o

aproximou da massa estudantil e o afastou da cúpula do PCB, cujo entendimento

era oposto e que o considerava alienado e sem preparo intelectual. Era a mesma

discordância que teria com seu primeiro grande amor: Iara Iavelberg, considerada

a musa da esquerda naquela época.

Dois anos mais velha, alta, bonita, de olhos claros e corpo esguio, Iara era de

uma rica família judaica, das primeiras a trocar o Bom Retiro por Higienópolis,

bairro nobre na região central de São Paulo. Casara-se aos 16 anos, mas o

relacionamento acabara três anos depois, quando passou a defender o amor livre.

Conheceu José Dirceu em um bar na Maria Antônia e envolveram-se de cara.

Os dois moravam sozinhos — ele, em uma quitinete na alameda Barros, em

Santa Cecília; ela, em um apartamento algumas quadras acima, já em Higienópolis.

Passaram a dormir juntos todas as noites. Frequentavam o cine Regência, onde

tomavam vinho no café do mezanino antes de assistirem aos filmes favoritos da

esquerda sessentista, como Alphaville, Um dia, um gato, O colecionador e Quem

tem medo de Virgínia Woolf ?. Gostavam de um restaurante de panquecas na

avenida Angélica, em frente à praça Buenos Aires, onde caminhavam fumando

charuto após as refeições. Prazeres burgueses, como se dizia, que Dirceu

aprenderia a apreciar rodando a cidade no carro de Iara.

“Faltam a José Dirceu alguns dotes intelectuais, é verdade. Mas não terá medo

de dizer ‘eu te amo’. A coisa tomou conta de mim, ocupou meus espaços” —

escreveu Iara às amigas que questionavam o namoro. “Cabeludo e desempregado

aos 17 anos, apenas dois jogos de roupa, quase roubara. Mas arranjava quem

cuidasse de si e das contas, chamego de mulheres. ”14

Torceram juntos por Disparada, de Geraldo Vandré, contra A banda, de Chico

Buarque, no festival da Record de 1966. Leram A revolução brasileira, de Caio

Prado Junior, e Revolução na revolução, de Régis Debray, obra que pregava o

foquismo revolucionário — então defendido por Iara e condenado por Dirceu. A

política era motivo de constantes discussões. Na eleição daquele ano, 1966, ela

defendia o voto nulo. Ele, o voto útil em candidatos do MDB alinhados com os

comunistas. Combinaram deixar a discussão de lado quando estivessem juntos:

“Você é a mulher que amo, não uma relação política.” 15

De início, Iara definia o namorado como dedicado e carinhoso e lhe agradecia por

tê-la feito superar um grande trauma do primeiro casamento — assunto que era

tabu até mesmo entre suas melhores amigas. A suposição na turma era de que

tivesse sofrido algo que lhe causara aversão ao sexo, pois passou a demonstrar

insegurança quando sozinha com um homem. “Terno e vaidoso, queria ajudá-la a

tornar-se mulher. A rigor, foi seu primeiro homem” — escreveu Judith Patarra,

amiga e biógrafa de Iara.16

A paixão a levou a abandonar o amor livre, mas superficial, pela fidelidade e

entrega ao namorado de cabelos longos. Mas ele não a acompanhou nessa decisão.

“Era difícil namorar José Dirceu, sempre aberto a flertes, fossem até amigas dela”

— escreveu Judith. “Ele era totalmente indisciplinado, ignorava o que faria nas

próximas horas, à noite, no dia seguinte. Iara, machucada, às vezes a sabê-lo com

outra, procurava companhia masculina. ”17

Dirceu podia namorar quem quisesse, mas Iara tinha de se manter fiel. Quando

sabia que ela saíra com outro, mesmo que para um inocente chope, as brigas eram

feias. Ele costumava sair do carro no meio do caminho, batendo a porta, sempre

que discordava da namorada. Uma noite, após uma passeata, os dois estavam em

um bar lotado na Maria Antônia quando ele começou a reclamar de sua roupa.

Achava que colocara uma saia curta e uma blusa colada para seduzir outros

homens e o provocar. Começaram a se xingar aos berros até que, para

constrangimento geral, ele enfiou a mão no prato da namorada e atirou uma porção

de batatas fritas em seu rosto, antes de ir embora. Sem pagar a conta. “Meio

masoque, né?” — autoironizava Iara.18

Graças a seu sucesso no comando do centro acadêmico da PUC, foi lançado

candidato a presidente da União Estadual dos Estudantes, em disputa que ocorreria

no ano seguinte. Com a campanha, viam-se cada vez menos. Além da política e

das outras mulheres, passou a ocupar seu tempo com dois vizinhos italianos, que

cozinhavam bem e tinham uma adega de respeito.

Certo dia, Dirceu chegou em casa e foi surpreendido por dois policiais do Dops, a

polícia política de São Paulo, que o levaram para a cadeia. Seria sua primeira

prisão. Sem entender o motivo, ficou dois dias sob interrogatório. “Depois de muita

aflição, descobri o que tinha acontecido: os italianos eram ligados à ALN [Ação

Libertadora Nacional, grupo guerrilheiro liderado por Carlos Marighella], uma turma

barra-pesadíssima. Haviam prendido os dois e acabei caindo junto por azar.

Felizmente, consegui convencer a polícia de que eu era um bon vivant, só queria

mesmo sair com as meninas, curtir a vida. Fui solto alguns dias depois, com a

ficha limpa e a fama de namorador.” 19

Menos de um mês depois, seria preso novamente, em um congresso clandestino

da UEE, em São Bernardo do Campo, mas liberado no mesmo dia.

Iara suportava a ausência e até a infidelidade. Exasperava-se, porém, com as