Dirceu – A Biografia por Otavio Cabral - Versão HTML

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constantes mentiras, “como se a tese da liberação sexual validasse

comportamentos indesculpáveis”. 20 Romperam, finalmente, quando ela percebeu

que deixara de ser a “namorada principal”, trocada por uma dançarina espanhola,

Ivone. Uma noite, depois de brigar com os pais, chegou de surpresa ao

apartamento do namorado. Ele entreabriu a porta e, sussurrando, não a deixou

entrar: “Tem gente dormindo.” 21 Era um código na militância para dizer que havia um clandestino político na casa. Ela não acreditou, virou as costas e disse que

estava tudo acabado.

Semanas mais tarde, pediu desculpas, tentou reatar, mas não teve sucesso. Foi

a uma festa, em uma república da Maria Antônia, e se embriagou. Encontrou, entre

as pilhas de discos de Bob Dylan e Joan Baez, um LP de Roberto Carlos com Nossa

canção, a música que embalara noites a dois no apartamento da alameda Barros:

Você partiu e me deixou

Nunca mais você voltou

Pra me tirar da solidão

E até você voltar

Meu bem eu vou cantar

Essa nossa canção

Nunca mais se encontraram. Os caminhos dos dois não voltariam a se cruzar.

Iara radicalizaria sua opção revolucionária. Pouco depois do rompimento, passaria a

viver com Carlos Lamarca, um dos ícones da esquerda guerrilheira. Seria morta

pelo Exército em 1971, na Bahia. Antes de morrer, entretanto, esteve presa com a

militante mineira Dilma Vana Rousseff, a Wanda, futura presidente da República,

39 anos depois. José Dirceu, por sua vez, seguiria se equilibrando entre a boemia e

a política universitária. E se tornaria em breve um dos ícones do movimento

estudantil que desafiou a ditadura em 1968.

Notas

10 Diálogo costurado a partir do livro Abaixo a ditadura, de José Dirceu e Vladimir

Palmeira [Garamont, 1998], e de entrevistas com colegas da época.

11 Em entrevista a Caio Túlio Costa para o Projeto Memória do Movimento

Estudantil, em 17 de dezembro de 2005.

12 Idem.

13 Idem.

14 Patarra, Judith Lieblich. Iara. Rosa dos Tempos, 1992.

15 Idem.

16 Idem.

17 Idem.

18 Idem.

19 Dirceu, José e Palmeira, Vladimir; Abaixo a Ditadura. Garamont, 1998.

20 Patarra, Judith Lieblich. Iara. Rosa dos Tempos, 1992.

21 Idem.

3

Ronnie Von das massas

“Imprensa burguesa! Fique sentadinha nas cadeiras, sem tirá-las do lugar!”

Frase escrita na lousa da sala de imprensa da

ocupação da Faculdade de Filosofia da USP.

Às 18 horas de 24 de junho de 1968, José Dirceu de Oliveira e Silva, presidente da

União Estadual dos Estudantes, pegou um megafone e começou a gritar palavras de

ordem para os mais de 5 mil estudantes que se reuniam nas arcadas do Grupo

Escolar Caetano de Campos, na praça da República. Fazia muito frio e garoava

naquela segunda-feira nublada. Dirceu, principal líder estudantil do estado, usava

sua indefectível capa bege e bradava bordões típicos da época. “Abaixo a ditadura!”

“Fora, militares!” “Viva o Vietnã!” “Viva a democracia!” “Yankees, go home!”

A maioria dos estudantes repetia e aplaudia, quando, a contragosto, Dirceu teve

de passar o megafone para Catarina Meloni, sua maior rival no movimento

estudantil, a quem derrotara em uma controversa eleição para a presidência da

UEE. Aliados dele começaram a gritar e a vaiar, impedindo o discurso de Catarina.

Militantes da Ação Popular, grupo do qual ela fazia parte, reagiram. A passeata

contra a ditadura, convocada nas duas semanas anteriores em todas as faculdades

e nas principais escolas secundárias de São Paulo, começava em clima de

confronto.

Na esquina das avenidas São Luís e Ipiranga, a menos de duzentos metros do

início da manifestação, um possante Aero Willys, com a chapa-branca de

autoridade, estava preso no engarrafamento. Aos gritos de “quebra” e “põe fogo”, o

carro foi cercado por um grupo, e seu motorista, expulso a pontapés e socos. Os

manifestantes quebraram os vidros, viraram o automóvel e o incendiaram. A

polícia, orientada pelo governador Abreu Sodré, da Arena, a não reprimir a passeata

“para não produzir mártires”, observava de longe a comemoração dos estudantes

enquanto o veículo flamejava.

A manifestação saiu do controle. No largo do Arouche, usando coquetéis

molotov, pedras e paus, os jovens quebraram as portas de vidros e as janelas da

sede da Secretaria da Educação e da Academia Paulista de Letras. Em seguida,

saquearam uma farmácia do Exército. Na esquina de Ipiranga com São João,

arrancaram um poste, com o qual arrombaram o First National City Bank de Nova

York. Por onde passavam, os comandados de Dirceu usavam o megafone para pedir

apoio da população. A maioria, porém, não queria saber de confusão.

O público que assistia aos filmes A ponte do rio Kwai e A megera domada, nas

duas salas do Cine Marcopolo, abandonou as sessões com medo dos estudantes. O

mesmo aconteceria no cinema Majestic, o mais chique de São Paulo, onde as

atrações eram A bela da tarde e ...E o vento levou. Restaurantes e lanchonetes,

como o Bar Brahma, o Record e o Salada Paulista, fecharam as portas. Havia o

temor de reação da Força Pública e do Exército, como ocorrera no Rio de Janeiro

três meses antes, provocando a morte do estudante Edson Luís.

Fotógrafos e repórteres dos jornais paulistanos eram hostilizados, principalmente

os da Folha de S. Paulo e de O Estado de S. Paulo, considerados defensores da

ditadura. Na avenida São João, um carro do Estadão foi apedrejado. Um grupo

começou a gritar “Estadão! Estadão!” e então se dirigiu à sede do jornal, na rua

Major Quedinho. A invasão foi reprimida a tiros e pancadas pela polícia e por

seguranças. Os manifestantes responderam com tiros e coquetéis molotov, e

colocaram fogo em um andaime, na porta do prédio para a manutenção do

tradicional painel luminoso por onde eram transmitidas as últimas notícias daquele

dia, como “Ampla vitória de De Gaulle”, “Arena inicia a convenção”, “URSS defende

pacto”, “Pânico mata oitenta no estádio do River” e os detalhes do caso que

comovia o país: a morte do boiadeiro João Ferreira da Cunha, que passara pelo

primeiro transplante de coração do Brasil, cirurgia comandada pelo cardiologista

Euryclides de Jesus Zerbini.

Depois do ataque ao Estadão, a massa começou a se dispersar, mas um grupo

de cerca de duzentos estudantes, 90% dos quais homens, seguiu as orientações de

Dirceu e de Luís Travassos, seu antecessor na UEE, subiu a rua da Consolação e

virou à direita na Maria Antônia. Como estava previamente combinado entre as

lideranças, invadiu a Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo, que se

tornaria o quartel-general do movimento estudantil.

A ocupação da Maria Antônia foi o ápice de um momento agitado. José Dirceu

assumira a presidência da UEE em outubro do ano anterior, mesma época em que

foi emitido seu primeiro mandado de prisão. Se a ditadura apertava a repressão

desde a posse de Costa e Silva, um general linha-dura que substituíra o marechal

Castello Branco em 15 de março de 1967, os estudantes reagiam à altura, com

passeatas que invariavelmente terminavam em confronto.

O movimento estudantil, a partir de 1967, tornara-se a única voz da sociedade

civil contra o regime militar e a falta de democracia. Os partidos políticos

estavam extintos, com exceção da governista Arena e do Movimento Democrático

Brasileiro, o MDB, legenda de oposição moderada tolerada pelos militares. Os

sindicatos funcionavam sob estrito controle do governo. As principais lideranças da

oposição estavam presas ou exiladas. A Igreja, com poucas exceções, alinhava-se

ao governo. E o crescimento econômico propiciava o milagre brasileiro e tornava

praticamente impossível aos grupos radicais engrossar seus contingentes armados

contra o governo. Assim, só sobravam os estudantes.

Além dos problemas brasileiros, as manifestações de 1968 pelo mundo serviam

de inspiração aos jovens brasileiros. Em Paris, uma greve de estudantes deu início

à maior mobilização cultural e política desde a Segunda Guerra Mundial. Os

manifestantes pararam as universidades, em um movimento que se espalharia

pelas fábricas e pelo comércio — dois terços dos trabalhadores franceses

cruzaram os braços. Para não ser deposto, o presidente Charles de Gaulle teve de

dissolver o Parlamento e convocar novas eleições. Nos Estados Unidos, o alvo era a

Guerra do Vietnã. Na Tchecoslováquia, estudantes eram as estrelas da Primavera

de Praga, que tentava expulsar os soviéticos do país. Mesmo com a imprensa

controlada e com filmes e livros censurados, a onda que mobilizava a juventude

mundo afora acabou chegando por aqui.

Dirceu cresceu politicamente no movimento estudantil ao aliar o combate à

ditadura à defesa dos interesses dos estudantes. Em 6 de junho de 1967, foi citado

pela primeira vez na grande imprensa paulista, em uma reportagem de duas

colunas na Folha de S. Paulo, com o título “Reitor da PUC punirá aluno que não

pagar”. O boicote aos pagamentos fora decidido dois meses antes porque os

estudantes consideravam as mensalidades extorsivas, bem maiores do que as

praticadas nas outras faculdades paulistanas. O vice-reitor Bandeira de Mello, por

sua vez, fora de classe em classe ameaçar os inadimplentes com reprovação,

suspensão e expulsão do curso.

No dia anterior, Dirceu havia discursado pela primeira vez em uma manifestação

pública, na Cidade Universitária. A questão da mensalidade da PUC foi o ponto

principal da fala, mas não o único. Ensaiando o tom que o notabilizaria no ano

seguinte, protestou contra o plano MEC-Usaid (acordo entre o Ministério da

Educação e o governo norte-americano para promover uma reforma no ensino

brasileiro, tema caro à esquerda sessentista), a falta de democracia e o governo

do estado, por “estar agindo contra os estudantes para ganhar a opinião pública

para sua já falida política”. 22

Em outubro, seria eleito presidente da União Estadual dos Estudantes, em uma

acirrada disputa contra Catarina Meloni, representante da Ação Popular, organização

da esquerda católica que tinha em José Serra um de seus líderes. Dirceu concorreu

pela Dissidência Comunista, já que, no início daquele ano, rompera oficialmente

com o Partido Comunista Brasileiro em um congresso em Itanhaém, no litoral sul

de São Paulo, no qual o comando do partido se opusera à luta armada contra a

ditadura militar — o que daria origem a vários grupos dissidentes.

Catarina não aceitou a derrota e acusou seu rival de ter fraudado a votação e a

apuração. Segundo ela, nas faculdades onde Dirceu era mais bem votado o número

de eleitores superava o de alunos matriculados. Ademais, as urnas das faculdades

controladas pela Ação Popular desapareceram. Por um ano, manteve-se no

comando de uma UEE paralela. Tanto a oficial quanto a alternativa eram

consideradas clandestinas pela polícia e funcionavam no mesmo local: o Crusp,

conjunto residencial da Universidade de São Paulo.

Catarina foi a primeira adversária política de Dirceu, mas acabaria ofuscada pela

glamourização do rival. Alto, de cabelos compridos, com a barba sempre por fazer,

e bom de palanque, enfileirava namoradas e seguidores. Chamado ironicamente de

“Alain Delon dos pobres”, ou de “Ronnie Von das massas”, passou a viver o papel

de herói do movimento estudantil e, pois, o de vilão dos militares. Suas ações

ousadas — como a invasão da reitoria da USP, a queima de um boneco fardado,

que representava o presidente Costa e Silva, e a destruição do palanque do

governador Abreu Sodré nas comemorações do Dia do Trabalho — reforçavam o

mito.

“Quando a UEE se dividiu entre os grupos do Dirceu e da Catarina Meloni, fiquei

ao lado dela. Mas as discussões eram muito teóricas, só falavam de marxismo.

Enquanto a Catarina falava, falava e falava sobre Marx, o Dirceu agia, enfrentava a

polícia, invadia a Maria Antônia e atacava a direita. Ele era muito sedutor. Eu mudei

de lado, como quase todo o grupo da Catarina, que ficou isolada” — relembra o

filósofo Roberto Romano, na época estudante do Instituto de Filosofia e Teologia.

A fama o obrigou a tomar precauções para se manter em liberdade, já que era

processado por “organizar entidade ilegal”, o que, na época, bastava para uma

temporada na cadeia. Abandonou então o apartamento da alameda Barros e se

acostumou a dormir cada noite em um local diferente. Andava armado e protegido

por seguranças — um deles, Roberto Romano. Aparecia na PUC rapidamente, para

fazer uma prova ou comandar uma assembleia. Mesmo assim, completou os três

primeiros anos de faculdade.

Quarenta anos depois, Romano seria um dos mais renomados filósofos do Brasil

e um dos principais críticos do grupo político de Dirceu.

A invasão da Maria Antônia, naquele 24 de junho, fora planejada para durar poucos

dias, no máximo uma semana. Mas a falta de repressão e a boa repercussão entre

estudantes, intelectuais, artistas e políticos fizeram com que Dirceu e sua turma a

transformassem em ocupação permanente.

Dois dias depois, uma passeata organizada por estudantes — que reuniu 100 mil

pessoas, no Rio de Janeiro — daria ainda mais visibilidade ao movimento. Vladimir

Palmeira, que comandava os estudantes fluminenses, e Dirceu se tornavam os

rostos mais expressivos da oposição brasileira.

A Maria Antônia é uma rua de localização estratégica. Seus dois quarteirões vão

da Consolação à Dona Veridiana, ligando o Centro a Higienópolis. Num prédio cinza

de cinco andares, com colunas gregas na entrada, funcionava a Faculdade de

Filosofia da USP, controlada por professores e alunos de esquerda, contrários ao

governo militar. Bem em frente à Universidade Mackenzie, simpática à ditadura e

que abrigava a sede do Comando de Caça aos Comunistas, o CCC. Um quarteirão

abaixo, na rua Doutor Vila Nova, ficava a Faculdade de Economia da USP.

Tudo girava em torno das faculdades — bares, restaurantes, livrarias, lojas de

roupas e um supermercado. Quem sempre mandou na rua foram os estudantes.

Por isso foi fácil montar barricadas com tábuas, paralelepípedos e tubos de esgoto

da prefeitura, fechar os dois quarteirões e transformar o espaço no símbolo da luta

contra a ditadura.

Sob o comando de Dirceu, os estudantes estabeleceram uma rotina militar no

prédio da Faculdade de Filosofia. Duas mil pessoas passavam por lá a cada dia —

para entrar, era necessário se identificar e atravessar uma barreira de segurança.

A brigada de guarda era formada por trezentos alunos, bons em artes marciais e

defesa pessoal, que se revezavam na vigia do edifício e na proteção de seus

líderes, armados com paus, pedras, canos, coquetéis molotov e revólveres. Mais do

que uma invasão da polícia, o temor era um ataque do CCC do Mackenzie.

A sacada da escola se transformou no depósito de munição. Os jovens

passavam a noite por lá, armados e com binóculos nas mãos. Na segunda

madrugada de ocupação, parte dessa munição foi usada contra os estudantes do

CCC. Houve troca de tiros, vidros quebrados e muita gritaria. A batalha só

terminou quando, da sacada, foi arremessado, contra os mackenzistas, um

coquetel molotov de aço, muito mais forte que o de garrafa de vidro, pois

espalhava mais estilhaços. Depois daquele confronto, o CCC não voltou mais a

atacar. Era sempre esperado, porém.

Além da segurança, havia comissões de manutenção, imprensa, propaganda e

programação. Os jornalistas podiam entrar, mas eram obrigados a ficar em uma

sala no térreo, de onde só saíam com autorização. Todos os jornais e revistas

eram tratados como veículos da burguesia e dos militares, com exceção do Jornal

da Tarde, vespertino do Grupo Estado, cujas reportagens defendendo os estudantes

eram coladas nas paredes pichadas com slogans oposicionistas.

Na entrada da sala de imprensa, um aviso evidenciava o clima:

Aos repórteres: não saiam desta sala. Tragam, na sua próxima visita, um

exemplar de seu jornal. Isto é uma cortesia e um dever cívico. De zero às

oito horas não há expediente, salvo em caso de extrema gravidade. Ajudem a

manutenção da ordem nesta sala. As informações sobre comícios-

relâmpagos só serão dadas quinze minutos após a saída por participantes.

Não mexam nos papéis que estão sobre a mesa. As fotografias estão

proibidas.

O presidente da UEE era o principal responsável pela aversão à imprensa. Na

lousa da sala onde dava entrevistas, outra mensagem de calculada hostilidade:

“Imprensa burguesa! Fique sentadinha nas cadeiras, sem tirá-las do lugar!”

Invariavelmente, as entrevistas eram precedidas da execução da Internacional, hino

do movimento comunista, nos alto-falantes da faculdade.

Os três bares da rua — Recanto dos Estudantes, Faculdade e Acadêmico — viviam

lotados. Em uma noite, na primeira semana de ocupação, faltou presunto, salame,

queijo e pão para sanduíches. A cerveja também acabou — as caixas que

chegavam eram abertas sem nem passar pela geladeira, o que não chegava a ser

problema naqueles dias gelados de julho. De madrugada, os bares faziam rodízio e

um deles sempre ficava aberto até mais tarde. Os estudantes passavam o tempo

ali tomando batida, conhaque e cerveja — Coca-Cola era censurada, um símbolo do

capitalismo ianque. Cantavam sambas antigos e músicas de Chico Buarque e

Caetano Veloso.

Toda noite, uma rodada de sopa gratuita era servida para os alunos sem dinheiro

na cantina do quarto andar, onde havia um bem-humorado cardápio fixado com as

seguintes iguarias: “Consomê a Mao”, “Patê a Ho Chi Minh” e “Bananas da

Tropicália”. Apenas brincadeira. A única receita que saía das panelas era sopa de

ervilhas. Com os bares fechados e o jantar servido, uma tora de madeira era

colocada por trás da porta principal da faculdade, por volta das duas da madrugada.

Só quem iria pernoitar podia ficar. Em geral, ficavam de trinta a quarenta

estudantes, que só poderiam começar a sair às sete horas.

Na segunda semana, uma bela morena, alta, de cabelos cacheados e roupas

justas, começou a circular pela ocupação. Dizendo-se estudante de arquitetura,

conversava com todos, lia e acompanhava as entrevistas. Logo atraiu a atenção de

Dirceu, que a convidou para um chope no bar Faculdade, mesmo tendo namorada

fora da Maria Antônia. Na mesma noite, os dois já dormiram juntos, na sala do

Departamento de Grego, que ganhara o nome de “matadouro do chefe”.

Os responsáveis pela segurança, no entanto, desconfiaram da garota. “Ô, Zé,

toma cuidado. Quem é essa menina? Como ela apareceu?” — insistia Jeová de

Assis, o principal guarda-costas do líder da ocupação.23 Na terceira vez que a

levou para a sala de grego, deixou sobre a mesa uma capanga, onde guardava um

revólver calibre 22, e foi ao banheiro. Quando voltou, a garota manuseava a arma

com habilidade, montando e desmontando com uma mão só — coisa de

especialista.

Dirceu nada falou. Guardou a pistola, passou as duas horas seguintes com ela na

cama e, em seguida, levou-a de volta ao pátio da faculdade. Então, contou o que

acontecera a Jeová, que tirou a chave da bolsa dela sem que percebesse e foi ao

seu apartamento, no centro da cidade. Lá estavam os relatórios e informes da

ocupação e fotos dos principais líderes. Todos identificados corretamente. A

garota, Heloísa Helena Magalhães, era uma agente infiltrada do Dops, a temida

polícia política paulista. Ela ganhou o apelido de “Maçã Dourada”, objeto do desejo e

da destruição na mitologia grega. Com a prova da traição nas mãos, Heloísa foi

trancada na sala da segurança. No dia seguinte, 9 de julho, em uma entrevista

coletiva, revelou-se a infiltração e anunciou-se devolução da espiã aos pais.

O romance causou prejuízos pessoais e políticos a Dirceu. A namorada oficial,

ao saber da história pelos jornais, o abandonou. E a Ação Popular de Catarina

Meloni, que se opunha à invasão, usou o episódio para provocá-lo. Até uma música

foi composta para ironizá-lo, paródia da marchinha Jardineira, de Orlando Silva:

Mas ô Dirceu por que estás tão triste?

Mas o que foi que te aconteceu?

Foi a Heloísa que dedou a turma

Fez bilhetinhos e a turma prendeu24

“Me tiraram o maior sarro com essa história de ‘Maçã Dourada’. Eu tinha que

aguentar as músicas. Eu ia para a plenária e começavam a cantar. Tínhamos uns

painéis grandes, para fazer agitação, e virava e mexia tinha um versinho lá. E os

amigos também começaram a gozar com a minha cara. Eles escreviam poemas,

contos eróticos. Paguei o maior mico” 25 — relataria, anos mais tarde, José Dirceu.

A presença de espiões era um risco calculado em uma ocupação que ganhara uma

dimensão inesperada e que duraria quase quatro meses. Dirigentes do movimento

estudantil de outros estados foram à Faculdade de Filosofia da USP lançar a

candidatura de Dirceu à presidência da União Nacional dos Estudantes, em eleição

que aconteceria ainda em 1968. Entre eles, Vladimir Palmeira, do Rio, e José

Genoino Neto, do Ceará. Nesta ocasião, depois de sair da Maria Antônia, Genoino foi

preso. Tentara embarcar para o Rio de Janeiro com “material subversivo” recebido

de Dirceu, conforme relatório do Dops. Genoino seria condenado a dezesseis meses

de detenção.

Professores, como Otaviano Helene e Fernando Henrique Cardoso, e os artistas

Gianfrancesco Guarnieri, José Wilker e Chico Buarque, por meio de coletas em

portas de cinemas e teatros, ajudaram a arrecadar dinheiro para o movimento.

Intelectuais estrangeiros, como o cineasta cubano Alfredo Guevara, chegavam para

conhecer a ocupação, que ganhava as páginas de jornais internacionais.

A descoberta de “Maçã Dourada”, contudo, não inibiu outros adversários de se

instalarem na Maria Antônia em busca de informações. Esses, entretanto, tiveram

um tratamento bem mais duro do que a simples devolução aos pais. O soldado da

Força Pública Paulo Ribeiro Nunes e o estudante do Mackenzie João Parisi Filho,

membro do CCC, descobertos enquanto se passavam por militantes do movimento

estudantil, foram levados vendados ao Conjunto Residencial da USP, o Crusp, onde

os apartamentos 109, 110 e 111 do bloco G eram utilizados como uma “delegacia

informal” da turma de Dirceu. Lá, foram interrogados e mantidos em cárcere

privado. Nunes seria liberado no primeiro dia, pois sua situação de policial em

cumprimento de ordem superior servira de atenuante. A Parisi, porém, foi dado

tratamento de inimigo de guerra, segundo relato do delegado do Dops Alcides

Cintra Bueno Filho, em documento de 18 de agosto de 1970:

Por determinação do ex-líder estudantil José Dirceu de Oliveira e Silva

concretizou-se o sequestro do então universitário João Parisi Filho, da

Universidade Mackenzie. João Parisi Filho foi levado para o Conjunto

Residencial da Universidade de São Paulo, onde permaneceu em cárcere

privado por vários dias, submetido a sevícias. Nesse conjunto residencial,

Parisi foi conduzido vendado e algemado, onde foi submetido a interrogatório,

sob ameaça de morte. A vítima permaneceu presa durante dias, em

condições desumanas. Após ter passado por esses atos de atrocidade, o

estudante Parisi foi conduzido de olhos vendados para a copa do quinto andar

do pavilhão G, onde foi trancafiado por uma noite e dois dias, permanecendo

nesse local todo esse tempo deitado, com as mãos algemadas e presas ao

cano da pia daquela dependência. Nessa situação foi encontrado por duas

empregadas que fazem a limpeza.

Um inquérito foi instaurado para apurar o sequestro de Parisi. Vinte testemunhas

foram ouvidas, entre estudantes, funcionários da USP e policiais. Todos

confirmaram que a ordem de manter o rival em cárcere privado partira de Dirceu,

que chegou a participar de sessões de interrogatório às quais Parisi foi submetido.

Documentos inéditos arquivados no Superior Tribunal Militar revelam toda a

apuração do caso.26 Dirceu, intimado a depor, jamais apareceu no Dops. Três anos

depois do caso, seria condenado a dezoito meses de prisão por cárcere privado.

Como estava foragido, não chegou a cumprir pena. Tampouco recorreu da

condenação.

O Crusp, além de delegacia, servia como paiol para o movimento estudantil. No

bloco B, decorado com uma viatura da polícia incendiada, foi montada uma central

de alarme com sirenes tiradas desse e de outros carros oficiais, conforme

demonstrado em relatório do Dops de posse do Arquivo Público de São Paulo.27

Quando a polícia conseguiu invadir o local, achou no apartamento 611 um arsenal

de respeito: uma espingarda Winchester 44, uma espingarda Colt calibre 36, uma

espingarda Boston calibre 36 de cano duplo, um rifle calibre 22, uma espingarda

Browning de repetição, dois facões, uma adaga, um punhal, uma pistola Steyr 765,

um revólver calibre 32, uma granada, uma caixa de balas, 350 cartuchos de calibre

22, cinco metros de estopim, dois cartuchos de pólvora, uma caixa de espoleta,

dois estilingues, um morteiro, dezesseis coquetéis molotov e uma lata de

querosene. Mais de 2 mil livros considerados subversivos foram apreendidos nos

apartamentos decorados com pichações políticas, como “Abaixo a ditadura”, e

comportamentais, como “Virgindade dá câncer”.

Com a invasão da Maria Antônia na capa de todos os jornais e o movimento se

armando para a guerra, o cerco ao seu líder foi sendo fechado. Em 3 de setembro,

sua prisão preventiva seria pedida pelo delegado Ruy de Ulhoa Canto, do Dops, que

acompanhara passeatas e fizera um relatório detalhado da atuação de Dirceu,

documento que permanecia inédito no Arquivo Público de São Paulo, em um

vocabulário empolado e cheio de adjetivos:28

Qual novo Mathusalém, um jovem de cabelos longos, portando alto-falante,

dirigia-se a seus jovens comandados, dos quais merecia inobjetável atenção.

Em meio a palavras de ordem, interrompia as manifestações, voltando aos

presentes em termos de açulamento, compelindo-os à “luta contra a ditadura

e o imperialismo norte-americano”. Habituado a esse tipo de investigação, o

miliciano supra epigrafado de pronto identifica a estranha personagem: JOSÉ

DIRCEU DE OLIVEIRA E SILVA, sodizente [ sic] presidente da União Estadual

dos Estudantes e obstinado agitador das despreparadas camadas estudantis

deste estado. Cercado pela fidelidade de seus correligionários, envolve-se em

chamada linha de segurança, exercida por adolescentes, radicalizados pela

irresponsabilidade e marginalizados pelo abandono sistemático de pais

omissos.

Exaurem-se os cabeçalhos jornalísticos, as entrevistas em meio à classe

universitária, os relatórios dos setores especializados deste departamento e,

até a opinião pública, em torno da posição de JOSÉ DIRCEU DE OLIVEIRA E

SILVA na liderança absoluta da agitação estudantil da nossa capital. A sua

posição é marcada pelo acinte e desrespeito à autoridade, afrontando-a com

entrevistas noticiadoras de passeatas e outras exibições públicas vedadas

pela lei: renitente e pertinaz, qualifica-se presidente da entidade

representativa tornada ilegal, por meio de sinistra eleição, motivadora de

inquérito em fase final de apuração. Em o evento ora apurado, irrompe-se a

sua presença, capitaneando a baderna, em posição de franca sobrevalência,

levando-nos a representar a V. Excel. pela necessidade intransferível de ser

decretada a prisão preventiva de JOSÉ DIRCEU DE OLIVEIRA E SILVA, de

cuja periculosidade e responsabilidade nos insuportáveis fatos impingidos à

laboriosa e paciente população desta capital, não podem merecer contestação

pelo que, reiterando a nossa representação nos termos do artigo 54 do

decreto-lei 314, de 13 de março de 1967.

Procurado pela polícia, Dirceu desapareceu da Maria Antônia e do Crusp. Dormia

cada noite em um lugar e teve reforçada a segurança. Amigos o aconselhavam a

fugir para o exterior. Otaviano Helene lhe ofereceu ajuda para que chegasse ao

Chile. Alfredo Guevara insistiu para que o acompanhasse a Cuba. Mas ele recusou.

Não queria tomar nenhuma decisão antes de desocupar com segurança a Faculdade

de Filosofia e ser eleito presidente da União Nacional dos Estudantes.

Notas

22 Como publicado na edição da Folha de S. Paulo de 6 de junho de 1967.

23 Em entrevista a Caio Túlio Costa para o Projeto Memória do Movimento

Estudantil, em 17 de dezembro de 2005.

24 Conforme relato publicado na edição de janeiro de 1992 da revista Playboy.

25 Em entrevista a Caio Túlio Costa para o Projeto Memória do Movimento

Estudantil, em 17 de dezembro de 2005.

26 O inquérito sobre o sequestro de João Parisi Filho está registrado no Arquivo

Público de São Paulo sob os números 50-C-22-6042 e 6043 e, no Superior Tribunal

Militar, é arquivado como auditoria 131/70.

27 A lista de materiais apreendidos está catalogada no Arquivo Público de São

Paulo com o número 50C-22-6267.

28 Relatório disponível no Arquivo Público de São Paulo sob o número 50C-22-1944.

4

A guerra dos estudantes

“Vamos recuar. Vai ser um massacre.

Eles vão começar a matar estudante,

eles vão destruir, eles vão ocupar a faculdade.”

José Dirceu, ordenando a desocupação

da Faculdade de Filosofia da USP.

Megafone na mão, o homem cabeludo e de barba por fazer, que usava calça jeans

e blusão preto, dava ordens enquanto, com a outra mão, apoiava-se na janela

superior de um sobrado na rua Doutor Vila Nova: “Dinheiro para comprar gasolina,

rápido! Não recuem! Ataquem! ”29 Os estudantes que ocupavam a Faculdade de

Filosofia da USP tentavam seguir as orientações de seu líder, José Dirceu, que

reaparecera na véspera daquela quinta-feira, 3 de outubro de 1968, após uma

semana escondido.

Mas não era fácil. O grupo estava encurralado. De cima, era pressionado pelos

estudantes do Mackenzie — membros do Comando de Caça aos Comunistas e de

duas outras facções de direita, que haviam tomado a rua Maria Antônia. Por baixo,

pela polícia, que reprimia com armas os militantes da União Estadual dos

Estudantes que buscavam chegar à Praça da República em passeata. Após cem

dias de ocupação, a polícia decidira retomar a Faculdade de Filosofia e prender

seus líderes.

Os mais fortes foram escalados para sair à rua e enfrentar a polícia e o CCC.

Os que atiravam melhor ficaram entrincheirados na sacada da faculdade, instruídos

a reagir à bala contra qualquer tentativa de invasão. Por volta das duas horas da

tarde, chegou a notícia de que o estudante secundarista José Guimarães, de 20

anos, fora morto com um tiro na cabeça. Dirceu, pelo megafone, começou um

discurso que misturava uma tentativa de reorganizar a massa, que dispersava, e

um ataque à truculência da repressão — embora jamais tenha sido provado que o

tiro fatal partira da arma de um policial. Com a chegada da polícia e a morte do

estudante, a ordem de ataque foi substituída, em questão de minutos, por um

recuo estratégico: “Vamos recuar. Vai ser um massacre. Eles vão começar a

matar estudante, eles vão destruir, eles vão ocupar a faculdade.” 30 Até aquela

tarde, a batalha contrapunha apenas Mackenzie e USP. A entrada em cena da

polícia, contudo, mobilizaria um instinto de preservação que beirava a covardia.

Em seus dois quarteirões, a Maria Antônia representava um microcosmo da

divisão ideológica do mundo em 1968. O globo terrestre estava demarcado entre

comunistas e capitalistas. A guerra fria encontrava-se no auge e a invasão dos

Estados Unidos a Cuba era iminente. A ditadura dos generais apertava o cerco aos

oposicionistas, que eram presos ou deixavam o Brasil. Todos tinham lado nessa

guerra. E a Maria Antônia era pequena demais para abrigar ambos. Depois de cem

dias, um deles teria de sair. À força.

A Batalha da Maria Antônia tivera início às dez da manhã do dia anterior, 2 de

outubro. Estudantes secundaristas, que serviam de massa de manobra para a UEE

comandada por Dirceu, cobravam pedágio na esquina da Consolação com a Maria

Antônia. Pretendiam arrecadar dinheiro para o congresso da União Nacional dos

Estudantes, que aconteceria ainda naquele mês. Quando o grupo deixou a esquina e

passou a marchar pela Maria Antônia, foi surpreendido pelos estudantes do

Mackenzie, que começaram a arremessar ovos podres.

Desarmados e em menor número, os secundaristas procuraram proteção no

prédio da USP, como combinado, dando início a uma briga generalizada, semelhante

às que acontecem hoje entre torcidas organizadas de futebol, que não existiam

naquela época de paz nos estádios e devoção a Pelé. “No fim da tarde começou a

batalha, que duraria dois dias. O enfrentamento foi duríssimo” — relembraria

Dirceu. 31

À noite, a polícia cercou o quarteirão, chamada pela reitora do Mackenzie, Esther

de Figueiredo Ferraz, que seria, em 1982, a primeira mulher a ocupar um ministério

no Brasil, o da Educação e Cultura. A situação se acalmou. Emissários de Dirceu se

reuniram com a polícia e aceitaram a exigência de retirar as barricadas que

impediam o trânsito na rua. A tendência era de desocupação pacífica, com os

policiais deixando os estudantes saírem do local sem prendê-los.

A madrugada e o início da manhã seguiriam em relativa paz. Entretanto, por

volta das 9 horas do dia 3, estudantes do Mackenzie foram ao prédio da USP e

arrancaram a enorme faixa, com a mensagem “Abaixo a ditadura”, que decorava a

fachada. Aquele pedaço de pano de quinze metros, que caíra do quinto andar ao

térreo, era o símbolo da ocupação. Assim que foi retirado, a luta recomeçou. Até o

meio-dia, pedras eram atiradas de uma faculdade à outra. Depois, rojões, bombas,

molotovs, barras de ferro, pedaços de pau. Os gritos de guerra ecoavam dos dois

lados. Os mackenzistas eram chamados de “nazistas” e “gorilas”, enquanto os

uspianos, de “guerrilheiros fajutos”.

Os alunos do Mackenzie tinham uma vantagem geográfica: seu edifício ficava

em um ponto mais alto da rua, além de ser protegido por um muro maior. Assim,

era mais fácil jogar os rojões com vidros de ácido sulfúrico na ponta, que

atravessavam as janelas e queimavam a pele dos rivais. Seis estudantes foram

atendidos com queimaduras em uma enfermaria improvisada, que tinha na lousa

um alerta: “Queimadura de ácido: água não!”

Mais do que a topografia favorável, os alunos do Mackenzie contavam com a

ajuda do Dops, que fornecia armas aos membros do CCC. A única vantagem

estratégica dos ocupantes era a facilidade de fuga, pois o prédio da USP tinha uma

saída lateral que dava para a rua Doutor Vila Nova.

O tiroteio começou uma hora depois. O CCC atirava de carabina, ao que era

respondido com disparos de metralhadora. Um aluno de economia da USP, José

Antônio Rodrigues, levou um balaço no ombro, alvejado pelos rivais do Mackenzie.

Quando policiais chegaram para socorrê-lo, foram cercados pelos estudantes, que

tentavam tomar-lhes as armas. Tiros para cima dispersaram a multidão e

permitiram o socorro. Na confusão, o capacete de um policial caiu e foi levado

como troféu para o edifício da Filosofia.

Os oposicionistas estavam em menor número e tinham menos munição. Com

medo de um massacre, Dirceu ordenou que os estudantes saíssem do prédio em

passeata — apenas os atiradores de elite ficariam na varanda, além de um grupo

de seguranças, na porta.

Na rua, achava que seria possível resistir. Havia um acerto com Carlos

Marighella: o Grupo Tático Armado da ALN, a Ação Libertadora Nacional, cederia

armas e homens para que os estudantes resistissem à desocupação. O acordo fora

fechado dias antes por Paulo de Tarso Venceslau e Jeová de Assis, dirigentes

estudantis que militavam no grupo armado da ALN e que ensaiavam os primeiros

passos na guerrilha urbana. Mas, pego de surpresa e encurralado com a chegada

repentina da polícia, Dirceu não conseguira acionar o esquema a tempo. Saiu da

Maria Antônia, deixando a maioria dos seus comandados à própria sorte, e partiu

em passeata — com um grupo que teria entre cem e duzentos estudantes — rumo

à praça da Sé.

Logo no início da marcha, um estudante chegou correndo. Trazia uma camisa de

linho branco toda ensanguentada — era a que Guimarães vestia quando baleado.

Dirceu pegou a peça nas mãos, subiu em um poste em frente à Faculdade de

Direito da USP, no Largo São Francisco, e iniciou um discurso: “Colegas, essa

camisa é do nosso companheiro morto pelas forças da repressão. Vamos todos

para a Cidade Universitária fazer uma assembleia para decidir nossos próximos

passos.” 32 No caminho até a Cidade Universitária, percurso ao longo do qual dois carros da polícia seriam queimados, a passeata foi reforçada pelos estudantes que

conseguiram fugir do cerco na Maria Antônia.

Enquanto isso, 240 soldados — com dois tanques, cem cavalos e cinquenta cães

— invadiram a Faculdade de Filosofia da USP e prenderam os últimos vinte

estudantes que resistiam. Os cem dias de ocupação já haviam castigado o local,

que a chegada da polícia acabaria de destruir. As aulas daquele final de ano seriam

transferidas para a Cidade Universitária. O prédio, depois de uma reforma, foi

cedido à Junta Comercial, em uma tentativa do governo militar de apagar as

memórias do período de ocupação. Apenas em 1993 seria devolvido à USP.

Os estudantes do Mackenzie assistiram à invasão da polícia cantando o Hino

Nacional e foram comemorar a vitória tomando cerveja nos três bares da rua.

Fotos dos líderes da ocupação em páginas de jornal serviam de alvo para jogos de

dardos.

Com medo de ser preso, José Dirceu preferiu não dormir na Cidade Universitária.

Depois da assembleia, que nada decidiu, escondeu-se na casa de uma nova

namorada, Silvia, a menos de um quilômetro da Maria Antônia.

Notas

29 Conforme publicado na edição de 3 de outubro de 1968 do Jornal da Tarde.

30 Dirceu, José e Palmeira, Vladimir; Abaixo a Ditadura. Garamont, 1998.

31 Idem.

32 Conforme publicado no Jornal da Tarde de 3 de outubro de 1968.

5

700 presos na lama

“Foi uma grande farra. Foi um tal de namorar, um tal de beijar na boca, um tal de

ser feliz. Eu acho fantástico que as pessoas façam questão de não se lembrar. Eu

me lembro e acho o máximo. A gente era jovem, cara. A gente era normal,

entendeu?”

Maria Augusta Carneiro Ribeiro, participante

do congresso da UNE em Ibiúna.

Passavam poucos minutos das cinco da manhã de 12 de outubro de 1968, um

sábado gelado e nublado, quando José Dirceu foi acordado por um assustado

Vladimir Palmeira, presidente da União Metropolitana dos Estudantes, do Rio de

Janeiro: “Acorda rápido, Zé, a polícia tá chegando!”. Dirceu demorou alguns

instantes para entender o que acontecia, naquela manhã ainda escura, no sítio

Murundu, no bairro São Sebastião, em Ibiúna, cidade de 5 mil habitantes a 70

quilômetros de São Paulo.

Ele dormia em uma tenda para se proteger da chuva e do frio, ao lado das

lideranças e dos organizadores do 30º congresso da União Nacional dos Estudantes,

o quarto seguido na clandestinidade. Dirceu era o candidato favorito à presidência

da UNE. Concorreria pela Dissidência Comunista. Seus rivais eram Jean Marc von

der Weid, da situacionista Ação Popular, e Marcos Medeiros, do Partido Comunista

Brasileiro Revolucionário. Outras cinco organizações clandestinas participavam do

congresso — Partido Comunista Brasileiro (PCB), Ação Libertadora Nacional (ALN),

Política Operária (Polop), Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) e Movimento

Revolucionário 8 de Outubro (MR-8). Com exceção da Polop, que estava com Jean

Marc, todas apoiavam a chapa da Dissidência, o que certamente garantiria a vitória

de Dirceu.

Olheiros do movimento espalhados em estradas próximas tinham visto dezenas

de carros da polícia e do Exército na estrada que ligava o centro de Ibiúna ao

Murundu. Em motos, chegaram à tenda dos chefes para dar o alarme. Antes das

5h30, os dirigentes já se reuniam para decidir se fugiriam imediatamente,

abandonando os cerca de setecentos congressistas que dormiam à própria sorte

em alojamentos improvisados em currais, ou se acordariam todos para tentar uma

improvável fuga organizada em massa.

Nesse momento, irrompeu uma acalorada discussão entre Dirceu e Luís

Travassos, presidente da UNE e coordenador da campanha de Jean Marc. “É golpe

de vocês, porque sabem que vão perder a eleição. Não tem nada disso de polícia.

Vocês querem é melar o congresso” — acusava Travassos. “Quem vai ganhar sou