Discurso sobre a História da Literatura do Brasil por Gonçalves de Magalhães - Versão HTML

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MINISTÉRIO DA CULTURA

Fundação Biblioteca Nacional

Departamento Nacional do Livro

DISCURSO SOBRE A HISTÓRIA DA LITERATURA DO BRASIL*

MANIFESTO PUBLICADO NA REVISTA NICTHEROY EM 1836

Domingos José Gonçalves de Magalhães

I

A literatura de um povo é o desenvolvimento do que ele tem de mais sublime nas idéias,

de mais filosófico no pensamento, de mais heróico na moral e de mais belo na natureza; é o

quadro animado de suas virtudes e de suas paixões, o despertador de sua glória e o reflexo

progressivo de sua inteligência. E, quando esse povo, ou essa geração, desaparece da superfície

da terra, com todas as suas instituições, crenças e costumes, escapa a literatura aos rigores do

tempo para anunciar às gerações futuras qual fora o caráter e a importância do povo, do qual é ela

o único representante na posteridade. Sua voz, como um eco imortal, repercute por toda parte, e

diz: em tal época, debaixo de tal constelação e sobre tal ponto do globo existia um povo cuja

glória só eu a conservo, cujos heróis só eu conheço. Vós, porém, se pretendeis também conhecê-

lo, consultai-me, porque eu sou o espírito desse povo e uma sombra viva do que ele foi.

Cada povo tem sua história própria, como cada homem seu caráter particular, cada árvore

seu fruto específico, mas esta verdade incontestável para os primitivos povos, algumas

modificações, contudo, experimenta entre aqueles cuja civilização apenas é um reflexo da

civilização de outro povo. Então, como nas árvores enxertadas, vêm-se pender dos galhos de um

mesmo tronco frutos de diversas espécies. E, posto que não degenerem muito, os do enxerto

brotaram, contudo algumas qualidades adquirem, dependentes da natureza do tronco que lhes dá

o nutrimento, as quais os distinguem dos outros frutos da mesma espécie. Em tal caso, marcham a

par as duas literaturas e distinguir-se pode a indígena da estrangeira.

Em outras circunstâncias, como as águas de dois rios, que em um confluente se anexam,

as duas literaturas de tal jeito se aliam que impossível é o separá-las. A Grécia, por exemplo,

tinha uma literatura que lhe era própria, que lhe explica suas crenças, sua moral, seus costumes,

uma literatura toda filha de suas idéias, uma literatura, enfim, toda grega.

A Europa de hoje, ou tomemos a França, ou a Inglaterra, ou a Itália, ou a Espanha, ou

Portugal, apresenta o exemplo da segunda proposição. Além da literatura que lhe é própria, dessa

literatura filha de sua civilização, originária do cristianismo, nós aí vemos outra literatura, que

chamamos enxertada, e que não é mais do que uma lembrança da mitologia antiga e uma

recordação de costumes que não são seus. E não só as duas literaturas marcham a par, como

muitas vezes o mesmo poeta se vota à cultura de ambas e, como diz Tasso, falando do mágico

Ismeno:

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Anzi sovente in uso empio e profano

Confonde le due leggi a se mal nota.

Para prova da terceira proposição, no caso em que as literaturas de modo tal se mesclam

que não é possível separá-las, vemos, na literatura romântica da Espanha, uma mistura de idéias

cavalherescas e arábicas, restos da antiga civilização dos Árabes; algumas vezes ela é cristã na

sua matéria, é arábica quanto à forma.

Mas não são estas as únicas modificações que entre os diversos povos experimenta a

literatura; outras há que, da natureza mesmo [sic] do homem, da civilização e do progresso,

dependem. Porque seja qual for a modificação que sofra a literatura, há sempre algum acordo

entre ela e as circunstâncias peculiares e temporárias do povo a que pertence e da inteligência que

a produz. Assim, a literatura é variável como são os séculos; semelhante ao termómetro que sobe

ou desce, segundo o estado da atmosfera.

Por uma espécie de contágio, uma idéia lavra às vezes entre os homens de uma mesma

época, reúne-os todos em uma mesma crença, seus pensamentos se harmonizam e para um só fim

tendem. Cada época representa então uma idéia que marcha escoltada de outras que lhe são

subalternas, como saturno, rodeado dos seus satélites. Essa idéia principal contém e explica as

outras idéias, como as premissas do raciocínio contêm e explicam a conclusão. Essa idéia é o

espírito, o pensamento mais íntimo de sua época; é a razão oculta dos fatos contemporâneos.

A literatura, abrangendo grande parte de todas as ciências e artes e, sendo elas filha e

representante moral da civilização, é mister um concurso de extensos conhecimentos para se

poder traçar a sua história geral ou particular e não perder-se de vista a idéia predominante do

século, luminoso guia na indagação e coordenação dos fatos, sem o quê a história é de pouco

valor e seu fim principal iludido.

Aplicando-se agora, especialmente ao Brasil, as primeiras questões que se nos apresentam

são: qual é a origem da literatura brasileira ? Qual o seu caráter, seus progressos e que fases tem

tido ? Quais os que a cultivaram e quais as circunstâncias que, em diversos tempos, favoreceram

ou tolheram o seu florescimento ? É, pois, mister remontar-nos ao estado do Brasil depois do seu

descobrimento e daí, pedindo conta à história - e à tradição viva dos homens - de como se

passaram as coisas, seguindo a marcha do desenvolvimento intelectual e, pesquisando o espírito

que a presidia, poderemos apresentar, senão acabado, ao menos um verdadeiro quadro histórico

da nossa literatura.

Mas, ante de encetar a matéria, uma consideração aqui nos demora e pede o caso que a

explanemos. Lugar é este de expormos as dificuldades que na execução deste trabalho

encontramos. Aqueles que alguns lumes de conhecimento possuem, relativos à nossa literatura,

sabem que mesquinhos e expassos [ sic] (escassos) são os documentos que sobre ela se podem

consultar. Nenhum nacional, que saibamos, ocupado se tem até hoje de tal objeto. Dos

estrangeiros, Bouterwech, Sismonde de Sismondi e Mr [ sic] Ferdinand Dinis alguma coisa

disseram. O primeiro, apenas conhecia Claudio Manuel da Costa, de quem alguns extratos

apresenta; o segundo, inteiramente se pautua pelo primeiro e a menção que faz de alguns

Brasileiros fora mesmo excluída do plano da sua obra sobre a Literatura do Meiodia da Europa,

se nela não entrasse como um apêndice à história da literatura portuguesa. No resumo da história

literária de Portugal e do Brasil, por Mr [sic] Ferdinand Dinis, posto que separadas estejam elas,

e porventura mais extenso desenvolvimento ofereça a segundo, contudo basta um lance d‘olhos

para ver-se que ainda está longe de ser completa, servindo apenas para dar uma idéia a

estrangeiros.

Eis tudo o que sobre a literatura do Brasil se tem escrito até hoje, se só por isso nos

guiássemos, na impossibilidade em que ficaríamos de nada poder acrescentar; teríamos preferido

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traduzir esse pouco, o que de nada serviria para a história. Empenhados em dar alguma coisa

mais meritória, começamos por estudar a nossa história e, desde aí, encontramos grandes

embaraços para o nosso escopo. Necessário nos foi a leitura do imenso trabalho biográfico do

Abade Barbosa, para podermos achar, por acaso aqui e ali, o nome de algum Brasileiro distinto

no meio desse aluvião de nomes colecionados, às vezes com bem pouca crítica. Ainda assim,

convinha ler suas obras; eis aí uma quase insuperável dificuldade. Embalde por algumas delas, de

que tínhamos notícia, investigamos todas as Bibliotecas de Paris, de Roma, de Florença, de Pádua

e de outras principais cidades da Itália que visitamos. Foi-nos preciso contentar-nos com o que

pudemos obter. Acresce mais que, dos nossos primeiros poetas, até ignoramos a época do seu

nascimento que tanto apreço damos nós aos grandes homens que nos honram, desses homens cuja

herança é hoje nossa única glória. Essa dificuldade já foi reconhecida pelo ilustre editor do

Parnaso Brasileiro*, cujo trabalho, tão digno de louvor, muito serviu-nos. Enfim, depois de um

longo e enfadonho estudo, vimo-nos quase reduzidos, sem outro guia mais que nosso próprio

juízo, a ler e analisar os autores que pudemos obter, esperando que o tempo nos facilite os meios

para o fim a que nos propomos.

Todos estes tralhos e obstáculos, mencionamos, não com o fito de realçar o mérito deste

bosquejo, mas sim para merecer desculpa das muitas faltas e penúrias que se notem e, outrossim,

para que, à vista de tal incúria e mendiguez[sic], mais zelosos sejamos em pesquisar e conservar

os monumentos de nossa glória para a geração de uma futura, a fim de que nos não exprobre o

nosso desmazelo e de bárbaros não nos acuse, como, com razão, o poderíamos fazer em relação

aos nossos maiores.

Nós pertencemos ao futuro, como o passado nos pertence. A glória de uma Nação que

existe, ou que já existiu, não é senão o reflexo da glória de seus grandes homens. De toda a antiga

grandeza da pátria dos Cíceros e dos Virgílios, apenas nos restam suas imortais obras e essas

ruínas que tanto atraem os olhos do estrangeiro, e, no meio das quais, a moderna Roma se levanta

e se enche de orgulho. Que cada qual se convença do que diz Madame e de Staël: “a glória dos

grandes homens é o patrimônio de um país livre; depois que eles morrem, todos participam dela”.

O aparecimento de um grande homem é uma época para a história e, semelhante a uma

jóia precisa, que só possuímos quando podemos possuí-la, o grande homem jamais se apresenta,

quando o não merecemos. Ele pode existir no meio de nós sem ser conhecido, sem se conhecer a

si mesmo, como o ouro nas entranhas da terra, e só espera que o desencavem para adquirir o seu

valor. A incapacidade que o desconhece, o anula. Empreguemos os meios necessários e temos

grandes homens. Se é verdade que a recompensa anima o trabalho, a recompensa do g6enio é a

glória e, segundo um belo pensamento de Madame de Staël: “o g6enio no meio da sociedade é

uma dor, um febre interior de que se deve tratar como verdadeira molestia, se a recompensa da

glória lhe não adoça as penas”.

II

O Brasil, descoberto em 1500, jazeu três séculos esmagado debaixo da cadeira de ferro

em que se recostava um Governador colonial com todo o peso de sua insuficiência e de seu

orgulho. Mesquinhas intenções políticas, por não dizer outra coisa, ditavam leis absurdas e

iníquas que entorpeciam o progresso da civilização e da indústria. Os melhores engenhos em flor

morriam, faltos desse orvalho protetor que os desabrocha. Um ferrete ignominioso de

desaprovação , gravado na fronte dos nascidos no Brasil, indignos os tornava dos altos e civis

empregos. Para o Brasileiro, no seu país, obstruídas e fechadas estavam todas as portas e estradas

que podiam conduzi-lo à ilustração. Uma só porta ante seus passos se abria: era a porta do

convento, do retiro, do esquecimento ! A religião lhe franqueava essa porta, a religião a fechava

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sobre seus passos; e o sino que o chamava ao claustro anunciava também sua morte para o

mundo. O gàanio em vida sepultado, cerca de místicas imagens, apenas saía para catequizar os

índios no meio das florestas virgens, ou para pregar aos colonos, nos dias de repouso, as verdades

do Evangelho. Mas em vão. As virtudes do cristianismo não se podiam domiciliar nos corações

desses homens, encharcados de vícios e tirados, pela maior parte, dos cárceres de Lisboa para vir

povoar o Novo Mundo. Deus nos preserve de lançar o opróbrio sobre ninguém. Era então um

sistema o de fundar colônias com homens destinados ao patíbulo; era basear uma Nação nascente

sobre todas as espécies de vícios e de crimes. Tais homens para seus próprios filhos olhavam

como para uma raça degenerada e inepta para tudo. Quanto aos índios, esses infelizes

perseguidos eram, a ferro e fogo, como se fossem animais ferozes. Nem eles em outra categoria

eram considerados pelos seus arrebanhadores. Sabe-se que necessário foi que uma bula do Papa

Paulo III os declarasse verdadeiros homens e capazes, por isso, da fé de Crsito, sem o quê, talvez,

os Europeus os houvessem de todo exterminado ! Da barbaridade de tais homens, traça Simão de

Vasconcelos um quadro bem triste, dizendo: “os Portugueses que ali estavam e começavam a

povoar esses lugares, viviam a modo de gentios e os gentios, com o exemplo destes, iam fazendo

menos conceito da lei de Cristo e, sobretudo, que vivam aqueles Portugueses de um trato

vilíssimo, salteando os pobres Índios, ou nos caminhos, ou em suas terras, servindo-se deles e

anexando-os contra todas as leis da razão”. E mais abaixo diz ainda: viviam ( os Portugueses) do

rapto dos Índios, e era tido o ofício de salteá-los por valentia e por ele eram os homens

estimados”*

Tal era o estado daqueles tempos ! Que podemos nós ajuntar a essas citações ? Tal era

toda a indústria, arte e ciência dos primeiros habitantes portugueses das terras de Santa Cruz !

Triste é, sem dúvida, a recordação dessa época, em que o Brasileiro, como lançado em terra

estrangeira, duvidoso em seu próprio país, vagava, sem que dizer pudesse: “isto é meu, neste

lugar nasci !”. Envergonhava-se de ser Brasileiro e, muitas vezes, com o nome de Português se

acobertava para ao menos aparecer como um ente da espécie humana e poder alcançar um

emprego no seu país. Destarte, circunscrito em tão curto estádio, estranho à nacionalidade e sem

o incentivo da glória, ia este povo vegetando oculto e arredado da civilização.

Quem não dirá que Portugal, com esse sistema opressor, só curava de atenuar e

enfraquecer esta imensa colônia, porque conhecia sua própria fraqueza e ignorava seus mesmos

interesses ? Quem não dirá que ele temia que a mais alto ponto o Brasil se erguesse e lhe

ofuscasse a glória ? Assim é que um bárbaro senhor algema seu escravo, receoso que ele lhe fuja

e só lhe desprende os braços para seu serviço em rústicos trabalhos. A Economia política t em

combatido vitoriosamente o erro que desde muito grassava na política, que um povo não pode

prosperar senão à custa de outro povo e com sacrifício de tudo que o rodeia. A política, essa que,

à imitação dos Romanos e de todos os povos dos baixos tempos, Portugal exerceu sobre o Brasil.

O tempo sancionou as verdades que a história e a memória recente dos fatos nos recordam

e o tempo, prosseguindo em sua marcha, irá mostrando qual é o destino que a Providência tem

marcado a este Império da América. A Deus não praza que esse perigoso fermento que entre nós

gira, esse germe da discórdia, resaibo (?) ainda de não apurada educação, e sobretudo a

escravidão, tão contrária ao desenvolvimento da indústria e das artes e tão perniciosa à moral, não

impeçam sua marcha e engrandecimento.

Parecerão, talvez, estas considerações fora do objeto a que nos propomos, mas

intimamente a ele se ligam e o explicam. Ainda uma vez e por outras palavras diremos que o

nosso propósito não é traçar cronologicamente as biografias dos autores brasileiros mas sim a

história da literatura do Brasil, que toda a história, como todo drama, supõe uma cena, atores,

paixões e um fato que, progressivamente, se desenvolve, que tem sua razão e um fim. Sem estas

condições, não há história, nem drama.

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Através das espessas trevas em que se achavam envolvidos os homens neste continente

americano, viram-se alguns espíritos superiores brilhar de passagem, bem semelhantes e essas

luzes errantes que o peregrino admira em solitária noite nos desertos do Brasil; sim, eles eram

como pirilampos que, no meio das trevas, fosfoream. E poder-se-á, com razão, acusar o Brasil de

não ter produzido inteligências de mais subido quilate ? Mas que povo escravizado pôde cantar

com harmonia, quando o retinido das cadeias e o ardor das feridas sua existência torturaram ?

Que colono tão feliz, ainda com o peso sobre os ombros e, curvado sobre a terra, a voz ergueu no

meio do universo e gravou seu nome nas páginas da memória ? Quem, não tendo a consciência

da sua livre existência, só rodeado de cenas de miséria, pôde soltar um riso de alegria e exalar o

pensamento de sua individualidade ? Não, as ciências, a poesia e as belas-artes, filhas da

liberdade, não são partilhas do escravo, irmãos da glória, fogem do país amaldiçoado, onde a

escravidão rasteja e só com a liberdade habitar podem.

Se refletirmos, veremos que não são poucos os escritores, para um país que era colônia

portuguesa, para um país onde, ainda hoje, o trabalho do literato, longe de assegurar-lhe com a

glória uma independência individual, e um título de mais reconhecimento público, parece, ao

contrário, desmerecê-lo e desviá-lo da liga dos homens positivos que, desdenhosos, dizem: é um

poeta ! sem distinguir se apenas é um trovista ou um homem de gênio, como se dissessem: eis aí

um ocioso, um parasita, que não pertence a este mundo. Deixai-o com a sua mania.

Aí canta o poeta por mera inspiração celeste, por essa necessidade de cantar, para dar

desafogo ao coração. Ao princípio, cantava para honrar a beleza, a virtude e seus amores.

Cantava ainda para adormentar as amarguras da alma, mas logo que a idéia da pátria apareceu aos

poetas, começaram eles a invocá-la para objeto dos seus cânticos. Sempre, porém, como o

peregrino no meio dos bosques que vai cantando sem esperança de recompensa, o poeta brasileiro

não é guiado por nenhum interesse e só o amor mesmo, da poesia e da pátria o inspira. Ele pode

dizer com o épico português:

Vereis amor da pátria, não movido

De prêmio vil.

Se em total esquecimento muitos deles existem, provém isto, em parte, da língua em que

escrevem, que tão pouco conhecida é a língua portuguesa na Europa, principalmente em França,

Inglaterra e Alemanha, onde mais alto soa o brado da fama e colossal reputação se adquire. Em

parte, sobre nós deve recair a censura, que tão pródigos somos em louvar a admirar os estranhos,

quão mesquinhos e ingratos nos mostramos para com os nossos e, deste jeito, visos damos que

nada possuímos. Não pretendemos que a esmo se louve tudo o que nos pertence, só porque é

nosso; vaidade fora insuportável. Mas por ventura vós que consumistes vossa mocidade no

estudo dos clássicos latinos e gregos, vós que ledes Racine, Voltaire, Camões ou Felinto Elíseo e

não cessais de admirá-los, muitas vezes mais por imitação que por própria crítica, dizei-me:

apreciastes vós as belezas naturais de um Santa Rita Durão, de um Basílio da Gama e de um

Caldas ?

Toca ao nosso século restaurar as ruínas e reparar as faltas dos passados séculos. Cada

Nação livre reconhece hoje mais que nunca a necessidade de marchar. Marchar para uma Nação é

engrandecer-se moralmente, é desenvolver todos os elementos da civilização. É pois mister reunir

todos os títulos de sua existência para tomar o posto que justamente lhe compete na grande liga

social, como o nobre recolhe os pergaminhos da sua genealogia para na presença do soberano

fazer-se credor de novas graças. Se o futuro só pode sair do presente, a grandeza daquele se

medirá pela deste. O povo que se olvida a si mesmo, que ignora o seu passado, como o seu

presente, como tudo o que nele se passa, esse povo ficava sempre na imobilidade do império

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Indochinês.

Nada de exclusão, nada de desprezo. Tudo o que poder concorrer para o esclarecimento

da história geral dos progressos da humanidade merecer deve a nossa consideração. Jamais uma

Nação poderá prever o seu futuro, se não conhece o que ela é comparativamente com que ela foi.

Estudar o passado é ver melhor o presente, é saber como se deve marchar para um futuro mais

brilhante. Nada de exclusão; a exclusão é dos espíritos apoucados, que em pequena órbita giram,

sempre satélites, e só brilhantes de luz emprestada. O amante da verdade porém, por caminhos

não trilhados, em tudo encontra interesse e objeto de profunda meditação; como o viajor

naturalista que se extasia na consideração de uma florzinha desconhecida, que o homem bronco

tantas vezes vira com desprezo. O que era ignorado, ou esquecido, romperá destarte o envoltório

de trevas, e achará devido lugar entre as coisas já conhecidas e estimadas.

Depois de tantos sistemas exclusivos, o espírito eclético anima o nosso século; ele se

levanta como um imenso colosso vivo, tendo diante dos olhos os anais de todos os povos, em

uma mão o archote da filosofia aceso pelo gênio da investigação, com a outra aponta a esteira

luminosa onde se convergem todos os raios de luz, escapados do brandão que sustenta. - Luz e

progresso; eis sua divisa.

Não, oh Brasil, no meio do geral movimento tu não deves ficar imóvel e apático, como o

colono sem ambição, e sem esperanças. O gérmen da civilização, lançado em teu seio pela

Europa, não tem dado ainda os frutos que devia dar; vícios radicais têm tolhido seu

desenvolvimento. Tu afastaste de teu colo a mão estranha que te sufoca; respira livremente,

cultiva com amor as ciências, as letras, as artes e a indústria, e combate tudo o que entrevá-las

pode.

III

Não se pode lisonjear muito o Brasil de dever a Portugal sua primeira educação, tão

mesquinha foi ela que bem parece ter sido dada por mãos avaras e pobres; contudo boa ou má

dele herdou, e o confessamos, a literatura e a poesia, que chegadas a este terreno americano não

perderam o seu caráter europeu. Com a poesia vieram todos os deuses do paganismo;

espalharam-se pelo Brasil, e dos céus, e das florestas, e dos rios se apoderaram.

A poesia brasileira não é uma indígena civilizada; é uma grega vestida à francesa e à

portuguesa, e climatizada no Brasil; é uma virgem do Hélicon que, peregrinando pelo mundo,

estragou seu manto, talhado pelas mãos de Homero, e sentada à sombra das palmeiras da

América, se apraz ainda com as reminiscências da pátria, cuida ouvir o doce murmúrio da

castalha, o trépido sussurro do Lodon e do Ismeno, e toma por um rouxinol o sabiá que gorjeia

entre os galhos da laranjeira. Enfeitiçados por esse nume sedutor, por essa bela estrangeira, os

poetas brasileiros se deixaram levar por seus cânticos, e olvidaram a simples imagem que uma

natureza virgem com tanta profusão lhes oferecia. Semelhante à Armida de Tasso, cuja beleza,

artifícios e doces palavras atraíram e desorientaram os principais guerreiros do exército cristão de

Gofredo. É rica a mitologia, são belíssimas as suas ficções, mas à força de serem repetidas e

copiadas vão sensivelmente desmerecendo; além de que, como o pássaro da fábula, despimos

nossas plumas para nos apavonar com velhas galas, que nos não pertencem.

Em poesia requer-se mais que tudo invenção, gênio e novidade; repetidas imitações o

espírito esterilizam, como a muita arte e preceitos tolhem e sufocam o gênio. As primeiras

verdades da ciência, como os mais belos ornamentos da poesia, quando a todos pertencem, a

ninguém honram. O que mais dá realce e nomeada a alguns dos nossos poetas não é certamente o

uso dessas sediças fábulas, mas sim outras belezas naturais, não colhidas nos livros, e que só o

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céu da pátria lhes inspirará. Tão grande foi a influência que sobre o engenho brasileiro exerceu a

grega mitologia, transportada pelos poetas portugueses, que muitas vezes poetas brasileiros se

metamorfoseiam em pastores da Arcádia, e vão apascentar seus rebanhos imaginários nas

margens do Tejo e cantar à sombra das faias.

Mas há no homem um instinto oculto que o dirige a despeito dos cálculos da educação, e

de tal modo o aguilhoa esse instinto que em seus atos imprime um certo caráter de necessidade, a

que chamamos ordem providencial ou natureza das coisas. O homem colocado diante de um

vasto mar, ou no cume de uma alta montanha, ou no meio de uma virgem e emaranhada floresta,

não poderá ter por longo tempo os mesmos pensamentos, as mesmas inspirações, como se

assistisse aos olímpicos jogos, ou na pacífica Arcádia habitasse. Além dessas materiais

circunstâncias, variáveis nos diversos países, que muito

influem sobre a parte descritiva e caráter da paisagem poética, um elemento há sublime por sua

natureza, poderoso por sua inspiração, variável, porém, quanto à sua forma, base da moral

poética, que impluma as asas do gênio, que o inflama e fortifica, e ao través do mundo físico o

eleva até Deus; esse elemento é a religião.

Se sobre tais pontos meditassem os primeiros poetas brasileiros, certo que logo teriam

abandonado essa poesia estrangeira, que destruía a sublimidade de sua religião, paralisava-lhe o

engenho, e o cegava na contemplação de uma natureza grandiosa, reduzindo-os afinal a meros

imitadores. Não, eles não meditaram, nem meditar podiam; no princípio das coisas obra-se

primeiro como se pode, a reflexão vem mais tarde. Acreditava-se então que mitologia e poesia

era uma e a mesma coisa. O instinto, porém, e a razão mais esclarecida os foram guiando e posto

que lentamente, as encanecidas montanhas da Europa se humilharam diante das sempre verdes e

alterosas montanhas do Novo Mundo; a virgem homérica, semelhante à convertida esposa de

Eudoro*, abraça o Cristianismo, e, neófita ainda, mal iniciada nos mistérios arcanos de sua nova

religião resvala às vezes, e no enlevo da alma, no meio de seus sagrados cânticos se olvida e

adormentada sonha com as graciosas mentiras que ao berço lhe embalaram. Não, ela não pode

ainda, posto que naturalizada na América, esquecer-se dos sacros bosques do Parnaso, à cuja

sombra se recreara desde o albor de seus anos. Dirias que ela é combatida pela moléstia da pátria,

e que nos assomos da nostalgia à Grécia transportada se julga, e com seus deuses delira; saudosa

moléstia que só o tempo curar pode. Mas enfim é já um passo, e praza ao céu que a conversão

seja completa, e que os vindouros vates brasileiros achem no puro céu da sua pátria um sol mais

brilhante que Febo, e angélicos gênios que os inspirem mais sublimes que as Piérides.

Se compararmos o atual estado da civilização do Brasil com o das anteriores épocas, tão

notável diferença encontraremos como se entre o fim do século passado e o nosso tempo presente

ao menos um século medeara. Devido é isso a causas que ninguém ignora. Com a expiração do

domínio português muito se desenvolveram as idéias. Hoje o Brasil é filho da civilização

francesa, e como Nação é filho dessa revolução famosa que abalou todos os tronos da Europa, e

repartiu com os homens a púrpura e os cetros dos reis.

O gigante da nossa idade mandou o justo com as suas baionetas até à extremidade da

Península ibérica e o neto dos Afonsos, aterrorizado como um menino, temeu que o braço

vitorioso do árbitro dos reis cair fizesse sobre sua cabeça o palácio dos seus avós. Ele foge e com

ele toda a sua corte; deixam o natal país, atravessam o Oceano e trazem ao solo brasileiro o

aspecto novo de um rei, e os restos de uma grandeza sem brilho. Eis aqui como o Brasil deixou

de ser colônia e foi depois elevado à categoria de Reino Unido. Sem a revolução francesa, que

tanto esclareceu os povos, esse passo tão cedo se não daria. Com esse fato abriu-se para o Brasil

uma nova série de coisas favoráveis ao seu rápido desenvolvimento, tornando-se o Rio de Janeiro

a sede da Monarquia. Aqui pára a primeira época da sua história. Começa a segunda, em que,

colocado o Brasil em mais larga estrada, se apresta para conquistar a liberdade e a independência,

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conseqüências necessárias da civilização.

Os acontecimentos notáveis da história do Brasil se apresentam neste século como

espécies de contrapancadas ou ecos dos grandes fastos modernos da Europa. O primeiro, como

vimos, devido foi à Revolução Francesa; o segundo à promulgação da constituição em Portugal,

que apressou o regresso do rei D. João VI a Lisboa, deixando entre nós o herdeiro do trono. O

Brasil já não podia então viver debaixo da tutela de uma metrópole, que de suas riquezas se

nutrira, e pretendia reduzi-lo ao antigo estado colonial. A independência política tornou-se

necessária; todos a desejavam, e impossível fora sufocar o grito unânime dos corações brasileiros

ávidos de liberdade e de progresso. E quem pode opor-se à marcha de um povo que conhece a sua

força, e firma a sua vontade? A independência foi proclamada em 1822 e reconhecida três anos

depois. A Providência mostrou mais tarde que tudo não estava feito! Coisas há que se não podem

prever. Em 1830 caiu do trono da França o rei que o ocupava, e no ano seguinte deu-se

inesperadamente no Brasil análogo acontecimento! A coroa do Ipiranga que cingia a fronte do

Príncipe português, reservado pela Providência para ir assinalar-se na terra pátria, passou à fronte

de seu filho, o jovem Imperador, que fora ao nascer bafejado pelas auras americanas e pelo sol

dos trópicos aquecido.

De duas distintas partes consta a história do Brasil: compreende a primeira os três séculos

coloniais; e a segunda o curto período que decorre desde 1808 até os nossos dias. Examinemos

agora quais são os escritores desses diversos tempos, o caráter e o progresso que mostra a nossa

literatura.

No século décimo-sexto, que é o do descobrimento, nenhum escritor brasileiro existiu de

que tenhamos notícia. No seguinte século alguns aparecem poetas e prosadores dos quais

trataremos mais em particular em um capítulo separado, limitando-nos agora a dizer em geral

que, fundando-se as primeiras povoações do Brasil debaixo dos auspícios da religião e pelos

esforços dos Jesuítas, a literatura nesse século mostra instável propensão religiosa,

principalmente a prosa, que toda consiste em orações sagradas.

É no século XVIII que se abre verdadeiramente a carreira literária para o Brasil, sendo a

do século anterior tão minguada que apenas serve para a história. Os moços que no século

passado iam à Europa colher os frutos da sapiência, traziam para o seio da pátria os germes de

todas as ciências e artes; aqui benigno acolhimento achavam nos espíritos ávidos de saber.

Destarte se espalhavam as luzes, posto que a estrangeiros e a livros defendido fosse o ingresso no

país colonial. Os escritos franceses começaram a ser apreciados em Portugal; suas idéias se

comunicaram ao Brasil; dilataram-se os horizontes à inteligência; todos os ramos da literatura

foram cultivados, e homens de subida têmpera mostraram que os nascidos nos incultos sertões da

América podiam dilatar seu vôo até as margens do Tejo e emparelhar com as Tágides no canto.

No começo do século atual, com as mudanças e reformas que tem experimentado o Brasil,

novo aspecto apresenta a sua literatura. Uma só idéia absorve todos os pensamentos, uma idéia

até então quase desconhecida; é a idéia da pátria; ela domina tudo, e tudo se faz por ela, ou em

seu nome. Independência, liberdade, instituições sociais, reformas políticas, todas as criações

necessárias em um nova Nação, tais são os objetos que ocupam as inteligências, que atraem a

atenção de todos, e os únicos que ao povo interessam.

Tem-se notado, e com razão, que contrárias à poesia são as épocas revolucionárias; em

tais crises a poesia, que nunca morre, só fala a linguagem enfática do entusiasmo e das paixões

patrióticas, é a época dos Tirteus. Mas longe estamos por isso de amaldiçoar as revoluções que

regeneram os povos; reconhecemos sua missão na história da humanidade; elas são úteis, porque

meios são indispensáveis para o progresso do gênero humano, e até mesmo para o movimento e

progresso literário. É verdade que quando elas agitam as sociedades, pára um pouco e desmaiar

parece a cansada literatura; mas é para de novo continuar mais bela e remoçada na sua carreira;

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como o viajor se recolhe e repousa assustado quando negras nuvens trovejam e ameaçam a

propínqua tempestade; mas finda a tormenta, continua a sua marcha, gozando da perspectiva de

um céu puro e sereno, de um ar mais suave, e de um campo por fresca verdura esmaltado.

Aqui terminaremos a vista geral sobre a história da literatura do Brasil, dessa literatura

sem um caráter nacional pronunciado, que a distinga da portuguesa. Antes, porém, de entrarmos

na exposição e análise dos trabalhos dos nossos primeiros escritores, uma questão se levanta e

requer ser aqui tratada, questão toda concernente ao país e aos seus Indígenas.

IV

Pode o Brasil inspirar a imaginação dos poetas e ter uma poesia própria ? Os seus

indígenas cultivaram porventura a poesia ?

Tão geralmente conhecida é hoje esta verdade que a disposição e caráter de um país

grande influência exerce sobre o físico e o moral dos seus habitantes que a damos como princípio

e cremos inútil insistir em demonstrá-lo com argumentos e fatos, por tantos naturalistas e

filósofos apresentados. Aí estão Buffon e Montesquieu que assaz o demonstram. Ainda hoje,

poetas europeus vão beber no Oriente as suas mais belas inspirações; Byron, Chateaubriand e

Lamartine sobre seus túmulos meditaram. Ainda hoje se admira o tão celebrado céu da Grécia e

da Itália, o céu que inspirou a Homero e a Píndaro e o que inspirou a Virgílio e Horácio. Vimos

esse céu que cobre as ruínas do Capitólio e do Coliseu. Sim, é belo esse céu, mas o do Brasil não

lhe cede em beleza! Falem por nós todo os viajores que, por estrangeiros, não os tacharão de

suspeitos. Sem dúvida que eles fazem justiça e o coração do Brasileiro, não tendo por hora muito

do que se ensoberbeça quanto às produções das humanas fadigas, que só com o tempo se

acumulam, enche-se de prazer e palpita de satisfação, lendo as brilhantes páginas de Langsdorff,

Neuwied, Spix et Martius, Saint-Hilaire, Debret e de tantos outros viajores que revelaram à

Europa as belezas da nossa pátria.

Este imenso país da América, situado debaixo do mais belo céu, cortado de tão pujantes

rios, que sobre leitos de ouro e de preciosas pedras rolam suas águas caudalosas; este vasto

terreno revestido de eternas matas onde o ar está sempre embalsamado com o perfume de tão

peregrinas flores que em chuveiro se despencam dos verdes doceis [sic] formados pelo

entrelaçamento de ramos de mil espécies; estes desertos remansos onde se anuncia a vida pela

voz estrepitosa da cascata que se desempenha, pelo doce murmúrio das auras e por essa harmonia

grave e melancólica de infinitas vozes e quadrúpedes; este vasto Éden, entrecortado de

enormíssimas montanhas sempre esmaltadas de copada verdura, em cujos topes o homem se crê

colocado no espaço, mais perto do céu que da terra, vendo debaixo de seus pés desenrolar-se as

nuvens, roncar as tormentas e rutilar o raio; este abençoado Brasil com tão felizes disposições de

uma pródiga natureza, necessariamente devia inspirar os seus primeiros habitantes; os Brasileiros

- músicos e poetas - nascer deviam. E quem o duvida ? Eles foram e ainda o são.

Por alguns escritos antigos, sabemos que algumas tribos indígenas se avantajam pelo

talento da música e da poesia, entre todas, os Tamoios, que no Rio de Janeiro habitavam ,eram os

mais talentosos. Em seus combates, inspirados pelas cenas que os rodeavam, repetiam hinos

guerreiros com que acendiam a coragem nas almas dos combatentes e, nas suas festas, cantavam

em coros alternados de música e dança, cantigas herdadas de seus maiores.

Em um manuscrito antigo, cujo autor ignoramos quem seja*, lemos o seguinte: “São

havidos estes Tamoios por grandes músicos entre o gentio e bailadores os quais são mui

respeitados dos gentios por onde quer que vão”. Não era só a tribo dos Tamoios que se distinguia

pelo gênio musical e poético, também os Caetés a ainda mais os Tupinambás que em paz vivam

com os primeiros e pela língua e costumes mais com aqueles se assemelhavam. No mesmo

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manuscrito, lemos ainda: “Os Tupinambás se prezam de grandes músicos e a seu modo cantam

com sofrível tom os quais têm boas vezes [sic] mas todos cantam por um tom e os músicos fazem

motes de improviso e suas voltas que acabam no consoante do mote, os quais cantam e bailam

juntamente em roda.”

Do respeito religioso que tais bárbaros consagram aos seus homens inspirados, uma prova

nos dá o mesmo autor dizendo: “Entre os gentios são os músicos muito estimados e, por onde

quer que vão, são bem agasalhados e muitos atravessam já o sertão por entre os seus contrários

sem lhes fazerem mal”.

Tal

veneração

os

[sic] seus cantores lembra-nos esses trovadores que, de país em país,

peregrinavam e ante os quais se abriam as portas dos castelos dos senhores da idade média e

ainda a respeitosa magnanimidade do grande conquistador antigo para a família do Lírico grego.

É que à poesia e à música e dado o assenhoriar-se da liberdade humana, vibrar as fibras do

coração, abalar e extasiar o espírito. Por meio dessas duas potências sabiamente empregadas

pelos Jesuítas missionários do Brasil, os selvagens abandonavam os seus bosques e se

amoldavam ao cristianismo e à civilização*. Só as teorias de alguns homens que se inculcam de

positivos, e mal estudam a natureza, desmerecer podem a importância social dessas duas irmãs e

apenas considerá-las como meras artes de luxo e de recreação dos ociosos. Mas não é nosso

intento agora tecer o panagírico [sic] da poesia e da música.

Os apóstolos do Novo Mundo, tão solícitos entre os Indígenas do Brasil, na propaganda

da fé católica, compunham e traduziam em língua túpica [sic] alguns hinos da Igreja, para

substituir aos seus cânticos selvagens, mas não consta que se dessem ao trabalho de recolher, ou

de verter em língua portuguesa, os cânticos dos Índios. Posto que nenhum documento sobre isso

tenhamos, contudo, talvez, a todo tempo alguns se encontrem na poeira das bibliotecas

conventuais, com especialidade nas da Bahia. Que precioso monumento para nós não fora desses

povos incultos que quase têm desaparecido da superfície da terra, sendo tão amigos da liberdade

que, para evitar o cativeiro, caíam, de preferência, debaixo dos arcabuzes dos Portugueses que

tentavam submetê-los ao seu jugo tirânico! Talvez tivessem eles de influir na atual poesia

brasileira como os cânticos dos bardos influíram na poesia do Norte da Europa, harmonizando

seus melancólicos acentos com a sublime gravidade do cristianismo.

Do que fica dito, podemos concluir que o país se não opõe a uma poesia original, antes a

inspira. Se até hoje a nossa poesia não oferece um caráter inteiramente novo e particular, é

porque os nossos poetas, dominados pelos preceitos, limitaram a imitar os antigos que, segundo

diz Pope, é imitar mesmo a natureza, como se a natureza se ostentasse em todas as regiões e,

diversos sendo os costumes, as religiões e as crenças, só a poesia não pudesse participar dessa

atividade, dessa variedade, nem devesse exprimi-la. Faltou-lhes a força necessária para se

despojarem do jugo dessas leis arbitrárias dos que se arvoram em legisladores do Parnaso. Depois

que Homero, inspirado pelo seu próprio g6enio, sem apoio de alheia crítica, se elevou à grandeza

da epopéia, criação sua, e Píndaro do mesmo modo à sublimidade da lírica, vieram, então, os

críticos e estabeleceram as regras. Convém, é certo, estudar os antigos e os modelos dos que se

avantajaram nas diversas composições poéticas, mas não escravizar-se pela cega imitação. “O

poeta independente”, diz Schiller, “não reconhece por lei senão as inspirações de sua alma e, por

soberano, o seu gênio”.

Só pode um poeta chamar-se grande se é original, se de seu próprio gênio recebe as

inspirações. O que imita alheios pensamentos, nada mais é que um tradutor salteado, como é o

tradutor um imitador seguido e igual é o mérito de ambos. E por mais que se esforcem, por mais

que com os seus modelos emparelham, ou mesmo que os superem, pouca glória por isso lhes

toca, tendo só, afinal, aumentado a daqueles.

Como não estudamos a história só com o único fito de conhecer o passado, mas sim com

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o fim de tirar úteis lições para o presente, assim,

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