Dispersas por Machado de Assis - Versão HTML

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Poesias dispersas

Textos-fonte:

Obra Completa, Machado de Assis, vol. III, Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1994.

Toda poesia de Machado de Assis. Org. de Cláudio Murilo Leal.

Rio de Janeiro: Editora Record, 2008.

ÍNDICE

A PALMEIRA

ELA

TEU CANTO

UM ANJO

MINHA MUSA

COGNAC!...

MINHA MÃE

O SOFÁ

VAI-TE

ÁLVARES D'AZEVEDO

REFLEXO

A MORTE NO CALVÁRIO

UMA FLOR? — UMA LÁGRIMA

CONDÃO

A AUGUSTA

SONETO CIRCULAR

ÍCARO

CORAÇÃO PERDIDO

FASCINAÇÃO

O CASAMENTO DO DIABO

HINO PATRIÓTICO

A CÓLERA DO IMPÉRIO

DAQUI DESTE ÂMBITO ESTREITO

A FRANCISCO PINHEIRO GUIMARÃES

À MEMÓRIA DO ATOR TASSO

NO ÁLBUM DO SR. QUINTELA

VERSOS

SONETO

NAQUELE ETERNO AZUL, ONDE COEMA

DAI À OBRA DE MARTA UM POUCO DE MARIA RELÍQUIA ÍNTIMA

A DERRADEIRA INJÚRIA

REFUS

ENTRA CANTANDO, ENTRA CANTANDO, APOLO!

A GUIOMAR

PRÓLOGO DO INTERMEZZO

A CAROLINA

SONETO

A FRANCISCA

À ILMA. SRA. D. P. J. A.

A SAUDADE

JÚLIA

MEU ANJO

UM SORRISO

PARÓDIA

A SAUDADE

NO ÁLBUM DO SR. F. G. BRAGA

A UMA MENINA

O GÊNIO ADORMECIDO

O PROFETA

O PÃO D’AÇÚCAR

SONETO A S. M. O IMPERADOR, O SENHOR D. PEDRO II À MADAME ARSÈNE CHARTON DEMEUR

O MEU VIVER

DORMIR NO CAMPO

CONSUMMATUM EST!

SAUDADES

LÁGRIMAS

NÃO?

RESIGNAÇÃO

AMANHÃ

A***

DEUS EM TI

ESTA NOITE

VEM!

ESPERANÇA

A MISSÃO DO POETA

O PROGRESSO

À ITÁLIA

A UM POETA

A PARTIDA

A REDENÇÃO

S. HELENA

NUNCA MAIS

A CH. F. FILHO DE UM PROSCRITO

OFÉLIA

A ESTRELA DA TARDE

A UM PROSCRITO

SONHOS

UM NOME

TRAVESSA

À D. GABRIELA DA CUNHA

MEUS VERSOS

À MME. DE LA GRANGE

SOUVENIRS D’EXIL

A S. M. I.

AO CARNAVAL DE 1860

NO ÁLBUM DA ARTISTA LUDONIVA MOUTINHO

GABRIELA DA CUNHA

ESTÂNCIAS NUPCIAIS

EM HOMENAGEM À D. ISABEL E AO CONDE D’EU

NO CASAMENTO DA PRINCESA ISABEL

CALA-TE, AMOR DE MÃE

TRISTEZA

O PRIMEIRO BEIJO

A F. X. NOVAIS

ONTEM, HOJE, AMANHÃ

26 DE OUTUBRO

AS NÁUFRAGAS

AO DR. XAVIER DA SILVEIRA

13 DE MAIO

SONETO

RICARDO

VELHO TEMA

POR ORA SOU PEQUENINA

CÉSAR! FULGE MAIS LUZ

NÃO HÁ PENSAMENTO RARO

VIVA O DIA 11 DE JUNHO

VOULEZ-VOUS DU FRANÇAIS?

A PALMEIRA [1]

RJ, 6 jan. 1855

O.D.C.

A FRANCISCO GONÇALVES BRAGA

Como é linda e verdejante

Esta palmeira gigante

Que se eleva sobre o monte!

Como seus galhos frondosos

S’elevam tão majestosos

Quase a tocar no horizonte!

Ó palmeira, eu te saúdo,

Ó tronco valente e mudo,

Da natureza expressão!

Aqui te venho ofertar

Triste canto, que soltar

Vai meu triste coração.

Sim, bem triste, que pendida

Tenho a fronte amortecida,

Do pesar acabrunhada!

Sofro os rigores da sorte,

Das desgraças a mais forte

Nesta vida amargurada!

Como tu amas a terra

Que tua raiz encerra,

Com profunda discrição;

Também amei da donzela

Sua imagem meiga e bela,

Que alentava o coração.

Como ao brilho purpurino

Do crepúsc’lo matutino

Da manhã o doce albor;

Também amei com loucura

Ess’alma toda ternura

Dei-lhe todo o meu amor!

Amei!... mas negra traição

Perverteu o coração

Dessa imagem da candura!

Sofri então dor cruel,

Sorvi da desgraça o fel,

Sorvi tragos d’amargura!

........................................

Adeus, palmeira! ao cantor

Guarda o segredo de amor;

Sim, cala os segredos meus!

Não reveles o meu canto,

Esconde em ti o meu pranto

Adeus, ó palmeira!... adeus!

ELA [2]

Nunca vi, — não sei se existe

Uma deidade tão bela,

Que tenha uns olhos brilhantes

Como são os olhos dela!

F. G. BRAGA

Seus olhos que brilham tanto,

Que prendem tão doce encanto,

Que prendem um casto amor

Onde com rara beleza,

Se esmerou a natureza

Com meiguice e com primor.

Suas faces purpurinas

De rubras cores divinas

De mago brilho e condão;

Meigas faces que harmonia

Inspira em doce poesia

Ao meu terno coração!

Sua boca meiga e breve,

Onde um sorriso de leve

Com doçura se desliza,

Ornando purpúrea cor,

Celestes lábios de amor

Que com neve se harmoniza.

Com sua boca mimosa

Solta voz harmoniosa

Que inspira ardente paixão,

Dos lábios de Querubim

Eu quisera ouvir um — sim —

Pr’a alívio do coração!

Vem, ó anjo de candura,

Fazer a dita, a ventura

De minh’alma, sem vigor;

Donzela, vem dar-lhe alento,

Faz-lhe gozar teu portento,

“Dá-lhe um suspiro de amor!”

TEU CANTO [3]

29 jun. 1855

A UMA ITALIANA

É sempre nos teus cantos sonorosos

Que eu bebo inspiração.

DO AUTOR [“Meu Anjo”.]

Tu és tão sublime

Qual rosa entre as flores

De odores

Suaves;

Teu canto é sonoro

Que excede ao encanto

Do canto

Das aves.

Eu sinto nest’alma,

Num meigo transporte,

Meu forte

Dulçor;

Se soltas teu canto

Que o peito me abala,

Que fala

De amor.

Se soltas as vozes

Que podem à calma,

Minh’alma

Volver;

Minh’alma se enleva

Num gozo expansivo

De vivo

Prazer.

Donzela, esta vida

Se eu tanto pudera,

Quisera

Te dar;

Se um beijo eu pudesse

Ardente e fugace

Na face

Pousar.

UM ANJO [4]

RJ, out. 1855

À MEMÓRIA DE MINHA IRMÃ

Se deixou da vida o porto

Teve outra vida nos céus.

A. E. ZALUAR

Foste a rosa desfolhada

Na urna da eternidade,

Pr’a sorrir mais animada,

Mais bela, mais perfumada

Lá na etérea imensidade.

Rasgaste o manto da vida,

E anjo subiste ao céu

Como a flor enlanguecida

Que o vento pô-la caída

E pouco a pouco morreu!

Tu’alma foi um perfume

Erguido ao sólio divino;

Levada ao celeste cume

C’os Anjos oraste ao Nume

Nas harmonias dum hino.

Alheia ao mundo devasso,

Passaste a vida sorrindo;

Derribou-te, ó ave, um braço,

Mas abrindo asas no espaço

Ao céu voaste, anjo lindo.

Esse invólucro mundano

Trocaste por outro véu;

Deste negro pego insano

Não sofreste o menor dano

Que tu’alma era do Céu.

Foste a rosa desfolhada

Na urna da eternidade

Pr’a sorrir mais animada

Mais bela, mais perfumada

Lá na etérea imensidade.

MINHA MUSA [5]

RJ, 22 fev. 1856

A Musa, que inspira meus tímidos cantos, É doce e risonha, se amor lhe sorri;

É grave e saudosa, se brotam-lhe os prantos.

Saudades carpindo, que sinto por ti.

A Musa, que inspira-me os versos nascidos De mágoas que sinto no peito a pungir, Sufoca-me os tristes e longos gemidos, Que as dores que oculto me fazem trair.

A Musa, que inspira-me os cantos de prece, Que nascem-me d’alma, que envio ao Senhor.

Desperta-me a crença, que às vezes ‘dormece Ao último arranco de esp’ranças de amor.

A Musa, que o ramo das glórias enlaça, Da terra gigante — meu berço infantil, De afetos um nome na idéia me traça,

Que o eco no peito repete: — Brasil!

A Musa, que inspira meus cantos é livre, Detesta os preceitos da vil opressão, O ardor, a coragem do herói lá do Tibre, Na lira engrandece, dizendo: — Catão!

O aroma de esp’rança, que n’alma recende, É ela que aspira, no cálix da flor;

É ela que o estro na fronte me acende, A Musa que inspira meus versos de amor!

COGNAC!... [6]

Vem, meu Cognac, meu licor d’amores!...

É longo o sono teu dentro do frasco;

Do teu ardor a inspiração brotando

O cérebro incendeia!...

Da vida a insipidez gostoso adoças;

Mais val um trago teu que mil grandezas; Suave distração — da vida esmalte,

Quem há que te não ame?

Tomado com o café em fresca tarde

Derramas tanto ardor pelas entranhas, Que o já provecto renascer-lhe sente

Da mocidade o fogo!

Cognac! — inspirador de ledos sonhos, Excitante licor — de amor ardente!

Uma tua garrafa e o Dom Quixote, É passatempo amável!

Que poeta que sou com teu auxílio!

Somente um trago teu m’inspira um verso; O copo cheio o mais sonoro canto;

Todo o frasco um poema!

MINHA MÃE [7]

(Imitação de Cowper)

Quanto eu, pobre de mim! quanto eu

quisera

Viver feliz com minha mãe também!

C. A. DE SÁ

Quem foi que o berço me embalou da infância Entre as doçuras que do empíreo vêm?

E nos beijos de célica fragrância

Velou meu puro sono? Minha mãe!

Se devo ter no peito uma lembrança

É dela que os meus sonhos de criança

Dourou: — é minha mãe!

Quem foi que no entoar canções mimosas Cheia de um terno amor — anjo do bem

Minha fronte infantil — encheu de rosas De mimosos sorrisos? — Minha mãe!

Se dentro do meu peito macilento

O fogo da saudade me arde lento

É dela: minha mãe.

Qual anjo que as mãos me uniu outrora E as rezas me ensinou que da alma vêm?

E a imagem me mostrou que o mundo adora, E ensinou a adorá-la? — Minha mãe!

Não devemos nós crer num puro riso

Desse anjo gentil do paraíso

Que chama-se uma mãe?

Por ela rezarei eternamente

Que ela reza por mim no céu também;

Nas santas rezas do meu peito ardente Repetirei um nome: — minha mãe!

Se devem louros ter meus cantos d’alma Oh! do porvir eu trocaria a palma

Para ter minha mãe!

O SOFÁ [8]

Oh! Como é suave os olhos

Sentir de gozo cerrar,

Sobre um sofá reclinado

Lindos sonhos a sonhar,

Sentindo de uns lábios d’anjo

Um medroso murmurar!

Um sofá! Mais belo símbolo

Da preguiça outro não há...

Ai, que belas entrevistas

Não se dão sobre um sofá,

E que de beijos ardentes

Muita boca aí não dá!

Um sofá! Estas violetas

Murchas, secas como estão

Sobre o seu sofá mimoso,

Cheirosas, vivas então,

Achei um dia perdidas,

Perdidas: por que razão!

Talvez ardente entrevista

Toda paixão, toda amor

Fizesse ali esquecê-las...

Quem não sabe? sem vigor

Estas flores só recordam

Um passado encantador!

Um sofá! Ameno sítio

Para colher um troféu,

Para cingir duas frontes

De amor num místico véu,

E entre beijos vaporosos

Da terra fazer um céu!

Um sofá! Mais belo símbolo

Da preguiça outro não há...

Ai, que belas entrevistas

Não se dão sobre um sofá,

E que de beijos ardentes

Muita boca aí não dá!

VAI-TE [9]

1º jan. 1858

Por que voltaste? Esquecidos

Meus sonhos, e meus amores

Frios, pálidos morreram

Em meu peito. Aquelas flores

Da grinalda da ventura

Tão de lágrimas regada,

Nesta fronte apaixonada

Cingida por tua mão,

Secaram, mortas estão.

Pobre pálida grinalda!

Faltou-lhe um orvalho eterno

De teu belo coração.

Foi de curta duração

Teu amor: não compreendeste

Quanto amor esta alma tinha...

Vai, leviana andorinha,

A outro clima, outro céu:

Meu coração? Já morreu

Para ti e teus amores,

E não pode amar-te — vai!

O hino das minhas dores

Dir-to-á a brisa, à noite,

Num terno, saudoso — ai —

Vai-te — e possa a asa do vento

Que pelas selvas murmura,

Da grinalda da ventura

Que em mim outrora cingiste,

Inda um perfume levar-te,

Morta assim: como um remorso

Do teu olvido... eu amar-te?

Não, não posso; esquece, parte;

Eu não posso amar-te... vai!

ÁLVARES D'AZEVEDO [10]

AO SR. DR. M. A. D'ALMEIDA

Vejo em fúnebre cipreste

Transformada a ovante palma!

PORTO ALEGRE.

Morrer, de vida transbordando ainda,

Como uma flor que ardente calma abrasa!

Águia sublime das canções eternas:

Quem no teu vôo espedaçou-te a asa?

Quem nessa fronte que animava o gênio, A rosa desfolhou da vida tua?

Onde o teu vulto gigantesco? Apenas

Resta uma ossada solitária e nua!

E contudo essa vida era abundante!

E as esperanças e ilusões tão belas!

E no porvir te preparava a pátria

Da glória as palmas e gentis capelas!

Sim, um sol de fecunda inteligência

Sobre essa fronte pálida brilhava,

Que à face deste século de indústria

Tantos raios ardentes derramava!

E pôde a morte destruir-te a vida!

E dar à tumba a tua fronte ardente!

Pobre moço! saudaste a estrela d’alva, E o sol não viste a refulgir no Oriente!

Morrer, de vida transbordando ainda,

Como uma flor que ardente calma abrasa!

Águia sublime das canções eternas:

Quem no teu vôo espedaçou-te a asa?

Voltaste à terra só — Não morrem Byrons, Nem finda o homem na friez da campa!

Homem, tua alma aos pés de Deus fulgura, Teu nome, poeta, no porvir se estampa!

Não morreste! estalou a fibra apenas

Que a alma à vida de ilusões prendia!

Acordaste de um negro pesadelo,

E saudaste o sol do eterno dia!

Mas cá fica no altar do pensamento

Teu nome como um ídolo pomposo,

Que a fama com o turíbulo dos tempos

Perfuma de um incenso vaporoso!

E ao ramalhete das brasílias glórias, Mais uma flor angélica se enlaça,

Que a brisa ardente do porvir passando Trêmula beija e a murmurar abraça!

Byron da nossa terra, dorme embora

Envolto no teu fúnebre sudário,

Murmure embora o vento dos sepulcros

Junto do teu sombrio santuário.

Resta-te a c’roa santa de poeta,

E a mirra ardente da oração saudosa,

E pelas noites calmas do silêncio

Os séculos da lua vaporosa!

Ela te chora, e ali com ela a pátria, Pobre órfã de teus cânticos divinos,

E das brisas na voz misteriosa,

Da saudade e da dor sagram-te os hinos!

Dorme junto de Chatterton, de Byron,

Frontes sublimes, pra sonhar criadas, Almas puras de amor e sentimento,

Harpas santas, por anjos afinadas!

Dorme na tua fria sepultura

Guarda essa fronte vaporosa, ardente, Tu, que apenas saudaste a estrela-d'alva E o sol não viste a refulgir no Oriente!

REFLEXO [11]

Olha: vem sobre os olhos

Tua imagem contemplar,

Como as madonas do céu

Vão refletir-se no mar

Pelas noites de verão

Ao transparente luar!

Olha e crê que a mesma imagem

Com mais ardente expressão

Como as madonas no mar

Pelas noites de verão,

Vão refletir-se bem fundo,

Bem fundo — no coração!

A MORTE NO CALVÁRIO [12]

Semana Santa, 1858

AO MEU AMIGO O PADRE SILVEIRA

SARMENTO

Consummatum est!