Do Além por H.P. Lovecraft - Versão HTML

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“Do Além” – H.P. Lovecraft

Tradução: Renato Suttana

Quem é Renato Suttana?

Renato Suttana é doutor em Letras e professor de Literatura Brasileira na Universidade Estadual do Centro-

Oeste (UNICENTRO), em Guaruapuava-PR. É autor de Uma poética do deslimite: o poema como imagem

na obra de Manoel de Barros (dissertação de mestrado PUC-MG, 1995), de João Cabral de Melo Neto: o

poeta e a voz da modernidade (tese de doutorado, UNESP-Assis, 2003) e do livro de poesias Visita do

fantasma da noite (2002). Suttana também mantém seu site na web http://www.arquivors.com. Contatos com

o tradutor podem ser feitos pelo email: rsuttana@arquivors.com

DO ALÉM

orrível, para além de qualquer concepção, foi a mudança por que passou meu melhor

Ham igo, Crawford Tillinghast. Eu não o vira desde aquele dia, dois meses e meio antes,

quando ele me falou da meta em direção à qual suas pesquisas físicas e metafísicas se

encaminhavam e quando respondeu à minha demonstração de espanto e medo expulsando-me de

seu laboratório e de sua casa num estouro de raiva fanática. Eu sabia que ele agora passava a

maior parte do tempo fechado em seu laboratório no sótão com aquela maldita máquina elétrica,

comendo pouco e afastado até dos próprios criados, mas não pensara que um período tão breve

de dez semanas pusesse alterar e desfigurar de tal maneira uma criatura humana. Não há prazer

em ver um homem garboso tornar-se magro de repente, e é pior ainda quando a pele flácida

começa a amarelar ou a acinzentar, os olhos fundos, esgazeados, brilhando de modo

sobrenatural, a testa enrugada e coberta de veias, e as mãos trêmulas e contorcidas. E se,

adicionado a isso, houver um desalinho repulsivo, uma desordem louca do vestir, moitas de

cabelos escuros esbranquiçados na raiz, e uma sombra de barba não aparada sobre um queixo

que sempre fora cuidadosamente barbeado, o efeito cumulativo será chocante. Mas esse era o

aspecto de Crawford Tillinghast na noite em que sua mensagem pouco coerente me trouxe até

sua porta depois de semanas de exílio. Tal era o espectro que tremia enquanto me fazia entrar,

uma vela na mão, a olhar furtivamente por sobre o ombro, como se receoso de coisas invisíveis

na casa antiga e solitária, situada ao fundo da Benevolent Street.

Para Crawford Tillinghast, ter um dia estudado ciência ou filosofia fora um erro. São

coisas que deveriam ser deixadas para o investigador impessoal e frio, pois oferecem duas

alternativas igualmente trágicas ao homem de sentimento e ação: desespero, se fracassa em sua

busca, e terrores indizíveis e inimagináveis, se obtém sucesso. Tillinghast fora presa uma vez do

fracasso, da reclusão e da melancolia; mas agora eu sabia, entre receios repelentes de minha

parte, que ele era presa do sucesso. De fato, eu o tinha alertado, duas semanas antes, quando

aventou, num ímpeto, a história do que estava prestes a descobrir. Tornara-se vermelho e

excitado, falando num tom de voz muito alto e antinatural, embora sempre pedante.

“O que sabemos”, ele dissera, “sobre o mundo e o universo ao nosso redor? Nossos meios

de receber impressões são absurdamente escassos, e nossas noções dos objetos que nos cercam

são infinitamente estreitas. Vemos as coisas somente na medida em que somos construídos para

vê-las e não podemos fazer idéia alguma de sua natureza absoluta. Com cinco débeis sentidos,

queremos compreender o cosmos ilimitadamente complexo, enquanto outros seres, com uma

gama de sentidos diferente, mais ampla ou mais possante, não apenas poderiam ver de modo

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diferente as coisas que vemos, como também ver e estudar mundos inteiros de matéria, energia e

vida que jazem próximos de nós, mas que não podem ser detectados com os sentidos que temos.

Sempre acreditei que tais mundos estranhos e inacessíveis existem colados aos nossos cotovelos,

e agora creio que encontrei um modo de romper as barreiras. Não estou blefando. Dentro de

vinte e quatro horas aquela máquina sobre a mesa gerará ondas que agirão sobre órgãos

ignorados de sentidos que existem em nós como vestígios atrofiados ou rudimentares. Essas

ondas abrirão para nós inúmeros panoramas desconhecidos do homem e muitos desconhecidos

de qualquer coisa que consideramos como vida orgânica. Haveremos de ver aquilo para o qual

os cachorros uivam na escuridão, aquilo para o qual os gatos levantam suas orelhas após a meia-

noite. Veremos essas coisas e outras coisas que nenhuma criatura que respira jamais viu. Vamos

saltar sobre o tempo, o espaço e as dimensões e, sem mover nossos corpos, espiar o fundo da

criação.”

Quando Tillinghast disse essas coisas, não disfarcei, pois conhecia-o bem o suficiente para

ter muito mais receio do que admiração; mas ele era um fanático e expulsou-me da casa. Agora

ele não era menos fanático, mas seu desejo de falar sobrepujara o ressentimento, e ele me

escrevera num tom imperativo, com uma caligrafia quase ilegível. Quando penetrei na casa desse

amigo tão subitamente metamorfoseado numa gárgula vacilante, infectou-me o terror que

parecia espreitar em meio a todas as sombras. Era como se as palavras e crenças expressas dez

semanas antes se encarnassem na escuridão que cercava o pequeno círculo de luz da vela, e

senti-me mal diante da voz oca e alterada de meu anfitrião. Desejei que os criados estivessem

por perto e não gostei quando ele disse que todos tinham deixado a casa havia três dias. Pereceu

estranho que o velho Gregory, ao menos, pudesse desertar de seu senhor sem dizer isso a um

amigo tão próximo como eu. Era ele que me dava toda a informação que tive sobre Tillinghast

depois que, furioso, este me expulsou.

No entanto, logo obriguei meus medos a se subordinarem à minha curiosidade e

fascinação. O que é que Crawford Tillinghast queria de mim agora eu podia até conjeturar, mas

de que ele tinha algum segredo ou descoberta estupenda para revelar, disso eu não duvidava.

Antes eu protestara contra sua perquirição indiscreta do impensável, e agora que ele

evidentemente tivera algum tipo de sucesso eu quase compartilhava seu espírito, por mais

terrível que pudesse ser o custo da vitória. Seguindo a luz vacilante da vela que a mão daquela

paródia trêmula de homem segurava, subi em direção à escuridão vazia da casa. A eletricidade

parecia ter sido desligada, e quando perguntei ao meu guia ele disse que era por um motivo

definido.

“Seria demais… Eu não ousaria”, ele continuava a murmurar. Notei em especial esse seu

novo hábito de murmurar, pois não era do seu feitio falar sozinho. Entramos no laboratório no

sótão, e observei aquela detestável máquina elétrica a cintilar com uma luminosidade doentia,

sinistra, violeta. Estava conectada a uma potente bateria química, mas não parecia receber

corrente, pois eu me lembrava de que em seu estágio experimental ela tinha roncado e ciciado

quando posta em ação. Em resposta à minha pergunta, Tillinghast sussurrou que esse brilho

permanente não era elétrico em nenhum sentido que eu pudesse entender.

Ele me fez sentar próximo à máquina, de modo que ela ficou à minha direita, e acionou um

comutador que ficava por baixo de uma profusão de bulbos de vidro. Os estralejos usuais

começaram, tornaram-se um gemido, e terminaram num rumor monótono e tão suave que dava

impressão de retornarem ao silêncio. Entrementes a luminosidade aumentou, diminuiu, até

assumir uma tonalidade pálida e inusitada ou uma mistura de cores que eu não poderia situar ou

descrever. Tillinghast tinha estado a me observar, notando minha expressão de perplexidade.

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“Sabe o que é isso?”, murmurou, “Isso é ultravioleta”. E gargalhou ao ver a minha

surpresa. “Pensou que o ultravioleta era invisível, e é – mas você pode vê-lo e a muitas outras

coisas agora. Ouça-me! As ondas dessa coisa estão despertando em você mil sentidos

adormecidos – sentidos que você herdou de éons de evolução, desde o estado dos elétrons

errantes até o estado da humanidade orgânica. Eu vi a verdade, e pretendo mostrá-la a você. Faz

idéia de como ela se parece? Vou dizê-lo a você.” Aqui, Tillinghast se sentou também, de frente

para mim, segurando sua vela e olhando-me perversamente nos olhos. “Seus órgãos sensórios

existentes – ouvidos primeiro, suponho – captarão muitas das impressões, pois estão

intimamente conectados com os órgãos adormecidos. Então haverá outros. Já ouviu falar da

glândula pineal? Rio-me dos ingênuos endocrinologistas, pretensiosos e comparsas iludidos dos

freudianos. Essa glândula é o órgão sensório por excelência – eu o descobri. É como uma visão,

afinal, e transmite imagens visuais ao cérebro. Se você é normal, esse será o modo como você

obterá a maior parte... Refiro-me à maior parte da evidência do além.”

Olhei em volta o imenso sótão com a parede alta ao sul, obscuramente iluminada por raios

que os olhos cotidianos não poderiam ver. Os cantos mais distantes eram pura sombra, e o lugar

inteiro mergulhava numa irrealidade nevoenta que obscurecia sua natureza e convidava a

imaginação ao simbolismo e à fantasmagoria. Durante o longo intervalo em que Tillingthast

permaneceu em silêncio, tive um devaneio de estar num incrível e vasto templo de deuses há

muito desaparecidos, num edifício vago de inúmeras colunas de pedra negra que se elevavam de

um piso de lajes úmidas até alturas de nuvens que ficavam para além da minha visão. A imagem

me pareceu bastante vívida por algum tempo, mas gradualmente deu lugar a uma concepção

mais horrível – aquela da solidão extrema e absoluta do espaço infinito, inescrutável e

silencioso. Parecia haver um vazio e nada mais, e senti um medo infantil que me fez sacar do

bolso junto ao peito um revólver que passei a carregar desde que fora assaltado em East

Providence. Então, das mais distantes regiões do remoto, o som deslizou suavemente para dentro

da existência. Era infinitamente débil, sutilmente vibrante, e inequivocamente musical, mas

continha um não sei quê de indizivelmente selvagem que fazia com que o seu impacto parecesse

uma tortura delicada de todo o meu corpo. Vieram-me sensações que eram como se alguém

pisasse vidro moído no chão. Simultaneamente, desenvolveu-se alguma coisa como um sopro

frio, que aparentemente passava por mim vindo do som distante. Enquanto, sem fôlego,

aguardava, percebi que tanto o som quanto o vento estavam aumentando, o efeito assemelhando-

se ao de ter sido atado a um par de trilhos no caminho de uma gigantesca locomotiva que se

aproximasse. Comecei a falar a Tillinghast e, quando o fiz, todas as impressões incomuns se

desvaneceram abruptamente. Vi apenas o homem, as máquinas cintilantes e o cômodo

penumbroso. Tillinghast ria de um jeito repulsivo para o revólver que eu sacara quase

inconscientemente, mas pela sua impressão compreendi que ele tinha visto e ouvido tanto quanto

eu, se não muito mais. Murmurei o que eu tinha experimentado, e ele me instruiu para que

permanecesse o mais quieto e receptivo possível.

“Não se mova”, advertiu, “pois nesses raios tanto podemos ver quanto ser vistos. Eu lhe

disse que os servos foram embora, mas não lhe disse como. Foi aquela governanta de cabeça

dura; ela acendeu as luzes no térreo depois que eu avisei para não fazer isso, e os arames

captaram vibrações empáticas. Deve ter sido amedrontador – pude ouvir os gritos daqui de cima,

a despeito de tudo o que via e ouvia vindo de outra direção, e mais tarde foi pavoroso encontrar

aqueles montes vazios de roupas por toda a casa. As roupas da senhora Updike estavam

próximas do comutador de luz da sala – eis como eu soube que ela o fizera. Pegou-os a todos.

Mas, desde que não nos movamos, estamos razoavelmente seguros. Lembre-se de que estamos

lidando com um mundo medonho no qual somos praticamente indefesos... Fique quieto!

O choque combinado da revelação e da intimação abrupta deu-me um tipo de paralisia, e

no terror minha mente se abriu de novo para as impressões que vinham do que Tillinghast

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chamou de “além”. Um vórtice de som e movimento me envolvia agora, imagens confusas

surgindo diante de meus olhos. Eu via os contornos imprecisos do cômodo, mas de algum ponto

do espaço parecia jorrar uma coluna fervilhante de formas irreconhecíveis ou de nuvens,

penetrando no teto sólido num ponto adiante, à minha direita. Então vislumbrei o templo – como

efeito novamente, mas desta vez os pilares subiam em direção a um oceano aéreo de luz, o qual

despejava um raio de luz ofuscante por todo o caminho da coluna de nuvens que eu vira antes.

Depois disso, a cena tornou-se quase inteiramente caleidoscópica, e na profusão de visões, sons e

impressões sensoriais não identificadas, senti que estava prestes a me dissolver ou, de algum

modo, a perder a forma sólida. De um determinado lance eu hei de me lembrar para sempre.

Pareceu-me ter visto, por um instante, uma nesga de estranho céu noturno repleto de esferas

cintilantes e rodopiantes, e quando desapareceu vi que os sóis brilhantes formavam uma

constelação ou galáxia de forma definida, sendo essa forma o rosto distorcido de Crawford

Tillinghast. Noutra ocasião, senti que as coisas imensas e animadas se arrastavam para além de

mim e às vezes caminhavam ou vogavam através do meu corpo supostamente sólido, e pensei

ter visto Tillinghast olhar para elas como se seus sentidos mais bem treinados pudessem captá-

las visualmente. Lembrei-me do que ele dissera acerca da glândula pineal e me perguntei o que

ele via com esse olho sobrenatural.

De súbito, senti-me também possuído por uma espécie de visão aumentada. Por cima e ao

longo do caos luminoso e sombrio se elevava uma imagem que, embora vaga, continha

elementos de consistência e permanência. Era de fato algo familiar, pois a parte incomum estava

superposta à cena comum e terrestre, tal como uma imagem de cinema se pode projetar sobre a

cortina pintada de um teatro. Vi o laboratório do sótão, a máquina elétrica e a forma indistinta de

Tillinghast em frente a mim, mas de todo o espaço não ocupado por objetos familiares sequer a

menor porção estava vaga. Formas indescritíveis, vivas ou não, se misturavam numa desordem

repulsiva, e perto de cada coisa conhecida havia mundos inteiros de entidades alienígenas e

ignotas. Igualmente, parecia que todas as coisas conhecidas entravam na composição de outras

coisas desconhecidas e vice-versa. Mais à frente, entre os objetos vivos, havia monstruosidades

pretas, semelhantes a medusas, que estremeciam languidamente com as vibrações da máquina.

Manifestavam-se numa profusão nauseante, e eu vi, para o meu horror, que se imbricavam, que

eram semifluidas e capazes de passar através umas das outras e daquilo que conhecemos como

sólidos. Essas coisas jamais paravam; antes: pareciam flutuar sempre com algum propósito

maligno. Às vezes, davam mostras de devorar-se umas às outras, o atacante lançando-se sobre

sua vítima e instantaneamente fazendo-a desaparecer de vista. Trêmulo, entendi o que tinha feito

desaparecer os infelizes criados, e não podia expulsar a coisa de minha mente enquanto lutava

para observar outras propriedades do mundo, há pouco tornado visível, que existe incógnito à

nossa volta. Mas Tillinghast tinha estado a me observar e agora falava.

“Você as vê? Você as vê? Vê as coisas que flutuam e se precipitam à sua volta a cada

momento de sua vida? Vê as criaturas que formam o que os homens chamam de ar puro e de céu

azul? Não tive sucesso em romper a barreira, não mostrei a você mundos que os outros homens

jamais chegaram a ver?” Ouvi seu grito através do horrível caos e olhei para a face selvagem que

tão ofensivamente se colava à minha. Seus olhos eram poços de chamas e me fitavam com

aquilo que – logo entendi – era apenas o mais profundo ódio. A máquina ronronava de maneira

horrorosa.

“Pensa que essas coisas rastejantes arrebataram os criados? Tolo, são inofensivas! Mas os

criados desapareceram, não é? Você tentou me impedir, você me desencorajou quando precisei

de cada gota de incentivo que pudesse obter. Você teve medo da verdade cósmica, seu maldito

covarde, mas agora eu o peguei! O que foi que levou os criados? O que os fez berrar tão alto?...

Não sabe, hein? Logo, logo saberá. Olhe para mim – ouça o que eu digo. Supõe você que

existem mesmo tais coisas como tempo e magnitude? Acredita mesmo que existem tais coisas

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como forma e matéria? Eu lhe digo, você atingiu profundidades que o seu pequeno cérebro não

pode conceber. Vi para além das fronteiras do infinito e arrastei demônios das estrelas... Conduzi

as sombras que perambulam de mundo para mundo para semear a morte e a loucura... O espaço

me pertence, está me ouvindo? As coisas estão à minha caça agora – as coisas que devoram e

dissolvem –, mas eu sei como ludibriá-las. É a você que elas pegarão, como fizeram com os

criados... Está tremendo, caro senhor? Eu lhe disse que era perigoso mover-se, coloquei-o a

salvo dizendo que se mantivesse quieto – salvei-o para ter mais visões e para me ouvir. Se você

tivesse se movido, eles já teriam se atirado sobre você há muito tempo. Não se preocupe, não

vão machucá-lo. Não machucaram os criados – foi apenas ver que os fez berrar daquele jeito.

Meus bichinhos não são bonitos, pois vêm de lugares onde os padrões estéticos são... muito

diferentes. Eu quase os vi, mas soube como parar. Você é curioso? Sempre soube que você não

era um cientista. Tremendo, hein? Tremendo de ansiedade para ver as últimas coisas que

descobri. Por que não se move, então? Cansado? Bem, não se preocupe, amigo, pois elas estão

vindo… Olhe, olhe, amaldiçoado, olhe… Está bem em cima do seu ombro esquerdo.”

O que falta contar é bem pouco, e vocês talvez já tenham sabido por meio dos jornais. A

polícia ouviu um tiro na velha casa de Tillinghast e nos encontrou lá – Tillinghast morto, e eu,

inconsciente. Prenderam-me, porque o revólver estava em minha mão, mas soltaram-me dentro

de três horas, pois descobriram que foi a apoplexia que acabou com Tillinghast e viram que meu

tiro tinha sido disparado contra a máquina perversa que agora jaz irremediavelmente destroçada

no chão do laboratório. Não contei muito do que vi, pois temi que o coronel ficasse cético, mas,

pela descrição evasiva que dei, o médico me disse que, sem dúvida, eu tinha sido hipnotizado

pelo louco vingativo e homicida.

Quem dera eu pudesse acreditar no médico. Seria bom para os meus nervos se eu pudesse

pôr de lado o que agora tenho de pensar sobre o ar e o céu que me envolvem e que estão acima

de mim. Nunca me sinto sozinho e confortável, e um senso horrível e arrepiante de perseguição

às vezes me invade quando esmoreço. O que me impede de acreditar no médico é apenas este

fato: que a polícia nunca encontrou os corpos dos criados que, segundo dizem, Crawford

Tillinghast assassinou.

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