Do Socialismo Utópico ao Socialismo Cientifico por Friederich Engels - Versão HTML

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1880

Primeira Edição: como folheto Revue Socialiste de Março, Abril e Maio de 1880,em alemão, em

Zurique (1882) e em Berlim (1891), e em inglês, em Londres(1892).

Fonte: The Marxists Internet Archive

Capítulo I - O Socialismo Utópico

O socialismo moderno é, em primeiro lugar, por seu conteúdo, fruto do reflexo na inteligência, de um

lado dos antagonismos de classe que imperam na moderna sociedade entre possuidores e despossuidos,

capitalistas e operários assalariados, e, de outro lado, da anarquia que reina na produção. Por sua forma

teórica, porém, o socialismo começa apresentando-se como uma continuação, mais desenvolvida e mais

conseqüente, dos princípios proclamados pelos grandes pensadores franceses do século XVIII. Como toda

nova teoria, o socialismo, embora tivesse suas raízes nos fatos materiais econômicos, teve de ligar-se, ao

nascer, às Idéias existentes.

Os grandes homens que, na França, iluminaram os cérebros para a revolução que se havia de desencadear,

adotaram uma atitude resolutamente revolucionária. Não reconheciam autoridade exterior de nenhuma

espécie. A religião, a concepção da natureza, a sociedade, a ordem estatal: tudo eles submetiam à crítica

mais impiedosa; tudo quanto existia devia justificar os títulos de sua existência ante o foro da razão, ou

renunciar a continuar existindo. A tudo se aplicava como rasoura única a razão pensante. Era a época em

que, segundo Hegel, "o mundo girava sobre a cabeça" (1), primeiro no sentido de que a cabeça humana e

os princípios estabelecidos por sua especulação reclamavam o direito de ser acatados como base de todos

os atos humanos e toda relação social, e logo também, no sentido mais amplo de que a realidade que não

se ajustava a essas conclusões se via subvertida, de fato, desde os alicerces até à cumieira. Todas as

formas anteriores de sociedade e de Estado, todas as leis tradicionais, foram atiradas no monturo como

irracionais; até então o mundo se deixara governar por puros preconceitos; todo o passado não merecia

senão comiseração e desprezo, Só agora despontava a aurora, o reino da razão; daqui por diante a

superstição, a injustiça, o privilégio e a opressão seriam substituídos pela verdade eterna, pela eterna

justiça, pela igualdade baseada na natureza e pelos direitos Inalienáveis do homem.

Já sabemos, hoje, que esse império da razão não era mais que o império idealizado pela burguesia; que a

justiça eterna tomou corpo na justiça burguesa; que a igualdade se reduziu à igualdade burguesa em face

da lei; que como um dos direitos mais essenciais do homem foi proclamada a propriedade burguesa; e que

o Estado da razão, o "contrato social" de Rousseau, pisou e somente podia pisar o terreno da realidade,

convertido na república democrática burguesa. Os grandes pensadores do século XVIII, como todos os

seus Predecessores, não podiam romper as fronteiras que sua própria época lhes impunha.

Mas, ao lado do antagonismo entre a nobreza feudal e a burguesia, que se erigia em representante de todo

o resto da sociedade, mantinha-se de pé o antagonismo geral entre exploradores e explorados, entre ricos

gozadores e pobres que trabalhavam. E esse fato exatamente é que permitia aos representantes da

burguesia arrogar-se a representação, não de uma classe determinada, mas de toda a humanidade

sofredora. Mais ainda: desde o momento mesmo em que nasceu, a burguesia conduzia em suas entranhas

sua própria antítese, pois os capitalistas não podem existir sem os operários assalariados, e na mesma

proporção em que os mestres de ofícios das corporações medievais se convertiam em burgueses

modernos, os oficiais e os jornaleiros não agremiados transformavam-se em proletários. E se, em termos

gerais, a burguesia podia arrogar-se o direito de representar, em suas lutas com a nobreza, além dos seus

Interesses, os das diferentes classes trabalhadoras da época, ao lado de todo grande movimento burguês

que se desatava, eclodiam movimentos independentes daquela classe que era o precedente mais ou menos

desenvolvido do proletariado moderno. Tal foi na época da Reforma e das guerras camponesas na

Alemanha. a tendência dos anabatistas e de Thomas Münzer; na grande Revolução Inglesa, os "levellers"

(2), e na Revolução Francesa, Babeuf. Essas sublevações revolucionárias de uma classe incipiente são

acompanhadas, por sua vez, pelas correspondentes manifestações teóricas: nos séculos XVI e XVII (3)

aparecem as descrições utópicas de um regime ideal da sociedade; no século XVIII, teorias já abertamente

comunistas, como as de Morelly e Mably. A reivindicação da igualdade não se limitava aos direitos

políticos, mas se estendia às condições sociais de vida de cada indivíduo; já não se tratava de abolir os

privilégios de classe, mas de destruir as próprias diferenças de classe. Um comunismo ascético, ao modo

espartano, que renunciava a todos os gozos da vida: tal foi a primeira forma de manifestação da nova

teoria. Mais tarde vieram os três grandes utopistas: Saint-Simon, em que a tendência continua ainda a se

afirmar, até certo ponto, junto à tendência proletária; Fourier e Owen, este último, num pais onde a

produção capitalista estava mais desenvolvida e sob a impressão engendrada por ela, expondo em forma

sistemática uma série de medidas orientadas rio sentido de abolir as diferenças de classe, em relação

direta com o materialismo francês.

Traço comum aos três é que não atuavam como representantes dos interesses do proletariado, que

entretanto surgira como um produto histórico. Da mesma maneira que os enciclopedistas, não se propõem

emancipar primeiramente uma classe determinada, mas, de chofre, toda a humanidade. E assim como

eles, pretendem instaurar o império da razão e da justiça eterna. Mas entre o seu império e o dos

enciclopedistas medeia um abismo. Também o mundo burguês, instaurado segundo os princípios dos

enciclopedistas, é Injusto e irracional e merece, portanto, ser jogado entre os trastes inservíveis, tanto

quanto o feudalismo e as formas sociais que o antecederam. Se até agora a verdadeira razão e a verdadeira

justiça não governaram o mundo é simplesmente porque ninguém soube penetrar devidamente nelas.

Faltava o homem genial, que agora se ergue ante a humanidade com a verdade, por fim descoberta. O fato

de que esse homem tenha aparecido agora, e não antes, o fato de que a verdade tenha sido por fim

descoberta agora, e não antes, não é, segundo eles, um acontecimento inevitável, imposto pela

concatenação do desenvolvimento histórico, e sim porque o simples acaso assim o quis. Poderia ter

aparecido quinhentos anos antes, poupando assim à humanidade quinhentos anos de erros, de lutas e de

sofrimentos.

Vimos como os filósofos franceses do século XVIII, que abriram o caminho à revolução, apelavam para a

razão como o juiz único de tudo o que existe. Pretendia-se instaurar um Estado racional, uma sociedade

ajustada à razão, e tudo quanto contradissesse a razão eterna deveria ser rechaçado sem nenhuma piedade.

Vimos também que, em realidade, essa razão não era mais que o senso comum do homem idealizado da

classe média que, precisamente então, se convertia em burguês. Por isso, quando a Revolução Francesa

empreendeu a construção dessa sociedade e desse Estado da razão, redundou que as novas instituições,

por mais racionais que fossem em comparação com as antigas, distavam bastante da razão absoluta. O

Estado da razão falira completamente. O contrato social de Rousseau tomara corpo na época do terror, e a

burguesia, perdida a fé em sua própria habilidade política, refugiou-se, primeiro na corrupção do Diretório

e, por último, sob a égide do despotismo napoleônico. A prometida paz eterna convertera-se numa

interminável guerra de conquistas. Tampouco teve melhor sorte a sociedade da razão. O antagonismo

entre pobres e ricos, longe de dissolver-se no bem-estar geral, aguçara-se com o desaparecimento dos

privilégios das corporações e outros, que estendiam uma ponte sobre ele, e os estabelecimentos

eclesiásticos de beneficência, que o atenuavam. A «liberação da propriedade" dos entraves feudais, que

agora se convertia em realidade, vinha a ser para o pequeno burguês e o pequeno camponês a liberdade de

vender a esses mesmos poderosos senhores sua pequena propriedade, esgotada pela esmagadora

concorrência do grande capital e da grande propriedade latifundiária; com o que se transformava na

"liberação" do pequeno burguês e do pequeno camponês de toda propriedade. O ascenso da indústria

sobre bases capitalistas converteu a pobreza e a miséria das massas trabalhadoras em condição de vida da

sociedade. O pagamento à vista transformava-se, cada vez mais, segundo a expressão de Carlyle, no único

elo que unia a sociedade. A estatística criminal crescia de ano para ano. Os vícios feudais, que até então

eram exibidos impudicamente, à luz do dia, não desapareceram, mas se recolheram, por um momento, um

pouco ao fundo do cenário; em troca, floresciam exuberantemente os vícios burgueses, até então

superficialmente ocultos. O comércio foi degenerando, cada vez mais, em trapaça. A «fraternidade" do

lema revolucionário tomou corpo nas deslealdades e na inveja da luta de concorrência. A opressão

violenta cedeu lugar à corrupção, e a espada, como principal alavanca do poder social, foi substituída pelo

dinheiro. O direito de pernada (4) passou do senhor feudal ao fabricante burguês. A prostituição

desenvolveu-se em proporções até então desconhecidas. O próprio casamento continuou sendo o que já

era: a forma reconhecida pela lei, o manto com que se cobria a prostituição, completado ademais com

uma abundância de adultérios. Numa palavra, comparadas com as brilhantes promessas dos pensadores,

as Instituições sociais e políticas instauradas pelo «triunfo da razão" redundaram em tristes e

decepcionantes caricaturas. Faltavam apenas os homens que pusessem em relevo o desengano, e esses

homens surgiram nos primeiros anos do século XIX. Em 1802, vieram à luz as Cartas de Genebra de

Saint-Simon; em 1808, Fourier publicou a sua primeira obra, embora as bases de sua teoria datassem já de

1799; a 1.0 de janeiro de 1800, Robert Owen assumiu a direção da empresa de New Lanark.

No entanto, naquela época, o modo capitalista de produção, e com ele o antagonismo entre a burguesia e o

proletariado, achava-se ainda muito pouco desenvolvido. A grande indústria, que acabava de nascer na

Inglaterra, era ainda desconhecida na França. E só a grande indústria desenvolve, de uma parte, os

conflitos que transformam numa necessidade Imperiosa a subversão do modo de produção e a eliminação

de seu caráter capitalista - conflitos que eclodem não só entre as classes engendradas por essa grande

indústria, mas também entre as forças produtivas e as formas de distribuição por ela criadas - e, de outra

parte, desenvolve também nessas gigantescas forças produtivas os meios para solucionar esses conflitos.

Às vésperas do século XIX, os conflitos que brotavam da nova ordem social mal começavam a

desenvolver-se, e menos ainda, naturalmente, os meios que levam à sua solução. Se as massas

despossuídas de Paris conseguiram dominar por um momento o poder durante o regime de terror, e assim

levar ao triunfo a revolução burguesa, Inclusive contra a burguesia, foi só para demonstrar até que ponto

era impossível manter por muito tempo esse poder nas condições da época. O proletariado, que apenas

começava a destacar-se no seio das massas que nada possuem, como tronco de uma nova classe,

totalmente incapaz ainda para desenvolver uma ação política própria, não representava mais que um

estrato social oprimido, castigado, incapaz de valer-se por si mesmo. A ajuda, no melhor dos casos, tinha

que vir de fora, do alto.

Essa situação histórica Informa também as doutrinas dos fundadores do socialismo. Suas teorias

incipientes não fazem mais do que refletir o estado Incipiente da produção capitalista, a incipiente

condição de classe. Pretendia-se tirar da cabeça a solução dos problemas sociais, latentes ainda nas

condições econômicas pouco desenvolvidas da época. A sociedade não encerrava senão males, que a

razão pensante era chamada a remediar.

Tratava-se, por isso, de descobrir um sistema novo e mais perfeito de ordem social, para implantá-lo na

sociedade vindo de fora, por meio da propaganda e, sendo possível, com o exemplo, mediante

experiências que servissem de modelo. Esses novos sistemas sociais nasciam condenados a mover-se no

reino da utopia; quanto mais detalhados e minuciosos fossem, mais tinham que degenerar em puras

fantasias.

Assentado isso, não há por que nos determos nem um momento mais nesse aspecto, já definitivamente

incorporado ao passado. Deixemos que os trapeiros literários revolvam solenemente nessas fantasias, que

parecem hoje provocar o riso, para ressaltar sobre o fundo desse «cúmulo de disparates" a superioridade

de seu raciocínio sereno. Quanto a nós, admiramos os germes geniais de idéias e as idéias geniais que

brotam por toda parte sob essa envoltura de fantasia que os filisteus são incapazes de ver.

Saint-Simon era filho da grande Revolução Francesa, que estalou quando ele não contava ainda trinta

anos. A. Revolução foi o triunfo do terceiro estado, isto é, da grande massa ativa da nação, a cujo cargo

corriam a produção e o comércio, sobre os estados até então ociosos e privilegiados da sociedade: a

nobreza e o clero. Mas logo se viu que o triunfo do terceiro estado não era mais que o triunfo de uma

parte multo pequena dele, a conquista do poder político pelo setor socialmente privilegiado dessa classe: a

burguesia possuidora. Essa burguesia desenvolvia-se rapidamente já no processo da revolução,

especulando com as terras confiscadas e logo vendidas da aristocracia e da Igreja, e lesando a nação por

meio das verbas destinadas ao exército. Foi precisamente o governo desses negocistas que, sob o

Diretório, levou à França e a Revolução à beira da ruína, dando com isso a Napoleão o pretexto para o

golpe de Estado. Por isso, na idéia de Saint-Simon, o antagonismo entre o terceiro estado e os estados

privilegiados da sociedade tomou a forma de um antagonismo entre "trabalhadores" e "ociosos". Os

«ociosos" eram não só os antigos privilegiados, mas todos aqueles que viviam de suas rendas, cem intervir

na produção nem no comércio. No conceito de "trabalhadores" não entravam somente os operários

assalariados, mas também os fabricantes, os comerciantes e os banqueiros. Que os ociosos haviam

perdido a capacidade para dirigir espiritualmente e governar politicamente era um fato Indisfarçável,

selado em definitivo pela Revolução. E, para Saint-Simon, as experiências da época do terror haviam

demonstrado, por sua vez, que os descamisados não possuíam tampouco essa capacidade. Então, quem

haveria de dirigir e governar? Segundo Saint-Simon, a ciência e a indústria, unidas por um novo laço

religioso, um "novo cristianismo", forçosamente místico e rigorosamente hierárquico, chamado a restaurar

a unidade das idéias religiosas, destruída desde a Reforma. Mas a ciência eram os sábios acadêmicos; e a

indústria eram, em primeiro lugar, os burgueses ativos, os fabricantes, os comerciantes, os banqueiros. E

embora esses burgueses tivessem de transformar-se numa espécie de funcionários públicos, de homens da

confiança de toda a sociedade, sempre conservariam frente aos operários uma posição autoritária e

economicamente privilegiada. Os banqueiros seriam os chamados em primeiro lugar para regular toda a

produção social por meio de uma regulamentação do crédito. Esse modo de conceber correspondia

perfeitamente a uma época em que a grande indústria, e com ela o antagonismo entre a burguesia e o

proletariado, mal começava a despontar na França. Mas Saint-Simon insiste muito especialmente neste

ponto: o que o preocupa, sempre e em primeiro lugar, é a sorte da "classe mais numerosa e mais pobre"

ela sociedade ("la classe la plus nombreuse et la plus paurre").

Em suas Cartas de Genebra, Saint-Simon formula a tese de que "todos os homens devem trabalhar". Na

mesma obra já se expressa a Idéia de que o reinado do terror era o governo das massas despossuídas.

"Vede - grita-lhes - o que se passou na França quando vossos camaradas subiram ao poder: provocaram a

fome". Mas conceber a Revolução Francesa como urna luta de classes, e não só entre a nobreza e a

burguesia, mas entre a nobreza, a burguesia e os despossuídos, era, em 1802, uma descoberta

verdadeiramente genial.

Em 1816, Saint-Simon declara que a política é a ciência da produção e prediz já a total absorção da

política pela economia. E se aqui não faz senão aparecer em germe a idéia de que a situação econômica é

a base das instituições políticas, proclama já claramente a transformação do governo político sobre os

homens numa administração das coisas e na direção dos processos da produção, que não é senão a idéia

da "abolição do Estado", que tanto alarde levanta ultimamente. E, elevando-se ao mesmo plano de

superioridade sobre os seus contemporâneos, declara, em 1814, imediatamente, depois da entrada das

tropas coligadas em Paris, e reitera em 1815, durante a Guerra dos Cem Dias, que a aliança da França com

a Inglaterra e, em segundo lugar, a destes países com a Alemanha é a única garantia do desenvolvimento

próspero e da paz na Europa. A fim de aconselhar aos franceses de 1815 uma aliança com os vencedores

de Waterloo era necessário possuir tanto valentia quanto capacidade para ver longe na história.

O que em Saint-Simon é amplitude genial de visão, que lhe permite conter já, em germe, quase todas as

Idéias não estritamente econômicas dos socialistas posteriores, em Fourier é a critica engenhosa

autenticamente francesa, mas nem por isso menos profunda, das condições sociais existentes. Fourier

pega a burguesia pela palavra, por seus inflamados profetas de antes e seus Interesseiros aduladores de

depois da revolução. Põe a nu, impiedosamente, a miséria material e moral do mundo burguês, e a

compara com as fascinantes promessas dos velhos enciclopedistas, com a imagem que eles faziam da

sociedade em que a razão reinaria sozinha, de urna civilização que faria felizes todos os homens e de uma

ilimitada capacidade humana de perfeição. Desmascara as brilhantes frases dos ideólogos burgueses da

época, demonstra como a essas frases grandiloqüentes corresponde, por toda parte, a mais cruel das

realidades e derrama sua sátira mordaz sobre esse ruidoso fracasso da fraseologia. Fourier não é apenas

um crítico; seu espírito sempre jovial faz dele um satírico, um dos maiores satíricos de todos os tempos. A

especulação criminosa desencadeada com o refluxo da onda revolucionária e o espírito mesquinho do

comércio francês naqueles anos aparecem pintados em suas obras com traços magistrais e encantadores.

Mas é ainda mais magistral nele a crítica das relações entre os sexos e da posição da mulher na sociedade

burguesa. É ele o primeiro a proclamar que o grau de emancipação da mulher numa sociedade é o

barômetro natural pelo qual se mede a emancipação geral. Contudo, onde mais sobressai Fourier é na

maneira como concebe a história da sociedade. Fourier divide toda a história anterior em quatro fases ou

etapas de desenvolvimento:o selvagismo, a barbárie, o patriarcado e a civilização, esta última fase

coincidindo com o que chamamos hoje sociedade burguesa, isto é, com o regime social implantado desde

o século XVI, e demonstra que a "ordem civilizada eleva a uma forma complexa, ambígua, equívoca e

hipócrita todos aqueles vícios que a barbárie praticava em meio à maior simplicidade". Para ele a

civilização move-se num "círculo vicioso", num ciclo de contradições, que reproduz constantemente sem

poder superá-las, conseguindo sempre precisamente o contrário do que deseja ou alega querer conseguir.

E assim nos encontramos, por exemplo, com o fato de que "na civilização, a pobreza brota da própria

abundância". Como se vê, Fourier maneja a dialética com a mesma mestria de seu contemporâneo Hegel.

Diante dos que enchem a boca falando da ilimitada capacidade humana de perfeição, põe em relevo, com

Igual dialética, que toda fase histórica tem sua vertente ascensional, mas também sua ladeira descendente,

e projeta essa concepção sobre o futuro de toda a humanidade. E assim como Kant Introduziu na ciência

da natureza o desaparecimento futuro da Terra, Fourier introduz em seu estudo da história a idéia do

futuro desaparecimento da humanidade.

Enquanto o vendaval da revolução varria o solo da França, desenvolvia-se na Inglaterra um processo

revolucionário, mas tranqüilo, porém nem por isso menos poderoso. O vapor e as máquinas-ferramenta

converteram a manufatura na grande indústria moderna, revolucionando com Isso todos os fundamentos

da sociedade burguesa. O ritmo vagaroso do desenvolvimento do período da manufatura converteu-se

num verdadeiro período de luta e embate da produção. Com uma velocidade cada vez mais acelerada, ia-

se dando a divisão da sociedade em grandes capitalistas e proletários que nada possuem e, entre eles, em

lugar da antiga classe média tranqüila e estável, uma massa Instável de artesãos e pequenos comerciantes,

a parte mais flutuante da população, levava unia existência sem nenhuma segurança. O novo modo de

produção apenas começava a galgar a vertente ascensional; era ainda o modo de produção normal,

regular, o único possível, naquelas circunstâncias. E no entanto deu origem a toda uma série de graves

calamidades sociais: amontoamento, nos bairros mais sórdidos das grandes cidades, de uma população

arrancada do seu solo; dissolução de todos os laços tradicionais dos costumes, da submissão patriarcal e

da família; prolongação abusiva do trabalho, que sobretudo entre as mulheres e as crianças assumia

proporções aterradoras; desmoralização em massa da classe trabalhadora, lançada de súbito a condições

de vida totalmente novas - do campo para a cidade, da agricultura para a indústria, de uma situação

estável para outra contentemente variável e insegura. Em tais circunstâncias, ergue-se como reformador

um fabricante de 29 anos, um homem cuja pureza quase infantil tocava às raias do sublime e que era, ao

lado disso, um condutor de homens como poucos. Roberto Owen assimilara os ensinamentos dos

filósofos materialistas do século XVIII, segundo os quais o caráter do homem é, de um lado, produto de

sua organização Inata e, de outro, fruto das circunstâncias que envolvem o homem durante. sua vida,

sobretudo durante o período de seu desenvolvimento. A maioria dos homens de sua classe não via na

revolução industrial senão caos e confusão, uma ocasião propícia para pescar no rio revolto e enriquecer

depressa. Owen, porém, viu nela o terreno adequado para pôr em prática a sua tese favorita, Introduzindo

ordem no caos. Já em Manchester, dirigindo uma fábrica de mais de 500 operários, tentara, não sem êxito,

aplicar praticamente a sua teoria. De 1800 a 1829 orientou no mesmo sentido, embora com maior

liberdade de iniciativa e com um êxito que lhe valeu fama na Europa, a grande fábrica de fios de algodão

de New Lanark, na Escócia, da qual era sócio e gerente. Uma população operária que foi crescendo

paulatinamente até 2 500 almas, recrutada a principio entre os elementos mais heterogêneos, a maioria

dos quais muito desmoralizados, converteu-se em suas mãos numa colônia-modelo, na qual não se

conheciam a embriaguez, a policia, os juizes de paz, os processos, os asilos para pobres nem a

beneficência pública Para Isso bastou, tão somente, colocar seus operários em condições mais humanas de

vida, consagrando um cuidado especial à educação da prole. Owen foi o criador dos jardins-de-infância,

que funcionaram pela primeira vez em New Lanark. As crianças eram enviadas às escolas desde os dois

anos, e nelas se sentiam tão bem que só com dificuldade eram levadas para casa. Enquanto nas fábricas de

seus concorrentes os operários trabalhavam treze e quatorze horas diárias, em New Lanark a jornada de

trabalho era de dez horas e meia. Quando uma crise algodoeira obrigou o fechamento da fábrica por

quatro meses, os operários de New Lanark, que ficaram sem trabalho, continuaram recebendo suas diárias

Integrais. E contudo a empresa incrementara ao dobro o seu valor e rendeu a seus proprietários, até o

último dia, enormes lucros.

Owen, entretanto, não estava satisfeito com o que conseguira. A existência que se propusera dar a seus

operários distava muito ainda de ser, a seus olhos, uma existência digna de um ser humano. "Aqueles

homens eram meus escravos". As circunstâncias relativamente favoráveis em que os colocara estavam

ainda muito longe de permitir-lhes desenvolver racionalmente e em todos os aspectos o caráter e a

inteligência, e muito menos desenvolver livremente suas energias. "E, contudo, a parte produtora daquela

população de 2500 almas dava à sociedade uma soma de riqueza real que, apenas meio século antes, teria

exigido o trabalho de 600 000 homens juntos. Eu me perguntava: onde vai parar a diferença entre a

riqueza consumida por essas 2 500 pessoas e a que precisaria ser consumida pelas 600 000?" A resposta

era clara: essa diferença era invertida em abonar os proprietários da empresa com 5 por cento de juros

sobre o capital de instalação, ao qual vinham somar-se mais de 300 000 libras esterlinas de lucros. E o

caso de New Lanark era, só que em proporções maiores, o de todas as fábricas da Inglaterra. "Sem essa

nova fonte de riqueza criada pelas máquinas, teria sido impossível levar adiante as guerras travadas para

derrubar Napoleão e manter de pé os princípios da sociedade aristocrática. E, no entanto, esse novo poder

era obra da classe operária." (5) A ela deviam pertencer também, portanto, os seus frutos. As novas e

gigantescas forças produtivas, que até ali só haviam servido para que alguns enriquecessem e as massas

fossem escravizadas, lançavam, segundo Owen, as bases para uma reconstrução social e estavam fadadas

a trabalhar somente para o bem-estar coletivo, como propriedade coletiva de todos os membros da

sociedade.

Foi assim, por esse caminho puramente prático - resultado, por dizê-lo, dos cálculos de um homem de

negócios que surgiu o comunismo oweniano, conservando sempre esse caráter prático Assim, em 1823,

Owen propõe um sistema de colônias comunistas para combater a miséria reinante na Irlanda e apresenta,

em apoio de sua proposta, um orçamento completo de despesas de instalação, desembolsos anuais e

rendas prováveis. E assim também em seus planos definitivos da sociedade do futuro, os detalhes técnicos

são calculados com um domínio tal da matéria, Incluindo até projetos, desenhos de frente, de perfil e do

alto que, uma vez aceito o método oweniano de reforma da sociedade, pouco se poderia objetar, mesmo

um técnico experimentado, contra os pormenores de sua organização.

O avanço para o comunismo constitui um momento crucial na vida de Owen. Enquanto se limitara a atuar

só como filantropo, não colhera senão riquezas, aplausos, honra e fama. Era o homem mais popular da

Europa Não só os homens de sua classe e posição social, mas também os governantes e os príncipes o

escutavam e o aprovavam. No momento, porém, em que formulou suas teorias comunistas, virou-se a

página. Eram precisamente três grandes obstáculos os que, segundo ele, se erguiam em seu caminho da

reforma social: a propriedade privada, a religião e a forma atual do casamento. E não ignorava ao que se

expunha atacando-os: à execração de toda a sociedade oficial e à perda de sua posição social. Mas isso

não o deteve em seus ataques implacáveis contra aquelas instituições, e ocorreu o que ele previa.

Desterrado pela sociedade oficial, ignorado completamente pela imprensa, arruinado por suas fracassadas

experiências comunistas na América, às quais sacrificou toda a sua fortuna, dirigiu-se à classe operária, no

seio da qual atuou ainda durante trinta anos. Todos os movimentos sociais, todos os progressos reais

registrados na Inglaterra em interesse da classe trabalhadora, estão ligados ao nome de Owen. Assim, em

1819, depois de cinco anos de grandes esforços, conseguiu que fosse votada a primeira lei limitando o

trabalho da mulher e da criança nas fábricas. Foi ele quem presidiu o primeiro congresso em que as trade-

unions de toda a Inglaterra fundiram-se numa grande organização sindical única. E foi também ele quem

criou, como medidas de transição, para que a sociedade pudesse organizar-se de maneira integralmente

comunista, de um lado, as cooperativas de consumo e de produção - que serviram, pelo menos, para

demonstrar na prática que o comerciante e o fabricante não são Indispensáveis -, e de outro lado, os

mercados operários, estabelecimentos de troca dos produtos do trabalho por meio de bonus de trabalho e

cuja unidade é a hora de trabalho produzido; esses estabelecimentos tinham necessariamente que

fracassar, mas se antecipam multo aos bancos proudhonianos de troca, diferenciando-se deles somente em

que não pretendem ser a panacéia universal para todos os males sociais, mas pura e simplesmente um

primeiro passo para uma transformação multo mais radical da sociedade.

As concepções dos utopistas dominaram durante muito tempo as idéias socialistas do século XIX, e em

parte ainda hoje as dominam. Rendiam-lhes homenagens, até há muito pouco tempo, todos os socialistas

franceses e Ingleses e a eles se deve também o incipiente comunismo alemão, incluindo Weitling. Para

todos eles, o socialismo é a expressão da verdade absoluta, da razão e da justiça, e é bastante revelá-lo

para, graças à sua virtude, conquistar o mundo. E, como a verdade absoluta não está sujeita a condições de

espaço e de tempo nem ao desenvolvimento histórico da humanidade, só o acaso pode decidir quando e

onde essa descoberta se revelará. Acrescente-se a isso que a verdade absoluta, a razão e a justiça variam

com os fundadores de cada escola; e como o caráter específico da verdade absoluta, da razão e da justiça

está condicionado, por sua vez, em cada um deles, pela Inteligência pessoal, condições de vida, estado de

cultura e disciplina mental, resulta que nesse conflito de verdades absolutas a única solução é que elas vão

acomodando-se umas às outras. E, assim, era inevitável que surgisse uma espécie de socialismo eclético e

medíocre, como o que, com efeito, continua imperando ainda nas cabeças da maior parte dos operários

socialistas da França e da Inglaterra: uma mistura extraordinariamente variegada e cheia de matizes,

compostas de desabafes críticos, princípios econômicos e as imagens sociais do futuro menos discutíveis

dos diversos fundadores de seitas, mistura tanto mais fácil de compor quanto mais os ingredientes

individuais iam perdendo, na torrente da discussão, os seus contornos sutis e agudos, como as pedras

limadas pela corrente de um rio. Para converter o socialismo em ciência era necessário, antes de tudo,

situá-lo no terreno da realidade.

Notas: Capítulo I

(1) É a seguinte a passagem de Hegel referente à Revolução Francesa: "A Idéia, o conceito de direito, fez-

se valer de chofre, sem que lhe pudesse opor qualquer resistência a velha armação da Injustiça. Sobre a

idéia do direito baseou-se agora, portanto, uma Constituição, e sobre esse fundamento deve basear-se tudo

mais no futuro. Desde que o Sol ilumina o firmamento e os planetas giram em torno daquele ninguém

havia percebido que o homem se ergue sobre a cabeça, isto é, sobre a idéia, construindo de acordo com

ela a realidade. Anaxágoras foi o primeiro a dizer que o nus, a razão, governa o mundo: mas só agora o

homem acabou de compreender que o pensamento deve governar a realidade espiritual. Era, pois, uma

esplêndida aurora Todos os seres pensantes celebraram a nova época. Uma sublime emoção reinava

naquela época a um entusiasmo do espirito) abalava o mundo, como se pela primeira vez se conseguisse a

reconciliação do mundo com a divindade". Hegel Philosophie der Geschichte. 1840, pág. 535) [Hegel,

Filosofia da História, 1840 pág. 535]. Não terá chegado o momento de aplicar a essas doutrinas

subversivas e atentatórias à sociedade, do finado professor Hegel, a lei contra os socialistas? (Nota de

Engels) (retornar ao texto)

(2) Leveller (niveladores): nome que se dava aos elementos plebeus da cidade e do campo que durante a

revolução de 1648 apresentavam na Inglaterra as reivindicações democráticas mais radicais. (N. da E.)

(retornar ao texto)

(3) Engels refere-se aqui às obras dos representantes do comunismo utópico Tomas Morus (século XVI) e

Campanella (Século XVII). (N. da R.) (retornar ao texto)

(4) «Direito de pernadas: direito que tinha o senhor feudal à primeira noite com as nubentes do seu feudo.

(N. da Ed. Bras.) (retornar ao texto)

5. De The Revolution In Mind and Practice [A Revolução no Espírito e na Prática, um memorial

dirigido a todos os republicanos vermelhos. comunistas e socialistas da Europa», e enviado ao

governo provisório francês de 1848. mas também «à rainha Vitória e seus conselheiros

responsáveis». (Nota de Engels) (retornar ao texto)

Capítulo II - Dialética

Entretanto, junto à filosofia francesa do século XVIII, e por trás dela, surgira a moderna filosofia alemã,

cujo ponto culminante foi Hegel. O principal mérito dessa filosofia é a restauração da dialética, como

forma suprema do pensamento. Os antigos filósofos gregos eram todos dialéticos inatos, espontâneos, e a

cabeça mais universal de todos eles - Aristóteles - chegara já a estudar as formas mais substanciais do

pensamento dialético. Em troca, a nova filosofia, embora tendo um ou outro brilhante defensor da

dialética (como por exemplo, Descartes e Spinoza) caía cada vez mais, sob a influência principalmente

dos ingleses, na chamada maneira metafísica de pensar, que também dominou quase totalmente entre os

franceses do século XVIII, ao menos em suas obras especificamente filosóficas. Fora do campo

estritamente filosófico, eles criaram também obras-primas de dialética; como prova, basta citar O

Sobrinho de Rameau, de Diderot, e o estudo de Rousseau sôbre a origem da desigualdade entre os

homens. Resumiremos aqui, sucintamente, os traços mais essenciais de ambos os métodos discursivos.

Quando nos detemos a pensar sobre a natureza, ou sobre a história humana, ou sobre nossa própria

atividade espiritual,. deparamo-nos, em primeiro plano, com a imagem de uma trama infinita de

concatenações e Influências recíprocas, em que nada permanece o que era, nem como e onde era, mas

tudo se move e se transforma, nasce e morre. Vemos, pois, antes de tudo, a imagem de conjunto, na qual

os detalhes passam ainda mais ou menos para o segundo plano; fixamo-nos mais no movimento, nas

transições, na concatenação, do que no que se move, se transforma e se concatena Essa concepção do

mundo, primitiva, ingênua, mas essencialmente exata, é a dos filósofos gregos antigos, e aparece

claramente expressa pela primeira vez em Heráclito: tudo é e não é, pois tudo flui, tudo se acha sujeito a

um processo constante de transformação, de Incessante nascimento e caducidade. Mas essa concepção,

por mais exatamente que reflita o caráter geral do quadro que nos é oferecido pelos fenômenos, não basta

para explicar os elementos isolados que formam esse quadro total; sem conhecê-los a Imagem geral não

adquirirá tampouco um sentido claro. Para penetrar nesses detalhes temos de despregá-los do seu tronco

histórico ou natural e Investigá-los separadamente, cada qual por si, em seu caráter, causas e efeitos

especiais, etc. Tal é a missão primordial das ciências naturais e da história, ramos de investigação que os

gregos clássicos situavam, por motivos muito justificados, num plano puramente secundário, pois

primariamente deviam dedicar-se a acumular os materiais científicos necessários. Enquanto não se reúne

uma certa quantidade de materiais naturais e históricos não se pode proceder ao exame crítico, à

comparação e, consequentemente, a divisão em classes, ordens e espécies. Por isso, os rudimentos das

ciências naturais exatas não foram desenvolvidos senão a partir dos gregos do período alexandrino (6) e,

mais tarde, na Idade Média, pelos árabes; a ciência autêntica da natureza data semente da segunda metade

do século XV e, desde então, não fez senão progredir a ritmo acelerado. A análise da natureza em suas

diversas partes, a classificação dos diversos processos e objetos naturais em determinadas categorias, a

pesquisa interna dos corpos orgânicos segundo sua diversa estrutura anatômica, foram outras tantas

condições fundamentais a que obedeceram os gigantescos progressos realizados, durante os últimos

quatrocentos anos, no conhecimento científico da natureza. Esses métodos de Investigação, porém, nos

transmitiu, ao lado disso, o hábito de enfocar as coisas e os processos da natureza isoladamente,

subtraídos à concatenação do grande todo; portanto, não em sua dinâmica, mas estaticamente; não como

substancialmente variáveis, mas como consistências fixas; não em sua vida, mas em sua morte. Por Isso,

esse método de observação, ao transplantar-se, com Bacon e Locke, das ciências naturais para a filosofia,

determinou a estreiteza específica característica dos últimos séculos: o método metafísico de especulação.

Para o metafísico, as coisas e suas Imagens no pensamento, os conceitos, são objetos de Investigação

Isolados, fixos, rígidos, focalizados um após o outro, de per si, como algo dado e perene. Pensa só em

antíteses, sem meio-termo possível; para ele, das duas uma: sim, sim; não, não; o que for além disso,

sobra. Para ele, uma coisa existe ou não existe; um objeto não pode ser ao mesmo tempo o que é e outro

diferente. O positivo e o negativo se excluem em absoluto. A causa e o efeito revestem também, a seus

olhos, a forma de uma rígida antítese. À primeira vista, esse método discursivo parece-nos extremamente

razoável, porque é o do chamado senão comum. Mas o próprio senso comum - personagem multo

respeitável dentro de casa, entre quatro paredes - vive peripécias verdadeiramente maravilhosas quando se

aventura pelos caminhos amplos da investigação; e o método metafísico de pensar, pois muito justificado

e até necessário que seja em muitas zonas do pensamento, mais ou menos extensas segundo a natureza do

objeto de que se trate, tropeça sempre, cedo ou tarde, com uma barreira, ultrapassada a qual converte-se

num método unilateral, limitado, abstrato, e se perde em Insolúveis contradições, pois, absorvido pelos

objetos concretos, não consegue perceber sua concatenação; preocupado com sua existência, não atenta

em sua origem nem em sua caducidade; obcecado pelas árvores, não consegue ver o bosque. Na realidade

de cada dia, sabemos, por exemplo, e podemos dizer com toda certeza se um animal existe ou não; porém,

pesquisando mais detidamente, verificamos que às vezes o problema se complica consideravelmente,

como sabem muito bem os juristas, que tanto e tão inutilmente têm-se atormentado por descobrir um

limite racional a partir do qual deva a morte do filho no ventre materno ser considerada um assassinato;

nem é fácil tampouco determinar rigidamente o momento da morte, uma vez que a fisiologia demonstrou

que a morte não é um fenômeno repentino, instantâneo, mas um processo muito longo. Do mesmo modo,

todo ser orgânico é, a qualquer instante, ele mesmo e outro; a todo Instante, assimila matérias absorvidas

do exterior e elimina outras do seu interior; a todo instante, morrem certas células e nascem outras em seu

organismo; e no transcurso de um período mais ou menos demorado a matéria de que é formado renova-

se totalmente, e novos átomos de matérias vêm ocupar o lugar dos antigos, por onde todo o seu ser

orgânico é, ao mesmo tempo, o que é e outro diferente. Da mesma maneira, observando as coisas

detidamente, verificamos que os dois polos de uma antítese, o positivo e o negativo, são tão inseparáveis

quanto antitéticos um do outro e que, apesar de todo o seu antagonismo, se penetram reciprocamente; e

vemos que a causa e o efeito são representações que somente regem, como tais, em sua aplicação ao caso

concreto, mas que, examinando o caso concreto em sua concatenação com a imagem total do universo, se

juntam e se diluem na idéia de uma trama universal de ações e reações, em que as causas e os efeitos

mudam constantemente de lugar e em que o que agora ou aqui é efeito adquire em seguida ou ali o caráter

de causa, e vice-versa.

Nenhum desses fenômenos e métodos discursivos se encaixa no quadro das especulações metafísicas. Ao

contrário, para a dialética, que focaliza as coisas e suas Imagens conceituais substancialmente em suas

conexões, em sua concatenação, em sua dinâmica, em seu processo de nascimento e caducidade,

fenômenos como os expostos não são mais que outras tantas confirmações de seu modo genuíno de

proceder. A natureza é a pedra de toque da dialética, e as modernas ciências naturais nos oferecem para

essa prova um acervo de dados extraordinariamente copiosos e enriquecido cada dia que passa,

demonstrando com Isso que a natureza se move, em última instância, pelos caminhos dialéticos e não

pelas veredas metafísicas, que não se move na eterna monotonia de um ciclo constantemente repetido,

mas percorre uma verdadeira história. Aqui é necessário citar Darwin, em primeiro lugar, quem, com sua

prova de que toda a natureza orgânica existente, plantas e animais, e entre eles, como é lógico, o homem,

é o produto de um processo de desenvolvimento de milhões de anos, assestou na concepção metafísica da

natureza o mais rude golpe. Até hoje, porém, os naturalistas que souberam pensar dialeticamente podem

ser contados com os dedos, e esse conflito entre os resultados descobertos e o método discursivo

tradicional põe a nu a Ilimitada confusão que reina presentemente na teoria das ciências naturais e que

constitui o desespero de mestres e discípulos, de autores e leitores.

Somente seguindo o caminho da dialética, não perdendo jamais de vista as inumeráveis ações e reações

gerais do devenir e do perecer, das mudanças de avanço e retrocesso, chegamos a uma concepção exata do

universo, do seu desenvolvimento e do desenvolvimento da humanidade, assim como da imagem

projetada por esse desenvolvimento nas cabeças dos homens. E foi esse, com efeito, o sentido em que

começou a trabalhar, desde o primeiro momento, a moderna filosofia alemã. Kant iniciou sua carreira de

filósofo dissolvendo o sistema solar estável de Newton e sua duração eterna - depois de recebido o

primeiro impulso - num processo histórico: no nascimento do Sol e de todos os planetas a partir de uma

massa nebulosa em rotação. Dai, deduziu que essa origem implicava também, necessariamente, a morte

futura do sistema solar. Meio século depois sua teoria foi confirmada matematicamente por Laplace e, ao

fim de outro meio século, o espectroscópio veio demonstrar a existência no espaço daquelas massas

igneas de gás, em diferente grau de condensação.

A filosofia alemã moderna encontrou sua culminância no sistema de Hegel, em que pela primeira vez - e

aí está seu grande mérito - se concebe todo o mundo da natureza, da história e do espírito como um

processo, isto é, em constante movimento, mudança, transformação e desenvolvimento, tentando além

disso ressaltar a intima conexão que preside esse processo de movimento e desenvolvimento.

Contemplada desse ponto de vista, a história da humanidade já. não aparecia como um caos inóspito de

violências absurdas, todas igualmente condenáveis diante do foro da razão filosófica hoje já madura, e

boas para serem esquecidas quanto antes, mas como o processo de desenvolvimento da própria

humanidade, que cabia agora ao pensamento acompanhar em suas etapas graduais e através de todos os

desvios, e demonstrar a existência de leis internas que orientam tudo aquilo que à primeira vista poderia

parecer obra do acaso cego.

Não importava que o sistema de Hegel não resolvesse o problema que se propunha. Seu mérito, que

marca época. consistiu em tê-lo proposto. Não em vão, trata-se de um problema que nenhum homem

sozinho pôde resolver. E embora fosse Hegel, como Saint-Simon, a cabeça mais universal. de seu tempo,

seu horizonte achava-se circunscrito, em primeiro lugar, pela limitação inevitável de seus próprios

conhecimentos e, em segundo lugar, pelos conhecimentos e concepções de sua época, limitados também

em extensão e profundidade. Deve-se acrescentar a isso uma terceira circunstância. Hegel era idealista;

isto é, para ele as Idéias de sua cabeça não eram imagens mais ou menos abstratas dos objetos ou

fenômenos da realidade, mas essas coisas e seu desenvolvimento se lhe afiguravam, ao contrário, como

projeções realizadas da "Idéia", que já existia, não se sabe como, antes de existir o mundo. Assim, foi

tudo posto de cabeça para baixo, e a concatenação real do universal apresentava-se completamente às

avessas. E por mais exatas e mesmo geniais que fossem várias das conexões concretas concebidas por

Hegel, era inevitável, pelos motivos que acabamos de apontar, que muitos dos seus detalhes tivessem um

caráter amaneirado, artificial, construído; em uma palavra, falso. O sistema de Hegel foi um aborto

gigantesco, mas o último de seu gênero. De fato, continuava sofrendo de uma contradição interna

incurável; pois, enquanto de um lado partia como pressuposto inicial da concepção histórica, segundo a

qual a história humana é um processo de desenvolvimento que não pode, por sua natureza, encontrar o

arremate intelectual na descoberta disso que chamam verdade absoluta, de outro lado nos é apresentado

exatamente como a soma e a síntese dessa verdade absoluta. Um sistema universal e definitivamente

plasmado do conhecimento da natureza e da história é incompatível com as leis fundamentais do

pensamento dialético - que não exclui, mas longe disso implica que o conhecimento sistemático do

mundo exterior em sua totalidade possa progredir gigantescamente de geração em geração.

A consciência da total inversão em que incorria o Idealismo alemão levou necessariamente ao

materialismo; mas não, veja-se bem, àquele materialismo puramente metafísico e exclusivamente

mecânico do século XVIII. Em oposição à simples repulsa, ingenuamente revolucionária, de toda a

história anterior, o materialismo moderno vê na história o processo de desenvolvimento da humanidade,

cujas leis dinâmicas é missão sua descobrir. Contrariamente à idéia da natureza que imperava entre os

franceses do século XVIII, assim como em Hegel, em que esta era concebida como um todo permanente e

invariável, que se movia dentro de ciclos estreitos, com corpos celestes eternos, tal como Newton os

representava, e com espécies invariáveis de seres orgânicos, como ensinara Linneu, o materialismo

moderno resume e compendia os novos progressos das ciências naturais, segundo os quais a natureza tem

também sua história no tempo, e os mundos, assim como as espécies orgânicas que em condições

propícias os habitam, nascem e morrem, e os ciclos, no grau em que são admissíveis, revestem dimensões

infinitamente mais grandiosas. Tanto em um como em outro caso, o materialismo moderno é

substancialmente dialético e já não precisa de uma filosofia superior às demais ciências. Desde o

momento em que cada ciência tem que prestar contas da posição que ocupa no quadro universal das

coisas e do conhecimento dessas coisas, já não há margem para uma ciência especialmente consagrada ao

estudo das concatenações universais. Da filosofia anterior, com existência própria, só permanece de pé a

teoria do pensar e de suas leis: a lógica formal e a dialética. O demais se dissolve na ciência positiva da

natureza e da história.

No entanto, enquanto que essa revolução na concepção da natureza só se pôde impor na medida em que a

pesquisa fornecia à ciência os materiais positivos correspondentes, já há muito tempo se haviam revelado

certos fatos históricos que imprimiram uma reviravolta decisiva no modo de focalizar a história. Em

1831, estala em Lyon a primeira insurreição operária, e de 1838 a 1842 atinge o auge o primeiro

movimento operário nacional: o dos cartistas ingleses. A luta de classes entre o proletariado e a burguesia

passou a ocupar o primeiro plano da história dos países europeus mais avançados, ao mesmo ritmo em

que se desenvolvia neles, de uni lado, a grande indústria, e de outro lado, a dominação política recém-

conquistada da burguesia. Os fatos refutavam cada vez mais rotundamente as doutrinas burguesas da

identidade de interesses entre o capital e o trabalho e da harmonia universal e o bem-estar geral das

nações, como fruto da livre concorrência. Não havia como passar por alto esses fatos, nem era tampouco

possível ignorar o socialismo francês e inglês, expressão teórica sua, por mais imperfeita que fosse. Mas a

velha concepção idealista da história, que ainda não havia sido removida, não conhecia lutas de classes

baseadas em interesses materiais, nem conhecia interesses materiais de qualquer espécie; para ela a

produção, bem como todas as relações econômicas, só existiam acessoriamente, como um elemento

secundário dentro da "história cultural". Os novos fatos obrigaram à revisão de toda a história anterior, e

então se viu que, com exceção do Estado primitivo, toda a história anterior era a história das lutas de

classes, e que essas classes sociais em luta entre si eram em todas as épocas fruto das relações de

produção e de troca, isto é, das relações econômicas de sua época; que a estrutura econômica da sociedade

em cada época da história constitui, portanto, a base real cujas propriedades explicam, em última análise,

toda a superestrutura Integrada pelas instituições jurídicas e políticas, assim como pela ideologia religiosa,

filosófica, etc., de cada período histórico. Hegel libertara da metafísica a concepção da história, tornando-

a dialética; mas sua interpretação da história era essencialmente idealista. Agora, o idealismo fora

despejado do seu último reduto: a concepção da história -, substituída por uma concepção materialista da

história, com o que se abria o caminho para explicar a consciência do homem por sua existência, e não

esta por sua consciência, que era até então o tradicional.

Desse modo o socialismo já não aparecia como a descoberta casual de tal ou qual intelecto genial, mas

como o produto necessário da luta entre as duas classes formadas historicamente: o proletariado e a

burguesia. Sua missão já não era elaborar um sistema o mais perfeito possível da sociedade, mas

investigar o processo histórico econômico de que, forçosamente, tinham que brotar essas classes e seu

conflito, descobrindo os meios para a solução desse conflito na situação econômica assim criada. Mas o

socialismo tradicional era incompatível com essa nova concepção materialista da história, tanto quanto a

concepção da natureza do materialismo francês não podia ajustar-se à dialética e às novas ciências

naturais. Com efeito, o socialismo anterior criticava o modo de produção capitalista existente e suas

conseqüências, mas não conseguia explicá-lo nem podia, portanto, destrui-lo ideologicamente; nada mais

lhe restava senão repudiá-lo, pura o simplesmente, como mau. Quanto mais violentamente clamava contra

a exploração da classe operária, inseparável desse modo de produção, menos estava em condições de

indicar claramente em que consistia e como nascia essa exploração. Mas do que se tratava era, por um

lado, de expor esse modo capitalista de produção em suas conexões históricas e como necessário para

uma determinada época da história, demonstrando com isso também a necessidade de sua queda e, por

outro lado, pôr a nu o seu caráter interno, ainda oculto. Isso se tornou evidente com a descoberta da mais-

valia. Descoberta que veio revelar que o regime capitalista de produção e a exploração do operário, que

dele se deriva, tinham por forma fundamental a apropriação de trabalho não pago; que o capitalista,

mesmo quando compra a força de trabalho de seu operário por todo o seu valor, por todo o valor que

representa como mercadoria no mercado, dela retira sempre mais valor do que lhe custa e que essa mais-

valia é, em última análise, a soma de valor de onde provém a massa cada vez maior do capital acumulado

em mãos das classes possuidoras. O processo da produção capitalista e o da produção de capital estavam

assim explicados.

Essas duas grandes descobertas - a concepção materialista da história e a revelação do segredo da

produção capitalista através da mais-valia - nós as devemos a Karl Marx. Graças a elas o materialismo

converte-se em uma ciência, que só nos resta desenvolver em todos os seus detalhes e concatenações.

Notas: Capítulo II