Do Socialismo Utópico ao Socialismo Cientifico por Friederich Engels - Versão HTML

ATENÇÃO: Esta é apenas uma visualização em HTML e alguns elementos como links e números de página podem estar incorretos.
Faça o download do livro em PDF, ePub, Kindle para obter uma versão completa.

(6) O período alexandrino de desenvolvimento da ciência abrange desde o século III antes de nossa era até

o século VII de nossa era, recebendo o seu nome da cidade de Alexandria, no Egito, um dos mais

importantes centros das relações econôm1ca internacionais daquela época. No período alexandrino

adquiriram grande desenvolvimento várias ciências: as matemáticas (com Euclides e Arquimedes), a

geografia, a astronomia, a anatomia, a fisiologia, etc. (N. da R.) (retornar ao texto)

Capítulo III - O Materialismo Histórico

O socialismo moderno é, em primeiro lugar, por seu conteúdo, fruto do reflexo na inteligência, de um

lado dos antagonismos de classe que imperam na moderna sociedade entre possuidores e despossuidos,

capitalistas e operários assalariados, e, de outro lado, da anarquia que reina na produção. Por sua forma

teórica, porém, o socialismo começa apresentando-se como uma continuação, mais desenvolvida e mais

conseqüente, dos princípios proclamados pelos grandes pensadores franceses do século XVIII. Como toda

nova teoria, o socialismo, embora tivesse suas raízes nos fatos materiais econômicos, teve de ligar-se, ao

nascer, às Idéias existentes.

A concepção materialista da história parte da tese de que a produção, e com ela a troca dos produtos, é a

base de toda a ordem social; de que em todas as sociedades que desfilam pela história, a distribuição dos

produtos, e juntamente com ela a divisão social dos homens em classes ou camadas, é determinada pelo

que a sociedade produz e como produz o pelo modo de trocar os seus produtos. De conformidade com

isso, as causas profundas de todas as transformações sociais e de todas as revoluções políticas não devem

ser procuradas nas cabeças dos homens nem na idéia que eles façam da verdade eterna ou da eterna

justiça, mas nas transformações operadas no modo de produção e de troca; devem ser procuradas não na

filosofia, mas na economia da época de que se trata. Quando nasce nos homens a consciência de que as

instituições sociais vigentes são irracionais e injustas, de que a razão se converteu em insensatez e a

bênção em praga (7), isso não é mais que um indício de que nos métodos de produção e nas formas de

distribuição produziram-se silenciosamente transformações com as quais já não concorda a ordem social,

talhada segundo o padrão de condições econômicas anteriores. E assim já está dito que nas novas relações

de produção têm forçosamente que conter-se - mais ou menos desenvolvidos - os meios necessários para

pôr termo aos males descobertos. E esses meios não devem ser tirados da cabeça de ninguém, mas a

cabeça é que tem de descobrí-los nos fatos materiais da produção, tal e qual a realidade os oferece.

Qual é, nesse aspecto, a posição do socialismo moderno?

A ordem social vigente - verdade reconhecida hoje por quase todo o mundo - é obra das classes

dominantes dos tempos modernos, da burguesia. O modo de produção característico da burguesia, ao qual

desde Marx se dá o nome de modo capitalista de produção, era incompatível com os privilégios locais e

dos estados, como o era com os vínculos interpessoais da ordem feudal. A burguesia lançou por terra a

ordem feudal e levantou sobre suas ruínas o regime da sociedade burguesa, o império da livre

concorrência, da liberdade de domicílio, da igualdade de direitos dos possuidores de mercadorias, e tantas

outras maravilhas burguesas. Agora já podia desenvolver-se livremente o modo capitalista de produção. E

ao chegarem o vapor e a nova maquinaria ferramental, transformando a antiga manufatura na grande

indústria, as forças produtivas criadas e postas em movimento sob o comando da burguesia

desenvolveram-se com uma velocidade Inaudita e em proporções até então desconhecidas. Mas, do

mesmo modo que em seu tempo a manufatura e o artesanato, que continuava desenvolvendo-se sob sua

influência, se chocavam com os entraves feudais das corporações, a grande indústria, ao chegar a um uivei

de desenvolvimento mais alto, já não cabe no estreito marco em que é contida pelo modo de produção

capitalista. As novas forças produtivas transbordam já da forma burguesa em que são exploradas, e esse

conflito entre as forças produtivas e o modo de produção não é precisamente nascido na cabeça do

homem - algo assim como o conflito entre o pecado original do homem e a Justiça divina - mas tem suas

raízes nos fatos, na realidade objetiva, fora de nós, independentemente da vontade ou da atividade dos

próprios homens que o provocaram. O socialismo moderno não é mais que o reflexo desse conflito

material na consciência, sua projeção Ideal nas cabeças, a começar pelas da classe que sofre diretamente

suas conseqüências: a classe operária.

Em que consiste esse conflito? Antes de sobrevir a produção capitalista, isto é, na Idade Média,

dominava, com caráter geral, a pequena Indústria, baseada na propriedade privada do trabalhador sobre

seus meios de produção: no campo, a agricultura corria a cargo de pequenos lavradores, livres ou

vassalos; nas cidades, a indústria achava-se em mãos dos artesãos. Os meios de trabalho - a terra, os

instrumentos agrícolas, a oficina, as ferramentas - eram meios de trabalho individual, destinados

unicamente ao uso individual e, portanto, forçosamente, mesquinhos, diminutos, limitados. - Mas isso

mesmo levava a que pertencessem, em geral, ao próprio produtor. O papel histórico do modo capitalista

de produção e seu portador - a burguesia - consistiu precisamente em concentrar e desenvolver esses

dispersos e mesquinhos meios de produção, transformando-os nas poderosas alavancas produtoras dos

tempos atuais. Esse processo, que a burguesia vem desenvolvendo desde o século XV e que passa

historicamente pelas três etapas da cooperação simples, a manufatura e a grande indústria, é

minuciosamente exposto por Marx na seção quarta de O Capital. Mas a burguesia, como fica também

demonstrado nessa obra, não podia converter aqueles primitivos meios de produção em poderosas forças

produtivas sem transformá-los de meios individuais de produção em meios sociais, -só manejáveis por

uma coletividade de homens. A roca, O tear manual e o martelo do ferreiro foram substituídos pela

máquina de fiar, pelo tear mecânico, pelo martelo movido a vapor; a oficina individual deu o lugar à

fábrica, que impõe a cooperação de centenas e milhares de operários. E, com os meios de produção,

transformou-se a própria produção, deixando de ser uma cadeia de atos Individuais para converter-se

numa cadeia de atos sociais, e os produtos transformaram-se de produtos individuais em produtos sociais.

O fio, as telas, os artigos de metal que agora safam da fábrica eram produto do trabalho coletivo de um

grande número de operários, por cujas mãos tinha que passar sucessivamente para sua elaboração. Já

ninguém podia dizer: isso foi feito por mim, esse produto é meu.

Mas onde a produção tem por forma principal um regime de- divisão social do trabalho criado

paulatinamente, por impulso elementar, sem sujeição a plano algum, a produção imprime aos produtos a

forma de mercadoria, cuja troca, compra e venda permitem aos diferentes produtores Individuais

satisfazer suas diversas necessidades. E Isso era o que acontecia na Idade Média. O camponês, por

exemplo, vendia ao artesão os produtos da terra, comprando-lhe em troca os artigos elaborados em sua

oficina. Nessa sociedade de produtores Isolados, de produtores de mercadorias, veio a Introduzir-se mais

tarde o novo modo de produção. Em meio àquela divisão elementar do trabalho, sem plano nem sistema,

que imperava no seio de toda a sociedade, o novo modo de produção implantou a divisão planificada do

trabalho dentro de cada fábrica; ao lado da produção individual surgiu a produção social Os produtos de

ambas eram vendidos no mesmo mercado e, portanto, a preços aproximadamente iguais. Mas a

organização planificada podia mais que a divisão elementar do trabalho; as fábricas em que o trabalho

estava organizado socialmente elaboravam seus produtos mais baratos que os pequenos produtores

Isolados. A produção Individual foi pouco a pouco sucumbindo em todos os campos e a produção social

revolucionou todo o antigo modo de produção. Contudo, esse caráter revolucionário passava

despercebido; tão despercebido que, pelo contrário, se Implantava com a única e exclusiva finalidade de

aumentar e fomentar a produção de mercadorias. Nasceu diretamente ligada a certos setores de produção e

troca de mercadorias que já vinham funcionando: o capital comercial, a indústria artesanal e o trabalho

assalariado. E já que surgia como uma nova forma de produção de mercadorias, mantiveram-se em pleno

vigor sob ela as formas de apropriação da produção de mercadorias.

Na produção de mercadorias, tal como se havia desenvolvido na Idade Média, não podia surgir o

problema de a quem pertencer os produtos do trabalho. O produtor individual criava-os, geralmente, com

matérias-primas de sua propriedade, produzidas não poucas vezes por ele mesmo, com seus próprios

meios de trabalho e elaborados com seu próprio trabalho manual ou de sua família. Não necessitava,

portanto, apropriar-se deles, pois já eram seus pelo simples fato de produzi-los. A propriedade dos

produtos baseava-se, pois, no trabalho pessoal. E mesmo naqueles casos em que se empregava a ajuda

alheia, esta era, em regra, acessória, e recebia freqüentemente, além do salário, outra compensação: o

aprendiz e o oficial das corporações não trabalhavam menos pelo salário e pela comida do que para

aprender a chegar a ser mestres algum dia. Sobrevêm a concentração dos meios de produção em grandes

oficinas e manufaturas, sua transformação em meios de produção realmente sociais. Entretanto, esses

meios de produção e seus produtos sociais foram considerados como se continuassem a ser o que eram

antes: meios de produção e produtos individuais. E se até aqui o proprietário dos meios de trabalho se

apropriara dos produtos, porque eram, geralmente, produtos seus e a ajuda constituía uma exceção, agora

o proprietário dos meios de trabalho continuava apoderando-se do produto, embora já não fosse um

produto seu, mas fruto exclusivo do trabalho alheio. Desse modo, os produtos, criados agora socialmente,

não passavam a ser propriedade daqueles que haviam posto realmente em marcha os meios de produção e

eram realmente seus criadores, mas do capitalista. Os meios de produção e a produção foram convertidos

essencialmente em fatores sociais. E, no entanto, viam-se submetidos a uma forma do apropriação que

pressupõe a produção privada Individual, Isto é, aquela em que cada qual é dono de seu próprio produto e,

como tal, comparece com ele ao mercado. O modo de produção se vê sujeito a essa forma de apropriação

apesar de destruir o pressuposto sobre o qual repousa (8) Nessa contradição, que imprime ao novo modo

de produção o seu caráter capitalista, encerra-se em germe, todo o conflito dos tempos atuais. E quanto

mais o novo modo de produção se impõe e impera em todos os campos fundamentais da produção e em

todos os países economicamente importantes, afastando a produção individual, salvo vestígios

insignificantes, maior é a evidência com que se revela a incompatibilidade entre a produção social e a

apropriação capitalista.

Os primeiros capitalistas já se encontraram, como ficou dito, com a forma do trabalho assalariado. Mas

como exceção, como ocupação secundária, como simples ajuda, como ponto de transição. O lavrador que

saía de quando em vez para ganhar uma diária, tinha seus dois palmos de terra própria, graças às quais,

em caso extremo, podia viver. Os regulamentos das corporações velavam para que os oficiais de hoje se

convertessem amanhã em mestres. Mas, logo que os meios de produção adquiriram um caráter social e se

concentraram em mãos dos capitalistas, as coisas mudaram. Os meios de produção e os produtos do

pequeno produtor individual foram sendo cada vez mais depreciados, até que a esse pequeno produtor não

ficou outro recurso senão ganhar um salário pago pelo capitalista. O trabalho assalariado, que era antes

exceção e mera ajuda, passou a ser regra e forma fundamental de toda a produção, e o que era antes

ocupação acessória se converte em ocupação exclusiva do operário. O operário assalariado temporário

transformou-se em operário assalariado para toda a vida. Ademais, a multidão desses para sempre

assalariados vê-se engrossada em proporções gigantescas pela derrocada simultânea da ordem feudal, pela

dissolução das mesnadas (9) dos senhores feudais, a expulsão dos camponeses de suas terras, etc.

Realizara-se o completo divórcio entre os meios de produção concentrados nas mãos dos capitalistas, de

um lado, e, de outro lado, os produtores que nada possuíam além de sua própria força de trabalho. A

contradição entre a produção social e a apropriação capitalista reveste a forma de antagonismo entre o

proletariado e a burguesia.

Vimos que o modo de produção capitalista Introduziu-se numa sociedade de produtores de mercadorias,

de produtores Individuais, cujo vinculo social era o intercâmbio de seus produtos. Mas toda sociedade

baseada na produção de mercadorias apresenta a particularidade de que nela os produtores perdem o

comando sobre suas próprias relações sociais. Cada qual produz para si, com os meios de produção de que

consegue dispor, e para as necessidades de seu intercâmbio privado. Ninguém sabe qual a quantidade de

artigos do mesmo tipo que os demais lançam no mercado, nem da quantidade que o mercado necessita;

ninguém sabe se seu produto Individual corresponde a uma demanda efetiva, nem se poderá cobrir os

gastos, nem sequer, em geral, se poderá vendê-lo. A anarquia Impera na produção social. Mas a produção

de mercadorias tem, como toda forma de produção, suas leis características, próprias e Inseparáveis dela;

e essas leis abrem caminho apesar da anarquia, na própria anarquia e através dela. Tomam corpo na única

forma de enlace social que subsiste: na troca, e se Impõem aos produtores Individuais sob a forma das leis

Imperativas da concorrência. A principio, esses produtores as Ignoram, e é preciso que uma larga

experiência vá revelando-as, pouco a pouco. Impõem-se, pois, sem os produtores, e mesmo contra eles,

como leis naturais cegas que presidem essa forma de produção. O produto Impera sobre o produtor.

Na sociedade medieval, e sobretudo em seus primeiros séculos, a produção destinava-se principalmente

ao consumo próprio, a satisfazer apenas às necessidades do produtor e sua família. E onde, como

acontecia no campo, subsistiam relações pessoais de vassalagem, contribuía também para satisfazer às

necessidades do senhor feudal. Não se produzia, pois, nenhuma troca, nem os produtos revestiam,

portanto, o caráter de mercadorias. A família do lavrador produzia quase todos os objetos de que

necessitava: utensílios, roupas e viveres. Só começou a produzir mercadorias quando começou a criar um

excedente de produtos, depois de cobrir suas próprias necessidades e os tributos em espécie que devia

pagar ao senhor feudal; esse excedente, lançado no intercâmbio social, no mercado, para sua venda,

converteu-se em mercadoria. Os artesãos das cidades, por certo, tiveram que produzir para o mercado

desde o primeiro momento. Mas também elaboravam eles próprios a maior parte dos produtos de que

necessitavam para seu consumo; tinham suas hortas e seus pequenos campos, apascentavam seu gado nos

campos comunais, que lhes forneciam também madeira e lenha; suas mulheres fiavam o linho e a lã, etc.

A produção para a troca, a produção de mercadorias, achava-se em seu inicio. Por Isso o intercâmbio era

limitado, o mercado era reduzido, o modo de produção era estável. Em face do exterior imperava o

exclusivismo local; no interior, a associação local: a Marca no campo, as corporações nas cidades.

Mas ao estender-se a produção de mercadorias e, sobretudo, ao aparecer o modo capitalista de produção,

as leis da produção de mercadorias, que até aqui haviam apenas dado sinais de vida, passam a funcionar

de maneira aberta e p0-dêrosa. As antigas associações começam a perder força, as antigas fronteiras vão

caindo por terra, os produtores vão convertendo-se mais e mais em produtores de mercadorias

independentes e isolados. A anarquia da produção social sai à luz e se aguça cada vez mais. Mas o

instrumento principal com que o modo de produção capitalista fomenta essa anarquia na produção social é

precisamente o Inverso da anarquia: a crescente organização da produção com caráter social, dentro de

cada estabelecimento de produção. Por esse meio, põe fim à velha estabilidade pacifica. Onde se implanta

num ramo industrial, não tolera a seu lado nenhum dos velhos métodos. Onde se apodera da indústria

artesanal, ela a destrói e aniquila. O terreno de trabalho transforma-se num campo de batalha. As grandes

descobertas geográficas e as empresas de colonização que as acompanham multiplicam os mercados e

aceleram o processo de transformação de oficina do artesão em manufatura. E a luta não eclode somente

entre os produtores locais isolados; as contendas locais não adquirem envergadura nacional, e surgem as

guerras comerciais dos séculos XVII e XVIII (10). Até que, por fim, a grande indústria e a implantação do

mercado mundial dão caráter universal à luta, ao mesmo tempo que lhe imprimem uma inaudita violência.

Tanto entre os capitalistas individuais como entre industriais e países inteiros, a primazia das condições -

natural ou artificialmente criadas - da produção decide a luta pela existência. O que sucumbe é esmagado

sem piedade. É a luta darwinista da existência individual transplantada, com redobrada fúria, da natureza

para a sociedade. As condições naturais de vida da besta convertem-se no ponto culminante do

desenvolvimento humano. A contradição entre a produção social e a apropriação capitalista manifesta-se

agora como antagonismo entre a organização da produção dentro de cada fábrica e a anarquia da produção

no seio de toda a sociedade.

O modo capitalista de produção move-se nessas duas formas da contradição a ele inerente por suas

próprias origens, descrevendo sem apelação aquele "círculo vicioso" já revelado por Fourier. Mas o que

Fourier não podia ver ainda em sua época é que esse círculo se vai reduzindo gradualmente, que o

movimento se desenvolve em espiral e tem de chegar necessariamente ao seu fira, como o movimento dos

planetas. chocando-se com o centro. É a força propulsora da anarquia social da produção que converte a

Imensa maioria dos homens, cada vez mais marcadamente, em proletários, e essas massas proletárias

serão, por sua vez, as que, afinal, porão fim à anarquia da produção É a força propulsora da anarquia

social da produção que converte a capacidade infinita de aperfeiçoamento das máquinas num preceito

imperativo, que obriga todo capitalista industrial a melhorar continuamente a sua maquinaria, sob pena de

perecer. Mas melhorar a maquinaria equivale a tornar supérflua uma massa de trabalho humano. E assim

como a implantação e o aumento quantitativo da maquinaria trouxeram consigo a substituição de milhões

de operários manuais por um número reduzido de operários mecânicos, seu aperfeiçoamento determina a

eliminação de um número cada vez maior de operários das máquinas e, em última instância, a criação de

uma massa de operários disponíveis que ultrapassa a necessidade média de ocupação do capital, de um

verdadeiro exército industrial de reserva, como eu já o chamara em 1845 (11), de um exército de

trabalhadores disponíveis para as épocas em que a indústria trabalha a pleno vapor e que logo nas crises

que sobrevêm necessariamente depois desses períodos, é lançado às ruas, constituindo a todo momento

uma grilheta amarrada aos pés da classe trabalhadora em sua luta pela existência contra o capital e um

regulador para manter os salários no nível baixo correspondente às necessidades do capitalista. Assim,

para dizê-lo com Marx, a maquinaria converteu-se na mais poderosa arma do capital contra a classe

operária, um meio de trabalho que arranca constantemente os meios de vida das mãos do operário,

acontecendo que o produto do próprio operário passa a ser o instrumento de sua escravização. Desse

modo, a economia nos meios de trabalho leva consigo, desde o primeiro momento, o mais impiedoso

desperdício da força de trabalho e a espoliação das condições normais da função mesma do trabalho. E a

maquinaria, o recurso mais poderoso que se pôde criar para reduzir a jornada de trabalho, converte-se no

mais infalível recurso para converter a vida inteira do operário e de sua família numa grande jornada

disponível para a valorização do capital; ocorre, assim, que o excesso de trabalho de uns é a condição

determinante da carência de trabalho de outros, e que a grande indústria, lançando-se pelo mundo inteiro,

em desabalada carreira, à conquista de novos consumidores, reduz em sua própria casa o consumo das

massas a um mínimo de fome e mina com isso o seu próprio mercado interno. "A lei que mantém

constantemente o excesso relativo de população ou exército industrial de reserva em equilíbrio com o

volume e a intensidade da acumulação do capital amarra o operário ao capital com ataduras mais fortes do

que as cunhas com que Vulcano cravou Prometeu no rochedo. Isso dá origem a que a acumulação do

capital corresponda a uma acumulação igual de miséria. A acumulação de riqueza em um dos polos

determina no polo oposto, no polo da classe que produz o seu próprio produto como capital, uma

acumulação igual de miséria, de tormentos de trabalho, de escravidão, de ignorância, de embrutecimento e

de degradação moral." (Marx, O Capital, t. 1, cap. XXIII) E esperar do modo capitalista de produção uma

distribuição diferente dos produtos seria o mesmo que esperar que os dois eletrodos de uma bateria,

enquanto conectados com ela, não decomponham a água nem engendrem oxigênio no polo positivo e

hidrogênio no polo negativo.

Vimos que a capacidade de aperfeiçoamento da maquinaria moderna, levada a seu limite máximo,

converte-se, em virtude da anarquia da produção dentro da sociedade num preceito imperativo que obriga

os capitalistas industriais, cada qual por si, a melhorar incessantemente a sua maquinaria, a tornar sempre

mais poderosa a sua força de produção. Não menos imperativo é o preceito em que se converte para ele a

mera possibilidade efetiva de dilatar sua órbita de produção. A enorme força de expansão da grande

indústria, a cujo lado a expansão dos gases é uma brincadeira de crianças, revela-se hoje diante de nossos

olhos como uma necessidade qualitativa e quantitativa de expansão, que zomba de todos os obstáculos

que se lhe deparam. Esses obstáculos são os que lhe opõem o consumo, a saída, os mercados de que os

produtos da grande indústria necessitam. Mas a capacidade extensiva e intensiva de expansão dos

mercados obedece, por sua vez, a leis muito diferentes e que atuam de uma maneira muito menos

enérgica. A expansão dos mercados não podo desenvolver-se ao mesmo ritmo que a da produção. A

colisão torna-se inevitável, e como é impossível qualquer solução senão fazendo-se saltar o próprio modo

capitalista de produção, essa colisão torna-se periódica. A produção capitalista engendra um novo "círculo

vicioso".

Com efeito, desde 1825, ano em que estalou a primeira crise geral, não se passam dez anos seguidos sem

que todo o mundo industrial e comercial, a distribuição e a troca de todos os povos civilizados e de seu

séquito de países mais ou menos bárbaros, saia dos eixos. O comércio é paralisado, os mercados são

saturados de mercadorias, os produtos apodrecem nos armazéns abarrotados, sem encontrar saída; o

dinheiro torna-se invisível; o crédito desaparece; as fábricas param; as massas operárias carecem de meios

de subsistência precisamente por tê-los produzido em excesso, as bancarrotas e falências se sucedem. O

paradeiro dura anos inteiros, as forças produtivas e os produtos são malbaratados e destruidos em massa

até que, por fim, os estoques de mercadorias acumuladas, mais ou menos depreciadas, encontram saida, e

a produção e a troca se vão reanimando pouco a pouco. Paulatinamente, a marcha se acelera, a andadura

converte-se em trote, o trote industrial em galope e, finalmente, em carreira desenfreada, num steeple-

chase (12) da indústria, do comércio, do crédito, da especulação, para terminar, por fim, depois dos saltos

mais arriscados, na fossa de um crack. E assim, sucessivamente. Cinco vezes repete-se a mesma história

desde 1825, e presentemente (1877) estamos vivendo-a pela sexta vez. E o caráter dessas crises é tão

nítido e tão marcante que Fourier as abrangia todas ao descrever a primeira, dizendo que era uma crise

plétorique, uma crise nascida da superabundância.

Nas crises estala em explosões violentas a contradição entre a produção social e a apropriação capitalista.

A circulação de mercadoria fica, por um momento, paralisada. O meio de circulação, o dinheiro, converte-

se num obstáculo para a circulação; todas as leis da produção e da circulação das mercadorias viram pelo

avesso. O conflito econômico atinge seu ponto culminante: o modo de produção rebela-se contra o modo

de distribuição.

O fato de que a organização social da produção dentro das fábricas se tenha desenvolvido até chegar a um

ponto em que passou a ser inconciliável com a anarquia - coexistente com ela e acima dela - da produção

na sociedade é um rato que se revela palpavelmente aos próprios capitalistas pela concentração violenta

dos capitais, produzida durante as crises à custa da ruína de numerosos grandes e, sobretudo, pequenos

capitalistas. Todo o mecanismo do modo de produção falha, esgotado pelas forças produtivas que ele

mesmo engendrou. Já não consegue transformar em capital essa massa de meios de produção, que

permanecem inativos, e por isso precisamente deve permanecer também inativo o exército industrial de

reserva. Meios de produção, meios de vida, operários em disponibilidade: todos os elementos da produção

e da riqueza geral existem em excesso. Mas a "superabundância converte-se em fonte de miséria e de

penúria" (Fourier), já que é ela, exatamente, que impede a transformação dos meios de produção e de vida

em capital, pois na sociedade capitalista os meios de produção não podem pôr-se em movimento senão

transformando-se previamente em capital, em meio de exploração da força humana de trabalho. Esse

imprescindível caráter de capital dos meios de produção ergue-se como um espectro entre eles e a classe

operária. É isso o que impede que se engrenem a alavanca material e a alavanca pessoal da produção; é o

que não permite aos meios de produção funcionar nem aos operários trabalhar e viver. De um lado, o

modo capitalista de produção revela, pois, sua própria incapacidade para continuar dirigindo suas forças

produtivas. De outro lado, essas forças produtivas compelem com uma intensidade cada vez maior no

sentido de que resolva a contradição, de que sejam redimidas de sua condição de capital, de que seja

efetivamente reconhecido o seu caráter de forças produtivas sociais.

É essa rebelião das forças de produção, cada vez mais imponentes, contra a sua qualidade de capital, essa

necessidade cada vez mais imperiosa de que se reconheça o seu caráter social, que obriga a própria classe

capitalista a considerá-las cada vez mais abertamente como forças produtivas sociais, na medida em que é

possível dentro das relações capitalistas. Tanto os períodos de elevada pressão industrial, com sua

desmedida expansão do crédito, como o próprio crack, com o desmoronamento de grandes empresas

capitalistas, estimulam essa forma de socialização de grandes massas de meios de produção que

encontramos nas diferentes categorias de sociedades anônimas. Alguns desses meios de produção e de

comunicação já são por si tão gigantescos que excluem, como ocorre com as ferrovias, qualquer outra

forma de exploração capitalista. Ao chegar a uma determinada fase de desenvolvimento já não basta

tampouco essa forma; os grandes produtores nacionais de um ramo Industrial unem-se para formar um

truste, um consórcio destinado a regular a produção; determinam a quantidade total que deve ser

produzida, dividem-na entre eles e impõem, desse modo, um preço de venda de antemão fixado. Como,

porém, esses trustes se desmoronam ao sobrevirem os primeiros ventos maus nos negócios, conduzem

com isso a uma socialização ainda mais concentrada; todo o ramo industrial converte-se numa única

grande sociedade anônima, e a concorrência interna dá lugar ao monopólio interno dessa sociedade única;

assim aconteceu já em 1890 com a produção inglesa de álcalis, que na atualidade, depois da fusão de

todas as quarenta e oito grandes fábricas do país, é explorada por uma só sociedade com direção única e

um capital de 120 milhões de marcos.

Nos trustes, a livre concorrência transforma-se em monopólio e a produção sem plano da sociedade

capitalista capitula ante a produção planificada e organizada da nascente sociedade socialista. É claro que,

no momento, em proveito e benefício dos capitalistas. Mas aqui a exploração torna-se tão patente, que

tem forçosamente de ser derrubada. Nenhum povo toleraria uma produção dirigida pelos trustes, uma

exploração tão descarada da coletividade por uma pequena quadrilha de cortadores de cupões.

De um modo ou de outro, com ou sem trustes, o representante oficial da sociedade capitalista, o Estado,

tem que acabar tomando a seu cargo o comando da produção (13) A necessidade a que corresponde essa

transformação de certas empresas em propriedade do Estado começa a manifestar-se nas. grandes

empresas de transportes e comunicações, tais como o correio, o telégrafo e as ferrovias.

Além da incapacidade da burguesia para continuar dirigindo as forças produtivas modernas que as crises

revelam, a transformação das grandes empresas de produção e transporte em sociedades anônimas, trustes

e em propriedade do' Estado demonstra que a burguesia já não é indispensável para o desempenho dessas

funções. Hoje, as funções sociais do capitalista estão todas a cargo de empregados assalariados, e toda a

atividade social do capitalista se reduz a cobrar suas rendas, cortar seus cupões e jogar na bolsa, onde os

capitalistas de toda espécie arrebatam, uns aos outro, os seus capitais. E se antes o modo capitalista de

produção deslocava os operários, agora desloca também os capitalistas, lançando-os, do mesmo modo que

aos operários, entre a população excedente; embora, por enquanto ainda não no exército industrial de

reserva.

Mas as forças produtivas não perdem sua condição de capital ao converter-se em propriedade das

sociedades anônimas e dos trustes ou em propriedade do Estado. No que se refere aos trustes e sociedades

anônimas, é palpàvelmente claro. Por sua parte, o Estado moderno não é tampouco mais que uma

organização criada pela sociedade burguesa para defender as condições exteriores gerais do modo

capitalista de produção contra os atentados, tanto dos operários como dos capitalistas isolados. O Estado

moderno, qualquer que seja a sua forma, é uma máquina essencialmente capitalista, é o Estado dos

capitalistas, o capitalista coletivo Ideal. E quanto mais forças produtivas passe à sua propriedade tanto

mais se converterá em capitalista coletivo e tanto maior quantidade de cidadãos explorará. Os operários

continuam sendo operários assalariados, proletários. A relação capitalista, longe de ser abolida com essas

medidas, se aguça. Mas, ao chegar ao cume, esboroa-se. A propriedade do Estado sobre as forças

produtivas não é solução do conflito, mas abriga já em seu seio o meio formal, o instrumento para chegar

à solução.

Essa solução só pode residir em ser reconhecido de um modo efetivo o caráter social das forças

produtivas modernas e, portanto, em harmonizar o modo de produção, de apropriação e de troca com o

caráter social dos meios de produção. Para isso, não há senão um caminho: que a sociedade, abertamente

e sem rodeios, tome posse dessas forças produtivas, que já não admitem outra direção a não ser a sua.

Assim procedendo, o caráter social dos meios de produção e dos produtos, que hoje se volta contra os

próprios produtores, rompendo periodicamente as fronteiras do modo de produção e de troca, e só pode

impor-se com uma força e eficácia tão destruidoras como o impulso cego das leis naturais, será posto em

vigor com plena consciência pelos produtores e se converterá, de causa constante de perturbações e

cataclismas periódicos, na alavanca mais poderosa da própria produção.

As forças ativas da sociedade atuam, enquanto não as conhecemos e contamos com elas, exatamente

como as forças da natureza: de modo cego violento e destruidor. Mas, uma vez conhecidas, logo que se

saiba compreender sua ação, suas tendências e seus efeitos, está em nossas mãos o sujeitá-las cada vez

mais à nossa vontade e, por meio delas, alcançar os fins propostos. Tal é o que ocorre, muito

especialmente, com as gigantescas forças modernas da produção. Enquanto resistirmos obstinadamente a

compreender sua natureza e seu caráter - e a essa compreensão se opõem o modo capitalista de produção e

seus defensores -, essas forças atuarão apesar de nós, e nos dominarão, como bem ressaltamos. Em troca,

assim que penetramos em sua natureza, essas forças, postas em mãos dos produtores associados, se

converterão de tiranos demoníacos em servas submissas. É a mesma diferença que há entre o poder

maléfico da eletricidade nos raios da tempestade e o poder benéfico da força elétrica dominada no

telégrafo e no arco voltaico; a diferença que há entre o fogo destruidor e o fogo posto a serviço do

homem. O dia em que as forças produtivas da sociedade moderna se submeterem ao regime congruente

com a sua natureza por fim conhecida, a anarquia social da produção deixará o seu posto à

regulamentação coletiva e organizada da produção, de acordo com as necessidades da sociedade e do

indivíduo. E o regime capitalista de apropriação, em que o produto escraviza primeiro quem o cria e, em

seguida, a quem dele se apropria, será substituído pelo regime de apropriação do produto que o caráter dos

modernos meios de produção está reclamando: de um lado, apropriação diretamente social, como meio

para manter e ampliar a produção; de outro lado, apropriação diretamente individual, como meio de vida e

de proveito.

O modo capitalista de produção, ao converter mais e mais em proletários a imensa maioria dos indivíduos

de cada pais, cria a força que, se não quiser perecer, está obrigada a fazer essa revolução. E, ao forçar cada

vez mais a conversão dos grandes meios socializados de produção em propriedade do Estado, já indica

por si mesmo o caminho pelo qual deve produzir-se essa revolução. O proletariado toma em suas mãos o

Poder do Estado e principia por converter os meios de produção em propriedade do Estado. Mas, nesse

mesmo ato, destrói-se a si próprio como proletariado, destruindo toda diferença e todo antagonismo de

classes, e com isso o Estado como tal. A sociedade, que se movera até então entre antagonismos de classe,

precisou do Estado, ou seja, de uma organização da classe exploradora correspondente para manter as

condições externas de produção e, portanto, particularmente, para manter pela força a classe explorada nas

condições de opressão (a escravidão, a servidão ou a vassalagem e o trabalho assalariado), determinadas

pelo modo de produção existente. O Estado era o representante oficial de toda a sociedade, sua síntese

num corpo social visível; mas o era só como Estado que, em sua época, representava toda a sociedade: na

antiguidade era o Estado dos cidadãos escravistas, na Idade Média o da nobreza feudal; em nossos

tempos, da burguesia. Quando o Estado se converter, finalmente, em representante efetivo de toda a

sociedade, tornar-se-á por si mesmo supérfluo. Quando já não existir nenhuma classe social que precise

ser submetida; quando desaparecerem, juntamente com a dominação de classe, juntamente com a luta pela

existência individual, engendrada pela atual anarquia da produção, os choques e os excessos resultantes

dessa luta, nada mais haverá para reprimir, nem haverá necessidade, portanto, dessa força especial de

repressão que é o Estado.

O primeiro ato em que o Estado se manifesta efetivamente como representante de toda a sociedade - a

posse dos meios de produção em nome da sociedade - é ao mesmo tempo o seu último ato independente

corno Estado. A intervenção da autoridade do Estado nas relações sociais tornar-se-á supérflua num

campo após outro da vida social e cessará por si mesma. O governo sobre as pessoas é substituído pela

administração das coisas e pela direção dos processos de produçâo. O Estado não será "abolido",

extingue-se. É partindo daí que se pode julgar o valor do falado "Estado popular livre" no que diz respeito

à sua justificação provisória como palavra de ordem de agitação e no que se refere à sua falta de

fundamento científico. É também partindo daí que deve ser considerada a exigência dos chamados

anarquistas de que o Estado seja abolido da noite para o dia.

Desde que existe historicamente o modo capitalista de produção, houve indivíduos e seitas inteiras diante

dos quais se projetou mais ou menos vagamente, como ideal futuro, a apropriação de todos os meios de

produção pela sociedade. Mas, para que isso fosse realizável, para que se convertesse numa necessidade

histórica, fazia-se preciso que se dessem antes as condições efetivas para a sua realização. A fim de que

esse progresso, como todos os progressos sociais, seja viável, não basta ser compreendido pela razão que

a existência de classes é incompatível com os ditames da justiça, da Igualdade, etc.; não basta a simples

vontade de abolir essas classes - mas são necessárias determinadas condições econômicas novas. A

divisão da sociedade em uma classe exploradora e outra explorada, em uma classe dominante e outra

oprimida, era uma conseqüência necessária do anterior desenvolvimento incipiente da produção.

Enquanto o trabalho global da sociedade der apenas o estritamente necessário para cobrir as necessidades

mais elementares de todos, e talvez um pouco mais; enquanto, por isso, o trabalho absorver todo' o tempo,

ou quase todo o tempo, da imensa maioria dos membros da sociedade, esta se divide, necessariamente, em

classes. Junto à grande maioria constrangida a não fazer outra coisa senão suportar a carga do trabalho,

forma-se uma classe que se exime do trabalho diretamente produtivo e a cujo cargo' correm os assuntos

gerais da sociedade: a direção dos trabalhos, os negócios públicos, a justiça, as ciências, as artes, etc., É,

pois, a lei da divisão do trabalho que serve de base à divisão da sociedade em classes. O que não impede

que essa divisão da sociedade em classes se realize por meio da violência e a espoliação, a astúcia e o

logro; nem quer dizer que a classe dominante, uma vez entronizada, se abstenha de consolidar o seu

poderio à custa da classe trabalhadora, transformando seu papel social de direção numa maior exploração

das massas.

Vemos, pois, que a divisão da sociedade em classes tem sua razão histórica de ser, mas só dentro de

determinados limites de tempo, sob determinadas condições sociais. Era condicionada pela insuficiência

da produção, e será varrida quando se desenvolverem plenamente as modernas forças produtivas. Com

efeito, a abolição das classes sociais pressupõe um grau histórico de desenvolvimento tal que a existência,

já não dessa ou daquela classe dominante concreta, mas de uma classe dominante qualquer que seja ela, e,

portanto, das próprias diferenças de classe representa um anacronismo. Pressupõe, por conseguinte, um

grau culminante no desen~o1vi-mento da produção em que a apropriação dos meios de produção e dos

produtos e, portanto, do poder político, do monopólio da cultura e da direção espiritual por uma

determinada classe da sociedade, não só se tornou de fato supérfluo, mas constitui econômica, política e

intelectualmente uma barreira levantada ante o progresso. Pois bem, já se chegou a esse ponto. Hoje, a

bancarrota política e intelectual da burguesia não é mais um segredo nem para ela mesma e sua bancarrota

econômica é um fenômeno que se repete periodicamente de dez em dez anos. Em cada uma dessas crises

a sociedade se asfixia, afogada pela massa de suas próprias forças produtivas e de seus produtos, aos quais

não pode aproveitar e, impotente, vê-se diante da absurda contradição de que os seus produtores não

tenham o que consumir, por falta precisamente de consumidores. A força expansiva dos meios de

produção rompe as ataduras com que são submetidos pelo modo capitalista de produção, Só essa

libertação dos meios de produção é que pode permitir o desenvolvimento ininterrupto e cada vez mais

rápido das forças produtivas e, com isso, o crescimento praticamente ilimitado da produção. Mas não- é

apenas isso. A apropriação social dos meios de produção não só elimina os obstáculos artificiais hoje

antepostos à produção, mas põe termo também ao desperdício e à devastação das forças produtivas e dos

produtos, uma das conseqüências inevitáveis da produção atual e que alcança seu ponto culminante

durante as crises. Ademais, acabando-se com o parvo desperdício do luxo das classes dominantes e seus

representantes políticos, será posta em circulação para a coletividade toda uma massa de meios de

produção e de produtos. Pela primeira vez, surge agora, e surge de um modo efetivo, a possibilidade de

assegurar a todos os membros da sociedade, através de um sistema de produção social, uma existência

que, além de satisfazer plenamente e ceda dia mais abundantemente suas necessidades materiais, lhes

assegura o livre e completo desenvolvimento e exercício de suas capacidades físicas e intelectuais (14).

Ao apossar-se a sociedade dos meios de produção cessa a produção de mercadorias e, com ela, o domínio

do produto sobre os produtores. A anarquia reinante no seio da produção social cede o lugar a uma

organização planejada e consciente. Cessa a luta pela existência individual e, assim, em certo sentido, o

homem sal definitivamente do reino animal e se sobrepõe às condições animais de existência, para

submeter-se a condições de vida verdadeiramente humanas. As condições que cerca o homem e até agora

o dominam, colocam-se, a partir desse instante, sob seu domínio e seu comando e o homem, ao tomar-se

dono e senhor de suas próprias relações sociais, converte-se pela primeira vez em senhor consciente e

efetivo da natureza. As leis de sua própria atividade social, que até agora se erguiam frente ao homem

como leis naturais, como poderes estranhos que o submetiam a seu império, são agora aplicadas por ele

com pleno conhecimento de causa e, portanto, submetidas a seu poderio. A própria existência social do

homem, que até aqui era enfrentada como algo imposto pela natureza e a história, é de agora em diante

obra livre sua. Os poderes objetivos e estranhos que até aqui vinham imperando na história colocam-se

sob o controle do próprio homem. Só a partir de então, ele começa a traçar a sua história com plena

consciência do que faz. E só daí em diante as causas sociais postas em ação por ele começam a produzir

predominantemente, e cada vez em maior medida, os efeitos desejados. É o salto da humanidade do reino

da necessidade para o reino da liberdade.

***

Resumamos, brevemente, para terminar, nossa trajetória de desenvolvimento:

1. - Sociedade medieval: Pequena produção Individual. Meios de produção adaptados ao uso individual e,

portanto, primitivos, torpes, mesquinhos, de eficácia mínima. Produção para o consumo imediato, seja do

próprio produtor, seja de seu senhor feudal. Só nos casos em que fica um excedente de produtos, depois

de ser coberto aquele consumo, é posto à venda e lançado no mercado esse excedente. Portanto, a

produção de mercadorias acha-se ainda em seus albores, mas já encerra, em potencial, a anarquia da

produção social

2. - Revolução capitalista: Transformação da indústria, iniciada por meio da cooperação simples e da

manufatura. Concentração dos meios de produção, até então dispersos, em grande oficinas, com o que se

convertem de meios de produção do indivíduo em meios de produção sociais, metamorfose que não afeta,

em geral, a forma de troca. Ficam de pé as velhas formas de apropriação, Aparece o capitalista: em sua

qualidade de proprietário dos meios de produção, apropria-se também dos produtos e os converte em

mercadorias. A produção transforma-se num ato social; a troca e, com ela, a apropriação continuam sendo

atos individuais: o produto social é apropriado pelo capitalista individual. Contradição fundamental, da

qual se derivam todas as contradições em que se move a sociedade atual e que a grande indústria

evidencia claramente:

A. Divórcio do produtor com os meios de produção. Condenação do operário a ser assalariado por toda a

vida. Antítese de burguesia e proletariado.

B. Relevo crescente e eficácia acentuada das leis que presidem a produção de mercadorias. Concorrência

desenfreada. Contradição entre a organização social dentro de cada fábrica e a anarquia social na

produção total.

C. De um lado, aperfeiçoamento da maquinaria, que a concorrência transforma num preceito imperativo

para cada fabricante e que eqüivale a um afastamento cada dia maior de operários: exército industrial de

reserva. De outro lado, extensão ilimitada da produção, que a concorrência impõe também como norma

incoercível a todos os fabricantes. De ambos os lados, um desenvolvimento inaudito das forças

produtivas, excesso da oferta sobre a procura, superprodução, abarrotamento dos mercados, crise cada dez

anos, círculo vicioso: superabundância, aqui, de meios de produção e de produtos e, ali, de operários sem

trabalho e sem meios de vida. Mas essas duas alavancas da produção e do bem-estar social não podem

combinar-se, porque a forma capitalista da produção impede que as forças produtivas atuem e os produtos

circulem, a não ser que se convertam previamente em capital, o que lhes é vedado precisamente por sua

própria superabundância. A contradição se aguça até converter-se em contra-senso: o modo de produção

revolta-se contra a forma de troca. A burguesia revela-se incapaz para continuar dirigindo suas próprias

forças sociais produtivas.

D. Reconhecimento parcial do caráter social das forças produtivas, arrancado aos próprios capitalistas.

Apropriação dos grandes organismos de produção e de transporte, primeiro por sociedades anônimas, em

seguida pelos trustes, e mais tarde pelo Estado. A burguesia revela-se uma classe supérflua; todas as suas

funções sociais são executadas agora por empregados assalariados.

3. - Revolução proletária, solução das contradições: o proletariado toma o poder político e, por meio dele,

converte em propriedade pública os meios sociais de produção, que escapam das mãos da burguesia. Com

esse ato redime os meios de produção da condição de capital, que tinham até então, e dá a seu caráter

social plena liberdade para Impor-se, A partir de agora já é possível uma produção social segundo um

plano previamente elaborado. O desenvolvimento da produção transforma num anacronismo a

sobrevivência de classes sociais diversas. À medida que desaparece a anarquia da produção social, vai

diluindo-se também a autoridade política do Estado. Os homens, donos por fim de sua própria existência

social, tornam-se senhores da natureza, senhores de si mesmos, homens livres.

A realização desse ato, que redimirá o mundo, é a missão histórica do proletariado moderno. E o

socialismo científico, expressão teórica do movimento proletário, destina-se a pesquisar as condições

históricas e, com isso, a natureza mesma desse ato, infundindo assim à classe chamada a fazer essa

revolução, à classe hoje oprimida, a consciência das condições e da natureza de sua própria ação.

Notas: Capítulo III

(7) Palavras de Mefistófeles em Fausto de Goethe. (N. da R. ) (retornar ao texto)

(8) Não precisamos explicar que, ainda quando a forma de apropriação permaneça invariável, o caráter da

apropriação sofre uma revolução pelo processo que descrevemos, em não menor grau que a própria

produção. A apropriação de um produto próprio e a apropriação de um produto alheio são, evidentemente,

duas formas muito diferentes de apropriação. E advertimos de passagem que o trabalho assalariado, no

qual se contém já o germe de todo o modo capitalista de produção, é muito antigo; coexistiu durante

séculos inteiros, em casos isolados e dispersos, com a escravidão. Contudo, esse germe só pode

desenvolver-se até formar o modo capitalista de produção quando surgiram as premissas históricas

adequadas. (Nota de Engels) (retornar ao texto)

(9) Mesnada: tropas mercenárias que serviam aos senhores feudais nas guerras. (N. da Ed. Bras.) (retornar

ao texto)

(10) Trata-se das guerras travadas entre Portugal, Espanha, Holanda, França e Inglaterra pela posse do

comércio com a Índia e a América e a colonização desses continentes. Dessas guerras saiu vencedora a

Inglaterra, que teve em suas mãos, até os fina do século XVIII, o domínio do comércio mundial. (N.da Ed.

Bras.) (retornar ao texto)

(11) A Situação da Classe Operária na Inglaterra, pág. 109. (Nota de Engels) (retornar ao texto)

(12) Corrida de obstáculos. N da R.) (retornar ao texto)

(13) E digo que tem de tomar a seu cargo, pois a nacionalização só representará um progresso econômico,

um passo adiante para a conquista pela sociedade de todas as forças produtivas, embora essa medida seja

levada a cabo pelo Estado atual, quando os meios de produção ou de transporte superarem já efetivamente

os marcos diretores de urna sociedade anônima, quando, portanto, a medida da nacionalização já for

economicamente inevitável. Contudo, recentemente, desde que Bismarck empreendeu o caminho da

nacionalização, surgiu uma espécie ~e falso socialismo, que degenera de quando em vez num tipo

especial de socialismo, submisso e servil, que em todo ato de nacionalização, mesmo nos adotados por

Bismarck, vã uma medida socialista. Se a nacionalização da indústria do fumo fosse socialismo, seria

necessário inclui, Napoleão e Metternich entre os fundadores do socialismo. Quando o Estado belga, por

motivos políticos e financeiros perfeitamente vulgares decidiu construir por sua conta as principais linhas

térreas do pais, eu quando Bismarck, sem que nenhuma necessidade econômica o levasse a isso,

nacionalizou as linhas mais importantes da rede ferroviária da Prússia, pura e simplesmente para assim

poder manejá-las e aproveitá-las melhor em caso de guerra, para converter o pessoal das ferrovias em

gado eleitoral submisso ao Governo e, sobretudo, para encontrar uma nova fonte de rendas isenta de

fiscalização pelo Parlamento, todas essas medidas não tinham, nem direta nem Indiretamente, nem

consciente nem inconscientemente, nada de socialistas. De outro modo, seria necessário também

classificar entre as instituições socialistas a Real Companhia de Comércio Marítimo, a Real Manufatura

de Porcelanas e até os alfaiates do exército, sem esquecer a nacionalização dos prostíbulos, proposta

muito seriamente, ai por volta do ano 34, sob Frederico Guilherme III, por um homem muito esperto

(Nota de Engels) (retornar ao texto)

(14)Algumas cifras darão ao leitor uma noção aproximada da enorme força expansiva que, mesmo sob a

pressão capitalista, os modernos meios de produção desenvolvem. Segundo os cálculos de Giffen, a

riqueza global da Grã Bretanha e Irlanda ascendia, em números redondos, a 1814 -. . - 2 200 milhões

de libras esterlinas - 44 000 milhões de marcos 1865 - - - - 6 100 milhões de libras esterlinas - 122 000

milhões de marcos 1875 . . - - 8 500 milhões de libras esterlinas -- 170 000 milhões de marcos Para dar

uma idéia do que representa a dilapidação dos meios de produção e de produtos desperdiçados durante

a crise, direi que no segundo congresso dos industriais alemães, realizado em Berlim, em 21 de

fevereiro de 1878, calculou-se em 455 milhões de marcos as perdas globais representadas pelo último

crack, somente para a indústria siderúrgica alemã. (Nota de Engels)(retornar ao texto)

Você pode estar interessado...

  • Um fanático
    Um fanático História por Varios
    Um fanático
    Um fanático

    Downloads:
    22

    Publicado:
    Nov 2019

      Esta é uma manhã de choque e de tristeza. Nossos corações voltam-se para as vítimas inocentes, suas famílias, Paris, a França, a humanidade. Eis algumas l...

    Formatos: PDF, Epub, Kindle, TXT

  • Brasil
    Brasil Economia por L-P.
    Brasil
    Brasil

    Downloads:
    64

    Publicado:
    Jul 2019

    Por que o Brasil é um país atrasado?, livro de estreia do ativista político, empresário e descendente da família real Luiz Philippe de Orleans e Bragança, rev...

    Formatos: PDF, Epub, Kindle, TXT

  • POR UMA NOVA  EDIÇÃO DA LEI ÁUREA
    POR UMA NOVA EDIÇÃO DA LEI ÁUREA Ciências Sociais por antonio b ribeiro
    POR UMA NOVA EDIÇÃO DA LEI ÁUREA
    POR UMA NOVA  EDIÇÃO DA LEI ÁUREA

    Downloads:
    9

    Publicado:
    May 2019

    Temo que o título desta obra possa deixar nos seus possíveis leitores a impressão de que ela trate de assuntos relativos à preconceito racial ou as condições ...

    Formatos: PDF, Epub, Kindle, TXT

  • Fogo
    Fogo Ciências Sociais por M.W.
    Fogo
    Fogo

    Downloads:
    118

    Publicado:
    May 2019

    Com acesso aos assuntos da Casa Branca, o jornalista Michael Wolff revela os curiosidades de bastidores do governo de Donald Trump, o presidente americano mai...

    Formatos: PDF, Epub, Kindle, TXT