Dois Córregos Verdades Submersas no Tempo: Argumento e roteiro final comentados pelo seu autor por Carlos Reichenbach - Versão HTML

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10/12/2009, 22:40

Dois Córregos

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Verdades Submersas no Tempo

Governador

Geraldo Alckmin

Secretário Chefe da Casa Civil

Arnaldo Madeira

Imprensa Oficial do Estado de São Paulo Diretor-presidente

Hubert Alquéres

Diretor Vice-presidente

Luiz Carlos Frigerio

Diretor Industrial

Teiji Tomioka

Diretor Financeiro e

Administrativo

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Núcleo de Projetos

Institucionais

Vera Lucia Wey

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Presidente

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Projetos Especiais

Adélia Lombardi

Diretor de Programação

Rita Okamura

Coleção Aplauso Cinema Brasil

Coordenador Geral

Rubens Ewald Filho

Coordenador Operacional

e Pesquisa Iconográfica

Marcelo Pestana

Projeto Gráfico

Revisão e Editoração

Carlos Cirne

Dois Córregos

Verdades Submersas no Tempo

Argumento e Roteiro

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escritos e comentados

por Carlos Reichenbach

São Paulo, 2004

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Reichenbach, Carlos

Dois Córregos : verdades submersas no tempo / argumento e roteiro escritos e comentados por Carlos Reichenbach. – São Paulo : Imprensa Oficial do Estado de São Paulo : Cultura - Fundação Padre Anchieta, 2004. --

216p. : il. - (Coleção aplauso. Série cinema Brasil / coordenador geral Rubens Ewald Filho)

ISBN 85-7060-233-2 (obra completa) (Imprensa Oficial) ISBN 85-7060-267-7 (Imprensa Oficial) 1. Cinema - Argumentos 2. Cinema - Brasil - História 3. Cinema - Roteiros 4. Dois Córregos (Filme cinematográfico) - História e crítica 5. Dois Córregos (SP) - Descrição 6. Reichenbach, Carlos, 1945- - Crítica e interpretação I. Ewald Filho, Rubens. II. Título. III. Série.

04-3592

CDD-791.43709

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Índices para catálogo sistemático: 1. Dois Córregos : Filme cinematográfico : História e crítica 791.43709

Foi feito o depósito legal na Biblioteca Nacional (Lei nº 1.825, de 20/12/1907).

Imprensa Oficial do Estado de São Paulo Rua da Mooca, 1921 - Mooca

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Introdução

Assim como na maior parte de seus filmes, Carlos Reichenbach trabalhou o texto de Dois Córregos em duas etapas distintas:

Primeiramente, na forma de argumento. Uma descrição detalhada da ação de tratamento quase literário, onde as situações dramáticas aparecem já explicitadas, mas ainda não inteiramente resolvidas. Já os diálogos devem ser apenas esboçados, pois se sabe que eles 5

exigem um empenho e uma disponibilidade de tempo que às vezes podem, inclusive, inibir a desenvoltura da trama. Em suma, no argumento usa-se o tempo para elaborar detalhadamente a ação. Um bom argumento, de um filme de hora e meia, normalmente não ultrapassa doze páginas escritas em espaço simples. Um argumento não perde tempo com terminologias técnicas ou firulas “filosóficas”. Diz-se popu-larmente que um bom argumento deve ser facilmente compreendido (e admirado) tanto por um profissional de cinema quanto por um banqueiro ou investidor, que pouco entende do assunto. Finalmente, tendo o argumento como norteador desenvolve-se o roteiro propriamente dito. Aí sim, o roteirista deve se deter acurada-mente na escritura dos diálogos e na descrição técnica das cenas (ou seqüências).

É obvio que as estratégias de trabalho depen-dem exclusivamente de cada roteirista, mas é possível dizer que estas duas etapas, trabalhadas separada e cuidadosamente, atendem às necessidades essenciais de um roteiro eficiente.

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Resumo

Duas adolescentes, burguesas e inexperientes, e Tereza, uma jovem e humilde mulher apaixonada pelo homem errado, convivem durante um final de semana prolongado com um homem 7

fascinante e misterioso.

Ele está clandestino no país. O Brasil vive um momento conturbado de sua história. Um “rito de passagem” para as adolescentes. Um aprendizado de vida para Tereza.

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Entre a Renúncia e a Transgressão Foi em 1960, algumas semanas após a morte de meu pai, que conheci a cidade de Dois Córregos, no interior de São Paulo. Estudava em um colégio interno em Rio Claro e um colega me convidou para conhecer sua cidade natal.

Lembro o impacto provocado pela visão da estação de trem local, uma reprodução fiel, obviamente reduzida, da estação de Marselha, França.

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Estação de trens e plataformas marítimas são imagens recorrentes em meus filmes. Como metáforas da percepção de perda, foram as primeiras obsessões imagéticas que me aproximaram do cineasta italiano Valério Zurlini. Zurlini e Dois Córregos, gênese de meu décimo segundo longa-metragem.

Desde O Paraíso Proibido, cujo personagem interpretado pelo ator Jonas Bloch é um duplo do Alain Delon de A Primeira Noite da Tranqüilidade, venho perseguindo exaustivamente a atmosfera desencantada e existencial, os tempos - de um quarteto de cordas - e os desfechos submetidos ao inexorável que tanto caracteri-zam o cinema de sentimentos de Zurlini.

Escrevi e filmei Dois Córregos tendo como fonte inspiradora a cópia em vídeo de A Moça Com a Valise, presente do amigo e escritor Márcio de Souza. Mas, após ver a cópia final pela terceira vez, descubro estarrecido que meu dé com o filme anterior de Zurlini, o também extraordinário Verão Violento / State Violenta.

Poucos filmes na história do cinema mostraram de maneira tão intensa e poética o momento 10

histórico e a realidade política invadindo o cotidiano sentimental das pessoas.

Assim como Zurlini, também me interesso pelos personagens masculinos à deriva, à esquerda da esquerda, subversivos por sua generosidade obscena e que almejam uma - ordem sem coação

- em sua fé irrestrita na utopia. Incompreendidos em seu tempo e fragilizados ao máximo, busco trabalhar estes - sem a complacência e a afeti-vidade dos meus personagens femininos.

Em Dois Córregos, entre a transgressão de Hermes e a renúncia de Tereza, trafegam a geração do acordo MEC-USAID (Ana Paula e Lydia) e marionetes do AI-5.

Busquei centralizar a ação dramática no trivial do convívio entre um homem maduro e angustiado com duas jovens imaturas e uma mulher carente, inspirando-me diretamente nos dolorosos dias em que meu padrinho de batismo passou escondido na casa de campo que meus pais tinham à beira da represa Billings. O

expediente de trocar o sexo das adolescentes e a opção pela tônica romântica, à diferença do real, buscou acentuar a idéia de rito de 11

passagem e de um processo de desalienação.

Mas foi a partir de uma imagem, que me marcou profundamente na puberdade, que o filme começou a existir no papel e no celulóide: alguém escreve cartas para os filhos, justificando seus atos para si mesmo, mas não consegue enviar...

Mais uma vez a música é personagem fundamental de meus filmes. É ela que possibilita existir o entendimento entre personagens antagônicos. Foi um privilégio trabalhar com Ivan Lins e Nélson Ayres.

Como costumo filmar com playback, usando músicas conhecidas como referência, o desafio ao compositor e ao arranjador foi se aproximar ao máximo da sugestão preciosas as versões pessoalíssimas trabalhadas a partir de Joe Cocker (You Are So Beatiful) no tema da cena de amor e no John Lennon póstumo (Free As A Bird) na seqüência da chuva.

Sob a tônica musical, Dois Córregos se inspira em César Franck pela busca de uma atmosfera melancólica e impressionista. Assumidamente um filme triste, como as felicidades efêmeras, 12

mas evitando a todo custo a sedução da chantagem.

Carlos Reichenbach

Dois Córregos

Argumento cinematográfico

de Carlos Reichenbach

Resumo

1996

Ana Paula, 44 anos, vai ao interior de São Paulo recuperar a casa de campo que herdou dos pais, falecidos recentemente, e que está ocupada por 13

grilheiros. Constrangida com a indiferença de seu advogado, e com a rispidez da ação policial, lembra a última vez que ali esteve.

1969

Em 1969, aos 17 anos, ela traz a colega de escola Lydia, precoce e exímia pianista, para conhecer o seu reduto no “Encontro dos Rios”. Elas passam quatro dias na companhia de Tereza -

empregada de confiança, meio pajem e irmã de criação de Ana - e Hermes, o tio que sempre viveu no Rio Grande do Sul e que Ana Paula vê pela primeira vez. Ela descobre que o tio tem problemas com a polícia política, que passou dois anos em países sul-americanos envolvido com grupos ativistas de extrema esquerda, que está escondido na casa de campo da irmã mais velha tentando oficializar sua volta ao país; e por isso é forçado a permanecer longe da esposa e dos dois filhos pequenos. Jovem e imatura, alienada do que está acontecendo no país, Ana não entende as razões que fizeram o tio separar-se da família. Com Lydia o entendimento ainda é mais difícil; ela é filha de militar de alta patente, 14

tendo assimilado por completo todos os preconceitos paternos com relação aos ativistas.

No entanto, seus olhos tristes e sua beleza austera e clássica, que tanto lembra a esposa de Hermes quando jovem (“Certas moças tem a beleza das pessoas morrem cedo”, diz Hermes parafraseando um poeta francês), e acima de tudo a sintonia através da música clássica, que Hermes conhece e admira profundamente, acabam encurtando as distâncias. A efêmera convivência das duas ingênuas adolescentes com o angustiado, taciturno, culto e belo clandestino, transforma aquele feriado em um momento capital de suas existências; quase um “rito de passagem”. Enquanto descobrem o que está realmente acontecendo no país, despertam para sensações ainda submersas como sensualidade, afeto e melancolia. Uma lição de vida também para Tereza, aos 29 anos, e a fugaz descoberta da possibilidade da afeição íntegra, do prazer físico, da entrega absoluta e do amor sem cobranças. Um incidente envolvendo um quinto personagem, o tenente Percival, namorado de Tereza, encerra a curta temporada no local 15

paradisíaco, e ocasiona o súbito e desconcer-tante desaparecimento de Hermes.

1996

Vinte e sete anos depois, Ana Paula soluciona o mistério que envolveu o destino da primeira paixão platônica de sua vida, do homem que amou em segredo durante muitos anos, e de maneira surpreendente resolve suas diferenças com o passado.

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Os Personagens e a História

Hermes

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No momento da ação central do filme, 45 anos.

Casado, dois filhos pequenos, viveu a maior parte da sua vida em Porto Alegre e na cidade de Cidreira, litoral do Rio Grande do Sul.

Engenheiro químico e estudioso de música clássica opta por engajar-se na resistência ao governo militar, quando o seu melhor amigo, e político de extrema esquerda é preso e obrigado à abandonar o país.

Hermes vivencia a contradição de ser um pacifista contumaz e ser obrigado à aprender a manusear armas pesadas. É esta mesma contradição que o faz abandonar o ativismo, praticamente “fugir” de uma ilha da América Central, e tentar voltar para o Brasil pelo caminho mais difícil. Enquanto amigos influentes tentam legalizar a sua entrada no país, Hermes se esconde na casa de campo da irmã mais velha, no “Encontro dos Rios”, no interior de São Paulo. A irmã, mãe de Ana Paula, manda sua filha de criação Tereza para o local 17

cuidar da casa e atender Hermes. Eles já estão há quinze dias no local quando Ana Paula vem com sua amiga Lydia. Hermes apesar de aparentar tranqüilidade e segurança, é um homem fragilizado pela melancolia. Seu futuro está nas mãos da boa vontade de outras pessoas.

A impotência de não poder agir diretamente, de estar no país sem poder entrar em contato com os filhos, e de estar vivendo de favores faz com que ele se refugie no silêncio e na tristeza.

É na poesia de Pablo Neruda que ele se vai buscar forças para continuar vivo.

Hermes não é particularmente um homem atraente. O que o torna fascinante é justamente a sua aparência de pessoa sofrida, a placidez aparente e o os olhos confiáveis. Estatura mediana, cabelos pretos, gestos comedidos e uma austeridade máscula. É de certa maneira o ícone do parente de passado misterioso, mas de integridade explícita. É esta integridade que irá

“seduzir” as três personagens femininas de maneiras diferentes. E é importante frisar que não é de sexualidade que o filme trata, mas de aprendizado de sentimentos triviais como 18

melancolia, amor e ciúmes adolescentes, sensualidade latente, pessoas fragilizadas que se envolvem afetiva e fugazmente, respeito humano e tolerância.

Hermes vive escrevendo cartas para os filhos embora nunca as envie. Os únicos bens que carrega consigo são suas cartas, dois livros de Pablo Neruda, alguma roupa e um velho revólver. As imagens da cidade de Cidreira, onde mora sua família, são fragmentos que o atormentam. Várias vezes a ação do filme é interrompida por imagens em câmera lenta do túnel de bambu que margeia a estrada que liga Cidreira à Porto Alegre. As dunas desérticas da enseada de Cidreira são outras imagens que angustiam o herói. Algumas vezes é possível identificar duas crianças pequenas nestas imagens fracionadas, quer na estrada ou nas dunas, mas é impossível ver seus rostos.

Recuperar o passado parece um ato de penitência para Hermes. Há também a imagem obsessiva de um velho farol inativo. É inevitável que isto simbolize o próprio personagem central. Em suas viajem interior, Hermes enxerga 19

o farol à beira do rio Turvo no “Encontro dos Rios”, num delírio esporádico que o traz à tona e o faz acordar. A delicada e sensível maneira da jovem Lydia interpretar clássicos ao piano é o bastante para que ele mergulhe na memória e na melancolia.

Quase no final do filme, Hermes, incentivado por Ana Paula e Lydia, acaba se aproximando de Tereza. Ela vivencia uma experiência amarga com o namorado local, o Tenente Percival, e entra em profunda depressão. As garotas, testemunhas impotentes de sua tragédia pessoal, pedem ao tio que interceda. As adolescentes acreditam que ela vá cometer um ato extremo e “empurram” Hermes na direção da jovem. Mas Tereza é muito mais resistente do que aparenta, e isso surpreende e fascina Hermes. A carência de ambos faz com que ele ouse abraçá-la e beijá-la na boca. E se é possível dizer isso, sem parecer babaca ou piegas, o que os dois fazem depois não é sexo, é amor mesmo... O mais profundo e desesperado ato de paixão e entendimento. Daqueles que deixam marcas para o resto da vida.

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Hermes e Tereza acordam com os gritos do tenente Percival que aparece no portão à procura dela e da reconciliação. Ele vem fardado o que assusta Hermes. Tereza vai até o portão e os dois discutem agressivamente. Tudo isso é assistido de longe pelas duas assustadas garotas.

Quando Percival agride fisicamente Tereza, Hermes não vê outra solução à não ser socorrê-

la. Revela assim que tem um homem dentro da casa e coloca em risco a sua segurança provisória.

Hermes separa os dois e expulsa Percival.

Indignado, o militar se afasta fazendo ameaças.

Hermes e Tereza se abraçam revelando para as duas garotas o que sentem um pelo outro.

Hermes explica que é hora de ir embora; Tereza sabe que ele tem razão.

Mais tarde, quando Tereza vai chamá-lo para o almoço descobre que suas coisas não estão mais no quarto. Tentando esconder a imensa tristeza que sente ela se comporta de maneira polida com as jovens, mas Ana Paula a descobre chorando. Respeitando o sentimento da outra ela se afasta. Caminha pelo exterior da casa ao som melancólico de Schumann, interpretado por 21

Lydia ao piano, e então vê Hermes debaixo de uma árvore, à beira do rio Turvo, enterrando alguma coisa. Ana Paula sente vontade de se aproximar do tio, mas consegue se conter.

Respeitar o outro é a maior lição de seu “rito de passagem”. Tereza e Lydia aparecem na varanda da casa chamando por ela. Ela caminha na direção delas, e no meio do trajeto se volta para o rio; mas Hermes não está mais lá.

A revelação, 27 anos depois, de que Hermes não era o “santo” ou o herói imaginado pela sobrinha, não diminui o fascínio do personagem.

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Ao contrário, o humaniza mais, porque o torna suscetível às fraquezas do corpo e da carne.

Ana Paula (17 anos)

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Única filha de Isolda, irmã mais velha de Hermes.

Jovem bonita de cabelos negros e longos. Em contraste com sua colega Lydia, Ana aparenta ter menos idade, pois ainda é ingênua, às vezes quase infantil. É alegre e prestativa. Sua relação com Tereza é mais que fraternal. De certa maneira, Tereza supre o carinho que Isolda dispensa homeopaticamente para a filha. Como

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quase toda a garota de sua geração e condição social, nos anos 60, ela está completamente alheia ao que está acontecendo no país. No início, o contato com o misterioso tio, faz com que a jovem se apóie exageradamente na fantasia. Hermes, ao despertar a sua curiosidade pela realidade, acaba sem perceber fazendo aflorar outros sentimentos. Em três dias, Ana Paula amadurece uma vida inteira. Da indiferença à perplexidade diante dos fatos que separam Hermes de seus filhos; da polidez convencional à ternura platônica com que se 23

relaciona com o tio, Ana Paula faz o seu “rito de iniciação” à vida. As conseqüências deste convívio só irão se tornar nítidos 27 anos depois.

Tereza

29 anos, é uma mulher cheia de energia, e de beleza acentuada e brasileira. Tez amorenada, cabelos longos e crespos, estatura pequena e corpo torneado. Sensualidade quase agressiva que se mistura com a simpatia irresistível. Apesar de tudo, nada faz prever que irá se relacionar fisicamente com Hermes no final do filme. Filha de uma antiga empregada de Isolda (mãe de Ana Paula), que morreu no parto, foi por ela criada mas não assumida como enteada. Isolda (que, embora não apareça, é mencionada várias vezes na história) casou-se com um aristocrata, 24

assumindo plenamente a sua personalidade.

Tudo o que faz de justo é em nome da benemerência. A distância com que se relaciona com a filha, a “caridade” de criar Tereza e a complacência de acolher o irmão mais novo em sua casa de campo são sinais de suas

“obrigações” morais e sociais. Apesar disso, Tereza a tem como sua “mãe de fato”, tendo cuidado de Ana Paula como uma verdadeira irmã. As duas se adoram. Ela sabe de tudo o que aconteceu com Hermes, e embora não o compreenda, o respeita...

Afinal, é seu “tio” também!

Tereza tem um namorado na cidade próxima ao “Encontro dos Rios”, Dois Córregos. É um tenente da unidade militar local, Percival Oliveira. O namoro dos dois é mantido em segredo por Tereza, já que ele é mais novo do que ela e, sobretudo, porque Isolda não admitiria a relação. No fundo, Isolda espera que Tereza jamais se case. Ela não quer perder a empregada de confiança que irá cuidar dela na velhice. Apesar de confidentes, Tereza esconde o namoro de Ana Paula. Ela está obcecada pela 25

chalance sexual do rapaz, apesar de nunca ter tido um orgasmo na vida. Ele representa a força e o poder que ela admira nos homens, a determinação e a independência que ela não tem. Percival é um homem sedutor e selvagem, e mesmo sem ter a menor subtileza no trato físico, exerce um fascínio absoluto nas mulheres simples. O baque traumático vivenciado por Tereza quando descobre que Percival é casado e tem três filhos, é testemunhado por Ana Paula e Lydia. Isto acontece no penúltimo dia da estada de Ana Paula no “Encontro Dos Rios”.

As duas jovens irão à partir daí tentar aproximar Tereza de Tio Hermes, numa empreitada lúdica e juvenil. Naquele momento, as duas estão

“seduzidas” pelo dr. Cagliostro (apelido afetivo que dão ao tio misterioso e que as duas mantêm em segredo), e atirá-lo nos braços de Tereza é uma maneira simbólica de estarem com ele. A ironia é que o joguinho adolescente faz efeito.

Dois seres fragilizados se defrontam e acabam descobrindo que foram feitos um para o outro, que se encaixam perfeitamente e que podem ser absolutamente felizes, mesmo que por 26

apenas doze horas...

De todos os personagens é justamente Tereza quem tem mais razões para sair traumatizada da experiência. Em apenas um dia descobre as vilanias e a dignidade dos homens, a decepção amorosa e a surpresa do prazer, a gratuidade de um e a força afetiva do outro, o desprezo e a ternura... Mas Tereza é um personagem excepcional, um ser humano grandioso, capaz de valorizar sentimentos profundos embora fugazes. Ela nunca mais irá ver Hermes, que ameaçado de ser descoberto desaparece; mas

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terá para o resto da vida a certeza de que amou intensamente e foi amada da mesma maneira.

Lydia

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17 anos em 1969, colega de escola de Ana Paula (ambas estão concluindo o curso secundário -

na época, o clássico já havia sido abolido). Jovem belíssima de olhos claros e profundamente tristes que fascinam Hermes, porque lembram os de sua esposa quando jovem. Exímia concertista de piano, Lydia não resiste ao descobrir o velho, mas excepcional piano de parede que existe na casa de campo no

“Encontro dos Rios”. Ao contrário de Ana Paula, ela fala e pensa como uma jovem de vinte e poucos anos. Filha de militar graduado ela tem a cabeça feita, e num primeiro momento, quando descobre que o misterioso tio da amiga é um ativista político o trata de maneira ríspida.

É o profundo conhecimento musical de Hermes, e o seu jeito taciturno que “seduzem” a jovem.

Lydia tem um namorado firme em São Paulo e por suas atitudes é possível perceber que, ao contrário da outra, não é mais virgem. Com rela-28

ção à sexo ela parece apática; mas a proximidade de um homem mais velho, lacônico como o próprio pai, e de aparência vivida, desperta sentimentos femininos ainda não experimen-tados. Em alguns momentos usa de sua personalidade competitiva, quase arrogante, para provocar a amiga. Não há maldade em suas atitudes, mas para passar o tempo cria jogos e fantasias onde os adultos são peças de seu xadrez particular. A “beleza das mulheres que morrem cedo” esconde na verdade uma enorme vontade de permanecer adolescente.

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Ana Paula (44 anos)

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Bonita, independente e culta, Ana Paula herdou recentemente todos bens da família, inclusive a casa de campo no “Encontro dos Rios” que foi invadida por grilheiros. Obrigada a recuperar a propriedade que não visita desde 1969, ela vive uma experiência amarga ao assistir a expulsão dos caseiros que foram colocados na casa pelo grilheiros. Sensível à rispidez com que seu advogado, o oficial de justiças e os policiais executam seu trabalho, ela se refugia na memória, relembrando os dias que passou ao lado de seu tio Hermes. Aos 44 anos, Ana Paula vive uma crise existencial profunda. Separada há poucos meses do marido industrial, fica com a custódia de sua única filha de 15 anos. A ironia é que sua irmã de criação Tereza é a pessoa que cuida de sua filha. No flash-foward final, ela conta em voz off o que aconteceu com ela, com Tereza e Lydia depois de 69.

Fica-se sabendo que Tereza nunca casou, e que continua ao lado dela, agora cuidando de sua filha melhor do que ela mesma. Que ela, Ana Paula, dirige uma grande agência de publici-30

dade e que nunca achou um homem com a mesma dignidade de Hermes. Confessa que nunca o esqueceu, que conheceu sua mulher e filhos, e que a prima gaúcha trabalha hoje com ela, na agência. Fala que Lydia foi estudar na Europa, e que não morreu cedo. Que mora em Toronto, Canadá, que trabalha na orquestra sinfônica e dá aulas de piano, que engordou vinte e tantos quilos e nunca se casou.

Se encontrou ela duas vezes depois de 69 foi muito. Finalmente revela que Hermes nunca mais foi visto, que foi dado como morto pelo regime militar e se transformou num mártir da luta armada.

Quando o filme retorna para 1996, a câmera descobre Ana Paula, debaixo da mesma árvore onde havia visto o tio pela última vez.

Instintivamente ela começa a cavar a terra, tentando desenterrar vinte e sete anos de sua vida. As imagens das visões de Hermes -

paisagens de Cidreira, o farol inativo, as dunas desérticas, o túnel de bambu, as crianças sem rosto, etc - se misturam com detalhes da mão de Ana Paula na terra, de seu esforço para 31

descobrir o passado...

Finalmente ela encontra uma caixa de sapatos em estado de decomposição. No interior as cartas que Hermes escrevia compulsivamente para os filhos, dois livros de poesias de Pablo Neruda, algumas fotografias e o velho revólver.

A metáfora é a mais trivial possível; proposital...

Vestígios do guerreiro exausto que enterra os laços familiares, a luta armada, a identidade e a poesia.

Sem conter a curiosidade, Ana Paula invade de maneira sórdida a intimidade do tio morto. Na frente de um dos envelopes ela vê escrito: “Para meus filhos, quando eu estiver morto” - Ana Paula sente-se a mais torpe das mulheres do mundo, mas abre a carta assim mesmo.

O teor da carta é mais ou menos o seguinte:

“Queridos filhos... Apesar de tudo não me arrependo de nada do que fiz na vida... não sei a imagem que vocês tem de seu pai, como me inventaram para vocês, mas é importante que vocês acreditem... nunca fui capaz de matar ninguém, nem em nome das minhas convicções nem em nome da minha honra... no fundo, 32

nunca tive talento nenhum para mártir... nunca acreditei que com a força fosse mudar as coisas.

Ao contrário, só o respeito às diferenças e ao livre arbítrio é que justifica qualquer causa...

Entrei na clandestinidade por admiração ao grande amigo que batizou vocês dois. Defendi e defendo suas idéias mas não os seus métodos.

De certa maneira tentei fugir de sua influência, sob a desculpa de não conseguir ficar mais tempo longe de vocês... Pode parecer cruel confessar isso, mas é a verdade... e vocês sabem o quanto eu valorizo a verdade... “

Nesse momento, a leitura é interrompida pela chegada do advogado de Ana Paula, que vem até o local contar que tudo está feito, que a família de caseiros já foi retirada, e que ela pode assumir a propriedade. Ana Paula está chorando. O advogado pensa que é por causa da expulsão dos caseiros. Tenta confortá-la dizendo que ela foi muito generosa em mandar dar dinheiro para os pobres caseiros se ajeitarem em outro lugar. Ela confessa que fez aquilo para comprar a sua própria consciência. Os dois chegam até a casa e o advogado apresenta o 33

homem que vai ficar tomando conta da propriedade. Parece piada, mas o homem é um jagunço descarado, com aparência assustadora.

O advogado mostra também a espingarda que comprou para ele. Ana Paula pergunta se é necessário aquilo. O advogado diz que é só por segurança, que pode haver represálias, etc.

Os dois vão até o carro de Ana Paula, e partem na direção de Dois Córregos. “O Encontro dos Rios” vai se distanciando. O advogado está na direção, e Ana Paula carrega as coisas de Hermes em seu colo. Instintivamente volta a mexer em suas cartas. Em voz off, ela se questiona: 27 anos passados e ainda não aprendeu à respeitar a intimidade dos outros. Vai ler o final da carta, mas sua consciência fala mais alto. Começa à guardar os papéis de novo na caixa, e acaba olhando as fotografias. São imagens de Cidreira em branco e preto, do túnel de bambu, das dunas desérticas, do farol inativo, e de crianças brincando na praia... Agora é possível ver os seus rostos, nitidamente... Ana Paula sorri para si mesma... Finalmente, ela descobre três fotos pequenas no interior de um do envelopes, 34

escondidos por uma carta... Na primeira fotografia pode-se ver um grupo de jovens barbudos e algumas moças em roupa de campanha pousando para o fotógrafo.

Obviamente se trata de um grupo de futuros guerrilheiros, já que expõem metralhadoras e armas de grosso calibre... Na segunda fotografia, Hermes aparece nitidamente, quase em primeiro plano, abraçado à uma jovem companheira. Mas a força da fotografia ainda está no grupo, deixando bem claro que se trata de um aprendizado de guerrilha... Finalmente, a última foto: close de Hermes beijando apaixonadamente a linda companheira. Em off, a voz de Hermes explica: “A verdade é que não foi só de meu melhor amigo que eu tentei fugir... Havia Tania, a pessoa mais determinada que conheci na vida... Se eu fosse proibido de voltar ao Brasil, se eu tivesse a certeza de que nunca mais iria revê-los, eu tentaria começar uma vida normal com ela... Não me odeiem por ser tão vulnerável... Sua mãe não me quer mais ao lado dela e suas razões são sinceras... Talvez um dia ela aceite que vocês venham ao meu 35

encontro... Com Tania eu seria feliz, tenho certeza... em outro canto da terra... outro estado de espírito... outras condições de vida...”

No rosto de Ana Paula a perplexidade é assustadora... Afinal, o homem, que por tanto tempo ela julgou irreprochável, pode estar vivo em outro país, com outra família constituída...

Neste momento ela se volta para a janela traseira e vê nitidamente uma charrete sendo conduzida na direção contrária... Há duas meninas e uma jovem mulher na charrete. A menina de cabelos pretos volta o corpo para trás, e é ela mesma, há vinte e sete anos atrás, que Ana Paula vê. Os rostos das duas se fundem num único plano de efeito. A jovem Ana Paula sorri; a adulta, em estado de torpor.

No interior do carro, a mulher Ana Paula guarda as cartas na caixa com os livros e o revólver, e lentamente começa à rasgar as três últimas fotografias. Os vestígios da vida paralela do homem amado ela atira pela janela do carro em movimento. Os letreiros finais sobem sobre a imagem fixa da estrada de terra com o carro de Ana Paula se afastando rapidamente, até 36

desaparecer por completo na paisagem deslumbrante.

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Conclusão

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O título Dois Córregos é uma explícita home-nagem ao cineasta que melhor filmava sentimentos, o italiano Valerio Zurlini (realizador da obra-prima Dois Destinos - Cronaca Familiare).

É também o nome da cidade do interior de São Paulo, onde a ação central transcorre. E é, sobretudo, a metáfora de vidas em movimento que em algum momento, e inevitavelmente, irão se encontrar.

Dois Córregos é um projeto de filme intimista, sobre sensações submersas, centrado em atmosferas e clima. Importa mais o que não é explicado verbalmente, e muitas vezes o que não é nem mostrado. Um filme sobre as seqüelas do AI-5 e, sobretudo, sobre sentimentos prosaicos como melancolia, ternura, respeito humano e amor.

Um desafio no fato da ação se concentrar basicamente numa única locação. A idéia é realmente filmar na localidade do “Encontro dos Rios” (onde três dos maiores rios do Estado se encontram: o Tietê, o Piracicaba e o Turvo), município de Dois Córregos, próximo a Jaú, 38

interior de São Paulo. Um cenário de beleza rústica e bucolismo irresistível; um reduto, quase indevassável, de tranqüilidade e harmonia. O

projeto prevê também cenas filmadas no município de Cidreira, no Rio Grande do Sul (cenas fragmentadas do local onde Hermes cresceu e viveu até abandonar o país).

Janeiro de 1996, São Paulo

Carlos Reichenbach / Roteirista e Diretor

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Dois Córregos

Verdades Submersas no Tempo

Roteiro cinematográfico

de

Carlos Reichenbach

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FUNDO NEGRO – LETRAS BRANCAS

“Este filme se baseia em fatos reais e é dedi-cado à memória do personagem que o inspi-rou”.

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1. RIO TURVO / ENCONTRO DOS RIOS - DIA Longa tomada aérea do Rio Turvo até desem-bocar no Encontro dos Rios. Plano de apresentação onde se sobrepõem os letreiros iniciais.

Música principal com destaque para solo de piano.