Don Juan por Molière - Versão HTML

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DON JUAN

O convidado de pedra

De Moliére

Distribuído pelo site: www.oficinadeteatro.com

Tradução e adaptação de

Millôr Fernandes

Don Juan, de Moliére, na tradução e adaptação de Millôr Fernandes, estreou no dia 21 de março no teatro Villa Lobos, no Rio de Janeiro, com direção de Moacir Chaves, tendo no elenco: Edson Cellulari, Cacá Carvalho, Gisele Fróes, Marcelo Escorel, Ludoval Campos, Totia Meireles e Ana Barroso e com a participação especial de Luís de Lima e Henry Pagnoncelli, e cenário de Daniela Thomas.

PERSONAGENS

DON JUAN – Filho de Don Luís

LEPORELO – Criado de Don Juan

DONA ELVIRA – Mulher de Don Juan

GUSMÃO – Escudeiro de Dona Elvira

DON CARLOS

DON ALONSO

DON LUÍS

CARLOTA

MARTURINA

PIERRÔ – Camponês

A ESTÁTUA DO COMENDADOR

VIOLETA

RAGOTA

SR. DOMINGOS – Comerciante

LA RAMÉE – Espadachim

Um pobre

Comitiva de Don Juan

Comitiva dos irmãos Don Carlos e Don Alonso

A AÇÃO SE PASSA NA SICÍLIA

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PRIMEIRO ATO

UM CASTELO

CENA I

Leporelo e Gusmão

LEPORELO

(Com uma tabaqueira na mão) Diga o que diga Aristóteles e toda sua filosofia – não há nada que se compare ao rapé. É a paixão dos nobres. Não exagero – quem não ama o rapé não é digno da vida. O rapé não apenas purifica e alegra o cérebro, mas estimula a alma, conduz à virtude, e o seu uso ( gesto) refina as boas maneiras. Reparem. Notem a generosidade de quem o usa, a graça com que o oferece a todos, aqui, ali, contente de distribuí-lo à esquerda e à direita – sem esperar que ninguém o solicite. O rapezista antecipa o desejo alheio. Acho admirável essa propensão do rapé para inspirar sentimentos de gentileza e desprendimento em todos que o fungam. Desculpe –

meu entusiasmo me afasta do assunto principal. Quer dizer então, caro Gusmão, que tua patroa, Dona Elvira, surpreendida com nossa partida repentina, meteu o pé na estrada e veio atrás de nós? Que coisa! Com seu coração profundamente tocado por meu amo, ela não resistiu ao impulso de vir cercá-lo aqui. Só entre nós; posso dizer sinceramente o que é que eu acho? Posso?

Temo que ela vá receber muito pouco em paga desse... perigoso investimento. Temo que sua viagem a esta cidade resulte em nada. Ou até em menos. Vocês lucrariam mais, pois não perderiam tanto, ficando onde estavam.

GUSMÃO

Leporelo, que é que está me dizendo? O que é que te inspira a antecipar esse quadro funesto? O teu patrão te confidenciou o quê? Revelou alguma coisa contra nós que o obrigasse a...

escapar?

LEPORELO

Que o quê – nunca me disse nada. Mas, com a vista e o olfato, percebo o andar da carruagem. Mesmo que ele não me tenha dito nada, eu reafirmo o que te disse. Pode até ser que me engane, mas a experiência me ensinou muito nessa matéria.

GUSMÃO

Ah, então é assim? É o que eu estou entendendo? Essa partida sem qualquer aviso é devida a uma infidelidade de Don Juan? Seria ele capaz de tal ofensa à ardente paixão de Dona Elvira?

LEPORELO

Não: é que Don Juan ainda é muito jovem... tem a tentação do risco.

GUSMÃO

E isso justifica, em homem de sua condição social, ação tão vil?

LEPORELO

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Ah! Ah! O que pode a condição social diante das imposições da condição humana?

GUSMÃO

Mas ele está preso pelos santos laços do matrimônio.

LEPORELO

Eh!, Gusmão, meu pobre amigo, confia em mim – você ainda não percebeu quem é esse homem, esse Don Juan.

GUSMÃO

Como é que eu posso saber quem é um homem capaz de tal perfídia? Não compreendo como, depois de tanto amor e tantas demonstrações de impaciência, depois de tantas homenagens escaldantes, e votos, e suspiros, e promessas em pranto; depois de tantas cartas apaixonadas, protestos ardentíssimos, repetidos juramentos, em suma, depois de haver demonstrado tanto arrebatamento e fúria, a ponto de, presa dessa paixão, invadir o obstáculo sagrado de um convento a fim de se apossar de Dona Elvira: não compreendo, repito, como, depois de tudo isso, tenha tido a coragem de romper com sua palavra.

LEPORELO

Pois eu não tenho a menor dificuldade em entendê-lo. Se você conhecesse o nosso rufião, veria que para agir assim ele não vê qualquer impedimento. Não digo que seus sentimentos por Dona Elvira tenham mudado; não estou certo disso. Você sabe que, por ordem dele, eu vim antes e, desde que chegou aqui, nem me dirigiu a palavra. Mas, por precaução, vou te dizer uma coisa, e fica aqui entre nós; nesse meu patrão, Don Juan, você tem o maior patife que a Terra já produziu; um danado, um cão danado, um demônio, um turco priápico (se é que todos não o são), um herege, que não respeita nem o Céu, nem os santos, nem a Deus, nem ao diabo. Bom, também não acredita em mulas-sem-cabeça, fantasmas ou lobisomens. Vive a vida como um animal selvagem; um porco de Epicuro, verdadeiro Sardanapalo, que só busca satisfações, e fecha os ouvidos a todas as censuras que lhe faça o mais puro cristão. Acha idiotice tudo em que acreditamos. Tu me dizes que se casou com tua ama. Isso é pouco. Pra satisfazer sua paixão ele não hesitaria em casar também contigo, teu gato e o teu sapato. Um casamento não lhe custa nada; é só um estratagema pra atrair as tolas; casa como respira, sem mesmo perceber. E, uma vez satisfeito – esquece. Senhoras ou donzelas, burguesas, camponesas, vai de um tudo – pra ele não há carne retostada ou malpassada. Embora prefira crua. E tenra. Se eu te fizesse a lista de todas com quem casou aqui, ali e acolá, olha, você ia ter que tomar nota o dia inteiro. Vejo que estás estupidificado. Mudas até de cor ouvindo o que te digo. E fiz apenas um esboço do nosso personagem. Prum retrato acabado ia correr muita tinta. Consola-te na certeza de que, mais dia menos dia, a cólera do céu desaba sobre ele. Eu preferiria ser servo do demônio. Pelo que vi de horrores em sua companhia gostaria mesmo que já estivesse no inferno. Um nobre assim tão mau é uma coisa terrível. E tenho que lhe ser fiel, embora ele me repugne; o medo em mim se confunde com zelo, transforma meus sentimentos. E me força a aplaudir sempre, o que sempre minha alma repele. Mas ei-lo que vem aí, tranqüilo, passeando pelo palácio. Separemo-nos. Porém, escuta; te fiz algumas confidências com total franqueza. Mais que isso – exagerei. Dei com a língua nos dentes. Mas, se uma palavra do que disse chegar ao ouvido dele, conte com a minha lealdade; afirmarei que és um mentiroso.

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CENA II

Don Juan e Leporelo

DON JUAN

Quem era esse homem que falava contigo? Parece o bom do Gusmão, criado de Dona Elvira.

LEPORELO

Parecido mesmo. Com um pouquinho mais seria ele.

DON JUAN

O quê? É ele?

LEPORELO

O próprio.

DON JUAN

E desde quando está aqui na cidade?

LEPORELO

Desde ontem à noite.

DON JUAN

O que é que ele veio fazer?

LEPORELO

Não vou lhe dizer. O senhor adivinha mais rápido.

DON JUAN

Nossa partida brusca?

LEPORELO

O pobre-diabo está muito ofendido – tinha na cabeça um enorme Por quê? Por quê?

DON JUAN

E você lhe disse?

LEPORELO

Lhe disse que o senhor não me diz nada.

DON JUAN

E a mim, que diz você? Que é que você acha deste caso?

LEPORELO

Eu acho, sem querer achar muito, que o senhor deve ter nova paixão.

DON JUAN

Acha mesmo?

LEPORELO

É.

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DON JUAN

E sabe que você não se engana? Devo confessar que novo vendaval varreu Elvira do meu coração.

LEPORELO

Pois vê, eu não me engano! Conheço meu Don Juan como a palma desta mão. Sei que seu coração vagueia como um pombo; come alpiste em todas as gaiolas e nenhuma o prende.

DON JUAN

E não te parece errado eu agir assim?

LEPORELO

Olha, senhor...

DON JUAN

Estou olhando. Fala.

LEPORELO

É evidente que o senhor tem razão, se quiser ter razão – não posso dizer o contrário. Mas se o senhor não quisesse ter razão, eu lhe daria ainda mais razão.

DON JUAN

Fala mais claro! Te dou plena liberdade de soltar tudo que pensa.

LEPORELO

Nesse caso, senhor, lhe digo com toda franqueza que de modo algum aprovo seu

procedimento. E acho até bem safado amar pra lá e pra cá como o senhor faz.

DON JUAN

Não diga! Você pretende que uma pessoa se ligue definitivamente a um só objeto de paixão, como se fosse o único existente? Depois disso renunciar ao mundo – ficar cego para todas as outras formosuras? Bela coisa, sem dúvida, uma pessoa em plena juventude enterrar-se para sempre na cova de uma sedução, morto para todas as belezas do mundo em forma de mulher.

Tudo em nome de uma honra artificial que chamam fidelidade? Ser fiel é ridículo, tolo, só serve aos medíocres. Todas as belas têm direito a um instante de nosso encantamento. E a fortuna de ter sido a primeira não pode impedir às outras o direito de estremecer o nosso coração.

A mim a beleza me enlouquece em qualquer lugar em que a encontre; e cedo facilmente à doce violência com que me domina. Em amor é lindo estar comprometido. Mas o compromisso que tenho com uma beleza não impede minha alma de ser justa com as outras. Tenho os olhos sempre abertos para o mérito de inúmeras. E rendo sempre, a todas e a cada uma, as homenagens e os tributos a que a natureza me impele. Seja por que for, não posso, não devo, recusar meu coração a nada do que vejo de adorável; e se mil rostos formosos me pedissem, partiria em mil meu coração para atendê-los. As atrações nascentes têm encantos inexplicáveis – todo o gozo do amor está na renovação.

Há uma doçura extrema em dominar, com cem ou mil galanteios, o coração de uma jovem esplêndida, vendo, dia a dia, o progresso de nossa penetração... em sua ânsia. Invadindo, com lances de arrebatamento, prantos e promessas, o pudor inocente de uma alma e vendo-a, aos poucos, perdendo qualquer vontade de se defender. Forçando, passo a passo, todas as últimas pobres resistências que ela nos opõe, vencendo essa teia de escrúpulos que formam sua honra, www.oficinadeteatro.com

levando-a carinhosamente até... até onde queremos. Mas, uma vez possuída, não há mais o que dizer, ou desejar. Toda a beleza da paixão se acaba e dormimos na serenidade do amor conquistado, até outro estímulo despertar nossos desejos com a irresistível atração do novo.

Enfim, não há nada tão doce quanto dobrar a resistência de uma bela mulher. Nisso minha ambição é igual à dos grandes conquistadores, que voam eternamente de batalha em batalha, jamais se resignando a limitar sua ambição. Também não faço nada refreando a impetuosidade dos meus desejos. Minha vontade é seduzir a Terra inteira. Como Alexandre lamento que não haja outros mundos para estender até lá minhas conquistas amorosas.

LEPORELO

Maravilha de discurso! Parece até que aprendeu isso de cor – fala como um livro.

DON JUAN

Muito bem. Mas quero ouvir seu comentário.

LEPORELO

Ora, ora, eu... Só tenho a dizer que não tenho o que dizer. Ou não sei como dizer. Porque o senhor vira e revira as coisas de uma tal maneira que parece ter absoluta razão onde não tem nenhuma. Trazia aqui dentro os mais claros pensamentos sobre o assunto, mas seu discurso embaralhou tudo. Deixa estar; em outra ocasião me preparo melhor para discutir com o senhor.

Penso ponto por ponto. E trago tudo escrito.

DON JUAN

Não é uma má idéia.

LEPORELO

Mas me diga, senhor, está dentro da permissão que me foi dada eu me sentir um pouquinho escandalizado com o tipo de vida que o senhor leva?

DON JUAN

Como assim? Que vida eu levo?

LEPORELO

Muito boa. Mas, por exemplo, vendo-o casar todos os meses como eu o vejo...

DON JUAN

E existe vida mais agradável?

LEPORELO

Não, reconheço. É muito agradável e muito divertida e até eu levaria uma vida assim, se não houvesse nada de mal nisso. Mas, meu senhor, escarnecer assim de um sacro mistério...

DON JUAN

Vamos, vamos, isso é um assunto entre o Céu e eu. Resolveremos isso sem comprometer você.

LEPORELO

Mas, meu senhor, sempre ouvi dizer que é muito grave zombar do Céu. Os que se atrevem a isso são libertinos – jamais têm um bom fim.

DON JUAN

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Agora você exagera – quantas vezes já lhe disse que detesto pregadores?

LEPORELO

Mas não falo assim do senhor, que Deus me livre e guarde. O senhor sabe o que faz. Se não acredita em nada é porque isso é sua forma de crença. Falo dos insensatos, libertinos sem saber por quê; posam de audaciosos porque acham que fica bem. Não falo do senhor não. Se eu tivesse um patrão assim eu lhe diria claramente, olhando-o bem no olho: “Ousa o senhor zombar do céu dessa maneira; não treme o senhor de fazer o que faz, de escarnecer das coisas mais sagradas?

Acha que lhe fica bem, ínfimo verme da terra, lombriga desprezível (falo ao patrão que imaginei), acha que pode mesmo colocar em ridículo tudo que os outros reverenciam? O senhor pensa que, por sua alta posição, por ter peruca loura e bem frisada, plumas no chapéu, roupa toda dourada, e fitas cor de fogo (não falo com o senhor, falo com o outro), pensa o senhor, digo eu, que é melhor do que todos, que tudo lhe é permitido e que eu não ousaria lhe dizer a verdade, cara a cara?

Aprenda comigo, que sou seu servidor, que cedo ou tarde o céu pune os ímpios, que uma má vida conduz a uma má morte, que...”

DON JUAN

Basta!

LEPORELO

Falei demais?

DON JUAN

Falou bastante. Agora deves saber que uma nova beldade raptou meu coração. Seduzido por suas qualidades físicas e morais – é por isso que estamos aqui.

LEPORELO

Eu também? ( Don Juan acena que sim) E não o preocupa, senhor, estando aqui, a morte do Comendador que o senhor eliminou há seis meses?

DON JUAN

Preocupar-me por quê? Não o matei corretamente?

LEPORELO

Sim senhor, corretissimamente; seria injusto ele se queixar.

DON JUAN

Fui absolvido dessa morte.

LEPORELO

É verdade. Mas uma absolvição não o absolve do ressentimento de parentes e amigos...

DON JUAN

Ah! Não vamos antever os males hipotéticos – é melhor pensar apenas no que vai nos dar prazer. A pessoa de que te falo é uma jovem noiva, a coisa mais deliciosa do mundo, que foi trazida aqui por aqueles com quem vai casar. O acaso me apresentou a esse casal de enamorados três ou quatro dias antes que viajassem. Jamais vi duas pessoas tão ansiosas uma pela outra, dando tantas demonstrações de tanto amor. A ternura ostensiva desse mútuo ardor me encheu de emoção e de inveja; feriu meu coração. Minha paixão nasceu de meu ciúme. É; não suporto mais vê-los juntos. O despeito desperta meus desejos e antecipo o prazer extremo de www.oficinadeteatro.com

poder perturbar essa harmonia, romper o nó que os liga – verdadeira ofensa à sensibilidade do meu coração. Até aqui, porém, todos meus esforços têm sido inúteis. Vou apelar para um recurso extremo. O futuro esposo convidou sua amada a um passeio no mar. Sem te dizer coisa alguma preparei tudo para satisfazer minha paixão, uma barca e quatro homens, com que espero facilmente seqüestrar minha bela.

LEPORELO

Ah, meu senhor...

DON JUAN

O quê?

LEPORELO

O senhor faz muito bem, faz como lhe convém. O melhor deste mundo é satisfazer nossos desejos.

DON JUAN

Portanto prepara-te para vir comigo e cuida de trazer todas minhas armas para que... ( Dona Elvira) Ah, que encontro infeliz! Traidor; não me disseste que ela estava aqui.

LEPORELO

O senhor não me perguntou.

DON JUAN

Ela enlouqueceu – ainda está com as roupas de viagem. Nem mudou de vestido.

CENA III

Dona Elvira, Don Juan e Leporelo

DONA ELVIRA

Don Juan, posso lhe pedir a graça de me reconhecer? Posso esperar que se digne voltar o rosto em minha direção?

DON JUAN

Confesso, senhora, que estou surpreendido – de modo algum a esperava aqui.

DONA ELVIRA

É, vejo realmente que o senhor não me esperava; está profundamente surpreendido. Mas de maneira bem diferente da que eu esperava. E essa sua atitude me confirma plenamente aquilo em que me recusava acreditar.

Admiro minha ingenuidade e a fraqueza do meu coração duvidando de uma traição que todas as aparências demonstravam. Eu fui excessivamente boa, confesso, ou, digo melhor, estúpida, querendo enganar a mim mesma, me esforçando por negar o que meus olhos e meu julgamento viam e pressentiam. Procurei razões para explicar à minha ternura o esfriamento do afeto que ela esperava do senhor. Descobri laboriosamente mil razões para sua partida precipitada, querendo absolvê-lo de um crime do qual minha razão não duvidava. Minhas justas suspeitas todo dia me alertavam, mas eu repelia qualquer voz que pretendesse torná-lo infame ao meu coração. Preferia escutar com prazer as mil ridículas quimeras que o mostravam inocente e sincero. Mas, agora, www.oficinadeteatro.com

este encontro não me permite mais a menor dúvida. A olhada que me deu me feriu muito mais do que tudo que eu podia imaginar. Todavia gostaria de ouvir de seus próprios lábios a explicação de sua fuga. Fala, Don Juan, por favor, fala. Quero ver de que hábil maneira vai se justificar.

DON JUAN

Madame, está aí Leporelo, que sabe por que eu parti.

LEPORELO

( Em voz baixa, a Don Juan) Eu, senhor? Por favor, eu não! Eu não sei nada!

DONA ELVIRA

Fala então, Leporelo, quero a explicação, não importa de que boca.

DON JUAN

( Fazendo sinal para que Leporelo se aproxime) Vamos, Leporelo, fala à senhora.

LEPORELO

( Baixo, a Don Juan) Que quer que eu diga?

DONA ELVIRA

Chega aqui perto, como ele ordena, e explica-me a causa de tanta precipitação.

DON JUAN

Vamos, rapaz, explica!

LEPORELO

Madame, eu...

DONA ELVIRA

Estou ouvindo.

LEPORELO

( Para Don Juan) Senhor, eu...

DON JUAN

( Ameaçador) Estamos ouvindo.

LEPORELO

Senhora, os conquistadores, Alexandre, e os outros mundos são a causa de nossa partida. Aí está, senhor, tudo que sei dizer.

DONA ELVIRA

Poderia o senhor, Don Juan, explicar um pouco mais essa explicação?

DON JUAN

Falar verdade, senhora...

DONA ELVIRA

Ah, o senhor se defende muito mal para um homem da corte, inda mais tão acostumado a esse tipo de coisas. Sabe que me dá até dó, vê-lo assim todo confuso? Não é melhor pôr em sua cara a expressão devida – a do cinismo indecente? Por que não jura que conserva por mim os mesmos sentimentos, que me ama ainda com ardor sem igual, e que nada o separará de mim até a morte? Por que não me mente dizendo que negócios de máxima importância o obrigaram a partir www.oficinadeteatro.com

sem me avisar?; que, para tristeza sua, vai ter que permanecer aqui ainda algum tempo, e me aconselha a voltar para de onde vim, jurando que seguirá meus passos assim que lhe for possível?; que arde de desejo de ficar junto a mim; que longe de mim sofre como um corpo separado da alma? É assim que deveria se defender e não ficando aí, confuso, tolo, aparvalhado.

DON JUAN

Posso lhe jurar, madame, que não possuo o talento da dissimulação – meu coração é um bloco de sinceridade. Não lhe direi, portanto, que conservo por si os mesmos sentimentos que antes me animavam, nem que queimo de desejos por reencontrá-la. Pois é evidente que não parti, fugi. Não pelas razões que lhe parecem evidentes, mas por escrúpulos de consciência – por saber que não poderia viver consigo sem pecado. Repito, fui assaltado por escrúpulos que abriram os olhos de minha alma e me encheram de horror por minha conduta. Refleti que, para desposá-la, arranquei-a da clausura de um convento, obriguei-a a romper votos que a ligavam a sublimes compromissos. E o Céu tem ciúme feroz dessa espécie de coisa. O arrependimento me dominou; tive pavor da cólera divina. Percebi que nosso matrimônio não passava de um adultério disfarçado, que atrairia sobre nós o castigo do Altíssimo. Senti que devia esquecê-la para que tivesse oportunidade de voltar a seus antigos votos e devoções. A senhora se oporia a tão puros pensamentos? Preferia que eu, retendo-a, enfrentasse, e a obrigasse a enfrentar, a fúria do Céu?

Que eu...?

DONA ELVIRA

Ah, celerado, só agora eu o conheço por inteiro; e para minha infelicidade o conheço quando já é demasiado tarde e esse conhecimento serve apenas para meu desespero. Mas saiba que seu crime não ficará sem castigo e que o mesmo Céu do qual o senhor escarnece saberá me vingar de sua perfídia.

DON JUAN

Leporelo, o Céu!

LEPORELO

O Céu, é mesmo! Vamos nos divertir muito com isso, se vamos.

DON JUAN

Senhora...

DONA ELVIRA

Basta. Não quero ouvir mais nada. E me acuso até de ter ouvido tanto. É uma covardia permitir que esmiucem diante de nós nossa própria vergonha. Nesses assuntos uma alma nobre deve decidir ao ouvir a primeira palavra. Não espere que eu aqui prorrompa em injúrias e lamentos: não, minha cólera não se dissipará em palavras inúteis. Todo seu calor será reservado à minha vingança. Repito mais uma vez: o Céu o punirá, pérfido, do ultraje que me fez. E se o Céu não tem nada que o faça tremer, trema então pelo que pode o ódio de uma mulher ofendida. ( Sai).

CENA VI

Leporelo e Don Juan

LEPORELO

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( À parte) Se ao menos ele se deixasse dominar pelos remorsos!

DON JUAN

( Depois de curta reflexão) Temos que pensar agora em nossa próxima aventura amorosa.

LEPORELO

( ) Ah!, o poder do salário. Que abominável senhor ele me faz servir!

SEGUNDO ATO

CAMPO, À BEIRA-MAR, PERTO

DA CIDADE

CENA I

Carlota e Pierrô*

CARLOTA

Nosso Deus, Pierrô, tu então chegou mesmo na hora?

PIERRÔ

Nossa mãe, foi prum fiozim assim qui num se afogaro us dois.

CARLOTA

Foi o quê? O pé di vento di manhãzim qui us cuspiu dento dágua?

PIERRÔ

Tu cala i escuita qui ti vô contá bem direitim cumo tudo si passou-se. Caso é, cumo diz u ôtro, qui fui eu o primêro que viu eles; que viu eles de primêro só foi eu. Tava os dois nós na bêrada do mar, eu e mais o Luca Gordo, e nós se divertia, atirando bolões di terra um nos cornos do ôtro. Cê sabe cumo o Gordo apreceia uma boa mulecage, qué dizê, só num apreceia tantu quantu eu. In pois nu meio da mulecada eu apercebi nu longi qualqué coisa qui se fervia nágua in nossu rumu, i num era pêxe pelu jeito das nadada. Eu via aquilo bem visívo, i di repenti num vi nem mais nada.

“Ô Gordo”, eu disse, “eu achu qui aquilu ali é uns home nadando.” “Cê tá é vendo coisa”, disse o Gordo. “Eu só vejo um gato morto.” “Num tem vista nim rivista”– eu falando – “São uns home nadando.” “Tem ninguém lá” – agora é o Gordo – “Tu olhô pro sol, ficou cegado.” “Qué apostá”, dizeu eu “aí que minha vista tá bem boa”, dizeu eu mais “são homes sim” – sou inda eu – “qui nadam lá?” “Tu tem é catrata nu olhu, aposto qui num é ninguém”, apostô o Gordo. “Eu caso dez soldo que são home afogano”, eu falei. “Tá feito” – falô o Gordo. “I pra mostrá qui tá feito, taí o meu dinhêro.” Eu, qui num sô bobu nim indiota, joguei logo nu chão duas peças de um soldo í quatros peça dobrada, assim, no desafio, na calma di bebê um jarro di vinho. Porque eu sô do arriscado, e num jogo com dinhêro contado. Eu sabeu o qui fazia. Tem vez que possu inté sê indiota. Mas bobo num sô não! Pruquê nem nóis tinha acabado di apostá qui já os homes gritava pur socorro e eu pegava o ganho nas aposta. “Vamo, Gordo”, eu dizeu, “tu tá vendo qui eles tão morreno; vamos dipressa.” “Eu não”, disse o Gordo, “eles fizero eu perdê. Vai tu que ganhô.” Bom, pra encurtá história, eu xinguei tanto o Gordo que ele entrô cumigo na canoa, e fumo tirá os home que afogavo, levamo eles pra cabana, e botamo junto do fogo pra secá, nuzinhos como Deus trusse www.oficinadeteatro.com

elis nu mundu. Ao dispois inda viero mais dois do bando deles, acho qui sairo das água sin ajuda. I foi quando apareceu a Marturina i tudo elis parecia querê cumê ela cum us olho. Qué dizê, pelo que eu vi, cus olho e cum o resto. Ti conto cumo foi, Carlota, pois foi anssim qui foi.

CARLOTA

Mas tu num mi disse, Pierrô, qui tinha um quera munto mais bem feito qui us otro?

PIERRÔ

Tem. É próprio o patrão. Deve sê um senhorão – tem us vestido tudo de oro, di alto in baxo. I us qui servem ele tamém são sinhor dus grandi. Mas pur mais sinhoris que elis fosse já num eram nada si nós não estivesse lá pra salvá elis.

CARLOTA

( Em dúvida) Péra lá, home.

PIERRÔ

Sim, sinhora. Sem di nóis, já tavam cumendo terra. Craro, dispois de bebê toda água.

CARLOTA

I elis inda tá lá na tua cabana todu nu, Pierrô?

PIERRÔ

Já não. Os otro vestiro eli todo ali mesmu in frenti di nóis. Meu céu!, nunca vi ninguém se vesti tanto. Quantas história i penduricalho elis bota em cima, esses fedalgo! Si fosse eu tinha mi perdidu nessas ropa e nunca mais saído delas. Istava mesmo bestalhado. Sabe, Carlota, elis tem até cabelo qui não são grudado na cabeça. Botam pur cima di tudo cumo uma crapuça feita toda di cachinho. I as camisa tem manga tão larga que dá pra caber tu e eu, inda convidá mais uma otra pessoa. Inveis di calça tem uma ispéce di avental, grandi qui Deus mi livre, inveis di culete, usam um culetinho qui a gente nim sabê qui é. Metem inda umas manga em cima das manga, fita e mais fita, e inda mais fita – fica uma coisa de dá dó. Tem fita até nos sapato i os sapato tem sarto tão arto (salto tão alto) que eu na certa caía delis si cunseguissi assubí nelis.

CARLOTA

Meu Deus du céu, Pierrô, tenho que i lá, dá uma olhada nisso.

PIERRÔ

– Iscuta inda un poco, Carlota. Tem mais pra te dizê.

CARLOTA

Vamo intão. Diz lá u qui é.

PIERRÔ

Você vê, Carlota, tenho qui desabafá meu coração. Eu ti amu, tu sabi muito bem, i estamo pra casá os dois juntos; mas, pelo endemoinhado!, juro qui num estô satisfeito cumtigo.

CARLOTA

I porquemente? Qui é qui tu reclama?

PIERRÔ

Sinto que tu mi faz ficá dun jeito; francamente, tu me aflege.

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CARLOTA

Aflejo como?

PIERRO

Eh, miséria – tu não mi ama.

CARLOTA

Ah, i é só isso?

PIERRÔ

Cumo si não abastasse.

CARLOTA

Mas, Pierrô, tu mi vem sempre cum a mesma?

PIERRÔ

Eu ti digo sempri u mesmu, pruquê sintu sempri u mesmo. Si sintisse uma otra coisa eu dizia uma otra coisa.

CARLOTA

Mas qui é qui ti falta? Qui é qui tu qué?

PIERRÔ

Raios! Quero que tu mi ami!

CARLOTA

I eu num ti amu?

PIERRÔ

Não. Tu num mi ama mesmu. I eu faço tudo que posso pra consegui isso. Ti compro, sem pechinchá no preço, tudo que é fita que encontro nos tendero. Arrisco meu pescoço pra pegá passarinho nas arvres. No teu aniversário chamo os violero pra animá tua festa. I qui adiantô tudo?

Dô sempre com a cara no muro. Vê bem; num é bunito nim honesto num amá quem nus ama.

CARLOTA

Mas, nossa Mãe, eu também ti amu.

PIERRÔ

Tu mi ama meio di esguelha.

CARLOTA

I qui diabo damor você qué de mim?

PIERRÔ

Eu queru um amô de frente, qui a gente vê na cara.

CARLOTA

Num ti amo cumo si ama?

PIERRÔ

Não. Quano é assim, si vê logo. Os qui ama tão sempre fazendu reclamação, i queixa, pur si querê bem. Num passam um peloutro sem reclamar alguma. Vê só a Tomasona como está toda www.oficinadeteatro.com

boba pelo tal Pasqualino. Stá in volta deli sempre, aborrecendo ele – o pobre num tem paz. Não tem macriação qui ela num faz e nem nunca passa por eli sin um empurrão. Notro dia eu vi quando eli stava trepado na escada i ela empurrou eli com força e lhi deu um trambolhão. Caramba, é assim que faz as pessoas qui si ama. Mas tu, tu num mi diz uma palavra, é mais fácil eu me entendê cum um pedaço de pedra. Posso passá dez vez na tua frente que tu num me dá nim um empurrão i nim mi faz nenhuma ofensa. Raios mi parta! Num é assim qui si têm amô – pra mim é muito frio.

CARLOTA

Qué qui você qué quieu faço? Meu jeito é assim – eu num posso mudá.

PIERRÕ

Quim é assim, pode bem sê assado. O amô muda o jeito e faz o desjeito.

CARLOTA

Stá bem. Ti amo tudo qui eu posso. I si você num stá satisfeito com esse tanto é melhor você tratá di amá otra.

PIERRÔ

Vê qui stô cum a razão? Si tu mi amava tu me falava assim?

CARLOTA

Também tu não pára di mi aponquetá.

PIERRÔ

Que inferno! Eu só ti peço um naco di carinho.

CARLOTA

Tá bem! Mas num mi apressa! Pode sê que isso venha, num repente, quando meno eu pensá.

PIERRÔ

( Estende a mão, num gesto simbólico de reconciliação) Toca!

CARLOTA

Stá bem! ( Tocam-se as mãos)

PIERRÔ

Promete qui vai fazê força di me querê bem.

CARLOTA

Vou fazê tudo que pudé mas isso só vem de onde eu num sei. Pierrô, é aquele, o fedalgo?

PIERRÔ

É ele.

CARLOTA

Oh, minha Madona, como é bonito esse sinhô! Era uma disgraça eli ter si afogado.

PIERRÔ

Vorto logo. Vou tomá um trago pra me animá um pouco dipois dessa cansera.

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CENA II

Don Juan, Leporelo e Carlota

(No fundo da cena)

DON JUAN

Nosso golpe falhou, Leporelo. A tempestade imprevista, que afundou nosso barco, afundou também o nosso plano. Mas, pra dizer a verdade, a camponesa que acabei de ver compensa de longe essa desgraça. É tão fascinante que parece até uma reparação que o destino me oferece pelos temores e riscos do meu fracassado projeto. Não posso deixar que esse peixão me escape; já preparei tudo para não ter que ficar muito tempo suspirando por ela.

LEPORELO

Confesso, senhor, que o senhor me assombra. Apenas escapados de um perigo de morte, em vez de render graças a Deus pela compaixão que ele teve de nós, o senhor se empenha em atrair novamente a cólera divina, com seus habituais devaneios, seus amores crimino... ( Don Juan assume ar ameaçador) Cala-te boca! Você não sabe o que diz; e o senhor sabe o que faz.

DON JUAN

( Percebendo Carlota) Ah! Ah! De onde surgiu essa beldade, Leporelo? Você já viu na vida beleza mais bonita? Não acha que essa aí vale bem mais que a outra?

LEPORELO

Não tenho a menor dúvida. ( À parte) Mais um peso de carne fresca.

DON JUAN

( A Carlota) De onde me vem a beleza, um encontro tão agradável? É sempre assim aqui?

Nestes prados, neste campo, nestas árvores e montes há muitas mocinhas assim como você?

CARLOTA

É como vê, senhor.

DON JUAN

Você mora nesta aldeia?

CARLOTA

Nasci aqui, senhor.

DON JUAN

E... tem um nome?

CARLOTA

Carlota, senhor, para o servir.

DON JUAN

Sabe, você é uma beleza rara; e seus olhos penetrantes me penetram.

CARLOTA

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Me deixa envergonhada, cavalheiro.

DON JUAN

Vergonha de ser assim tão bela? Vergonha de ouvir uma verdade? Tenho ou não tenho razão, Leporelo? Já viu em algum lugar coisa mais agradável? Vire-se um pouco, assim, por favor, assim... Ah, que talhe de cintura, que requebro! Erga um pouco a cabeça, por favor. Isso! Que rosto carinhoso! Agora abra bem os olhos. Mas que olhar de abismo! Deixa eu ver os dentes, deixa

– só mais isso. Ah, impossível não amá-los, dentro desses lábios umidinhos. A mim mesmo, e a todos os presentes, me declaro fascinado: pois jamais vi mulher tão fascinante.

CARLOTA

Senhor, o senhor parece gostar de dizer essas coisas, mas acho que é só pra zombar de mim.

DON JUAN

Eu, zombar de você? Deus me livre! Vi-a e amei-a desde logo. Quem diz isso não sou eu.

CARLOTA

Não?

DON JUAN

É meu coração.

CARLOTA

Se é assim sincero, lhe agradeço muito.

DON JUAN

Por quê? Não tem que agradecer pelo que digo. Eu é que estou agradecido por me deixar olhá-la.

CARLOTA

O que o senhor fala é bonito pra mim e eu nem tenho espírito de lhe responder.

DON JUAN

Leporelo, olha só essas mãos.

LEPORELO

Deus do céu, que sujeira. As unhas estão pretas.

DON JUAN

Que é que você está dizendo? São as mãos mais bonitas do mundo; permita que eu as beije.

CARLOTA

Senhor, me faz honra demais – se eu adivinhasse tinha lavado aos mãos com areiol.

DON JUAN

Me diz aqui, Carlota, você não é casada, é?

CARLOTA

Não, senhor, mas sou prometida de Pierrô e logo, logo vou casar com ele. É o filho da vizinha Simoneta.

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DON JUAN

Não é possível! Uma moça assim como você casar com um simples camponês? Não, não; isso é profanar tanta beleza. Você não foi feita pra viver numa aldeia. Não há dúvida alguma de que merece um destino melhor. E o Céu, que tudo sabe, me enviou aqui justamente para impedir esse enlace e fazer justiça a seus encantos. Porque, enfim, minha linda Carlota, simplificando, eu te amo de todo o coração e não depende de mais nada senão da tua vontade que eu te tire deste lugar miserável para te colocar na posição que você merece. Você suspeitará talvez de um amor assim tão súbito, mas isso é apenas efeito natural de tua extraordinária beleza. Em apenas dez minutos você provocou em mim uma paixão de seis meses.

CARLOTA

Uma verdade, senhor, é que não sei como fazer ouvindo o senhor falar. O que o senhor diz me agrada muito e queria acreditar em tudo. Mas sempre me ensinaram que não se deve acreditar nos cavalheiros, porque todo fidalgo é um enrolador que só quer enganar as raparigas.

DON JUAN

Eu não sou desses.

LEPORELO

( À parte) Ele é esse!

CARLOTA

O senhor sabe que a gente não gosta de ser enganada. Eu sou uma moça pobre,

camponesa, minha honra é a minha recomendação. Eu preferia morrer do que ser desonrada.

DON JUAN

E vê em mim, olhe bem!, uma alma tão perversa que queira abusar de uma pessoa como você? Pareço tão infame – olhe bem! – que queira desonrá-la? Não, não, minha consciência é terrível, não me deixaria fazer nada nem sequer parecido. Eu te amo, Carlota; quero você honestamente. E para mostrar que falo a verdade, saiba que tenho a intenção de me casar contigo. Posso te oferecer prova maior? Estarei pronto quando você estiver, casarei contigo quando você quiser – e este homem é testemunha fiel da palavra que empenho.

LEPORELO

Testemunho, não tenha receio. Ele casa consigo assim que não entender.

DON JUAN

Ah! Carlota, sei bem que você mal me conhece. Mas me causa infinita tristeza perceber que me julga pelos outros; há tratantes no mundo, e não são poucos, patifes cujo único objetivo na vida é abusar das donzelas. Mas não me ponha entre eles – não duvide da sinceridade do que digo. E, além disso, sua própria beleza a protege de tudo. Quando se é feita como você, assim, pode-se estar acima de todos os temores; com essa pureza de ser, me acredite, você não tem o ar de quem se abusa. E, quanto a mim, esteja certa, daria mil punhaladas no meu próprio peito, se sentisse, mesmo em pensamento, a menor tentação de te trair.

CARLOTA

Ai, meu bom Deus! Não sei se o senhor fala verdade ou se fala mentira; mas, da maneira que diz, tudo vira verdade. Tudo que eu queria era acreditar.

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DON JUAN

Pois então me acredite, me conheça melhor, e me faça justiça, que neste mesmo momento lhe renovo a promessa de levá-la ao altar; não quer, não consente, em ser minha mulher?

CARLOTA

Consinto, quero, e aceito ( Pausa). Se minha tia aceitar.

DON JUAN

Então, feito ( Estende a mão). Carlota, sua tia não vai recusar o que você me consente.

CARLOTA

Mas, senhor, por favor, não me engane – eu caso com o senhor e sua consciência casa com minha boa fé.

DON JUAN

Mas como? Duvida ainda da minha sinceridade? Quer arrancar de mim algum juramento terrível? Pois que o Céu, então...

CARLOTA

Pelo amor de Deus, não jura! Eu acredito.

DON JUAN

Agora, então, um beijinho para selar nosso compromisso.

CARLOTA

Ah, não, senhor; depois do casamento eu o beijarei quantas vezes quiser.

DON JUAN

Pois bem, linda Carlota. Eu só quero o que você quer; mas me dá pelo menos tua mão pra que eu demonstre com mil beijos toda a minha sinceridade.

CENA III

Don Juan, Leporelo, Pierrô e Carlota

PIERRÔ

( Se metendo entre os dois, empurrando Don Juan) Hei, hei, divagar, seu fedalgo – divagar com a louça. O senhor está-se insquentando muito i podi pegar uma inflaação.

DON JUAN

( Empurrando Pierrô com força) De onde é que me saiu esse insolente?

PIERRÔ

( Se metendo entre Don Juan e Carlota) Lhe digo-lhe de pra se contivér e não fazer cosquinhas nas nossas noivas.

DON JUAN

( Continuando a empurrar Pierrô) Ah, pare com essa barulhada!

PIERRÔ

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Barulhada é a sua! Num s'impurra assim um cidadão!

CARLOTA

( Segurando Pierrô pelo braço) Pára cum isso, Pierrô!

PIERRÔ

Pára cum quê? Eu é que paro? Ele é qui pára! Num paro não!

DON JUAN

Ah!

PIERRÔ

Ora, Nossinhô! Só pruque o sinhô é um fedalgo pensa qui podi bailiná nossas mulhér nas nossas barba? Vai cariciá as sua!

DON JUAN

Rahhhh!

PIERRÔ

Rahhhhh, o sinhô. ( Don Juan lhe dá um tabefe) Disgranido! Na cara não! ( Don Juan lhe dá outro tapa) Trigranido! ( Terceira bofetad a) Seisgranido! Asqueroso! Num se bati assim na gente honesta! Nim isso é ricumpensa pur eu ter lhi desafogado.

CARLOTA

Pierrô, não se aburreça.

PIERRÔ

Mas eu queru mi aburrecê! I tu é uma velhaca di ti permiti que essi daí mi chifra!

CARLOTA

Oh, Pierrô, num é isso qui tu pensa. Esse sinhor quer se casar cumigo, não qué te chifrá não.

PIERRÔ

Comé? Tu num é minha prumetida?

CARLOTA

Mãs, e intão, Pierrô? Sô tua prometida pruquê tu mi ama. E se tu mi ama tem di ficar alegre d'eu virá uma senhora.

PIERRÔ

Vai pru inferno! Prifiro ti vê morta du que nas mão di otro.

CARLOTA

Vai, vai! Pierrô! Não sejaí temoso. Si eu fô sinhora você vai ganhá bastanti. O quejo i a mantega você é qui vai fornecê.

PIERRÔ

Mas qui sacripantagi! Nunquinha qui eu forneçu. Nim se você me pagava o dobro. I intão é assim? Tu tá iscutano i acreditano in tudo deli? Que porcaria! Si eu sobesse antis eu ficava só olhando e nunca que ia tirá eli lá di dentro dágua. Se fosse ajudá era cum uma boa remada na cabeça.

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DON JUAN

( Se aproximando de Pierrô para bater de novo) Que é que você disse?

PIERRÔ

( Escondendo-se atrás de Carlota) Sacripanta! Eu num tenhu medu di ninguém!

DON JUAN

( Passando pro lado de Pierrô) Espera um pouco!

PIERRÔ

( Passando pro outro lado de Carlota) Acho o sinhô um palhaço!

DON JUAN

( Tentando pegar Pierrô) Pois vou lhe fazer rir!

PIERRÔ

( Passando pro outro lado de Carlota) E num achu graça!

DON JUAN

Te pego!

LEPORELO

Ah, senhor, deixa pra lá o pobre desgraçado! Se bater nele vai ficar com a consciência pesada. ( A Píerrô, se metendo entre Don Juan e ele) Escuta, meu pobre rapaz, vai embora. Não diz mais nada.

PIERRÔ

( Passa em frente a Leporelo e olha Don Juan com raiva) Más uma coisa eu vô dizê!

DON JUAN

( Levanta o braço para esbofetear Pierrô. Este baixa a cabeça. Leporelo recebe a bofetada) Toma, pra aprender!

LEPORELO

( Olhando Pierrô abaixado) Maldito chifrudo!

DON JUAN

(A Leporelo) Eis o prêmio da tua caridade!

PIERRÔ

Disgraçada, isso num fica assim. Vou já contá pra tua tia tudu qui acuntéci aqui.

DON JUAN

( A Carlota) Enfim, serei o homem mais feliz do mundo. Não trocaria minha felicidade por tudo o mais que tem esse mundo. Que gozo extremo quando eu a tornar minha mulher. E que...

CENA IV

Don Juan, Leporelo, Carlota e Marturina

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LEPORELO

( Percebendo Marturina) Ah! ah!

MARTURINA

(A Don Juan) Cavalheiro, que é que o senhor faz aqui com Carlota? Será que o senhor também fala de amor com ela?

DON JUAN

( Baixo, a Marturina) Nããão... Pelo contrário. Ela é que meteu na cabeça que deve ser minha mulher e eu estava justamente lhe comunicando o meu compromisso com você.

CARLOTA

( A Don Juan) Que diabo quer essa Marturina?

DON JUAN

( Baixo, a Carlota) Ela está com ciúme de me ver falando com você – quer que eu me case com ela. Mas eu lhe disse que só amo você.

MARTURINA

O quê? Carlota?

DON JUAN

( Baixo, a Marturina) Tudo que eu disser a ela é inútil; meteu isso na cabeça e ninguém tira.

CARLOTA

Como é que pode a Marturina...?

DON JUAN

( Baixo, a Carlota) É bobagem você falar com ela; não arreda um passo dessa fantasia.

MARTURINA

Será possível que...?

DON JUAN

( Baixo, a Marturina) Não há modo de convencê-la. Perdeu completamente a razão.

CARLOTA

Eu só queria que...

DON JUAN

( Baixo, a Carlota) É mais obstinada do que dez muares.

MARTURINA

Realmente...

DON JUAN

( Baixo, a Marturina) Não lhe dirija a palavra. Está doida.

CARLOTA

Eu acho...

DON JUAN

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( Baixo, a Carlota) Esquece a pobre – é uma extravagante.

MARTURINA

Não, não; é preciso que eu lhe fale.

CARLOTA

Quero saber o que que essa aí pretende.

MARTURINA

O quê?...

DON JUAN

( Baixo, a Marturina) Aposto que ela vai dizer que prometi casar com ela.

CARLOTA

Eu...

DON JUAN

( Baixo, a Carlota) Vai jurar que eu lhe dei certeza de que será minha mulher.

MARTURINA

Oh, Carlota, é muito feio querer pegar nos ovos da galinha alheia.

CARLOTA

E você acha bonito, Marturina, essa ciumeira toda só porque o senhor me fala?

MARTURINA

Acontece que ele me viu primeiro.

CARLOTA

Ele viu você primeiro mas me viu segundo e prometeu casar comigo.

DON JUAN

( Baixo, a Marturina) Eu não disse?

MARTURINA

Ora, vai passear! Foi cumigo, não cuntigo, que ele se comprometeu.

DON JUAN

( Baixo, a Carlota) Eu não te avisei?

CARLOTA

Conta outra, por favor – ele escolheu a mim, não a ti.

MARTURINA

Você tá brincando! Ele escolheu foi a mim, eu te repito!

CARLOTA

Mas ele está aí – pode dizer se eu não tenho razão.

MARTURINA

Ele está aí pra te desmentir – você vai ver só.

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CARLOTA

É verdade, senhor, que o senhor prometeu casar com ela?

DON JUAN

( Baixo, a Carlota) Está brincando comigo?

MARTURINA

É mesmo, senhor, que prometeu a ela de ser seu marido?

DON JUAN

( Baixo, a Marturina) Como é que você pode pensar uma coisa dessas?

CARLOTA

Mas ela afirma e refirma.

DON JUAN

( Baixo, a Carlota) Pois deixa ela refirmar.

MARTURINA

Mas o senhor vê que ela agarante!

DON JUAN

( Baixo, a Marturina) Deixa ela agarantir.

CARLOTA

Não, não! Temos de saber a verdade.

MARTURINA

E decidir isso agora.

CARLOTA

Muito bem, Marturina; o senhor vai mostrar a tonta que você é.

MARTURINA

Ele fala; você cala o bico.

CARLOTA

Por favor, meu senhor, é lá ou cá essa questão?

MARTURINA

É com o senhor, senhor, desempatar o jogo.

CARLOTA

( A Marturina) Você vai ver.

MARTURINA

( A Carlota) Escuta só.

CARLOTA

( A Don Juan) Fala.

MARTURINA

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( A Don Juan) Diga.

DON JUAN

( Embaraçado, falando às duas. Seus gestos se referem, sempre dubiamente, às duas. Vai se dirigindo a uma e outra todo o tempo. ) Que é que vocês querem que eu diga? Ambas garantem que eu lhes prometi casamento. Mas será que nenhuma das duas sabe o que é, ou significa, uma promessa, sem que eu tenha que explicar? Por que me obrigar – sinto-me bem constrangido! – a repetir tudo que já te disse anteriormente? Se realmente me comprometi, você não está suficientemente segura para fazer pouco, ou até mesmo rir das pretensões da outra? Por que se preocupar à toa com a ilusão alheia? Admito mesmo, o que acho até bem ofensivo, que se preocupe com o futuro imediato – se vou, ou não vou, cumprir minha promessa. Discursos, explicações, palavras – isso em nada adianta. Se você crê em minha promessa, nenhuma repromessa é necessária. Se já não crê, que adianta eu te milprometer? Não grito alto teu nome porque a outra poderá frustrar nossa felicidade. Quero que você fique em paz. No dia de nosso casamento você poderá se rir da pretensão da outra. Lamentar que ela tenha sido tão tola.

Cumprir, não falar – o fim feliz confirmará minha promessa. ( Baixo, para Marturina) Deixe ela acreditar que é ela; não vai atrapalhar. ( Baixo, para Carlota) A coitada se ilude. Vai ficar calma.

( Baixo, para Marturina) Eu te adoro. ( Baixo, para Carlota) Eu sou todo teu. ( Baixo, para Carlota) Nem posso olhar as outras, desde que te vi. ( Baixo, para Marturina) A mais linda é feia, perto de ti.

( Alto) Bem, tenho que tomar algumas providências. Mas dentro de quinze minutos estarei de volta.

( Sai).

CENA V

Carlota, Marturina e Leporelo

CARLOTA

( A Marturina) Como você vê, sou a que ele ama.

MARTURINA

( A Carlota) Como você não vê, ele vai casar comigo.

LEPORELO

Ah, pobres meninas, tenho pena de ver tanta inocência. Não posso agüentar ver vocês arrastadas para a infelicidade. Creiam-me, uma e outra ( imita um pouco a mímica dúbia de Don Juan); não se deixem enganar pelos discursos que lhes fazem, e continuem vivendo em sua aldeia. No seu mundo. O mundo não vale a sua aldeia.

CENA VI

Don Juan, Carlota, Marturina e Leporelo

DON JUAN

( No fundo, à parte) Gostaria muito de saber por que Leporelo não me acompanha.

LEPORELO

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( Às mulheres) Esse meu patrão é um salafrário. Está tentando apenas abusar de vocês, como já abusou de tantas outras. Casa com todas, com a humanidade inteira. ( Vê Don Juan) Isso é falso, completamente falso. A qualquer um que lhes vier com essa infâmia vocês têm que reagir dizendo que está espalhando uma deslavada mentira. Não é verdade que meu senhor case com todas, não tem nada de salafrário, não tem a menor intenção de enganá-las, e jamais enganou ninguém. Ah!, olha, aí está ele. Perguntem a ele mesmo.

DON JUAN

( Olhando firme para Leporelo e suspeitando do que ele falou) O que é que foi?

LEPORELO

Senhor, como o mundo é cheio de maledicentes, eu estava procurando me adiantar a eles.

Ensinava às raparigas as coisas malévolas que poderiam dizer a seu respeito, e como deveriam reagir a essas safadezas. Não acreditando em nada do que ouvirem, claro, e dizendo ao mentiroso o que ele é.

DON JUAN

O que é que ele é?

LEPORELO

Um mentiroso.

DON JUAN

Leporeeelo!

LEPORELO

( À Carlota e Marturina) Mocinhas, podem confiar, eu lhes dizia, meu senhor é um homem de palavra!

DON JUAN

Ehh!

LEPORELO

Só os difamadores de sempre...

CENA VII

Don Juan, La Ramée, Carlota,

Marturina e Leporelo

LA RAMÉE

( Baixo, a Don Juan) Don Juan, venho avisá-lo de que o ar aqui nesta região não está muito bom para o senhor.

DON JUAN

Como assim?

LA RAMÉE

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O senhor está sendo procurado por doze homens a cavalo. Devem chegar a qualquer momento; não sei como conseguiram localizar onde o senhor estava. Eu soube por um camponês português que foi interrogado por eles e ao qual descreveram exatamente o senhor. O tempo é curto – a cada minuto que o senhor ficar aqui o perigo aumenta.

CENA VIII

Don Juan, Carlota, Marturina e Leporelo

DON JUAN

( A Carlota e Marturina) Um negócio urgentíssimo me obriga a partir; mas não esqueço de modo algum a palavra que empenhei; e amanhã mesmo mandarei notícias minhas. ( Carlota e Marturina se afastam)

CENA IX

Don Juan, Leporelo

DON JUAN

Como a jogada é desigual preciso usar um estratagema que evite a desgraça que se aproxima. Você, Leporelo, vestirá as minhas roupas e eu...

LEPORELO

Está brincando, meu senhor. Seria até desrespeito morrer nas suas roupas.

DON JUAN

Depressa, vamos. Não é um desrespeito – é uma honra que te concedo. Afortunado o servo que pode atingir a glória de morrer por seu senhor.

LEPORELO

Agradeço-lhe pela honra que me concede. ( ) Mas, meu Deus, se devo morrer, pelo menos dá-me a graça de morrer como eu mesmo.

ATO III

UMA FLORESTA, PRÓXIMA DO MAR, NÃO LONGE DA ALDEIA.

CENA I

Don Juan, em hábito de campo,

Leporelo, vestido de médico.

LEPORELO

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Deve concordar, senhor, que eu tinha razão – desta forma estamos, um e outro,

maravilhosamente disfarçados. Seu primeiro projeto não ia funcionar bem, e assim estamos mais irreconhecíveis do que apenas trocando nossas roupas.

DON JUAN

É verdade, rapaz, em matéria de ridículo nunca vi nada tão magnífico. Onde você arranjou esse traje?

LEPORELO

Era de um velho médico que teve que o empenhar para comer. Me custou um saco de dinheiro. Esta roupa, o senhor sabe, dá consideração e prestígio. Todo mundo que passa por mim me cumprimenta e algumas pessoas até me consultam sobre suas mazelas.

DON JUAN

Como assim?

LEPORELO

Cinco ou seis camponeses pediram que eu tratasse deles – cada um com doença diferente.

DON JUAN

E você lhes explicou que não entendia nada de doenças. Confessou que era apenas um farsante de passagem.

LEPORELO

Eu? De modo algum. Acredito piamente que o hábito faz o monge. Discursei sobre cada uma das doenças, e a cada um dos doentes prescrevi os bálsamos e ungüentos que achei condizentes.

DON JUAN

E que remédios foram esses?

LEPORELO

Nem me lembro. Fui dizendo ao acaso. E acho que seria muito engraçado se todos ficassem bons e viessem aqui, saltitantes, me beijar a mão.

DON JUAN

E por que não? Por que você não poderia obter os mesmos resultados e os mesmos agradecimentos que os outros médicos obtêm? Eles não contribuem mais do que você para a cura dos doentes – tudo que fazem é um jogo de cena. E recebem a glória de curas extraordinárias atribuindo a seus remédios o que vem dos mistérios do acaso.

LEPORELO

Como, senhor, não acredita sequer na medicina?

DON JUAN

É uma doença como outra qualquer.

LEPORELO

O senhor acha? Não crê nem nos laxativos, nem nos diuréticos, nem nos vomitórios?

DON JUAN

Deveria acreditar?

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LEPORELO

O senhor tem uma alma realmente desacreditada. Pois eu já vi laxativos produzindo resultados com grande fragor. Milagres que converteram os espíritos mais incrédulos. Eu próprio, não tem três semanas, sou eu quem lhe falo, assisti a um efeito maravilhoso.

DON JUAN

Foi? Como foi?

LEPORELO

Havia um homem que já estava agonizando há mais de uma semana. Ninguém sabia mais o que lhe receitar. Nenhum remédio mais surtia efeito. No fim alguém resolveu lhe dar um vomitório.

DON JUAN

E ele saltou da cama, vivo!

LEPORELO

Não. Morreu.

DON JUAN

Efeito admirável.

LEPORELO

O senhor não acha? O homem estava tentando morrer há mais de uma semana. Tomado o remédio, morreu de uma assentada. O senhor já viu algo mais eficaz?

DON JUAN

É, pensando bem...

LEPORELO

Mas vamos deixar a medicina – não adianta nada, o senhor não acredita mesmo – e tratar de outras coisas. Acho que este hábito me aguça a inteligência e me dá vontade de discutir com o senhor. Lembre-se de que o senhor me autorizou qualquer discussão, me proibindo apenas restrições e censuras.

DON JUAN

Pois bem!

LEPORELO

Gostaria muito de conhecer seu pensamento a fundo. O senhor não acredita no Céu?

DON JUAN

Salta essa.

LEPORELO

Bom... E no inferno?

DON JUAN

Eh! Eh!

LEPORELO

( À parte) Vide resposta anterior. ( Alto) E o diabo, por favor?

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DON JUAN

Bem, bem...

LEPORELO

( À parte) Acho que quer dizer salta essa também. ( Alto) Crê em outra existência?

DON JUAN

Ah! Ah! Ah!

LEPORELO

É, o senhor me parece um homem difícil de converter. Bom, me diz aqui, qual é sua opinião sobre almas penadas?

DON JUAN