Dona Rosita, A Solteira por Federico García Lorca - Versão HTML

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DONA ROSITA, A SOLTEIRA

OU

A LINGUAGEM DAS FLORES

FEDERICO GARCIA LORCA

PERSONAGENS

DONA ROSITA

A AMA

A TIA

1 ª MANOLA

2 ª MANOLA

3 ª MANOLA

1 ª SOLTEIRONA

2 ª SOLTEIRONA

3 ª SOLTEIRONA

MÃE DAS SOLTEIRONAS

1 ª AYOLA

2 ª AYOLA

O TIO

O SOBRINHO

O CATEDRÁTICO DE ECONOMIA

DOM MARTIN

O RAPAZ

DOIS CARREGADORES

UMA VOZ

PRIMEIRO ATO

Cômodo abrindo para uma estufa.

TIO

E minhas sementes?

AMA

Estavam aí.

TIO

Pois não estão mais.

TIA

Heléboro, brinco-de-princesa, crisântemos, Luís Passy arroxeada, altair branca e prateada,

com pontas cor de heliotrópio. . .

TIO

Vocês precisam cuidar das flores!

AMA

Se o senhor está dizendo isso por minha causa. . .

TIA

Cale a boca. Não responda.

TIO

Estou dizendo para todos. Ontem encontrei as sementes da dália pisadas no chão (Entra na

estufa.) – Vocês não fazem idéia do que é minha estufa. Desde 1807, quando a condessa de

Wandes obteve a rosa musguenta, nenhuma pessoa mais em Granada conseguiu outra, a não

ser eu. Nem o botânico da Universidade! É preciso que vocês tenham mais respeito a minhas

plantas!

AMA

Pois então eu falto com o respeito a elas?!

TIA

Silêncio! Dos dois, não sei qual o pior.

AMA

Está bem. Mas não sou eu quem diz que de tanto regar as flores, e com tanta água pelos

quatro cantos, acaba pulando sapo no sofá!

TIA

Mas na hora de cheirá-las, você gosta bem, não é?

AMA

Eu, não senhora. Para mim, flor cheira a menino morto, freira no convento, altar de igreja. . .

Cheira a coisa triste. Eu sou capaz de trocar todas as rosas deste mundo por uma boa laranja

ou um marmelo bem maduro. Mas aqui nesta casa. . . é rosa pela direita, alfavaca pela

esquerda, e tome petúnias e anêmonas e salvas, e essas flores que estão na moda, esses tais de

crisântemos, despenteados que nem cabeleira de cigano! Ah, que vontade eu sinto de ver

plantados neste jardim uma cerejeira, um caquiseiro, uma boa pereira!

TIA

Para a senhora comer, não é?

AMA

Ué, quem tem boca. . . Como diziam na minha terra:

Boca serve é pra comer,

perna serve é pra dançar,

e há uma coisa da mulher. . .

(Interrompe-se e chega para perto da Tia, falando-lhe ao ouvido.)

TIA

Jesus! (Faz o sinal-da-cruz.)

AMA

São bobagens de lugar pequeno. . .

(Também faz o sinal-da-cruz.)

ROSITA

(Entrando rapidamente, com um vestido cor de rosa a 1900, de mangas de presunto e cheio

de fitas.) – E meu chapéu? Onde está meu chapéu? Já deram as trinta badaladas em São Luís!

AMA

Botei em cima da mesa.

ROSITA

Pois não está lá, não. (Procuram.)

(Sai a Ama.)

TIA

Você olhou no armário?

(Sai a Tia.)

AMA

(Entrando.) – Não encontrei, não.

ROSITA

Será possível que ninguém saiba onde está meu chapéu?

AMA

Bote aquele azul, com margaridas.

ROSITA

Você está louca?

AMA

Mais louca anda você.

TIA

(Voltando.) – Pronto, olhe ele aqui.

(Rosita pega e chapéu e sai correndo.)

AMA

Essa menina quer tudo voando. Hoje, ele já está querendo que seja depois de amanhã! Solta

as asas e ninguém pode pegá-la. Quando ela era pequenina, eu tinha de lhe contar todo santo

dia a história de quando ela fosse velha: “Minha Rosita já está com oitenta anos. . .” E assim

tudo mais. Quando foi que a senhora viu Rosita sentada, fazendo encaixe de lançadeira,

fazendo frivolité ou festonné, desfiando a linha para bordar um corpete?

TIA

Nunca.

AMA

Até parece que tem bicho-carpinteiro!

TIA

Quem sabe se você não está enganada?

AMA

Se eu me enganasse, a senhora não teria ouvido nada de novo.

TIA

É verdade que eu jamais quis contrariar Rosita. Quem teria coragem de afligir uma menina

que não tem pai nem mãe?

AMA

Nem pai nem mãe nem sino que toque tantantan, mas que tem um tio e uma tia que valem um

tesouro! (Abraça a Tia.)

TIO

(Lá dentro.) – Isto é o cúmulo!

TIA

Maria Santíssima!

TIO

Pisarem minhas sementes, vá lá, mas o pé de rosa de que eu gosto mais, com as folhinhas

quebradas, isso também não! A rosa de que eu gosto mais ainda do que da musguenta, da

peluda, da pomponiana, da damascena, do que da própria rosa selvagem da Rainha Isabel!

Tia.) – Venha, venha aqui e veja .

TIA

O pé está partido?

TIO

Não, não lhe aconteceu nada demais, mas podia ter acontecido

AMA

Ah, que susto!

TIO

Eu gostaria de saber: quem foi que derrubou esse vaso?

AMA

Não me olhe assim desse jeito!

TIO

Fui eu, então?

AMA

E não há gatos, e não há cachorros, e não há golpes de vento que entram pela janela?

TIA

Ande, vá varrer a estufa.

AMA

Puxa, mas nesta casa não se deixa nem uma pessoa falar!

TIO

(Entrando.) – É uma rosa que você nunca viu em sua vida! Uma surpresa que eu lhe preparei.

É incrível! Você conhece, não é? A “rosa declinata”, de capulhos caídos. . . E a “rosa

inermis”, que não tem espinhos, hein? Que maravilha! Nem um espinhozinho! E a

“mirtifólia”, que veio da Bélgica? E a “sulfurata”, que brilha na escuridão? Pois esta aqui

vence a todas pela raridade! Os botânicos lhe deram o nome de “rosa mutabilis”, quer dizer,

volúvel, que vive mudando de cor. . . Aqui neste livro tem a descrição e a figura, olhe só!

Abre o livro.) De manhã ela é vermelha, à tarde fica branca, e à noite se desfolha. . .

De manhã cedo, ao abrir-se,

rubra como sangue está.

O orvalho não se aproxima,

tem medo de se queimar.

Aberta no meio-dia,

é forte que nem coral.

O sol chega até os vidros

para vê-la relumear.

Quando nos ramos começam

passarinhos a cantar

e já desfalece a tarde

sobre as violetas do mar,

torna-se branca, do branco

de um rosto feito de sal.

Quando a noite vem soprando

alva trompa de metal,

quando as estrelas avançam,

e os ventos vão recuar,

no limite da escureza

principia a desfolhar-se. . .

TIA

Já deu flor?

TIO

Deu uma, que está desabrochando.

TIA

Dura um só dia?

TIO

Um só. Mas esse dia, eu quero passar junto dela, para ver como embranquece.

ROSITA

(Entrando.) – Minha sombrinha!

TIO

A sombrinha dela.

TIA

(Gritando.) – A sombrinha!

AMA

(Aparecendo.) – Está aqui a sombrinha!

(Rosita pega a sombrinha e beija os tios.)

ROSITA

Que tal?

TIO

Um primor.

TIA

Não há outra igual!

ROSITA

(Abrindo a sombrinha.) – E agora?

AMA

Pelo amor de Deus, feche essa sombrinha! Não se faz isso dentro de casa, dá azar!

Pela roda de São Bartolomeu!

Pela varinha de São José!

Pelo santo ramo de louro,

vai-te embora, capeta,

pelas quatro esquinas de Jerusalém!

(Todos riem. Sai o Tio.)

ROSITA

(Fechando a sombrinha.) – Pronto!

AMA

Não faça mais isto! Caar. . . amba!

ROSITA

Ui!

TIA

Que é que você está dizendo?

AMA

Não acabei de dizer, não senhora!

ROSITA

(Saindo, às gargalhadas.) – Até logo, até logo!

TIA

Com quem é que você vai?

ROSITA

(Com a cabeça aparecendo.) – Com as manolas.

AMA

E com o noivo.

TIA

Mas ele não estava ocupado?

AMA

Não sei qual dos dois me agrada mais, ela ou ele. (Senta-se a Tia, e começa a fazer renda de

bilro.) – Um par de priminhos desses que a gente tem vontade de colocar na prateleira de

doces, e se um dia eles morressem (Deus me livre!), embalsamar e botar numa redoma de

cristal e neve. . . De qual deles a senhora gosta mais? (Põe-se a limpar.)

TIA

Gosto de todos dois, como sobrinhos.

AMA

Dela pelos bonitos olhos, dele pelos olhos bonitos. . .

TIA

Rosita foi criada por mim. . .

AMA

É exato. Mas eu é que não acredito nessa história de sangue. Para mim isso é amor. O sangue

corre dentro das veias, mas não se vê. A gente gosta mais de um primo em segundo grau que

está aí todos os dias, do que de um irmão que mora longe. Porque será, não sei.

TIA

Mulher, continue limpando!

AMA

Já vou. Nesta casa não deixam nem a gente abrir a boca! Vá uma pessoa criar para isto uma

menina bonita. Deixar seus filhinhos num casebre, tremendo de fome. . .

TIA

Não será de frio?

AMA

Tremendo de tudo, para um dia alguém lhe dizer: “Cale a boca!” Eu, como sou uma criada,

não posso fazer outra coisa senão me calar, e é o que eu faço. Não posso responder e dizer. . .

TIA

Dizer o quê?

AMA

Que a senhora pare com esses tiquitis desses bilros, senão minha cabeça vai

estourar de tanto tiquiti!

TIA

(Rindo.) – Vá ver quem está chegando aí.

(Silêncio, durante o qual se ouve o bater dos bilros.)

VOZ

Macelaaaa finaaaa da serraaaa!

TIA

(Falando sozinha.) – Carece comprar macela outra vez. Há ocasiões em que falta. . . Outro

dia eu compro. Trinta e sete, trinta e oito. . .

VOZ DO VENDEDOR

(Longe ) - Macelaaaa finaaaa da serraaaa!

TIA

(Colocando um alfinete.) – E quarenta.

SOBRINHO

(Entrando.) – Titia!

TIA

(Sem olhar para ele.) – Olá! Não quer sentar? Rosita já foi.

SOBRINHO

Foi com quem?

TIA

Com as manolas. (Pausa. Olhando para o Sobrinho.) – Há alguma coisa com vocês?

SOBRINHO

Há, sim senhora.

TIA

(Inquieta.) – Estou quase adivinhando. Tomara que eu me engane!

SOBRINHO

Não. A senhora leia.

TIA

(Lê.) – Aí está, era de se prever. Por isso é que eu fui contra o seu namoro com Rosita. Eu

sabia que mais cedo ou mais tarde você teria de ir embora com seus pais. Ora, ali pertinho!

São quarenta dias de viagem, daqui a Tucumã. Se eu fosse homem e moço te daria uma

bofetada!

SOBRINHO

Não tenho culpa de gostar de minha prima. A senhora pensa que eu vou satisfeito? Pelo

contrário, quero ficar aqui, e venho para isso.

TIA

Ficar?! Ficar?! Seu dever é ir-se embora. São muitos alqueires de terra, seu pai está velho.

Tenho de obrigar você a tomar o vapor. Mas você me deixa a vida amargurada. Quanto à tua

prima, nem quero falar. Você vai cravar uma flecha com laço de fita roxa no coração dela. . .

Agora ela ficará sabendo que os panos não servem só para fazer flores, servem também para

enxugar lágrimas!

SOBRINHO

Então, que é que a senhora me aconselha?

TIA

Que vás embora. Lembre-se de que seu pai é meu irmão. Aqui você não passa de um boa-

vida, passeando na praça, lá será um fazendeiro.

SOBRINHO

Mas eu queria tanto. . .

TIA

Casar? Está maluco? Só quando tiver seu futuro assegurado. E queria levar Rosita,

não é? Você teria de passar por cima de mim e de seu tio!

SOBRINHO

Isso é um modo de falar. Sei perfeitamente que não posso. Mas quero que Rosita fique me

esperando, porque eu volto logo.

TIA

Se você não se enfeitiçar por alguma moça de Tucumã. . . Antes minha língua tivesse ficado

presa no céu da boca, na hora em que eu consenti nesse noivado! Porque essa menina vai

ficar sozinha entre quatro paredes, enquanto você irá livre pelo mar a fora, por aqueles rios,

aqueles pomares de toranjas, e minha menininha aqui, todos os dias na mesma coisa, e você

por lá, a cavalo, de espingarda, caçando faisão!

SOBRINHO

Não há motivo para a senhora me falar dessa maneira. Dei minha palavra e hei de cumpri-la.

Por honra da palavra é que meu pai está na América, e a senhora sabe perfeitamente...

TIA

Cale-se.

SOBRINHO

Eu me calo, mas a senhora não confunda respeito com falta de brio.

TIA

(Com ironia andaluza.) – Desculpe, desculpe! Tinha me esquecido de que o senhor já é um

homem. . .

AMA

(Entrando, lacrimosa.) – Se fosse um homem, não iria embora!. . .

TIA

(Enérgica.) – Silêncio!

(A Ama continua a chorar, soluçando copiosamente.)

SOBRINHO

Bem, eu volto daqui a pouco. Diga isso a Rosita.

TIA

Não se preocupe. Os velhos é que têm de agüentar com os momentos difíceis.

(Sai o Sobrinho.)

AMA

Ah, coitadinha de minha menina! Coitadinha! Coitadinha! Esses homens de agora são assim!

Pois eu cá, mesmo que tenha de pedir esmola na rua, ficarei junto desta jóia. . . As lágrimas

entraram outra vez nesta casa! Ah, minha senhora! (Reagindo.) – Tomara que a serpente do

mar o engula!

TIA

Deus é grande!

AMA

Pelo gergelim,

pelas três santas perguntas

e pela flor da canela,

sua noite seja ruim

e pior sua colheita!

Pelo poço de São Nicolau,

encontre veneno no sal!

(Pega de um jarro de água e faz uma cruz no chão.)

TIA

Não rogue praga! Vá cuidar do seu serviço.

(Sai a Ama. Ouvem-se risadas. A Tia também sai.)

1ª MANOLA

(Entrando e fechando a sombrinha.) – Ai.

2ª MANOLA

(Fazendo o mesmo.) – Ai, que fresquinho.

ROSITA

(Fazendo o mesmo.)

Para quem são os suspiros

de minhas lindas manolas?

1ª MANOLA

Para ninguém.

2ª MANOLA

Para o vento.

3ª MANOLA

Para o moço que me ronda.

ROSITA

Que mãos irão recolher

os suspiros dessas bocas?

1ª MANOLA

A parede.

2ª MANOLA

Algum retrato.

3ª MANOLA

As rendas de minha colcha.

ROSITA

Também quero suspirar.

Ai, amigas! Ai, manolas!

1ª MANOLA

Quem os recolhe?

ROSITA

Dois olhos

que branca tornam a sobra.

Suas pestanas são vasos

onde se derrama a aurora.

E apesar de negros são

duas tardes com papoulas.

1ª MANOLA

Põe fitinha no suspiro!

2ª MANOLA

Ai!

3ª MANOLA

Ditosa és tu.

1ª MANOLA

Ditosa!

ROSITA

Não me enganam, pois me consta,

sobre vocês, um rumor. . .

1ª MANOLA

Rumores são saramagos. . .

2ª MANOLA

São estribilhos das ondas.

ROSITA

Eu vou dizer. . .

1ª MANOLA

Pois começa.

3ª MANOLA

Os rumores são coroas.

ROSITA

Granada. Rua de Elvira,

onde moram as manolas,

três ou quatro, que no Alhambra

vão passeando sempre sós.

Esta vestida de verde,

outra de malva, aquela outra

de corselete escocês

e fitas roçando o solo.

Garças, as que vão à frente;

a que as acompanha, pomba;

abrem pelas alamedas

musselinas misteriosas.

Mas, que escuridão no Alhambra!

Onde é que vão as manolas

enquanto sofrem na umbria

o repuxo como a rosa?

Namorados a esperam?

Sob algum mirto repousam?

E que mãos roubam perfumes

a seus dois caules redondos?

Ninguém com elas, ninguém:

duas garças e uma pomba.

Mas no mundo há namorados

que se escondem sob as folhas.

A catedral vai largando

à brisa o timbre dos bronzes.

Genil faz dormir seus bois,

Douro, suas mariposas.

Vem a noite, carregando

suas colinas de sombra.

Uma entremostra os sapatos

por entre rendas e adornos;

a maior seus olhos abre

quando a menor os recolhe.

Quem serão aquelas três,

busto em pé, e cauda longa?

Por que acenam com os lenços?

Onde é que irão a essas horas?

Granada. Rua de Elvira,

onde moram as manolas,

três ou quatro, que no Alhambra

vão passeando sempre sós. . .

1ª MANOLA

Deixa que o rumor envolva

Granada nas suas ondas.

2ª MANOLA

Nós temos noivos?

ROSITA

Nenhuma.

2ª MANOLA

Digo a verdade?

ROSITA

Sim, toda.

3ª MANOLA

Enfeitam rendas de escarcha

nossas camisas de noiva.

ROSITA

Mas. . .

1ª MANOLA

Gostamos é da noite.

ROSITA

Mas. . .

2ª MANOLA

Pelas ruas em sombra,

nós subimos no Alhambra,

nós três ou nós quatro, sós.

3ª MANOLA

Ai!

2ª MANOLA

Cala-te.

3ª MANOLA

Por quê?

2ª MANOLA

Ai!

1ª MANOLA

Ai Jesus, ninguém nos ouça!

ROSITA

Alhambra, jasmim de pena

por onde a lua repousa. . .

AMA

Menina, sua tia está chamando. (Muito triste.)

ROSITA

Você estava chorando?

AMA

(Dominando-se.) – Não. É que eu estou sentindo assim uma coisa. . .

ROSITA

Não me assuste. Que é que há?

(Sai, depressa, olhando para a Ama. Depois que ela saiu, a Ama começa a

chorar em silêncio.)

1ª MANOLA

(Alto.) – Que é que está acontecendo?

2ª MANOLA

Conte para a gente!

AMA

Fiquem quietas.

3ª MANOLA

(Baixo.) – Más notícias?

(A Ama leva-as para a porta e olha na direção em que saiu Rosita.)

AMA

Agora é que ela está sabendo!

(Pausa. Todas ficam à escuta.)

1ª MANOLA

Rosita está chorando. Vamos embora.

AMA

É melhor. Eu contarei a vocês. Agora deixem a menina. Podem sair pela portinha.

(Saem.)

(A sala fica vazia. Em um piano distante, tocam um estudo de Czerny.

Pausa. Entra o Primo; chegando ao centro, detém-se ao ver Rosita. Os

dois se quedam contemplando-se. O Primo aproxima-se e enlaça-a

pela cintura. Ela inclina a cabeça no ombro dele.)

ROSITA

Por que teus olhos traidores

com os meus se misturaram?

Por que tuas mãos trançaram

em minha cabeça flores?

Que luto de beija-flores

deste à minha juventude,

pois sendo norte e saúde

o teu calor e aparência,

rompe tua má ausência

cordas de meu alaúde?

PRIMO

(Levantando-se para um sofá vis-à-vis, onde se sentam.)

Prima, ai, ai, minha riqueza!

rouxinol entre a nevada,

conserva a boca cerrada

à imaginária frieza;

refreia tua estranheza,

que embora atravesse o mar,

a água tem de me emprestar

nardos de espuma e de calma

para refrescar minh’alma

quando eu comece a queimar.

ROSITA

Uma noite, adormentada

em meu balcão de jasmins,

vi baixar dois querubins

sobre a rosa enamorada;

ela tornou-se encarnada,

e branca era sua cor;

como delicada flor,

as pétalas incendidas

foram caindo, feridas

por esse beijo de amor.

Assim eu, primo inocente,

em meu jardim de begônias

dava ao ar minhas insônias

e minha alvura à corrente.

Terna gazela imprudente,

alcei os olhos, te vi

e em meu coração senti

agulhas estremecidas

que estão me abrindo ferias

sangrentas como aleli.

PRIMO

Prima, então não voltaria

para levar-te a meu lado

em barco de ouro equipado

com as velas da alegria?

Luz e sobra, noite e dia,

dentro em mim serás medalha.

ROSITA

Mas o veneno que espalha

amor n’alma sem ninguém,

de terra, de onda e vaivém

tecerá minha mortalha.

PRIMO

Quando meu cavalo lento

pastar grama com rocio,

quando a neblina do rio

turvar o muro do vento,

e quando o verão violento

puser o chão carmesim

e a escarcha deixar em mim

alfinetinhos de estrelas,

te juro que morro pelas

glórias de amar-te sem fim.

ROSITA

Anseio ver-te chegar

uma tardinha em Granada

com toda essa luz salgada

em nostalgia de mar;

limoeiro a amarelar,

jasmineiro dessangrado,

entre pedra enredado,

impedirão teu caminho

e nardos em redemoinho

endoidarão meu telhado.

Voltarás?

PRIMO

Volto, na certa!

ROSITA

E que pomba iluminada

me avisará da chegada?

PRIMO

A minha fé, de asa aberta.

ROSITA

Ficam bordando a coberta

das bodas os dedos meus.

PRIMO

Pelos diamantes de Deus

e os cravos de seu costado,

juro que volto a teu lado!

ROSITA

Adeus, primo!

PRIMO

Prima, adeus!

(Abraçam-se no sofá. Ouve-se o piano, longe. Sai o

primo. Rosita fica chorando. Aparece o Tio, que cruza a

sala até a estufa. Ao vê-lo, Rosita pega o Livro das

Flores, que está ao alcance da mão.)

TIO

Que é que você estava fazendo?

ROSITA

Nada.

TIO

Estava lendo?

ROSITA

Estava.

(Sai o Tio, lendo.)

De manhã cedo, ao abrir-se,

rubra como sangue está.

O orvalho não chega perto

tem medo de se queimar.

Aberta no meio-dia,

é forte que nem coral.

O sol chega até os vidros

para vê-la relumear.

Quando nos ramos começam

passarinhos a cantar

e já desfalece a tarde

sobre as violetas do mar,

torna-se branca, do branco

de um rosto feito de sal.

Quando a noite vem soprando

alva trompa de metal,

quando as estrelas avançam

e os ventos vão recuar,

no limite da escureza

principia a desfolhar-se. . .