É Proibido Fumar: Roteiro para longa-metragem por Anna Muylaert - Versão HTML

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Alberto Goldman

Governador do Estado de São Paulo

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Coleção Aplauso

O que lembro, tenho.

Guimarães Rosa

A Coleção Aplaus o, concebida pela Imprensa

Ofi cial, visa resgatar a memória da cultura

nacio nal, biografando atores, atrizes e diretores

que compõem a cena brasileira nas áreas de

cine ma, teatro e televisão. Foram selecionados

escritores com largo currículo em jornalismo

cultural para esse trabalho em que a história cênica

e audiovisual brasileiras vem sendo reconstituída

de ma nei ra singular. Em entrevistas e encontros

sucessivos estreita-se o contato en tre biógrafos e

bio gra fados. Arquivos de documentos e imagens

são pesquisados, e o universo que se recons-

titui a partir do cotidiano e do fazer dessas

personalidades permite reconstruir sua trajetória.

A decisão sobre o depoimento de cada um na pri-

meira pessoa mantém o aspecto de tradição oral

dos relatos, tornando o texto coloquial, como

seo biografado falasse diretamente ao leitor .

Um aspecto importante da Coleção é que os resul -

ta dos obtidos ultrapassam simples registros bio-

grá ficos, revelando ao leitor facetas que também

caracterizam o artista e seu ofício. Bió grafo e bio-

gra fado se colocaram em reflexões que se esten-

de ram sobre a formação intelectual e ideo ló gica

do artista, contex tua li zada na história brasileira.

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São inúmeros os artistas a apontar o importante

papel que tiveram os livros e a leitura em sua

vida, deixando transparecer a firmeza do pen-

samento crítico ou denunciando preconceitos

seculares que atrasaram e continuam atrasando

nosso país. Muitos mostraram a importância para

a sua formação terem atua do tanto no teatro

quanto no cinema e na televisão, adquirindo,

linguagens diferenciadas – analisando-as com

suas particularidades.

Muitos títulos exploram o universo íntimo e

psicológico do artista, revelando as circunstâncias

que o conduziram à arte, como se abrigasse

em si mesmo desde sempre, a complexidade

dos personagens.

São livros que, além de atrair o grande público,

inte ressarão igualmente aos estudiosos das artes

cênicas, pois na Coleção Aplauso foi discutido

o processo de criação que concerne ao teatro,

ao cinema e à televisão. Foram abordadas a

construção dos personagens, a análise, a história,

a importância e a atua lidade de alguns deles.

Também foram exami nados o relacionamento dos

artistas com seus pares e diretores, os processos e

as possibilidades de correção de erros no exercício

do teatro e do cinema, a diferença entre esses

veículos e a expressão de suas linguagens.

Se algum fator específico conduziu ao sucesso

da Coleção Aplauso – e merece ser destacado –,

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é o interesse do leitor brasileiro em conhecer o

percurso cultural de seu país.

À Imprensa Oficial e sua equipe coube reunir um

bom time de jornalistas, organizar com eficácia

a pesquisa documental e iconográfica e contar

com a disposição e o empenho dos artistas,

diretores, dramaturgos e roteiristas. Com a

Coleção em curso, configurada e com identida-

de consolidada, constatamos que os sorti légios

que envolvem palco, cenas, coxias, sets de filma-

gem, textos, imagens e palavras conjugados, e

todos esses seres especiais – que neste universo

transi tam, transmutam e vivem – também nos

tomaram e sensibilizaram.

É esse material cultural e de reflexão que pode

ser agora compartilhado com os leitores de

to do o Brasil.

Hubert Alquéres

Diretor-presidente

Imprensa Oficial do Estado de São Paulo

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Logotipo do filme

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Introdução

Roteiro do Filme É Proibido Fumar

O roteiro de É Proibido Fumar começou a nascer

em 2001, durante a experiência da filmagem do

meu trabalho anterior, Durval Discos e da alegria

que senti em mexer com certos elementos já

presentes neste primeiro filme, a saber: a músi-

ca, a dramaturgia tensa e as locações fechadas.

Decidi retrabalhá-los num próximo roteiro e

estas foram as primeiras sementes deste filme,

irmão do primeiro.

Mas (infelizmente) o fato de eu ter escolhido ele-

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mentos que me pareciam conhecidos não signifi-

cou uma simplificação do processo. Ao contrário,

o roteiro de É Proibido Fumar foi uma das expe-

riências criativas mais duras que já tive na vida.

Pra começar, escrevi 30 páginas que pareciam ter

muito ritmo e ambiente, mas que não tinham

rumo certo. Deixei-as na gaveta por mais de um

ano. E quando fui retomar a escrita, tudo aquilo

me pareceu fetal. Tratei de me concentrar na

construção da trama e acabei finalmente che-

gando na história.

Entrei em alguns editais com esse tratamento

e captei boa parte do dinheiro sem ainda estar

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satisfeita com o roteiro e principalmente com

seu final. Parecia que eu não tinha ainda alcan-

çado um nível de clareza quanto à história. Mais

tempo se passou até que fui selecionada para

participar do Laboratório de Roteiros Sesc em

Nogueira. Lá fui eu para o laboratório, bastante

insegura. E desesperada fiquei depois de levar

várias e diferentes surras de consultores vindos

de todas as partes do mundo. Um questionava a

profundidade da protagonista, o outro a verossi-

milhança dos diálogos, o outro o estilo, o outro

a verdade do projeto. E eu, lá no meio, ficando

cada vez mais insegura.

Até que o penúltimo consultor, o belga Chris

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Caps, com uma mão, me deu o tiro de misericór-

dia. A estrutura está falha. Vamos começar do

começo? Então, com a outra mão, ele me puxou

do abismo, quando me apresentou a teoria das

sequências, um modelo fixo de narrativa clássica

que previa não apenas as viradas de atos, mas

– muito mais que isso – prognosticava a constru-

ção do ritmo da história antes mesmo que ela

começasse a ser escrita.

Ele nem sequer criticou o roteiro, mas me en-

sinou este modelo e a partir dele ajudou a re-

construir a mesmíssima história, mas com uma

cadência totalmente diferente, que finalmente

me deixou segura para avançar.

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Ao voltar para casa, não tive dó em jogar fora

o roteiro anterior e começar a reestruturá-lo do

zero, mesmo mantendo o enredo intacto. Novos

personagens nasceram, novas cenas surgiram. E,

a partir desse novo ritmo que o filme tomara,

finalmente encontrei seu sentido e direção e,

consequentemente, o final do filme.

A partir dai, todo o trabalho foi apenas detalha-

mento e aprofundamento das cenas. Especial-

mente quando a equipe entrou e começamos a

detalhar como a história seria contada visualmen-

te, através de fotografia, cenário e figurino. E,

claro, com a entrada da inteligência e da criati-

vidade dos atores Gloria Pires e Paulo Miklos – e

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também de todos os coadjuvantes – tudo cresceu,

mudou, saiu do papel para virar realidade.

Ao final do processo, senti a alegria de ir para

a ilha com a sensação de que a história estava

contada sem furos. E então todo o processo

começou de novo. Como de costume, cenas mu-

daram de lugar, blocos caíram, diálogos foram

alterados, sentidos foram alterados sempre em

detrimento do ritmo do filme. Afinal, esta foi,

para mim, a grande lição deste processo. Para

ser mito, a escrita de um roteiro tem que ser,

antes de tudo, música.