Educação para Valores por Varios - Versão HTML

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Um Contributo para a Literacia Social

Índice

05

Prefácio

07

O Lugar dos Valores na Educação

uma Aprendizagem Social

07

Introdução

14

O Valor dos Valores – Entre Mudança e Permanência

21

A Socialização e a Transmissão de Valores

33

Os Valores e a Construção de Sentido

41

Dez Anos de Valores em Portugal

41

Introdução

43

Caracterização das Amostras

47

Conjugalidade e Parentalidade

51

Individualismo

53

Objectivos de Vida Essenciais

55

Hierarquia de Valores

58

Confiança e Decisões Morais

60

Valores com Futuro

61

Conclusões

65

A Aprendizagem Experiencial

65

Introdução

66

Aprendizagem Experiencial

68

Princípios Básicos da Aprendizagem Experiencial

71

O Ciclo de Aprendizagem Experiencial

73

Estilo e Espaço de Aprendizagem

75

Condições Necessárias para a Aprendizagem Experiencial

76

Aprendizagem Experiencial em Equipas

78

A Aplicação da Metodologia de Aprendizagem Experiencial:

Vantagens, Possíveis Limitações e Directrizes para

uma Aprendizagem Eficaz

80

Investigação no Âmbito da Aprendizagem Experiencial:

Validação e Suporte desta Abordagem

81

Conclusões

87

A Avaliação da Educação para Valores

nos Sistemas de Ensino: a Experiência Inglesa

87

Introdução

88

A Educação para a Cidadania (EC) em Inglaterra

90

A Avaliação da EC através de CELS

95

Em Conclusão: Considerações acerca da Avaliação

de Inovações Curriculares

101

A Gestão do Conhecimento

e a Centralidade dos Valores para Educação

101

Que Valores para a Educação

103

Uma Visão Empírica sobre o Actual Sistema Educativo

105

Aplicar a Gestão do Conhecimento à Escola

107

O Desafio

Prefácio

Marcando o lançamento do primeiro Programa Europeu de Literacia Social

para Crianças – o LED on Values – a presente publicação visa oferecer aos

diversos públicos deste Programa um recurso de aprofundamento e reflexão

sobre o tema da Educação para Valores.

Os artigos constantes desta publicação são textos originais escritos pelos

respectivos autores – destacadas individualidades na investigação, docência,

governação e consultadoria nas áreas da Educação, Formação e Gestão –

por ocasião das suas comunicações no seminário promovido pelo iLIDH a 30

de Junho de 2009, na Universidade Católica Portuguesa.

A receptividade que estas comunicações tiveram junto dos mais de 180 par-

ticipantes, entre os professores, directores de escolas públicas e privadas,

representantes de autarquias, investigadores e empresários presentes no

evento, assinalaram a relevância de se proceder à publicação destes artigos.

A publicação desta obra em eBook, disponível para todos e de qualquer lugar,

reforça a intenção do iLIDH e do LED on Values de disponibilizar conhecimento

que apoie o urgente movimento de reflexão-acção em torno de abordagens

à Educação para Valores em contexto escolar.

É o sincero desejo do iLIDH e dos autores que generosamente ofereceram o

seu conhecimento e esforço na produção destes artigos, que este livro seja

colocado ao serviço da modernização e humanização do ensino em Portugal

e na União Europeia, abrindo um espaço de reflexão e discussão sobre a

urgência e relevância dos Valores nos processos de ensino e aprendizagem.

Autores:

David Kerr, Mário Henriques, Joana Lopes, Paulo Cardoso do Amaral, João Lameiras,

Pedro Almeida, Lourenço Xavier de Carvalho, Roberto Carneiro

Coordenador:

Lourenço Xavier de Carvalho

ISBN: 978-989-96575-0-2

5

6

O LUGAR DOS VALORES

NA EDUCAÇÃO

UMA APRENDIZAGEM SOCIAL

Roberto Carneiro

“No one would have any reason to live, if they didn’t have something

that was worth dying for”

A. Giddens

INTRODUÇÃO

Neste artigo abordaremos os sistemas de valores e as suas formas de trans-

missão, sobretudo pela educação, numa dimensão marcadamente social.

Isto é, não nos ocuparemos predominantemente da vertente normativa dos

valores, nem dos sistemas axiológicos que informam as noções de bem e de

mal nas nossas sociedades contemporâneas.

Por isso, não é nosso propósito investigar (método investigativo) quais são os

valores “superiores” que se impõem pela razão a uma sociedade que neces-

sita de estabilidade e que regem o exercício da liberdade responsável, por

oposição ao império do mero “capricho”. Nem é nosso mandato proceder ao

método avaliativo que procede à ponderação de uma hierarquia dos melhores

valores para uma determinada sociedade.

Tão pouco nos preocuparemos com o método descritivo que procura analisar

o que as pessoas efectivamente consideram como sendo valor ou aquilo que

habita as suas representações mentais.

7

A URGÊNCIA DE EDUCAR PARA VALORES

Tomaremos por pressuposto que o homem é um ser moral1 e que essa pro-

pensão para a distinção entre o bem e o mal é parte indissociável da natureza

humana. Assim sendo, a aprendizagem dos valores na esfera das instâncias

básicas de socialização é componente básica da sua sobrevivência como ser

moral, ou seja, como espécie culturalmente apta a extrair sentido da existên-

cia e a construir significado a partir da vida em comum.

Neste particular, revisitamos as grandes tradições medievais, aristotélica e

tomista, segundo as quais a virtude fundamenta-se não apenas no que a natu-

reza nos dá como no seu aperfeiçoamento continuado. Afastamo-nos, todavia,

da tese da perfectibilidade absoluta de Kant que sustenta o imperativo cate-

górico, doutrina que separou integralmente a moral e a natureza com base no

entendimento de que o bem resulta da imposição da vontade sobre a natureza.

Colocado o problema nestes termos há que reconhecer estarmos defrontados

com interessantes e novos desafios de uma sustentabilidade social baseada

numa ordem de valores, tendo por pano de fundo uma sociedade que sofre

uma vertiginosa mutação.

Dito isto, seria no mínimo estranho, quando não incompreensível, que neste

artigo ignorasse – ou sequer subalternizasse – o quadro de crise mundial

que caracteriza o momento actual. Onde se encontram as causas últimas da

crise que a todos preocupa? Como explicar o estado caótico a que chegou a

ordem económica e financeira internacional? Quais as reais determinantes do

colapso dos mercados que ditavam até recentemente a marcha do planeta?

• Ganância excessiva nos sectores financeiros?

• Imprudência no crédito à habitação (sub-prime)?

• Especulação financeira e económica sem criação de valor?

• Pressão para maximização de lucros a curto prazo sem cuidar dos impactos

sobre a sociedade e os stakeholders a longo prazo?

• Colapso dos sistemas de governação?

• Insuficiente regulação dos mercados financeiros e económicos?

• Ausência de políticas públicas adequadas?

• Comportamentos censuráveis dos gestores, incluindo enriquecimento

fácil e ilícito?

1

“By a moral sense I mean an intuitive or directly felt belief about how one ought to act when one

is free to act voluntarily (that is, not under duress): sympathy, fairness, self-control, and duty”.

Wilson, J.Q. (1993)

8

O LUGAR DOS VALORES NA EDUCAÇÃO _ UMA APRENDIZAGEM SOCIAL

• Corrupção generalizada e fraudulenta?

• Corrida crescente a consumos desenfreados?

...

A sorte do planeta tem-se jogado na “corda bamba” da crise e está generali-

zada a convicção de que das respostas estruturais que a ela se derem depen-

derá a prosperidade global da humanidade.

Efectivamente, nunca nas últimas décadas o sentimento de incerteza, de crise,

e de preocupação atingiu proporções planetárias tão cavadas.

E, bem entendidas as coisas, a razões fundamentais da crise encontram-se

associadas a causas bem mais simples de cotejar, a saber:

O abandono de padrões éticos na condução dos negócios

O colapso generalizado dos códigos de conduta

A recusa da “mão invisível” dos VALORES como único regulador definitivo

e sustentável dos mercados.

A redução drástica do nível de tensões no mundo pressupõe a criação de uma

ordem internacional menos injusta e menos desigual. Só uma partilha mais efec-

tiva dos padrões de prosperidade e um empenhamento solidário na reversão

das situações chocantes de infortúnio e de destituição poderão conter a belige-

rância, o terrorismo, a intolerância, as migrações forçadas e os crónicos dese-

quilíbrios económicos, demográficos e socio-culturais. O acesso à prosperidade

e ao bem-estar terá de deixar de ser um privilégio de uma minoria para passar a

direito inquestionável da maioria, senão de todos os concidadãos do mundo.

Na mesma linha de raciocínio, a consciência de que os consumos supérfluos

e o desperdício ostentatório são insustentáveis para um planeta finito é agora

uma evidência a exigir novos comportamentos económicos e a generalização

de práticas de auto-contenção e auto-regulação até agora ausentes na maio-

ria das sociedades industrializadas. Mercados, agentes económicos, empre-

sas e consumidores são convocados à adopção de comportamentos mais

responsáveis e “amigos” do ambiente natural cujo direito de fruição por gera-

ções vindouras não pode ser alienado.

Os nossos sistemas educativos não se podem dar ao luxo de viver alheados

dos grandes reptos postos por uma ordem internacional em desagregação.

Muito menos podem ignorar que as crises foram provocadas por graves que-

bras de padrões comportamentais por parte de pessoas investidas em lugares

9

A URGÊNCIA DE EDUCAR PARA VALORES

de responsabilidade de topo. Consequentemente, qualquer saída duradoura

da crise terá de se apoiar na formação de uma elite dirigente escorada em

valores pessoais e sociais acima de quaisquer vicissitudes e resilientes a

todas as seduções materiais.

Neste plano, a inovação principal a ter em consideração reside na recusa do

imperativo tecnológico – assente na falsa premissa de que a potência legitima

automaticamente o acto – em nome do imperativo ético que recusa liminar-

mente a prática do acto imoral ainda que a falácia tecnologia a propicie.

A importação para a esfera do social das teses libertárias da mão invisível

na economia de mercado não é inocente. A ideia de que todo o progresso

científico e tecnológico goza, por direito próprio, de auto-legitimação é uma

perigosa emanação desse novo culto2: perante a impotência dos imperati-

vos éticos grassa um imperativo tecnológico que sanciona automaticamente

a conversão de toda a potência em acto. Do mesmo passo, a disseminação

de uma cultura hedonista de curto prazo, feita de consumo material ilimitado,

desvalorizou o diferimento de gratificação que sempre esteve na base de

valores de solidariedade e de gratuitidade.

A realidade pós-moderna elegeu como seu símbolo maior a afirmação do

diverso (humano, cultural, religioso, ecológico, linguístico, antropológico).

Essa saudável libertação de um ordenamento social, cultural e económico

assente no paradigma de uma máquina industrial, em que todo o futuro se

explica por subordinação a condições iniciais pré-estabelecidas, conhece

uma deriva resultante da afirmação de um individualismo infrene. O fenótipo

acabou por prevalecer sobre o genótipo.

Na Europa, esta “descoberta” não é alheia ao desenvolvimento exponencial

do fenómeno da imigração. Continente tradicionalmente de emigração –

foi com origem nas descobertas e nos fluxos migratórios de europeus para

outras regiões que a história conheceu o trânsito para a modernidade – a

Europa, sobretudo a União Europeia, vê-se agora defrontada com questões

candentes de governabilidade dos novos contingentes de imigrantes e com a

gestão da diversidade.

São os ilegais norte-africanos em Espanha, os turcos na Alemanha, os alba-

neses em Itália, os asiáticos no Reino Unido, os ucranianos e brasileiros em

2

Veja-se, a este propósito, a última obra de Fukuyama sobre as alternativas de regula-

ção científica e tecnológica que se abrem ao futuro da humanidade:

Fukuyama, F. (2002).

10

O LUGAR DOS VALORES NA EDUCAÇÃO _ UMA APRENDIZAGEM SOCIAL

Portugal, e por aí fora. Assim, aos 6 milhões de cidadãos da UE residentes

noutros países membros, somam-se 13 milhões de imigrantes extracomunitá-

rios legalizados, ou seja 3,5% da sua população.

Bem se compreende que, posta perante a emergência de atitudes xenófobas

(naturalmente agravadas e alimentadas em ciclos depressivos da economia

europeia) como as da Frente Nacional em França, ou as subscritas por uma

nova geração de políticos populistas radicais na Áustria ou na Holanda, a

Europa busque afincadamente uma política comum de imigração (prevista, aliás,

no Tratado de Amesterdão e lançada pela presidência francesa recente). Essa

definição tem lugar em paralelo com a defesa de valores de civilização como a

dignidade inviolável da pessoa humana independentemente da sua condição,

raça, credo ou origem.

A diversidade multicultural e a afirmação de uma Europa genuinamente inter-

cultural são consequências inevitáveis do caldeamento de gentes que consti-

tui a sua textura humana.

Contudo, a diversidade legítima – que celebra a diferenciação em alta de pes-

soas, povos e culturas – redunda, muitas vezes, numa falsa sacralização do

individual, ao ponto de erigir como politicamente correcto um relativismo ético

feito de renúncia a valores comuns em nome da superioridade fragmentária

que emerge do exercício de uma liberdade pessoal sem contrapartida de res-

ponsabilidade comunitária.

Também o alastramento de um ambiente competitivo global sem descanso,

em todo o lugar e a todo o tempo – porventura, mais do que global o mundo

tornou-se essencialmente síncrono – leva o homo economicus a funcionar

numa lógica permanente de gladiador. A sobrevivência de uns implica o enfra-

quecimento, senão a derrota, de muitos na arena de combate.

Citemos, a este propósito, as palavras eloquentes de Alberoni3:

“Tudo é competição. Pelo território, pela comida, pelo sexo. E a com-

petição desenvolve-se não só entre indivíduos, mas também entre

sociedades organizadas como no caso dos insectos (...)

(...) Os estratagemas para se conseguir a sobrevivência assumem

todas as formas possíveis, e parecem-nos bizarros, geniais ou mons-

truosos (...)

(...) A teoria do gene egoísta, elaborada pelos sociobiólogos (Darwin),

3

Alberoni, F. (1993)

11

A URGÊNCIA DE EDUCAR PARA VALORES

diz que os indivíduos não agem para maximizar a própria utilidade

pessoal, mas para difundir os seus próprios genes. São os genes

que utilizam os indivíduos para sobreviver e se reproduzirem (...)

(...) Apenas sobrevivem os filhos de Caim.”

O culto da inovação como vantagem competitiva e modo de estar no ecos-

sistema planetário sobreleva todo e qualquer sentido de conservação do

passado. A destruição criativa, brilhantemente teorizada por Schumpeter há

quase um século, encontra hoje as condições ideais de afirmação tanto na

ordem empresarial como na da organização social.

Assiste-se, então, no Ocidente a uma substancial alteração do quadro de valo-

res. Como já escrevemos noutro local4:

“Na anterior sociedade, estável, simples e repetitiva, a memória domi-

nava o projecto, os princípios transmitiam-se imutáveis, os mode-

los exemplares conservavam-se como arquétipos. Era o primado da

estrutura sobre a génese.

Na nova sociedade, instável, inventiva e inovadora, o projecto sobre-

põe-se à memória, o futuro domina o passado, os modelos são

constantemente postos em causa. É o primado da génese sobre a

estrutura (...)

(...) A sociedade de indivíduos, feita de egos isolados e incapazes de

construir nexo entre si, é uma sociedade-mosaico a 24 horas, desin-

tegradora do espírito de comunidade e das bases do capital social.”

A explosão do individualismo pós-moderno assenta na expressão máxima da

liberdade pessoal. Como analisa A. Touraine5 assiste-se ao fim da sociedade e

ao nascimento do “sujeito” – antes o indivíduo era produzido pela sociedade,

nos seus comportamentos e no seu pensamento; agora o contrário é que

é verdade. O sujeito é o protagonista do novo paradigma, entendido como

alguém que procura criar-se a si próprio, que se forma «na vontade de esca-

par às forças, às regras, aos poderes que nos impedem de ser nós mesmos»

e na «vontade de ser actor da sua própria existência»: assiste-se ao ascenso

do individualismo radical. O indivíduo moderno escapa aos determinismos

sociais, na medida em que é um sujeito autocriador e totalmente soberano do

seu próprio destino.

4

Carneiro, R. (2001).

5

Touraine, A. (2005).

12

O LUGAR DOS VALORES NA EDUCAÇÃO _ UMA APRENDIZAGEM SOCIAL

Mas... o ascenso do individualismo requer, como contrapartida, a conquista da

auto-regulação ética, para evitar o retorno à selva da competição ilimitada e

destrutiva do próprio homem ( homo homini lupus 6). Este seria o maior desíg-

nio inovador dos sistemas educativos deste século como temperador estraté-

gico e moderador da gula imposta pelo hiper-individualismo pós-moderno.

Nestes termos, a fragmentação de valores não surge apenas como mero fenó-

meno conjuntural. O surgimento de uma nova ordem diversa e multicultural

gerou uma doutrina adversa à afirmação das instâncias básicas de socializa-

ção, ou seja, das instituições de enquadramento axiológico: estamos defron-

tados com uma questão estrutural e estruturante da sociedade.

No contexto do tema que nos importa desenvolver é a verdadeira “implosão”

da família, da escola, das igrejas, do Estado, das comunidades de pares e

de pertença, como “transmissores de valores, atitudes e comportamentos”,

sem que, em contrapartida, a sociedade organizada proponha uma alternativa

credível.

Os sinais de preocupação são inequívocos.

O discurso generalizado da cidadania é a prova de que, independentemente

do quadrante ideológico, ou de fé, em que cada um se situe, o vazio espiritual

não aproveita ao funcionamento estável da cidade.

É oportuno lembrar aqui J. Wilson7, “Values emerge from serious reflection

about why we insist upon judging, morally, events and people around us (...)

Rebuilding the basis of moral judgments requires us to take the perspective

of the citizen, but the citizen has gone to great lengths to deny that he has a

perspective to take”.

A harmonia da vida comunitária depende vitalmente da aceitação de normas

comuns de vida: aquilo que garante a sua continuidade e coesão, sobre-

pondo-se às forças centrífugas da concorrência.

Dificilmente se vislumbra solução para as magnas questões da nossa moderna

polis – exclusão, miséria, violência, anomia, solidão, criminalidade, guerra, ter-

rorismo, intolerância – sem a refundação de uma ordem sólida de valores e a

correlativa regeneração das instituições que, continuadamente, a sustentem.

Como bem afirmou Heidegger: “a época a que falta o fundamento pende

para o abismo” .

6

Hobbes, T. (1660).

7

Op. cit.

13

A URGÊNCIA DE EDUCAR PARA VALORES

O VALOR DOS VALORES

ENTRE MUDANÇA E PERMANÊNCIA

O paradoxo que confronta mudança e permanência está profundamente enrai-

zado na condição humana e nas suas sociedades de pertença.

Assim, por um lado, assistimos à emergência trepidante de uma nova ordem

mundial.

A economia consagra novas formas de criação de riqueza, de organização do

trabalho e de distribuição de rendimento, de exercício do poder multinacional,

de funcionamento dos mercados e de circulação dos capitais. Aos activos

tangíveis de outrora opõe-se a relevância sempre crescente do conhecimento

e do capital intelectual como novos motores das empresas.A sociedade,

intensamente multicultural e diversa, sanciona novos estilos e modos de vida,

expande as liberdades democráticas ao mesmo tempo que assiste ao declínio

de capital social e de confiança no seu seio.

Os media vivem uma transformação sem precedentes: é a ditadura do tempo

real e da instantaneidade em que prevalece o escrutínio permanente da vida

política e privada e em que a interactividade dos novos media e do multime-

dia transformou a relação entre consumidor e produtor.

A família encontra-se sob a pressão da gestão do tempo e de recursos escas-

sos, as mulheres entraram maciçamente no mercado de trabalho para serem

provedoras além de educadoras, e a instituição primária se defronta com agu-

dos problemas de estabilidade e de cumprimento da sua função reprodutora

(garantia do limiar de renovação da espécie).

O Estado conhece vastas fragilidades de governância e enfrenta graves pro-

blemas de eficiência e eficácia sobretudo quando “medidas” segundo a per-

cepção do cidadão. A configuração do Estado-Nação aparece enfraquecida

face a novas problemáticas e perante a pulsão para a transferência de pode-

res quer para o governo local, quer para o governo global (regional). Nesta

medida, o contrato social do pós-guerra encontra-se manifestamente ferido

de obsolescência pelas novas dinâmicas sociais e económicas.

Todavia, mau grado a escala sem precedentes das transformações em curso,

a pessoa humana permanece essencialmente a mesma. A uma pluralidade de

artefactos culturais, que vai surgindo em fase com as necessidades epocais

de cada tempo, subjaz uma intrínseca unidade da espécie humana ao longo

da história.

14

O LUGAR DOS VALORES NA EDUCAÇÃO _ UMA APRENDIZAGEM SOCIAL

O homo faber, com as suas culturas de utensilagem, não dispensa as culturas

de relação do homo socialis. As culturas de lazer do homo ludens são indis-

sociáveis das culturas de comunicação do homo mediaticus. e das culturas

de interconexão do novíssimo homo conectus. As culturas de apropriação e

acumulação do homo economicus complementam-se em confronto com as

culturas livres e simbólicas do homo figuralis. Em última análise prevalecem,

como atributo constante da sua natureza mais íntima, as culturas de interpre-

tação imanentes ao homo sapiens8 e à expressão pós-moderna das culturas

em rede vividas pelo homo resus.

Castells9, meticuloso analista das mudanças que são catapultadas pelas

novas tecnologias, designadamente a partir da generalização da internet, dedi-

cou grande parte do seu trabalho científico à caracterização da sociedade em

rede. Nesta estruturação inovadora do relacionamento humano e cultural, sob

a forma de reticulados abertos que não conhecem fronteiras espácio-tempo-

rais, importa-nos reflectir sobre a forte interdependência de comportamentos,

atitudes e valores num mundo onde as modas não são locais e os códigos de

conduta viajam instantaneamente pelo planeta.

Assim, se o focus dos valores continua a residir no mistério da consciência

humana os seus loci são hoje dispersos e não-hierarquizados. Reside aí, com

efeito, uma alteração substancial das condições de formação e de transfor-

mação da consciência humana, individual e colectiva.

Num mundo em rede, permanentemente interligado e submetido a forças de

intercomunicação irresistíveis, a consciência humana é também interdepen-

dente. Não há, pois, valores inteiramente privativos – todos os valores pesso-

ais se entrechocam e enriquecem mutuamente.

Eu sou tu e tu és eu!

O grau de interdependência é tal que o bem ou o mal que faço a mim próprio

acabo por impô-lo a todos os outros, e vice-versa. O horizonte da relação

joga-se em diversos planos assim como a existência humana, ela própria, se

desenrola em diversos tabuleiros.

Nos finais de 2001, no contexto de uma reflexão colectiva sobre os trágicos

acontecimentos de 11 de Setembro, em Nova Iorque10, foram postos em con-

8

Na feliz expressão de C. Lévi-Strauss trata-se de promover “le bricolage de sa propre

synthèse”.

9

Castells, M. (1999).

Castells, M. (2001).

10 IFF, International Futures Forum, St. Andrews, Escócia – Reino Unido

15

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Autores:

David Kerr

Mário Henriques

Joana Lopes

Paulo Cardoso do Amaral

João Lameiras

Pedro Almeida

Lourenço Xavier de Carvalho

Roberto Carneiro

A URGÊNCIA DE

EDUCAR PARA VALORES

Coordenador:

fronto dois “ciclos” alternativos relativos ao modo como a humanidade per-

cepciona a sua inserção no mundo (Figura 1

Lourenço Xavier de Carvalho

).

Figura 1. Dois “ciclos” alternativos. (Fonte: Internacional Futures Fórum (2001),

St. Andrews.

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