Efeitos hemodinâmicos da ventilação não invasiva com pressão positiva em pacientes com estenose... por Andre Moreira Bento - Versão HTML

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ANDRÉ MOREIRA BENTO

Efeitos hemodinâmicos da ventilação não invasiva

com pressão positiva em pacientes com estenose

mitral sintomática

Tese apresentada à Faculdade de Medicina

da Universidade de São Paulo para a

obtenção do título de Doutor em Ciências

Área de concentração: Cardiologia

Orientador: Prof. Dr. Luiz Francisco Cardoso

SÃO PAULO

2008

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Aos meus pais, Eurídice e Ana Maria, a base sob a qual até hoje me faço Ser.

Sempre e para sempre presentes em meus pensamentos.

Aos meus irmãos, Adriana, Fernando e Maria Augusta, pelo amor, carinho e apoio para atingir os meus ideais.

Ao Prof. Dr. Luiz Francisco Cardoso, mestre e companheiro, pelo apoio, incentivo, e todos os conselhos e ensinamentos transmitidos, não somente neste trabalho, mas durante todos estes anos de convívio.

Ao Dr. Luis Kajita, pelo apoio incondicional à realização deste trabalho e demonstração da aprimorada técnica na realização de cada procedimento.

Ao Prof. Dr. Max Grinberg, Diretor da Unidade de Cardiopatias Valvares, pelas observações sempre pertinentes no desenvolvimento desta obra e por manter abertos todos os caminhos para meu desenvolvimento científico.

Ao Prof. Dr. Eulógio Martinez Filho, Diretor do Serviço de Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista, pelos valiosos conselhos e sugestões.

Ao colega Dr. Marcelo Nigri, pela amizade e companheirismo durante esta jornada. Para sempre em minha lembrança.

Aos colegas da equipe de Cardiopatias Valvares, Dr. Guilherme Sobreira Spina, Dr. Flávio Tarasoutchi, Dr. Roney Orismar Sampaio, Dr. Eduardo Guiusti Rossi, Dra. Solange Desirre Avakian, Dr. Paulo de Lara Lavítola, Dr. Nelson Elias e Dra. Berta Paula Napchan Boer.

À secretária Monica Udo Junqueira Kondo e à técnica de pesquisa Rute Melo Diniz Ribeiro por todo seu apoio e cordialidade, durante meu percurso pela Unidade de Cardiopatias Valvares.

Ao Dr. Marcelo Park pelo auxílio na realização da análise estatística.

À Divisão de Enfermagem do InCor pelo respeito que dedicaram aos pacientes.

SUMÁRIO

Lista de Abreviaturas

Resumo

Summary

1. INTRODUÇÃO........................................................................................................... 1

1.1. Efeitos hemodinâmicos da ventilação com pressão positiva ........................... 4

1.2. Estenose Mitral ................................................................................................. 8

1.3. Motivos para a realização deste trabalho....................................................... 11

2. OBJETIVOS............................................................................................................. 13

3. MÉTODOS............................................................................................................... 15

3.1. Pacientes........................................................................................................ 16

3.2. Períodos de avaliação.................................................................................... 19

3.3. Técnica da realização das medidas hemodinâmicas e da

valvoplastia por cateter-balão........................................................................ 19

3.4. Características clínicas e laboratoriais antes do procedimento..................... 24

3.4.1. Classe Funcional ............................................................................... 24

3.4.2. Ritmo Cardíaco .................................................................................. 25

3.4.3. Ecodopplercardiograma..................................................................... 25

3.5. Análise Estatística.......................................................................................... 26

4. RESULTADOS......................................................................................................... 31

4.1. Avaliação das variáveis ao longo das condições estudadas.......................... 32

4.2. Análise da variação do volume sistólico da condição basal

para a condição CPAP 7 ................................................................................ 33

4.3. Análise da variação do volume sistólico da condição basal

para a condição CPAP 14 .............................................................................. 34

4.3.1. Curva de características operacionais ................................................ 36

5. DISCUSSÃO............................................................................................................ 38

5.1. Considerações Gerais.................................................................................... 39

5.2. Caracterização da casuística ......................................................................... 45

5.3. Considerações sobre os métodos.................................................................. 47

5.3.1. Quanto à análise estatística ............................................................... 47

5.3.2. Quanto à estratégia de ventilação...................................................... 48

5.4. Considerações sobre a evolução das variáveis ao longo das condições estudadas ..................................................................................................... 50

5.5. Considerações sobre a variação do volume sistólico .................................... 54

5.5.1. Variáveis Clínicas............................................................................... 54

5.5.2. Variáveis Ecodopplercardiográficas................................................... 56

5.5.3. Variáveis Hemodinâmicas.................................................................. 58

5.6. Implicações clínico-hemodinâmicas............................................................... 61

5.7. Limitações do estudo ..................................................................................... 66

6. CONCLUSÕES........................................................................................................ 68

7. ANEXOS .................................................................................................................. 71

8. REFERÊNCIAS ..................................................................................................... 106

LISTA DE ABREVIATURAS

BIPAP

dois níveis de pressão positiva em vias aéreas

CPAP

pressão positiva continua em vias aéreas

DDVE

diâmetro diastólico do ventrículo esquerdo ao ecodopplercardiograma FC

freqüência cardíaca

FEVE

fração de ejeção do ventrículo esquerdo ao ecodopplercardiograma

IC

índice cardíaco

NYHA

New York Heart Association

PAD

pressão arterial sistêmica diastólica

PAM

pressão arterial sistêmica média

PAPD

pressão arterial pulmonar diastólica

PAPM

pressão arterial pulmonar média

PAPS

pressão arterial pulmonar sistólica

PAS

pressão arterial sistêmica sistólica

POAP

pressão de oclusão da artéria pulmonar

PSVD

pressão sistólica do ventrículo direito pelo ecodopplercardiograma PVC

pressão de átrio direito

RVSI

resistência vascular sistêmica indexada

RVPI

resistência vascular pulmonar indexada

SaO2

saturação arterial de oxigênio

SvO2

saturação venosa central de oxigênio

VSI

volume sistólico indexado

RESUMO

Bento AM. Efeitos hemodinâmicos da ventilação não invasiva com pressão positiva em pacientes com estenose mitral sintomática [tese]. São Paulo:

“Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo”; 2008. 116p.

Introdução: O uso de pressão positiva contínua em vias aéreas (CPAP) causa modificações hemodinâmicas favoráveis em pacientes com insuficiência cardíaca.

Na presença de disfunção ventricular esquerda, mecanismos hemodinâmicos propostos associam seu uso ao aumento do débito cardíaco, através da redução do enchimento e da pressão transmural do ventrículo esquerdo. Estes efeitos talvez colaborem para o sucesso dessa terapia em pacientes com congestão pulmonar.

Entretanto, até onde extensa revisão bibliográfica nos permite afirmar, não foram estudados os efeitos hemodinâmicos do CPAP em pacientes com estenose mitral, etiologia comum de congestão pulmonar em alguns países em desenvolvimento.

Objetivos: Avaliar a resposta hemodinâmica dos pacientes portadores de estenose mitral sintomática durante o uso de CPAP. Métodos: Foram incluídos quarenta pacientes portadores de estenose mitral. Os critérios de exclusão foram: presença de disfunção ventricular esquerda, de outra valvopatia de grau moderado ou importante, de trombo intracavitário ao ecodopplercardiograma e de doença pulmonar obstrutiva crônica. Os pacientes foram avaliados em 3 condições diferentes: 1. condição basal, realizada ar ambiente; 2. uso de CPAP 7 cm H2O e 3. uso de CPAP 14 cm H2O. Foi realizada a medida de pressão arterial invasiva (aorta) e utilizado cateter de artéria pulmonar para a medida da pressão arterial pulmonar e débito cardíaco. Foram coletas amostras de gasometria arterial e venosa central. A variação percentual do volume sistólico (ΔVS) foi calculada tendo o valor na condição basal como 100% e foi correlacionada com as características clínicas, ecodopplercardiográficas, hemodinâmicas e gasométricas da condição basal. Os pacientes foram classificados em 3 grupos: grupo I - ΔVS ≤ -10%, grupo II

- ΔVS entre -9,9% e +9,9% e grupo III - ΔVS ≥ +10%. Resultados: Durante a aplicação do CPAP, freqüência cardíaca, pressão arterial sistêmica e pressão arterial pulmonar não variaram significativamente. Na segunda condição, a ΔVS se correlacionou com a pressão arterial pulmonar diastólica e média, pressão de oclusão de capilar pulmonar e gradiente transvalvar mitral ao cateterismo. A análise dos grupos não identificou qualquer variável capaz de distingui-los. No uso de CPAP 14cmH2O, a ΔVS se correlacionou positivamente com a classe funcional, pressão sistólica do ventrículo direito (ao ecodopplercardiograma), freqüência cardíaca, pressão arterial sistêmica sistólica, pressão arterial pulmonar sistólica, diastólica e média, pressão de oclusão da artéria pulmonar e gradiente transvalvar mitral ao cateterismo. Além disso, nesta condição, a ΔVS se correlacionou inversamente com o volume sistólico indexado e saturação venosa de oxigênio. A análise comparativa dos grupos evidenciou, no grupo III, valores significativamente superiores de pressão sistólica do ventrículo direito (ao ecodopplercardiograma), pressão arterial pulmonar sistólica, diastólica e média, pressão de oclusão da artéria pulmonar e gradiente transvalvar mitral ao cateterismo. Não houve variável capaz de distinguir o grupo I do II. Conclusão: O uso de CPAP aumentou o volume sistólico nos pacientes com estenose mitral de maior impacto clínico e hemodinâmico, caracterizados por maior limitação funcional, hipertensão pulmonar e gradiente transvalvar mitral e menor saturação venosa de oxigênio e volume sistólico indexado.

SUMMARY

Bento AM. Hemodynamic effects of positive pressure noninvasive ventilation in patients with symptomatic mitral stenosis [thesis]. São Paulo: “Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo”; 2008. 116p.

Background: Continuous positive airway pressure (CPAP) impacts hemodynamic changes in heart failure patients by impending cardiac filling and reduces cardiac afterload by reducing left ventricular transmural pressure. These effects may collaborate for the success of this therapy in patients with pulmonary congestion.

However, to your knowledge, no study has evaluated the hemodymanic effects of CPAP in patients with mitral stenosis, which is a common etiology of pulmonary congestion in some developing countries. Objectives: analyze the effects of CPAP

on hemodynamic parameters in patients with symptomatic mitral stenosis. Methods: Forty patients with symptomatic mitral stenosis were included. They were monitored by aorta pressure and the insertion of a pulmonary artery catheter. Hemodynamic and gasometrical data were collected in each study period. Patients were evaluated in three study periods. Baseline condition was during spontaneous breathing. We applied CPAP 7 cm H2O in the second period and 14 cm H2O in the last period of the study. Were excluded patients with left ventricular systolic dysfunction, other valvopathy more than mild, and left atrial thrombi assessed by echocardiography and patients with history or symptom of chronic obstructive pulmonary disease.

Percentage changes of stroke volume (ΔSV) were calculated with the values at baseline set as 100% and were correlated to clinical, ecocardiographic, hemodynamic and gasometrical data (at baseline). Patients were classified in group I if ΔSV was ≤ -10%, group II if ΔSV was between -9,9% and +9,9% or group III if ΔSV ≥ +10%. Results: During CPAP use, heart rate, systemic blood pressure and pulmonary artery pressure did not significantly change. At CPAP 7 cmH2O, ΔSV

correlated positively with baseline values of diastolic pulmonary artery pressure, pulmonary artery occlusion pressure and mean transmitral gradient. There was no variable capable to distinguish the groups. At CPAP 14 cmH2O, ΔSV correlated positively with functional class, pulmonary artery systolic pressure (measured by echocardiography), heart rate, systolic blood pressure, systolic pulmonary artery pressure, diastolic pulmonary artery pressure, pulmonary artery occlusion pressure and mean transmitral gradient. Not only, at CPAP 14 cmH2O, ΔSV correlated inversely to indexed stroke volume and central venous saturation. Responders (group III) had superior pulmonary artery pressure (measured by echocardiography), systolic pulmonary artery pressure, diastolic pulmonary artery pressure, pulmonary artery occlusion pressure and mean transmitral gradient. The comparison between groups I and II did not evidence any variable capable to distinguish them.

Conclusion: CPAP improved stroke volume in those with mitral stenosis with greater clinical and hemodynamic impact, characterized by higher functional limitation, pulmonary hypertension and mean transmitral gradient and lower central venous saturation and indexed stroke volume.

1. INTRODUÇÃO

INTRODUÇÃO

2

A ventilação não invasiva é definida como o uso de uma assistência ventilatória sem a utilização de próteses de vias aéreas como o tubo orotraqueal ou a traqueostomia. A ventilação é realizada através de máscaras que se fixam à face do paciente e aparelhos de ventilação que fornecem pressão positiva nas vias aéreas. Deste modo, diversas modalidades ventilatórias podem ser empregadas com esta técnica, sendo que duas são mais freqüentemente utilizadas. Uma delas, a pressão positiva contínua em vias aéreas (CPAP), consiste na aplicação de uma única pressão durante todo ciclo respiratório. Outra modalidade de ventilação, em dois níveis pressóricos (BIPAP), consiste na alternância de uma pressão positiva menor durante a expiração e uma pressão positiva maior durante a inspiração, oferecendo auxílio inspiratório e redução do trabalho respiratório.

A partir de 1930, surgiram as primeiras descrições da técnica e

benefícios do uso da ventilação não invasiva para pacientes com insuficiência respiratória de variadas etiologias1;2. A década de 60 trouxe novos horizontes para a ventilação com pressão positiva. Os avanços tecnológicos tornaram os ventiladores mais sofisticados e confiáveis. A crescente experiência do uso de INTRODUÇÃO

3

próteses para intubação orotraqueal e de traqueostomia tornou este procedimento padrão nas unidades de terapia intensiva para pacientes em insuficiência respiratória. Com isso, não tardaram em surgir descrições dos efeitos indesejáveis relacionados diretamente ao uso destas próteses3;4;5.

Além das complicações locais, secundárias à isquemia da mucosa traqueal, a agressão aos mecanismos de defesa pulmonar facilita a ocorrência de pneumonia nosocomial, a mais temida complicação relacionada à intubação orotraqueal6. Contudo, os efeitos indesejáveis descritos não representam suas únicas desvantagens, a intubação orotraqueal, por si só, traz a necessidade do uso de sedação e prolonga o tempo de internação em

unidade de terapia intensiva.

Na década de 1980, o uso de CPAP foi descrito com sucesso para o

tratamento da apnéia obstrutiva do sono7. Desde então, relatos do uso da ventilação não invasiva para o tratamento de insuficiência respiratória tornaram-se freqüentes. Este fato causou um impulso à utilização deste método e levou ao aperfeiçoamento das máscaras e dos ventiladores, que passaram a ser concebidos especialmente para este uso. Sua aplicação, baseada no racional de prover assistência ventilatória enquanto se evita o uso de intubação orotraqueal e suas complicações, ganhou reconhecimento e interesse científicos progressivamente maiores. Na insuficiência respiratória causada por exacerbação aguda de doença pulmonar obstruva crônica, a ventilação não invasiva é aceita como parte importante do tratamento, com comprovada redução de mortalidade associada ao seu uso8. Também no edema agudo dos pulmões8;9 e no paciente imunodeficiente com infecção INTRODUÇÃO

4

respiratória8, é aceita como terapia não farmacológica, e não apenas como medida de suporte.

Em pacientes com edema agudo dos pulmões, a estratégia de

fornecer a ventilação com pressão positiva, associado ao tratamento medicamentoso padrão, foi capaz de reduzir de modo significativo a mortalidade hospitalar e a necessidade de intubação orotraqueal9. O uso da ventilação não invasiva como medida temporária em pacientes com edema agudo dos pulmões faz sentido do ponto de vista clínico. As medidas farmacológicas, como o uso de diuréticos e vasodilatadores, requerem tempo para sua administração e para início de seus efeitos terapêuticos. Apesar de seus benefícios hemodinâmicos e pulmonares, a ventilação com pressão positiva, isoladamente, não é capaz de corrigir a causa de base do edema agudo dos pulmões (aumento da resistência vascular sistêmica, sobrecarga de volume e queda do débito cardíaco). Desta maneira, embora não deva ser vista como uma terapia definitiva, atua como mais uma arma importante no arsenal terapêutico disponível, principalmente na fase inicial do tratamento.

1.1. Efeitos hemodinâmicos da ventilação com pressão positiva

Além dos pacientes com quadro de insuficiência respiratória aguda, outras condições clínicas podem se beneficiar do uso da ventilação não invasiva. Inicialmente, estudos em animais demonstraram que o uso de CPAP

foi capaz de reduzir o volume diastólico final do ventrículo esquerdo10. Alguns anos mais tarde, estudos em humanos portadores de disfunção ventricular INTRODUÇÃO

5

esquerda evidenciaram que, ao elevar a pressão intratorácica, a ventilação com pressão positiva acarretou, agudamente, em aumento do débito

cardíaco11;12. Desta maneira, em portadores de insuficiência cardíaca grave descompensada, seu uso pode representar uma alternativa terapêutica interessante. Os inibidores da enzima de conversão de angiotensina são capazes de reduzir os sintomas e melhorar a sobrevida dos pacientes com insuficiência cardíaca. Estes agentes exercem seus efeitos benéficos, ao menos em parte, através da redução da pós-carga. Assim como estas

medicações, o uso de CPAP também reduz a pós-carga em pacientes com insuficiência cardíaca13. Naughton e colaboradores14 também mostraram, em pacientes com insuficiência cardíaca, que a elevação da pressão intratorácica causada pelo CPAP reduzia, significativamente, a pós-carga do ventrículo esquerdo. Neste estudo, o mecanismo responsável por este efeito foi a redução da pressão transmural (diferença entre a pressão sistólica do ventrículo esquerdo e a pressão intratorácica), sem que houvesse

interferência na pressão arterial sistêmica. Deste modo, foi comprovada a capacidade do CPAP de reproduzir os efeitos que já haviam sido

demonstrados através do uso de ventilação mecânica15. O conceito que associa o aumento da pressão intratorácica, causado pelo uso de CPAP, à elevação do debito cardíaco foi, desta maneira, confirmado em pacientes com insuficiência cardíaca e elevação da pressão de oclusão da artéria pulmonar (POAP). Quando aplicado nesta situação, foi observado que o uso de CPAP

de 5 a 10 cm H2O causou elevação do débito cardíaco proporcional ao nível de pressão oferecido12. Fortalecendo ainda mais esta idéia, há evidências que INTRODUÇÃO

6

o uso de CPAP de até 15 cm H2O é capaz de produzir melhora significativa do débito cardíaco em pacientes portadores de disfunção sistólica do ventrículo esquerdo e com edema agudo dos pulmões cardiogênico11.

Os efeitos hemodinâmicos do CPAP também foram estudados em

pacientes com insuficiência mitral secundária a dilatação anular por disfunção ventricular e portadores de apnéia do sono16. Os pacientes foram avaliados, através de ventriculografia radioisotópica e dosagem de peptídeo natriurético atrial, inicialmente e após 3 meses de uso de CPAP noturno. O uso de CPAP

acarretou em redução do volume regurgitante pela valva mitral, melhora da fração de ejeção do ventrículo esquerdo (FEVE) e queda do peptídeo natriurético atrial.

A resposta fisiológica do ventrículo esquerdo com disfunção sistólica, frente ao uso de ventilação com pressão positiva, é bastante distinta daquela apresentada pelo ventrículo direito. Este último, por diversos motivos, é extremamente sensível às alterações da pressão intratorácica. O retorno venoso ao coração ocorre de modo passivo e como resultado de um gradiente de pressão entre o sistema venoso e o átrio direito. Quando a pressão do átrio direito é de zero mm Hg, não há resistência ao influxo vindo do sistema venoso e seu enchimento é máximo. À medida que a pressão atrial direita se eleva, há queda do retorno venoso e da pré-carga do ventrículo direito.

Durante a ventilação espontânea a pressão atrial direita é mais baixa e, portanto, maior o enchimento do átrio direito. Por outro lado, o uso de ventilação com pressão positiva aumenta a pressão intratorácica, causando a INTRODUÇÃO

7

elevação da pressão atrial direita e a conseqüente redução na pré-carga do ventrículo direito.

O ventrículo direito também tem seu desempenho alterado pelos

procedimentos que interferem na resistência vascular pulmonar. A pós-carga do ventrículo direito é influenciada por uma variedade de processos intratorácicos. Um de seus moduladores é o volume pulmonar. Em baixos volumes pulmonares, o pulmão se torna atelectásico e a resistência pulmonar se eleva, em decorrência da vasoconstrição pulmonar hipóxica e da

tortuosidade do trajeto de vasos de médio a grande calibre. À medida que o volume pulmonar aumenta, os vasos se tornam mais lineares, elevando sua capacitância, e a hipóxia é resolvida, reduzindo a vasoconstrição. A associação destes dois efeitos implica numa situação de menor resistência vascular pulmonar. No entanto, quando o volume pulmonar é aumentado ainda mais, ocorre a hiperinsuflação pulmonar, capaz de comprimir

passivamente os vasos alveolares, aumentando a resistência vascular pulmonar 17. Este efeito é capaz de levar até à hipotensão arterial significativa e falência do ventrículo direito18. Portanto, a resistência vascular pulmonar está elevada quando o pulmão está atelectásico ou quando está

hiperdistendido. Deste modo, a ventilação com pressão positiva é capaz de reduzir a resistência vascular pulmonar, se promover a expansão de áreas de colapso e reduzir as áreas de vasoconstrição hipóxica, ou elevá-la, caso provoque apenas hiperinsuflação pulmonar. Há evidências que, em pacientes com disfunção do ventrículo direito e/ou hipertensão pulmonar, haja uma maior sensibilidade às alterações da resistência vascular pulmonar19. De fato, INTRODUÇÃO

8

para comprovar estes efeitos hemodinâmicos, Imai e colaboradores20

publicaram, em 1992, um estudo com pacientes anestesiados e submetidos à pressão positiva sustentada e constante. Evidenciaram que os pacientes que apresentavam reduzida fração de ejeção do ventrículo direito na condição basal, sofriam queda do volume sistólico, ao serem submetidos à ventilação mecânica com pressões de 10 a 20 cm H2O.

Por fim, um efeito relacionado ao uso de ventilação com pressão

positiva é capaz de associar a elevação do volume diastólico do ventrículo direito à redução do enchimento do ventrículo esquerdo. O mecanismo que justifica este fato baseia-se na presença de uma membrana que envolve todo o coração, o pericárdio, limitando seu volume como um todo. Na medida em que o volume do ventrículo direito aumenta (à custa da sobrecarga imposta pelo aumento da pressão intratorácica), ocorre o desvio do septo

interventricular em direção ao ventrículo esquerdo, limitando seu enchimento.

Este mecanismo é conhecido como dependência interventricular.

Classicamente, está relacionada ao aumento do volume ventricular direito e conseqüente redução da complacência ventricular esquerda, da pré-carga e do volume sistólico do ventrículo esquerdo.

1.2. Estenose Mitral

Em nosso meio, uma causa comum de congestão pulmonar ou

edema agudo dos pulmões é a estenose mitral. Trata-se de uma cardiopatia valvar crônica ainda muito freqüente e ligada à alta prevalência da febre INTRODUÇÃO

9

reumática, sua principal etiologia. Um estudo realizado, de 1999 a 2000, no Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, identificou a estenose mitral como a segunda etiologia valvar mais freqüente em pacientes com edema agudo dos pulmões com desconforto respiratório de grau acentuado21. Esta patologia se caracteriza pelo aumento do diferencial das pressões atrial e ventricular diastólica final. A área valvar mitral anatomicamente normal varia de 4,0 a 6,0

cm2. Um estreitamento até o valor de 2,5 cm2 tipicamente ocorre antes do surgimento dos sintomas. Com a redução da área valvar mitral, o fluxo de sangue do átrio esquerdo para o ventrículo esquerdo só é propelido através de um gradiente de pressão. Este gradiente diastólico de pressão é a expressão fundamental da estenose mitral e resulta na elevação da pressão no átrio esquerdo, a qual é transmitida retrogradamente à circulação pulmonar. A elevação da pressão e a distensão venosa pulmonar podem levar ao edema agudo dos pulmões, na medida em que esta pressão ultrapassa a pressão oncótica plasmática.

Uma área valvar mitral acima de 1,5 cm2, habitualmente, não está associada a sintomas em repouso. No entanto, situações que levem a um aumento do fluxo pela valva mitral e/ou redução do tempo de enchimento diastólico podem causar o aumento da pressão no átrio esquerdo e o desenvolvimento de sintomas. A partir de considerações hidráulicas, para qualquer tamanho de orifício valvar, o gradiente transvalvar mitral é função do quadrado do fluxo pela mitral e ainda depende do tempo de enchimento diastólico22. Deste modo, o surgimento de sintomas em pacientes com INTRODUÇÃO

10

estenose mitral de grau moderado é, usualmente, precipitado situações que cursam com aumento da freqüência cardíaca (FC) tal como o estresse emocional ou físico, infecção ou fibrilação atrial de rápida resposta ventricular23 .

À medida que a estenose aumenta, a limitação aos esforços se

intensifica. Além disso, o débito cardíaco torna-se abaixo do normal em repouso e ainda deixa de se elevar com o esforço23. O grau de acometimento da circulação pulmonar também é determinante na presença de sintomas nesses pacientes24;25. Pode ocorrer o surgimento de uma segunda obstrução ao fluxo, decorrente da elevação da resistência vascular pulmonar. Com isso, a redução do débito cardíaco e o aumento da resistência vascular pulmonar contribuem para a capacidade do paciente com estenose mitral acentuada de permanecer minimamente sintomático por um tempo prolongado26. Estas alterações hemodinâmicas são decorrentes de modificações estruturais e funcionais como o espessamento da membrana basal do alvéolo, aumento da drenagem linfática e adaptação de neurorreceptores.

A hipertensão pulmonar em pacientes com estenose mitral resulta de uma série de fatores. O primeiro é a transmissão passiva da elevação da pressão no átrio esquerdo. Em seguida, ocorre a hipertensão pulmonar reativa, causada pela constrição das arteríolas pulmonares, em decorrência, presumidamente, da elevação da pressão no átrio esquerdo ou em território venoso pulmonar. O terceiro fator está relacionado a alterações orgânicas INTRODUÇÃO

11

obliterantes no território vascular pulmonar, complicações tardias de estenose mitral crítica.

Em pacientes com estenose mitral leve a moderada sem incremento

da resistência vascular pulmonar, a pressão da artéria pulmonar pode ser normal ou discretamente aumentada em repouso, mas se eleva com o

esforço. No entanto, em pacientes com estenose mitral grave, nos quais a resistência vascular pulmonar costuma se encontrar significativamente aumentada, a pressão da artéria pulmonar está incrementada mesmo durante o repouso. A elevação desta pressão para valores de até 30 a 60 mm Hg, ocorrida de forma gradual, é tolerada pelo ventrículo direito. No entanto, alterações abruptas que causem um incremento ainda maior ao trabalho do ventrículo direito podem levar a uma grande impedância ao seu

esvaziamento. Deste modo, durante o esforço físico, pacientes com estenose mitral grave com hipertensão pulmonar acentuada, freqüentemente, não apresentam aumento da fração de ejeção e do débito cardíaco23.

1.3. Motivos para a realização deste trabalho

Em pacientes com edema agudo dos pulmões cardiogênico, o uso de

ventilação não invasiva tem se mostrado capaz de reduzir a mortalidade e a necessidade de intubação9. Para os pacientes com disfunção ventricular esquerda, existem mecanismos hemodinâmicos propostos que associam o uso de ventilação não invasiva ao aumento do débito cardíaco. Estes efeitos hemodinâmicos talvez colaborem para o sucesso dessa terapia nesses INTRODUÇÃO

12

pacientes. No entanto, esses estudos não distinguem os pacientes portadores de estenose mitral. Como visto, as condições hemodinâmicas dos pacientes com estenose mitral acentuada são bastante distintas daquelas apresentadas pelos pacientes com disfunção sistólica ventricular esquerda. Nesta valvopatia a disfunção sistólica está menos presente e a hipertensão arterial pulmonar é mais freqüente e pode acrescentar maior impacto ao desempenho do

ventrículo direito. Acredita-se, portanto, que o comportamento

hemodinâmico dos pacientes portadores de estenose mitral acentuada, submetidos a ventilação não invasiva, possa ser diferente daquele descrito para os pacientes com disfunção ventricular esquerda. Além disso, até onde extensa revisão bibliográfica permitiu, não foram encontrados trabalhos que houvessem explorado este tema. Embora o impacto do uso de CPAP em

pacientes com valvopatia mitral já tenha sido abordado previamente16, há diferenças muito significativas no perfil de pacientes, métodos e objetivos, em comparação ao presente estudo.

O presente estudo visa esclarecer o comportamento hemodinâmico de portadores de estenose mitral sintomática durante o uso de ventilação não invasiva.

2. OBJETIVOS

OBJETIVOS

14

1. Avaliar a resposta hemodinâmica dos pacientes portadores de estenose mitral sintomática durante o uso de CPAP.

2. Identificar as variáveis clínicas, ecodopplercardiográficas e hemodinâmicas que poderiam se correlacionar com a variação do volume sistólico frente ao uso de ventilação não invasiva (CPAP) em dois níveis de pressão, 7 cm H2O e 14 cm H2O.

3. MÉTODOS

MÉTODOS

16

3.1. Pacientes

De novembro de 2003 a maio de 2006, foram selecionados 40

pacientes portadores de estenose mitral reumática sintomática, com indicação de valvoplastia mitral por cateter-balão, no Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

Os pacientes foram selecionados conforme os critérios de inclusão e exclusão dentre aqueles que eram acompanhados ambulatorialmente pela Unidade de Cardiopatias Valvares do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

Foram utilizados os seguintes critérios para a inclusão no estudo:

• Classe funcional ≥ II de acordo com os critérios da New York Heart Association (NYHA)27;28.

• Escore ecocardiográfico com valor total abaixo de 9 e valor do escore subvalvar inferior a 2 pelos critérios de Wilkins26;29.

Idade acima de 18 anos.

Concordância em participar do estudo e assinar o termo de

consentimento livre esclarecido.

MÉTODOS

17

Os pacientes com as seguintes características foram excluídos do

estudo:

Portadores de outra valvopatia ou cardiopatia com indicação de

tratamento cirúrgico.

Portadores de disfunção sistólica ventricular esquerda associada

(FEVE abaixo de 50% ao ecodopplercardiograma pela técnica de

Teichholz30).

• Portadores de doença pulmonar obstrutiva crônica com

necessidade de uso de medicação específica e/ou história de

tosse com expectoração diária, por ao menos três meses

consecutivos, ou broncoespasmo nos últimos 12 meses.

• Presença, ao ecodopplercardiograma, de insuficiência mitral

moderada ou acentuada31;32 ou de insuficiência tricúspide

acentuada31.

• Presença, ao ecodopplercardiograma, de valvopatia aórtica

moderada ou importante31.

• Presença de trombo intracavitário definido pelo

ecodopplercardiograma.

• Pacientes

gestantes.

Todos os pacientes foram submetidos à avaliação clínica e

laboratorial. A avaliação clínica constou de anamnese e exame físico completos, com ênfase para a classe funcional de acordo com os critérios da NYHA27;28. A avaliação laboratorial foi realizada através de exames de rotina

MÉTODOS

18

(hemograma, coagulagrama, uréia, creatinina, sódio e potássio);

eletrocardiograma de 12 derivações, radiografia do tórax e

ecodopplercardiograma.

O tratamento medicamentoso seguiu as orientações do protocolo da

Unidade de Cardiopatias Valvares do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. A classe de medicação mais utilizada foi dos beta-bloqueadores, receitada para 85%

dos pacientes do estudo. Na seqüência, vieram os diuréticos tiazídicos, utilizados em 50% dos pacientes, diuréticos de alça em 27,5% dos pacientes e diuréticos poupadores de potássio em 12,5% dos pacientes. A digoxina foi utilizada em 10% dos pacientes e os bloqueadores de canais de cálcio em 7,5% dos pacientes do estudo. Cinco pacientes (12,5%) faziam uso de anticoagulante oral para profilaxia de evento tromboembólico.

Os pacientes foram orientados a manter as medicações de uso

habitual até a data da internação, exceto pelos anticoagulantes orais. Neste caso, foi orientada a suspensão do anticoagulante oral 5 dias antes da data da internação. Para a profilaxia de fenômenos tromboembólicos neste intervalo, foi orientado o uso de enoxaparina na dose de 1 mg/kg de peso por dose, em duas aplicações diárias, por via subcutânea, nos 3 dias que antecediam a internação. No dia da internação, foi coletado o tempo de protrombina e esperava-se uma relação internacional normalizada com razão inferior a 1,5 para realizar o procedimento.

MÉTODOS

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3.2. Períodos de avaliação

Os pacientes foram avaliados antes da realização da valvoplastia

por cateter-balão, no laboratório de hemodinâmica. Foram submetidos a medidas hemodinâmicas seqüenciais em 3 condições: em ventilação

espontânea em ar ambiente, com uso de CPAP de 7 cm H2O e com CPAP

de 14 cm H2O (condições basal, CPAP 7 e CPAP 14 respectivamente).

3.3. Técnica da realização das medidas hemodinâmicas e da

valvoplastia por cateter-balão

Os procedimentos foram realizados pelo mesmo cardiologista

intervencionista seguindo o protocolo do serviço de Hemodinâmica do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. As três medidas hemodinâmicas do estudo foram realizadas imediatamente antes da valvoplastia por cateter-balão. Os pacientes foram colocados em decúbito dorsal horizontal e receberam monitorização através de monitor cardíaco e oxímetro de pulso. A seguir, foi realizada a assepsia e colocação de campos cirúrgicos estéreis. Após anestesia local com Lidocaína (2%), a veia femoral direita foi puncionada, introduzido cateter de Swan-Ganz, através da técnica de Seldinger

modificada, para registro das pressões em câmaras direitas, artéria pulmonar e capilar pulmonar, e também para medida do débito cardíaco. A ponta distal do cateter de Swan-Ganz foi posicionada na artéria pulmonar, se necessário, com auxílio de radioscopia. Para a medida do débito cardíaco,

MÉTODOS

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foi utilizado o método de termodiluição com infusão de 10 ml de solução glicosada a 5% em temperatura ambiente e de modo assincrônico com a respiração. Foram realizadas três medidas de débito cardíaco em cada situação e calculada a média destes valores como o resultado final. No entanto, quando uma das medidas diferia em mais do que 10% da média, eram realizadas outras duas medidas de débito cardíaco e eram

desprezados o maior e o menor valor para o cálculo da média.

A seguir, após anestesia local com Lidocaína a 2%, foi introduzido pela artéria femoral esquerda o cateter de pigtail, através da técnica de Seldinger modificada. Este cateter foi utilizado para a realização das medidas de pressões no ventrículo esquerdo e aorta. Para a medida da pressão ventricular esquerda, o cateter de pigtail foi introduzido sob radioscopia até que se ultrapassasse a valva aórtica. Em casos de maior dificuldade técnica para locá-lo no ventrículo esquerdo, fazia-se uso de um fio-guia.

A primeira medida hemodinâmica foi adquirida na condição basal,

com o paciente respirando em ar ambiente e sem o auxílio de ventilação não invasiva. Inicialmente foram anotadas as curvas de pressão através do sistema de registro de curvas hemodinâmicas computadorizadas (modelo Q-cath, Quinton, Estados Unidos da América). Registravam-se as pressões no átrio direito, artéria pulmonar, POAP, aorta e ventrículo esquerdo. A seguir, foram realizadas as medidas do débito cardíaco por termodiluição. Por fim,

MÉTODOS

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foram adquiridas as amostras de gasometria arterial e venosa, coletadas, respectivamente, da aorta e da artéria pulmonar.

Na sequência, foram realizadas as medidas da segunda condição

estudada (condição CPAP 7). Os pacientes foram submetidos ao uso de CPAP (modelo Solo LX Deluxe, Respironics Inc, Pensilvânia, Estados Unidos da América) através de máscara oronasal (modelo ConfortfuII, Respironics Inc, Pensilvânia, Estados Unidos da América). Foi aplicada a pressão de 7 cm H2O e realizada nova medida hemodinâmica, iniciada após o uso da

ventilação não invasiva por 5 minutos. A realização das medidas

hemodinâmicas seguiu, exatamente, o mesmo padrão aplicado na condição basal. Primeiramente, foi feita a anotação das curvas de pressão através do sistema de registro de curvas hemodinâmicas computadorizadas (modelo Q-cath, Quinton, Estados Unidos da América). Foram registradas as pressões do átrio direito, artéria pulmonar, de oclusão de artéria pulmonar, aorta e ventrículo esquerdo. A seguir, realizaram-se as medidas do débito cardíaco por termodiluição. Por fim, foram adquiridas as segundas amostras de gasometria arterial e venosa, coletadas, respectivamente, da aorta e da artéria pulmonar.

Finalmente, foram realizadas as medidas da condição CPAP 14. Foi

mantido o uso de CPAP (modelo Solo LX Deluxe, Respironics Inc,

Pensilvânia, Estados Unidos da América) através de máscara oronasal (modelo ConfortfuII, Respironics Inc, Pensilvânia, Estados Unidos da América). Os pacientes foram submetidos à aplicação de CPAP 14 cm H2O.

MÉTODOS

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Após 5 minutos nesta situação, foram realizadas novas medidas

hemodinâmicas. Mais uma vez, a realização das medidas hemodinâmicas seguiu, exatamente, o mesmo padrão aplicado na condição basal.

Inicialmente, foi feita a anotação das curvas de pressão através do sistema de registro de curvas hemodinâmicas computadorizadas (modelo Q-cath,

Quinton, Estados Unidos da América). Foram registradas as pressões do átrio direito, artéria pulmonar, de oclusão de artéria pulmonar, aorta e ventrículo esquerdo. A seguir, foram realizadas as medidas do débito cardíaco por termodiluição. Por fim, foram adquiridas as terceiras amostras de gasometria arterial e venosa, coletadas, respectivamente, da aorta e da artéria pulmonar.

Os dados referentes às medidas de pressão (pressão de átrio

direito, artéria pulmonar, oclusão de artéria pulmonar, ventrículo esquerdo e aorta) foram gravados e impressos em papel milimetrado para posterior análise. Para todas medidas, o marco zero de pressão adotado foi a linha hemiclavicular. Foram considerados para o estudo os valores de pressão registrados ao fim da expiração. As pressões arteriais médias em território pulmonar e sistêmico, foram calculadas a partir da média da soma das pressões sistólicas com duas vezes as pressões diastólicas.

Após a realização das medidas hemodinâmicas nos três momentos,

a ventilação não invasiva foi suspensa e o cateter de Swan-Ganz retirado e mantido em local estéril. Através do introdutor locado na veia femural, foi passado o cateter para a realização da valvoplastia.

MÉTODOS

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A valvoplastia seguiu os padrões adotados pela instituição. Através da punção na veia femural direita foi passado introdutor de Mullins 8F (USCI, Billerica, MASS), posicionado em veia cava superior com ajuda de guia reto 0,032” ou 0,035”. Realizou-se, em seguida, a punção transeptal, utilizando-se agulha transeptal de Brockenbrough, segundo técnica previamente descrita33. Após acesso ao átrio esquerdo pelo introdutor de Mullins, realizou-se, simultaneamente, medida das pressões no átrio e ventrículo esquerdos, obtendo-se o gradiente com a utilização de sistema de registro de curvas hemodinâmicas computadorizadas (modelo Q-cath, Quinton,

Estados Unidos da América).

Em todos pacientes utilizou-se a técnica de Inoue e colaboradores34.

Foi passado guia curvo de 0,32” e, sobre este, introduzido dilatador venoso e do septo interatrial 14F. Após a dilatação do septo e apoiado nesse mesmo fio guia, foi passado o balão de Inoue, selecionado de acordo com a altura do paciente, segundo especificações de Lau e colaboradores35. Após o posicionamento do balão no átrio esquerdo, o guia curvo foi retirado e passado o estilete que permite conduzir o balão diretamente para a valva mitral. A extremidade distal do balão foi orientada em direção à ponta do ventrículo esquerdo. Inicialmente, procedeu-se à insuflação gradual do balão, com diâmetro de 4 mm inferior ao máximo recomendado para cada paciente. Após cada insuflação, o paciente era reavaliado através de medidas de pressão do átrio e ventrículo esquerdo, simultaneamente, e da ausculta cardíaca para avaliar a presença de insuficiência mitral, que sinalizaria a interrupção do procedimento. As insuflações foram aumentadas

MÉTODOS

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de milímetro em milímetro, não ultrapassando o máximo recomendado para cada paciente, até que houvesse o resultado satisfatório. A queda

significativa do gradiente ou melhora da ausculta cardíaca, aparecimento de insuficiência mitral ou complicações foram indicativos de interrupção do procedimento. Concluída a valvoplastia e retirado o balão, foram realizadas novas medidas de pressões, do débito cardíaco e ventriculografia esquerda.

Após o fim do procedimento, realizou-se curativo compressivo nos

locais de punção.

3.4. Características clínicas e laboratoriais antes do procedimento As características clínicas e laboratoriais individuais, adquiridas na condição basal, estão expostas na Tabela 1. A análise descritiva destas variáveis está exposta na tabela 2.

Trinta e três (82,5%) pacientes eram do sexo feminino. A média de

idade foi de 40 ± 12 anos.

3.4.1. Classe funcional

No pré-procedimento, 26 (65,0%) pacientes estavam em classe

funcional II, 12 (30%) em classe funcional III e dois (5%) em classe funcional IV.

MÉTODOS

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3.4.2. Ritmo cardíaco

Seis (15,0%) pacientes eram portadores de fibrilação atrial

permanente. Outros dois pacientes já haviam apresentado um episódio pregresso de fibrilação atrial aguda e se encontravam em ritmo sinusal no período de avaliação do estudo e durante o procedimento. Todos os demais pacientes se encontravam em ritmo sinusal.

3.4.3. Ecodopplercardiograma

O ecodopplercardiograma foi realizado em todos pacientes no prazo

de até 6 meses antes da realização do protocolo.

Em 6 pacientes, não foi possível estimar a pressão sistólica do

ventrículo direito devido à inexistência de refluxo tricúspide.

A presença de insuficiência mitral discreta foi detectada em 12

pacientes (30%).

Em 5 pacientes (12,5%) o ecodopplercardiograma evidenciou a

presença de dilatação ventricular direita.

MÉTODOS

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3.5. Análise Estatística

Todos dados clínicos, ecodopplercardiográficos e das medidas

hemodinâmicas foram armazenados em banco de dados criado no programa Excel do Windows.

Inicialmente, todas as variáveis quantitativas foram analisadas

descritivamente (tabela 2). Tal análise foi realizada através da observação dos valores mínimos e máximos, além do cálculo de médias e desvios-padrão e percentis (25%, 50% e 75%). Estas variáveis tiveram sua