Ele por H.P. Lovecraft - Versão HTML

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“Ele” – H.P. Lovecraft

Tradução: José Manuel Lopes

Fonte: Os Melhores Contos de HP Lovecraft Vol. 3 Ed. Saida de Emergencia

Adquira o livro completo em http://www.saidadeemergencia.com

*Não consta nesta transcrição as notas do tradutor.

Quem é José Manuel Lopes?

José Manuel Lopes nasceu em Lisboa. Viveu vários em anos em Toronto, no Canadá, onde trabalhou em áreas

relacionadas com a pesquisa em Linguística aplicada ao campo da Educação. Foi aí que completou o seu Doutoramento

em Literatura Comparada em 1993. Atualmente é Professor Associado na Universidade Lusófona de Humanidades e

Tecnologias, onde lecciona cadeiras relacionadas com a Semiótica e com a Tradução Inglesa. Para além do romance

“Fragmentos de uma Conspiração” (2005), é autor de um livro de Crítica Literária, “Foregrounded Description in Prose

Fiction: Five Cross-Literary Studies” (1995) e de uma série de publicações acadêmicas sobre Literatura Comparada e

Tradução. É o responsável pelas traduções e organização da série de livros “Os Melhores Contos de Howard Phillips

Lovecraft” da editora portuguesa “Saída de Emergencia”.

ELE

Vi-o numa noite de insónias, quando caminhava desesperadamente, para salvar a minha alma

e o meu modo de ver. A minha vinda para Nova Iorque fora um erro. Pois, ao procurar fascinantes

maravilhas e inspiração, nas labirínticas e antigas ruelas que serpenteiam sem fim, a partir de pátios

esquecidos e zonas marítimas igualmente esquecidas — e em ciclópicos arranha-ceus modernos e

em pináculos que se erguem escuros e babilônicos sob uma lua exangue —, encontrara apenas um

sentido de repulsa e opressão que me ameaçavam dominar, paralisar e destruir.

A desilusão fora gradual. Ao chegar a essa cidade pela primeira vez, vira-a ao por-do-sol,

desde o cimo de uma ponte majestosa sobre as águas, sobre as incríveis e delicadas arestas e

pirâmides que se erguiam, semelhantes a flores de charcos de névoa roxa, para brincarem com as

acesas nuvens douradas e com as primeiras estrelas do entardecer. Em seguida, vira-a acender-se,

janela após janela, sobre as marés cintilantes onde os candeeiros cabeceavam e deslizavam, e

buzinas roucas rasgavam estranhas harmonias, para se transformarem num firmamento onírico e

estrelado, com um perfume de música feérica, e uno com os encantos de Carcassonne, Samarcanda

e o El Dorado, e com todas essas cidades quase fabulosas. Não muito tempo depois, fui seduzido

por essas ruas antigas, tão gratas à minha imaginação — por sinuosas e estreitas ruelas e travessas,

onde filas de casas georgianas de adobe vermelho me piscavam o olho das suas lucernas, por cima

de portas rodeadas de colunas, que em tempos tinham observado liteiras de talha dourada e

carruagens apaineladas — e, ao dar-me conta dessas coisas há muito desejadas, pensei ter adquirido

os tesouros que, com o passar do tempo, iriam fazer de mim um poeta.

Porém, nunca iria conhecer a felicidade nem o sucesso. A luz garrida do dia mostrou-me

apenas sordidez e alheamento, e a intoxicante elefantíase de pedras que trepavam e se espalhavam

onde a lua me sugerira beleza e antigas magias. A multidão que fervilhava através dessas ruas,

semelhante a rios torrenciais, era constituída por estrangeiros atarracados, de pele escura, de rostos

rudes e de olhos em bico, pessoas de outras paragens, sagazes e sem sonhos, sem qualquer relação

com as coisas que as rodeavam, e que nada poderiam dizer a um homem de olhos azuis da antiga

população, que no seu peito albergasse ainda a nostalgia das áleas verdes e dos campanários

brancos de Nova Inglaterra.

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Assim, em vez dos poemas a que esperava dar vida, deparei-me tao-so com uma agitada

ausência de ideias e com uma solidão inefável, vendo por fim uma horrível verdade que ninguém

antes se atrevera a murmurar — o impronunciável segredo de todos os segredos — o facto de essa

estrídula cidade de pedra não ser uma continuação viva da velha Nova Iorque, tal como Londres o

era da velha Londres e Paris da antiga Paris, mas de estar de facto morta, com o seu corpo estendido

e embalsamado sem perfeição, infestado de inusitados elementos animados que nada teriam que ver

com a sua vida anterior. Após ter feito essa descoberta, já não conseguia dormir sossegadamente,

embora algo comparável a uma calma resignada me tivesse dominado, à medida que ia ganhando o

hábito de me manter fora das ruas durante o dia, até só me atrever a sair à noite, quando a escuridão

conjurava o que ainda pudesse existir do passado que ainda aí pairava semelhante a um fantasma, e

os antigos portais brancos me invocassem as robustas formas físicas, que em tempos os tinham

franqueado. Baseado nesse consolo, consegui mesmo escrever alguns poemas, e já não pensava

regressar ao lar da minha distante família, com medo que esta pudesse julgar que um ser ignóbil e

derrotado tivesse vindo a rastejar até ela.

Foi então que, numa dessas itinerantes noites de insónia, eu acabei por conhecer o homem.

Foi num pátio escondido e grotesco do bairro de Greenwich, pois fora aí que, na minha ignorância,

eu me alojara, tendo ouvido que se tratava de um lugar habitado por poetas e artistas. As travessas

arcaicas e as casas, assim como as surpreendentes praças e pátios, tinham-me deliciado

verdadeiramente. Todavia, ao reparar que os poetas e os artistas não passavam de pretensiosos

faladores, cujo requinte era a falsidade e cujas vidas eram a própria negação de toda a beleza da

poesia e da arte, fiquei aí apenas pelo amor a essas características veneráveis. Imaginava-as tal

como elas teriam sido no princípio, quando Greenwich era uma aldeia plácida ainda não de todo

devorada pela cidade; e, nas horas que precediam o nascer do sol, quando todos os amantes da noite

já se tinham recolhido, costumava vaguear sozinho por entre a suas ruelas misteriosas, reflectindo

sobre os curiosos mistérios que as sucessivas gerações aí tivessem depositado. Fora isso que me

mantivera a alma viva e me trouxera alguns desses sonhos e visões que o poeta bem dentro de mim

tanto desejava.

O homem cruzara-se comigo por volta das duas horas de uma enevoada madrugada de

Agosto, enquanto eu percorria uma série de pátios distintos, apenas acessíveis através de escuras

passagens entre prédios que, no passado, teriam formado uma rede contínua de ruelas. Ouvira falar

das mesmas, através de alusões indirectas, e dera-me conta de que não poderiam fazer parte de

nenhuma planta recente da cidade. Contudo, o facto de terem sido esquecidas, só mas tornou mais

apetecíveis, de modo que as procurara com uma dupla ânsia. Agora, que as encontrava, o meu

interesse redobrara uma vez mais, pois algo no modo como se encontravam dispostas parecia aludir

vagamente ao facto de que só restassem apenas algumas, escuramente estranguladas entre paredes

altas e vazias e traseiras de casas desabitadas, ou espreitando, sem qualquer luz de candeeiros, por

detrás de arcos, ainda não traídas por hordas de pessoas que falavam uma língua estrangeira, nem

vigiadas por furtivos e sorumbáticos artistas cujas práticas não fossem apropriadas para serem

referidas em plena luz do dia.

Ele falou comigo sem que eu o tivesse encorajado, ao notar a minha disposição e o modo

como eu ia estudando certas portas envelhecidas, no topo de degraus debruados por gradeamentos,

ante o pálido brilho das rendilhadas bandeiras exteriores que as encimavam. O seu rosto estava na

sombra e ele usava um chapéu de abas largas que, até certo ponto, parecia condizer com a capa

antiquada que envergava. Mas eu fiquei um pouco inquieto, antes mesmo de ele me ter dirigido a

palavra. Tinha um corpo esguio de uma magreza quase cadavérica, e a sua voz parecia

estranhamente cava e suave, embora não particularmente profunda. Ele, segundo me informou, já

tinha reparado em mim durante os meus passeios, e concluído que eu me parecia com ele, devido ao

meu interesse pelos vestígios de antanho. Será que eu não iria gostar de uma visita guiada por

alguém que já tinha uma grande prática nessas explorações e que possuía todo um espólio de

informação local, muito mais especializado do que aquela a que qualquer forasteiro pudesse ter

acesso?

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Enquanto falava, pude ver o seu rosto, por breves instantes, à luz de uma solitária janela de

mansarda. Esse indivíduo, idoso mas bem-parecido, tinha um aspecto nobre, e ainda mantinha os

traços de uma linhagem refinada, que não seria de esperar nesse local nem na época presente.

Contudo, algo nele me perturbou, quase tanto quanto o seu aspecto me agradara. Talvez o seu rosto

fosse demasiado pálido e sem expressão, ou por demais deslocado desse lugar, para que eu pudesse

confiar nele e sentir-me à vontade. No entanto, apressei-me a segui-lo, pois nesses dias

deprimentes, a minha busca por uma beleza há muito extinta e pelo mistério era tudo o que tinha,

para manter viva a minha alma, e achava também que fora uma rara oportunidade do destino ter-me

encontrado com uma pessoa cuja procura, semelhante à minha, parecia ser bem mais refinada.

Qualquer coisa na noite obrigava esse homem embuçado a calar-se e, durante o que me

pareceu estender-se durante uma longa hora, ele convidou-me a avançar, sem nunca recorrer a

palavras desnecessárias, fazendo apenas breves comentários acerca de nomes antigos, de datas, de

mudanças, e guiando-me sobretudo por gestos. À medida que me ia intrometendo por esses

interstícios, ele percorria uma passagem em bicos de pés, escalava muros de tijolo, e até andava de

gatas por um baixo túnel de pedra, cujo inacreditável comprimento sinuoso acabou por finalmente

apagar todo o sentido de orientação geográfica que ainda me restava. As coisas que víamos eram

muito antigas e maravilhosas, ou assim me pareciam à luz débil dos raios de luz em que as

observava, e nunca me hei-de esquecer das derruídas colunas jónicas, das pilastras esguias, nem

dos postes de gradeamentos encimados por jarrões de ferro, ou de flamejantes janelas com lintéis,

ou de decorativos postigos em forma de leque, que pareciam cada vez mais estranhos e bizarros,

enquanto íamos avançando por esse infinito labirinto de uma idade desconhecida.

Não encontrámos ninguém e, quanto mais avançávamos, mais as janelas iluminadas se

tornavam cada vez mais raras. Os primeiros candeeiros de rua com que nos deparáramos, eram

ainda a petróleo, com losangos de vidro montados em chumbo. Mais tarde, vi alguns com velas e,

por fim, após termos atravessado um horrível pátio sem luz, onde ele me teve que guiar com a sua

mão enluvada, através de uma escuridão total, até a um muro muito alto, com um portão estreito de

ferro, chegámos ao troço de uma ruela apenas iluminada por lanternas em frente de cada sete casas

— inacreditáveis lanternas coloniais feitas de folha-de-flandres, com topos cónicos e furos nos

lados. Essa ruela, subia por uma colina — mais inclinada do que eu julgaria ser possível em

qualquer parte de Nova Iorque — e, ao cimo, encontrava-se claramente bloqueada por um muro de

quinta, coberto de hera, para lá do qual eu podia vislumbrar uma pálida cúpula e algumas copas de

árvores, ondulando contra uma vaga linha junto ao céu. Nesse muro havia um portão de topo

arredondado — feito de tábuas de carvalho escuro, com grandes cravos de ferro —, que esse

homem começou a abrir com uma pesada chave. Convidando-me a entrar, conduziu-me, através da

mais cerrada escuridão, até ao que me pareceu ser um caminho de gravilha e, finalmente, por um

lanço de escadas em pedra até à porta dessa residência, que ele também me abriu.

Entrámos, e eu fui logo dominado por um forte odor a mofo e a humidade que parecia ter-se

precipitado ao nosso encontro, e que deveria ser o resultado de vários séculos de abandono. O meu

anfitrião parecia não o ter notado e, por delicadeza, eu não fiz comentários, enquanto ele me guiava

por uma escada circular, ao fundo do vestíbulo, para uma sala cuja porta eu o ouvi fechar à chave,

logo que entrámos. Depois vi-o abrir a cortina de uma janela com três caixilhos, que mal se

desenhavam contra os clarões do céu. Mais tarde, ele foi até à prateleira da lareira onde, riscando

pedreneira contra aço, acabou por acender duas velas de um candelabro para doze. Foi então que,

acenando-me, ele começou calmamente a falar comigo.

Sob essa luz fraca, verifiquei que estávamos numa biblioteca apainelada, espaçosa e com

boas mobílias, que dataria do primeiro quartel do século XVIII, com esplêndidos frontões

triangulares e uma bela cornija dórica. Acima da lareira, um painel de madeira fora impecavelmente

esculpido e, no seu topo, havia entalhadas curvas e jarrões esculpidos. Por cima das estantes cheias

de livros, em intervalos ao longo das paredes, viam-se retratos de família, pintados a óleo e já

vagamente apagados, cujos rostos revelavam indubitáveis parecenças com o desse homem que,

nesse momento, me convidava a sentar numa cadeira, junto a uma mesa Chipendale. Antes de se ter

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sentado do outro lado da mesma, o meu anfitrião hesitou, como se não se sentisse muito à vontade.

Então, depois de ter finalmente tirado as luvas, o seu chapéu de abas largas e a capa, ficou diante de

mim como uma figura de teatro, vestido à maneira georgiana, desde o cabelo apanhado atrás, com

um laço, aos folhos no pescoço, aos calções até ao joelho, às meias de seda e a uns sapatos com

fivelas, em que eu não reparara antes. Só depois sentando-se numa cadeira, com um espaldar em

forma de lira, é que ele me começou a observar com um certo interesse.

Sem o chapéu, tinha um aspecto extremamente idoso de que eu ainda não me dera conta, e

pensei, se essa até então oculta marca de longevidade não estaria na origem da minha inicial

impressão desagradável. Depois de falar com ele durante algum tempo, reparei que a sua voz macia,

cava e cuidadosamente abafada, tremia por vezes, e, em algumas ocasiões, tive uma grande

dificuldade em segui-lo, à medida que o ouvia com espanto e entusiasmo, e com uma certa

preocupação que me parecia dominar a cada momento.

«Tereis diante de vós, meu caro senhor» começou ele a dizer-me, «um homem de hábitos

excêntricos, a quem não preciso de pedir desculpa pelo meu trajo, dado que também tendes a

mesma fina sabedoria e as mesmas inclinações. Reflectindo acerca de tempos melhores, não tenho

quaisquer escrúpulos em me entregar aos costumes que partilho convosco, nem em adoptar esta

maneira no meu modo de vestir. Trata-se de um capricho que não poderá ofender ninguém se

praticado sem grandes ostentações. Para minha grande felicidade, tive a sorte de poder manter a

propriedade rural dos meus antepassados, embora esta tenha sido devorada por duas cidades:

Greenwich, que começou a invadir esta zona, por volta de 1800; e mais tarde Nova Iorque,

sobretudo por volta de 1830. Havia muitas razões para que mantivesse e cuidasse desta herança que

a minha família me legara, e nunca falhei com as minhas obrigações. O morgado que tomou posse

dela, em 1768, estudou certas artes e fez algumas descobertas, todas elas relacionadas com certos

poderes que se julgavam residir nesta específica propriedade, que, por isso mesmo, mereceriam uma

atenção ainda mais aturada. Ora, é alguns dos curiosos efeitos de tais artes e descobertas que me

proponho mostrar-vos, sob o mais profundo segredo, acreditando que me poderei ater ao modo

como avalio as pessoas, não duvidando assim nem da vossa lealdade nem do vosso interesse.»

Interrompeu então o seu discurso, mas eu podia apenas inclinar a cabeça em jeito de

concordância. Já mencionei que estava preocupado. No entanto, para mim, nada era tão terrível

como o mundo material de Nova Iorque, durante o dia. Ainda que esse homem fosse apenas

excêntrico ou dominasse artes perigosas, julguei não ter outro remédio senão seguir o que me dizia,

e controlar a minha surpresa em relação a tudo o que ainda me pudesse revelar. De modo que o

escutei.

«Para… o meu antepassado…» continuou ele, em voz baixa, «a humanidade possuía

estranhas qualidades, no que se prendia à sua força de vontade, qualidades essas que exerciam um

poder insuspeito não apenas no que se relacionava com os nossos actos e com os de outras pessoas,

mas também com a força ou substância da Natureza. Já para não falar de elementos e dimensões

que se pensavam ser mais universais do que os da própria Natureza… Será que vos poderei dizer

que ele zombava da santidade de coisas tão importantes como o tempo e o espaço, e que recorreu

mesmo aos rituais de certos peles-vermelhas mestiçados, que em tempos teriam acampado sobre

esta colina? Esses índios tinham ficado muito revoltados, quando este lugar foi construído, e nunca

pararam de insistir, com toda a pestilência dos seus modos, em visitar a propriedade em noites de

lua cheia. Durante anos, saltavam o muro sempre que podiam e, pela calada da noite, executavam

certas acções. Então, em 1768, o novo proprietário apanhou-os nos seus rituais e ficou maravilhado

com o que viu. A partir de então, tentou negociar com eles, e trocar o livre acesso a estes domínios

pela profundidade exacta das coisas que praticavam. Veio assim a saber que os avós desses índios

tinham herdado parte desse costume dos seus antepassados peles-vermelhas; a outra de um velho

holandês, ainda no tempo dos Estados Gerais. E, por mais que isso lhe possa pesar na alma, creio

que esse proprietário lhes serviu um péssimo rum — não sei se por acaso se propositadamente —

pois, uma semana após ter conhecido o segredo, tornou-se o único homem vivo na sua posse. Vós,

caro senhor, sois o primeiro forasteiro a quem foi revelada a existência de um segredo, e crede que

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nunca me teria atrevido a tanto… no que respeita a esse poder… se não soubesse que reveláveis um

igual interesse por coisas do passado.»

Tremi, à medida que esse homem se tornava mais comunicativo, através desse discurso um

pouco arcaico, com que continuou:

«Mas devereis saber, caro senhor, que o que esse proprietário conseguiu obter desses

selvagens mestiçados, não passava afinal de uma pequena parte do conhecimento que ele veio a

alcançar. Ele não perdera o seu tempo em Oxford, nem falara apenas de um modo superficial com

um velho alquimista e astrólogo de Paris. Assim, veio a dar-se finalmente conta de que o mundo

todo não era mais do que o fumo dos nossos intelectos, não ao alcance das mentes vulgares, mas

algo que poderia ser fumado pelos sábios, inalado como qualquer nuvem do melhor tabaco da

Virgínia. Poderemos produzir em torno de nós tudo o que queremos; e o que não pretendemos

poder-se-a de igual modo expulsar. Não vos diria que tudo isto seja materialmente verdadeiro, mas

e-o suficientemente para nos poder proporcionar um excelente espectáculo, uma vez por outra. Vós,

segundo poderei conceber, ficaríeis muito agradado com uma visão de alguns anos melhores do que

aqueles a que a vossa fantasia se poderá entregar. De modo que vos peço que domineis qualquer

medo acerca do que vos entendo mostrar. Vinde até à janela e mantende-vos em silêncio.»

O meu hóspede pegou-me então na mão para me conduzir até uma das duas janelas na parte

mais longa dessa sala cheia de mofo e, assim que senti os seus dedos, foi como se o sangue me

gelasse no corpo. Essa sua mão, embora seca e firme, tinha a qualidade do gelo, e eu quase recolhi

instintivamente a minha. Porém, mais uma vez, bastou-mepensar na vacuidade e no horror da

realidade, para me deixar conduzir para onde ele apetecesse levar-me. Uma vez junto a essa janela,

o homem abriu as cortinas de seda amarela e fez com que o meu olhar perscrutasse a escuridão

exterior. Por momentos não vi nada senão miríades de pequeníssimas luzes a dançar diante de mim.

Em seguida, como se respondendo a um gesto insidioso, esboçado pela mão do meu hóspede, um

clarão de luz quente surgiu nesse cenário, e eu pude ver um mar de folhagem luxuriante não

poluída, e não o mar de telhados de que qualquer mente normal estaria à espera. À minha direita, o

Rio Hudson tinha um brilho quase malicioso e, na distância, podia ver o doentio fervilhar de um

pântano salgado, constelado de pirilampos nervosos. Esse clarão esvaneceu-se, e um sorriso

diabólico iluminou o rosto de cera desse idoso necromante.

«Isto foi bem antes do meu tempo, antes do tempo do novo morgado… Se não vos

importais, talvez possamos tentar novamente.»

«Óptimo! Óptimo!» disse-lhe eu, entre dentes. «Poderá fazer isso para qualquer época?» e

quando ele acenou afirmativamente, mostrando pedaços negros de dentes gastos que em tempos

teriam sido amarelados, eu agarrei-me às cortinas, com medo de cair. Mas ele segurou-me, com

essa tremenda garra fria como o gelo e, uma vez mais, esboçou esse gesto insidioso.

De novo vi um clarão, mas dessa vez sobre um cenário que não me era de todo estranho. Era

Greenwich, a vila de antanho, com um telhado aqui e ali. ou filas de casas tal como as vemos hoje,

contudo, com belos jardins e campos verdes e baldios cheios de vegetação. O pântano ainda se via

ao longe, mas, mais distante ainda, surgiam os campanários do que era nesse tempo a totalidade de

Nova Iorque. Tratava-se de Trinity, de St. Paul, e da Igreja de Adobe que parecia dominar as suas

irmãs , com um vago rasto de fumo de chaminés caseiras pairando por cima de tudo.

«E será que pode… que se atreveria… a ir ainda mais longe?» Perguntei-lhe com uma

absoluta fascinação, acreditando que ele teria compartilhado da mesma por momentos. Contudo, o

seu sorriso malévolo dominou-o uma vez mais.

« Mais longe? O que vi tornar-vos-ia numa louca estátua de sal! Para trás, para frente, para

a frente, vede, ainda ficais desmiolado…»

E ao dizer-me essa última frase, quase como um aparte, voltou a gesticular, trazendo ao céu

um clarão ainda mais intenso do que os anteriores. Por cerca de três segundos pude contemplar o

pandemônio dessa visão e, nesse breve instante, vi um cenário que irá para sempre atormentar os

meus sonhos. Vi um céu eivado de estranhos objectos voadores e, por debaixo destes, uma infernal

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cidade negra com gigantescos terraços de pedra e com ímpias pirâmides apontadas para a lua, tal

como as luzes diabólicas, vindas de inumeráveis janelas. E como revoltantes enxames, em galerias

aéreas, pude aperceber-me dos olhos amarelos e semicerrados do povo dessa cidade, horrivelmente

vestido de laranja e vermelho, e dançando loucamente, ao som de febris tímbales e de crótalos

obscenos, se bem como o lamento maníaco de trombetas abafadas, cujas melodias fúnebres se

erguiam como ondas de um oceano de betume amaldiçoado .

Vi essa paisagem, afirmo, e ouvi, como se por dentro da minha mente, a blasfema confusão

e a cacofonia que a acompanhava. Era esse o chiado contentamento de todos os horrores que essa

cidade-cadaver jamais infundira na minha alma e, esquecendo-me de qualquer preocupação para

me manter silencioso, comecei a gritar desalmadamente, à medida que perdia o controlo dos meus

nervos e as paredes pareciam tremer à minha volta.

Depois, enquanto esse clarão ia esmorecen do, reparei que o meu anfitrião também estava a

tremer. Um olhar de medo e de choque quase lhe fazia saltar do rosto a distorcida serpente de raiva

que os meus gritos tinham despertado. Ele vacilou e agarrou-se às cortinas, tal como eu tinha feito

antes, contorcendo a cabeça, como um animal capturado. Mas só Deus sabe como teria razão, pois,

ao acalmarem-se os ecos dos meus gritos, veio até nós um outro som, tão diabólico e sugestivo que

apenas uma emoção adormecida me manteve ainda consciente e são de espírito. Tratava-se do som

continuado e furtivo de degraus a partirem-se, para lá da porta fechada dessa sala, como se devido

ao tropel de uma horda descalça e vestida de peles, e, por fim, o fecho de latão, que estava a ser

abanado violentamente, brilhou à luz fraca das velas. O idoso tentava agarrar-me, cuspindo, através

desse ar pesado, vociferando coisas incompreensíveis, à medida que oscilava, agarrado à cortina

amarela.

«A lua cheia… maldito… maldito seja esse cão… ele chamou-os e agora eles vêm

buscar-me!... Homens de mocassins, homens mortos… Que Deus vos fulmine… diabos

vermelhos… Mas vejam que não fui eu quem vos envenenou o rum… Será que

não consegui manter a salvo a vossa pestilenta magia?... Vocês é que se deixaram adoecer e não

deveriam acusar o morgado por causa disso… Vão… vao-se embora! Tirem as mãos desse fecho…

Não tenho aqui nada para vos dar…»

Nesse momento, três batimentos lentos, mas bem deliberados, abanaram os painéis da porta,

e o exaltado mágico começou a espumar pela boca. Os seus receios, transformados num férreo

desespero, deram lugar a um reaparecimento da sua raiva contra mim, e vi-o cambalear até à mesa

contra a qual eu me tentava amparar. As cortinas ainda presas na sua mão direita, à medida que a

esquerda me tentava alcançar, acabaram por ser arrancadas de um alto varão, fazendo assim com

que a sala ficasse inundada por um pleno luar, que a claridade do céu já tinha pressagiado. Em

presença desses raios de uma tonalidade verde, a luz das velas tornou-se irrelevante, e um novo

aspecto de decadência surgiu nessa sala infestada pelo mofo, com as suas paredes apaineladas

roídas pelo caruncho, com o soalho torto e inchado de humidade, a prateleira da lareira lascada, as

mobílias desengonçadas e as cortinas em farrapos. Essa decadência também parecia apoderar-se

desse idoso, proveniente dessa mesma atmosfera, ou dado o persistente medo que ele sentia. E vi-o

ficar mais mirrado e mais escuro, quando se aproximou de mim e me tentou ferir com as suas garras

de abutre. Apenas esses seus olhos permaneciam iguais e brilhavam dilatados, com uma

intensidade, que não parou de aumentar até que o rosto, em torno dos mesmos, tivesse ficado

carbonizado e quase desaparecesse.

Os batimentos na porta repetiam-se agora mais e mais insistentes, revelando dessa vez,

objectos metálicos. Aquela coisa negra, diante de mim, era tao-somente uma cabeça com olhos, que

em vão se debatia pelo soalho que se ia afundando, na minha direcção, emitindo os torpes insultos

de uma malícia imoral. Então, golpes mais bem dirigidos começaram a estilhaçar esses painéis

apodrecidos, e eu vi o brilho de um machado de guerra, irrompendo entre estilhas de madeira. Não

me mexi, pois não o conseguia fazer. Fiquei aí especado, enquanto a porta se desfazia em

estilhaços, deixando assim entrar um colossal influxo sem forma, de uma substância gelatinosa

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cor-de-tinta, incrustada de olhos acesos e malévolos. Penetrou aí espessamente, como uma torrente

de petróleo em bruto que tivesse rebentado com a antepara apodrecida de um navio, atirou com uma

cadeira ao chão, para por fim se espalhar por debaixo da mesa até ao outro lado da sala, onde essa

cabeça carbonizada com olhos, ainda me olhava fixamente. Envolveu então essa cabeça,

devorando-a de imediato e, logo a seguir, começou a recuar, com esse incrível troféu, mas sem se

importar comigo. Escapuliu-se pelo buraco negro da porta e pelos degraus invisíveis, que estalaram

como antes, se bem que de forma inversa.

Finalmente, o soalho cedeu, e eu escorreguei, tentando em vão recuperar o fôlego, para uma

câmara escura no andar de baixo, afogado em teias de aranha e quase desmaiando de terror. A lua

verde, que brilhava através de vidraças partidas, mostrou-me a entreaberta porta do vestíbulo e,

quando me levantei desse chão, cheio de pedaços de estuque, e me consegui desenvencilhar das

partes do tecto que tinham desabado sobre mim, vi passar diante de mim, uma horrenda torrente

negra, com a quantidade de olhos atormentados que nela brilhavam. Essa massa informe estava à

procura da porta da cave e, quando a encontrou, em breve desapareceu por ela. Senti então o soalho

dessa divisão inferior a dar de si, tal como antes tinha acontecido. Um grande estrondo lá em cima,

seguido de uma queda de destroços junto à janela a oeste, indicavam algo que deveria ter sido a

cúpula. Então, liberto por instantes de todos esses fragmentos de construção, corri pelo vestíbulo em

direcção à porta e, como não a conseguisse abrir, peguei numa cadeira e parti uma janela, saindo

nervosamente para esse relvado deixado ao abandono, onde o luar dançava entre ervas daninhas

com um metro de altura. O muro era alto e todos os portões de acesso tinham sido fechados, mas ao

empilhar umas quantas caixas, que descobri a um canto, consegui chegar ao topo e agarrar-me a um

grande jarrão de pedra que aí estava.

À minha volta, exausto como estava, só conseguia ver estranhos muros, janelas e velhos

telhados amansardados. Não consegui descobrir a calçada íngreme por onde subira, e o pouco que

pude vislumbrar em breve se apagou sob uma névoa que subia do rio, apesar do resplendor desse

luar. De súbito, esse jarrão de pedra ao qual me tinha agarrado começou a dar si, como se atacado

pela mesma vertigem letal que eu sentia. No instante seguinte, senti o meu corpo a mergulhar para

não concebia sequer que possível destino.

O homem que me encontrou disse-me que eu deveria ter rastejado durante muito tempo,

apesar dos meus ossos partidos, pois podia ver um rasto de sangue, tanto quanto a sua vista se

atrevera a alcançar. Uma chuva copiosa de pronto apagou esse elo de ligação com o local dessa

minha conturbada história. Os relatórios não mais poderiam afirmar senão o facto de me terem

descoberto, vindo de um lugar desconhecido, na entrada de um pátio escuro que dava para a Perry

Street.

Nunca mais tentei regressar a esses tenebrosos labirintos, nem me atreveria a sugerir, mesmo

que o tentasse, que um homem no seu juízo perfeito aí pudesse voltar. Quem ou que era essa

criatura não faço a mínima ideia, contudo repito que essa cidade está morta e cheia de terrores

insuspeitos. Também não sei se ele desapareceu para sempre. Mas já voltei às puras veredas de

Nova Inglaterra, onde uma brisa marinha corre ao fim da tarde.

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